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História

Eu queria que todo mundo tivesse pensamento positivo

História de: Emy Ayako Ogawa
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Da infância na colônia japonesa, à universidade no Rio de Janeiro e ao trabalho em São Paulo. Família, mudanças e criação. A profissão de farmacêutica e o crescimento do Aché. Desejos para o futuro.

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História completa

Projeto Aché Vai Contar Sua História Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Emy Ayako Ogawa Entrevistada por Imaculada Lopes e Eliana Reis São Paulo, 22 de fevereiro de 2002 Código: ACHÉ_HV008 Transcrito por Cristina Eira Velha Revisado por Danielle Bufalo P/1 - Emy, para começar eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento. R - Meu nome é Emy Ayako Ogawa?, nasci em Jacarepaguá no dia 12 de maio de 1949. P/1 - Uma família de muitos irmãos, Emy? R – Somos, ao todo, seis irmãs. P/1 - Você poderia dizer o nome delas? R - Meri, Amélia, Conceição, Helena e Elizabeth. P/1 - E o nome dos seus pais? R - Meu pai chama-se (Isho Ogawa?) e minha mãe chama-se Emiko Sasaoka Ogawa. P/1 - O teu pai, ele nasceu onde? R - Nasceu no Japão. P/1 - Ele nasceu lá e veio para o Brasil quando? R - Ele veio com 14 anos de idade. P/1 - Você sabe um pouquinho dessa história da vinda deles para o Brasil? R - Meu pai... segundo meu pai, a família dele era muito rica, só que meu avô gostava de dar tudo que tinha na casa para as outras pessoas. E com isso empobreceram, daí decidiram vir para o Brasil, com toda a família, quatro irmãos e quatro irmãs. P/1 - E eles chegaram de navio? R - Chegaram de navio em Santos. P/1 - Ele conta alguma coisa dessa travessia de navio, você sabe? R - Não, ele não conta muita coisa. Ele conta que a viagem foi boa, ficou maravilhado quando chegou no Porto de Santos, gostou da terra do Brasil, achou que era uma terra promissora. P/1 - Porque eles vieram para o Brasil... como é que eles escolheram o Brasil, você sabe disso? R - Segundo ele, comentava-se no Japão, por meio de pessoas que já tavam aqui, que o Brasil era imenso, que tinha muita terra, o que não acontece no Japão. Foi por causa disso. P/1 – O que eles faziam lá no Japão? R – Lá eles tinham comércio. Aí enriqueceram através do comércio. P/1 - Que tipo de comércio, você sabe? R - Vender comida, essas coisas assim... P/1 - E chegaram em Santos e foram para onde? R - Foram para Bastos, compraram uma terra e plantaram algodão. P/1 - Algodão? R - Daí como perderam tudo, foram morar em Louveira e compraram outra terra. P/1 - Para plantar o quê? R - Plantar uvas. P/1 - Perderam tudo por quê? Você sabe o que aconteceu? R - É que não conseguiu produzir o que eles tinham projetado. E o preço não compensou. P/1 - E toda a família participava do trabalho? R - Participava. Os quatro irmãos, as quatro irmãs, mais meus avós. P/1 - Era um núcleo, era uma colônia japonesa? R - Em Bastos tinha uma colônia japonesa, assim como em Louveira. P/1 - E eles falavam japonês em casa? R - Fluentemente. Somente japonês, mal conheciam a língua portuguesa. Foram aprendendo aos pouquinhos, com a vivência, para comprar as coisas, aí foram obrigados a aprender. P/1 - E depois lá em Louveira eles foram plantar uva? R - Exatamente. P/1 - Você sabe se era uma fazenda lá, um sítio? R - Era um sítio, eles compraram um sítio. P/1 - E era uma colônia japonesa? R - Também. P/1 - Você sabe mais algum detalhe dessa época de Louveira? R - Não, aí depois meu pai disse que ele tinha problema durante o frio, as pernas dele doíam, porque caiu uma árvore em cima dele. Ele ficou um mês acamado, em coma. Com a persistência, com a força de vontade dele, ele conseguiu sobreviver e caminhar, mesmo com um pouco de dificuldade, mas conseguiu caminhar. Aí ele decidiu morar no Rio de Janeiro, porque ficou sabendo que o clima era quente. P/1 - E essa árvore caiu como? Você sabe dessa história? R - Ele estava cortando o eucalipto, aí caiu em cima dele. Aí mutilou. P/1 - E ele se muda para o Rio com quem, Emy? R – Ele muda com a minha mãe, com meu tio, com a minha tia, com a minha avó materna e um primo meu. P/1 - Quer dizer que ele já estava casado? R - Sim. P/1 - Como é que foi esse casamento? R - O casamento foi feito por meio de Miai. Essa coisa é o seguinte: quer dizer casamento por encomenda de família. Família e família. P/1 - Uma combinação das duas famílias? R - Exatamente. P/1 - O que a tua mãe conta do casamento? Ela conhecia o teu pai? R - Minha mãe falou que não conhecia quem seria o marido dela, só conheceu uma semana antes do casamento. Aí se casaram, foram morar em Louveira P/1 - E a tua mãe era de lá mesmo? R - Minha mãe é de Campinas. P/1 - De Campinas. Conta um pouquinho da história da família da tua mãe. R - Os meus avós vieram do Japão também, para o Brasil. E chegaram em Campinas, começaram com a plantação de uvas e figo. E até hoje existe, só que minha avó e meu avô já faleceram. P/1 - E essa casa de Campinas você foi conhecer? R - Sim, mas só em 1976. P/1 - Como é que era essa casa dos teus avós? R - A casa é enorme, como a casa de todo japonês, com seis quartos, cozinha enorme, banheiro, dois banheiros, sala enorme, varanda, e mais o quintal. P/1 - O que tinha nesse quintal de bom? R - Plantas. Japonês gosta de planta. Samambaia, flores... P/1 - E a tua mãe morava lá com muitos irmãos? R - Sim, minha mãe tem quatro irmãos e quatro irmãs, total oito, igual ao meu pai. P/1 - E os pais da tua mãe, você chegou a conhecer? R – Os pais da minha mãe? P/1 - É. R - Eu não conheci meu avô, só conheci minha avó. P/1 - O que você lembra dela? R - Ah, ela era uma pessoa muito lutadora, batalhadora. Ela tinha um jeitinho, assim, de cativar os filhos. Cuidava dos filhos muito bem, tinha preocupação constante com os filhos, com o estudo deles também. Eu lembro assim. P/1 - Apesar de a tua mãe ter nascido no Brasil, ela aprendeu o japonês? R - Aprendeu japonês, aprendeu português, aprendeu a escrever japonês também com o meu avô. Ela fala muito disso. P/1 - Que o pai dela ensinou? R - Ensinava. P/1 - E a comida era japonesa também? R - Também. P/1 - E aí ela conhece o teu pai e casa mocinha? Você sabe a idade da sua mãe quando ela se casou? R - Minha mãe, segundo minha mãe, casou-se com 24 anos. P/1 - 24 anos. O teu pai devia ter...? R - O meu pai é quase dez anos mais velho. P/1 - E o teu pai, como é que era, Emy? R - Meu pai, segundo ele, sempre foi um atleta, nadava lá em Bastos, ganhava prêmios em natação. E, também, foi grande orador nas colônias japonesas. P/1 - Como era essa atividade de orador? R - Orador é assim: quando havia algum pronunciamento a fazer, colocam ele como orador. P/1 - Que tipo de pronunciamento? R - Assim, por exemplo, se ele fosse numa festa de japoneses, ele que falava. Se ele fosse em alguma casa de beneficência, ele que falava. É assim. Porque ele tinha uma cultura mais aprimorada do que os outros japoneses. Assim como ele sabia escrever muito bem japonês. Sabe, né, aliás, até hoje. P/1 - É uma educação que ele adquiriu...? R - No Japão. Ele fez até... aqui no Brasil seria ginásio, né? Que corresponde ao nível universitário no Brasil, segundo ele. P/1 - E os pais do teu pai, você chegou a conviver com eles? R - Não, só com a minha avó. P/1 - Como era o nome dela? R - Minha avó... eu acho que esqueci o nome dela. Não, (Tie Sasaoka?) é da minha avó materna. É um nome meio... eu não me lembro. P/1 - Como ela era fisicamente? R - Magrinha, baixinha, tinha um metro e 50, cabelo comprido, branco, rosto lisinho, a pele bem saudável, e muito exigente, pegava no meu pé [risos]. P/1 - Ah, é? Em que sentido? R - Corria com vassoura [risos]), quando eu fazia uma bagunça! Nesse sentido. P/1 - E o que ela gostava de fazer? Você lembra da sua avó fazendo o quê? R - Ela gostava muito de cozinhar, muito mesmo. Então ela fazia almoço, fazia jantar para a gente. E ela ensinava, lavava roupa muito bem, e me ensinou como que lava uma roupa. P/1 - Ah, é? Como é? R - Para você não gastar muito sabão. Então ela ensinava que você tem que começar a lavar sempre, assim, nesses cantinhos primeiro, esfrega bem, depois deixe secando ao sol. Quando estiver morninho você pega, esfrega novamente, enxagua e fica branquinho, limpinho. É assim que ela me ensinou, sem gastar muito sabão. P/1 - Você conviveu com ela lá em Jacarepaguá? R - Em Jacarepaguá e no sítio... no Coronel Santa Alícia. P/1 - Em Jacarepaguá você morou até quando? R - Eu morei até os quatro anos de idade. P/1 - Você tem alguma recordação dessa casa de Jacarepaguá? R - Ah, eu lembro, eu fazia muita bagunça [risos]. P/1 - Que tipo de bagunça? R - Gostava de sair escondido para pescar com o meu tio na lagoa que tinha lá perto de Jacarepaguá, gostava de ir à casa do vizinho comer manga, aí quando eu voltava me prendiam dentro do galinheiro de castigo [risos]. P/1 - Na casa tinha galinheiro? R - Porque meu pai criava galinhas. Aí