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História

Eu só tenho lembranças boas

História de: Aledala Miranda Xerene
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Aledala Miranda Xerene começou a trabalhar na Petrobras em 1980 e por 15 anos trabalhou embarcada na Bacia de Campos e Garopa. Tem muitas lembranças e amizades que fez no período em que trabalhou embarcada. Atua na área de suprimento de materiais. Viu acontecer greves em terra e em plataformas e o posterior avanços democráticos dentro da empresa.

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História completa

Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Aledala Miranda Xerene Entrevistada por (?) Macaé, 04 de junho de 2008. Código: MBAC_CB026 Transcrito por Winny Choe Revisado por Fabíola Lugão C. Viggiano P/1- Começar pedindo que você fale seu nome, local e data de nascimento. R - Pode? Aledala Miranda Xerene, moro em Campos, em 20 de março de 1954. Mais... P/1- Quando você entrou na Petrobras Aledala? R - Entrei em 1980. P/1- E o que te fez entrar na Petrobras? Qual era a expectativa daquele momento que te levou a entrar? R - Mercado de trabalho, né? Na época, a Petrobras ainda era muito desconhecida, eu entrei até um pouco tarde. Eu poderia ter entrado antes e entrei na área de material para trabalhar no setor de compras e depois fui para a parte de armazenamento. Depois fui trabalhar e tô até hoje nessa área ainda de material e suprimento de material. P/1- Você conhecia alguém que já estava na Petrobras? R - Já, irmãos, dois irmãos, colegas de escola. P/1- E o que eles falavam sobre a Petrobras? R - A Petrobras na época era ainda um pouco desconhecida, mas por ser petróleo.... é uma coisa muito cobiçada, inclusive a parte profissional também, todos tinham vontade principalmente quem estudou em escola técnica. Até hoje é muito cobiçada. A parte de petróleo não só no Brasil como em outros lugares. P/1- E o que você estudou tem alguma relação com o trabalho que você desempenha aqui? Ou cursos que você fez aqui? R - Tem. É curso técnico, parte de manutenção, embora eu não tenha entrado na Petrobras nessa área, eu entrei na área de suprimentos de material que é uma área muito importante dentro de qualquer empresa. P/1- Você pode explicar o que é essa área exatamente? R - Ela se resume em abastecimento, compra de material, materiais de manutenção, materiais de compra, controle, transporte, se resume nisso aí. Toda atividade tem de ter uma área de abastecimento. P/1- Hoje você trabalha na parte interna, não é isso? R - Trabalho interno. P/1- Mas você já trabalhou embarcado? R - Embarcado desde 1985, por aí, 1986. P/1- Ficou quanto tempo trabalhando embarcado? R - Fiquei quase 15 anos. P/1- Gostava? R - Gostava mais ou menos. P/1 - Você pode contar um pouco pra gente como é que é trabalhar embarcado? Como é que é o dia a dia? R - É interessante. Lá vai uma equipe muito homogênea, muito amiga, os colegas se envolvem muito e o trabalho é muito corrido, não dá tempo nem de você perceber por causa do volume. Eu que trabalhei em plataformas diferentes, logo após acidentes, cheguei a trabalhar em shows, cheguei a trabalhar em Garoupa, é bem interessante cada um com seus afazeres mais é como se fosse uma fábrica que tem de funcionar normalmente e funciona bem redondinho. P/1- E como é a coisa de trabalhar tanto tempo longe de casa, longe da família? R - Esse é um agravante que tem. O distanciamento, embora em quilometragem não é muito longe, mas você se sente um pouco afastado, um pouco preso. Na minha época, a comunicação era muito precária, ainda era... outros colegas que entraram antes tinham a situação pior ainda; hoje é bem mais fácil. Hoje tem internet, tem telefone com mais facilidade. As plataformas se comunicam a hora que você quer com a base, com a família. A família se comunica bem mais fácil hoje; hoje está bem mais fácil. P/1- Como se fazia há 10 anos atrás para se comunicar com a família? R - Através de telefone. Embora tinha horários, era mais controlado a não ser em casos emergenciais. E como eu falei anteriormente, na época mais antiga 1979,1980 só se falava em rádio. Era até interessante, talvez outros colegas vão falar disso aí, as conversas particulares com esposa e com filhosm ela era quase que ouvida na bacia toda porque era por frequência. Mas hoje é bem