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História

"Eu quero sair do Brás só quando eu morrer!"

História de: Neuza Catharina Galdi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/07/2003

Sinopse

Dona Neuza passou toda a vida no bairro do Brás, na cidade de São Paulo, e conta sobre as mudanças que ocorreram no bairro ao longo de sua vida, incluindo a chegada do metrô na região, sobre as transformações no comércio e a relação com os vizinhos. A história fala sobre os bailinhos que Neuza e os amigos faziam na adolescência, os passeios para paquerar, a relação entre os italianos e espanhóis que dividiam os quintais e cortiços do Brás e sobre a comida italiana, uma tradição familiar. Retrata episódios tristes, como a morte de um parente que foi comido por cachorros, mas também fatos cômicos, como as confusões entre italianos e espanhóis, que no fim acabavam em pizza. 

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História completa

P1 – Dona Neuza, qual o seu nome e data e local de nascimento?

 

R – Meu nome é Neuza Catharina Galdi, a minha data de nascimento é 10 de dezembro de 1943.

 

P1 – E nasceu....

 

R – Nasci no Brás.

 

P1 – O nome dos seus pais?

 

R - João Galdi e Maria Consuelito Galdi.

 

P1 – O que eles eram, a atividade deles?

 

R – O meu pai trabalhava no mercado e minha mãe, prendas domésticas.

 

P1 – E os avós maternos, do lado da mãe?

 

R – Meu avô trabalhava no Matarazzo, você quer o nome deles também?

 

P1 – Também.

 

R – Miano Cociolito e Luísa Marrano Cociolito, meu avô trabalhava no Matarazzo e a minha avó em casa.

 

P2 – Onde nasceu o seu avô?

 

R – Em Nápoles, são napolitanos.

 

P1 – Todos?

 

R – Todos.

 

P1 – O que faziam os seus avós?

 

R – O meus avós paternos eram Antônio Galdi e Regina Galdi, eles eram de Salerno e trabalhavam no mercado do meu avô, banca de frutas, minha avó era doméstica mesmo, ficava em casa.

 

P2 – Sabe o que o seu avô materno fazia na Matarazzo?

 

R – Ah, eu não lembro, disso daí eu não sei. O que ele fazia eu não sei, eu sei que ele tinha bastante atividade, ele trabalhou no Matarazzo, ele trabalhou no Crespi, que antigamente tinha todas essas firmas aqui.

 

P2 – Eram fábricas?

 

R – Eram fábricas.

 

P1 – Eles já chegaram e já arrumaram trabalhos em fábrica?

 

R – É, eles já chegaram e já começaram a trabalhar na fábrica.

 

P1 – Como é que era a sua casa da infância, a primeira coisa que a senhora se lembra?

 

R – Da minha casa... A minha casa sempre foi uma casa muito alegre. Sabe, que em família de italiano não existe quase tristeza. Nós somos umas pessoas muito emotivas, muito sentimentais, o italiano é muito sentimental. Mas o que eu me lembro é que eu tive uma boa infância.

 

P2 – E onde era essa casa?

 

R – Minha casa era na rua Brasilina antigamente, onde passou a Radial.

 

P2 – O número a senhora lembra?

 

R – Acho que era 155.

 

P2 – E como era essa casa, quantos cômodos tinha?

 

R – Tinha o quarto, sala, cozinha, banheiro, tinha um quintal.

 

P1 – Quantas pessoas moravam?

 

R – Morava eu, meu pai e minha mãe, depois nasceu a minha irmã.

 

P2 – Qual o nome dela?

 

R – Ana Maria Galdi.

 

P1 – Quando passou a Radial a senhora lembra?

 

R – Ah, eu lembro perfeitamente quando passou a Radial. A Radial foi até uma pena, porque deixou muitas pessoas desamparadas, foi aí que foi terminando o Brás, aí que começou a desapropriarem tudo e foi terminando o Brás. Inclusive, tem uma criança que morreu numa lagoa que tinha, desocuparam tudo né, era um terreno baldio, tinha uma lagoa, morreu uma criança lá. Eu lembro quando eu era pequena, quando eu era criança, que tinha morrido.

 

P1 – Quer dizer, quando a senhora ainda estava lá, quando pediram pra sair...

 

R – Aí saiu, sair pra Radial ...

 

P2 – Quantos anos a senhora tinha?

 

R – Eu era muito pequena. Ainda quando eu era pequena, foi o meu pré-primário, o jardim de infância era no Nossa Senhora de Casaluce, onde a capelinha era só uma... uma coisinha assim, uma capelinha, muito pequenininha, acho que tinha uns três, quatro bancos só, pra gente poder rezar, e tinha o quadro de Nossa Senhora. Foi lá que eu comecei o jardim de infância.

 

P1 – Eu queria voltar um pouco no negócio da Radial, a senhora morava em casa alugada?

 

R – Alugada, era alugada.

 

P1 – A senhora lembra se foi desapropriada?

 

R – Foi desapropriada, foi tudo desapropriado, tudo da Radial foi desapropriado.

 

P1 – Quando começaram a construção, a senhora lembra?

 

R – Não, aí já não lembro mais da Radial, quando começaram a construção. Eu passei, eu vim morar aqui na rua Piratininga, era no número 986 que nós morávamos, aqui na Piratininga. Depois fomos morar na rua Visconde, também 986; da rua Visconde  voltamos, moramos de novo na Piratininga, nisso daí eu já tinha as minhas filhas e tudo, voltamos a morar aqui na Piratininga, aí da Piratininga fomos morar na Carneiro Leão, depois viemos pra Coronel Mursa e viemos pra cá.

 

P1 – Nós estávamos lá na sua casa de infância, quem mandava mais seu pai ou a sua mãe?

 

R – Ah, meu pai, né? Era meu pai, mas a minha mãe era uma pessoa muito rígida, a gente foi criado num regime muito lá, sabe, muito severo, a minha mãe era uma pessoa muito severa, a minha mãe não gostava de amizades, minha mãe não tinha amizade com vizinho nenhum.

 

P1 – Nem com os italianos?

 

R – Com vizinho nenhum, a minha mãe era muito severa e o pai também.

 

P2 – E ela falava o português, a sua mãe?

 

R – Não, a minha mãe falava muito o italiano.

 

P2 – Nunca aprendeu?

 

R – Não, a minha mãe falava tudo em italiano. E nós viemos tudo naquela...

 

P2 – Mas o dialeto?

 

R – Era, era o napolitano. Tanto que é, que eu entendo o napolitano perfeito, porque a minha mãe já era de....

 

P1 – Eram quantos filhos na casa?

 

R – Éramos eu e a minha irmã, só.

 

P1 – Só as duas?

 

R – Só nós duas. A gente vivia, nós vivemos uma infância boa, mas a gente tinha aquele regime de casa, a gente tinha horário para dormir, a gente tinha horário para levantar, a gente tinha horário para comer, como a gente tinha horário de brincar. Brincar, nós brincávamos sozinhas, eu e ela, porque  não podia ter ninguém, porque a minha mãe não gostava, a minha era uma pessoa muito assim, certa, sabe?

 

P1 – Não se dava nem com os outros italianos?

 

R – Não, não. A minha mãe não queria, não gostava de muita amizade. A amizade da minha mãe era só a família dela, entendeu?

 

P2 – E o pai?

 

R – Meu pai era mais calmo que a minha mãe. Mas a minha mãe, ela só gostava da família dela, amizade para ela era só da família.

 

P2 – Vieram outras pessoas da família dela?

 

R – Todas as irmãs dela, já faleceram todas.

 

P2 – Vieram juntas?

 

R – Vieram todos juntos.

 

P2 – A senhora se lembra dessas tias?

 

R – Lembro. Minhas tias eram pessoas maravilhosas, meus tios...

 

P2 – O que acontecia quando eles se reuniam?

 

R – Nossa! Quando eles se reuniam, então eu vou te contar a história de quando eles se reuniam! Você não entendia nada, todo mundo falando junto, era tão gostoso! Jogavam tômbola, jogavam bingo, se reuniam, eram aquelas macarronadas, aquelas polentas, a família toda reunida. Era uma delícia isso!

 

P1 – Como era a macarronada? Que tipo de macarrão e qual o tipo de molho?

 

R – Molho vermelho, né, era molho de tomate.

 

P2 – Mas não era feito em casa?

 

R – Era feito em casa, não se comprava nada. Porque eu, agora, depois que morreu a minha mãe é que eu vim saber de comprar macarrão fora, porque a minha mãe não comprava macarrão fora, a minha mãe é quem fazia tudo, minha mãe era uma excelente cozinheira e a minha avó também.

 

`P1 – Mas não tinha máquina né?

 

R – Não! Agora é que saiu aquela maquininha, tudo, ainda mesmo assim a gente faz o macarrão em casa, nós lembramos da mamãe,  nós lembramos do papai, você entendeu? Porque tudo o que você faz, você lembra da tua mãe e do teu pai, do que eles faziam. A minha mãe tinha a maior paciência do mundo de cozinhar, não existe até hoje quem faz melhor que a minha mãe.

 

P2 –A família se reunia todos os dias ou era só nas festas?

 

R – Todos os dias, todos os dias de manhã a família da minha mãe, todos na casa da minha avó, e quando era de domingo todos iam almoçar na casa da minha avó, na minha nonna, que não se chamava de vó, chamava nonna.

 

P2 – Onde moravam, onde era?

 

R – Na rua Placidina, travessa Brasilina, tinha a rua e a travessa Brasilina.

 

P2 – Chama a travessa com o mesmo nome?

 

R – Era. A travessa porque era pequenininha e a rua era comprida. A minha avó morava na travessa Brasilina, minha nonna. Todo mundo se reunia na casa da nonna e do nonno.

 

P2 – Na hora do café da manhã?

 

R – Na hora do café da manhã. Todos os filhos iam, porque eram nove. Quando era no domingo, todos os nove filhos, com as mulheres, com os filhos, iam tudo almoçar na nonna.