me colocava de castigo, só ficava aprontando. P/1 - Você não é filha única? R - Não, somos seis ao todo. P/1 - Seis? É verdade, você já falou o nome das suas irmãs. Elas todas nasceram nessa época em Jacarepaguá? R - Não. Só a minha segunda irmã Meri que nasceu em Jacarepaguá. P/1 - Então nessa época era só você e a Meri? R - Isso. P/1 - Como é que era a casa de Jacarepaguá? Como é que funcionava, tua mãe, tua avó? R - A gente convivia harmoniosamente, morava tudo na mesma casa e convive harmoniosamente. P/1 - Como era um domingo típico em família, você lembra? R - Domingo nós ficávamos em casa, porque meu pai era colono, não podia sair. Tinha que cuidar das obrigações dele para com o patrão dele. Então a gente não saía, ficava brincando. E a família ficava em casa. P/1 - Quais eram as brincadeiras dessa época? R - Aquelas que eu contei. Ficar comendo manga do vizinho, pescar escondido da minha mãe [risos] com o meu tio, ficar correndo atrás das galinhas... [risos] P/1 - Esse teu tio, você tinha uma ligação forte com ele? R - Tinha. P/1 - Como é que ele chamava? R - (José Ogawa?). P/1 - O que vocês faziam juntos além de pescar? R - Ah, depois quando ele podia, ele me levava para passear, ao Jardim Zoológico, nós íamos de ônibus, ele me levava para passear em alguns lugares, assim, que ele achava interessante. É isso. P/1 - Que lembranças você tem do Rio daquela época? R - Quando estava em Jacarepaguá? P/1 - É. R - Ah, eu adorava. Adorava mais, assim, pela minha bagunça que eu fazia com a turma, mais por isso. P/1 - Que turma era essa? A vizinhança? R - A vizinhança, os meninos. Corria atrás dos meninos, batia nos meninos [risos]. P/1 - Era colônia japonesa? R - Não, era brasileira só. Só a gente estava lá. Era gostoso nesse sentido. P/1 - Como é que você se sentia sendo uma menina de família japonesa no meio dos brasileiros? Teve choque de cultura? R - Não, porque o doutor Brandão era muito amigo da Dona Anita Gentil e do Luís Gentil, que depois foram ser meus padrinhos de batismo. Então a gente convivia com todo mundo numa boa, sem problema nenhum. P/1 - Você falou do batismo. A educação religiosa que você teve foi católica, foi budista? R - Não, eu, no caso, fui sempre católica apostólica romana. P/1 - Os seus pais também? R - Meus pais atualmente são xintoístas, toda a família. P/1 - E você lembra das cerimônias xintoístas na sua casa? R - Eles oram pelos antepassados, eles acreditam em Deus, somente em Deus. Eles acham que nós devemos cultuar os que morreram para que eles tenham muita luz e fiquem perto de Deus. Então a gente pensa sempre, cultua sempre nesse sentido. P/1 - E a mudança de Jacarepaguá para o núcleo colonial, você lembra dessa mudança? R - Lembro. Inclusive nós fomos até de caminhão, que eu lembro, de caminhão com lona amarela e a gente atrás. Eu lembro perfeitamente bem. Chegamos lá, fizemos casa de tábua, aí meu pai fez dois quartos, um deles e outro nosso. Tinha uma sala, uma cozinha e um banheiro. P/1 - E foi uma viagem longa essa? R - Foi. Eu me lembro que levou umas quatro horas. P/1 - E vocês foram atrás com os móveis? R - Com tudo junto. P/1 - As galinhas também? R - Não, galinha meu pai não levou [risos]. P/1 - E quem é que se mudou para lá? R - Só meu pai, minha mãe, eu, minha irmã Meri e minha avó, só. P/1 - E como é que era núcleo, a colônia? R - Era colônia de japoneses também, tinha outras famílias. E meu pai comprou o sítio de 10 mil metros quadrados. E ele começou a plantar hortaliças, citros e criação de galinhas. Só que não deu certo. P/1 - E a sua vida mudou muito? R - Não, porque eu só aprontava, gostava de brincadeira, subia nas árvores [risos], brincava com os colegas... Eu brincava muito, eu acho que eu tive uma infância muito feliz. Eu acho que é inesquecível. Fui uma criança, assim, foi uma infância pobre, porém de muitas alegrias, de muito conhecimento de criança. Eu vivi como criança. Conheci brincadeiras de criança, como muitos não conhecem atualmente. Então, acho que eu tive uma infância muito feliz. P/1 - E tiveram brincadeiras novas lá no núcleo, comparado com Jacarepaguá? R - É, amarelinha, pega-pega, esconder as coisas [risos]. P/1 - E seus pais não eram rígidos, assim, não te controlavam muito? R - Não, meu pai controlava, só que a gente brincava, brincava escondido, mas a gente depois apanhava, né? [risos] Uma vez até tinha um galo que tinha um bico deste tamanho. Aí eu ficava atiçando. Nossa, correu atrás de mim, ele me picou. Quase que eu caio dentro do poço[risos]! P/1 - Tinha um poço em casa? R - É, que o nosso não era, assim, que nem a água de hoje em dia. A gente tinha poço mesmo, de cinco metros, dez metros. P/1 - E além das brincadeiras tinha a parte de escola também? Como é que era? R - Tinha. Eu fiz curso primário na Escola Santa Alice, até o terceiro ano. O quarto ano eu concluí na Escola Presidente Dutra, lá na antiga Rio-São Paulo. Depois eu fiz o ginásio no Colégio Fernando Costa, e você quer que conte o resto? P/1 - Eu queria te perguntar da primeira escola. Era lá no núcleo? R - No núcleo mesmo. P/1 - Você lembra como é que era essa escola? R - Eu lembro, era uma escola pequenininha, desse tamanho mais ou menos. Tinha uns 20 alunos mais ou menos. A primeira professora chamava Terezinha, muito rígida, e ela ensinava mesmo. A gente aprendeu a colocar letra já naquela época, tudo certinho, na linha. Foi ótimo. E a tabuada era no lápis. Você lembra do lápis, quando tinha tabuada? A tabuada era no lápis que a gente tinha que aprender. Aí todo dia ela perguntava para a gente. E eu sempre fui a primeira aluna, ganha prêmio por causa disso. Aprontava, mas ganhava prêmio [risos]. P/1 - E você ia a pé para a escola? R - Ah, sim. A gente era pobre, não tinha dinheiro. P/1 - E era perto, né? R - Era perto, não era muito longe não, levava uma meia hora. Mas a gente passava no sítio de todo mundo e ia com o grupo. P/2 - Era uma sala só? R - Era uma sala só. Estudava todo mundo junto. P/2 - Crianças de diferentes níveis? R - É, por causa do horário. Por exemplo, vamos supor, primeiro ano é num horário, segundo ano no outro horário, era assim. Era tudo misturado, menino e menina. P/1 - E o japonês você aprendeu aonde? R - O japonês eu aprendi no clube que a gente tinha dentro, no Clube Colonial Santa Alice. P/1 - Como é que era esse clube? R - Nós chamávamos de kaikan. Então, todo domingo os japoneses reuniam-se para fazer festa, para encontros, para ter aula de japonês, faziam carnaval. E a gente criava, porque a gente não tinha dinheiro para comprar aquelas vestimentas... P/1 - Você lembra de alguma fantasia? R - Ah, eu me lembro. Peguei aquele coqueiro, folha de coqueiro, cortei no meio, aí amarrei aqui e fiz uma saiona, como se fosse uma baiana. Aí eu comecei a dançar. Gostava muito de esporte, jogava vôlei, pingue-pongue... P/1 - Tudo lá no clube? R - Tudo no clube. Aí todo dia primeiro de janeiro a gente ia com o caminhão a uma praia, com todos os japoneses. P/1 - Qual praia que era? R - Era lá na Estrada Rio-Santos. Aí pegávamos uma das praias dali e íamos. P/1 - As suas irmãs já tinham nascido nessa época? R - Não, tinha nascido só a terceira. Depois nasceu a quarta, a quinta e a sexta. P/1 - Tudo lá no núcleo? R - Tudo no núcleo. P/1 - E as seis irmãs se davam bem? R - Sim. Brigavam, mas se davam bem, sem problema nenhum. Só que eu sempre aprontava, né? Aprendi a andar de bicicleta com o empregado do meu pai, pegava escondido a bicicleta dele. E a bicicleta de homem tem um negócio no meio, né? Aí levava tombo, entortava todo o guidão do homem. O homem ficava louquinho de raiva, perguntava: "quem fez isso?" Era eu [risos]. P/1 - E o teu pai, Emy? Nessa época ele trabalhava com o quê? R - Meu pai, como eu disse para você, começou com citros, com hortaliças e com criação de galinha. Não deu certo e o que ele fez? Ele estava sentado um dia e viu, dentro da água, uma planta: goiaba. Aí ele viu que a planta era resistente à doença. Resistente que eu digo, assim, não tanto, mas ele viu que se mantinha viva dentro da água. Aí ele começou a pensar: "Puxa vida, essa aí é uma saída para nós. Então eu acho que eu vou desenvolver geneticamente, melhorar essa fruta." Foi o que ele fez. Pediu apoio das universidades, dos órgãos oficiais. Só que eles não acreditaram, acharam que era uma coisa que não ia ter sentido nenhum, que ia resultar em nada, que não valia a pena. Então ele, por si só, resolveu fazer a pesquisa e desenvolveu as seis variedades de goiaba. A partir de 1958 surgiu a primeira goiaba de mesa no Brasil. P/1 - Que chamava como? R - É goiaba Ogawa número um. P/1 - Ogawa é o nome do teu pai? R - Isso. P/1 - E eram pesquisas, que ele fazia onde exatamente? R - Ele fazia no próprio sítio. P/1 - Era um lugar específico para isso? R - Não, no sítio mesmo. P/1 - Na terra? R - Na terra. Ele começou a desenvolver, começou a plantar muda. Aí essa planta crescia, ele podava, via como era a melhor maneira de podar. Porque o conceito de