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História

"Eu sei fazer isso aí também"

História de: Brasílio Martins
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/09/2011

Sinopse

Um depoimento cheio de histórias de um senhor de 89 anos. Seu Brasílio saiu da roça e conquistou a vida em São Caetano do Sul. Um homem que tudo que se propunha a fazer, fazia bem feito. Trabalhou como vendedor, auxiliar de escritório, fiscal e dono de boteco. Sempre se virou muito bem na vida, uma de suas grandes conquistas foi ter conseguido uma vaga no SENAI para o seu filho.

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História completa

 

P/1 – E o seu nome completo?

 

R – Brasílio Martins.

 

P/1 – E onde o senhor nasceu?

 

R – Em Boa Esperança do Sul. É uma cidade vizinha de Araraquara, araraquarense.

 

P/1 – E seus pais eram de lá de Boa Esperança?

 

R – Posso contar um caso ‘pro cê’, assim? Eu ia contar. Meu pai, naquela época que a Itália mandava o pessoal pra vir pra trabalhar. Era navio. Levava quatro meses pra vir da Itália aqui. Hoje é, que nem se fossemos lá agora, por exemplo, daqui na Itália são dez horas. São dez mil quilômetros. Na Espanha. São mil quilômetros por hora. Então dez horas de viagem, certo? Naquele tempo eram quatro meses. Tinha gente que nascia no navio e não sabia se era italiano ou era brasileiro, né? Eu não. Ele contava o caso. E eu vou falar pra vocês. Ele se perdeu do pai dele no desembarcar do navio. Que era muita gente. Hoje você pega uma criança aí, dois, três anos e fala: esse aqui é seu pai e sua mãe. Isso, né, mais naquele ano, acho que foi mais ou menos de 1870 pra 1880, um menino vindo do exterior, da Itália, sem saber o idioma daqui nem nada, se vê sem o pai e sem a mãe! Quer dizer. Aí pegaram e o levaram pra esta fazenda. Uma fazenda em Boa Esperança do Sul, chama, não sei se ainda chama Santa Tereza. E lá ele foi crescendo. Acho que foi ficando na casa de umas pessoas morenas lá e foi crescendo. Aí passou a ser carroceiro.

 

P/1 – Mas este período de criança ele trabalhava na fazenda?

 

R – Não, ele foi menino pra lá. Que pegaram no navio perdido do pai e da mãe. Certo? Uma família de gente morena, não sei se tratou dele um pouco e depois ele começou a trabalhar. Tinha disposição e começou a trabalhar de carroceiro. Só que a idade dele, não sei, não sabemos. Mudar o nome, mudaram, devia ser Martino, puseram Martins aqui. Martins é nome espanhol. Ele passou a carroceiro e depois começou a alambicar pinga, e foi ser alambicador de pinga. Olha só, só que meu pai não era bem bom. Não era não. Olha, nada de bebida era pouco pra ele. Daí ele passou a ser administrador da fazenda. Porque aí já tinha casado. E quando nós estávamos em oito irmãos, o dono da fazenda, a Santa Tereza, vendeu a fazenda e comprou uma fazenda na noroeste. Que não chamava noroeste, chamava sertão. Sertão. Sabe? Depois que começou a surgir a cidade Cafelândia, a gente foi lá e comprou a fazenda. Chamava, e chama até hoje, Icatu. Que estava derrubando as matas e formando os pés de café. Estava tudo pezinho miudinho novo. E ele foi ser administrador lá. Eu estava com seis anos. Na minha cabeça tem um fundo aqui que nunca nasceu cabelo e não vai nascer. Aí meu pai veio pra ver a fazenda, pra ver se gostava de lá. Ele já tinha oito filhos. Tinha duas irmãs minha, o resto tudo pra cima de mim, só duas atrás de mim. Aí o meu pai levou abacaxi. Não tinha lá abacaxi. Levou aquela mudinha do abacaxi, chegou lá e comeram abacaxi, gostaram e meu irmão mais velho, que estava com oito anos, diz que ia plantar a muda. E estava fazendo um buraco desta fundura. E ele mandou olhar, quando eu olhei, ele meteu a enxada na minha cabeça. Eu caí dentro!

 

P/1 – E nunca mais nasceu cabelo?

 

R – Não, arrancou um tampo, assim. Não sei. Naquele tempo não tinha medicina, nem nada. Pode ver aqui, não nasceu e nem nasce mais nunca. Tem um fundo aqui. E depois veio pra esta fazenda em Icatu.

 

P/1 – Seu Brasílio, me conta uma coisa: o seu pai te contou como ele conheceu a tua mãe?

 

R – Minha mãe, a família dela morava em Novo Horizonte, pertinho lá a cidade. Aí se conheceram lá.

 

P/1 – E o que a sua mãe fazia?

 

R – Trabalhou de carroça. Só que meu pai... Minha mãe, italiana. Na Itália, lá não é estado é província. Então meu pai era da Calábria e minha mãe da baixa Itália. Então é assim, não é estado, é província. A gente foi lá. Meu filho levou. o mais velho, há quatro anos, me levou pra seis dias na Itália e cinco na Espanha porque as avós dele vieram da Espanha.

 

P/1 – Me conta da infância na fazenda. O que você lembra na infância? Você falou da brincadeira com seu irmão. O que você lembra?

 

R – Mas eu estava com seis anos. Foi uma coisa que aconteceu. O resto a gente era criança. Não é que era bobo, assim, sabe? É o tempo e o atraso das coisas. Tudo era mais atrasado. Hoje... Aquele tempo, por exemplo, se uma criança tivesse escola, faltasse um dia pra oito anos não era matriculado. Só que é assim: depois se ele mudasse pra um lugar que tem escola, tivesse doze, treze anos, pegavam ele no primeiro ano pra dar estudo. Outros que cresciam e não tinham estudo. A gente veio em 1927, eu estava com seis anos quando a gente mudou pra noroeste. O patrão comprou esta fazenda. Depois ficou três anos lá e logo vendeu a fazenda e meu pai mudou. Saiu de lá e veio pra um Patrimônio, que é um distrito de Cafelândia, chama-se Cafesópolis. Lá onde a gente foi criado. Tanto que a gente tinha uma escolinha. Então, todos, eu e meus irmãos estivemos na escolinha.

 

P/1 – A cidade de Cafesópolis.

 

R – Não é uma cidade, é um Patrimônio que não andou pra frente, sabe? Toda cidade que é aberta, beirando rodovias ou estrada de ferro, ela vai pra frente. Agora, está de braço, de lado, é difícil crescer. Não vai. Fica ali vegetando.

 

P/1 – O que você lembra de Cafesópolis?

 

R – De Cafesópolis? A gente mudou. A gente ia a escola e depois da escola pra roça. O pai era assim, um monte de filhos, todo ano nascia um. Então não via a hora de ter um pra por na roça pra ajudar a ganhar comida pros outros que vinham atrás. A vida era assim. Tinha um ditado. “Ah, aquele tempo! Aquele tempo!” Eu fui deste tempo. Não trocaria nem com 200% de vantagem pra voltar pra trás. Hoje está muito melhor. Não, não. Do jeito que meu pai conseguiu nos criar, eu já consegui criar meus filhos melhor. Do jeito que criei meus filhos, meus netos já estão sendo criados melhor do que eu já. Isto aí. Tá melhor ou não tá? Tá, lógico. Quem não tem juízo e sai perdido é outro caso. Mas na minha família, com a benção de Deus, meus netos, estamos tudo bem. Tenho neto advogado; outra vai se formar agora ela ta fazendo Farmácia, aqui na USP. Ela está trabalhando numa fábrica de remédios francesa perto. Ela faz estágio lá há dois anos. Sabe quanto ela ganha por mês? Quatro mil reais. Agora, quando ela vai formar este ano, químio-farmácia, negócio de remédio pra câncer, colesterol. Ela está começando onde começa a fazer o remédio. Então é um emprego que nunca vai acabar. Ela já está com oferta de oito, nove mil reais pra trabalhar.

 

P/1 – Senhor Brasílio, eu queria que o senhor me contasse um pouco mais sobre aquele período em Cafesópolis.

 

R – Volta. Se a gente se avexa. Eu tô com tudo marcado no papel. Pode ver aí. Certo? A gente ia pra escola e ia pra roça. Depois que terminava ia pra roça direto. Então eu falei ‘pro cê’, quando eu comecei a ir pra roça eu estava com oito anos, então dezesseis anos. Não o dia todo, que a gente ia pra escola. Mas depois era o dia todo. A roça é assim: você levantava às seis horas e ia pra roça. Enquanto o sol não escondesse, meu pai não punha a enxada de lado pra parar. Só parava na hora do almoço pra tomar um café. Uma hora da tarde. Não se tinha direito a nada. Nada. Seu dente apodrecia na boca e não tratava. Tudo assim. Então depois começa um ano, vai tocar café de amear com outra pessoa. Comprava fiado na venda do cara. Chegava no fim do ano, colhia a metade, ia vender, pagava as contas, não ficava com dinheiro pra comprar uma caixa pra trabalhar. É isso aí. Quando você tinha três camisas? Não tinha, não. Já ficava só duas, porque uma já estava rasgada. Então você não conseguia ter três camisas. Não tenho saudade, não. Não tenho. Agora quem não viveu diz que era tempo da vaca gorda. Na panela do rico, mas no prato do pobre não tinha nada.

 

P/1 – O que vocês plantavam?

 

R – Lá plantava de tudo. Cafelândia foi a rainha de café do noroeste. Hoje não é mais. Aí virou pasto e agora transformou tudo em cana. Então, café. Meu pai pegou dez mil pés de café de quatro anos de idade que já estava produzindo, de amear, a metade da fruta no fim do ano era do meu pai. Só que ele comprava fiado e gastava tudo. E plantava no meio arroz, feijão. Só tinha uma planta que não podia plantar, que era milho. Sabe por quê? Porque o milho quando ele solta aquele pendão, ele solta um pó que amarela todo o pé de café e atrapalha o crescimento. E os donos do café faziam aquele contrato que não podia plantar milho. Viu, como era assim? Tem coisa que você nunca viu uma pessoa falar. Eu falo. Agora, arroz, feijão, o que plantasse dentro era seu. Também tirava pra comer. E teve um ano, como que era a vida, é porque chovia, aquele tempo chovia, era a mesma coisa que agora. Os dez mil pés de café a gente plantava, era café novo, então aquela rua larga, que hoje planta na norma do banco do Brasil. É tudo de muda em muda. Plantava o caroço de café. Fazia, depois deixava cinco pezinhos, aquela rua larga. Era palmo, sabe? Largura do café lá era 17 por 17 palmos. É sim, palmos. Plantava no meio, né? Plantamos todos os dez mil pés, cheio de arroz. O arroz estava querendo cachear pra dar (__?) pés de café, um passava assim e falava pro meu pai: quanto o senhor tem aqui? Tem dez mil. Vai colher quinhentos sacos. Quinhentos sacos de arroz sem casca. Assim, da roça. De cem litros daquele de estopa. O outro falava: quatrocentos e cinquenta. O outro, quatrocentos. Meu pai falava: “Ó, se desse trezentos e cinquenta estava bom demais”. E a gente vendia trezentos, pagava a conta da venda e ficava com cinquenta pra mandar beneficiar pra comer em casa. E pagar a conta. Aí a colheita de café fica livre. O que aconteceu? O arroz ia cachear no meio de janeiro. E o arroz, quando ele solta o cacho pra cima, assim, ele abre uma boquinha assim. Aquele cachinho dele. Se não der menos chuvisco, ele não vinga um caroço. Tem que ter água ali dentro. Ele ia cachear mais ou menos no dia 10. Do dia um até o dia 20 de janeiro não deu uma chuva. Não colhemos nem a semente. Vida dura, rapaz! Tinha que buscar arroz na venda pra comer. Você viu como era?

 

P/2 – Você falou que eram oito irmãos?

 

R – Eu?

 

P/1 – O senhor e mais sete?

 

R – Não, no tempo que estava naquela fazenda. Depois nasceu mais cinco. Treze.

 

P/1 – E todo mundo trabalhava? Todo mundo plantava, colhia? Vocês brincavam?

 

R – Não. Este negócio é assim. A família grande, eu tinha, por exemplo, três irmãos mais velhos que eu e duas irmãs. Primeiro duas irmãs, depois três irmãos mais velhos. Eu sou o do meio. No total são treze. Tinha irmã mais velha minha que quando se casou eu estava formando. A gente não conviveu muito junto. Entende? E meu irmão caçula também não convivi muito com ele porque quando ele estava crescendo, eu casei. Vê o que acontece? Agora tem uma irmã minha que está lá em São Paulo, que mora perto, que ela está lá, está viva. Ela é dois anos mais nova que eu, está com oitenta e sete anos. Só que ela está doente. Não está igual a eu. A gente conviveu mais junto. Ia apanhar algodão junto. Sempre trabalhando juntos. Os outros eu nem convivi. Nem o mais velho, não convivi, nem os mais novos. E os mais novos não conviviam nada com o irmão mais velho. Quando ele foi se formar, o irmão mais velho tinha casado. Assim, a vida leva. Vou dizer pra senhora, meu pai morreu não teve inventário. Não tinha nada. A casinha que tinha lá no Patrimônio se hoje for lá e quiser me dar dez terrenos de graça, eu não quero. Porque não tem valor nenhum. Então não teve inventário.

 

P/1 – E a vida com treze filhos como era? Pra comer? O que vocês brincavam?

 

R – Brincar?

 

P/1 – Todo mundo comia junto?

 

R – Não, comia junto. Só que brincar, ó, vou dizer pra você. Inclusive, a gente na própria irmandade uma até suga o outro. Eu sei porque acho que eu fui o que mais trabalhei na casa do meu pai. Eu casei com quase 30 anos. Só que eu fui trabalhar neste armazém, mas, meu pai, precisava pedir pro meu pai se ele deixava. Eu estava com 24 anos. Sabe como é? Aí o dinheiro vinha certinho pra ele, o que eu ganhava, não tirava um centavo. Que naquele tempo era mil réis ainda. O cruzeiro entrou. Eu tenho nota de cinco mil réis, vinte mil réis, que é aquele notão, parece um lençol. O dinheiro passou de mil réis pra cruzeiro em 1945. Eu tenho lá nota de cinco mil réis que passou a valer um ano pra frente. Carimbada. Eu tenho. Então você plantava roça de algodão, por exemplo, tinha hora que plantava algodão, uma porcentagem, ele foi dono da terra. Tinha que dar um tanto pra ele. Só que às vezes você estava cinco quilômetros de casa você ia a pé, até domingo e tudo, pra matar formiga. Senão elas comiam toda a roça de algodão. As formigas saúvas. E tinha um irmão meu mais velho, nós tínhamos uma égua. Em vez de deixar pra gente montar lá, nós pegava pra ir negociar um não sei o quê lá, a gente ia a pé e voltava. Saía domingo cedo de casa, seis horas, e ia chegar em casa duas, três horas da tarde.

 

P/1 – Sábado e domingo trabalhava também.

 

R – Sábado trabalhava até duas horas da tarde. Domingo não trabalhava. Só que naquele tempo não existia feriado, só dia santo. Não é como hoje que metem tantos feriados. Não tinha, não. É só dia santo.

 

P/1 – E tinha igreja na cidade?

 

R – Tinha. Eu fui na igreja que eu fui batizado, agora, com meu filho, nós passamos por lá, em Boa Esperança do Sul. Entramos na igreja onde fui batizado e lá, no Patrimônio, que meu pai... A casa de meu pai é vinte e cinco metros longe da igreja. A igreja tá lá ainda. Só que virou só pasto, então, não vai mais. Cresce a população quando a cidade começa a pôr indústria, estas coisas. Mas não tendo...