 

P1 – E ela fazia comida sozinha, a nonna?

 

R  - Fazia. Cada filha, todas as filhas ajudavam, era uma macarronada, era cabrito no forno, era aquela festa... tudo a minha avó fazia, a minha nonna.

 

P1 – E a sobremesa, o que era?

 

R – Sobremesa era sempre frutas. Eram aquelas macarronadas, era travessa... nunca vi na minha vida, umas travessas daquelas grandonas.

 

P2 –E na família paterna, era também essa reunião de família?

 

R – A gente não tinha muita amizade, a gente sempre tinha mais amizade com a família da minha mãe.

 

P2 – Pra que lado do Brás eles moravam?

 

R – Os meus avós paternos? Lá perto da Santa Rita, esses lados assim, e nós sempre moramos pro lado de cá. E a gente sempre teve mais amizades com os meus avós maternos.

 

P2 – Que são os napolitanos?

 

R – São. Tanto é, que o meu avô era o festeiro daqui, da Nossa Senhora de Casaluce.

 

P1 – E como é que era isso, como que é o festeiro?

 

R – Eram uma coisa maravilhosa as festas de Nossa Senhora. Antigamente, quando a Nossa Senhora saia na rua, era tudo esses festeiros muito ricos que tinham por aqui, tudo italiano, todos italianos ricos. A Nossa Senhora não vinha com um manto, o manto da Nossa Senhora era coberto de dinheiro, de notas de dinheiro, punham tudo nos quadros de Nossa Senhora, tudo no manto da Nossa Senhora, punham tudo dinheiro. Porque a Nossa Senhora é um quadro, né, e não tem aquela... Era tudo cheio de dinheiro o quadro de Nossa Senhora.

 

P2 – Quem colocava?

 

R – Todos os italianos.

 

P2 – Da rua?

 

R – Da rua, os italianos que eram muito ricos, né. Tinha muito italiano, tudo devoto a Nossa Senhora, porque a Nossa Senhora é muito milagrosa, Nossa Senhora. E todos nós seguimos a tradição do meu avô, da minha família, só nós aqui da minha casa seguimos essa tradição, aqui nós todos trabalhamos na festa, até os meus netinhos.

 

P1 –Mas não divide um pouco pra são Gennaro também? São Vito?

 

R – Não. São Gennaro também, agora nós estamos indo, né, mas nós somos devotos a Nossa Senhora de Casaluce. São Gennaro também é um santo napolitano, mas nós somos devotos da Nossa Senhora de Casaluce.

 

P1 – A senhora ia contar que ele era o festeiro...

 

R – Ele era o festeiro, o meu avô ajudava  a organizar as festas de Casaluce, porque são cem anos que tem a festa, este ano fez cem anos. Meu avô ajudava a promover as festas, ele com os outros italianos que trouxeram a imagem da Santa, não,  nem a imagem, porque a Nossa Senhora não é imagem. Não sei se o padre já contou isso pra você.

 

P2 – Ele falou que é o quadro...

 

R – Então, trouxeram o estandarte de Nossa Senhora da Itália.

 

P2 – Não foi uma moça chamada Míriam que trouxe?

 

R – Não, foi ele com muitos outros italianos, que deve ter sido.

 

P2 – Não foi sozinho?

 

R – Não, sozinho não. A Nossa Senhora, quando veio da Itália, já veio mesmo, veio em estandarte.

 

P2 – Como eram as procissões? O que tinha?

 

R – Lindas! Era uma procissão, que você sabe, até hoje nessa procissão você fica com aquela emoção, que todo mundo chora.

 

P2 – Descreve pra gente.

 

R – Todo mundo chora nessa procissão porque Nossa Senhora, sei lá, Nossa Senhora é uma... A tradição de todo mundo do Brás é ela, ela é tradição daqui do Brás. Então quando sai a Nossa Senhora daqui da igreja, você olha pro rosto de todo mundo, todo mundo chorando, porque uns choram de alegria, outros choram de tristeza, porque não está mais a mãe, o pai, porque é uma coisa tradicional. É uma festa muito bonita, Nossa Senhora, muito.

 

P2 – E vai muita gente?

 

R – Vai! Todos eram do Brás, é que foram morrendo muitos, muitos morreram, mas é... ainda continua indo muitas pessoas aqui do Brás. Tiveram que mudar, porque passou o metrô, muitas casas também foram desapropriadas por causa do metrô.

 

P2 – A senhora lembra?

 

R – Eu lembro, eu era pequena. Eu lembro que, inclusive, os irmãos da minha mãe foram morar pro alto da Moóca, moravam  aqui no Brás, na rua Campos Sales, na rua Professor Batista, toda a família da minha mãe morava aí. Quer dizer, todos nós somos do Brás, nós somos filhos do Brás. Porque aqui eu saio na rua e conheço até as pedras, é difícil estar como nós estamos, que nós vamos trabalhar numa festa e a gente... todo mundo vendo que todo mundo conhece a gente, você entendeu? Todo mundo então, repassando, vem hoje na festa da Casaluce, nós estaremos lá e “tá, tá, tá”. E todo mundo aparece, porque é uma festa tradicional, então...

 

P1 – Encontra todo mundo.

 

R – Aí, sim.

 

P2 – Dona Neuza, falando das pedras agora, a senhora lembra dos paralelepípedos?

 

R – Eu lembro, lembro até do bonde quando passava aqui na rua Piratininga.

 

P2 – Conta pra gente...

 

R – Eu era muito pequena, quando ainda passavam os bondes aqui na rua Piratininga. Eu lembro do bonde.

 

P2 – A senhora andou de bonde?

 

R – Eu andei, eu era pequena.

 

P2 – Como é que era?

 

R – Pra mim, aquilo lá era uma coisa, era uma festa.

 

P2 – E criança ia sozinha?

 

R – Não, sozinha não. Ia acompanhada dos pais. Às vezes também sozinha, porque antigamente não existia o que existe hoje. Antigamente a gente brincava nas ruas, eram tudo de paralelepípedos, mas você brincava na rua, a gente deixava a porta aberta, os leiteiros punham os leites nas portas, lá ficavam e ninguém mexia, a gente brincava na rua,  a gente tinha amizade que era amizade. Você, as nossas amizades que até ficavam com a gente dentro de uma casa fechada, e nunca acontecia nada de errado, porque não existia o que existe hoje. Infelizmente, hoje não está brincadeira, mas no meu tempo de criança, foi um tempo maravilhoso, a gente ficava na rua até dez, onze horas da noite.

 

P2 – Do que vocês brincavam?

 

R – A gente brincava de roda, a gente brincava de pega-pega, a gente brincava de cobra cega, a gente brincava de tanta coisa... de jogar aquelas bolas... Não existia o que existe agora. A gente jogava uma a bola para a outra e todo mundo... Até bola de futebol nós jogamos, até futebol na rua a gente jogou, foi a infância da gente, foi uma coisa maravilhosa.

 

P1 – Ninguém ensinou pra vocês alguma brincadeira tradicional italiana, que vinha de lá?

 

R – Não, não, isto não. Assim, a gente não... sabe, era uma coisa, antigamente o Brás era Brás, vocês não viam nada assim. Você viam o quê? O Brás era uma coisa tradicional, você via nas padarias. Quando abriam, a gente... tinha vezes que a gente ia para os bailinhos, que cada um fazia bailinho na sua casa, eu lembro que aqui na rua Alegria nós tínhamos uns três, quatro amigos aqui, moravam tudo aí em frente,  inclusive esse que se candidatou a vereador, era nosso amigo.

 

P2 – Como ele chama?

 

R – Pepe, Carmino Pepe, ele ficava aqui conosco. A gente: “Vamos fazer um bailinho na casa de fulano?” “vamos...”. Ia todo mundo pra casa da pessoa e lá se armava um bailinho de repente, tirava tudo do meio e era um bailinho. Era gostoso antigamente, gente! Quando eu falo para as minhas filhas que antigamente você podia viver, elas acham que não. Hoje você não pode viver, mas antigamente você podia. Antigamente não existia maldade nos olhos das pessoas...

 

P2 – Dona Neuza, a senhora falou que ficava na rua até tarde da noite...

 

R – Ah, nós ficávamos, minha mãe ficava com as irmãs dela, sentada na porta.

 

P2 – E era iluminado?

 

R – Era iluminado, era bonito. Era gostoso nas festas juninas, cada um fazia sua fogueira na porta, dali a pouco você ia ver, estava todo mundo numa fogueira só. E todo mundo fazia uma coisa, um fazia uma pipoca, outro fazia bolo, se armava aquelas mesas no meio da rua, na calçada você colocava aquelas mesas, cada um levava um prato. Mas que delícia, menina, a minha infância foi maravilhosa!

 

P2 – E tinha quermesse também?

 

R – Tinha.

 

P2 – Era na época da festa junina a quermesse?

 

R – Tinha essas “quermessezinhas” de escola, nos colégios, aqui no Romão Puiggari, onde a gente estudou.

 

P2 – A senhora estudou no Romão?

 

R – Eu estudei no Romão Puiggari.

 

P2 – Como é que era lá?

 

R – Era muito diferente do que é agora, era mais gostoso. Sei lá, a gente vivia uma vida muito melhor, a gente vivia uma vida muito melhor.

 

P2 – Mas o Romão Puiggari existe até hoje?

 

R – Existe até hoje, já são cento e poucos anos que está aí, né?

 

P2 – Antes a senhora disse que estudou num prezinho...

 

R – O meu pré-primário, não era o pré-primário, era um jardim da infância, pra gente ir se habituando, era no Nossa Senhora de Casaluce.

 

P2 – Tinha professora?

 

R – Tinha uma professorinha lá, não lembro o nome dela, mas eu lembro que tinha uma professora lá.

 

P2 – Quantas crianças iam?