que a fruta só dá uma vez por ano. Só que ele modificou também geneticamente para que a fruta desse o ano inteiro. P/1 - Ele ia fazendo uma seleção...? R - Isso, ele selecionava os genes, como diz ele, e cruzava os pólens. P/1 - E você lembra do seu pai trabalhando? R - Lembro. P/1 - Como é que era? Ele acordava cedinho e ficava lá com as plantas? R - Sim, ele acordava cedo, pesquisava e ia lá. Então, às vezes, ele pesquisava e não conseguia ter resultado. Ele ficava pensando. De noite, ele fazia assim: pedia para Deus dar uma luz. Aí vinha a resposta para ele. De manhã, cedinho ia lá, resolvia o problema, assim, num estalo. E assim ele foi desenvolvendo. P/1 - Mas era uma pesquisa prática ou ele também consultava livros? R - Ele consultava. Consultava livros, consultava professores das universidades e na prática também. P/1 - E depois do Ogawa um, quais foram as próximas? R - Ogawa dois, Ogawa três, Ogawa quatro, até chegar no Ogawa cinco. Ogawa quatro é branca e o resto são todas vermelhas. A melhor é a Ogawa cinco, que pesa de 500 gramas até um quilo e, inclusive, está servindo de estudo para a Universidade do Havaí, no Havaí e na Universidade do Japão. P/1 - Okinawa? R - Okinawa, no Japão. É o número um... eu falei número cinco, né? Desculpe, é número um e número três. P/1 - E são pesquisas que levaram anos da vida dele? R - Não, meu pai acho que levou três anos. P/1 - Três anos? R - Exatamente. E fez, também, com que se tornasse resistente às doenças, à triquinose,. Tornasse a fruta mais saborosa, com menos semente, com a polpa mais vermelha, a pele lisa e com o umbigo liso. P/1 - E qual era o objetivo do teu pai com essas pesquisas? R - O objetivo principal é de que os japoneses de pequena terra, os sitiantes, pudessem sobreviver através dessas plantações. Pudessem criar os filhos, a família e dar o estudo para as crianças. Esse era o objetivo principal. P/1 - E essas espécies acabaram se espalhando pelas colônias, então? R - Sim, pelo Brasil inteiro. P/1 - E vocês sobreviveram nesse meio tempo do quê? Das pesquisas? R - Não, dessas plantações. P/1 - Ah, por que plantava? R - Isso. Aí depois, paralelamente, ele desenvolveu outras frutas tropicais, como a carambola, abiu... P/1 - Você falou da fruta do conde? R - Fruta do conde sem semente. P/1 - E a carambola como é que era? Era grande? R - É enorme. Talvez... meu pai diz que é a maior do Brasil. Nem São Paulo supera a dele. E ele tentou desenvolver caju, mas caju não dá certo no Rio de Janeiro, porque não é terra arenosa. Caju gosta de areia. P/1 - Que lembrança mais forte você tem do seu pai, Emy? R - A lembrança mais forte que eu tenho do meu pai é que ele é muito persistente, positivo. Tudo que ele quer ele consegue. Ele não esmorece em momento nenhum, com toda a dificuldade que ele teve nas pernas. Ele diz que ele pode. Ele mostrou que ele não precisa ir para o Japão trabalhar para ganhar dinheiro. O Brasil tem condições suficientes para te dar dinheiro, a saúde, a paz, a harmonia na família, a união na família. O que ele mais conseguiu foi isso, unir a família. A minha família toda está junta. Eu sou a única que está fora do Rio de Janeiro. Então, esse é o foco principal. P/1 - E a sua mãe participava como desse dia a dia? R - Minha mãe participava da pesquisa junto com o meu pai? P/1 - Fazendo o que exatamente? R - Ajudando-o a tirar semente, selecionar, plantar, fazer viveiro. E o meu pai enxertava. P/1 - E quem cuidava da casa? R - Da casa a minha mãe também cuidava. Aí ela cuidava da gente, cuidava da casa. Só que eu era encarregada de cuidar das minhas irmãs, dar banho nelas, levá-las para a escola. Essa era a minha tarefa. P/1 - Você ficou lá até que época, Emy? R - Eu fiquei até ingressar na universidade. P/1 - Mas você passou a sua adolescência lá? R - Até 1968 mais ou menos. P/1 - E a vida de adolescente lá na colônia como é que era? R - Muito boa, porque nós jogávamos, praticávamos esporte, íamos para a praia, mas tudo em grupo. P/1 - E tinham os bailinhos também? R - Sim. Aos sábados tinha o bailinho e domingo era para praticar esporte. P/1 - E tinham namoricos também? R – Tinham [risos]. E por que não? P/1 - Você pode contar um pouquinho do primeiro namorado, Emy? R - Ah, eu prefiro pular. P/1 - Então está bom. Mas não era mais época dos casamentos... dos miais? R - Não, aí você conhecia e se casava. Não tinha essa rigidez. Esse Miai era na época dos japoneses da primeira geração. Depois, o resto não. Tanto é que eu tenho a família com brasileiro. P/1 - E da tua vida de adolescente, o que mais você lembra, sem ser as idas para as praias? Você também continuou arteira na adolescência? R - E como [riso]! P/1 - Era outro tipo de arte. R - A gente ia numas fazendas lá, catava coquinho, ficava comendo coquinho, minha mãe procurando a gente. E a gente, cadê? E a gente, nas fazendas, andando aquele sítio todinho. Eu acho que eu andava o dia inteiro. Sete horas assim, andando, não sentia cansaço, eu tinha disposição e eu sempre era a líder, para variar [risos], conduzia as crianças. P/1 - O teu pai e a tua mãe, assim, como é que eram, sem ser no trabalho? O teu pai tinha tempo para brincar com vocês, conversar? R - Não, eles não. Mas só que eles eram exigentes, rígidos na educação. Minha mãe nunca gostou de a gente ficar agarrado chorando. Sempre falou que a gente nunca deve chorar, que a gente deve ser forte, que nós temos que acreditar em nós mesmos. E meu pai sempre falou isso para mim: "Emy, você não precisa ser... estudar todas as coisas. Faça uma coisa, sempre o melhor. Conheça além daquilo que todo mundo conhece, seja um pouco a mais. Esse é o diferencial que todo profissional tem que ter." Ele sempre colocava isso na cabeça da gente. E que a gente nunca esmorecesse diante de qualquer situação, porque isso faz com que a gente cresça. (PAUSA) Então meu pai sempre dizia que nós devemos ser fortes, não nos esmorecer em qualquer situação, por pior que seja, que a gente não deve chorar à toa e que nós nunca devemos mostrar as nossas fraquezas para os outros. Então, devemos manter sempre aquele espírito vivo, forte. É o que ele é e o que minha mãe são. P/1 - E como foi a tua saída de lá? Foi difícil? R - Não. Porque eu precisava fazer universidade. Eu não queria fazer agronomia, não queria fazer medicina, veterinária. Se eu quisesse, era lá perto da minha casa, porque a Universidade Federal do Rio de Janeiro era próxima à minha casa. Eu queria fazer Engenharia Química, porque na época era uma coisa, assim, uma novidade no mercado. A Petrobrás todo mundo falava que era o it da época, é o local onde você podia trabalhar e ganhar. Então o que eu fiz? Fui para Campo Grande fazer o científico, terminei e prestei vestibular para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Praia Vermelha. Só que eram muitos candidatos, eu não consegui passar, fiquei no excedente. E o meu sonho foi para o espaço. Aí o que eu fui fazer? Em 1969 eu fui para... prestei vestibular para Farmácia na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. E eu passei direto, sem estudar, sem nada. Por quê? Eu estava direcionando para área o que? De Engenharia. Então eu não tinha Biologia, não tinha Inglês, e eu passei assim, direto, sem depender de nada. P/1 - E você foi morar aonde? R - Aí morei na casa da minha madrinha e do meu padrinho em Niterói, na Vila Pereira Carneiro. E comecei a estudar, fazer a faculdade lá. E para poder ficar na casa deles, o que eu tinha que fazer? Eu era como uma doméstica, ajudava nos afazeres domésticos deles. E também ajudava nos pagamentos, nos compromissos que eles tinham. Eu que fazia tudinho. Por isso que eu sou perita para limpar carne. P/1 - Limpar carne? Tem segredo para limpar carne? R - Eu sou perita para limpar carne, não perco uma. Aí aprendi a fazer muitas comidas. Fazia pastel, colocava um pouquinho de álcool para ficar bem estufadinho. P/1 - Como é que é? R - Fazia pastel, a massa do pastel, aí colocava um pouquinho de álcool para ele ficar crocante, estufadinho, ficava uma delícia. Aí fazia aquele bolo de coco, ralava o coco e fazia o bolo. Nossa, fazia, daqui a pouco você não via mais o bolo, acabou. E cuidava das crianças dela, dos netos também dela. Eu que cuidava. P/1 - Onde era essa casa? R - Em Niterói, na Vila Pereira Carneiro. P/2 - Qual foi a sua primeira impressão da cidade, Emy? R - Adorei. Gosto de praia, é perto da praia, então adorei, fantástico. P/1 - E sem ser a faculdade o que mais você agitava lá em Niterói? R - A gente costumava muito a ir à casa dos amigos. A gente tinha muitos amigos, eu não sei, eu sempre tive convívio com muita gente. Então a gente se dava muito bem. Até hoje eu tenho uma amiga que eu conheci em Campo Grande, que fez o curso científico comigo. Só que cada uma tomou o seu caminho diferente. Mas até hoje somos amigas, amigas, assim, de... amigas mesmo. Então em Niterói também, a gente tinha muitos amigos, a gente convivia muito bem. P/1 - Qual a lembrança mais