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Eu queria ter estudado mais

História de: Maria Zenite Alves Barbosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Maria Zenite Alves Barbosa nasceu no dia 10 de agosto de 1953, em Apuiarés, 100 quilômetros a oeste de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Casou-se em 1969 com José Maria Barbosa, com quem teve três filhas: Simone, Solange e Silene. Em 2000, mudou-se da praia do Pecém para o assentamento Monguba por conta da construção de uma usina Siderúrgica. Em seu depoimento ele fala das dificuldades que enfrenta no assentamento e, principalmente, no que diz respeito ao transporte, devido à grande distância e à falta de linhas de ônibus constantes para Caucaia e o seu entorno.    

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História completa

Sou Maria Zenite Alves Barbosa. Nasci e me criei em Apuiarés, a 100 quilômetros à oeste da capital Fortaleza, no dia 10 de agosto de 1953. Sou filha dos agricultores Gilberto Henrique de Souza e Maria Conceição Alves. A minha mãe disse que quando mais nova só saía com a minha avó, e que o meu pai não podia chegar perto. Essa época era difícil para namorar.

Quando eu era pequena, fui para o riacho lavar os panos - no inverno tem água lá. A Neide, filha do finado Manuel Moreira, jogou areia em mim e, aí, fui embora chorando. Eu ficava com a minha avó, que disse: “Menina, você trouxe a roupa cheia de areia.” “Foi porque a Neide estava jogando areia em mim. Coloquei a roupa com areia e vim embora”. Eu não ia brigar com ela, porque eu nunca briguei com ninguém. Ela falou: “Meu Deus, e agora?”. Eu disse: “Vou lavar no rio, com muita água. E vou sozinha”.

Eu fui criada com a minha avó. Dormia até as 11 horas. A primeira vez que eu fui para a escola era uma mulher que bebia cachaça. Deixei de ir pra lá e fui para outra. Ela nos colocava de joelhos nos caroços de milho. Eu pensava: “Meu Deus”. Ela morreu de beber cachaça. Fui para outra escola, de outra pessoa. Quando eu comecei a estudar eu já sabia ler todos os livros e escrever. Estudava a parte de ABC. Eu fazia o ditado bem direitinho e o pessoal se admirava. A minha irmã, que mora em Fortaleza, ela não sabe ler e nunca ligou para isso. Ela estudava, mas não tinha interesse. Ela só sabe fazer o nome. Ia lá, mas nunca se interessou. Ela é do interior. Hoje em dia ela vai, mas é difícil. Só nas festas é que vamos: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em agosto; São Sebastião em Janeiro. Era para eu ter estudado, mas não tinha por aqui mais quem ensinasse. Aí, eu parei. Eu tinha vontade, mas em Paracuru é muito longe. Ficávamos com as coisas aqui. Eu tinha vontade. Fui por um tempo, tinha o Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização]. Eu fui porque eu quis, porque eu já sabia ler. “Mas a senhora sabe de tudo?!”. Fui um dia e, depois, deixei de ir. Pensavam que eu não sabia de nada.

Lá em Apuiarés tinha as festas de santo. Eu conheci o meu marido numa dessas festas. Mas eu nunca saía, era difícil sair. Certa vez, me arrumei para ir e a minha avó dizia: “Tire a roupa que não vai. Você não pediu para ir”. Aí, tive que tirar. Eu comecei a namorar o Zé Maria e a minha mãe colocava a lamparina na janela para clarear. Casei-me em 1969 com José Maria Barbosa, com quem tive três filhas: Simone, Solange e Silene. Já têm uns 43 anos que nos casamos. Está com muito tempo. O casamento teve cerimônia na igreja e o padre foi lá para casa. Ele mesmo disse que era acostumado a casamentos e nós o convidamos. Foi bom demais. Ele trabalha plantando. Está sem chover agora e perdemos alguns legumes. Tem uns milhos que estão bonecando, mas se não chover não dá nada. Até os feijões estão morrendo por conta desse sol. Por aí afora, o povo de São Gonçalo (do Amarante) está molhado, mas aqui, está morrendo tudo.

Quando eu saí de lá de Apuiarés e fui para o Pará eu já tinha três filhos. Um primo do meu marido ligou e nos convidou. Eu nunca gostei de lá. Era um lugar muito perigoso, esquisito, no mato. Eu não achava muito bom. Isso foi em 1995. Certo dia, quando passávamos num cemitério, tinha um carro com um homem cheio de sangue no carro. Acho que tinham matado. Ficamos por lá uns oito anos e viemos embora. Em 2000, mudei-me da praia do Pecém para o assentamento Monguba por conta da construção de uma usina Siderúrgica. As minhas filhas continuaram morando na região próxima às desapropriações do Pecém.

 

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