 

R – Iam bastante crianças, eu lembro até quando vinha uma senhora buscar a gente na rua e a gente ia tudo de fila, ia pro catecismo na San Gennaro, a gente ia tudo com um escudo na mão, e todas as crianças atrás e a mulher levando a gente, todos pra missa, na missa das dez horas. Era todo mundo, todas as mães punham seus filhos na fila e a mulher levava, era gostoso.

 

P2 – Onde era essa missa?

 

R – Na San Gennaro.

 

P2 – Iam na rua?

 

R – Todas as crianças iam na rua e a mulher passava, antigamente levava aquele escudo. Que levava na mão, assim, levava na mão e as pessoas iam todas atrás, as crianças, era tão gostoso.

 

P2 – E na volta?

 

R – A mesma coisa, ela entregava cada um na sua casa.

 

P2 – A pé não era longe?

 

R – Não,  que eu morava e a igreja era lá na Moóca.

 

P2 – Que ótimo, vocês iam fazer catecismo lá?

 

R – A gente assistia missa, fazia o catecismo, tomava café com leite, seu pão com manteiga e depois a gente vinha pra casa.

 

P2 – Tinha catecismo na Casaluce?

 

R – Ainda não tinha, porque era muito pequenininha, era muito pequena ainda, não, acho que nem missa aí. Era que nem uma casquinha de ovo, era assim, lá dentro só cabia uns três ou quatro banquinhos só.

 

P2 – Na Romão Puiggari tinha ensino religioso?

 

R – Tinha. Tinha o Bom Jesus do Brás, mas acontece que como eu já ia no domingo lá, eu não ia aí né? No domingo eu ia na San Gennaro, quer dizer, na São Januário, antes não era nem San Gennaro, era São Januário.

 

P1 – A sua mãe era meio assim, em casa, ela batia?

 

R – Não, não. A gente sempre foi criança calma, sempre assim, porque a minha mãe era muito rígida, a minha mãe não precisava bater, ela não ia nem perder o tempo dela de bater, era só olhar. (risos) Olhava e a gente já entendia o que iria fazer, tudo a gente já... Quando vinha alguma amiga da minha mãe, qualquer coisa, visitar a minha mãe, nós já entendíamos pelo olhar da minha mãe que era para a gente se retirar da sala.

 

P1 – Tinha uniforme pra ir pra escola?

 

R – Tinha, era saia azul e blusa branca.

 

P2 – E sapato?

 

R – Sapato preto, aqueles de pulseirinha, sabe, agora não se usa mais, eram uns sapatos de pulseirinha, e meia branca.

 

P2 – Era de manhã?

 

R – Eu estudava de manhã, depois estudei à tarde.

 

P1 – As crianças eram bem comportadas?

 

R – Eram bem comportadinhas, não existia a maldade que existe hoje. Apesar que sempre existiu o que é bom e o que não presta, o que presta e o que não, né, mas sempre existiu.

 

P1 – A escola tinha ginástica?

 

R – Tinha ginástica. O que hoje eles falam que é física, antigamente era ginástica, era mais assim...

 

P1 – Vocês se divertiam nos bailinhos, o que mais?

 

R – A gente aqui tinha bastante bailinho, a gente brincava demais na rua, a gente vivia na rua.

 

P2 – O que tocava de música nos bailinhos?

 

R – Eram essas músicas lindas, não era nada do que toca hoje. Era aquelas do Bienvenido Granda, do Gregório Barrios, do Ray Conniff, era música música, não era gritaria.

 

P2 –Vinham os rapazes chamar para dançar?

 

R – Os rapazes vinham, tiravam a gente para dançar, nada da gente ficar olhando, tiravam a gente: “Vamos dançar essa...” Se a gente dava a tábua, também não dançava com mais ninguém.

 

P2 – Como é que chama isso?

 

R – Tábua, é. (risos) Você entendeu, a gente... se você não dançava, então não dançava nem com ele nem com ninguém.

 

P2 – Ninguém mais vinha tirar?

 

R – Não.

 

P2 – Então tinha que dançar com todo mundo?

 

R – Tinha que dançar com quem vinha te tirar pra dançar. Porque antigamente, você não era que nem hoje: “Vamos ficar.” Antigamente não existia... Eu fico besta hoje em dia, vendo essas coisas, porque eu mesmo, nós namoramos, nós casamos, nós tínhamos horário de namorar e horário de entrar pra dentro, nem na porta nós íamos.

 

P2 – Até que horas podia ficar na rua?

 

R – Nove horas. Pra namorar. O namorado era nove horas, nove e meia, nove e quinze, mas nunca passava disso.

 

P1 – O pai chamava o namorado pra saber?

 

R – Nossa senhora, imagina! Eu comecei a namorar escondido do meu pai, eu tinha um medo louco.

 

P2 – Como é que a senhora conheceu o...

 

R – Na casa de uma vizinha.

 

P2 – Como é que é o nome mesmo?

 

R – José João da Costa.

 

P2 – Como é que a senhora conheceu?

 

R – Ele foi na casa de uma vizinha minha, eu conheci ele, e ele ficou gostando de mim e eu fiquei gostando dele, né? Primeiramente eu namorei um italiano.

 

P2 – Teve um primeiro namorado?

 

R – Ele era italiano mesmo, da Itália, eu amava ele. Então eu gostava muito dele, tinha muito ciúme de mim e a minha mãe fez eu deixar dele. Minha mãe não gostava dele.

 

P2 – Por quê?

 

R – Porque ele tinha ciúme de mim, não me deixava sair nem na porta. Tinha uma quitanda na frente da minha casa, eu não podia nem ir na quitanda pra minha mãe, a minha mãe tinha que esperar o meu pai vir ou ela chegar, pra ela ir comprar as coisas, minha irmã era pequenininha também, ela era mais nova que eu. Eu namorava com esse e tudo, mas escondido do meu pai e da minha mãe, porque a minha mãe não podia vê-lo. Quando a minha mãe veio descobrir, foi quando eu precisei deixar dele, ele pra lá e eu pra cá.

 

P1 – Foi fácil deixar dele?

 

R – Foi nada, não foi fácil nada. Mas era namoro de criança, mas já agora com o meu marido eu já namorei, noivei e casei em um ano.

 

P1 – Nossa, que rápido! E como é que a senhora conheceu?

 

R – Na casa de uma vizinha minha, ele foi, foi aí. Eu falei pro meu pai: “Eu estou namorando, assim, assim, assim.” Meu pai falou: “Então manda ele vir aqui.” Ele foi lá e falou com o meu pai e o meu pai falou: “Quando é o noivado?” Ficamos noivos, porque antigamente usava-se ficar noivo de aliança, tudo direitinho e tal.

 

P1 – Festa?

 

R – Festa e tudo.

 

P2 – Quantos anos a senhora tinha nessa época?

 

R – Acho que eu tinha uns 16, 17 anos.

 

P1 – Teve festa?

 

R – Noivado, tudo, teve um almoço. Tudo bem, ficamos noivos e mesmo assim a gente tinha horário, mesmo com a aliança no dedo, horário pra entrar e outro pra sair. Nunca fui ao cinema como meu marido, só depois de casado.

 

P2 – E antes?

 

R – Antes era só na porta.

 

P2 – Mas no cinema a senhora ia antes, sem ele?

 

R – Sem ele, sim. Sem ele ia com as minhas amigas, né? A gente tinha “Dio comme ti amo”, como assisti cinquenta milhões de vezes. (risos) Antigamente tinha o Cine Roma aí, na Radial, eu ia aí no Cine Roma, tinha o Cine Glória, na rua do Gasômetro, tinha o Piratininga. Então a gente ia lá no Cine Roma.

 

P2 – O que vocês mais iam era no Cine Roma? Onde era mesmo o Cine Roma?

 

R – Era. Aqui na Radial.

 

P2 – E no Cine Glória a senhora chegou a ir?

 

R – Oh, quantas vezes. No Cine Glória eu assisti O Dólar Furado,  lembro como se fosse agora, tantos filmes e, antigamente, no meu tempo de infância, tinha um “cine” aqui na esquina da Coronel Mursa, onde toda a mulherada ia e levava lanche no cinema, e passava aqueles filmes da Libertad Lamarque, passava aqueles filmes espanhóis, italianos, que você saía assim, com olhos inchados de tanto chorar, mas toda a mulherada levava comida, tudo aqui nesse Cine Ideal. Passava filmes antigos, porque os filmes, também os filmes de antigamente, eram melhores do que hoje.

 

P2 – Como que era o cinema dona Neuza?

 

R – Como assim como era o cinema?

 

P2 – Por dentro.

 

R – Era bem equipadinho, tudo era bem feitinho, tudo direitinho, tudo cada um nas suas cadeiras, mas era como eu estou te falando, a pessoa… A gente, como era muito criança... O meu pai conheceu a minha mãe no teatro, o teatro que tinha aqui, o Teatro Colombo.

 

P2 – Vocês chegaram a ir?

 

R – Eu não, o meu pai sim. O meu até trabalhou no teatro.

 

P2 – O que ele fazia lá?

 

R - O meu pai ajudava, às vezes faltava um artista, vamos supor,  vai, às vezes tinha que apagar o fogo (que fazia parte da peça) e fulano não veio na hora da peça, meu pai ia e substituía.

 

P2 – Ele ia ser ator?

 

R –É. Ele substituía as pessoas que, figurante que faltava, o meu pai substituía.

 

P2 – Mas a senhora se lembra do Teatro Colombo, de passar na frente, ou já não tinha mais?

 

R – Não, já quando eu nasci já não tinha mais. Eu lembro do Parque Shangai.

 

P2 – Como era?

 

R – Era aqui, um parque de diversões que tinha no fim da... aí no Parque Dom Pedro. Era um parque de diversões, tinha roda gigante, lá iam todas as pessoas. Não existia hoje em dia essas... não posso falar, né?

 

P2 – Pode falar.