marcante da faculdade? R - Da faculdade? Na faculdade tem tanta coisa, meu Deus! P/1 - O dia a dia de estudante, como é que era? R - Eu me lembro... uma vez que eu coloquei quase fogo no laboratório. Fui fazer uma pesquisa de sódio, a matéria chamava-se Química Analítica. Aí ninguém tinha me ensinado que ia provocar combustão. Eu pego, eu faço, daqui a pouco pega fogo, sai fumaça, que todo mundo sai correndo. A professora sabe como determinar, como fazer essas coisas, então para ela era tranquilo. Só que nós ficamos apavorados, saímos na rua [risos]. P/1 - Todo mundo saiu correndo. R - E outra que foi marcante, que eu acho, é assim, eu fiquei na Química, na Análise Instrumental, matéria, não gostava da matéria. Aí o que aconteceu? Eu não consegui fazer a mesma matéria em Bioquímica, que ficava na outra área. Aí uma pessoa chamada Salomé copiava as matérias todinhas. E ela dava a cópia para mim. Eram 75 alunos, olha só. Eu não frequentava. Chegou na prova final, o professor falou assim: "Mas você nunca compareceu na minha aula". Eu falei: "Não." "Então você vai sentar aqui na frente." E me deixou na frente. Então eu não podia colar de ninguém. Só que eu consegui tirar a maior nota e passei. E ela, que me emprestou o caderno, não passou. Ela perguntou: "O que você fez para passar? E eu, que emprestei tudo, dei tudo para você, assisti aula, eu não consegui e você conseguiu?" Eu falei: "Não sei, achei a matéria fácil." [riso] Passei direto. Passaram cinco alunos só, o resto ficaram todos. P/1 - E a formatura, ela foi importante para você? R - Para mim foi, foi muito emocionante. Porque o compromisso da gente com a sociedade, com a saúde, você falar com o pessoal, com a família, demonstrar que chegou graças ao esforço da gente, mesmo não tendo condição de pagar, para nós foi muito importante. P/1 - Os teus pais foram na formatura? R - Não, porque eles moravam longe, não tiveram condição de ir. Aí teve uma parte marcante também, quando a gente conseguia promover visita para os laboratórios, para as indústrias farmacêuticas. A gente juntava dinheiro e conseguia fazer. E outra, que eu consegui na Bahia, em Salvador, participar de um curso. Só que tinha um vizinho que me adorava. Aí ele falou se eu queria ir lá que eu ficava no apartamento novo que ele tinha comprado, lá em Amaralina. Eu falei assim: "Ah, está bom. Vamos todos os colegas e vamos lá." Aí fomos seis no apartamento dele e ficamos todo mundo lá. Porque a universidade só pagou o ônibus para a gente, alimentação e o local ficou por nossa conta. Aí ele nos ajudou, na verdade. Fizemos o curso e voltamos de lá todo mundo feliz, tocava violão na volta, não deixava ninguém dormir, aprontava bagunça [risos]. P/1 - E o primeiro emprego, Emy, quando é que aparece? R - Quando eu estava na faculdade, eu fiz a Farmácia, depois eu me especializei em Farmácia Industrial. Quando eu fui me especializar em Farmácia Industrial, só ficamos cinco pessoas, sendo duas mulheres e três homens. E eu fiz a matéria Cosmetologia, eu ia muito bem nessa matéria. E estava fazendo a pesquisa de urucum nos produtos cosméticos. A gente estava coletando material, tentando ver qual era o melhor urucum no Brasil que pudesse fixar a cor nos produtos cosméticos. Aí surgiu a vaga de professor adjunto em Cosmetologia. Eu fiz, me candidatei e passei, obtive êxito. Só que a universidade não tinha verba para pagar, então ela não contratou. Eu tive que fazer o que? Fiz estágio com o professor (Maurício Lovide?), numa indústria cosmética de pequeno porte. Ele me ensinou muita coisa, aprendi muita coisa com ele, mas só fiquei um mês. Porque ele falou assim para mim: "Emy, essa empresa não tem condições de pagar para vocês, não tem condições de contratar funcionário. Então você não quer começar a procurar?" Aí mandei algumas cartas para as indústrias farmacêuticas do eixo Rio-São Paulo, somente. Eu não esperava, em 15 dias o Aché me responde. P/2 - E você já tinha ouvido falar do Aché antes? R - Nunca. Eu nunca ouvi falar do Aché. Eu juntei cartuchos que tinham lá, que mostraram para mim, aí escrevi uma carta mais ou menos de dez linhas só, pedindo estágio por três meses. P/1 - E por que no eixo Rio-São Paulo? R - Porque eu não gostava de São Paulo, eu não tinha intenção de vir para São Paulo. A minha intenção era ficar no Rio de Janeiro. É minha terra natal. Eu pretendia ficar para o resto da vida lá no Rio de Janeiro. Então eu só fiz para o eixo Rio-São Paulo, somente. E o seu (Vítor?) ligou. Eu estava estagiando, e ele ligou para a minha casa, na casa dos meus padrinhos. E falou que gostou da carta e que queria conversar comigo. Pediu para que eu fosse, viesse aqui em São Paulo para conversar com eles. Aí no outro dia eu vim. Quem me entrevistou foi Antônio Aloísio Russo, que era chefe do controle de qualidade e de produção. Depois conversei com o seu (Vítor Saules?) e também com o senhor Antônio Gilberto Depieri. Fui contratada imediatamente. Mas eu falei para eles que eu não ia vir, que eu ia ficar no Rio, que me dessem um tempo, e que no dia 23 iniciaria o trabalho. Fui contratada como farmacêutica. Aí eu me lembro que... era o meu primeiro emprego, cheguei, conheci o laboratório, o primeiro contato que eu tive com o mundo farmacêutico foi com o produto Somalium. E nessa época quem me orientou e quem me deu, assim, todas as dicas, foi a (Fátima Parra?), que trabalhava no Aché antes da gente, foi braço direito do (Sussum Nakamura?) que desenvolvia produtos que nem Somalium, (Diasetarde?), (Sensicrase?), Iodepol, Combiron, Doriprex, (Ponsapexer?), Sepurin. Então eu aprendi com ela muitas coisas. E eu me lembro nessa época que quem trabalhou também com a gente foi a (Marli Ivono?), a (Eliete?) e a (Bete?). Então era um corpo pequenininho, né? Mas que a gente se deu bem. Eu até me lembro que no primeiro dia que eu cheguei eu vi a Marli correndo para cima, para baixo, pesando o Colpistatin creme, que na época era 28 gramas, hoje é 40 gramas. E ela coletava (brises?) e fazia teste de vácuo. E eu achava aquilo interessante, eu ficava olhando o que ela estava fazendo. Eu só ficava, assim, prestando atenção em tudo que ela estava fazendo. Eu era muito curiosa. Em 15 dias eu consegui, assim, assimilar coisas que eles estavam fazendo. P/2 - Você foi contratada para exercer qual função? R - Só como farmacêutica do Aché, do controle de qualidade. P/2 - Farmacêutica do controle de qualidade. Já era o cargo de farmacêutica responsável? R - Não, ainda não. P/2 - O que fazia a farmacêutica do controle de qualidade? R - A gente analisava os produtos. Porque eu tinha um chefe, que era o Antônio Aloísio Russo, e então eu estava subordinada a ele. Eu só analisava os produtos. P/1 - Antes de ele ir para o mercado? R - Isso. Antes de liberar para a comercialização. P/1 - E como foi a tua primeira impressão do Aché? R - Fiquei encantada. Sabe, o Aché tem um encanto, que não dá para explicar. Eu acho que só você sentindo. Ele consegue cativar. Ele tem uma coisa, que eu diria assim: é como se fosse a sua primeira paixão, é como se você tivesse encontrado a tua outra metade. É algo que toca, assim, no fundo do teu coração e que você sente vibração positiva. É impressionante, é coisa que não dá para explicar. P/1 - Como é que era o Aché naquela época? R - Era pequeno, era... eu me lembro que o controle de qualidade era um pouquinho maior do que essa sala. Eu me lembro que tinha o almoxarifado, eu me lembro que tinha a embalagem, tinha a expedição, tinha a produção de sólidos, produção de injetáveis, produção de cremes, me lembro bem disso aí. Ele não era muito grande. P/1 - E o refeitório, por exemplo, o grêmio, tudo isso já existia? R - Não, o grêmio não existia, mas existia refeitório, que era terceirizado. Eu me lembro. A comida vinha de fora, a gente não fazia comida lá. P/1 - E você chegou a conhecer a Lúcia Aché nessa época? R - Não, eu não conhecia. Eu só conhecia pelas assinaturas que ela fazia. P/1 - E alguém comentava algo sobre a Lúcia Aché, a família Aché, você ficou sabendo alguma coisa? R - Sim, quem comentava comigo era seu (Valdemar?), que hoje está falecido. Ele trabalhava há muitos anos naquela empresa. Então ele comentava, falava a respeito dela. P/1 - O que se sabia sobre essa família Aché? R - Eu sei que o (Luís Felipe Aché?) foi o dono da empresa Aché, antes dos sócios comprarem, do seu (Vítor?), o seu Depieri, seu Adalmiro comprarem essa empresa. Então eu me lembro perfeitamente que ele era dono dessa empresa, lá em Ribeirão Preto. E que eles trabalham com hemoterapia, com vacina, dessa natureza. Eu lembro disso que eles falavam. E a Lúcia Aché era filha do (Luís Felipe Aché?). P/1 - Que trabalhou lá até quando? R - Como farmacêutica responsável, até 1975, no final de 75. Em janeiro de 76, ela morreu. Eu não conhecia mesmo, mas eu soube que ela morreu. Aí o que aconteceu com a empresa? Precisava de uma farmacêutica responsável. Não tinha nenhum farmacêutico naquela empresa, eu