 

P/2 – Mas naquela época vocês iam à igreja dia de domingo?

 

R – Aquele tempo era assim: Você ia fazer o catecismo pra fazer a primeira comunhão. Não é hoje. Hoje implantaram um negócio na religião católica que eu acho que é judiar da criança. Ficar dois anos pra fazer a primeira comunhão! As meninas ainda vai, mas os moleques não conseguem. Eles enjoam. Eu falo porque é verdade. Muito, dois anos! Naquele tempo a gente ia todo domingo no catecismo, tinha uma moça que dava catecismo. A gente aprendia tudo pra fazer a primeira comunhão. Só que, eu até discuti com o padre. Discuti, não. No casamento de um parente meu, mandaram fazer umas perguntas pro padre, ele (___?) e tudo. Porque mudou. Assim, vinha o padre da cidade, tinha vinte e dois quilômetros, vinha às vezes, no fim do mês, fazer uma missa lá. As crianças, pra receber a primeira comunhão, tinham que saber rezar. Tinha aquela moça que ensinava o catecismo, tinha os dez mandamentos. Hoje não tem mais. Tinha os dez mandamentos. Você ia de noite confessar com o padre. Contar o que você fez. O padre gostava de confessar mulher. (risos).

 

P/1 – Mas você se confessava?

 

R – Confessava. Mas tinha que contar o que fez. Se respondeu pro pai e pra mãe. Sei lá se isto vale. Só que você confessava a noite e a partir daí você não podia botar mais nada na boca. Você levantava de manhã em jejum pra tomar a comunhão. E as pessoas que vinham de longe faziam a mesma coisa. E hoje dá comunhão qualquer hora. Perguntei pro padre: “por que vocês mudaram? Ou ta certo agora ou estava errado antes?” Se ia comungar e ninguém comia nada e tal. Hoje, não. Aqui é uma igreja, aqui é a rua, aqui é um boteco. O cara tá enchendo a cara de pinga, de cachaça e vai tomar a comunhão lá. Ta certo isso? Ou tava errado e acertaram ou tava certo e é errado. Então era assim, né, comungava. Tudo assim, tudo bonitinho. Naquele tempo praticamente pra gente existia só duas religiões. Só a católica e protestante. Existia mais algumas, mas são religiões que foram criadas protestando contra a católica. Já era protestante. Esta, testemunha de Jeová, depois que eu estava na cidade e tinha um pedaço de casa lá, apareceu duas moças pra alugar uma casinha, que era minha. O que era? Testemunha de Jeová. Uma é do Rio de Janeiro e outra de São Paulo. Pra alugar, eu falei: mas isto não é uma casa. Tinha uma fábrica de doce que ele fez lá depois não usava. Usava salão de boteco. Aquilo lá tava parado. Elas quiseram alugar. “Ah, mas nós pomos um fogãozinho com álcool pra gente cozinhar uma comidinha aí, e a gente vem trabalhar aqui. O senhor pode alugar que nós pagamos. Que nós somos da religião tal e todo mês cai o nosso pagamento no banco”. Então vinha o pagamento delas. E daí, o que você quer agora, da parte da roça.

 

P/1 – Da roça você falou que estudou. Fez até o terceiro ano. Conta um pouco pra mim como era. O senhor falou que também ensinava pra outras pessoas.

 

R – Não tinha negócio de ônibus, não tinha automóvel, nem nada. Pro lado de cá era cafezal, vinte e dois quilômetros era café. E pra lá, esta fazenda, que depois que eu estava em São Paulo, que fui saber que o dono da fazenda era primo do Adhemar de Barros, este que foi governador de São Paulo. Era o João de Moraes de Barros. A fazenda só para colonos tinha quinhentos casas. Era um tipo de uma cidade. Depois vou contar negócio do armazém. Isto está pra frente. Na fazenda tinha cada sessões e cada sessão tinha uma escolinha para as crianças estudarem. Só que no dia de reunião e de pagamento, a fazenda tinha um jipe, um jipão velho, que levava as professoras pra receber o pagamento de Cafelândia, que ficava quase trinta quilômetros da fazenda e do Patrimônio, onde meu pai estava, eram vinte e dois. A fazenda dava um jeito de levar as professoras e a professora que estava neste Patrimônio, que morava vizinho de meu pai, que eu estava na escola, eu estava no segundo ano ia pra roça depois que saia da escola, chegava de tarde ela vinha e falava: “Brasílio, amanhã você vai dar aula que eu vou pra Cafelândia”. Porque ela aproveitava o jipe pra ir junto com as professoras. Tanto no dia de pagamento como no dia de reunião. Então, naqueles dois dias por mês eu que dava aula. Pro primeiro, segundo, terceiro ano. Por quê? Tudo que ela passava eu já sabia. Desenho que ela passava na lousa pra eu fazer a prova. “Ó Brasílio, você já está terminando”. “Daqui a pouco”. Quando eu terminava ela apagava a lousa e falava: “Agora vocês vão copiar do Brasílio que o dele está melhor que o meu”. Então eu dava aula pro primeiro, segundo e terceiro ano. Depois de um tempo ela foi transferida para Cafelândia. Era uma professora municipal, não era estadual, mas era boa. Ela era escura, cor preta, mas excelente. Chamava-se Durvalinda Correa. Mas ela era uma professora, e morava vizinha de cerca com meu pai. Não tinha nada de muro, era cerca de pau a pique em Patrimônio. Era queria me levar pra cidade pra morar junto com ela e continuar estudando, porque ela tava vendo a minha cabeça. Ela tinha arrumado pra mim pra praticar como telegrafista da estrada de ferro. Mas meu pai não deixou e não fui. Por quê? Se ele amanhã ou depois perder depois os outros. “Ah, o senhor mandou o outro e nós ficamos aqui”. Então ele não deixou. As coisas eram assim, a gente obedecia os pais. Mas isto depois fui na roça trabalhar até 24 anos.

 

P/1 – O senhor lembra da estrada de ferro, do trem?

 

R – O trem a gente foi participar mais, conhecer bem, depois que eu saí da roça e fui trabalhar neste armazém da Fazenda (___?), que eu estava com 24 anos. Eu fui trabalhar lá e fui com as mãos cheias de calo. Teve um outro que debochou: “Este empregado que você arrumou!”. Com quatro meses eu passei na frente de três caras que já estavam há dois anos no balcão. Saiu o auxiliar do guarda-livros. O guarda-livros, que era o gerente e tinha auxiliar. Me puseram no escritório. Aí foi onde eu aprendi a fazer contabilidade. Lá era companhia limitada, partida dobrada. E era tudo a caneta.

 

P/1 – O que é partida dobrada?

 

R – A sociedade. Uma escrita simples é quando você é dono sozinho. Quando é partida dobrada é porque é sociedade. É mais complicado porque são duas partes. Eu fazia o correntista. Tinha o fornecimento da fazenda, mas quando ele se apertava: “Ô Brasílio, você tá folgado, faz isto pra mim”. Então ele foi me dando. Eu fazia o livro razão. O livro razão é o que fecha tudo. Mas era tudo na caneta. Eu tive depois na cidade de Cafelândia boteco onze anos. Não ia pagar despachante. Agora em São Caetano, depois vou contar, trabalhei quase oito anos pra ter o que eu tenho.

 

P/1 – Vamos voltar. O senhor falou que saiu pro armazém com 24 anos. Me conta até os 24 anos. Como foi pra sair da roça?

 

R – Eu saí da roça porque tinha um rapaz que vinha trabalhar no armazém, filho de italiano, conversou comigo em Patrimônio. Foi lá na casa de minha mãe tomar café, que ela fazia aqueles pãezões, mas fazia um pão gostoso! “Ó Brasílio, você vai sair empregado. Você não quer que eu fale pro homem que você quer ir trabalhar?”. Eu tinha loucura pra sair da roça. Mas tava vendo que não tinha vantagem nenhuma. Não tinha e acho que não tem. Ninguém dá valor para o pessoal da roça. E foi porque aconteceu aqui, eu ganhei três paradas aqui em São Paulo por causa de firma. Negócio de SENAI (Serviço Nacional da Indústria). Eu debati com o diretor. Eu conto coisa que já fiz. E ganhei. Aí eu falei: “Mas meu pai não deixa”. Assim, assim. Ele falou: “Você quer que eu fale agora? Acho que no fim do mês vai sair”. Quando veio o fim do mês, ia sair, eu falei com meu pai. Ele não queria deixar eu ir, mas aí falei: “Vou trabalhar lá, dinheiro vem em casa”. Que ninguém pegava em casa dinheiro. Aí ele deixou. Aí fui trabalhar no armazém. Entrei em 1945 e saí em 1954, foram nove anos. Aí eu passei, fui pro escritório fazer contabilidade. Aí em 1954 saí e fui pra Cafelândia, pra cidade. Fui trabalhar na prefeitura municipal. Eu tenho minha carteira registrada, pode olhar, de 1954 a 1958. Era fiscal. Quando tava fazendo lançamento de água na rua os empreiteiros iam com cartão(?) de ferro pra medir, a metragem. E eu tinha o meu livro. Eu que marcava tudo e entregava na prefeitura. Quando tava com quatro anos mudou de prefeito e me tiraram. (risos). Aquelas porcarias. Promete serviço pra outro. Saí. Só que neste intergrande eu pagava quinhentos cruzeiros de aluguel na casa que morava e ganhava mil. Mas tinha um terreno da prefeitura. Naquela cidade tinha cavalo na rua, porco, cabrito soltava, prendia e depois tinha que pagar uma taxa pra retirar. Aí tinha uma família que bagunçaram lá e eles iam sair e eu pedi a casinha pra morar. Pra não pagar aluguel. Não tinha nem luz. Mas pra mim tratar dos meus filhos, pra não faltar. “Eu vou lá e não vou pagar aluguel”. E aí me deram. Quando prendia lá eles pagavam uma taxa. Tava em casa lá, abria lá e entregava a criação. Aí trabalhava de fiscal. Mas depois saí.

 

P/1 – O senhor falou que tinha até filho. O senhor nem me contou como conheceu a sua mulher. Como foi isto?

 

R – Minha mulher eu conheci desde que nasceu. Eu era quase dez anos mais velho que ela. Não é isto. Claro! O pai dela morava no Patrimônio que meu pai morava. O pai dela tinha uma fazendinha encostada no Patrimônio. Cada filho que casava, formava cinco mil pés de café, e dava pro filho desfrutar pra não ir embora da fazenda. Não era grande, era uma fazendinha. Então ele, o meu sogro. Meu sogro! Naquele tempo nem sonhava em ser sogro. Aí ele tinha os cinco mil pés e outro irmão dele tinha cinco mil pés e não era eles que iam trabalhar na roça. Então meu pai pegou de amear a colheita de café. Cinco mil pés de um e cinco mil pés de outro. Dez mil pés. E a gente, como falei, plantava arroz no meio e tal e a colheita era dividida. E comprava na venda dele. Nem sonhava que ia ser minha mulher. Ainda falei pra ela: “um dia eu ajudei a tratar de você”. Não é verdade? Trabalhava pro pai dela, pro meu pai. Meu pai dividia tudo. O dinheiro ficava no armazém, não sobrava dinheiro pra comprar nem roupa nem nada. Mas aí quando eu fui pro armazém ela estava com 15 anos. Eu comecei a namorá-la lá no Patrimônio. Namoramos cinco anos e casamos.

 

P/1 – Pediu em namoro? Teve que pedir pro pai dela?

 

R – Pedi nada. Nada, era tudo criado junto. Quando fui casar falei pro meu sogro: “Ah, desculpe”. “Ah, não, você é de casa”. Estava aquele monte de gente. Na minha casa treze, na outra quinze. Só nas duas casas vinte e oito irmãos. Só que eles tinham um nível de vida diferente da gente. Não era muita coisa também. Tinha muito filho também, gastava. Mas o meu pai sem nada, com treze... Minha mãe, eu lembro, tinha vezes que ela ia fazer mistura pra jantar. Tinha galinha caipira. Tinha vez que tinha ovos. Por exemplo, tinha que fazer mistura pra quinze pessoas e tinha sete ovos. E fazia mistura para os quinze. Ela fazia um omelete que ela acrescentava os sete ovos, tinha sempre cebolinha plantada e coisa, picava e tal, ela misturava farinha de trigo e fazia uma omelete numas panelonas grandes que nós tínhamos. Ficava desta altura. Aí ela cortava a omelete em quinze pedaços. Matava frango às vezes. Eram quinze pessoas: treze irmãos, meu pai e minha mãe. O que acontecia? Ela matava dois frangos. Dos dois frangos ela fazia quinze pedaços. Porque se cortasse assim, um comia mais e outro menos. Então eram quinze pedaços. Um não ia comer dois senão o outro ia ficar sem. Não tinha briga, era aquela coisa certa. E depois comecei a namorá-la e depois de cinco anos casamos e fomos morar neste armazém que eu trabalhava. Meus dois filhos mais velhos nasceram lá. A minha filha e este que é o marido da Rose. Depois eu saí, fui pra Cafelândia e nasceu mais uma filha e um filho.

 

P/1 – E o primeiro filho? Era muito difícil ser pai naquela época que você ainda tinha pouca coisa? Como foi o primeiro filho? E o parto?

 

R – O parto?

 

P/1 – Foi feito em casa?

 

R – Em casa. Tinha aquela mulher, não entendia nada, tinha coragem pra assistir mulher. Mas se acontecesse qualquer coisa não sabia nada. Os dois, depois que eu mudei pra Cafelândia, os dois mais novos: a Marli, que está aí e o Marco, o caçula, já foi diferente. Lá já tinha uma mulher que tinha preparo pra atender. Ela vinha, chegava em casa assim, ela sabia. Estava preparada, falava: “aqui tá faltando”, dava uma injeção. Um atendimento diferente. Inclusive aqui em São Paulo a minha mulher a encontrou. Ela chamava Alice. Trabalhava na feira aqui. Mas era assim. Lá à noite, o meu caçula nasceu dentro de um salão, não era casa. Eu tinha um boteco e eu tinha que entregar a casa que nós morávamos, que era da prefeitura. Eu saí, mas não me pediram a casinha. Eu fiquei morando. E é por isto que eu comprei o boteco. Daquele dinheiro que eu economizei de aluguel. Essa que é a vida. Tinha um boteco que tinha um português que já fazia dez anos que tinha um boteco. Tudo pegado, divisa de muro. E eu comprei o boteco e os fregueses do português começaram a passar pra mim. Olha só. E foi diminuindo, aí ele pôs o boteco à venda. Fui lá de noite e comprei o boteco dele e acabei com a minha mercadoria, vendi tudo e pus minha mudança dentro do salão. Porque eu tinha que entregar a casa da prefeitura. E este meu filho, Marcos, nasceu dentro do salão. É sim. Eu lembro que certa hora, de noite, a mulher começou a se queixar, tal, tal. A mais, você tinha que ir a pé. Ela morava do outro lado da cidade. Pra chamar não tinha nada de condução. Não era hoje, não. Aí foi aguentando e quando foi umas três e meia pras quatro horas eu fui lá. Quando amanheceu o dia veio. Só que ela já tinha preparo, estudo. Os dois lá foi diferente. Não é fácil, não.

 

P/1 – Queria que o senhor falasse um pouco do armazém. Como que era o armazém? O que vocês vendiam?

 

R – Vocês, não. Eu era empregado.