 

R – Esses pretos, esses baianos, essas pessoas assim, não existia, entendeu? Eram só filhos de italianos, filhos de espanhol, filhos de portugueses, eram só essas raças misturadas. Mesmo na rua Caetano Pinto, tinha o quintal do Escopeta, era espanhol e italiano quem morava.

 

P1 – O que é isso?

 

R – Era o que chamava de quintal do Escopeta, era como um cortiço, porque existiam muitos cortiços aí e não existia baiano e preto, era só espanhol, era italiano.

 

P1 – Conta do Escopeta.

 

R – Era esse quintal, era um cortiço.

 

P2 – Escopeta era o dono?

 

R – É, puseram esse apelido nele porque era o dono, era o dono e lá chamavam o quintal do Escopeta.

 

P1 – O que acontecia lá?

 

R – Era um cortiço, moravam os italianos e os espanhóis.

 

P2 – Como é que funcionava o cortiço, dona Neuza?

 

R – Cada um na sua casa, era assim quarto, cozinha, cada um na sua casa.

 

P1 – Era limpo, era sujo?

 

R – Eram todos limpos, tudo limpo, todos os espanhóis e italianos, todos limpinhos. Não existia o que existe hoje gente, não existia.

 

P2 – Era pintadinho?

 

R – Era pintadinho, arrumadinho, tudo limpo.

 

P2 – Era colorido?

 

R – Era tudo azul, acho, se não me engano era tudo azul. Mas era bonitinho, cada um tinha a sua casinha, tudo bonitinho, só que o tanque era junto, eram aqueles tanques grandes, eram juntos.

 

P2 – E o banheiro?

 

R – O banheiro também, era tudo junto, mas era tudo limpinho.

 

P2 – Tinha um único banheiro?

 

R – Não, acho que tinha uns três ou quatro banheiros, mas todo mundo cuidava.

 

P2 – Era do lado de fora?

 

R – Era do lado de fora.

 

P1 – Não tinha briga? Como é que era?

 

R – Oh, mamma mia, se tinha briga! (risos) Tinha muita briga, italiano com espanhol, se ofendiam. Quando vinham as cartas, que o carteiro gritava na porta: “carteiro!” e a carta tinha um traço preto, porque sabia que tinha morrido alguém, antes de  entregar, já tinha meia dúzia desmaiado no quintal, sem saber quem era: “Uh, morreu fulano, uh morreu ciclano.” Todo mundo gritando, todo mundo chorando. Antigamente era assim.

 

P1 – Mas os espanhóis também eram assim?

 

R – Também.

 

P1 – E as brigas, como é que era, chamava a polícia?

 

R – Não, se resolviam entre eles, não chamavam a polícia.

 

P1 – A briga era entre espanhóis e italianos ou entre eles?

 

R – Não, era nas raças, ou entre eles, se brigam pelos cabelos e depois acabava tudo em pizza, nunca surgiu ninguém que viesse chamar a polícia. Antigamente também não existia tanta polícia como existe agora.

 

P1 – A senhora tem algum caso interessante que aconteceu lá no Escopeta?

 

R – Não, eu era pequena também, eu era criança, eu brincava lá, com as crianças de lá.

 

P2 –A senhora viajava com os seus pais?

 

R – Pra bem dizer a verdade, a gente não ia viajar assim, a gente só ia nas excursões, ia pra São Roque.

 

P2 – Do quê vocês iam pra lá?

 

R – A gente ia de ônibus, às vezes a gente ia de caminhão, era um fuzuê.

 

P2 – Era pequena a senhora?

 

R – Eu era pequena, era um fuzuê, todo mundo em pé, punham os bancos.

 

P1 – Por que escolhiam São Roque?

 

R – Porque era o dia de São Roque, todos os dias 16 de agosto, então a gente ia pra lá, ia no dia dele, no dia do Santo.

 

P2 – O que faziam lá?

 

R – A gente ficava no jardim fazendo festa, um piquenique.

 

P2 – Na praça?

 

R – Não, no jardim, lá tinha um jardim, tinha um grande jardim, enorme. Então a gente chegava, pegava umas tábuas, fazia uma mesa e esticava um pano na mesa, e cada um levava... mas era uma comilança daquelas, era comida de todo o jeito que você poderia pensar.

 

P1 – O que vocês levavam?

 

R – A gente levava... a gente levava berinjela, levava pimentão, salada, levava o que mais? Levava torta, pizza cheia. Pizza cheia é aquela de salame e queijo, era assim de alta, de queijo e salame.

 

P1 – Não era o calzone?

 

R – Não, o calzone é de cebola, é uma delícia. Vocês já comeram?

 

P1 – O de ricota e escarola?

 

R – Já comeram o de ricota e escarola. Não, o  tradicional é de cebola, o tradicional é de cebola, cebola e ricota. Tem uma ricota apropriada para isso. É em pasta, depois que você tempera bem a cebola, você põe uns pedaços daquela ricota, tampa, e forno.

 

P2 –Quando estava noiva, a senhora contou que teve uma festa de noivado, onde foi esta festa?

 

R – Na minha casa.

 

P2 – E como é que foi?

 

R – Era um almoço. Nossa! A minha mãe fez tanta coisa: macarronada, tudo acaba em macarrão, macarronada, cabrito. Italiano usa muito cabrito, entendeu? Tinha a cabeça do cabrito bem temperado, com batatas.

 

P2 – E a sua mãe gostou desse noivo?

 

R – Não gostou lá grande coisa. Não gostava muito, é que ele era muito mais escuro do que eu, então a minha mãe achava que ele era preto, sabe como família é racista, minha mãe não queria, mas eu queria, não interessava. Uma ela tinha ganhado e a outra não. Ao invés de eu pender pro lado do outro, que era melhor do que esse, fui pender pro lado errado.

 

P2 – O casamento foi logo depois?

 

R – Já no dia do noivado teve que marcar o casamento, no dia do noivado já teve que marcar o casamento.

 

P2 – Quando é que foi o casamento?

 

R – Dia 22 de junho. Acho que foi de 1968 ou 1967, acho que foi 67.

 

P2 – A senhora tinha quantos anos?

 

R – Agora é que eu não me lembro. Pra te falar a verdade eu nem sabia o que era o casamento, porque a minha mãe nunca conversou com a gente.

 

P2 – Como é que foi isso?

 

R – A minha mãe nunca chegou pra nós e disse: “É isso, é assim, assim.” Você está entendendo? A minha mãe era uma pessoa muito assim, seca, minha mãe não...

 

P1 – Como é que foi?

 

R – Sim, aí eu casei e tudo bem. Nossa, quando eu me vi fechada num quarto com um noivo na lua-de-mel eu queria fugir, queria a minha mãe, queria voltar pra casa.

 

P2 – Vocês viajaram?

 

R – Viajamos.

 

P2 – Onde é que foi a lua-de-mel?

 

R – Em Santos. Um frio daqueles.

 

P2 – E vocês foram do que pra lá?

 

R – Nós fomos de carro.

 

P2 – Ele tinha carro, o seu marido?

 

R – Tinha. Bom, enquanto ia estava tudo bem, o pior na hora de eu ficar sozinha, eu falei: “Minha Nossa Senhora.” Porque você está no escuro, você não está sabendo de nada, porque a minha mãe era uma pessoa fechada demais. Sabe o que era, a gente não tinha liberdade com o namorado, tanto é que eu não conhecia ele direito, eu não sabia o que ele era, era o amor e estava tudo certo.

 

P2 – A senhora disse que o seu pai trabalhou no mercado municipal. Chegou a ir no trabalho dele?

 

R – Já.

 

P2 – Como é que a senhora ia até lá?

 

R – Eu ia de táxi.

 

P1 – O que a senhora ia fazer lá?

 

R – Eu ia buscar fruta, ia buscar dinheiro. (risos) Ele dava um dinheirinho pra eu fazer o mercado, né.

 

P2 – Mas aí a senhora era solteira ainda?

 

R – Depois de casada também.

 

P2 – O seu marido trabalhava com o quê?

 

R – Ferro velho.

 

P2 – Onde era?

 

R – Ele trabalhava aqui de caminhão, aqui na rua Visconde, lá para baixo.

 

P2 – Como era esse trabalho de ferro velho?

 

R – Comprava e vendia ferro. Eu nunca me entrosei nesses assuntos, dele trabalhar assim.

 

P2 – Mas era comum?

 

R – Era comum esse negócio de ferro velho, todo mundo trabalhava com ferro velho, todo mundo por sua conta trabalhava com ferro velho. Era gostoso. É como eu digo pra você, a gente foi acostumada de um jeito e agora está tudo de outro, a gente não entende nada.

 

P1 – As compras, a senhora fazia só lá no mercado?

 

R – No Mercado Municipal.

 

P1 – E vinha com o táxi?

 

R – Vinha com o táxi.

 

P1 – Quando a senhora casou, morava perto da casa da sua mãe?

 

R – Ah, em frente à casa da minha mãe, em frente. (risos)

 

P2 – Onde era, nessa época?

 

R – Na Visconde. A minha mãe morava no n°. 986 e eu morava em frente à casa dela.

 

P2 – Como era a sua casa?

 

R – Era bonitinha, eram dois quartos, sala, cozinha, um quintal enorme, um banheiro grande. Mas eu não ficava muito na minha casa, eu não me sentia bem. Sabe o que é? A gente foi criada muito debaixo da saia da mãe, entendeu? Eu não me acostumava sem a minha mãe, eu não me acostumava de jeito nenhum sem a minha mãe.

 

P1 – Como é que a senhora fazia?

 

R – Limpava a minha casa e ia pra casa da minha mãe, quando não, punha a minha mãe na minha casa, trazia a minha mãe e ficava na minha casa.

 

P2 – Vocês não chegaram a trabalhar fora , a senhora nem a sua mãe?

 

R – Não, não. Trabalhava mais em casa.

