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História

"Eu quero desafios!"

História de: Lorena
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Durante a infância Lorena mudou várias vezes de cidade por conta do trabalho do pai, que era comerciante. Desistiu de cursar Medicina porque não gostava da ideia de ver sangue e optou pela faculdade de Psicologia. Estagiou em algumas instituições e clínicas até chegar ao ViraVida, quando o projeto ainda estava na fase embrionária. Em sua narrativa, conta como se deu a formação da primeira turma e fala sobre os desafios que tem pela frente. Lorena se sente feliz por ser a única que está no projeto em sua cidade desde a implantação e por ver grandes mudanças na vida dos jovens que acompanha. 

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História completa

Meu nome é Lorena, eu nasci em Rondônia, em 1987. Na minha infância eu já morei em vários locais. Logo que eu nasci eu morei em Porto Velho, depois meus pais foram pra Anápolis, que fica em Goiás. Aí moramos lá um tempo. Eu acho que eu tinha uns seis anos quando a gente voltou de novo pra cá. A casa que eu mais lembro foi num condomínio fechado que a gente morava quando eu tinha em torno de oito anos, eu tinha várias amigas, brincava. Foi numa etapa muito boa pra mim, tudo tranquilo na família. 

Depois a gente foi pro interior porque o meu pai mexia com comércio. A gente mudou bastante até que depois de uma certa idade, não lembro quantos anos eu tinha, acho que uns doze, a gente retornou pra cá, Porto Velho, com iniciativa da minha mãe que não aguentava mais ficar no interior, porque aqui tem a nossa família, os pais dela e tudo. Quando eu mudava, tinha que se adaptar à uma nova escola, conhecer novos amigos, eu era um pouco tímida pra fazer amizade, mas a gente ia se adaptando. Aí depois eu já até acostumei. Eu acho até legal, assim, mudança.

 

Nós voltamos e aí eu terminei meus estudos em Rondônia. Eu terminei o Ensino Médio e quando tinha quinze anos meus pais se separaram. 

 

Meu pai aprontava muito, traía a minha mãe; aí depois minha mãe descobria, minha mãe perdoava. Isso aconteceu algumas vezes, só que eu não me lembro ao certo, acho que eu lembro de umas três ou duas. Teve uma que ainda foi em Anápolis, que meu pai me levava pra casa de uma mulher, eu brincava com a filha dela. Só que pra mim, era só uma amiga. Eu fui com a minha mãe lá, aí ela descobriu a traição. Eu tinha seis anos, era muito inocente ainda. Depois tudo se resolveu, ficou tudo numa boa. Foi na época em que nós retornamos pra Porto Velho, e depois de um tempo, a gente foi pro interior. Na última vez eu tinha uns catorze pra quinze anos, que a minha mãe descobriu. Eles se separaram, aí minha mãe continuou aqui, meu pai voltou lá pra Goiás, pra Anápolis.

 

Ela pediu a separação porque eles brigavam muito. Pra mim, claro que eu não achava bom ver os dois brigando e quando se separaram eu achei bom, porque pelo menos ia ficar cada um pro seu lado, todo mundo feliz, tranquilo, até pra mim, pra eu poder estudar tranquila. Eu acho que me adaptei bem à separação dos dois. Apoiei ele como apoiei minha mãe. Melhor pros dois, cada uma seguiu seu caminho. Depois minha mãe encontrou uma pessoa, casou de novo, aí nasceu meu irmão, tudo tranquilo.

 

Minha mãe ficou cuidando de mim, pagando tudo, porque teve um tempo que meu pai não podia ajudar e minha mãe, como era da Prefeitura, o salário dela não era muito alto. Aí ela conseguiu bolsa de estudo pra mim no Ensino Médio. Eu tive um bom Ensino Médio.

 

Durante todo o Ensino Médio eu falava que queria fazer Medicina. Eu prestei vestibular, só que não passei. Aí eu pensei direitinho, repensei, eu falei: “Eu acho que não vai ser Medicina não, porque tem que ver sangue, tem que ver coisas assim que eu não consigo”, porque às vezes eu vejo um acidente assim na rua, com uma pessoa bem machucada, eu não sei, eu sinto a dor e eu não consigo, não. Eu pensei direitinho. Aí eu tinha feito Enem, fui concorrer à uma vaga numa bolsa, pelo Prouni. Achei Psicologia interessante, pesquisei o que era. Aí eu falei: “Deve ser esse”, enfim, gostei.

 

A época da faculdade foi um período muito bom pra mim. Eu gostei muito, eu estudava no período da tarde e um pedacinho da noite, durante cinco anos. Eu conheci muitas pessoas, professores que nos ajudaram. Sempre fui uma boa aluna, esforçada, nunca reprovei. Até porque eu tinha essa bolsa, eu nunca fui de reprovar nem de ficar de recuperação. Se ficava era por meio ponto, mas eu sempre estudei, sempre soube dar valor às coisas que eu consegui, como essa bolsa, então foi muito bom. Estudei, conheci pessoas, foi bem interessante, participei de seminários.