 

P/1 – Você era empregado.

 

R – Neste tempo não existia supermercado, chamava-se armazém “Secos e Molhados”, mas vendia de tudo. Desde comida, roupa, panela, peneira, rastelo, sapato. Inclusive eu. (risos) Era uma arremessa de sapato e depois o gerente acabou. Depois que viram a minha capacidade deram valor. No tempo da colheita de café a (__?) migração destes nordestinos pra pegar gente pra ajudar a colher café. Só o povo da fazenda não dava pra fazer a colheita toda, porque era apertado e passava o tempo de colher. Aí tinha um homem, acho que era mineiro, chamado Germani. Ele que era agenciador buscar gente. Aí foi vendendo uma remessa de sapato. E numa caixa que ficou lá ficou um pé 39 e um 41. (risos). O gerente: “Ah, mas vocês também!” Tal e tal. “Que não olham.” E ninguém respondia nada. E eram sete lá no balcão. Eu já tava no depósito, mas dia de sábado trabalhava o dia inteiro no balcão. Tinha que ajudar. Só dia de semana que ficava no escritório. E ninguém respondia nada. Falei: “mas burro foi quem levou e não voltou a trocar”. Não é verdade? Eu não falei certo? “E você quer saber? Eu vou vender este par de sapatos. Vou vender pra tu ver”. E era, era solteirão. Só que era legal. E ele viu minha inteligência. Aí, este tal de Germani que vinha agenciar gente entrou no armazém e falou: “O cara pobre é duro. Nego rico tem cinco, seis pares de sapato. Quando ele vai viajar já tem o sapato que ele já usou. Agora o infeliz do pobre vai comprar um sapato no dia que vai viajar. Se machucar ele está desgraçado”. Aí e tal. “Por quê?”. Amanhã eu vou lá viajar pra pegar gente aqui nas imediações, nordestinos. Falei: “Ó, seu Germani, estão fazendo agora, cada remessa de sapato eles fazem uns três pares com um é meio diferente do outro”. “Mas você tem aí?” Falei: “Olha, tinha um, não sei se ainda tá”. “Vê pra mim, rapaz”. (risos) E o gerente escutando. “Parece que tem um pé um pouco maior.” Era justamente que de cada remessa, cem, duzentos pares vem dois ou três com uma diferença do outro. Ms não é nada. Um pé 39 e outro 41. Ficou pra trás. E o gerente: “Você!”. E eu falei que ia vender. Pegou, já apoiou. Falei: “Qual o pé do senhor que é maior? Acho que vai dar certo para o senhor”. Já dei um par de meias, que dava pro cara experimentar. “Meu Deus do céu! Deus que abençoe estas pessoas que estão fazendo isto”.  E andou. “É meu.” Eu falei pro gerente: “Vendi, não vendi?”. Bobo é aquele que levou e não voltou pra trocar. Não é verdade? Dá o alarme. Não, vender. E é assim.

 

P/1 – O senhor falou agora da migração nordestina. O que mais você lembra disto?

 

R – Vinha um monte de gente. A migração levava cem, oitenta pra fazer a colheita. Tinha um rapaz que casou depois, era solteiro. Mas deu certo que casou com uma prima da minha mulher. Eles eram mais velhos. Ele trabalhava no balcão e começava a especular as pessoas. Vinham aquelas pessoas bem, a mulher lá, assim, mulher com quatro filhos mocinhos que o marido largou. Foi embora pra trabalhar. Tava lá passando fome no nordeste. O rapazinho estava fazendo compra e ele começava a indagar a vida da pessoa. “Você não tem pai?” “Tenho.” “Por que ele não veio?” Assim, tal. “Seu pai e sua mãe brigavam?” “Não, não brigavam não.” Eu falei: “Brigava sim”. E ele olhando em mim. “Por quê?” “Eu vi lá o dia. Onde vocês moravam não tinha estradinha por cima assim?”. Este outro que estava servindo no balcão. Aí: “Tinha”. Então. E eu tava passando lá. “Ah, bom, aquele dia se a minha mãe não corre, meu pai matava ela com o pilão. (risos). (__?) “Mas como você faz estas coisas? Naquele dia se minha mãe não corre... O rapaz você fala cada coisa. E foi assim. Aí nós éramos solteiros.

 

P/1 – No armazém.

 

R – O gerente também era solteiro. O dono foi embora pra cidade. Ficou aquela casona grande, de madeira. Nós dormíamos lá, éramos solteiros. Tinha um professor que vinha da cidade pra dar a lição no bairro e não tinha onde ele se hospedar. E todo dono de armazém deixava ele se hospedar. Chamava-se Elias. Se hospedava lá também. Tinha uma cozinheira e tinha uma preta velha lá, coitada, não aguentava nem com ela mais. E o gerente era meio enjoado pra comida, acostumado a comer quando comia na casa do patrão comida bem feitinha. Quando foi um dia a mulher disse que não ia mais trabalhar, que não aguentava. Ficou sem cozinheira. Falei: “Agora quero ver quem vai fazer comida”. Aí tinha um cara que estava sendo auxiliar dele: “Eu vou, porque minha mãe quando morreu lá na roça, meu pai fazia o almoço e levava na roça. Eu sei fazer”. Então você vai fazer comida. Fez comida. E o gerente era meio enjoado pra comer. Quando foi na hora do almoço: “Pronto, o almoço tá aqui. Vamos almoçar”. Quando ele tirou a comida falei: “O gerente não vai gostar”. Começou a comer, este cara que tratava ele de pacó. Ele tinha apelido de Pacó e gostava de tomar umas pingas pacó, que foi fazer a comida. Ele perguntou pro gerente: “Que tal a comida Mário?”. O gerente em vez de responder pra ele falou: “O que você acha Brasílio?” “Ele perguntou pra você, não pra mim.”  “Mas já que você perguntou pra mim vou falar uma coisa.” “Pode falar”. “Diz que ficava com o pai dele fazendo comida. Lá em casa nós éramos treze irmãos, sete homens e seis mulheres. Sobrava mulher pra ir pra roça. Como eu ia aprender a fazer comida? Mas melhor do que esta eu faço”. E ele então: “Amanhã você vai fazer”. Quando era dia de jogo ou dia de domingo, que eu estava em casa, eu olhava minha mãe e minhas irmãs fazerem comida. Parece que tem uma coisa na cabeça assim de um dia você precisar. “Se é assim, acho que melhor do que esta eu faço.” “Amanhã você vai fazer.” “Vou.” Aí fiquei. Em vez de ir pro armazém de manhã, fui ficar fazendo. Naquele tempo era fogão a lenha, aquele bulão de esmalte pra fazer o café. Aí fiquei fazendo almoço. Quando foi na hora do almoço falei: “O almoço tá pronto”. O professor chegou lá da escola. Fiz o mesmo tipo de comida que ele fez. Quando o gerente começou a comer, falei: “O desgraçado vai gostar da comida”. Tava tirando aquilo normal. Aí ele olhou pro outro e falou: “É, Pacó, esta comida aqui dá pra se comer”. “É, mas também minha mãe...”, não sei o quê. Você disse que ia fazer e eu não sei nada. E continuei fazendo comida. E todo mundo comia sem reclamar. Fiquei uns vinte e sete, vinte e oito dias fazendo comida. Todo mundo tomava café. Só que um dia o gerente caiu do cavalo. Quando foi dia de sábado, o pagamento era feito lá, o dono do armazém pegava o dinheiro na cidade e vinha fazer o pagamento. Então eu levantei cedo, o gerente levantava um pouco mais tarde, oito horas. A gente levantava cedo. Sei que levantei, fiz café, dia de sábado, pus café, aquele bulão de esmalte, pus na chapa pra não esfriar. Lá na ponta, pra nem esquentar demais, nem esfriar, pra conservar. O gerente passava, tomava café. Quando foi naquele dia o dono do armazém veio e trouxe a mulher dele, dona Hilda. Ele chegou lá eu estava na cozinha, tinha feito café, ia por lá, ela falou: “Brasílio, você já fez café?”. “Já”. “Vou experimentar o seu café. Nossa que café gostoso! Melhor que o meu. Então, Brasílio, hoje o Paulo me trouxe porque eu vou ficar aqui pra fazer a comida senão vai apertar no armazém.” Tiraram um empregado e acho que eu era o mais esperto pra vender. E contava as horas que vendia. Vendia sessenta, setenta, oitenta de compra, centena por dia. “Então você vai pro armazém”.  Você já fez (___?) e tal. E peguei, entreguei a cozinha pra ela. Ela tomou café, achou gostoso e eu fui pro armazém. O gerente levantou, tomou café, chegou lá e falou: “Brasílio, vou falar uma coisa pra você: O seu café é bom, sua comida é boa, eu não reclamo de nada. Mas, rapaz, tem um negócio, parece que entra uma mulher na cozinha parece que muda o gosto das coisas”. “Por quê?” “Ah, dona Hilda chegou, fez um café que parece que pega aquele gosto na garganta.” “Rapaz, mas o café que você tomou fui eu que fiz!” (risos). Não é mentira isso. Como eu vou inventar? “Então vamos lá”. Brincava como se fosse… Ele era o gerente, mas a gente tinha liberdade. “Então vamos lá”. “Dona Hilda, a senhora jogou aquele café que eu fiz?”. “Que é isto, Brasílio, jogar é pecado!”. “É que o Mário disse que a senhora fez um café. O meu é bom, mas o da senhora é melhor.” “É nada. É do dele.” (risos). Pra você ver como é a coisa, ele, “desculpa”.

 

P/1 – Você falou que todos vocês eram solteiros. E o que vocês faziam? Vocês trabalhavam? Saiam pra se divertir?

 

R – Não.

 

P/1 – Só trabalhavam.

 

R – Não tinha diversão. Era sozinho no armazém. O meu pai morava no Patrimônio há cinco quilômetros longe de lá. Quando comecei a namorar vinha de quinta-feira, trocar de roupa e namorar. E ia embora. Depois que eu comprei um cavalinho com muito custo. Era a pé. Lá não tinha nada. Só tinha o armazém da fazenda e outra vendinha que era fora e um boteco. Não tinha nada pra se divertir. Nada. Eu vinha pra casa do meu pai sábado à noite e segunda-feira levantava cinco e meia e ia embora a pé. Sete horas estava chegando lá e ia trabalhar.

 

P/1 – Você não chegou a me contar do trem. Você falou que depois do armazém foi ver o trem.

 

R – Eu ia contar do trem onde meu pai morava. Eu não vi isto daí porque foi quando fizeram a linha Douradense, de passar o trem, ele que contava. Então não tinha trem. Todo dia que anunciava que ia passar o trem os patrões dispensaram o pessoal no meio do dia pra ir ver o trem. Justamente tinha um trem soltando umas faíscas. Eles punham uma madeira que quando queimava soltava faíscas. Então a chaminé lá em cima, tocada a fogo. Você sabe isto. Chamava trem de fogo. Ia um cara enfiando lenha e queimando o fogo. Não podia parar a caldeira. E punha madeira que soltava as faíscas. E os fazendeiros aquele pessoal ansiava pra ver o trem. Não tinha, só tinha trem até Bauru. Mas de lá tinha cem quilômetros pra chegar em Bauru. Quando foi inaugurar a linha vieram oito horas da noite. Quando o trem veio mesmo não ficou um, correram tudo com medo! É assim. Foi tudo assim. Não é mentira.

 

P/2 – Você também correu com medo?

 

R – Eu não. Nem tinha nascido aquele tempo, que lançou a linha douradense. Araraquara é linha douradense. E pro lado de cá já era outra. Andei de trem quando foi pra nós irmos pra Cafelândia. A mudança foi numas carroças e nós viemos de trem até Bauru pegar o trem pra ir pra Cafelândia. Fazia um ‘V’ pra voltar. Cem quilômetros pra voltar, cem pra chegar.

 

P/1 – Como que o senhor foi parar na prefeitura?

 

R – O cara que era prefeito naquele tempo, chamava-se Justino Franco, era gerente de uma fazenda grande perto de Patrimônio, Fazenda Cambará. Esta que eu trabalhei no armazém chama fazenda (__?). São fazendas grandes, com muita gente. Então este tal Justino Franco, ele era gerente da fazenda lá, aí ele passava lá. Neste tempo eu já era casado, já tinha dois filhos quando saí do armazém. Meu sogro falou se não tinha um serviço na prefeitura e eu fui lá e entrei pra ser fiscal de água.

 

P/1 – Como fiscal você fazia o quê?

 

R – O empreiteiro ia fazer um encanamento na rua, então as redes, as derivações, eu media tudo e marcava no livro da prefeitura quanta metragem foi lançada para o empreiteiro receber. Pra não deixar o cara roubar. Eu trabalhei quatro anos e me dispensaram.

 

P/1 – E nesta época da prefeitura você lembra de alguma história boa?

 

R – Eu lembro do que eu fazia. Eu trabalhava de fiscal, mas depois que acabou o lançamento de água passei a não ser fiscal. Distribuía aviso de água, aviso de poste, casa. Se tivesse que fechar água eu ia. Tal, tal. Depois saiu de férias o cara que era do almoxarifado, eu fui trabalhar lá. Qualquer serviço que pusessem eu trabalhava. Tinha hora que tinha que dar bola pra cachorro, pra matar. Sabe o que é bola? Não sabe.

 

P/1 – Veneno.

 

R – É, uma bolinha de carne. No interior tinha aquele monte de cachorros tudo na rua.

 

P/1 – Saiu da prefeitura e conseguiu a casa pra não pagar aluguel. Conta então um pouco do boteco.