 

P1 – Como é que foi a sua primeira gravidez?

 

R – Você quer que eu te conte a minha primeira gravidez. Eu não tinha coragem de chegar perto do meu pai e da minha mãe pra dizer que eu estava grávida.

 

P2 – Por que?

 

R – De vergonha.

 

P2 – Quando a senhora contou pra eles?

 

R – Eu já estava de seis meses.

 

P2 – A minha mãe falando: “Você está grávida.” E eu: “Não mãe, não estou.” “Você está.” “Não estou.” A vergonha que eu tinha... “Como que eu vou chegar perto deles e comentar?” A gente foi criada desse jeito, né? Depois...

 

P1 – Quando nasceu...

 

R – Foi uma alegria imensa.

 

P1 – Primeiro neto, né? Neta.

 

R – A menina. Depois o meu pai... eu escolhi tanto nome pra minha filha, e depois o meu pai queria que eu colocasse o nome da mãe dele. Eu fiz a vontade do meu pai.

 

P2 – Como era?

 

R – Regina. Nossa, o meu pai ficou super feliz, minha mãe também. A minha mãe era tão atirada com a minha filha, só com ela, só com ela.

 

P2 – A senhora contou que depois que se casou, ia ao cinema com o seu marido.

 

R – Ia, assistir “Dio, comme ti amo”.

 

P2 – Qual cinema era nessa época?

 

R – Cine Roma. A gente ia aí no cine Roma, no cine Piratininga.

 

P2 – O que mais vocês faziam de lazer aqui no bairro?

 

R – A gente passeava, às vezes dava volta, às vezes vinha ver... Aqui tinha muita loja na Piratininga, essas de ferro velho, antigamente era loja.

 

P1 – De quê?

 

R – Loja, a Três Leões, antigamente, lembra? Vocês não lembram, tinha a Três Leões, tinha loja de móveis, Três Leões era igual a Eletro, magazine, que era tudo loja de móveis, de roupas, a Ducal, era tudo aqui na rua Piratininga.

 

P2 – Quando é que começou a ser ferro velho?

 

R – Depois foi esculachando tudo, foi mudando tudo, passou a ser tudo ferro velho.

 

P! -  O comércio aqui no Brás era o que, o forte?

 

R – Tinha essas lojas, era tudo misturado.

 

P1 – Lembra de mais alguma?

 

R – Não. Tinha a Ducal, tinha as Três Leões, tinha a São Paulo, que era bem aqui na esquina, enorme, uma loja de móveis, tinha o Paschoal Bianco ...

 

P1 – Está fechada.

 

R – Paschoal Bianco hoje está fechada, mas tinha cada móvel, luxo, alto luxo. O forte daqui do Brás eram eles, tinha o Raniere aqui, que era de azeitona, tinha a serralharia.

 

P2 – Antes da senhora casar vocês faziam esse passeio, de paquera? Ou isso já não era da sua época, da Rangel Pestana?

 

R – Ah não, já não era da minha época, que passeava, não, já não era da minha época. Isso era da época da minha mãe, que elas passeavam, que tinha o Guarani, não era?

 

P2 – Era.

 

R – Não, era no tempo da minha mãe.

 

P2 – Sua mãe contava?

 

R – Minha mãe contava. Elas iam passear na avenida e cada um ficava de um lado, elas de um lado e os homens de outro, se paqueravam. Também no meu tempo existia muita paquera, pra um cara chegar e falar com a gente pra namorar, ih... isso aí demorava, não era assim, “pum!”, e pronto.

 

P2 – Onde é que acontecia essa abordagem do rapaz?

 

R – Na rua às vezes, você passava, o cara olhava, você ficava tirando linha, você entendeu? Antigamente era isso, você ficava tirando linha com a pessoa, mas isso demorava muito tempo, você ficar tirando linha pro cara criar coragem de falar com você pra namorar.

 

P2 – E os bailes, tinha uma roupa especial pra baile?

 

R – Não, não. Quer dizer, a mulher não podia usar calça comprida.

 

P2 – Como é que era a roupa?

 

R – Era saia, era vestido. Calça comprida antigamente, no meu tempo, não era muito bem vista.

 

P2 – As cantinas no bairro, a senhora sabe contar, tinha muita cantina?

 

R – Tinha, tinha a... que ainda continuou, a Giggio, tinha aquela perto da Giggio, que era a...

 

P2 – A Balila fechou? A senhora sabe?

 

R – Fechou. A Balila inclusive, a primeira dona da Balila, nós tínhamos uma grande amizade com ela.

 

P2 – Como é que ela chamava?

 

R – Dona Angelina.

 

P2 – A senhora a conheceu?

 

R – Eu era pequena, mas eu via quando a minha mãe falava com ela e tudo. Eram italianos.

 

P2 – Vocês chegaram a ir lá alguma vez?

 

R – Ah, já fui lá diversas vezes, nessas cantinas aí do Brás, Castelões.

 

P2 – Onde fica?

 

R – Na Jairo Góis.

 

P1 – Mas ainda existe?

 

R – O Castelões sim, a Balila é que fechou, ainda existe também o Giggio, antes era o 1060.

 

P2 – O que era?

 

R – Era igual ao Fazzano.

 

P2 – Era um restaurante luxuoso?

 

R – Era, era luxuoso, na avenida.

 

P2 – Quem é que vinha comer nesse 1060?

 

R – Vinha tanta gente importante...

 

P1 – Onde é que era esse...?

 

R – Era na Rangel Pestana, pro lado de lá da Rangel Pestana. Nossa, era um restaurante maravilhoso!

 

P2 – A senhora conheceu?

 

R – Conheci.

 

P2 – Era caro?

 

R – Oh, e como era caro. Era igual ao Fazzano, uma suposição, era igual.

 

P2 – E dava pra ir e pagar?

 

R – Às vezes dava, né? Mas muita gente importante que ia lá. Acho que eles mudaram daí e foram para outro lugar, mas não fechou não. E tinham essas cantinas, tinha a pizzaria Chic, que era na esquina da Rangel Pestana com a rua Piratininga, e o Guarani era em frente.

 

P2 – O que era o Guarani?

 

R – Era uma doceria. É lá onde ficavam os paqueras das pessoas.

 

P1 – A senhora lembra de alguma enchente aqui no Brás?

 

R – Do Brás eu nunca lembro de enchente. Aqui nunca teve uma enchente, que eu me lembre, não.

 

P1 – A senhora tinha contado a história de um menino que foi comido pelos cachorros. Como é que foi a história?

 

R – O menino estava com dor de dente.

 

P2 – Onde era?

 

R – No Crespi, o menino estava com muita dor de dente, eu não me lembro bem se foi no Crespi,  eu sei que o menino estava com dor de dente, aí tomou um comprimido, ele foi nas “saqueiras”, tinha um monte de sacos, se encostou lá e dormiu. Aí deu o sinal pra todo mundo sair do serviço, todo mundo saiu e eles soltaram aqueles cachorrões.

 

P2 – Por que é que eles soltavam aqueles cachorros?

 

R – Não sei porque eles soltavam os cachorros, aí o primo da minha mãe estava dormindo e não deu tempo dele fugir, os cachorros comeram ele.

 

P1 – Quer dizer, ele era criança?

 

R – Era.

 

P1 – O pai dele devia trabalhar lá?

 

R – Ele trabalhava lá.

 

P1 – O menino?

 

R – É.

 

P1 – Pequeno?

 

R – É. Tem garotos que trabalhavam já com dez anos em uma firma, antigamente não se esperava ter idade.

 

P2 – Quantos anos ele tinha?

 

R – Não sei se ele tinha quatorze ou quinze anos.

 

2 – A sua família não ficou revoltada?

 

R – Nossa senhora! Meu avô foi até pra matar os caras, os guardas. Mas de tanto a minha avó implorar pro meu avô, o meu avô não fez...

 

P2 – Tinha revolta por parte dessas pessoas que trabalhavam nessas fábricas, por causa de salário?

 

R – Antigamente não era assim, não tinha greve. Eu nunca vi uma greve assim. Só ficaram revoltados quando morreu o menino, porque os guardas soltaram os cachorros. Agora é greve de tudo quanto é lado. Você não pode ficar na rua, você não pode ficar numa janela, porque você não sabe se vem uma bala perdida e te mata, você não pode andar na rua e pronto, “bumba!”, tiram tudo o que você tem. Você trabalha tanto tempo, você não sabe se você vai chegar com o seu dinheiro na rua porque é capaz de te abordarem na rua e te tirarem. Hoje em dia é assim, mas antigamente não era. Antigamente não, antigamente era mais gostoso viver, você confiava mais nas pessoas, as pessoas tinham mais palavra, hoje em dia ninguém tem mais palavra.

 

P2 – Vocês saíam do bairro do Brás pra fazer outras coisas em outros bairros?

 

R – Não, sempre no bairro. A gente andava de bicicleta era no bairro, a gente, aqui você não via um maloqueiro na rua. Nós estamos desesperados, nós que somos moradores do Brás, desesperados, vendo se alguém faz alguma coisa pelo Brás, porque é pecado a gente ver um lugar onde a gente se criou, criou os filhos da gente, eu estou criando os meus netos, perdido como está o Brás. Porque você não pode passar na estação do metrô, eu mesma tenho medo de passar.

 

P1 – Por quê?

 

R – Porque tem esses maloqueiros, eles te abordam e vão em cima de você. Se você sair daqui à noite... Oito horas da noite você já tem que ficar trancada na sua casa, se você sair é perigoso. Outro dia nós estávamos voltando da festa de San Gennaro, três caras foram em cima de um amigo meu, aqui, eu estava na janela e ele estava conversando comigo, e os caras em cima dele pra roubar, em plena... que horas? Era onze horas da noite, não era tarde. Naquela hora até esqueci que eu tinha telefone, nem pra polícia não liguei, eu tremia tanto que eu nem sabia o que fazia. Até a minha irmã chegou e falou: “Por que você não ligou para a polícia?” Eu falei: “Nem lembrei que eu tinha telefone.” Então o Brás... é uma pena que o Brás acabou desse jeito, gente, porque o Brás era uma maravilha.