diferente. P/1- Tem alguma situação que tenha acontecido, alguma situação específica que você lembre desse período dentro da plataforma especialmente por conta desse problema de comunicação que tenha acontecido com você? R - Não, só tenho lembranças boas e da época de embarcado, embora tenha esse problema de distanciamento, você sofre um pouco quando seus filhos são pequenos. Mas a importância que você sente naquele processo é bem interessante e ela supera qualquer coisa que “seje” desagradável. Eu só tenho lembranças boas . Conhecimento com vários colegas é bem interessante isso aí. P/1- Você fez muitos amigos na Petrobras? R - Muitos. P/1- Aqui se convive com gente de toda a parte, né? R - É, praticamente de todas, antigamente até pessoas do exterior. Mas hoje tem de toda a parte do Brasil, principalmente de todos da Bacia de Campos e a gente acaba fazendo muita amizade realmente. Pessoas que hoje a gente não vê por muito tempo, quando tem algum evento da Petrobras normalmente a gente encontra alguns desses amigos, amigas e é muito gratificante isso. P/1- Como é que é conviver com gente muito diferente? Gente que vêm de culturas tão diferentes de partes diferentes do Brasil? R - É complicado, vem pessoas do Nordeste... na época vinha bastante gente de Aracaju, Bahia, pessoal com mais experiência, mais antigo na empresa. Realmente é meio complicado, mas sempre foi uma contribuição pra gente melhorar no relacionamento com as pessoas, porque a atividade, ela se inicia na perfuração; a gente mesmo sendo da produção lidava com o pessoal da perfuração. É um pessoal mais antigo, pessoal com uma diferença de cultura, mas foi bem interessante isso. P/1- Qual foi o maior desafio que você enfrentou na Petrobras? Um desafio da sua história junto a Petrobras? R - O desafio que eu enfrentei na Petrobras foi minha contribuição no processo de produção; é um desafio constante. Um desafio que até hoje... eu estou pertinho de me aposentar, mas me sinto ainda contribuindo nesse processo. P/1- E qual foi a maior dificuldade nesses anos todos? R - A questão de afastamento. Eu já tive no caso perda de pessoas familiares quando eu estava embarcado. Dentro da empresa, a gente sempre teve facilidade, a gerência dá um jeito de facilitar o transporte. Realmente eu tive um caso desses e graças a Deus foi só uma vez, logo deslocaram uma aeronave que me pegou e me trouxe pra terra. P/1- Aledala, qual foi a fase da Bacia de Campos, fase de produção da Bacia de Campos que mais te marcou? Que foi mais importante que você avaliaria que foi nesse processo? R - Como coisas boas, foi sempre. Produção, recordes e tudo o mais. Uma época triste - principal dela e com certeza todos os colegas vão falar - que foi o acidente da P36 que a gente acompanhou, já estava em terra e a gente acompanhou a situação como se fosse uma perda muito grande, apesar de ser material foi terrível. Eu tenho colegas de trabalho que chegaram a chorar, a gente em terra acompanhando e a gente perdeu vidas, mas mesmo assim até a parte da estrutura, quando ela afundou foi uma situação muito complicada e inesquecível, quase como um trauma, acho que todos pensam assim. E sempre tem algum acidente e outro que não tem como ser evitado apesar dos esforços nesse sentido, principalmente aéreo é complicado, isso mexe muito com a gente, realmente mexe. P/1- No caso da P36 você conhecia alguém? R - Eu estava previsto de trabalhar nesse grupo de roncador, mas foi antecipado para outro projeto que eu fui trabalhar, entendeu? Talvez as coisas seriam diferentes, mas aconteceu isso e quem acompanhou... aliás acho que todo o Brasil acompanhou e foi muito complicado. Muito complicado. Se tivesse, como vamos dizer, nas mãos de alguém, alguém tomaria mais uma providência no sentido de mudar, mudar aquele episódio. Foi complicado mesmo. P/1- Você se lembra do primeiro dia de trabalho? R - Aqui dentro da empresa? Mais ou menos eu lembro. P/1- Foi aqui nessa região na Bacia de Campos? R - Foi. Setor de compras. P/1- E você se lembra como era a região aqui em termos de construção? O que havia aqui? R - Eu, quando entrei na empresa, entrei inclusive num prédio novo, que existe ainda pequeno, mas novo pra época. Mas as coisas eram muito perto, quer dizer, eu entrei na parte de armazenamento logo em seguida antes de embarcar e as coisas eram muito