 

R – O dinheiro que eu comprei o boteco foi que economizei de aluguel. Parece que é uma benção de Deus. Aí a mulher falou: “E agora, o que você vai fazer?”. É duro, né. E a casinha ficava de um lado que era no pasto e a prefeitura bem lá em cima. Aí eu falei: “Aquele homem tá vendendo aquele boteco. Se o meu dinheiro der, vou comprar”. Ela falou: “E se não der?” “Se não der fazer o quê? Se eu comprar por quatro mil e vender por três, não devo nada pra ninguém”. Não é isto? E aí fui conversar com o homem. Tal e tal. “Porque eu tenho uma freguesia boa.” Assim, assim. Não sei o quê. Falei pra ele: “O negócio é o seguinte: você pode ter freguesia boa, mas você não me vende freguês. Você pode apontar freguês que é bom. Porque às vezes vai com a sua cara e não vai com a minha. Não é verdade? Mas eu já tinha trabalhado no balcão. Não era meu. Mas no armazém, eu fiz coisas lá que empregado que tava lá há oito anos não fazia. Eu passei por cima. Sabe como é? Deixei o cara pra trás, que fazia coisa. Fiz. Tinha uma mulher lá que comprava e botava no armazém na fazenda. Uma mulher assim, ela e o marido, só que ela dava pensão para os peões. Aqueles peões que trabalhavam, assim, e ela comprava bastante roupa, costurava e vendia para as pessoas. Fazia calça, camisa. Pano pra trabalhar na roça e vendia. Mas a mulher quando vinha no armazém ninguém queria servi-la porque ela xingava todo mundo. Enjoada mesmo. E quando eu tinha entrado lá, porque era muita gente, e pra saber quem chegou primeiro tinha um espetinho e a pessoa ia chegando e fincando o papel ali. Então quando você puxava por baixo fulano de tal. Aí esta mulher chegou lá quando fui puxar o papel, puxei o papel dela, chamei ela e ela falou: “É você que vai me vender?” Falei, “É”. “Não vou comprar, não. Já não fui com a sua cara dele”. Deste jeito. Então eu falei: “Mas o papel da senhora está aqui. Então vou devolver pra pegar outro”. E tal. “Porque eu não compro.” O dono do armazém estava lá aquele dia porque era dia de pagamento. Chamou: “O senhor Paulo, quer saber, este caixeiro não vou comprar. Só de olhar na cara dele, não fui com a cara dele”. Ela fazia com todo mundo assim, se ela não fosse com a cara. “Ah, dona, mas ele é empregado. Ele trabalha igual os outros. Aí é regulamento, como vai fazer? Vai tirar do outro que está vendendo? A senhora tem que comprar.” “Mas eu já não fui com a cara deste cara.” E eu falei assim: “Vou te pegar de morro abaixo você vai ver quem sou eu”. Aí ele falou: “Vai comprar”. Ela falou: “Vou comprar, mas sei que não vai dar certo, que eu não fui com a cara”. E ela fazia compra de roupa, destas assim, corte, pra fazer camisa e costurava. Ia comprar mercadoria e pano. Então, vendendo, cheio de gente, precisa ter as peças abertas no balcão pra escolher pano. Põe lá, outro escolhe, guarda outro. É um sacrifício. Eu falei: “O que a senhora vai comprar primeiro?” “Vou comprar tecido, hoje vou comprar bastante. Mas não to indo com a sua cara”. Falei: “A senhora vai comprar pano primeiro?”. Olha o que eu fiz, nem o gerente, nem ninguém falou nada pra mim. “Como a senhora entende de pano, eu sei que a senhora é sabida!” Comecei a crescer ela. “Como com este bando de gente eu vou por peça pra senhora escolher aqui? Eu vou dar licença pra senhora entrar pro lado de dentro do balcão, a senhora vai vendo as peças e fala quantos metros quer do quê. E a senhora mesmo põe lá que eu vou cortando.” “Mas você vai fazer isto comigo?” “Vou.” “Mas como os outros nunca fizeram isto?” “São os outros, hoje está apertado.” E a mulher começou a amansar. Foi lá escolher os panos. “Este aqui eu quero.” “A senhora é sabida. A senhora conhece pano bom.” “Claro que eu conheço.” E valorizando ela. Tinha pano que custava dois cruzeiros e vinte centavos. Eu punha o preço de dois e 40. (risos). E ela foi comprando. Comprou, comprou, aí foi comprar mercadoria. Quando terminou e tal, a mulher amansou. Ela amansou, comprou, dei aquela liberdade pra ela e saiu pra fora comprar mercadoria. E no fim falei: “Como a senhora comprou bastante tecido hoje vou dar um presente pra senhora: dois sabonetes”. “Mas você vai fazer isto? Como os outros nunca fizeram?” E o gerente escutando. Ele estava vendo. Aí tal e tal. Peguei e embrulhei dois sabonetes. Ela comprou, falou: “Seu Paulo, pelo amor de Deus, me enganei completamente. Desculpa. O dia que eu vier e este rapaz não estiver, não vou comprar com desgraçado nenhum, só com ele”. Aí eu falei pra ele: “Eu dei dois sabonetes, mas é que eu tirei o preço do sabonete e ela bancou a boba”. Entende? Eu não dei. Se eu não tivesse dado ela não ia comprar com mais ninguém. Todas estas coisas. Tinha a mulher do gerente chamada Petronilha, a mulher do doutor João de Moraes de Barros, dona Jandira, que era dona da fazenda, uma mulher bonita. Nunca vi, uma mulher dos seus 50 anos, a primeira mulher que eu vi usar calça comprida foi ela, na minha vida. Ela era sócia. O dono da fazenda era sócio. Ela chegava, comprava as coisas lá, separava do lado e “marca aqui”. Ninguém tirava uma caixa de fósforos sem marcar. Era regulamento. E ela pegava escada, subia com aquela calça comprida, tirava peça de pano, a Dona Jandira. Então a dona Petronilha, que era mulher do gerente, mas é nojenta pra comprar. Meu Deus do céu! Tinha vez que ela comprava, com aqueles dinheiro miúdo, com aquela bolsa, comprava, enfia a mão no bolso pegando estes dinheiros que não quero pegar neste dinheiro. Deste jeito, o bolso na frente da saia. Ela mandava um cocheiro da fazenda pra buscar duzentos gramas de bacalhau no armazém. Ligava pro gerente: “Você tem bacalhau?” “Tem.” “Eu vou mandar buscar aí.” Mandou o bacalhau e daí a pouco voltou o cocheiro que ela mandou devolver. “Vocês joguem isto no lixo que não é bacalhau.” “Logo pra ela que vai vender este bacalhau seco, aquela coisa.” Ela ligou. “Mas é o que tem. Este daí é bom.” “Mas esta porcaria, você pode jogar pra cachorro.” Tinha a caixa de bacalhau que ela abre e resseca. Eu falei: “Daqui a três dias se ela mandar buscar mais bacalhau eu vou vender pra ela e ela vai ficar contente”. Peguei a caixa de bacalhau, pus água e sal, e dei um banho e fui pondo os bacalhaus dentro da caixa certinho e fechei. Em três dias o negócio inchou e ficou desta grossura. Maciozinho! Ela ligou se tinha chegado bacalhau e eu falei pra ele: “Pode falar que chegou”. “Ah, rapaz, você vai criar uma confusão pra mim.” “Não, eu que vou servir.” Quando chegou o cara aquele bacalhau desta grossura eu tirei de logo. “Ah, Mário, agora o senhor criou vergonha.” Era o mesmo bacalhau. Ele falou: “Você faz cada coisa”. (risos) Era assim.

 

P/1 – E no boteco. Tem história do boteco?

 

R – Lá do armazém também tem um negócio. Os caras compravam saco de arroz, saco de feijão, saco de açúcar. As mercadorias picadas eles faziam uma nota de entrega e as carroças vinham. Dia de segunda tinha dois trabalhando no depósito separando aquelas mercadorias. Vinham quatro, cinco, seis carroças pra levar e distribuir. Cada um com seu cartãozinho. Aí tinha um cara que comprou um saco de arroz. Até eu aprendi a expurgar feijão lá. Expurgar feijão pra ver se tinha bicho. Hoje todo feijão que a gente come é expurgado, pra não criar bicho. Você come feijão com bicho? Não come porque é expurgado. E lá o feijão (__?) sessenta dias. E nós expurgávamos dentro do armazém podia ficar o ano inteiro que não criava bicho. Eu expurgava feijão naquele tempo. O cara comprou o saco de arroz separado, tinha o bica corrida, o (__?) arroz, aquela coisa. E também fazia bica corrida pra baratear mais um pouco pra vender pra pessoa. Mas o cara tinha comprado um saco de arroz separado. Quando foi na terça-feira que foi entregar as carroças, entregou. Depois veio na quarta-feira com o talãozinho entregar tudo quebrado pra ele. Ele comprou separado. E o rapaz que entregava lá. Eu que paguei tá aqui. Meu arroz tá aqui. E eu paguei e tal. E aquela discussão. E o rapaz não sabia o que falar. Eu pensei: quer ver eu acabar com esta discussão? Cheguei e falei: “O senhor tem razão, mas o moço aqui não tem culpa”. “Por que você está falando isto?” “Porque acontece o seguinte: a fazenda junta estes carroceiros que não sabem nem carregar a carroça, e o seu saco de arroz saiu daqui com arroz separado, só que o danado deste carroceiro, que não sabe trabalhar, não vai aprender aqui, pegou e pôs o saco de arroz por baixo, e pisa daqui e dali e quebrou todo o arroz.” “Você sabe que você tem razão? O rapaz não tem culpa. Vou lá à fazenda. Este carroceiro vai ser mandado embora.” O cara acreditou. É assim. O meu boteco eu abria sábado sete horas e fechava domingo seis horas. Então ficava a noite inteira vendendo buchada americana pra turma comer.

 

P/1 – Como é buchada americana?

 

R – Mortadela esquentada no fogo a álcool. Eu tinha uma maquininha de picar mortadela, aquela (__?) (risos), eu regulava bem fininha. “Aqui dá gosto neste boteco. O cara põe tanta mortadela que está caindo até pra fora”. Era assim. Tudo acontece, sabe.

 

P/1 – O que mais vendia no boteco?

 

R – Umas coisinhas. Pasta de dente, escova, mortadela, linguiça. Não tinha nada de churrasco, estas coisas. Só que eu não vendia só a mercadoria. No natal, eu entendia de porco, meus fregueses, já tinha o pessoal da estrada de ferro que era meu freguês. E da prefeitura, daquele lugar. Então no natal eu matava vinte, vinte e cinco leitões e oferecia para os meus fregueses. Eu ia nas fazendinhas pra comprar na véspera, limpava tudo e entregava. A leitoa limpinha. Cabrito. Isto tudo eu vendia. Eu vendia rádio. Peguei um catálogo aqui numa fábrica de rádio em São Paulo, nem sabia o que era, eu comprava rádio, mandava dinheiro no envelope. Era perto da Estação da Luz ali, numa rua ali, perto da Rua Santa Rosa. Às vezes subia o preço do rádio e eles mandavam o rádio e mandavam a diferença. Eu punha uns quatro, cinco, seis lá e vendia. Trocava a troco de porco. Fazia rolo.

 

P/1 – O senhor já conhecia o rádio? Já tinha rádio na casa de seu pai? Quando foi a primeira vez que você viu um?

 

R – Não, já conhecia rádio. Aí já era em Cafelândia. Eu vendia. “Você tem um porco, quer fazer rolo?” “Vamos fazer.” Eu entendia aquilo, tinha experiência. O porco dava quarenta quilos, eu falava: “Não dá mais que trinta”. “Quanto é o rádio?” “É sessenta.” “Você vende a prestação. Você me dá o porco no valor de trinta mil”. Eu fazia quarenta e deixava um pedaço de carne pra comer na minha casa a semana inteira. E ele ficava me devendo trinta, dando cinco mil réis por mês. E vendia tudo assim. Não é só ficar vendendo pinga. Vendia leitoa, cabrito, tudo no natal. O chefe da estrada de ferro ia casar uma filha, seu Garrido, falou: “Brasílio, a gente é freguês aqui também, chegaram um de novato, que o boteco nosso, este homem aqui ninguém pode com ele”. Eu fazia alguma coisa pra pobreza. Sabe o que eu fazia? Este pessoal que anda na roça tudo remendado, sabe? Acabou a cidade era cafezal. O cara chegava dia de semana, uma hora da tarde, tudo sujo. “E aí, seu Brasílio, tô nervoso”, tal, tal. “Por quê?” “Ah, a minha mulher tá tomando um remédio e acabou e eu vim aí, meu patrão não tá aí, tá viajando não sei pra onde e ela não pode parar de tomar. Como vou fazer?” Eu falava assim: “Você vai levar o remédio”. E do outro lado da cidade tinha uma farmácia que era a maior que tinha lá. E era conhecida da gente. “Você vai levar”. “Mas como, seu Brasílio?” Escrevia um bilhete para ele entregar pro dono da farmácia pra entregar no nome dele e marcar na conta dele. E falava que no dia do pagamento, se ele não pagasse, podia me avisar que eu pagava. “Será que vai entregar?” “Ah, entrega”. Ele chegava e voltava: “O homem não falou nada, me entregou. Só que ele falou que marcou na minha conta”. “Ele marcou na sua conta no dia do pagamento você vai lá e paga.” “Pode deixar que eu vou.” O cara ia todo contente. Tudo que fazia, né? O bem pra pessoa. Que o pobre se você faz, ele te agradece. Não é igual rico. E aí quando ele... “Já paguei”. Tinha ficado com crédito na farmácia. Um dia a mulher veio com dois frangões: “Seu Brasílio, um frango pro senhor”. “Mas não pedi frango pra senhora.” “Mas eu trouxe pro senhor dado.” Eu falei: “Quanto é?” “Não, se o senhor não pegar eu não vendo.” A pessoa dava tudo pra gente. Aquela alegria que você fazia pro outro. Não era só catar o dinheiro. Eu fazia bem para as pessoas. Dia de pagamento: “Vamos tomar uma cerveja?” “Não, senhor, vamos lá no nosso boteco. Vai dar lucro pra estes vagabundos aí?”. No nosso, não. Era desse jeito. Todo mundo admirava a freguesia que eu tinha. Aqui em São Caetano eu comprei... Depois vou contar o que aconteceu também. Eu comprei, porque eu vim com meus filhos. Os dois mais velhos começaram a ganhar bem, salário mínimo. Eu pagava cento e cinquenta de aluguel em dois cômodos, um quarto e uma cozinha. Em seis pessoas. Mais trinta de água e luz, cento e oitenta. Ganhava duzentos e oitenta São Caetano. Dava. Meus filhos não podiam dar nada. Mas aí o cara que comprou meu boteco e a casa e tudo, ficou me devendo três mil reais. Eu vendi por seis e quinhentos tudo, o boteco, a casa. Ele me dava três e quinhentos e o resto pagava em um ano. O cara foi daqui de São Paulo pra lá. Ele via meu movimento. Ele tinha parentes que moravam nas fazendas por lá. Ele via. E depois ele se enrolou e foi pra trás. Passou um ano não me deu uma prestação. Eu ia lá. “É, Seu Brasílio, caiu a freguesia, aquele jeito não tem jeito”. Quando passou um ano eu falei: “Seu Elídio, como vamos fazer? Não vendi pra tomar a casa. A casa não é sua, não passei a escritura pro senhor. Mas não vendi para isto. Eu quero meu dinheiro que eu preciso também lá”. “É, mas não dá.” Como ele tinha uma mulher, que acho que morreu, depois tinha uma mulher que era amigado, tinha dois filhos com ela, e já tinha os filhos da outra mulher, ele foi lá e comprou a casinha e pôs no nome das duas menininhas que ele tinha com a mulher. Ele morando na casa do boteco. “O senhor não quer me entregar aquela casinha pra pagar a conta? Eu recebo aquela casa no valor da dívida.” “Ah, mas aquela não pode vender, tá no nome das meninas de menor. Não pode.” Eu falei: “Pode sim. O senhor topa me entregar pelo preço da dívida da casa? Eu sei o que eu tenho que fazer”. “Se der jeito, eu toparia porque eu queria pagar o senhor.” Eu falei: “Vamos lá no juiz”. Eu fui lá propus. Só que tem o seguinte: “O senhor vai tirar a casa das meninas e vai passar esta aqui no nome das meninas. Que esta aqui vale mais e o juiz vai aceitar. Se entregar uma de menos valor o juiz não aceita porque tá tapeando as crianças”. “Mas será?” “Vamos lá”. Se for assim, assim. E quando foi no outro dia ele mandou um avaliador na casinha e veio na minha, que era a que ele não tinha pagado e aceitou. Fomos lá primeiro, assumir a casa em nome das meninas e depois passou a escritura da casa das meninas pra mim, no valor da conta. Eu fui num rapaz que era meio corretor e falei: “Eu tenho uma casa pra vender”. “Quanto você quer?” “Quatro mil.” “Você dá comissão?” Falei: “Não dou. O que passar de quatro mil é seu”. Ela vale mais um pouco. Deixei lá, com quinze dias o cara arrumou um comprador. Vendi a casa e peguei quatro mil.

 

P/1 – Quando o senhor veio pra São Caetano o senhor trabalhou numa loja de Cerâmica. É isto?

