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História

"Eu queria ser cantora"

História de: Karen de Jesus Pedro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2014

Sinopse

Karen é uma jovem de 18 anos que participa das atividades da ONG Casa Mateus de Mauá e que contou sua história ao Museu da Pessoa. Em seu depoimento, Karen fala sobre a origem de sua família, sobre a convivência com os avós maternos, as brincadeiras de infância e o bairro onde mora em Mauá. Recorda como iniciou na Casa Mateus, primeiro aprendendo canto e posteriormente violino. Ela descreve as atividades que fez na ONG e as apresentações de violino do grupo de alunos. Em busca de seu primeiro emprego, Karen é uma apaixonada pela música e tem como sonho ser uma cantora. Finaliza falando sobre os benefícios que o projeto Criança Esperança trouxe para a Casa Mateus, incentivando as aulas de música. 

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História completa

Meu nome é Karen de Jesus Pedro, nasci em 22 de julho de 1996, em Mauá, São Paulo. Os nomes dos meus pais são: Cléber de Souza Pedro e Aparecida Maria de Jesus. Minha mãe é costureira e meu pai no momento não trabalha com nada. É que eu não moro com eles, eu moro com a minha avó, Justina Alves de Souza Pedro. Eu tenho uma irmã chamada Kátia Celina de Jesus Pedro. Eu moro lá há 18 anos, mas não na mesma casa, era uma casa que tinha na frente, no mesmo quintal. Aí enquanto construía a de trás, a gente morava nessa da frente. Eu, meu avô, meu tio, minha mãe, meu pai também e minha irmã, nessa mesma casa. Aí a gente se mudou pra outra, que é maior, há 18 anos a gente está lá. O bairro é mais ou menos. Tem muita gente que quer saber muito da vida dos outros. E a minha avó foi sempre muito reservada, a gente faz tudo ali quieto pra ninguém ficar sabendo muito. A casa é grande assim, somos só eu e ela que moramos na casa, não mora mais ninguém, então pra gente está ótimo. Eu moro com minha avó desde pequena, desde que eu nasci. Eu saí do hospital e já moro com ela, então com ela são 18 anos. Com a minha irmã, ela saiu lá de casa com 15 anos. E meu avô faz dez anos que faleceu, aí somos só eu e ela só. Minha mãe mora em outro lugar com a minha irmã, que quis ir morar com ela com 15 anos. E eu continuei com a minha avó até hoje. Minha mãe mora aqui em Mauá também. A minha avó já passou por necessidade, lógico, lá na terra dela, que ela é do Piauí, mas para a gente nunca deixou faltar nada. Meu avô nunca deixou faltar nada pra gente. A minha avó trabalhava e meu avô também. Agora ela só é aposentada. Quando eu era criança, eu era meio moleque, eu gostava de jogar bola, skate, patins. Até hoje eu ando de patins, que eu gosto. No bairro não dá muito pra andar, é mais quando a gente vai pra parque, essas coisas, até na Casa Mateus mesmo, aí eu levo meus patins pra andar.

Na escola eu entrei no prezinho. Eu lembro que eu não queria ir muito, aí eu ficava agarrando lá na saia da minha avó, porque eu não queria ir. Do pré, eu não lembro, mas da escola normal sim. A matéria que eu mais gostava era Matemática, sempre gostei. Português, eu não era muito boa, mas Matemática sim. Educação Física também eu gostava. A minha avó é que me levava, aí tinha aquele negócio, a vizinha levava, aí a outra buscava, era alguma coisa assim só. E eu estudava na quinta série, que era aqui perto de casa, aí eu ia a pé às vezes, às vezes a minha avó ainda ia lá. Quando eu fui para o primeiro ano, eu comecei a estudar no Centro, aí eu ia sozinha. Só que era à noite, aí eu ia e voltava sozinha, de ônibus. No começo foi meio chato, porque a escola lá tem muita “patricinha”, muita gente metida que se acha. E eu vindo de uma escola pública de bairro. Lá é pública também, mas é modelo de escola particular. É uma mudança que eu não gostei no começo muito, mas aí como eu conheci uma menina que já era bem popular na escola, aí foi bem mais fácil pra eu arrumar amizade. E eu tentava entrar nessa escola desde a quinta série, lá do Centro, porque é difícil pra entrar. Ela é pública, mas ela é muito difícil. Aí até que consegui, aí eu já entrei. Os professores lá são muito bons. São bem prestativos.

Eu sempre gostei de música. E eu penso em fazer isso. Mas primeiro eu tenho que arrumar um emprego, porque como somos só eu e minha avó, então ela prioriza o emprego primeiro. Ela já me esperou terminar a escola, e agora ela quer que eu trabalhe. Eu nunca trabalhei. Ela queria que eu terminasse primeiro os estudos. Como a escola é bem forçada, o ensino, então ela queria que eu terminasse com calma, pra depois continuar. E nisso já passou um ano e eu ainda não consegui arrumar emprego. Procuro, mas está um pouco difícil ainda.