 

Fiz estágio em algumas escolas e na Pestalozzi, que trabalha com crianças com Síndrome de Down, paralisia cerebral. Fiz estágio numa empresa de recrutamento e seleção, que é o Banco de Gente e na clínica lá da Ulbra de Psicologia, que atende a comunidade em geral.

 

Enquanto eu ainda estava na faculdade eu trabalhei no Banco do Brasil. Eu sempre procurava alguma coisa pra ter uma renda. Eu já trabalhei em agência de publicidade fazendo ações promocionais. Fiz várias coisas. Aí eu saí da faculdade, continuei trabalhando no Banco do Brasil fazendo empréstimos, abrindo conta. Saí do Banco e fui correr atrás de alguma coisa na minha área.

 

Quando a gente sai da faculdade, passa essas coisas, essas dúvidas se a gente vai ou não conseguir emprego. Aí eu até entrei numa agência de publicidade, fiquei trabalhando na área de recrutamento e seleção pra jovens que queiram fazer ações promocionais, fazer recepção.

 

Trabalhei lá, também ganhei uma experiência, fui fazendo treinamento com eles também. Enquanto isso eu estudava pra concurso, continuo estudando. Eu sempre entrava no site do IEL que tem vagas de emprego, o sistema. Eu sempre sonhei, gostaria de trabalhar no Sistema S. Aí eu ficava entrando todo dia, trabalhando, mas sempre no site, até que eu vi a vaga lá. Projeto ViraVida. Aí eu fui ler direitinho, pesquisei, entrei na internet, entrei no site, fiquei sabendo, achei interessante. Falei: “Nossa! É muito bom esse projeto! Acho que eu vou gostar de trabalhar lá. Bem interessante mesmo”. Aí eu me candidatei. Falei: “Não, eu vou, quero desafios mesmo!”. Eu já tinha trabalhado com jovens em escola, mas não era… era completamente diferente. Mas foi: “Não, eu quero mesmo assim, trabalhar com esse perfil, com esse público”. Aí eu me candidatei, passei pelas etapas que têm que passar, nas entrevistas, redação, todas as coisas que têm que passar, passei. Aí eu fiquei em segundo lugar. Passaram acho que só foram duas pessoas, a primeira e eu. Só que a primeira não quis, ela desistiu, parece que tinha outra proposta de emprego. Aí me chamaram, nisso eu já estava assim meio desiludida porque a outra já tinha sido chamada. Falei: “Ah, então não era pra ser. Vamos continuar”. Aí me ligaram, fiquei superfeliz, me chamaram e eu comecei a estudar mais, a ler mais sobre o projeto e foi assim que eu entrei no projeto. 

 

Eu entrei logo quando estavam implantando as redes de enfrentamento, pra gente ir atrás do público. As redes de enfrentamento à violência e exploração sexual, são os parceiros que têm, que encaminham os jovens para o Projeto ViraVida, como por exemplo, tem o Creas, Dpca, que é a Delegacia de Proteção da Criança e Adolescente, o Ministério Público, as ONGs. São várias instituições, Conselho Tutelar que encaminham essas fichas pra gente e assim é feito o processo seletivo com dinâmicas, redações e entrevista. Que aí que é selecionado pra ver o jovem que está mesmo no perfil. É na entrevista que a gente consegue ver mesmo quem está no perfil ou não.

 

No início ainda não tinha turma, não tinha nada. A gente não tinha sala. Era eu, pedagoga, assistente social e auxiliar administrativo. Nós ficávamos numa mesa de reunião lá no SESI e a gente se virava nos trinta. A gente mais fazia visitas, ia atrás, fazia essas coisas até que a gente formou a primeira turma. Teve todo o processo seletivo, visitas às instituições, pegar fichas, toda essa mobilização. A gente ainda não tinha um local como esse, bem estruturado. A gente ficava indo entre SENAC e SENAI, ficava indo pra lá e pra cá de táxi pra acompanhar os alunos. Não tinha local pra atendimento individual. A gente tinha muita dificuldade por causa desses detalhes. Onde tinha espaço a gente, eu atendia, mas aí aos poucos foi se organizando, e conseguimos esse espaço dentro do SENAI, que é onde nós estamos hoje e aí foi começando a fluir melhor.

 

Na primeira turma foi bem complicado, pra conseguir os jovens dentro do perfil. O que nos ajudou mais foi o Projeto Acolher que é do Creas que é a parte que atende jovens que foram vítimas de violência sexual, abuso, exploração. A gente foi atrás de parceiros em ONGs, associações, aí eles encaminharam pra gente. A gente conseguiu selecionar a primeira turma, quarenta assim, isso tendo primeiro processo seletivo, a segunda chamada, a terceira chamada, isso em três chamadas, pra poder dar esses quarenta, a nossa meta é cem, aqui inicialmente, em Porto Velho. 