 

R – Fábrica. Eu entrei de guarda, que não achava outro serviço. Entrei. Aí quando fazia, deixa eu explicar, eu nunca entrei numa firma de guarda, mas eu cheguei lá, comecei a dar aula pros outros. Eu só fui chefe de guarda, tudo viu. O que eu falo, o cara estava há onze anos e meio no portão principal de entrada e saída, identificação de pessoas, ele faltou três dias, que ele estava meio doente. No quarto mandaram ele pra outra beira por lá e eu fiquei no lugar dele.

 

P/1 – Como foi pra começar na fábrica? Você fez entrevista?

 

R – Fiz, fiz. Fiz psicotécnico e tudo.

 

P/1 – Conta a história do psicotécnico?

 

R – Mas nem era em São Caetano, era em Santo André. Eu nunca nem tinha ouvido falar nisto. Nem nunca tinha entrado numa empresa, numa fábrica. Mas como fiz ficha lá e me mandaram fazer psicotécnico, fui a Santo André fazer psicotécnico. Nem em São Caetano tinha. Cheguei lá: “Vou fazer o quê?” Não tinha experiência. Tinha um moço, novo, que tinha estudado no interior, feito curso pra fazer contador. Ele vinha pra trabalhar em escritório. Ele vinha fazer psicotécnico também. Eu falei pra ele, ele estava esperando ser chamado: “Rapaz, estou numa situação que nunca entrei num lugar deste. Você que tem estudo vai fazer psicotécnico, quando você sair você me dá uma dica como e que é pra eu me enfronhar em alguma coisa.” “Ah, pode deixar. Se eu puder ajudo o senhor.” Daí a pouco chamaram, ele ficou lá e tal. Quando ele sentou falei: “E aí?” “Ah, seu Brasílio, vou falar pro senhor. Eu fiz, mas não entendi nada que fiz.” “Então estou desgraçado. Você que estudou não sabe. O que você fez?” Assim, e tal. A moça puxa da gaveta: “O que parece isto daqui?” Você tem que falar qualquer coisa. Pode falar que é um macaco, um homem, o que for. E ela marca. Outro: “Isto aqui o que parece?” Você tem que falar. “Parece uma flor.” E ela marca. Aí ela guarda e você vai pra outra sala fazer teste de outra coisa. Volta outra vez lá e a moça da outra vez quatro folhas pra você falar um desenho. Foi nisto que ele se embananou todo. E quando ele me falou eu voltei lá tentando entender o que ele fez. Na segunda vez que volta, ela dá a última folha, que você falou que era um macaco, não sei o quê? “O que é isto aqui?” De adiante pra trás. Então aí que é a psicotécnica, viu? Quando ela parou, o povo saiu, matei a charada já. O cara não entendeu e eu entendi. Não errei uma! Não errei uma! O cara não entendeu. Entrei na fábrica de cerâmica. Tirei o lugar do cara que estava há onze anos e meio. Quando mudou o sistema de marcar cartão, vieram os relógios eletrônicos novos. Que a Cerâmica tinha quatro mil e duzentos cartões. Não era uma olaria não. Era grande. Agora vai ser uma coisa industrial lá. Aí, tava a placa. Mudou o sistema e precisava pegar mais um funcionário. Tinha lá a placa, precisa  de um funcionário com ginásio completo. Naquele tempo, em 1970, era um estudo. O administrador do departamento de pessoal pediu pro chefe dos guardas ver se tinha um guarda bem instruído pra ajudar um pouco até achar o empregado. Nós estávamos lá seis horas num salão lá perto esperando distribuir um serviço, lá uns quinze, vinte guardas, ele falou: “Preciso mandar um de vocês lá pra chapeira”. Assim, assim. “Dois, três, quatro dias até eles precisarem.” Ninguém abriu a boca. Eu falei: “Eu vou”. “Então você vai lá. Vou te levar lá pra te entregar. Não sei quantos dias vai precisar.” Tinha um cara trabalhando, me apresentei. Vim assim, assim. Falei: “Então, você vem daquela ponta, eu vou pegar na outra ponta. Eu vou deixar meu serviço separado porque eu vou estorvar você aqui”. Dei razão pra ele. Neste tal, vai misturar depois não sabe quem errou, se eu ou ele. “Então vou deixar meu serviço separado. Se eu errar, ué, eu vim aqui e errei.” Aí comecei o serviço, ele numa ponta e eu na outra. E fui fazendo e deixando o meu separado. Quando chega de tarde o chefe do pagamento, seu Armindo, era meio enjoado, também tomava umas e outras na hora do almoço, era secão, aí passou perto do cara e falou: “E este cara que mandaram aí? Tá ajudando ou tá estorvando?” (risos) “Não, ele tá trabalhando aí. Conversou, deixou o serviço dele separado aí e se ele fizer errado não vai prejudicar o meu. O serviço dele tá lá. Se o senhor quiser dar uma olhada.” “Então ele tá trabalhando assim?” “Tá, ele fez o serviço dele separado.” Aí veio. “Boa tarde, seu Brasílio.” “Boa tarde.” “Trabalhando um pouco?” “Estou.” “O que o senhor está achando do serviço?” Falei: “Isto aqui pra mim não é problema, eu tenho preparo”. Ele achou que eu não tinha. “Não, porque eu conversei com o seu Arlindo e ele falou...” assim, assim. “O meu serviço tá aí.” Fui conversando. “O senhor tá gostando?” “Tô, faço o que me mandarem. Só não quero que me mandem embora.” Já entrei lá com 48 anos de idade. Não é fácil arrumar emprego. Tudo direitinho com psicotécnico e tudo, que eu nunca tinha feito e passei direitinho. Aí foi embora. Quando foi no outro dia ele voltou. “E aí, seu Brasílio? Como tá aí?” Falei: “Tá bem. O senhor tá gostando do serviço?” “Tô”. Assim, assim, assim. Conversou, conversou, conversou. “Amanhã eu passo aí.” Passou no outro dia. “Seu Brasílio, o senhor gostaria de trabalhar aqui?” Falei: “Seu Armindo, só não quero que me mandem embora, nem ganhar menos do que estou ganhando. Pode mandar, que o que eu puder fazer, eu faço”. “Não, é porque pelo que estou vendo o senhor vai me servir pra trabalhar aqui.” Falei pra ele: “Eu falo pro senhor que eu tenho capacidade pra fazer isto aqui. Nunca fiz, mas tenho”. Quando foi no outro dia ele veio e falou: “Seu Brasílio, vai interessar, o senhor vai me servir pra ficar aqui. Só que eu sou chefe da sessão, não posso chegar no outro chefe e falar pra te mandar pra cá. O departamento que tem que pedir pra você sair de uma sessão e sair pra outra. O senhor faz isto. O senhor tem que falar pro chefe do senhor se ele dá a transferência do senhor pra cá. Se ele der o departamento transfere o senhor”. “Tudo bem, amanhã cedo falo com ele.” No outro dia cedo o que era chefe de segurança ia passando eu o chamei: “Seu (__?), precisava conversar com o senhor”. “Eu já sei o que é. Tô nervoso.” “Mas não falei nada pro senhor.” “Porque o dia que eu arrumei um guarda bom já vão tirar de mim.” Viu como é? “Mas não falei nada.” “Você não falou, mas seu (__?), que era o administrador, falou pra eu dar a transferência do senhor.” Aí fui ser funcionário do departamento de pessoal.  

 

P/1 – O que mais te chocou quando você veio pra São Caetano? O que foi mais diferente?

 

R – A diferença que eu achava era assim, por exemplo, eu vim pra São Paulo por causa dos meus filhos porque lá não tinha indústria, não tinha nada. Vai trabalhar onde? Não tem fábrica nem nada de escritório. Eu falei: o jeito é partir pra São Paulo que dizem que tem campo. Dizem não, porque eu tinha vindo com um tio da minha mulher que tinha uma venda lá, vim que eu estava de férias e vim e tal. Inclusive eu estava onde eles faziam compra de roupas, que tinha uma loja, e chegou uma mulher perguntando onde era a rua tal, eu ensinei pra mulher. Ele falou: “Rapaz, mas você ensinou pra mulher e você sabe que você ensinou certinho?” “Mas eu conheço São Paulo.” No nível que eu estava em Cafelândia eu já estava com a vida controlada. Eu tinha minha casa, os quatro filhos, não tava faltando pra mim comer e beber e pros meus filhos com o movimento que eu tinha. Só que eu fazia coisas que não eram só de boteco. Você entende? Comprava qualquer coisa que aparecia. Cavalo vendia, porco matava e comprava e vendia no boteco. Eu vendia peixe salgado lá do Mato Grosso. Tinha um cara telegrafista da estrada de ferro. Ele dizia: “Você não quer comprar peixe salgado? Tenho um cunhado meu que mora no Mato Grosso que pega peixe a rodo, mas não tem pra quem vender. Limpa tudo e salga e põe no saco de estopa. Vai mandar, vem sequinho. Aí chega aí manda o preço que você vai pagar e depois que você vender paga ele”.  Eu falei: “Então manda trazer um pouco”. Pensei que ia mandar uns vinte, trinta quilos”. Dali a uns dias ele falou: “Seu peixe chegou”. Tinham seis sacos de peixe seco. Aqueles grande limpo, dourado, carne de jacaré, aqueles lombos, assim de jacaré. Tudo assim. O preço é este. Em três, quatro meses eu vendi tudo. E o rapaz: “Mas como o senhor faz deste jeito?” Não existe um lugar onde eu achasse um preço deste aqui. Era assim. Eu topava com tudo. Fazia de tudo, não era só vender a pinga.

 

P/1 – Aí vir pra São Caetano foi mais pelos seus filhos.

 

R – Aí, pra mim chegar em São Caetano eu fiquei desorientado. Acabei com meu movimento. Parei de ganhar. E meus filhos sem ganhar nada. Nem lá ganhava, nem aqui também. Então fui lá fazer teste na Cerâmica e comecei a trabalhar. Mas não dava. Era duzentos e oitenta, pagava cento e cinquenta de aluguel mais trinta de água e luz. Com dois comodozinhos: uma cozinha e um quartinho para seis pessoas. Mas fazer o quê? E os meus filhos nada. Foi onde falei pra você. O cara demorou com o negócio da casa e não tinha dinheiro. Quando eu fiz negócio que vendi a casa por quatro mil, eu tinha um restinho de dinheiro que eu tinha levado, mas estava gastando a minha despesa. Ia chegar o tempo que ia acabar. Eu peguei vendia a casa lá e tinha um boteco na mesma rua que eu estava morando nos dois cômodos. “Brasílio, você não quer comprar um boteco? O cara ta vendendo porque ele brigou com uns paraibanos da Vila Gerty. Os caras vieram pra matá-lo, ele sumiu e largou a mulher com o boteco.” Aí eu falei: “Vou lá ver”. O boteco tava tudo sujo. Não parava na mão de ninguém. O cara ainda devia prestação do outro que ele comprou. Aquela coisa e tal. Fui lá, olhei e falei pra minha mulher: faço assim, assim, assim. Aqui nós não vamos comprar casa não, dar entrada em terreno. Pagar com que pagando aluguel? Os meus filhos nada. “O homem tá vendendo, se você topar fica na metade do dia quando eu chegar da fábrica, eu tomo conta.” Ela falou: “Pode comprar”. Fui lá, ele pediu seis mil, depois ele deixou por cinco. Eu ofereci três. Depois deixou por quatro e depois deixou por três e quinhentos. Aí comprei o boteco. E o que aconteceu? Eu morava em dois cômodos. Tinha um casal que morava atrás do boteco. Tinha a parte de cima e embaixo, tinha um quarto e cozinha também. Só que não tinha... Era fechado. A gente entrava pela porta da frente. Tinha um casal que morava e com dois dias que eu comprei o boteco o casal brigou, se separou e desocupou os dois cômodos. Eu fui lá mudei e falei com o dono da casa e abri uma portinha. Dava no salão e já entrava dentro da cozinha. E meti o pau. Juntei uma freguesia. Os próprios paraibanos que iam matar o cabra. A vila estava atrasada. Não era hoje que está fechado de casa lá. Era ponta de vila, você sabe como é? Aquelas peixeiras do lado de fora, aqueles cordões não sei o quê. Chegavam e falavam: “Cadê o patrãozinho? Este rapazinho nós vamos pegar ele.” Vinham pra matar o cara. E eu acabei comprando. Esses caras viraram os meus maiores fregueses, estes paraibanos. Virei a coisa de uma vez. Aí lá, devia umas prestações que a mulher tinha que receber. Era oitocentos reais que o homem tava devendo no boteco ainda. Eu assumi pra depois pagar a mulher nas prestações. A mulher se apertou. “Não, o meu trato é pagar uma promissória por mês. Eu assumi a senhora vai receber.” “Mas estou precisando.” “Mas eu faço a diferença.” “Quando a senhora dá?” Não sei o quê. No fim deixou por quatrocentos e eu paguei na hora. Fiquei com o boteco livre. Juntei uma freguesia que todo mundo ficava bobo. O paraibano lá, “Esse aqui é meu primo, meu sobrinho. Vamos tomar uma pinga”. Eu fritava sardinha. Tudo que eu fritava vendia. Quando a mulher fritava os paraibanos conheciam. “Seu Brasílio, este peixe foi o senhor que fritou?” “Foi.” “Não tá parecendo, mas nós vamos comer porque assim mesmo é bom. Mas o do senhor é mais gostoso.” E juntava freguesia. E a minha situação melhorou.

 

P/1 – E continuou trabalhando na fábrica.

 

R – Trabalhando na fábrica. Trabalhava dezesseis, dezessete horas por dia.

 

P/1 – Uma parte a sua mulher ficava e outra parte você.

