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História

Eu sei qual a minha história, a história do meu povo e tenho um lugar no mundo

História de: Salomão Jovino da Silva (Salloma Salomão)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/01/2020

Sinopse

Como um menino de Passos de Minas Gerais, foi morar na favela, integrou o movimento black, montou rádio, e ajudou a construir a cultura periférica, sempre com uma visão crítica dos processos que acontecem no Brasil. E se reconhece negro, muito para além de ser um descendente de africanos, mas vivendo todas as formas de cultura negra. Salloma Salomão não se lembra de ter professores negros em nenhuma das instituições de ensino, se formou como professor de História e vai quebrando paradigmas.

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História completa

Os amigos do meu pai, alguns, eram congadeiros. Meu pai era presbiteriano, mas ele tinha amigos macumbeiros, congadeiros, da umbanda, do samba, enfim. Então, uma dessas pessoas era um velho, um senhor, já, com uma idade avançada, chamado Feliciano, que era, enfim, um chefe de Maçambique ou Moçambique. E esse homem brincava com a gente, falava as palavras dos antigos, cantava umas cantigas e era amigo do meu pai. E moravam nesse mesmo bairro, no bairro da Penha. 

 

Meu pai era carpinteiro. Era lavrador e carpinteiro. E ele foi trabalhar na obra junto com o amigo dele, que era um mestre de obras, um preto carioca. Não sei se fluminense ou carioca, mas que mudou lá pra Passos e os dois se tornaram bastante amigos e era capoeirista e era compositor, enfim, tocador de berimbau e que esse senhor levou meu pai pra trabalhar nessa obra.  Mas a minha relação com essa obra é menos por conta do meu pai e mais por conta dos meus irmãos que, quando eu devia ter uns seis anos ou sete, talvez, sete pra oito porque eu já sabia ler, eles foram montar uma peça de teatro no que seria hoje a garagem dessa igreja. E usavam esse espaço e ficavam lá ensaiando e a gente, que era pequeno, ficava assistindo. Então, mais por isso que eu me lembro da igreja e menos de ter ido com meu pai. Mas de ir provavelmente fosse domingo de tarde, sábado de tarde, algum dia assim de folga que eles ficavam lá horas lendo texto do Guarnieri e do Boal. Mais tarde fui descobrir o que era o texto do Guarnieri e Boal.

 Você vê uma pá de gente preta em um lugar, conversando, convivendo, construindo, elaborando, ensaiando, passando várias vezes o mesmo texto. Eu tive memória de fragmentos do texto e das canções até bem recentemente. Mas acesso ao texto eu só fui ter depois de adulto. Mas eu tinha memória de fragmentos, das cenas, do texto. Então, a minha primeira noção de que um bando de gente junta em torno de alguma ideia podem fazer coisas.  

 

 Nunca tive professor negro. Nunca tive um professor negro. Desde a infância, até o ensino superior. Nunca tive um ou uma professora negra. Embora elas pudessem, até, existir. Na primeira escola, por exemplo, tinha professora negra. Mas nas outras escolas, nenhuma. Até o doutorado, não havia negros professores. Mas ainda falando sobre essa ideia dos blacks, né? Eu não fiz muita distinção, mas uma coisa é ser negro, né? Pra ser negro basta você ser descendente de africano, né? Mas o movimento black é afirmar-se negro, tornar-se negro. Que é um debate sobre identidade. Mas uma identidade que, pra ela se fazer no mundo, precisa cavar espaço. Ela precisa interditar os discursos vindos de fora, e criar espaço pra um discurso de dentro. Do nós. Então, ser black, naqueles anos, nos anos 70, a mim parecia ser mais do que negro em todo seu orgulho. Então, quando víamos os meninos indo para o baile e, nessa época, a gente ia só nos bailes de fundo de quintal e esses estavam indo para o baile de salão. Esses estavam indo paras o baile de estádio. E o baile de estádio e o baile de salão era uma multidão de negros e negras. Onde a beleza estava no corpo, na dança, no movimento, na linguagem, no palavreado, no que falar, em quais palavras usar pra comunicar um estado de espírito. . Então, descobrir a negritude é algo além de ser negro. Eu sei de onde eu venho. Eu sei quem são os meus ancestrais. Eu sei qual a minha história. Eu sei qual é a história do meu povo. E tenho direito a um lugar no mundo.

