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"Eu sou maranhense mesmo, não sou descendente de nada, não"

História de: José Ribamar Fernandes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Maranhense, José Ribamar Fernandes nasceu em 20 de dezembro de 1956. Com uma infância curta e vida simples, José começou a trabalhar aos 12 anos de idade carregando água em baldes na cabeça para famílias, e através de um tio logo se aproximou da área elétrica, na qual fez carreira de anos na Vale.

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História completa

P/1 - Seu José, vou pedir para você falar o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é José Ribamar Fernandes Barbosa, 20/12/1956.

 

P/1 - Você nasceu aonde, Zé?

 

R - São Luís do Maranhão.

 

P/1 - São Luís, mesmo? E os seus pais nasceram aonde?

 

R - Meu pai nasceu em São Luís e minha mãe nasceu em Guimarães, município de São Luís.

 

P/1 - É aqui perto, é uma cidade próxima?

 

R - É, quatro horas de viagem mais ou menos.

 

P/1 - E como é que eles se conheceram?

 

R - Meu pai? meu pai... Eu não sei te explicar, mas parece que ela veio do interior para cá. Aí se encontraram por aqui.

 

P/1 - Por acaso?

 

R - Por acaso, né, parece que moraram na mesma rua, um negócio assim. Aí se ajuntaram e teve três meninos, dois morreram, ficou só eu mesmo. Não tem mais irmão, só eu mesmo. De lá, eu mesmo fui vivendo a minha vida sozinho, depois meu pai me abandonou, né, e eu fui trabalhar sozinho.

 

P/1 - Mas você lembra um pouco da sua casa de infância, que bairro que você...

 

R - Eu comecei morar quando era bem jovem na Liberdade, né?

 

P/1 - Como é que era esse bairro?

 

R - Lá era o seguinte: lá era maré, né, maré e a casa da gente era de assoalho. E a água vinha por baixo (risos). Quando a maré estava cheia demais, às vezes até entrava dentro da casa. Depois meu pai separou da minha madrasta...

 

P/1 - Que brincadeira que você tinha de infância lá nessa casa, você brincava do que?

 

R - Olha, falar a verdade, brincadeira não tinha. Eu não sei o que foi infância, assim, para brincar mesmo. Eu, com 12 anos de idade, eu comecei trabalhar e até hoje...

 

P/1 - Me conta o que você começou a fazer com 12 anos?

 

R - 12 anos, eu comecei encher água para uma família, era semana toda enchendo água para ganhar dinheiro, né, para poder comprar roupa. Meu pai era difícil comprar as coisas para mim e pagando o coleginho que eu estudava pela manhã. Aí, eu fui continuando, aí fui tendo meu estudos, já pagava os estudos. Depois...

 

P/1 - Como que é encher água? O que que é?

 

R - Encher água é o seguinte; não sei se você vê falar em chafariz. São umas torneira (inaudível). Então, onde eu morava não tinha água. Então, a gente tinha que pegar lá e levar carregando na cabeça até a minha casa. Então, eu fazia isso, né?

 

P/1 - Como é que você fez? Foi balde, assim, andando?    

 

R - Exato. Botava na cabeça e levava até em casa para ela. Às vezes enchia para todo mundo. Aí recebia no fim de semana, recebia um trocadinho. Às vezes comprava roupa, eles mesmo compravam para mim. Tinha uma senhora que, às vezes, as minha fardazinha de colégio ela comprava, que logo no começo era uma bermudinha, uma camisa branca era a farda. Aí daí para frente comecei a levar minha vida sozinho mesmo. Aí me separei do meu pai, fui morar no Anil, não sei se você conhece?

 

P/1 - Aonde?

 

R - Anil.

 

P/1 - Onde é que é?

 

R - Fica aqui perto do São Cristóvão, aqui colado. Eu fui morar com uma tia minha. Aí comecei a trabalhar negócio de oficina. Aí foi que eu fui fazer um curso de elétrica predial...

 

P/1 - Mas por que é que você decidiu fazer elétrica?

 

R - Porque eu tinha um tio que ele trabalhava e eu achava que aquilo era bonito. Ele estar emendando um fio, estar trocando lâmpada, achava bonito. E de vez em quando ele me convidada para fazer esse tipo de trabalho.

 

P/1 - Você achava bonito?

 

R - Achava.

 

P/1 - O que é que você via de bonito?