 

P1 – Se a senhora pudesse, o que faria pra melhorar esse bairro?

 

R – Primeiramente, tirar a Febem daí e esse negócio de asilo pra esses maloqueiros, porque não ficam os maloqueiros aí dentro, eles ficam tudo na rua, jogados. Eu gostaria imensamente que alguém fizesse algum coisa pelo Brás. Aí deixava as ruas limpas, porque antigamente você podia ficar na rua sentada, que era tudo limpinho, não tinha esse problema de estar sujo. Você vê? Agora, hoje em dia, essas ruas estão todas sujas.

 

P1 – A senhora estava contando que a senhora faz comida?

 

R – Eu faço eventos.

 

P1 – Como é isso?

 

R – As pessoas que vão fazer uma festa, um casamento, um aniversário, quer dizer, que você quer dar uma festa, você quer fazer alguma coisa diferente, vamos supor, bolo e carne louca, você fala: “Eu vou fazer uma macarronada”, você vai fazer um antepasto, então você liga pra mim. “Tudo bem, eu vou e faço pra você a sua macarronada, o seu antepasto, as coisas você compra, o que você quer na festa.” Eu fui na televisão dar a receita da fogazza.  canal onze, no programa da Ione, eu dei a receita da fogazza, aí eu dei a receita de muitas outras coisas. Todas essas coisas a gente faz, vamos supor, você convida a sua família, a sua família é grande, então vamos fazer uma festa, vamos dar uma noite de fogazza em casa: “Ah, mas eu não sei fazer.” Então você chama e aí a gente faz. Tem onze pessoas, mas às vezes não precisa ir todas as onze pessoas, você entende? Às vezes uma, duas, três pessoas,  pronto resolve o assunto.

 

P1 – Há quanto tempo a senhora está fazendo isso?

 

R – Vinte anos.

 

P1 – Começou na festa de Casaluce?

 

R – Na festa.

 

P2 – Conta um pouquinho da festa pra gente.

 

R – Ah, uma maravilha! Esta festa é uma delícia, esta festa é tradicional do Brás. Esta festa é gostosa, é uma festa que todas nós, que somos mamma da Casaluce, nós trabalhamos com amor e com carinho, as nossas coisas saem gostosas porque a gente põe muito amor e carinho naquilo que a gente está fazendo. Então tudo que é feito com amor você pode ver como é bem feito, então a gente põe isso.

 

P1 – Me diz uma coisa, existe rivalidade entre esse pessoal da San Gennaro e da Casaluce?

 

R – Não, não existe uma rivalidade, existe uma inveja, porque a nossa festa de Casaluce é uma festa onde não existe a fofoca. Sabe, que essas igrejas tem muita fofoca né, e aí não, aí nós somos tudo amigas, se nós temos uma mágoa uma com a outra, então a gente já chega diretamente na pessoa e já fala, então acabou a mágoa. A gente trabalha com amor, você não trabalha com vigia em cima de você, você não trabalha com ninguém te olhando, e aí não é assim. O padre da Casaluce é maravilhoso.

 

P/ 1 – O padre Fusari, a senhora lembra dele?

 

R – Lembro. O padre batizou as minhas duas filhas, meu sobrinho, batizou toda a minha família, meus netos, e espero que agora o padre Ênis batize a minha netinha, porque eu adoro o padre Ênis, ele é um padre espetacular. Quando tem uma... ele vem dar benção, ele nunca fica em cima de você, você está fazendo alguma coisa e ele está lá: “Você está fazendo isso?” Nada, fica a teu critério. Tem as reuniões pra isso, nas reuniões você fala o que sente, você achou que está errado, está errado. Então você tem que ter a sua personalidade, você tem que impor, é isso, é isso e acabou. E o padre Ênis é uma pessoa maravilhosa, que dá total liberdade para a gente trabalhar bem, feliz, contente, porque é um trabalho cansativo, você se doa para aquilo, na minha família até pode morrer alguém naquele mês de maio, eu vou no enterro, mas volto pra trabalhar, eu volto para a festa. Faleceu uma tia minha no mês de maio, fiquei no velório, o enterro foi às onze horas do sábado, meio dia e meia eu estava aqui fazendo a minha polenta, que eu trabalhava na barraca da polenta, estava fazendo a minha polenta pra eu poder trabalhar. À noite, fiquei até uma e meia da manhã trabalhando.

 

P2 – A senhora sempre tem barraca de polenta?

 

R – Não, a minha barraca é de figatella  Quer dizer, a gente tem mil e uma utilidades, eu trabalhei na barraca da polenta, eu trabalhei na barraca de macarrão, agora nós estamos na figatella.

 

P1 – Mas, espere aí, figatella é um outro nome da fogazza?

 

R – Fogazza e figatella é a mesma coisa, tem quem fale fogazza e tem quem fale figatella, mas é mais figatella, porque a fogazza... tem aquela fogazza, então você se confunde. A fogazza é aquela torta inteira e a figatella é aquele pastel, aquele pastel é um almoço, porque é assim.

 

P2 – Como é que a senhora aprendeu a fazer essas comidas?

 

R – Isso tudo eu aprendi de família. Molho, eu aprendi com a minha mãe, o molho do macarrão.

 

P2 – Quantos anos a senhora tinha quando ela ensinou?

 

R – Eu via a minha mãe fazer, eu vou dizer outra coisa pra você, enquanto a minha mãe era viva eu nunca fui pro fogão, não. Ela só falava: “Ó, isso é assim, aquilo é assim.” Você vai pegando, entendeu? Eu nunca fazia nada, porque a minha mãe era uma excelente cozinheira, minha mãe fazia tudo, então, quer dizer, que eu ia guardando, entendeu?

 

P2 – O que mais a senhora aprendeu com ela, além do molho de tomate?

 

R – Eu aprendi com ela a fazer macarrão. Eu de vez em quando, quando me dá os cinco minutos, eu faço o macarrão em casa, faço macarrão, eu faço pizza, eu faço a figatella, eu faço o calzone, eu faço a fogazza, eu faço todas essas coisas. É que a gente vai aprendendo, você está entendendo? Eu trabalhei... aqui na Casaluce eu trabalhei com uma senhora que ela fazia figatella, acontece que tem pessoas que te ensinam e tem pessoas que não gostam de te ensinar.

 

P2 – Não dá o segredo.

 

R – É, o segredo da massa. Agora a gente está aprendendo que não é pra todo mundo que a gente vai dar a receita, então você não vai comer na festa, você faz na tua casa, você faz igual, então nós não vamos dar a receita.

 

P1 – A senhora não deu na televisão?

 

R – Eu dei, eu dei certinho na televisão, mas faltou um porém, faltou um porém, porque se você não puser esse porém você não acerta fazer.

 

P2 – Entendi. (risos)

 

R – Você está entendendo?

 

P2 – Então a senhora guardou um segredinho lá, pra ninguém acertar.

 

R – Sem esse porém, eu fazia também sem esse porém, fiquei treinando, treinando, aí eu fui na casa da mulher que fazia e falei: “Dona Maria, a gente ajudava a senhora a fazer, como é que...” Ela falou: “Então tudo bem, senta aí que eu vou te ensinar a fazer, é assim, assim, assim.” Eu fiz saiu certíssima, mas sem aquilo lá eu não sabia. Porque às vezes se você não fizer as coisas certinhas, não sai massa de pizza. Então a massa de pizza... então eu vou fazer uma pizza frita, você põe a muzzarela e o tomate lá no meio e está bom. Mas não é a massa igual. Você faz da figatella, a massa tem massa de batata no meio.

 

P2 – O porém é a batata?

 

R – Não, o porém é outra coisa. (risos)

 

P1 – Mas é uma massa?

 

R – Não, não, é uma massa deliciosa, é uma massa deliciosa.

 

P2 – O que é que vai na massa?

 

R – Vai farinha, fermento, óleo, batata, sal e o porém. (risos) Quer dizer, é muito fácil esse porém é a pessoa descobrir, se não vai dando, não dá.

 

P2 – Quem vem nas festas de Nossa Senhora da Casaluce?

 

R – Ih, você fica... olha, você mais dá receita do que você faz, porque todo mundo quer saber, eu acho bonito isso, mas acontece que nós não vamos tirar o tradicionalismo da festa, a gente não vai tirar de jeito nenhum. É como eu digo pra você, o cara da televisão: “O que a senhora coloca no molho, um molho delicioso?” Eu ponho tudo o que uma pessoa pode por, mas só que eu acho que o molho napolitano não vai pimentão, não vai salsão, meu molho é simples, é a coisa mais simples de se fazer e fica um estouro de molho.

 

P1 – É o tempo do tomate.

 

R – É muito simples de você fazer, você fritou a carne bem fritinha, bem pretinha, bem pretinha, aí você põe a cebola e o alho, deixa fritar bem fritinho e depois você... você quer por o puro purê? Você põe o puro purê. Agora, se você quiser fazer a tua polpa de tomate em casa, aí você faz. Depois eu vou te mostrar porque eu fiz, eu tenho a polpa do tomate, eu faço em casa.

 

P2 – Tem que saber escolher o tomate?

 

R – Tem que ser tomate maduro. Você bota num cadeirão, eu esqueço ele no caldeirão fervendo, ele cozinha, cozinha, cozinha, depois que tiver bem cozido, então eu coo toda aquela água e passo só a polpa do tomate no liquidificador, não precisa tirar nada do tomate, semente, tem gente que limpa o tomate, tira a semente. Eu não tiro nada, só lavo ele e ponho pra cozinhar.

 

P2 – Com casca?