 

R – Trabalhei quase oito anos na fábrica. Aí foi onde apareceu. Eu falei: “A gente toca o boteco uns dois anos e vai sair um dinheirinho. A gente vai depositando. E depois de uns dois anos, a gente vende o boteco e dou entrada num terreno e numa casa”. Que era o que eu podia fazer. Mas não foi isto que aconteceu. Você sabe o que foi? Um ano e pouco então começou a construir um sobrado. Aquele tempo era novidade sobrado com construção dos engenheiros. Falaram: “Estão construindo um sobrado, diz que não é caro”. Aquela coisa. “Aquilo é pra gente rica.” Mas fui lá ver. A mesa do corretor estava dentro de onde é o meu sobrado hoje. Estava um esqueleto assim. Fui ver, tal, tal. Ele falou: “65 mil com 23 de entrada. Só que não estamos fazendo em prestações. Estamos vendendo financiado pela Caixa”. “Mas eu não tenho como financiar assim porque não tenho renda familiar pra provar.” Eu só tinha duzentos e oitenta reais de rendimento. Eu tinha o boteco, mas isto não se conta. Não tem renda fixa. “Mas eu precisava comprar.” E tal e tal. Eu falei pra ele: “O senhor não dá um prazozinho pra gente dar uma resposta?” “Não posso dar porque toda hora que vem gente compra.” Tal, tal. E vendia mesmo. “Mas como estou vendo que o senhor está com vontade...” Eu falei: “Não é que estou ganhando, eu quero agasalhar a minha família”. Que já era um sobrado com dois dormitórios em cima, banheiro em cima, banheiro embaixo, sala grande, cozinha, lavanderia. Era uma construção com engenharia. Trinta e sete anos nunca deu um trinco em lugar nenhum. Ele falou e tal. “O senhor me dá um prazo.” “Eu não posso, porque às vezes o senhor pede prazo e depois não vai comprar e eu perco.” Eu falei: “Pro senhor é fácil. Eu que tenho que pensar na minha vida. Se o senhor fizer negócio o senhor não vai dar escritura. A casa é do senhor. Se eu pagar dez prestações e não pagar mais a casa não é minha. Quero fazer um negócio pra não me atrapalhar. Eu tenho que pensar”. “Eu nunca fiz. Mas como estou vendo que o senhor é assim, eu vou fazer pro senhor. Vou dar três dias de prazo.” Falei: “Tá bom”. Eu tinha um dinheirinho que eu estava reservando, dezoito mil, viu como era? Então, mas era por causa do boteco, que eu tinha uma freguesia que todo mundo ficava bobo. Bobo mesmo! E os paraibanos gostavam de mim. Eu Ia trocar cartão a noite, porque trabalhava e de noite ia trocar cartão. Era só eu que trocava. Tinha que começar depois que saía a turma das dez e meia até às quatro e meia da manhã tinha que deixar prontinho, quatro mil e duzentos cartões. Deixar retirar os velhos e por novos. Aí cinco horas entrava a faxineira que tinha que marcar cartão. “Pode bater.” “Agora aqui tem dono. Não é aquelas pestes. Safado se aparece aqui, ‘nois’ pega e põe pra fora”. Viraram amigos mesmo. Aí dali a dois dias fui dar a resposta pra ele. Falei: “Olha, negócio é o seguinte, eu queria, precisava, mas tem um problema. Eu não tenho os vinte e três pra dar”. “Quanto o senhor tem?” “Só tenho dezoito. Se o senhor parcelasse estes cinco também...” “Quanto de prazo o senhor quer fazer?” “Eu não sei, não posso parcelar pro senhor.” Ele falou: “O senhor paga estes cinco em quatro meses. Tá bom?” Falei: “Tá bom. Seja o que Deus quiser. Vou fechar negócio”. “Só que se amanhã nós formos passar contrato, os 18 mil esse eu pago. Vou lá no banco e assino o cheque na hora.” “O senhor vai assinar a promissória de cinco e mais 48 prestações.” As primeiras dez eram setecentos. Eu ganhava seiscentos na Cerâmica. Mas eu tinha o boteco. Eu sabia lidar com o boteco. Só que assim: “Se nós passarmos contrato amanhã esta casa ainda vai levar trinta dias pra entregar e a partir de amanhã já vai correr a prestação”. Eu falei: “Mais esta ainda? Pagar aluguel, pagar prestação. Seja o Deus quiser”. E fechei negócio. Depois de trinta dias de tarde, eu estava trabalhando na Cerâmica, ele foi no boteco e entregou a chave pra minha mulher e eu paguei a primeira prestação na imobiliária, que era setecentos. Quando foi com noventa dias eu já tinha cinco mil. Fui pagar a prestação lá e falei: “Tem uma promissória”. “Mas não venceu.” “Mas vocês foram bons pra mim, o dinheiro tá na minha mão. Este aqui ninguém vai roubar.” “Oh, seu Brasílio, isto que é gente boa.” Aí começou a melhorar para mim. Fui comprar as coisas pra casa. Trabalhando e pagando a prestação. Quando eu tinha pagado 36 prestações, eu devia 12 e as últimas doze dava mil e quinhentos. Quando fui pagar a 36 falei pra minha mulher: “Quer saber, vou passar na imobiliária, se eles fizerem algum desconto vou pagar o resto da casa”. “Ah, mas você é bobo, porque tem tempo.” “Bobo por quê? Se já pagamos 36, a casa não é nossa. Se eu pagar 47 a casa não é nossa. Não tem escritura. E se eles fizerem desconto, eu pago. Fico sem dinheiro, mas não tem mais o que pagar. Se sobrar mil, mil cruzeiros ou mil reais, eu ponho no banco. Se não sobrar nada não devemos nada. A casa é nossa.” “Ah, faz o que você quiser.” “Claro que eu faço o que quiser, não estou jogando dinheiro fora.” Aí passei lá: “Eu devo doze prestações”. Assim, assim. “Vocês fariam algum desconto?” “Fazemos o juro bancário.” “Então vocês fazem amanhã eu passo aí. Se meu dinheiro der vou pagar.” Aí fizeram o desconto de dois mil. Aí paguei. Com os dois mil fiz a escritura e fiquei com a casa. Viu como é? Aí acabou. Com a benção de Deus nada deu errado que eu fiz na minha vida.

 

P/1 – E pro resto da vida o senhor continuou trabalhando na fábrica e no boteco.

 

R – Não. Aí teve uma decadência na fábrica e mandaram um monte de gente embora. Mandaram eu sair. Alguém tinha que mandar embora. De cada sessão tiravam ‘x’ pessoas. A fábrica diminuiu. Aí eu saí. Eu não tinha tempo pra aposentar porque em Cafelândia... Olha só como é, um pai de família que quer levar a vida, eu comprei o boteco em nome da minha mulher. Porque falei: se não der pra despesa, o armazém me dá um emprego pra inteirar a minha despesa e a mulher fica no boteco. Mas deu. Mas pus o nome pra dar uma aposentadoria pra ela, desde 1959. Lá em São Paulo também o boteco pus no nome dela também. Que eu estava empregado na Cerâmica São Caetano. Mas depois aconteceu aquilo e eu não tinha tempo pra aposentar. Tinha 62 anos. Aí fiz um rolo e aposentei. (risos). Hoje mesmo meu filho estava fazendo minha declaração de renda. Como que é? Eu trabalhei com advogado pra fazer a aposentadoria. Eu fiz coisa que ele não fez, eu fiz. Certo? Não fiz? Tinha um cara que ele pegou a aposentadoria do cara que trabalhou na Ford. Então há trinta anos atrás o cara trabalhou. O cara tinha uma rasura na carteira dele e a previdência não estava aceitando aqueles quatro anos que dava pra inteirar os 30 dele. E eles pa pa pa. “Tem um negócio aqui. Você não quer ir na Ford pra mim?” Falei: “Por quê?” “Ah tenho que pegar uma aposentadoria. Já fui lá três vezes, já briguei, já xinguei. Você não quer ir lá ver?” “Mas você já foi lá e não arrumou, como eu vou ir?” “Ah, mas você é você. Quem sabe.” “Dá aqui esta desgrama.” E fui lá. Fui conversar com o chefe da social. Comecei explicar e tal, querendo que ele me desse a ficha original acompanhada com a declaração pra autenticar. Assim valia os quatro anos. Mas isto ele não pode fazer. Eu sabia e comecei a debater com o cara, me humilhando assim. “Porque é um cunhado meu que ta passando até fome”. Nem conhecia o homem nem nada. Ele que pegou a aposentadoria! Aí tal e tal. Eu sei que acabei dobrando o homem. Ele acabou me dando a ficha original do cara na mão. Prometi o que ele quisesse de mim tal e tal. “Amanhã ao meio dia trago pro senhor de volta. Amanhã cedo vou lá autenticar e volto aqui.” “Mas seu Brasílio, pelo amor de Deus, eu não conheço o senhor, mas parece que o senhor é gente boa. Mas é que isto aí não pode, se acontecer um problema eu perco até o emprego.” E é verdade. Eu falei: “Mas não vai acontecer. Eu tenho fé em Deus que não vai acontecer. Amanhã ao meio dia estou com ela de volta aqui. Aí ele chamou o secretário dele e falou: fulano, traz a ficha tal. Fechou num envelope bem fechado e falou: “Seu Brasílio, o senhor vai levar. Amanhã, se o senhor vier entregar, o senhor chega aí, dá meu nome, entra aí e se eu não estiver aqui, o senhor dá o nome deste moço, se ele não estiver o senhor volta pra trás. Não fala nada pra ninguém”. Falei: “Tá bom”. Aí peguei fui embora. Cheguei no escritório do advogado ele: “O que você arrumou?” “Abra o envelope.” “Mas o que você fez? Você saiu daqui agora?” “Não sei, roubar não roubei, tá aqui. E agora ainda vou lá no INPS em Santo André.” Que era lá que ele tinha dado entrada na aposentadoria. “Vou ver se eu carimbo esta identidade pra levar pro homem ainda hoje.” Aí cheguei lá as moças que atendem lá. Dei uma de esquerdo e falei pra um rapaz que queria conversar com fulano de tal. Eu sabia o nome que eu tinha ido algumas vezes lá ver negócio de aposentadoria, ela chamava Prazeres. Aí eu falei: “Por favor, não é horário dela, não, mas eu vim de manhã com um negócio e ela falou que se eu precisasse voltar de tarde podia”. Não tinha ido coisa nenhuma, sabe? O rapaz foi lá, chamou, disse que tinha um homem querendo conversar e ela veio. Falei: “O negócio é o seguinte: sei que não está no teu horário, mas estou com um problema que tenho que devolver este documento hoje ainda. Você podia fazer o favor de autenticar ele pra mim?” Aí ela abriu: “O senhor trabalha na Ford?” “Não.” “Então o senhor deve ter um cartaz danado lá.” “Vixe, lá eu tenho tudo.” “Não, porque eles não podem, isto aqui não pode.” Foi lá, autenticou. Me devolveu, eu tomei ele e fui descer lá na Ford. Faltavam dez minutos pra fechar o departamento de pessoal. Cheguei lá, o homem... Nossa, o homem me abraçou! “Poxa vida, seu Brasílio, se precisar qualquer coisa vem aqui.” Assim, sabe?

 

P/1 – Senhor Brasílio, o senhor falou bastante da tua vida profissional. Conta um pouco como era você em casa. Como era ser pai. Como você criava os teus filhos.

 

R – Rapaz, eu como pai, assim. A classe pobre, no tempo que a gente casou era diferente de agora, você não via uma mulher trabalhando numa indústria nem nada. Sabe disto? Era só homem. Hoje, não, hoje tem muito mais mulher do que homem. Então a gente casava normalmente. Eu casei e daí a onze meses a minha filha mais velha nasceu. A mulher ficava em casa cuidando da casa e cuidando de filho. Você ia trabalhar. Então como é que é? Precisava trabalhar no armazém, ficava no armazém o dia inteiro, chegava pra almoçar e vinha de tarde. Lá em Cafelândia na prefeitura também saía, vinha almoçar e voltava de tarde. Então é assim, a mulher ficava em casa pra cuidar da casa e dos filhos. Então o homem nem tempo pra educar o filhos tinha. E nem podia. Só que eu não me lembro nunca de ter dado um tapa em nenhum dos meus quatro filhos. Certo? Só que se eu tivesse com ele na sua casa ou de qualquer pessoa, as crianças são curiosas, vêem uma coisa diferente na casa dos outros logo vão lá. Se eu desse uma olhada eles já sabiam que não era pra mexer. Não precisava falar nada. Só uma olhada que eu desse. Eles sabem, pode perguntar pros meus filhos, paravam de mexer. Então, eu falo assim, no tempo que você sai e vai trabalhar... Estou vendo este meu filho tacou uma pedra nesse vidro aí. Eu estava trabalhando, não foi eu que mandei. Então não sou eu que estou dando educação pra ele. Não é isto? A classe pobre não tem condições. O que eu falo pra vocês: “O que é bom já nasce feito”. Então meus filhos nunca dei um tapa, não tenho, com a benção de Deus nenhum fora do normal, não fuma. Toma uma bebida numa festinha, uma coisa assim. Me considera bastante. Agradece, que nem meu filho mais velho, estar bem em situação financeira. O marido da Rosângela tem duas firmas. Agradece assim, fala: “Ah pai, pelo senhor ter nos trazido pra São Paulo na hora certa”. Essas coisas. Tudo certinho. Meu pai morreu, minha mãe morreu e não teve inventário. Minha mulher recebeu, tinha uma casa, vendeu, eram quinze irmãos. Deu nove mil reais cada um. Mas o que aconteceu? Quando a mãe delas vendesse a casa o dinheiro ia comprar um túmulo no cemitério. É caro em São Caetano. Só que demorou construir, quando vendeu era 15 mil, mas tinha o dinheiro pra pagar o resto. Entende? E foi ela que foi a primeira enterrada e está lá. Agora mesmo eu cuidei bem, revesti tudo, dei (__?) prefeitura e fiz. Tá tudo bonitinho. Eu como pai não achei que meus filhos deram trabalho. Não eduquei, não eduquei não. Só que meus filhos não falam nada de mim, que a gente fez nada de errado. Eu não fiz. Tenho certeza que não fiz.

 

P/1 – E como avô?

 

R – Ah, avô? Mais ainda. Não, avô, a minha filha, a Marli, que é a terceira, está aí. Foi primeiro uma mulher depois um homem, depois uma mulher e um homem. O marido dela, ela fez um casamento errado. Ele trabalhava na PRODAM em São Paulo, era concursado e tudo. Mas você sabe aquela pessoa que estuda e não tem cabeça pra nada? Faz tudo errado. A gente do pouco fizemos bastante. Nossa casa funcionou bonitinho. Funcionou e se precisar ainda funciona. Agora mesmo, meu neto que é filho da (__?), o pai dele entrou neste negócio de política no tempo do Jânio Quadros, ele se mete neste PT e foi mandado embora pelo Jânio. Depois entrou a Erundina, que era do PT e tornou a colocá-lo. Depois entrou o Paulo Maluf e mandou embora outra vez. Lembra? O cara é só empregado. Ta concursado, fica aí. Não é isto? Aí o Maluf terminou de mandar embora. Eles tinham um sobrado na minha rua, bom, melhor do que o meu porque tinham comprado e tudo. Depois foi mandado embora. Ele já bebia. Falo pra vocês aqui entre nós. Às vezes você tem uma filha e um filho que está namorando, se você é o pai e falar qualquer coisa é que casa mais depressa. Sabe? É. Isto aí eu falo pra você. Então, ele já bebia. Ele estava bem empregado, ganhava o suficiente. A minha filha lecionava. Mas quando nasceu o menino ele falou: “Para de lecionar que eu ganho”. E ganhava. Só que depois desgraçou com tudo. Foi mandado embora e danou a beber. Entrou com um processo porque ele não podia ser mandado embora porque era concursado. Por parte política, assim, não é porque ele entrou bêbado lá. Você entende? E levou dois anos ele recebeu. O que acontece? To contando pra vocês aqui como fosse pra um filho meu. Ele ganhou o processo. Então chegaram e falaram: “Olha, você ganhou o processo. A tua cadeira está aí. Você quer ficar aí e ninguém vai tirar mais ou você quer ser indenizado?” “Eu quero ser indenizado.” Só pra judiar da minha filha. Viu a cabeça perdida? Sabe? Ela tinha parado de lecionar. Aí foi acabando com tudo. Teve que vender a casa pra comprar aqui em São Paulo. Sumiu com o dinheiro também, sumiu tudo. Ficou sem casa pra morar. Então tinha comprado um apartamento em São João Clímaco, mas três anos não pagou um centavo. Chegava bêbado todo urinado na portaria, aquela coisa! E dentro de casa. Acabou, sabe? Foi chegando um ponto! Ele recebeu a indenização e sumiu com todo o dinheiro: 272 mil reais. Se ele tivesse pegado e falado: “Vou comprar uma casinha, por no seu nome e você se vira nos trinta”. Nada. Sumiu com tudo. E a minha filha no juiz, ia lá com advogado. Pagando advogado, sabe? E o juiz falava: “Se a senhora acusar algum rendimento dele, eu tiro na hora”. Mas era um dinheiro...Dono em é quem estar com ele na mão. E não dava. Não dava nem cinco. Ele estava com atestado de pobreza que não tinha cinco reais pra dar pra comprar um pão pras crianças dele, que é o sangue. Ela não, é de maior. As crianças, não. Querem comer e beber. Eles não sabem o que está acontecendo. E foi isto. Acabou com tudo.