 

Na primeira semana é feita a integração, a socialização entre eles pra se conhecerem, pra conhecer melhor o projeto, como é que funciona. Aqui nós temos mais meninas, alguns meninos, poucos, é bem misturado. Temos caso de abusos, abuso sexual e exploração sexual, e de vulnerabilidade social alguns casos também. Aí a gente vê a diferença de comportamento desses dois perfis: de abuso e exploração.  Porque abuso sexual geralmente os jovens são mais tímidos, quietos, não gostam de falar muito. Já os que foram vítima de exploração sexual são mais pra frente, gostam de falar bastante. E aí a gente vê um pouco desse choque que dá. Alguns não conseguiram se adaptar, desistiram... Não conseguiram porque eles queriam saber, um perguntava pro outro: “Por que é que tu tá aqui? Por que tu tá aqui?”. E aí alguns não queriam falar. Aí tinha toda essa discussãozinha por causa disso. Aí a gente trabalhava com eles, e falava direitinho, explicava, mas agora eles já estão bem interligados, bastante… Esses que ficaram é que vão até o final.



A gente vê assim um progresso grande, na maioria dos alunos. Claro que tem um ou outro que ainda fica meio resistente, que ainda não conseguiu enxergar direito o que é que é mesmo o que quer da vida, mas grande parte da turma, dessa primeira turma, mudou bastante. Até é interessada, se esforça, chega no horário, participa. Claro que tem alguns problemas de relacionamento entre eles, mas a gente tenta conversar, mas eles brigam, mas é coisa de adolescente, depois se entendem.

 

Creio que o Projeto vai estar cada vez melhor. A gente também aprendeu muito com essa primeira turma. Porque a gente errou em algumas coisas. A gente erra tentando acertar, mas a gente aprendeu e na segunda turma a gente está fazendo diferente, já cobrando responsabilidade desde o começo. Sendo rígida quando tem que ser com eles. Claro que com cuidado pra não afastá-los daqui. A gente espera que a próxima turma esteja melhor ainda. Às vezes o jovem estava no perfil, achava melhor estar na vida que estava porque estava melhor, ainda não estava consciente do que é que é a exploração sexual. A gente teve esse problema na primeira turma porque muitos desistiram por causa disso. Porque acharam que a bolsa era pouco, que a vida que eles tinham em casa com o marido era melhor, que o marido sustentando era melhor. Mesmo a gente dando toda orientação eles achavam que do jeito deles era melhor. Na segunda turma, a gente teve esse cuidado e nas próximas também a gente vai continuar tendo, de ver mesmo aquele jovem que quer mesmo a oportunidade, que vai abraçar a oportunidade e vai ficar até o final. Porque em cada desistência a gente fica muito triste, é uma perda muito grande. A gente não quer que isso se repita e está fazendo de tudo pra nos próximos ter o menor número de desistência possível. Porque a gente sabe que acontece. Por eventualidade, às vezes muda de cidade, conhece alguém que muda a cabeça, o marido, casa, vai embora. A gente quer que isso diminua cada vez mais, essas desistências.



Pra mim o ViraVida trouxe muita aprendizagem. Foi um desafio mesmo, porque é um desafio trabalhar no projeto. A gente até fala que vira a vida da gente, vira a vida de todo mundo. Cada dia é uma coisa nova, um desafio novo. Às vezes o jovem chega aqui muito triste, debilitado, e chorando com algum problema, aí a gente conversa com eles, explica, aconselha, orienta. Tem todo esse processo. Assim como eles aprendem com a gente, a gente aprende, a gente aprende muita coisa com eles. É muito bom, eu gosto muito. Fico muito feliz quando eu vejo o retorno deles, essa mudança que eles mostram. Tem outras alunas que já mostraram mesmo que querem mudar e não faltam, e participam e sempre estão ali te ajudando. Eu pelo menos fico muito feliz com essa resposta deles.

 

A gente aprende a lidar com as diferenças, com esse comportamento deles que às vezes é agressivo também, só que às vezes a gente tem que falar com carinho, porque às vezes eles querem uma atenção, chamam atenção da gente.

Meu sonho é ver esses jovens formados, bem, no mercado de trabalho, mudando a vida deles mesmo, ajudando a mãe. Mudando a vida com relação a tudo, tanto pessoal como profissional. A gente tem esse sonho assim, mas com certeza eles vão conseguir porque eles têm capacidade pra isso. A gente deixa claro pra eles que eles têm. E continuar no projeto fazendo todo esse trabalho com eles. 

 

Eu me sinto muito feliz e honrada... Acho que eu sou a única que está aqui desde o comecinho, que acompanhou toda essa trajetória deles. Eu fico muito feliz de ver essa mudança, esse crescimento, que tende a melhorar cada dia mais. Eu me sinto muito feliz de poder estar aqui acompanhando, e ver a formatura deles, estar presente quando eles forem encaminhados pro mercado de trabalho, a gente vai continuar acompanhando eles, vendo o crescimento. Então eu fico muito honrada e feliz. Muito gratificante.

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