Minha avó não gosta nem um pouco que eu saia. Ela tem certa insegurança, porque a minha irmã sempre foi mais esperta que eu, até nas coisas de casa e tal, e com 15 anos ela já saiu, e agora ela já tem um filho. Com 17 anos ela tem um bebezinho. Então minha avó acha que eu vou fazer as mesmas coisas que minha irmã fez. Então eu só saio com pessoas que ela já conhece, conhece a família, conhece tudo, senão esquece. O meu avô não gostava. Não gostava muito que a gente ficava na rua assim.

Eu fiz o curso aqui na Casa Mateus de Rotinas Administrativas, cálculo, essas coisas assim, aí eu estou procurando atendente, essas áreas assim, de atendente. Então, eu entrei aqui até mesmo pra gente não ficar na rua, porque lá na família a gente não gosta de ficar na rua e tal. Já era perigoso antes, imagina agora. Aqui na Casa Mateus antes era um negócio de costura, aí a minha avó já fazia aqui. Depois se tornou a Casa Mateus, e demorou um pouco, quando deu a idade, a gente entrou. Aí estou aqui desde os nove anos. Eu e minha irmã entramos aqui. Agora é seis que eu acho que pode entrar. Mas na época a gente entrou com nove aqui. Eu nove; ela, oito. E aí a gente deu um tempo, eu estou aqui até hoje, 18 anos. A gente entrou aqui em capoeira e informática. A capoeira eu continuei fazendo, mas depois comecei a estudar à noite, aí eu parei de fazer. Mas foi capoeira, informática e canto, que a gente entrou aqui. Era de segunda, quarta e sexta no começo. Segunda, quarta e sexta, capoeira, aí eu acho que segunda, canto e informática. Com música vai fazer quatro anos, porque não tinha o projeto ainda da música. Entrou esses tempos, faz quatro anos que a gente está aqui. Eu toco violino. E a minha irmã até tocava violão também, mas ela saiu daqui, aí só fiquei eu tocando violino. Então, muita gente já passou por aqui, muitos professores, e eu gosto de todos. Com a professora Marlene, acho que eu estou uns dois anos, três anos, por aí, com ela. Eu gosto bastante da professora de canto. Já tive muitas professoras de canto aqui. De violino também me identifico bastante com ela, gosto muito dela.

Todo mundo aqui me conhece porque eu estou aqui já há muito tempo. Então eu falo com todo mundo, a maioria. A gente apresenta todo ano. No teatro já é fixo, todo ano eles doam o espaço pra gente se apresentar. A gente se apresentou dia 3, agora lá. Tocamos e cantamos. Foi tipo um show de talentos, aí cada um podia fazer o que se identificou do curso mais, se é do canto, da dança. Dança já teve também, mas aí você podia fazer o que você quisesse lá no dia. Mas todo ano a gente se apresenta no teatro, ou uma apresentação fixa do curso e uma apresentação nossa por fora, que foi a primeira vez que a gente fez agora. E a gente se apresenta em outros lugares também. A gente se apresentou no Brooklin Fest, que teve esses dias também, paróquia, a gente se apresenta na paróquia também, Santo André, e na Cantareira também. Aqui no curso é com o grupo, com o grupo todo. Aí eu estou tentando também tocar em orquestra. Mas aqui a gente toca em grupo. Música mais voltada para o coral, não é nada fora muito. Eu gosto do canto porque eu canto desde que eu entrei. O violino como é há quatro anos, eu gosto mais, eu acho que tenho mais facilidade. Que o violino é muito difícil, é um instrumento muito difícil. Eu tenho violino porque minha avó comprou um pra mim.

Todo ano eu falo que eu vou sair, por causa da idade. Já era pra eu ter saído, porque o projeto, eu acho que é só até 16 anos, eu tenho 18. E todo ano eu falo que eu vou sair, é aquela choradeira, as mães falam: “Não, a Karen não tem que sair daqui, que não sei o quê”. Aí no outro ano eu estou aqui de novo. Aí esse ano eu já não sei. Porque agora eu tenho 18, eu não sei como vai ficar. E como eu tenho que arrumar um emprego, então eu não sei, mas eu não queria sair daqui, não. Eu gosto daqui. A partir do momento que eu entrei aqui, eu acho que mudou tudo, porque se eu tivesse fora, tem muitas coisas da vida, droga, essas coisas, eu acho que eu podia estar no meio. Às vezes não por causa da minha cabeça, mas olha a minha irmã o futuro que teve. Então ela viu o mundo de outro jeito lá. Agora ela está com uma criança. E eu não quero isso pra mim, não. Agora não. Nesse momento não. Eu estou muito nova ainda, tenho que curtir um pouco a vida. Mas eu acho que se eu estivesse lá fora, eu poderia não estar do jeito que eu estou hoje. Aqui a gente ocupa a mente, se diverte, se distrai, tem amigos.