 

P/1 – Senhor Brasílio, e o senhor se dá bem com os seus netos? É um avozão?

 

R – Me dou bem. Depois o neto cresceu. Hoje ele é advogado na TV Cultura. Viu como é? O pai dele que ia pagar a faculdade. Foi lá na Faculdade ABC, em Santo André. Foi lá e matriculou. Daí a seis meses veio a conta que ele não pagou. Ela tinha um pouquinho, ‘juntemos’ e ‘paguemos’. O meu filho mais velho pagava, e foi pagando. Diz que a faculdade é ruim. Não. O aluno quando é bom, qualquer faculdade é boa. Sabe disto? Eu falo porque tenho prova pra vocês. E é inteligente. Puxou tudo pro meu lado. Meus filhos que puxaram pro meu lado! “Olha pra quem que puxou!” E mostro. Eu tenho um espelho pra mostrar. Que os trancos, né? Meu filho ajudando, dando uma mesadinha pra minha filha. Sério, dava. E vai assim. Ela tinha parado de lecionar, ele mandou parar. E depois faltava pagar um mês de faculdade, meu filho pagava outro. Ia lá em casa. Morou quatro anos na minha casa depois quis sair. Aí eu e meu filho compramos a casa pra ela lá, que ela mora hoje. Quando ele começou a estagiar, o estágio dava pra pagar a faculdade. Ele fez na PRODAM, ele fez um ano de estágio. Tinha um homem que era chefe que gostava dele, foi lá e ficou. E depois, no outro ano inteiro ele entrou na internet pela TV Cultura e passou. Foi fazer estágio, um ano que faltava. Termina o estágio dele em outubro, e já é o ano que ele ia fazer o exame pra que se passasse, receber o diploma. Ele, quando foi dia 20 de outubro, o chefe dele chamou e o efetivou. Não como advogado porque ele ainda não tinha o diploma. Mas falam: “Ah, a faculdade não presta!” Não presta pro aluno que não presta. Como ele estudou e passou? Chegou no fim de ano, passou, ficou trabalhando, fez curso pra pegar a carteirinha da OAB e está lá há quatro anos. Roubaram o carro dele e eu ajudei a comprar outro carro. (risos). Comprei uma casa pra ele morar. A casa está em nome da minha filha. Me aliei ao meu filho mais velho e compramos. Tudo isto a gente fez na vida das poucas coisas. Você vê como é? Agora tem uma menina. A minha filha não tem dinheiro. Está agora lecionando em São Caetano. Aí voltou, prestou concurso, é professora. Em São Caetano estão acabando com as escolas estaduais. Estão ficando todas municipais, são boas as escolas. Melhor do que escola paga. Meus filhos, os meus netos estavam estudando, tiraram e puseram lá. Em São Caetano a saúde e a educação – o prefeito, ele é um médico – estão lá em cima. Sinceramente, não é porque a gente mora em São Caetano, não. Se eu quiser pegar remédio gratuito, tenho que pegar um cartão. É que não estou precisando, nem remédio estou tomando. Eu tenho vontade de pegar e tirar pra outra pessoa. Vou fazer isto aí! Não estou precisando, meu filho paga convênio pra mim faz seis anos. Eu nem sei onde fica este convênio. Graças a Deus. Com a benção de Deus. A gente teve que comprar carro. Ele se formou. Graças a Deus ninguém partiu pro lado de drogas e nem bebida. É uma grande coisa, não é? Bastante. Uma benção de Deus. A menina agora quis fazer uma faculdade gratuita pra fazer teatro. Está com 22 anos. Agora está fazendo curso pra palhaça, ela gosta disto. Então agora mesmo na semana passada. Como ela está formando uma banda com uns amigos em São Paulo, nós tínhamos comprado uma sanfoninha pra ela, já usada. De tanto carregar nas costas quebrou a correia, quebrou tudo. Aí vim a São Paulo semana passada e comprei a sanfona de três mil pra ela. Ela gosta daquilo e vai fazer. Não está em drogas nem nada. É assim.

 

P/1 – Você me falou bastante da tua mulher e queria que você falasse melhor da relação. Vocês chegaram a completar bodas?

 

R – Nossa convivência foi boa. Os casais não têm, vamos supor, não tem um que não tem uma troca de conversa de assunto. Às vezes não é por nada. Eu julgo assim, hoje tá tudo diferente, mas no tempo da gente, o namoro dizem que é pra um conhecer o outro. Mas nada disso vale. Você sabe disto? Se não tiver que dar certo você pode namorar 20 anos que não dá. Se der certo, e você não namorar nenhum dia e casar dá certo. Porque diz que é pra um conhecer a natureza do outro. Mas agora, você é casado ou solteiro?

 

P/1 – Solteiro.

 

R – Solteiro, vou falar. Se você namorar uma moça, ou ta namorando, não sei. Se a gente ta namorando, se um gosta do outro, mesmo se ver um probleminha diferente em questão de natureza, se um gosta do outro também aceita aquilo lá. Concorda? Mas depois de casado não vai querer mudar a natureza que dá discussão. Ninguém muda a natureza de ninguém. E a natureza é aquela. Com a benção de Deus nós vivemos 58 anos e meio de casamento. Nossa casa sempre funcionou bonitinho. Nunca nos faltou nada. Os filhos nunca na vida, nestes 58 anos, foi preciso... Você muda a situação, você sai que nem eu saí do armazém, fui caçar serviço na prefeitura, depois saí, vai comprar boteco; depois vem pra São Paulo. Mas nunca chegou ao ponto, dela chegar a fazer uma conta pra pagar no fim do mês e nem também chegar numa farmácia e falar: “Você me vende este vidro de remédio que eu pago no fim do mês”. Também não. Sempre tivemos condições suficientes para vivermos. Não de sobra, porque no interior, em Cafelândia tinha meus filhos na escola. E uma Livraria Brasil. Então o cara chega: “Oh, Brasílio, abre uma conta, você tem seus filhos na escola..” e tal. Falei: “Não, mas não preciso. A mulher quando vai comprar as coisas, ela tem o boteco, pega o dinheiro na gaveta pra comprar”. E tal e tal, ah, mas, tal. “Mas por que o senhor não quer abrir?” “Por quê? Quem ta criando eles sou eu e minha coisa é controlada. Vocês não tem só coisas escolar, vocês tem outras coisas pra vender. Às vezes chega a comprar outras coisas que não é de escola e não tem necessidade e vai fazer falta no meu orçamento. Se você quer que eu abro, eu abro. Não to pedindo. Mas no fim do mês você manda a relação e se tiver um real de uma coisa que não é necessária, eu corto a conta.” Era assim, graças a Deus.

 

P/2 – Conta pra gente da viagem pra Itália. Foi com ela que você foi?

 

R – Assim, por exemplo, o ano passado eles foram viajar e perguntaram se eu queria e não quis. A gente fica assim, eu tô aqui, mas o sentimento ainda tem. Então não quero. Anteontem falaram: “O senhor quer ir pra Itália outra vez?” “Vou ver, sabe, não tô assim querendo.” Nós fomos. Sinceramente, eu não achei vantagem nenhuma pra gente. Pra começar da alimentação: as comidas de lá pra mim não valem nada. Meu pai e minha mãe vieram da Itália, nem de polenta eu gosto. Diz que filho de italiano é polenteiro, mas é mentira. Lá no interior falam, “os polenteiros”. Só que de vez em quando tinha um lugar que ‘moia’ fubá na fazenda e minha mãe debulhava o milho da espiga, naquela lata e ela trocava. Levava dezoito litros de milho e dava a lata cheia, só que dezoito litros. E fubá depois dá vinte,vinte e três. Então você come fubá que rende, eles vendem pros outros. Isto é o lucro deles. Eles não cobravam nada pra trocar o fubá, só que eles ganhavam no aumento. Eu de macarrão pouco gosto. Minha mulher falava: “Você quer que eu faça macarrão domingo?” “Quer fazer? Faz.” Só é comer, pegar um pouquinho de macarrão e por comer um pouquinho de feijão com arroz pra ficar completo. Porque o macarrão não alimenta a gente. Você come macarrão? Você acha que alimenta? Não alimenta. Você almoça... Que nem hoje, na minha casa, almocei às 11 e meia, mais cedo, porque o moço ia pegar a gente. Eu comi arroz e feijão. Se eu fosse comer qualquer coisa sete horas, oito da noite, não estou com fome. Se você come macarrão passa uma hora e tá faltando alguma coisa no teu estômago. E lá eles não falam macarrão. É pasta. Aquilo é uma lambuzação de tomate! Eu não gosto destas coisas. Sabe do que eu gosto? Domingo passado foi a missa de um ano da minha mulher. O meu filho foi lá em São Caetano e a gente foi num restaurante almoçar. Sabe o que eu gosto? Eles têm a fábrica da GM na Bahia, em Ilhéus, ele trouxe dois pacotes de farinha de mandioca pra mim. Eu gosto é de farinha de mandioca, carne seca. Estas coisas, carne de sol. Pra mim nem da Espanha, nem da Itália, em questão de alimentação não me deixou muitas saudades. Aqui tem de tudo. Se você procurar carne de boi, lá não tem. A mulher um dia falou: “Vamos, achei um lugar que tem carne”. Chegou a pedir e veio carne de carneiro. Ah, vai se lascar com essa porcaria. A gente foi pra conhecer, mas não deixa muita saudades.

 

P/1 – Senhor Brasílio, a gente está encerrando a entrevista, tem alguma coisa que eu não te perguntei que você gostaria de falar?

 

R – Eu vou contar agora coisa que está no papel, que eu marquei ali. Eu tive, agora faz dez anos e meio, se você olha neste joelho aqui você percebe a diferença? Isto aqui acabou a cartilagem do joelho. Os ossos da gente se deslocam. Antes de chegar no osso tem um tipo de uma pelanca, que é jogo, aí acaba e o osso raspa um no outro. Você não aguenta de dor. O meu acabou, tudo com ressonância magnética, raios-X, fui em lugares bons. Tudo acusando que acabou. Não podia andar, nem parar em pé nenhum minuto, deitar não podia. Todo lugar que mexesse e esfregasse, ele queimava por dentro. Aí, eu e meu filho pegamos todos os comprovantes em casa e viemos no Joaquim Grava, operador do Corinthians. Não sei se vocês conhecessem. A clínica dele é em frente ao hospital São Luiz num andar inteiro. Ele é operador esportivo de joelho. Viemos com ele há dez anos atrás. Só pra conversar com ele, há dez anos e meio, foi trezentos reais. Levamos tudo preparado. Conversamos e meu filho falou: “Tem jeito de tratar?” “Não, não tem. É partir pra cirurgia. Tem que serrar as partes pra pôr a prótese. A prótese vem desmontada, são nove peças pra você por aqui.” Naquele tempo, não é por causa do dinheiro, ficava 17 mil, não sei o quê. Ele opera no hospital São Luiz, é outra combinação. E tal e tal. Meu filho perguntou: “Tem perigo de uma rejeição?” Ele falou: “Ah, não tem”. “Não tem mesmo?” “Pode haver uma ou duas.” “Será que vai ser a minha?” Ficou tudo combinado. Só faltava ir ao hospital, combinar o dia pra entregar a prótese pra colocar na hora. Quando nós íamos indo embora me entrou uma coisa na cabeça e falei: “Vamos suspender este negócio?” Eu que estava com o problema, certo? “Pai, faça o que o senhor quiser. Suspende agora, se amanhã o senhor voltar problema de dinheiro não é”. E tal e tal. Aí fui embora pra casa, mas não aguentava, joelho qualquer lugar... Quebrei dois braços trabalhando também. Saiu o osso pra fora. Mas trabalhando, certo? Este aqui quebrou aqui também. Este aqui fiquei sessenta dias assim, com (__?) na boca. Trabalhando em cima de casa, depois que me aposentei, mixaria que a gente ganhava, sempre foi assim. Noutro dia cedo eu saí de casa, fui tomar ônibus pra ir no centro de São Caetano, no ponto de ônibus tinha um senhor sentado, e eu raspando a perna. Ele falou: “O que o senhor tem?” Tenho isso, assim, assim. Ele falou, eu não sou médico, não sou curador, não sou nada, mas eu sei um remédio que é o melhor cálcio do mundo. Eu perguntei pra ele o que era e ele falou: “É casca de ovo de galinha”. Eu falei: Mas como que faz?” Ele explicou, tal e tal e falou: “Só que tem uma coisa, quando eu, o senhor, qualquer um, começa a acabar o cálcio, leva um ano, um ano e meio pra acabar. Vai acabando devagarzinho. Pra voltar também não é fácil, é lentamente”. Eu falei pra ele: “Eu vou fazer. Vou acreditar”. Aí fui na padaria lá perto e encomendei pro confeiteiro quatro dias. Ele guardou mil duzentos e cinquenta cascas de ovo. Fui lá busquei. Fui a outra padaria e também encomendei mais mil duzentos e cinquenta. Duas mil e quinhentas cascas de ovo. Preparei em casa do jeito que era. Só que não pode torrar. Lavar, tirar aquele resíduo que fica dentro, aquele resto. Aí fica sequinho. Lavar dez, doze águas até ficar com cheiro nenhum. Botava num saco plástico no sol pra enxugar e eu bati no liquidificador. Vira aquela farinha grossa. A casca de ovo não dilui, ela fica áspera. Aí comecei a tomar. Fiz um sacão! Dava uns sete ou oito quilos de farinha. Todo dia tinha que tomar. “Põe no arroz!” “Que arroz nada. Vai estragar o arroz também.” Levantava, antes de tomar café pegava uma colher de sopa, jogava na boca e engolia água. “Pronto, já tomei o remédio.” Comecei a tomar todo dia. Ele falou: “Só que no primeiro, segundo, terceiro mês não ia sarar não. Isto é lentamente”. Eu guardei tudo o que ele falou, mas eu fiz. Justamente. Quando eu comecei a achar uma diferencinha foi no quarto mês, tá? Comecei a achar. Vou dizer pra vocês como este sol ta alumiando aí, com a benção de Deus. O dia que acabou aquela farinha não existiu mais nada no meu joelho. Tá aqui hoje. Eu ajoelho, sento no calcanhar; subo, desço. Não tem nada. O que foi isto?  Eu tinha tomado outros cálcios e nada. E isto daí só. Porque eu peguei e fiz do jeitinho que ele falou. Não é mentira, meu filho pode chegar e perguntar. Olha aqui. Não tem nada. Nada. O que é isto. Esqueci que eu tive problema de joelho.

 

P/1 – Senhor Brasílio, queria te perguntar como foi pra você lembrar tudo isto? Lembrar da tua história? Como você se sente lembrando de tudo isto?