 

R – Com tudo, todinho, o tomate inteiro, você lava ele e bota pra cozinhar, e depois que está cozido você bota no liquidificador, mas não põe aquela água porque senão ele não fica a polpa de tomate, põe só o tomate que está cozido e secou, aí ele põe o tomate, fica a polpa.

 

P1 –E separa.

 

R – Separa da polpa, então eu só faço a polpa do tomate, é uma delícia. A minha mãe fazia aqueles molhos, e o molho da minha mãe cozinha e ele fica... não fica aquele molho aguado sabe, fica molho, molho.

 

P2 – A senhora já foi em outras festas, tirando a Casaluce e a San Gennaro ?

 

R – Já, às vezes eu vou para experimentar as coisas. (risos) Como é que estão as coisas. Mesmo aí na San Gennaro, eu não gosto do molho, do molho de macarrão. Porque não é o italiano... porque você põe salsão e pimentão no molho? Salsão a gente põe no feijão branco, salsão vai na sopa.

 

P2 – Qual festa mais a senhora foi?

 

R – Eu fui na San Vito, fui na Achirupita,  não é tão gostosa a fogazza, e já vou mesmo pra eu experimentar, pra ver como é que é. Porque diversas... muita gente, você sabe que antes de ele por, ele sabia, o coordenador daí da festa, sabia que a gente sabia fazer, mas ele não queria dar o prazer nosso da gente fazer e chamar a atenção do público; porque você chama a atenção das pessoas, se é uma coisa gostosa, uma coisa bem feita, é claro que você vai gostar. Ele não queria dar o braço a torcer para nós, aí pôs uma outra equipe pra fazer figatella, eu passava na rua, que eu trabalhava na rua do macarrão, eu passava na rua e via todas as figatellas jogadas no chão. Um dia eu chamei ele e falei: “Olha Sérgio, não é que eu queira te falar... mas você está vendo? Olha que desperdício, que pecado. A pessoa vem para comprar, vem pra comprar uma coisa gostosa, não adianta, você vai pagar dois reais num pastel desse, você quer comer, você quer saborear.” Aí a Myriam lutou, sabe, a Myriam falou, falou pra ele, falou. Este ano ele pôs. Você sabe que a gente vendeu 1400 fogazzas numa noite? Você sabe o que é?

 

P2 – Nossa!

 

P1 – Tinha o porém.

 

R – A massa, né. A massa você tem que ver como é que você faz, porque se você colocar muito fermento fica com gosto, agora se você pôr pouco, não cresce, tem que ter aquela sua medida certa, e a água da fogazza, se você não pôr a água no ponto certo, pronto, acabou. Olha, eu fiz um mês, eu fiquei fazendo a massa, todos dos dias eu fazia uma massa e não me saía nada, nada. Aí eu acertei. Eu fui na Ione, certinha a minha fogazza, as pessoas corriam atrás de mim pra pegar a fogazza na Ione. Mas é uma delícia.

 

P1 – Essas lojas na cidade em que está escrito Fogazza, já experimentou?

 

R – Olha, não sei. Eu como fogazza minha. Às vezes eu vou nessas festas assim, fora eu não como, assim nesses barzinhos, porque eu sei que não é. Pra você fazer fogazza você precisa ter muita cabeça e saber, então...

 

P2 – A senhora ensina para as suas filhas?

 

R – Ensino. Elas sabem, elas cozinham. A Ana não, a Ana não é muito de cozinha, mas a Regina faz uma fogazza...

 

P2 – Ela sabe o segredo?

 

R – Sabe.

 

P2 – E a Dona Nina?

 

R – Também. Lá na San Gennaro eles correm atrás de nós, porque é o primeiro ano também nosso lá, de figatella, eles querem saber a massa, a gente não fala.

 

P1 – A senhora está na San Gennaro esse ano?

 

R – Estamos na figatella. Vai lá, vai lá que eu estou lá na figatella, é na rua Lins, tem a rua San Gennaro que está cheia de barraca, a nossa é na ruazinha, na última barraca.

 

P1 – À noite tem música?

 

R – Tem música, o Záccaro, né? Eu vou nos programas do Záccaro, no Italianíssimo, ele manda um ônibus buscar a gente, no Italianíssimo a gente vai. A gente gosta dessas músicas italianas, tão gostosa...

 

P1 – Como é o nome da sua barraca?

 

R – Figatella. Você fala: “Onde é que é a barraca da fogazza?”.

 

P2 –Vamos falar um pouquinho do bairro de novo, a iluminação do bairro desde quando a senhora está aqui, mudou?

 

R – Mudou, está muito mais fraca, eu acho.

 

P2 – Os postes mudaram?

 

R – Eu acho... eu estou achando que a luz da rua está muito fraca. Agora, porque você tem essa fábrica aí, você pode passar de sábado à noite de lá pra cá, porque tem bastante gente, senão fica morto.

 

P2 – E o chão, o chão era de terra batida ou era de paralelepípedo?

 

R- Era de paralelepípedo, era.

 

P2 – A senhora lembra quando é que o chão foi asfaltado?

 

R – Não lembro, isso eu não prestei atenção. Mas eu lembro quando tinha os trilhos dos bondes na rua Piratininga. Quando era época de carnaval, passava até carro alegórico na rua Piratininga.

 

P1 – A rua na época do carnaval como era?

 

R – Passava carro alegórico nas ruas.

 

P2 – A senhora vinha assistir?

 

R- Eu ficava na minha porta, passava.

 

P2 – Era corso [carnavalesco]?

 

R – Era.

 

P2 – O que a senhora via?

 

R- Esses carros todos, fantasias... antigamente era mais bonito também, tinham esses concursos de fantasia.

 

P2 – Quais eram as fantasias?

 

R- Era de bailarina, era de odalisca, o que tinha mais era de odalisca, eu lembro que a minha mãe fazia tanta fantasia pra mim e pra minha irmã, de camponesa.

 

P2 – E vocês iam no carnaval?

 

R- A gente não ia, a gente não saí de casa. Às vezes, quando tinha algum bailinho por aqui assim, a minha mãe levava a gente, mas quando não, nós ficávamos fantasiadas mesmo na rua, tinha brincadeira na rua.

 

P2 – Tinha música de carnaval?

 

R- Tinha.

 

P2 – Como era?

 

R- Tinha tantas músicas. Às vezes passavam aqueles caras tocando aquelas cornetonas, batendo os negócios.

 

P2 – Os pratos?

 

R – Era.

 

P2 – Não era de alto-falante?

 

R – Não. Às vezes passava era tocando mesmo.

 

P2 – E telefone, a senhora lembra quando instalou aqui no bairro?

 

R- Não lembro, os telefones eram tão raros, né?

 

P2 – Vocês não tinham?

 

R – Não. Depois de muito tempo é que a gente foi ter telefone, que ainda era daquele que fazia assim, que você liga com a manivela lá.

 

P2 – A senhora tinha na sua casa de casada ou de quando era solteira?

 

R- Solteira.

 

P2 – Já tinha telefone?

 

R- É. Aí depois evoluiu, evoluiu bastante. Eu lembro de quando passava na rua um homem com uma barrica cheia de pizza dentro e ele vendia os pedaços de pizzas e passava : “Olha o pizzaiolo, oh pizzaiolo.” Com aquela catraca, e todo mundo comprava as pizzas dele, umas pizzas deliciosa.

 

P2 – Do que era?

 

R – Era de mussarela, de aliche, de calabresa, ele tinha uma barrica e tinha todas as pizzas lá dentro.

 

P1- Tudo fria?

 

R- Não, não era fria, era gostosa. Nunca, mas nunca mais comi uma pizza daquelas, uma delícia.

 

P2 – A senhora se lembra quem era o pizzaiolo?

 

R – Não lembro o nome dele.

 

P2 – Mas era só um?

 

R- Era só um. “Olha o pizzaiolo.” e passava e “tchui, tchui, tchui, tchui”. E todo mundo corria e comprava. Eu lembro também que tinha um homem que vendia leite de cabra, ele passava com as cabras, todo cheio de cabras, ele passava com as cabras aqui, assim.  E a minha mãe nos criava com o leite de cabra porque o homem vendia na porta, eram as cabrinhas.

 

P2 – Ele tirava o leite das cabras na hora?

 

R- Tirava, às vezes até nós ajudávamos ele a tirar o leite das cabras. (risos)

 

P2 – Ele punha num balde?

 

R- Você pegava uma leiteira e “pchu, pchu, pchu”, e o cara tirava. Uma vez ele prendeu as cabras tudo nas porteiras, sabe aquelas porteiras que tem aqui, que tinha aquele palco e “thi, thi, thi, thi” e subia e “thi, thi, thi”, ele pendurou todas as cabras lá e foi vender o leite e veio tudo “thi, thi, thi”, as cabras. (risos) Ele levantava as cabras. Pra gente aquilo lá foi o fim do mundo, nós nos matamos de rir com aquilo, suspendeu tudo as cabras, pra nós aquilo lá foi uma festa. (risos) As cabras todas lá em cima e o homem: “Pelo amor de Deus, baixa as minhas cabras!” E “thi, thi, thi”, as cabras e o cara... Ai, você precisa de ver! E ele passava. Tudo isso daí vendia na rua. O barquídeo.

 

P2 – O que é isso?

 

R – Barquídeo é igual àqueles biscoitinhos assim, que hoje em dia eles põe aqueles fininhos no sorvete, era... mas antes era barquídeo, biju. Nós só chamávamos de barquídeo, era assim grande e passava o homem também e “thi, thi, thi”: “Barquídeo!” Passava o homem, o padeirinho vendendo sonho. Antigamente era gostoso, agora não passa nada.

 

P2- O padeiro vinha vender sonho na porta?

 

R- Quentinho, em todas as portas ele batia, tinha já as freguesias.

 

P2- E a sua mãe sempre comprava?

 

R- Sempre. Cada sonho…! Nunca mais, olha, nunca mais a gente comeu tão gostoso como antigamente.