Eu queria fazer uma faculdade assim normal, comum mesmo, tipo, Logística, ou Administração, alguma faculdade assim. Se tiver que trabalhar, aí vai ter que parar. Só se eu conseguisse um emprego que que fosse de sábado, ou até sexta-feira, pra eu poder fazer ou dependendo do horário que eu entrasse no emprego, que eu pudesse fazer aqui de manhã. Ou outro lugar pago assim que eu pudesse fazer, que eu não queria parar, não. Os professores sempre incentivam, sempre perguntam: “Aí, Karen, o que você vai querer fazer?”. Aí eu: “Não, eu vou continuar na área da música, eu gosto disso, mas primeiro fazer alguma coisa que eu consiga apoiar a música. Alguma coisa que eu consiga me manter, pra aí eu poder conquistar o que eu quero”. No começo eu vim porque minha amiga quis. Porque eu nem: “Ah, violino? Nem sei o que é isso. Instrumento tão difícil assim”. Como ela falou: “Não, Karen, vamos”. Eu comecei a gostar. Eu fui e estou até hoje. É meio difícil. É muito difícil, porque eu não tinha nem noção do que era um violino. A gente não tinha esse contato. E depois que veio assim, no começo era muito difícil, mas já me acostumei agora. A gente tocava flauta também. Mas eu tenho vontade fazer violão também, porque pra cantar, pra acompanhar é bem mais fácil do que um violino. Minha avó reclama às vezes: “Ai Karen, você não sai dessa Casa Mateus, que não sei o quê. Vá arrumar um emprego, menina!” Mas quando eu me apresento, aí ela fica toda emocionada lá: “Ai que orgulho”. Eu gosto das apresentações, eu já acostumei, porque é desde pequena. Uma vez eu fiquei nervosa, eu acho que eu tinha uns dez anos, por aí, porque a professora atrasava muito. Ela nunca ia com a gente, ela sempre ia por fora: “Não, tal hora eu estou lá na apresentação”. Aí chegou o dia que ela não estava, ela não chegou, e a gente tinha que apresentar. Aí a Luciana falou assim: “Karen, você vai ter que ir”. Aí eu fui lá reger o povo pra cantar. Nossa senhora, quase morri aquele dia lá. Mas depois daquele dia, não tenho vergonha mais não. Meu Deus do céu, quando a Luciana falou, eu não sabia onde enfiar a cara lá, porque muita vergonha, e reger assim do nada. Aí eu fiquei lá na frente do povo, não sabia nem o que fazer direito. Deu certo. Depois a professora chegou e deu tudo certo. Mas foi engraçado.

Ah, eu acho que tudo que eu já consegui. Tudo que eu já consegui já é muito importante na minha vida. O respeito, a amizade que eu conquistei até hoje, tudo isso é importante pra mim. Ah, é a gente saber até aonde a gente pode ir, até aonde a gente não pode ir, saber respeitar a opinião do outro, o sentimento do outro. Eu acho que é isso. Eu queria ser cantora. Mas eu acho um pouco difícil. Mas é só ter força de vontade. Vamos ver. Era pra eu ter me inscrito no The Voice esse ano. Mas o ruim é por causa da língua, porque lá tem que cantar música em inglês também e é um pouco difícil. Eu até entendo um pouco, mas na hora assim, outras... Tem que saber bem, e eu não sei bem. Mas eu tenho vontade de me inscrever ainda no The Voice. Só não me inscrevi esse ano por causa da insegurança de não conseguir assim, até mesmo por causa da questão da língua, mas só por isso. Dar aula também, eu acho que seria uma boa. Quem sabe abrir uma escola assim de instrumentos, até pra ajudar as pessoas, igual a Casa Mateus também. Interessante. Ah, eu acho que tudo leva para o bem se você souber absorver. Então todos os anos que eu passei aqui, na minha casa, na minha vida, eu soube entender bem tudo. Tudo foi para o bem, nada foi para o mal. Todos os conselhos, incentivos, tudo leva ao bem. Que a gente nunca pode desistir. Se a gente quer um sonho, a gente tem que correr, correr atrás.

E aqui a Casa Mateus é muito boa, porque ela acolhe pessoas sem saber se a pessoa é pobre, se ela é rica, ou qual a condição dela, o que ela passou assim. Mas aqui não tem distinção de cor, de raça, nada. Se você vem pra fazer o curso, você vai vir pra fazer o curso e já era. Não tem aquela indiferença. A gente via na TV: “Não, eu acho que nunca vai acontecer isso aqui em Mauá”. Então, o primeiro contato que eu tive lá com o Criança Esperança, que a gente teve, é bem o contato com a TV, com o povo. A gente não acha que vai acontecer com o nosso meio aqui. Eu mesma nunca pensava. Via na TV e falava: “Nossa, isso daí nunca acontece aqui em Mauá, nada assim”. Mas quando veio o Criança Esperança pra Casa Mateus, a gente ficou surpreso. Até mesmo pelas oficinas, por causa do apoio. E foi assim. Ah, foi muito bom. Porque é sempre bom um apoio. Porque como a Casa Mateus é uma instituição, uma ONG, então é sempre bom o apoio das pessoas. Então foi até mesmo pra acolher mais crianças que gostam. Até mesmo quem não gostava de cantar, mas gosta de um instrumento. Então foi muito bom. 

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