era a única. Aí chegaram em um consenso de que eu seria a farmacêutica. E em 26 de junho de 76 me contrataram como farmacêutica responsável, que eu ocupo até hoje. P/1 - Você lembra do convite? R - Lembro. Foi o seu Adalmiro que falou. Eu me lembro que foi o seu Adalmiro que... o seu (Vítor?) comentou com o seu (Valdemar?), o seu (Valdemar?) já tinha me dito, e seu (Miro?) falou que eu ia ser a farmacêutica responsável, juntamente com o seu (Vítor?) também, claro, e o (Toninho?) químico. P/2 - E o que você achou desse convite? R - Eu, no começo, eu fiquei meio assim, porque eu tinha recebido outro convite para trabalhar na Argentina, numa indústria cosmética. E eu falei: "Puxa vida, a Argentina está no auge. Que tal se eu for para a Argentina?" Mas aí os meus amigos falaram que era uma loucura minha fazer isso, que era preferível ficar no Aché. Inclusive o (Toninho?) também, achou que devia ficar no Aché. Eu acabei optando. E foi bom, eu não me arrependo jamais. P/1 - Você assume então quando, Emy? R - 26 de junho de 1976. P/1 - Você se torna... R - Farmacêutica responsável. P/1 - O que é a farmacêutica responsável? Que função é essa? R - A função dela é assim: ela é responsável pela qualidade dos produtos da empresa. Ela representa a empresa perante os órgãos fiscalizadores, seja estadual, seja municipal, seja federal. Ela mantém a empresa alinhada à legislação pertinente. A função basicamente é essa. Então, na verdade, a gente conhece a empresa como um todo, seja no controle de qualidade, seja na produção. P/1 - Naquela época qual era o processo todo? Você tinha uma ideia, você desenvolvia, fazia teste, registro? Descreve para mim um pouco esse processo. R - Eu, no início, só fazia análise de produtos acabados e de matéria-prima também. Eu só comecei... quando fui para a área de registro, foi depois, bem... não é muito tempo, está fazendo mais ou menos em torno de nove a dez anos, não é muito tempo. Eu fiquei chefe do controle de qualidade por um bom tempo, uns 12 anos mais ou menos. P/1 - Como farmacêutica responsável você tinha duas funções, é isso? R - A minha função principal era farmacêutica responsável, mas eu ficava no controle de qualidade chefiando, uns 12 anos mais ou menos. E depois é que eu passei para a área de registros, para trabalhar com registro de produtos, manter a legislação alinhada, informando para todo mundo. P/2 - Quando você se tornou farmacêutica responsável como é que era um dia típico de trabalho naquela época, Emy? Você saía... você morava onde naquela época? R - Morava na Brigadeiro Luís Antônio, travessa da Brigadeiro Luís Antônio. Hoje chama-se Adoniran Barbosa, né? P/1 - Aí você saía de casa e chegava lá cedo? Como é que era? R - Nós íamos de ônibus. Eu me lembro que eu pegava ônibus até a Estação da Luz, tinha que atravessar aquele Jardim inteirinho para pegar o ônibus para Guarulhos. Até me lembro da cor. Era verde claro com branco. P/1 - O ônibus? R - É. Vila Galvão. P/1 - E chegava no Aché que horas mais ou menos? R - Ah, chegava acho que era seis e pouco mais ou menos. Aí meu cabelo ficava sempre molhadinho, porque era frio de manhã, e úmido. Então você ficava com o cabelo tudo meio molhado. P/1 - E como era o trabalho na parte da manhã? O que era? R - Ah, gostoso, porque você estava motivado, você estava empolgado, você tinha propósito firme, estava com toda a garra, com todo gás. P/1 - Mas era um trabalho com papelada, como é que era? R - Não, é trabalho assim, é papelada também. Mas também você fazia a análise, na prática ali, dosar o teor da matéria-prima, do produto acabado, fazer todos os testes pertinentes à matéria-prima e ao produto acabado. Então é a rotina do controle de qualidade. P/1 - E como é o processo de um remédio dentro de uma indústria farmacêutica? Quer dizer, tem uma ideia, até ele ir para o mercado que caminho que ele percorre? R - A primeira coisa que tem que ser feita, o que você vai fazer? Primeiro você faz o teste, que o (Miro?) me disse. Você vai ver o que você... o marketing vai te dizer o que ele pretende lançar no mercado, o que é viável no mercado, se isso vai dar rentabilidade ou não. Então ele vai fazer uma pesquisa. Daí ele passa isso para desenvolvimento de produtos. Ele vai desenvolver, comprar matéria-prima, onde vai comprar matéria-prima, quais recipientes vão entrar, quais estágios têm que ser realizados, quais as coisas que têm que ser feitas, as condições. Depois de feito o esboço todinho, ele vai fazer um plano piloto, depois ele faz o teste de estabilidade, vê que o produto é viável, eles vão ver que condições que tem que ser armazenado esse produto, tem que ser acondicionado esse produto, seja em blíster, seja em frasco, e se for líquido se é vidro, se é frasco, âmbar ou incolor. Então isso, o desenvolvimento vai ter que ver tudo isso. Passa depois para a área de registros. O teste de estabilidade, as especificações, e você monta o dossiê que vai de dados gerais até a bula. Então o que é? Você seguindo o que é a instrução normativa número um, de 1976, que vai ser atualizada agora. Então são todos procedimentos, é processo normal. Você manda para o Ministério da Saúde, o Ministério da Saúde analisa tecnicamente, vê se ele pode ser indeferido ou não, ele publica no Diário Oficial da União. A partir do momento que for deferido e o marketing se interessar, aí faz todo o preparativo para lançamento do produto. Aí você prepara a arte final, faz a arte final do cartucho, a bula, se for na forma sólida você vai fazer o alumínio, se for na forma líquida você vai fazer o rótulo. E o texto legal normalmente somos nós que... na área de registro que determinamos. É nesse sentido mais ou menos. Basicamente. P/1 - E depois começa a produção? R - Depois... aí o marketing dá ok, acende o farol, o que você faz? Você vai acionar a produção. Aí eles vão ver o quanto que vai ser produzido. E você faz a escala industrial. O controle de qualidade entra para que? Para verificar se as explicações correspondem àquilo que foi elaborado, àquilo que foi solicitado. Se tiver em... se for aprovado, ele libera para a comercialização do produto. P/1 - E esse processo todo, ele mudou muito no decorrer dos anos, Emy? Ou desde que você entrou na empresa é a mesma coisa? R - É a mesma coisa. Ele não mudou, só aumentou a burocracia, a verdade é essa. Para mim, no meu ponto de vista eu vejo assim: aumentou burocracia só. Mas eu vejo, assim, também, de outro ponto de vista também, que com o advento do Código do Consumidor, a preocupação do consumidor aumentou muito mais do que antigamente. Então o consumidor exige muito mais dos produtores do que antigamente. Isso eu vejo. Desde que eu entrei, até nos dias de hoje, eu vejo que o consumidor se tornou exigente. Ele cobra por aquilo que ele paga. Ele exige a qualidade do produto. Pelo que ele paga. Então, nesse ponto eu vejo que o consumidor se preocupa com o que ele está comprando, ele exige qualidade do produto. P/1 - Quando é que surge o serviço de atendimento ao cliente, é mais recente? R - Não, já tem uns oito anos mais ou menos. Eu acho que o Código do Consumidor deve ter uns dez anos já. P/1 - Sem ser o Código do Consumidor, teve outras mudanças normativas nesses anos? R - Sim, porque o Ministério da Saúde, de uma forma geral o órgão governamental, cada vez que entra um dirigente ou um presidente, seja qual for, toda equipe muda. Quando muda toda a equipe o que acontece? Cada um quer mostrar o seu serviço. Aí eles criam novas portarias, novas resoluções, novos decretos, e assim sucessivamente. Se você olhar toda a legislação brasileira pertinente a medicamento, você vai ver que tem muita coisa que está incoerente. Não é uma coisa lógica, é uma coisa que está aqui, desdiz daquilo que está num outro decreto, quer dizer, não existe uma coerência. P/1 - E tem uma tendência de aumentar o rigor, ou isso não? R - Tem. Eu creio. Porque o consumidor exige, e principalmente no momento que estamos passando, com essa dengue. Uma coisa que você pensava que não existia está voltando. P/1 - E o Aché foi se adequando a esse aumento de exigências? R - Foi. Ele sempre... P/1 - Em que sentido? R - Criando _____de fabricação. (PAUSA) P/1 - Depois você ficou um tempo coordenando a área de controle de qualidade. Nessa época é que tem a aquisição da Parke-Davis? R - Sim. Antes era Novoterápica, era Bracco-Novoterápica, que depois passou a denominar-se Novoterápica. P/1 - Você lembra dessa época? R - Lembro. Eu me lembro que eu precisava analisar produtos como Digeplus, Vertix, tinha o (Signaneurin?), depois foi proibido porque a estrecnina estava proscrita no Brasil, tinha Novofer, tinha (Petisan?). Olha, tinha coisas assim para a gente analisar, que eu me lembro. P/1 - Deles teve algum que foi mais desafiador desses produtos? R - Não, não achei não. Eu acho que Parke-Davis foi pior, porque Parke-Davis eu não estava preparada, eu não conhecia os produtos, e não sabia quais as análises que tinham que ser feitas nos produtos. Quando o Aché adquiriu a Parke-Davis nós entramos de férias coletivas. Quando voltamos, encontramos todos aqueles arquivos da Parke-Davis, e a gente nem tinha noção do que seria, não tinha noção de quantos produtos seria a Parke-Davis, não tinha noção de quais as análises que íamos fazer nos produtos, não conhecíamos as especificações, a metodologia. Então para mim foi um desafio você analisar os produtos do Aché, mais o Novoterápica), mais da Parke-Davis. P/1 - Quais os produtos vieram trabalhar com a Novoterápica, você lembra mais ou menos? R - O Bracco acho que tinha umas 12 mais ou menos. E a Parke-Davis tinha bastante acho. Porque muitos que eles continuaram, né? Eu me lembro do (Peritacoaper?), que dava um trabalho para comprimir aquilo lá, eles devem ter falado, que ______, de duas camadas, uma verde claro e uma verde mais escurinho. Eu me lembro do ______, eu me lembro do (Takazima pó?), Mylanta Plus, seja na forma comprimida, seja na forma de suspensão oral. Tinha supositório de glicerina, Benadryl, tinha o Zarontin, (Repelin?), Sinutab, (Constan?)