perto, a gerência era muito perto. As solicitações eram quase que verbais, as autonomias que te davam eram muito diretas, você tinha que cumprir e você tinha autonomia pra resolver certas coisas que hoje só através de gerências, por questão de suprimentos dentro do mar, uma emergência, um material de emergência que tinha que ir. Sempre foi assim. P/1- E a transformação tecnológica dentro desses tempos pra hoje, o que isso mudou a Bacia de Campos e o que mudou no seu trabalho? R - Principalmente de uns 10 anos pra cá a mudança foi quase que radical e bem pra melhor. Hoje as coisas funcionam quase praticamente como uma engrenagem, ela funciona bem e rápido. E as cobranças são maiores para não se ter erro. Hoje o sistema é bem comprometido, quer dizer, a gente fala em presidência mais a própria gerência aqui da região acompanha de perto isso ai e sempre tá mudando. Nós estamos aí com mais desafios e desafios 2012, 2020, 2015 com visão para 2020 isso tá sempre mudando. Quer dizer, eu acho que a gente ainda tá no começo principalmente com visão na produção de gás atualmente. P/1- Aledala, você falou que os seus irmãos já trabalhavam na Petrobras. Assim como essa história, você já conseguiu trazer alguém pra Petrobras? Alguém que veio trabalhar aqui por influência sua? R - É a gente sempre orienta os jovens que estão estudando pra se preparar; gosto das coisas mais a curto prazo. Eu acho que os jovens estão todos pensando em nível superior, nível superior. Mas acho que a tendência da nossa empresa - e até do Brasil - é na parte técnica e na questão de execução, que tá faltando, sempre faltando. Mas infelizmente o nosso país ainda está num sistema onde o pessoal tá explorando muito a parte universitária e se leva muito tempo para contribuir e tirar proveito desse conhecimento. P/1- O que é ser petroleiro pra você? R – [risos] Eu não gosto muito da palavra petroleiro. Sempre as pessoas falam "Ah você é petroleiro!" Eu nunca aceitei; infelizmente nem sei se estou certo. Mas sempre falo aos meus colegas, petroleiro é navio petroleiro, quer dizer, porque o petroleiro pra mim sempre foi usado como... a pessoa tá falando bem, mas ao mesmo tempo pejorativamente, fala pejorativamente. P/1- E o que é ser um funcionário da Petrobras? R - Ser um funcionário da Petrobras é bem gratificante, você contribui principalmente... isso acontece em qualquer empresa, mas principalmente a Petrobras. Da época que a gente veio, a época da militância, época da militância sindical, época da ditadura ainda não restou... na ditadura a gente passou por muita coisa, o envolvimento do governo ainda naquela ideia de exército, a gente enfrentou muita greve. A Petrobras a gente sempre defendeu como uma casa nossa, como um bem nosso. O profissional da Petrobras sempre foi defendido assim, passamos por muitas situações de greve em plataforma, greve em terra, já vi muito tanque entrar aqui dentro da empresa, exército, exército com escudos e coisas mais. Mas isso aí foi mudando e hoje está realmente dentro da empresa, tá uma situação de negociação e de democracia assim quase que plena, sabe. P/1- Você se lembra de alguma história de algum dia desse tipo, onde o movimento sindical ou enfim os trabalhadores se organizaram? Você tem alguma história de participação que você possa contar? R - Eu tive participação nesses movimentos dessa militância, principalmente na década de 1980 e na década de 1990. Foi muito pesado na época do governo do Figueiredo, principalmente na parte de reivindicação salarial, reivindicação de direitos, principalmente nessa área. A gente já passou por momentos tensos nesse sentido, sempre reivindicando direitos, mas sempre em prol da empresa e do patrimônio; mas sempre foi assim. P/1- O que você achou, Aledala, de participar desse projeto? R - Quando eu li essa nota eu realmente tive vontade de participar, mas eu não sou muito corajoso nesse sentido. Vim aqui nesse prédio fazer uma outra coisa porque sou membro do grupo que estou fazendo o mapa dessa área aí, tô fazendo umas coisas. E vim aqui pra isso e fiquei surpreso quando você me convidou pra fazer essa entrevista. É bem difícil dado pelo momento, mas pelo menos eu estou vencendo mais um desafio. Obrigado a vocês se tiver terminando. P/1- Ok. Obrigada. ------Fim da entrevista----
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