 

R - Eu via, assim, ele emendando fio, trocando lâmpada, às vezes montando um quadro de comando. Aquilo eu achava bonito. Eu ficava olhando assim: “Rapaz, vou tentar aprender essa profissão.” Aí tive sorte. Conheci um cara, Noel, que ele era da Bahia, aí me levou para Alumar. Chegou lá, (inaudível), nem oficial de elétrico, não sabia o que era (risos). Aí, “rapaz, acho que está dando certo mesmo.” Aí comecei, a partir de lá, eu comecei, né? Agora, partir agora para um curso. Aí pronto. Comecei fazer o curso, aí tenho diplomazinho em casa. Até hoje, da Alumar, eu vim para cá. Aí já...

 

P/1 - Como é que você veio, entrou na Vale do Rio Doce?

 

R - Eu vim por intermédio de um encarregado que me trouxe para cá.

 

P/1 - Mas o que é que você ouvia falar da Vale antes?

 

R - Eu ouvia falar que era uma companhia muito boa. A Vale tinha um salário bom, tinha funcionário, nenhum tinha que reclamar da empresa porque ela pagava bem, tinha muito meio de vida que ela dava, tinha plano de saúde, muitas outras coisas mais. Tinha muita coisa mesmo que a gente recebe que a gente agradece isso.

 

P/1 - Você lembra do seu primeiro dia aqui na Vale? como é que foi?

 

R - Ah, não me lembro não... Faz tanto tempo, mas primeiro dia eu comecei trabalhar em equipe. Nós era uma equipe de quatro, provavelmente até esse pessoal já saiu, tens uns que estão na Alumar ainda. E deixo ver, hoje... Hoje é como eu estou falando, estou aqui trabalhando e agradeço essa oportunidade que me deram de vir na equipe, da companhia e acho que eu não tenho que reclamar mesmo. Eu acho que...

 

P/1 - Me conta um pouquinho, o que é que você faz nesse seu trabalho aqui?

 

R - Eu trabalho de tudo. Trabalho com manutenção de chave de emergência, desalinhamento. São tipo de chave quando o transportador está funcionado, se rasgar a correia tem uma chave de travamento que ela (inaudível) e a chave... E o transportador  pára. E a chave de emergência, por exemplo, você vê alguma coisa, uma pessoa pode ser que esteja com... esbarra na correia e você não tem como desligar, você puxa a cordoalha e para o transportador. Trabalho muito com esse tipo de coisa.

 

P/1 - E aconteceu, assim, deixa ver... O senhor trabalha com esse óculos? Coloca esse óculos, deixa ver como é que fica.

 

R – Eu trabalho com ele é assim.

 

P/1 - Por que? Para proteger?

 

R - É, para evitar de algum cisco, alguma coisa caia nos seus olhos. Às vezes você... às vezes, o pessoal está trabalhando com lixadeira, com máquina de solda, qualquer coisa, para evitar de cair alguma coisa no seu olho, para proteger, né?

 

P/1 - E nesse período aconteceu, assim, algum fato pitoresco, alguma coisa envolvendo elétrica, algum causo que você queira contar?

 

R - Não, até comigo... Quer dizer, na minha equipe até hoje nunca aconteceu não. Às vezes, já ouvi falar já aconteceu outra equipe, mas comigo não aconteceu assim não.

 

P/1 - E você acha... Qual que é o seu futuro aqui na Vale?

 

R - Meu futuro, meu futuro mesmo aqui é só aposentadoria e o futuro que eu tenho que fazer é para os meus filhos. Esse daí eu tenho que dar o futuro. Meu futuro aqui já está para vagar, que eu já tenho 45 anos, prestes a me aposentar e futuro mesmo eu tenho bem pouco já. Agora, meus filhos eu tenho que dar os futuro dele para...

 

P/1 - E você, o que é que você faz aqui fora, essas festas de São Luís, essa do Bumba que tem agora, essa Aparecida...

 

R - Falar verdade, falar verdade... de festa mesmo eu não sou muito chegado em festa. Algumas vezes, a minha esposa pede para dar uma volta com ela, assim mesmo tomo um refrigerante, alguma coisa, sorvete por ali e logo embora cedo. Mas não sou muito chegado não.

 

P/1 - E você é descendente do que?

 

R – De descendente nenhum. Eu sou maranhense mesmo, não sou descendente de nada não.

 

P/1 - De alguém lá da África?

 

R - Não, não, não sou não. Eu sou assim mesmo, sou... (risos).

 

P/1 - Então, está bom. Obrigada por ter dado depoimento.

 

R - Falô, obrigado. Desculpa...

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