... P/1 - Mas eram produtos que já estavam sendo comercializados? R - Sim. E nós continuamos fabricando, analisando e comercializando. P/1 - Tinha que revisar todos os processos? R - Não, não é revisar os processos, eu não tinha conhecimento dos processos, então eu não sabia de nada. Você tinha que o que? Aprender. Verificar, treinar o pessoal. Então para mim foi muito, assim, como vou dizer? Em pouco tempo você assimilar tudo. P/1 - Mas se eram produtos que já estavam aprovados e sendo comercializados... R - Não, mas é que aprovados que eu digo é com a Parke-Davis lá no Rio de Janeiro, então você não sabia. Quando o Aché comprou, ficou um tempo no Rio de Janeiro. Quando passou para Guarulhos é que a gente... veio para nós. Então você produzia e analisava. Só que como é que, se você nunca teve contato com a metodologia deles, se você não conhecia nada deles, como é que eu vou, de uma hora para outra, vou analisar as coisas sem saber o que é, o que vai fazer, o que não vai fazer. Então eu tinha que assimilar em pouco tempo todos aqueles produtos. Você nem conhecia quais os produtos que tinha. Então para nós foi muito difícil. Foi muito trabalhoso. Depois das férias, então, piorou, mas conseguimos. P/1 - Quando tempo você ficou no controle de qualidade? R - Fiquei por 12 anos. P/1 - 12 anos. Nessa época teve algum produto mais marcante, assim, para você? R - Produto marcante? Me lembro, o Moderex, Somalium, (Energizan 2ml?), que o Aché produzia 1 milhão e 200 unidades mês. E tinha o Combiron drágeas, Sorine adulto, Colpistatin creme. São produtos que realmente marcaram para mim, foi uma coisa, assim, que você se orgulhava, dos produtos Aché. Porque o produto era bom, o produto tinha todas as características inerentes, ele estava dentro das especificações, que você estava comercializando um produto de qualidade. Então o consumidor estava sendo beneficiado com um produto ético, então aquilo me deixava orgulhosa, de você saber que uma empresa nacional começou pequena, crescendo. E eu me lembro perfeitamente, até o dia de hoje, ele começou a crescer com o Moderex, o Moderex vendia como se fosse água. Me lembro até da propaganda, um prato branco cortado no meio, com o comprimido branco do Moderex, e um prato, assim, de alimentos, fazendo a comparação. Era o auge. E o (Energizan?) também vendendo que nem água, então para nós aquilo... P/1 - Você acompanhava a produção, Emy? R - Eu não acompanhava a produção, mas quando dava problema eu ia lá na produção ver. Então aí, com o conhecimento farmacêutico, para você é mais fácil, você assimila muito mais fácil do que aqueles que não estão na área. Então para mim foi fácil, que eu estive envolvida também... você acompanha a dureza, a espessura, vê a desintegração, então você ia na produção, você questionava. Não era computador, era datilografia. P/1 - Como é que era essa ordem de produção? R - Você colocava o número do lote, o nome do produto, a quantidade fabricada, quais as matérias-primas que iam entrar, o código das matérias-primas, a quantidade, a unidade. P/1 - Era tudo datilografado nas fichinhas? R - Isso, umas fichinhas mesmo. P/1 - E hoje em dia como é que é isso? R - Agora é computadorizado, com sistema, diferente. P/1 - Depois do controle de qualidade você passou para qual área? R - Aí depois fui para a área de registro, fui trabalhar com o seu (Vítor?) ____, e na época estava a Marta Cressoni e a (Roberta?), só que a Marta Cressoni saiu, só ficou a (Roberta?). Então eu não tive orientação de como fazer o registro, eu fui aprendendo, porque eu sei que o seu (Vítor?) é um homem carismático, é um homem superinteligente, então eu morria de vergonha de perguntar para ele. Eu preferia mil vezes ler, aprender na marra do que ficar perguntando para ele. Foi assim que eu comecei. P/2 - Mas você acompanhou de alguma forma o nascimento de um produto junto com o seu (Vítor?) R - Eu acompanhei, eu nunca me esqueço do Cefalium. Eu sempre falo do Cefalium, porque o Cefalium tinha uma fórmula cuja composição continha Diazepam. E Diazepam é controlado, é psicotrópico, é tarja preta, então ele quis mudar essa fórmula, e conseguiu. Eu acho o seu (Vítor?) um homem super criativo, um homem que tem uma visão do futuro no mínimo de dez anos. Ele sempre projetou os produtos nesse sentido, ele sabia que ia dar certo, sabia que ia conseguir conquistar o mercado. Eu admiro, tenho uma admiração por ele nesse sentido, dessa capacidade, dessa inteligência cultura, desse senso que ele tem. E eu me lembro do Cefalium assim, que ele falava para mim: "Emy, eu conversei com o doutor Rafael e ele disse que toda pessoa que sente dor de cabeça causa náusea. E nada melhor do que você colocar um cloridrato de metoclopramida." E ele pegou o cloridrato de metoclopramida dele, que eu me lembro que era uma capa marrom, e pediu para eu levar para a sala dele. Levei, em questão de minutos, ele falou assim: "Você coloca dez miligramas no comprimido." E nós fizemos o relatório, mandamos para Brasília, ele foi deferido. P/1 - E como ficou no final? Ele não tinha aquele produto inicial, né? R - Não, ele melhorou o produto, inovou o produto original, e ficou esse produto que existe até hoje no mercado. P/2 - Como é que ele chegou à conclusão dos dez miligramas? R - Porque ele olhou no ______dele. Ele ficou aqui no ______dele e falava a dosagem ideal. P/1 - O que é ______? R - ______é livro, é especificação, aprovado, conhecido a nível internacional. P/1 - O que você acha que causou o sucesso dos produtos do Aché, Emy? Porque não eram pesquisas próprias. R - O sucesso dos produtos do Aché é pela inovação, eu acho. Ele podia copiar, mas que ele inovava alguma coisa inovava sim. Essa inovação, essa criatividade que existe nas pessoas da empresa é que fez o produto tornar-se diferente no mercado. O Aché tem um potencial que se chama criatividade. Existem talentos na empresa que você nem imagina. E esses talentos a empresa soube buscar, soube projetar, e esse sucesso da empresa deve exatamente ao comportamento dessas pessoas todas. Porque eles têm garra, eles não têm o que a multinacional tem, aí o que ele vai fazer. Ele não tem todo aquele recurso da multinacional. Mas ele tem uma coisa que se chama garra, a persistência, acreditar naquilo que está fazendo. Ele supera as dificuldades, ter criatividade, é gostar daquilo que está fazendo. Isso faz com que todas as coisas caminhem para um único objetivo, é fazer do produto o melhor. P/1 - Sem ser o exemplo do Cefalium você lembra de algum outro, assim, que foi uma inovação interessante? R - Deixa eu ver. Eu acho o Notuss. O Notuss, ele tinha uma fórmula chamada NyQuil, dos Estados Unidos. Só que existia uma substância, que era a fenilamina, que era controlada no Brasil. A, desculpa, não era a fenilamina, tinha uma substância que eu não me lembro agora, mas era controlado no Brasil. Então, puxa vida, um produto de tosse controlado aqui no Brasil não tem mercado. O que vamos fazer? Ele falou assim: Vamos mudar essa formulação, Emy." Ele pediu, ele mesmo mudou toda a formulação. Na verdade, ele inovou o produto NyQuil, que era da Vick. Inovou esse produto, e transformou em Notuss. E ele deu essa marca Notuss exatamente "tosse da noite". Porque você toma esse medicamento, causa certa sonolência, então é melhor tomar durante a noite. Foi isso que ele fez. Então eu acho que é um produto inovador que também deu certo. Que também foi um sucesso para a empresa. E é até hoje. P/1 - E esse trabalho na área de registros, como era especificamente esse trabalho? R - Eu fazia os relatórios, todos os relatórios, todo aquele processo, dossiê do produto. Eu fazia relatório técnico, nós reuníamos materiais bibliográficos, através da ____na época. P/1 - Junto com o Departamento Médico-científico esse trabalho? R - Não, separado. Quando eu entrei na área do seu (Vítor?), na área de registro, ele