 

R – Me sinto feliz porque o que você perguntar pra mim a partir dos meus seis anos, sem olhar em nada eu te respondo na hora, certo, se foi coisa que a gente passou e não vou explicar. Queria ter explicado como aquela primeira, segunda, você vê como é? Às vezes você volta num, atrapalha na outra. Mas o que eu falo é que hoje, por exemplo, estou sozinho na minha casa. A gente, tem coisas que acontecem com a gente, por exemplo: quanto mais o casal vive junto, você vivendo a vida, não é viver. Porque se não viver, larga. Não é verdade? Que tá acontecendo hoje. A gente vivia. A gente quando casa, promete que é aquilo, a gente cumpriu a nossa missão. A gente tem um espelho pra mostrar pra qualquer um. E não é fácil você de classe pobre ver um filho nascer e falar: vou pôr no mundo. Nestes dezoito, vinte anos você passa horas boas, ou no bom ou no ruim você passa um monte de coisas. Mas você tem que cumprir a sua missão. E com a benção de Deus, pra nós não termos problema. Não faltou. Todo mundo foi pra escola. Eu ia contar. Posso contar? Quando chegamos a São Paulo houve um caso com meu filho mais novo. Eu trabalhava na Cerâmica, então ele queria fazer o SENAI (Serviço Nacional da Indústria). Então, eu pegava as folhas pra ele fazer pela Cerâmica. Os meninos todos pegavam. Tem um colega, que tinha outra firma igual um vizinho meu, meu da ZF, que tinha uma firma, dizia, você não passa pra fazer o SENAI. Chegou no dia do exame e quando passou eu perguntei pro cara da seleção da Cerâmica. O escritório dele era pegado onde eu trabalhava no departamento. “O, Serafim, ontem foi o exame dos meninos você não sabe quem passou?” Falou: “Ah, Seu Brasílio, seu filho passou só que foi tudo impugnado”. “Mas por quê? Sabe o que aconteceu?” E tal e tal. Disse: “Eu não posso te explicar certo, mas sei que tá tudo impugnado e vai tudo embora pra São Paulo, que é central”. Eu disse: “Ah, rapaz, vou lá no SENAI”. Eu estava trabalhando da uma e meia até as dez. “De manhã cedo, fica pertinho da minha casa, eu vou lá.” “O senhor vai perder o seu tempo.” Eu falei: “Por quê? Não vou perder. O meu filho é menor e não sei o que aconteceu lá. Vou saber o que aconteceu. Eu quero saber do meu filho, se ele aprontou alguma coisa”. Aí levantei cedo e falei: “Hoje vou no SENAI porque ta acontecendo assim, assim. E já tudo empacotado pra ir embora pra São Paulo”. Ele falou: “Eu vou também”. “Você vai, mas pelo amor de Deus não vai abrir a boca.” (risos) Não sei, eu não tenho dinheiro pra conversar com vocês, eu não tenho nenhum português, só que com a benção de Deus eu sei conversar lucidamente. O que eu falei pro diretor: “Acho que dá bem pro senhor entender o que eu falo”. Fomos lá. Chego, estão atendendo uma mulher, depois a gente entrou. Comecei a conversar com ele. Assim, assim. “É verdade. Está tudo pra ir embora pra São Paulo.” Eu comecei a conversar com ele. Ele falou, explicou, explicou, explicou. Aí eu falei: “O senhor já falou. Agora posso falar? Eu não tenho nenhum português, mas acho que o que eu falar dá pro senhor entender”. “Não, o senhor sabe falar.” Eu comecei a falar e cheguei ao ponto de falar pra ele que o erro era de lá, provei que o erro tava lá, eu puxei um caso que não tinha nada a ver com aquilo, mas influiu uma eleição em Cafelândia. Sabe por que eu puxei? Porque eu peguei a autorização da Cerâmica pra fazer e depois o meu vizinho pegou de outra firma, pra fazer dois testes: se passar em um ta bom. Se faz um só não passou. Eu queria que fizesse. Então os meninos foram de manhã, no dia do exame, atenderam eles. Fizeram exame pra uma firma. Na parte da tarde foram lá e fizeram pro outro. Eles acusaram que não podia fazer dois exames num dia só. Estava impugnado. Eu comecei a conversar, depois que ele parou de falar. Comecei a discordar dele. Eu falei: “O senhor vai me desculpar, mas acho que o erro está aqui dentro”. “Por que motivo?” “Porque as crianças, se eles vieram de manhã, receberam eles. Se não podia fazer, devia ter alguém que dissesse para não fazer o exame. Receberam? Quem é esta pessoa que recebeu? Eles são inocentes. Meu filho nunca entrou num recinto deste aqui e eu também não. Enquanto estamos lá queimados do sol, plantando arroz e feijão para os engravatados comerem aqui, eu cheguei aqui não tem uma colher de chá. Eu não concordo com o erro deles”. Eu falei: “Por que no interior tem a eleição e a pessoa analfabeta assina o nome lá pra pegar o voto. A mulher foi lá e votou errado, depois voltou pra votar. ‘Ah, não, a senhora não pode votar. A senhora votou hoje’. Então. E por que aqui eles não falam: ‘Hoje você não pode fazer outro exame.’ Atenderam pra agora pra descartar todo mundo? E tem mais uma: tem um sobrinho meu que fez teste aí e passou.” Aí ele chamou a secretária dele e conversou com ela e falou: “Seu Brasílio, vamos fazer um negócio?” “Faço qualquer negócio, só que eu quero que meu filho estude. Não vim aqui pra brigar. O mais velho veio fora da idade, já tinha 15 anos. Mas eu quero que meu filho estude. O senhor entende o que eu vim fazer aqui?” “Vamos fazer um negócio? Vamos dividir a culpa metade pra cada um?” Já começou a dividir a culpa. “Pode jogar em cima de mim só que eu quero que meu filho estude. Eu não vim pra brigar.” Tanta vontade que a gente fez isto tudo e agora acontece isto. Acho que não é culpa dele nem minha. Ele já quis dividir a culpa. Falei: “Não, a culpa pode ser toda minha, só que eu quero que ele estude. Já que está assim, o senhor não quer fazer um negócio?” Eu propus negócio pra ele. “O senhor não quer fazer um negócio comigo? Que os outros eu não tenho nada com isto.” “Que negócio?” “Ó, aí tem um menino, ele é meu sobrinho, ele fez teste e passou. Só que ele fez teste do Banco do Brasil e não vai preencher esta vaga. O senhor não quer ceder a vaga deste meu sobrinho pro meu filho? Deixar descartado isto aí.” Ele pensou, pensou e falou assim: “É, o senhor tem um pouco de razão. Posso até ceder se o senhor fizer o que eu vou falar pro senhor até amanhã de tarde, eu cedo a vaga pro seu filho”. Eu falei: “Eu faço hoje!” “Mas o senhor disse que não sabe nada.” “Eu sei o que tem que fazer.” “Mas como o senhor diz que não tem estudo?” “Eu sei o que tem que fazer, meu senhor. O senhor quer que eu vá agora buscar com a mãe ou o pai do menino que ele desistiu da vaga. E levar na Cerâmica São Caetano e lá desistir da vaga também. Trazer uma carta de desistência.” “Mas como o senhor sabe disto?” “Eu sei.” “Se o senhor trouxer até amanhã de tarde, a vaga é do filho do senhor.” Eu falei: “Se não for pra fazer hoje, faz pra amanhã”. Dali saí pra casa da minha irmã e expliquei o caso pra ela. “Vamos lá ao SENAI.” Ela chegou lá e assinou a desistência. De lá tomei um ônibus pra Cerâmica e pedi a carta de desistência. Vim e tal. Meu filho pegou o SENAI. Ainda me deu os parabéns. “Nossa, o senhor.” Me abraçou. Depois meu filho foi fazer o SENAI, depois ele foi lá no (__?) e voltou pra ser professor no SENAI. E hoje, o que ele está fazendo é o que valeu pra ele. Que ele tá fazendo consultoria, ele está ganhando a vida. Ficou sendo instrutor dez anos. Depois ele pediu pra sair. Mas se eu não vou lá, ele não fazia. E eu consegui, sabe? Graças a Deus. Eu não sei. Eu consegui. O homem ainda ficou devendo obrigação pra mim. As pessoas não tem... Sei lá eu, não sei. As pessoas perguntam pra mim e parece que eu tenho a benção de Deus que as coisas vêm na cabeça. Eu olho uma coisa e falo: eu faço isto aí também. E faço. Na minha casa o que precisa fazer eu faço. Arrumar, pintar. Eu faço tudo. Agora mesmo acabei de fazer a minha casinha que tenho em Bertioga, na praia. Nós compramos um negócio que parece que, falar hoje, parece que nunca na vida vai acontecer. Há 28 anos atrás, em sete cunhados, compramos um terreno. Ninguém tinha dinheiro, mas queria ter. Aí fizemos sete apartamentos térreos. Um quarto por quatro, a cozinha e um banheiro. De sete. A gente tinha lá. Minha patroa adorava, porque ela tinha as irmãs. Mas associado sete cunhados! Nem família pra ter sete cunhados. Nem sei como vai ter uma sociedade desta. É uma relíquia isto. Eu fiz tudo, negócio de inventário, túmulo, INPS e tudo e depois falei: agora vou reformar a casinha. Está pronta. Já está tudo do jeito. Em cima, embaixo. Colchão, geladeira, armário. Fiz tudo isto aí. Eu aqui administrando lá. Eu gosto das coisas difíceis porque dizem que as coisas muito fáceis não prestam. Não é isto? Tem que ser coisa difícil. Que nem a gente veio aqui. Eu não tenho experiência, não sei. Mais ou menos sei o que vocês iam perguntar. Às vezes a gente pula, mas eu gostaria de contar correndo. Uma por uma, não voltar nada atrás. Mas eu acho que deu pra vocês. Nossa, eu gosto dessas coisas. Eu gosto de mexer com coisa que eu acho que eu tenho o meu juízo perfeito. Não tenho nada que me tire. Os meus filhos me admiram. É que é duro. A gente viveu tanto tempo junto que falta um pedaço da gente. Ninguém, quem não viveu não sabe. Agora estou no terceiro ritmo de vida. Certo? Você nasce, cresce e o dia que você vai casar. Na casa do teu pai tem um ritmo, no dia que você casou é outro ritmo de vida. Não é que você vai abandonar seus pais, mas você vai viver com outra pessoa e é uma vida completamente diferente. Concorda? Você vive que nem eu vivi: 59 anos de casado, fora os cinco que a gente namorou, e ela morreu. Vou pegar um ritmo que eu não tenho experiência. E se você passou por isto eu não aceito o seu conselho. Sabe por quê? Sua natureza é uma e a minha é outra. Eu tenho a minha natureza. Meus filhos chegaram e falaram: “Pai, e agora como você vai fazer?” Eu tenho quatro filhos, se eu quisesse ir morar com alguém. Eu falei: “Você sabe, com toda coisa que eu estou na cabeça eu vou dar a resposta já: por enquanto vou ficar aqui. Só por dois motivos: um pela minha saúde e outra pelos meus vizinhos de 37 anos, que eu me dou melhor do que com muitos parentes”. Porque a família é grande. Sabe como é? Na casa de minha mulher são vinte e oito irmãos. Um casa com um espanhol, outro casa com outro. Vai mudando tudo assim. Entra um monte de coisa no meio que não é mais aquilo. Os próprios irmãos têm diferença um do outro. Não é isto? Os próprios irmãos. Não é igual. Com a benção de Deus tô aí. Não tá faltando nada. Tenho a minha renda que dá pra eu viver. Eu paguei a aposentadoria da minha mulher. Que eu paguei como autônomo. Não é fácil pagar, mas paguei. Lá em São Caetano também, o boteco ficou em nome dela também. Onze anos lá e mais oito como autônomo. Ela trabalhou na prefeitura como faxineira, não sei como é que é. Quando foi pra requerer a aposentadoria dela eu somei e dava 33 anos. Ela ganhava na prefeitura 450 reais, era o mais baixo ordenado que tinha, mas um prefeito que entrou tirou um salário e derrubou. Em vez de subir ele baixou. Isto nas últimas contribuições prejudica a pessoa. Não é isto? Se você trabalhou 30 anos e pagou 27 anos cinco salários, mas nos três anos você conseguir passar a pagar dez, você vai receber salário bom. Mas se 27 anos você pagou dez salários e depois passar pra um você se lascou. Vai receber um. Eles consideram os últimos três anos. Isto eu sei por que fiz aposentadoria. Fiz coisas! Nossa, eu passei pra o advogado em Mauá o cara, o chefe...

 

P/2 – Nestes seus 89 anos de vida o senhor contou vários casos que você conseguiu. Ganhou o cliente no armazém, foi no SENAI e falou com o diretor. Onde você aprendeu a ser do jeito que o senhor é?

 

R – Acho que já nasci com esta ideia. Porque tem coisa que eu invento que, tem uma moça que tava fazendo limpeza lá em casa e eu falei: “Isto aí eu que inventei”. E até em comida. A senhora tá vendo: eu nunca fiz comida e estou fazendo assim, assim. Eu não sabia. Eu que estou fazendo da minha ideia. Sabe? Eu faço as coisas assim. Me vem na cabeça. Não foi orientação de ninguém. Eu nunca precisei perguntar pra outra pessoa como se vira. Só que minha patroa era sabida. Ela sabia controlar uma casa. Porque o homem que casa, acontece isto às vezes com o casal. Tem homem que casa com mulher que não sabe tomar conta de uma casa. Ele ganha o que for e nunca ta bem. Agora, a mulher pode saber, mas se o homem não souber não vai estar bem também. Então é dinheiro estragado. Eu sei porque convivi com pessoas no interior. Vou contar. Um boteco. Então é uma experiência que você vai adquirindo. Ele morava pertinho, na esquina, no mesmo quarteirão que eu tinha boteco. Ele era agente da estatística, empregado federal. E ela era professora de grupo. Naquele tempo os dois ganhavam um ordenado bom. E tinham duas meninas. E tinham casa própria. E estavam sempre devendo para os outros. Inclusive quando ele morreu, ele ficou me devendo. E a mulher não quis me pagar porque não mandou eu vender bebida pra ele. Só que na minha casa nunca se jogou nada fora. Faz um almoço, sobrou um quilo de carne, não jogou pra cachorro. Não quero nem cachorro dentro de casa. Não é lugar de cachorro. Não gosto. Animal é animal, mas dentro da minha casa não. As vezes ele sentava no meu boteco, ele ganhava bem, e sempre na tanga, sabe, sempre devendo. Nem ele sabia controlar, nem a mulher. Porque uma mulher que não sabe controlar a cozinha, o marido dá dinheiro, ela faz comida estragada, joga fora e não faz nada bom. Pra quem sabe, a minha mulher de um nada, ela transferia pra outra comida e aproveitava aquela coisa. Esta é a casa que funciona. O homem também, a parte dele. Fazer certas extravagâncias e coisas erradas, sempre soube controlar. Pra eu comprar as minhas coisas, é tudo pensado e feito coisa que se aproveite. Não é fazer negócio errado. Isto eu tive sorte com ela porque ela sabia controlar a casa. Sabia. A parte nossa que vende com comércio e tudo ela ajudou, mas a direção sempre foi minha. Sempre foi minha, não tem nada que eu fazia negócio e ela... Sempre a gente. Com a benção de Deus. Não é que ficou rico. Eu acho que a riqueza... Na época que meus filhos estavam na idade de fazer faculdade, todos os quatro fizeram, mas pagaram com o dinheiro deles. Mas a casa estava funcionando e tinha tudo pra eles, comida e roupa lavada e tudo certinho. A gente fez a nossa parte e eles fizeram a deles. Já vim pra São Paulo por este motivo. Meu filho mais velho, da Rosângela, ele agradece todo dia: “Ah, pai isso não nem uma unha do que o senhor fez pra gente”. Entende? Porque ele viu como foi criado. No interior, no natal matava vinte e tantos cabritos, eu separava, limpava, punha numa sacola e ele e a minha menina mais velha iam entregar na casa dos fregueses. Fulano de tal entregava. E cata garrafa vazia. Todo mundo já ajudava um pouquinho. Se o chefe da família for uma pessoa que faz qualquer coisa errada aonde que vão seus filhos? Vão acompanhar. Tem que ter um esteio pra acompanhar a casa. Até agora tá de pé, né?

 

P/1 – Seu Brasílio, vamos encerrar agora.

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