E isso se desdobra em outras formas de ser negro, mas nenhuma é inautêntica. Todas são autênticas. Mesmo quando sob influência de cultura que vem dos Estados Unidos. Porque nós somos negros, mas não somos negros estadunidenses. Nós somos outra coisa. Embora, o que gerou nossa condição global, seja a mesma coisa. O que é essa coisa? É o escravismo e é o tráfico de pessoas africanas. Esse era um sistema mundial, que deu origem ao capitalismo. 

 

Eu estava fazendo o mestrado já na PUC, terminando matérias da licenciatura e fiz dois trabalhos com a minha amiga Jaqueline, que é uma menina muito bacana, branca, de classe média alta, tal, mas a professora atribuiu duas vezes notas diferentes pra mim e pra ela, pelo mesmo trabalho. E eu fui falar com a professora e a professora já tinha indicadores problemáticos, por exemplo, debate em aula que ela sustentava que a homossexualidade era doença. Então, tinha algo de um indicador de uma visão conservadora, mas o racismo é vivido, pra mim, como experiência, como essa maneira de produzir, por exemplo, insucesso. Quando ela, pelo mesmo trabalho, dá duas notas diferentes pra eu e uma menina branca, ela está produzindo meu fracasso e ao mesmo tempo produzindo o sucesso da Jaqueline. Não é tão simples assim. Entretanto, quando eu fui falar com ela, ela disse: “Salomão, é que você tem um jeito tão, tão, tão, que eu fiquei com a seguinte impressão: a Jaqueline fazia os trabalhos e você colocava o seu nome”. Porra, passei madrugadas com a menina fazendo o trabalho e a Jaqueline era uma menina muito bacana, mas ao mesmo tempo muito séria. Ela não colocaria meu nome no trabalho se eu não tivesse feito. E detalhe: eu, com muito mais experiência de vida, com muito mais leitura, com muito mais visão de mundo, com muito mais complexidade acadêmica que uma jovem que entrou na faculdade com 18 anos.

Olha só, eu fiz várias experiências de teatro, no sentido de procurar uma forma de expressão que fosse além do texto musical e poético. Então, em 83, com uma banda que eu tinha, chamada Circo Nova Essência, fiz uma primeira peça que tinha memórias da minha mãe, da relação que ela tinha com as plantas. Cantigas pra mortos. Essas coisas, nos anos 80. Depois, ainda em 80, fui para um outro formato de banda, que era uma banda de jazz rock, onde eu também introduzi esses elementos, né, lá com essa banda chamada Na Corda Banda. Então, foram dois espetáculos que eu montei

 

Dentro do movimento social, lá na zona sul, houve um tempo em que eu fui voluntário de alfabetização de adultos. Talvez 83. Mas antes disso, quando eu terminei o ensino médio, em 82, eu tentei Fuvest pra História, queria ser professor de História. E talvez a ideia de que ser professor era uma boa atividade ou era uma atividade digna, eu tenha descoberto com a professora Helena. E ser um historiador, talvez, ou um professor de História, eu tenha descoberto com ela.

 

Em 85 eu tinha ingressado como inspetor de alunos, que é um funcionário subalterno qualquer de escola. E um amigo me convidou pra ir fazer um trabalho de musicalização na Febem, que é uma cadeia pra crianças. A sociedade brasileira produziu bastante crianças excluídas e depois precisa prender essas crianças em uma instituição e eles criaram várias instituições municipais, estaduais, federais. Eu fui para uma instituição estadual chamada Febem. E fui trabalhar em uma unidade que era no Tatuapé, com jovens de 14 a 21 anos. E fiquei lá quatro anos, trabalhando. 

 

 Mas foi importante pra mim, por exemplo, essa experiência de ativista de educação, de fazer greves contra o governo Mário Covas, de ocupar o Palácio dos Bandeirantes, de tomar bomba, de viver aquela adrenalina de movimento social, mesmo, de confronto de rua. Então, de mobilizar, fazer comando de greve, de fazer arrecadação de grana e de recursos para os professores que estavam passando, enfim, mais necessidade do que a gente. De entender um pouco o funcionamento do sindicato dos professores, de entender um pouco dessa política sindical, né? Então, isso foi muito importante, marcante, mas não é um causo, não tem uma historinha, assim, sintética, que revele nada. E também foi importante, assim, entender a relação com os jovens, né? Eu estava amadurecendo, estava deixando de ser jovem pra ser um homem de 30 anos, né? Então, foi importante entender como é a proximidade e distância, como é a relação com o próprio conhecimento, que pode ser uma aventura, que pode ser fascinante ou pode só sinal, horário, sentar, ouvir, escrever, reproduzir, mas que pode ser com perguntas,  com música, com dança.

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