não estava subordinado a nenhum departamento, era diretamente ligado a ele. E até nessa época que eu estava lá ele começou a se interessar pelas plantas fitoterápicas. E onde que nós fizemos um contrato com a USP e depois com a Unicamp. Com a Unicamp foi com relação a _______, que nós importávamos da Itália. Aí o que acontece? Ele quis que tornasse um produto nato do Brasil, e foi a Unicamp que conseguiu desenvolver. E com a USP eles começaram com a erva baleeira, nós começamos a fazer pesquisa com eles... P/1 - Que época mais ou menos? R - Eu não me lembro não, só olhando. P/1 - Década de 80? R - Não. Foi depois da Parke-Davis, foi em 1986, por aí. Não foi tanto tempo assim. P/1 - E você ficou quanto tempo no registro? R - Fiquei até o ano passado. Aí foi só que foi mudando a diretoria, diretores... eu tive muitos diretores. P/1 - E teve alguma mudança grande na organização do trabalho, no tipo de trabalho na área de registros, ou não? Ou é a mesma coisa? R - Não, não é a mesma coisa, aumentou o trabalho, por causa da burocracia que eu falei para você. Mas se você olhar a legislação, desde que existe é daquele jeito. Só que, dependendo do governo, você pode apresentar determinada documentação, no outro governo você precisa apresentar outra documentação, torna-se simplório. Cada época, cada gestão governamental você tinha um procedimento. Mas no fundo é a documentação que exigia desde a época quando existia serviço na Associação de Medicina e Farmácia, que é no Rio de Janeiro, quando a capital brasileira era no Rio de Janeiro. Então, eu não vejo falar assim: "Mudou muita coisa." O que eu vejo é assim, divergência de certas coisas, que fala uma coisa aqui e lá, existe uma incompatibilidade, você não entende essa falta de senso deles. P/1 - Ao mesmo tempo a empresa foi crescendo, né, Emy? R - Foi, barbaramente. Eu acho que explodiu de uma forma. Não passou aquela fase de pequena, média, grande empresa. Eu entendo que ela passou de pequena, deu um salto muito alto, e principalmente por ser uma empresa nova. Por ser uma empresa familiar. Então o salto foi muito grande. Então você viu todo esse sucesso deles. É nesse ponto que se admira, então você vê as cabeças, as pessoas que trabalharam nessa empresa, que trabalham nessa empresa, fizeram dessa empresa a melhor, a maior da América do Sul. P/1 - Queria que você contasse um pouquinho do ambiente além da sala de trabalho, o ambiente dos corredores, do refeitório. Como era esse dia a dia do Aché? R - Você acabou de ver agora, que nós somos unidos, é uma amizade muito sincera, muito profunda. Não sei se você sentiu isso com a gente agora. Nosso papo não é de trabalho, durante o almoço, na saída, nos corredores. Nós gostamos de conversar de coisas, assim, ou da pessoa, da família, ou as coisas do dia a dia, que passa na televisão, o que acontece. P/1 - Tem um ponto de encontro da mulherada lá no Aché? Era no restaurante, era no jardim? R - No começo era nos jardins da empresa, e também no banheiro, nas toaletes. Depois é que a gente foi se distanciando um pouquinho, porque foi expandindo demais, então você não tem tempo de encontrar com a turma. E primeiro porque o horário das refeições é diferente. P/1 - Na hora do almoço dá uma volta no jardim, é isso? R - Damos, damos volta no jardim. P/1 - Naquela época que você falou? R - Não, na época não, o jardim era pequeno, não era que nem agora que você pode passear à vontade. Na época era pequenininho. P/1 - Na hora do almoço o pessoal se encontrava? R - Se encontrava, principalmente nas toaletes. A gente gostava de contar novela. Adorava falar da novela! P/1 - Do capítulo do dia anterior! R - Exatamente. Era uma delícia. E até hoje continua, só que a gente não tem muito contato, é um pouco distante. P/1 - E tinha umas festinhas boas, Emy? R - Tinha. P/1 - Tinha algum lugar que vocês se encontravam, barzinho, restaurante? R - Eu ia com a (Marli?), com algumas colegas, lá na Estação da Luz, a gente adorava ir comer pastel lá, brotinho, pastel. Eu não sei se a (Marli?) vai lembrar, mas a gente comia brotinho e pastel. P/1 - Brotinho era pizza? R - É uma pizza pequenininha, a gente chamava de brotinho. P/1 - Depois do expediente isso? R - Sim, depois do expediente. E muitas e muitas vezes eu ia na casa da Marli para gente andar na casa de todo mundo, visitando. Conversar com todo mundo. A gente ia na casa do Roberto, a gente ia na casa do Carlão, a gente ia na casa da Cida. P/1 - E o pessoal morava perto? R - Próximo um do outro. Quer dizer, não próximo, mas quase no mesmo bairro. A gente pegava o ônibus ou ia a pé... P/1 - Que bairro era esse? R - Imirim. Que eu me lembro era Imirim. A gente começava a passear por aí, pegava o ônibus e ia, numa boa, achava uma maravilha. A gente também fazia excursão, eu me lembro que a gente foi em Campos do Jordão. A gente organizava excursões, organizava passeios pequenos, era muito unido. Dentro do ônibus todo mundo se sentava, conversava, era uma bagunça só. P/1 - Ônibus do dia a dia? R - É, depois o Aché colocou um ônibus para a gente, um micro-ônibus, quer dizer, na época não era micro-ônibus, mas era menor, para nós. P/1 - Que ia de onde até onde? R - Do Aché até o Imirim. Então passava a Dutra aí, a Dutra não era essa grande avenidona que você está vendo agora. Era só de... era uma pista daqui, uma pista do outro lado, que eu me lembro. P/1 - Aí aproveitava a viagem para colocar a conversa em dia. R - Não era conversa em dia, era para a gente ficar conversando com as pessoas, com os pais das pessoas, era mais para conhecer, para conviver o dia a dia. P/1 - Mas ia todo mundo no ônibus? R - Você fala o que? O ônibus da escola ou quando a gente estava passeando sábado e domingo? P/1 - Não, no ônibus, esse do Aché, que você falou que tinha bons papos no ônibus do Aché. R - Ah, mas era de brincadeira, era coisa de brincadeira. P/1 - Isso dos pais, isso quando? (PAUSA-interrupção da fita)... Então, Emy, você estava dizendo dessa convivência com os colegas de trabalho. Então no fim de semana um ia para a casa do outro? R - Exatamente. Só não ia na a minha casa porque eu morava com a família, que é a irmã da minha falecida madrinha. Então eles não gostavam muito, eu evitava. Eu preferia mil vezes ir à casa dos outros do que trazer confusão para o meu lado. Mas foi uma convivência gostosa. (PAUSA-interrupção) P/1 - Em relação aos produtos você queria completar? Algum outro caso, algum outro exemplo? R - Eu me lembro que... para você ver como o doutor (Vítor?) era arrojado, me lembro que uma vez ele me pediu para fazer 25 relatórios de produtos diferentes, em 15 dias. E conseguimos, com a colaboração de todo departamento, sem ser o meu, os demais, marketing, treinamento, nós conseguimos montar em 15 dias e protocolar no Ministério da Saúde. E a outra vez, isso já foi na gestão de outro diretor, me pediram para montar 44... antes das patentes... 44 relatórios. Em pouco tempo nós conseguimos fazer também. Acho que nem um mês não levou. Nós conseguimos também protocolar. P/1 - Você ficou no registro até quando? Até recentemente? R - Até junho de 2001. P/1 - E aí você assumiu qual cargo? R - Junho não, abril, maio de 2001. Agora só estou como farmacêutica responsável só, e eu cuido também de algumas causas, toda a parte de fiscalização é comigo. Quando vai fazer certificação, na renovação de certificação, ______para fabricação também eu cuido. Cuido também de importação de produtos controlados, cuido também daquela parte de constatação dos produtos controlados, a cota anual dos produtos controlados, autorização de importação. Cuido também de, por exemplo, todos aqueles que têm laudo analítico, que tenha minha assinatura, que o farmacêutico responsável tem que assinar, aí eu checo, vejo, depois assino para poder enviar. Quando se trata com a vigilância sanitária, assim, toda a parte é minha, vigilância sanitária propriamente dita. Ah, eu queria lembrar uma coisa também que é muito importante que eu acho, que o Aché é o primeiro laboratório farmacêutico da América Latina que introduziu o braile nos cartuchos, e o primeiro produto foi com o Candicort creme. Quer dizer, o Braille foi muito importante por quê? Porque a empresa foi a primeira que se preocupou com os portadores de deficiência visual. Então o Ministério da Saúde elogiou a nossa atitude e pediu que as outras empresas também acompanhassem aquilo que nós fizemos. Eu nunca me esqueço dessa história. E o código de barras também, em 1996 nós introduzimos o código de barra, nos produtos... aqueles de venda livre, o Cefaliv, Capel, Caladril loção, (Menarel de pastilha?) e Agarol. P/1 - E o código de barras é importante para que? R - Para identificar o produto, para identificar o laboratório, e tem o dígito de... _ verificador e isso vai facilitar o que? Para que, na cadeia de produtos farmacêuticos, quando você for enviar para a distribuidora, com esse código de barras, ela pode identificar o produto, a concentração, a