 

P2 – Agora é só pamonha?

 

R- Agora é só pamonha. Eu como não posso comer nada de milho, fica pra lá. Vinha o padeiro, era pão italiano, o padeiro vinha entregar o pão italiano em casa, vinha cada pão italiano que era assim redondo, grande, sabe; aqueles pães de peito, você pegava ele aqui e “tchi, tchi, tchi, tchi”. Eu lembro da minha mãe cortando aqueles pães.

 

P2 – Comprava o pão inteiro ou...?

 

R – Pão inteiro, imagina, pão inteiro! Vinha um homem vendendo bucho, coração, tudo nas portas, fígado, mas era tudo fresquinho, tudo limpinho, não existia o que existe agora. Agora peixeiro de vez em quando você vê alguém, mas agora não existe mais que nem existia antigamente. Antigamente era tão gostoso.

 

P1 – Onde a senhora vai comprar essas mesmas coisa?

 

R- É no mercadão, é só no mercadão.

 

P2- Faltava água aqui no bairro?

 

R- Nunca faltava, era difícil de faltar água, era difícil.

 

P1 – Luz também?

 

R – Luz também. Luz tinha o tempo do blecaute. Blecaute tal hora você não podia acender nenhuma luz.

 

P2 – Em que época era isso?

 

R – Quando a gente era criança. Quando ainda eu era criança, ainda teve uma guerra não teve?

 

P2 – Teve, a Segunda Guerra. A senhora tinha um ano, a senhora nasceu...

 

R – Em dezembro.

 

P2 – Em que ano?

 

R- Em dezembro, em 1943.

 

P2 – É, ainda estava no meio da guerra. E tinha blecaute?

 

R – Tinha blecaute, não podia acender as luzes, tinha que ficar tal hora e desligava todas as luzes. Mas você podia ficar no blecaute. Hoje em dia, se faltar força você fica morrendo de medo. Outro dia faltou força e nós ficamos aqui na área, eu fiquei com medo, porque você sabe como é que é. Antigamente faltava luz e nós ficávamos todo mundo na rua, todo mundo brincando, todo mundo se divertindo, pulando corda.

 

P2- Além do bonde que a senhora já falou, que outro meio de transporte tinha?

 

R – Ônibus e bonde.

 

P2 – Quando chegou o metrô, a senhora lembra da época da construção?

 

R- Eu lembro, eu lembro também quando foi inaugurado o metrô Brás.

 

P2 – O que a senhora lembra?

 

R- Eu lembro quando foi o Paulo Maluf que inaugurou.

 

P2 – Foi ele que inaugurou?

 

R – Foi.

 

P2 – O que é que teve nesse dia?

 

R- Teve festa aí no metrô.

 

P2 – A senhora foi?

 

R – Fui.

 

P2- Como é que estava?

 

R- Teve festa. Estava tudo bonitinho, tinha inaugurado, né, estava tudo bonitinho, não tinha maloqueiros, estava tudo arrumadinho, tinha banda.

 

P1 – E tinha comes e bebes também?

 

R – Não lembro disso.

 

P2 –Vocês andaram de metrô?

 

R – No primeiro dia, andamos.

 

P2 – Tinha que pagar a passagem?

 

R – Não, era de graça, era dar uma volta só, com metrô, né?

 

P2 – Até qual estação?

 

R – Agora eu não estou lembrada, eram poucas estações que tinha, não eram muitas, eram poucas.

 

P1 – A senhora foi com a família inteira?

 

R – Fui eu, minha irmã, foram as meninas, foi meu sobrinho, que a minha irmã tem um filho.

 

P1 – Estava muito cheio?

 

R- Estava, claro, foi muita gente, quando ele abriu, que ele inaugurou, que podia entrar todo mundo, entrou todo mundo e foi passear de metrô.

 

P1 – E a construção atrapalhou muito?

 

R – A construção, foi. Atrapalhou muita gente, muita gente perdeu muito. As casas que custaram muito, no fim acabaram pagando uma bagatela.

 

P2- Qual foi a sensação de andar de metrô pela primeira vez?

 

R- Foi ótima, foi uma coisa que você nunca tinha andado, né?

 

P2 – A senhora ficou com medo?

 

R – Eu tenho até hoje. (risos) Até hoje eu não ando de metrô nem de escada rolante, eu não ando de metrô, eu não ando de escada rolante e eu não ando de elevador, “tshi, tshi, tshi, tshi”.

 

P2- O que a senhora acha que vai acontecer no metrô?

 

R- Sei lá, eu tenho um medo... sei lá, eu morro de medo. Por isso que eu nem saio de casa quase, eu não vou de metrô em lugar nenhum. Olha, você sabe, em algum lugar que eu vou e é elevador, doze andares, eu vou de escada, eu me mato, mas eu vou.

 

P2 – A senhora se lembra de algum episódio marcante na época da construção do metrô? Alguma coisa que a senhora tenha visto ou ouvido falar.

 

R – Não, a construção do metrô não. Mas eu me lembro quando construíram os prédios aí. Quanta gente morta! Quanto que matavam gente e jogavam aí nesses terrenos baldios.

 

P2 – Por que? Como assim?

 

R – Matavam, né? Esses bandidos.

 

P2 – Quem matava?

 

R – Porque daí pra frente começou, daí conforme veio o metrô, veio toda essa bagunça.

 

P2 – De quais prédios a senhora está falando?

 

R – Esses prédios do Jânio, que fizeram, esses prédios novos.

 

P1 – Da Cohabinha?

 

R- Não é Cohab aí. Esses prédios aí, daqui você vê. Está vendo? Esses prédios aí. Como ficavam os terrenos muito baldios, porque eles derrubavam as casa e depois demoravam pra fazer qualquer coisa, então se passava de noite e matavam. Mataram tanta gente! Sabe que um dia eu estava andando debaixo do metrô, assim, na rua Caetano Pinto não tem aquela entradinha pra rua Carneiro Leão? Imagina você que eu tropecei num morto lá, o cara estava morto.

 

P2 – À noite ou de dia?

 

R – De noite. Não era de noite, era seis horas da tarde.

 

P2-  O que a senhora fez?

 

R – Nossa Senhora, eu levei o maior susto e fugi pra minha casa, quando eu olhei que eu vi que o cara nem se mexeu, eu falei: “Esse cara deve estar morto.” Depois eu ouvi um barulhão de polícia, de tudo. Que judiação, mataram o moço.

 

P2 – E as lojas que tinha na região onde foi construído o metrô? Tinha loja?

 

R – Tinha, tinha. Tinha muita coisa. Aqui no Brás era muito bonito, acabou. O metrô acabou com tudo, um meio de transporte que acabou com tudo. Inclusive, apareceu tanta coisa, como tem agora, né, tanto maloqueiro, como tem agora. Porque hoje em dia aqui é tomado por maloqueiros, aqui hoje muitas famílias daqui não querem nem ficar mais.

 

P1 – Muitas já saíram?

 

R- Muitas, muitas.

 

P1 – A senhora sente falta de amigos?

 

R – Sinto, oh, muita falta de muitas pessoas amigas.

 

P1 –Sabe pra onde eles foram?

 

R – Pra Moóca, pra esses lugares mais assim.

 

P2 – Eles voltam aqui para visitar?

 

R – Voltam e têm pena também, porque um lugar tão bonito como foi o Brás, de repente ficar assim...

 

P2- A senhora tem lembrança do futebol do Brás?

 

R – Do time do Ápia.

 

P2- É um time conhecido?

 

R- É, daqui do Brás é. Inclusive, eu pedi pra uma tia minha que ela tem um jornal antigo do time do Ápia.

 

P2- O Ápia era o que?

 

R – O Ápia era o time de futebol do Brás, na rua Caetano Pinto era a sede.

 

P2 – Era clube ou era só campo?

 

R – Era. Não era clube. lá tinha assim, só assim... os homens jogavam, porque antigamente não se misturavam homem com mulher, os homens jogavam. A minha tia tem o jornal, ela vai me mandar o jornal e eu vou mandar para você.

 

P2 – Fechou esse clube?

 

R- Fechou. Já está em outro lugar, saiu daqui da rua Caetano Pinto.

 

P2 – Era famoso, chegou a ganhar algum campeonato importante?

 

R – Eu não lembro. Mas assim, pra nós era famoso porque era aqui do bairro, era na rua Caetano Pinto.

 

P2- O que a senhora acha mais que mudou no Brás, depois do metrô ainda, mais recentemente?

 

R – Mudou muita coisa, as pessoas... mudou muita coisa. Fizeram do Brás um lugar, ah sei lá... O Brás não tinha que acolher tanto assim essa gente, esse albergue, não tinha que ter albergue. Tinha que existir um lugar onde eles construiriam uns albergues e poriam tudo lá, não aqui. Quase no centro da cidade eles colocarem um albergue, você acha?! Não pode fazer isso. Puseram Febem aí. Aí era a Souza Cruz, aqui do lado. Fábrica de cigarro.

 

P/2 – É antiga.

 

R – Era a Souza Cruz, era antiga daí, era Castelões que chamava.

 

P2 – Fechou?

 

R – Saiu daí e foi pra... Nem sei pra onde foi, só sei que foi pra...

 

P2 – Qual o aspecto que a senhora mais gosta do Brás?

 

R – Eu gosto de tudo. Eu vou te falar, eu nasci aqui, eu gosto de tudo do Brás. Eu gosto do Brás, adoro o Brás, não quero deixar do Brás. Eu quero sair do Brás quando eu morrer.

 

P1 – Apesar de tudo o que aconteceu com o Brás?

 

R – Apesar de todos os pesares, eu gosto do Brás.

 

P2 – O que a senhora mais ama do bairro?

 

R – O que eu mais amo? Eu amo é a igreja, eu amo a igreja de Nossa Senhora, a coisa que eu mais gosto, que eu mais prezo no Brás.


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