apresentação do produto, e ele pode ter um preço que chega lá no balcão... ou mesmo quando for mandar para a farmácia, não precisa checar um por um. Pelo código de barras você sabe qual é o produto, quanto você tem no estoque, qual o preço deste produto, facilita, é um facilitador. P/1 - E com relação ao código Braille você lembra qual foi a reação do mercado, teve alguma reação? R - Teve. Nós tivemos elogios. Uma empresa que se preocupou com os portadores deficientes visuais, nós recebemos elogios. Inclusive eu acho mais importante que foram de duas pessoas que têm a deficiência e mais o órgão governamental. Eu achei fundamental, importante para a empresa, você se preocupar com o lado humanitário. P/1 - E hoje, Emy? Conta como é um dia típico de trabalho teu atualmente? Você está morando aonde? R - Continuo morando em São Paulo mesmo, na Vila Mariana, no mesmo lugar. P/1 - Você sai de casa que horas? R - No mesmo horário de sempre, antes da sete, para chegar às sete e meia. Só no dia de rodízio que eu saio mais cedo, que é segunda-feira. E chego lá, vejo os e-mails, faço aquela parte que me cabe, leio os diários oficiais, se tiver alguma coisa na Internet, eu vejo, contato as vigilâncias sanitárias. E a gente tem um bom relacionamento, graças a Deus, com as vigilâncias sanitárias locais. Eles orientam muito, eles nunca vêm com espírito fiscalizador, mas sim com espírito de orientação. Então a gente conseguiu criar um clima, um ambiente, e isso é muito bom, a relação da gente é muito boa. P/1 - Depois tem o almoço? R - Não, nem sempre. P/1 - Não almoça lá no Aché? R - Quem? P/1 - Você. R - Ah, eu sim. Pensei que os fiscais. P/1 - Não, você. R - Eu almoço no Aché, por sinal muito boa. Acho que há muitos lugares que não tem o que nós temos. O que o Aché trouxe de benefício, muito: restaurante, CDI... mais o que?... escola, educação, assistência médica eu acho importante, mesmo assistência odontológica, as pessoas de baixa renda podem fazer na empresa, carro para a gente, ajuda de custo, livros, para você comprar material escolar também, você tem 10% de desconto. Então o Aché, ele olha muito para o lado social, para o bem-estar dos funcionários. E isso você melhora o que? Qualidade de vida dos funcionários. E se você tem uma qualidade de vida boa, o que você espera da pessoa? A pessoa vai produzir muito mais, a pessoa vai se interessar muito mais, a pessoa vai estudar, vai fazer o melhor para a empresa, não é verdade? Não é assim que a gente encara? É isso que eu vejo na empresa. Eu acho que são poucas empresas que têm o que o Aché tem, que fazem pelos funcionários, é se preocupar com os funcionários. P/1 - Qual o teu sonho para o Aché, Emy? R - Nesse processo de reestruturação, de profissionalização, eu espero que a empresa não esqueça dos talentos que existem lá, que eles consigam conciliar os talentos da casa com as novas ideias, com os novos profissionais. E dessa conjunção, dessa somatória, formar uma força que possa extravasar para o mercado externo, para que a empresa, genuinamente nacional, seja conhecida pela política de bem-estar do funcionário, que preserva a vida humana, e que se preocupa também com a qualidade do produto, dando o melhor, comprando os melhores equipamentos, construindo uma nova empresa, uma nova fábrica, preocupando-se com que esse produto saia com a melhor qualidade possível. Quer dizer, querer extravasar dentro do mercado interno, mais o mercado externo, mostrar que no Brasil existem empresas que merecem confiança, que merecem crédito, que merecem respeito. É esse ponto que eu quero que aconteça na empresa. Porque nesse mundo globalizado pode acontecer o que quiser, mas se você tiver essa postura de acreditar, de confiar, de fazer o melhor, de você gostar daquilo que você faz, não há nada na Terra que possa destruir uma empresa. Você consegue reerguer a empresa, você consegue superar as dificuldades, você consegue mostrar ao mundo que no Brasil existe empresa capacitada, uma empresa respeitada, uma empresa que concorre a qualquer nível internacional. Mesmo aqueles que têm condições, mesmo aqueles que têm pesquisas, nós conseguimos superar, eu acredito nisso, eu confio muito nisso. P/1 - E como é que isso se cruza com a sua vida pessoal, Emy? Hoje que outras coisas você gosta de fazer, que você se dedica? R - Eu gosto muito de ajudar as pessoas. Eu gosto, por exemplo, de transmitir sempre às pessoas pensamentos positivos. As pessoas que estão com problemas eu nunca encaro como problema, eu sempre achei que não existe ninguém infeliz, quem faz a infelicidade somos nós mesmos. Que devemos acreditar naquilo que a gente é capaz. A gente tem que confiar na gente, a gente tem que acreditar, a gente tem que entender que todos nós somos felizes, basta acreditar, basta confiar, basta crer, basta ter fé, basta ter garra. Porque a única coisa que eu acho que não resolve é a morte, mas o resto eu não vejo dificuldade. Então você tem que confiar, tem que passar essa energia positiva para as pessoas. Você não pode instigar as pessoas a irem mais para baixo, pelo contrário, tem que levantá-las, fazer acreditar que você é capaz, que você é importante, em todos os sentidos. Importante para mim não quer dizer que você seja um profissional importante, não é isso, você é importante como ser humano, como pessoa. É isso que eu gosto de passar. Eu nunca consigo passar... uma pessoa fala: "Eu estou doente." Eu falo assim: "Você não está doente, você vai ficar bom. Nós vamos dar uma força para você, você vai se recuperar, você acredita que você vai ficar bem." Sabe, eu gosto dessas coisas, eu gosto de fazer esse trabalho. P/1 - Você faz algum tipo de trabalho social? R - Eu faço nesse sentido. Eu faço, assim, ajudar as pessoas que estão drogadas, a tirá-las dessas drogas, sair dessas drogas, mostrar que essas drogas não vão levá-las a lugar nenhum... P/1 - Aonde você faz esse trabalho, Emy? R - Existe uma comunidade, e a gente vai nessas comunidades e tenta passar essa mensagem positiva. São pessoas que estão, assim, que entram em depressão, é horrível. Eu nunca passei por isso, mas também não sabia que era assim, uma coisa muito triste. Então você levanta o astral da pessoa, você faz a pessoa acreditar em você. Porque se você não acreditar em você, não adianta nada. Você tem que acreditar em você. Então eu gosto desses negócios. Além disso, eu também gosto de cuidar de plantas, eu gosto de ajudar a minha família, de cuidar das minhas irmãs. Porque a filosofia japonesa é assim: a filha ou o filho mais velho tem que cuidar daqueles outros menores. P/1 - Todos eles moram onde? R - No Rio de Janeiro. P/1 - E você vai lá muito? R - Eu vou, sempre que eu posso eu vou, a gente procura ajudar o máximo possível. E meu sonho é fazer com que a minha mãe viaje para o Japão ainda. Porque ela deseja. Meu pai já não quer. Mas a minha mãe deseja. Isso eu quero fazer, e eu vou conseguir fazer, porque eu acredito nisso. P/1 - E você vai com ela? R - Não, ela vai com outras pessoas. Esse desejo eu quero fazer. Então, por exemplo, ao meu pai, para minha família, todo ano eu dou viagem para eles. Meu pai conhece o Brasil inteiro. E a minha mãe também está conhecendo o Brasil inteiro, minhas irmãs também, meus cunhados. Então eu fico feliz de ver a família feliz, a família satisfeita. Porque se você não unir a família, não ver união na família, se houver desagregação na família, você não é nada. Você depende dessa união, dessa força, porque com essa energia positiva você consegue passar isso para as pessoas. Isso que contagia. É o que está acontecendo no Aché. Porque o Aché é isso, uma pessoa contagia a outra. Essa energia positiva que existe vai contagiando as outras pessoas. Isso é fundamental na vida da gente, qualquer coisa a gente consegue superar, não tem obstáculo para a gente. P/1 - E como é que você imagina a sua aposentadoria, Emy? Vai voltar para o Rio? R - Não, todo mundo tem uma coisa que eu acho errado. O pessoal fala em aposentadoria, pensa logo em pendurar a chuteira. Eu acho isso errado. Eu acho que as pessoas têm que ter sempre um sonho, um objetivo. Porque se você não tiver um sonho, um objetivo, você morre. O ser humano morre por causa disso, então o ser humano não pode pensar assim. Se você terminou a sua carreira de farmacêutica, você vai fazer outras coisas que te agrada, te satisfaça. A sociedade exige isso, a sociedade pede isso. Quantas coisas você tem que fazer? Quantas coisas você pode oferecer? Então a gente tem que procurar isso, mas quem vai procurar não são os outros, nós é que temos que buscar. Assim que eu penso. P/1 - E seu sonho é fazer o que depois? R - Ah, eu tenho tanta coisa, se você soubesse... eu ainda tenho tanto sonho, tantos projetos, que eu ainda estou assim pensando para ver qual deles eu vou tomar. P/1 - Dá um exemplo. R - Mas eu vou conseguir fazer. Um exemplo, como assim? P/1 - Um exemplo desses sonhos todos? R - Mas eu não posso falar ainda porque está tudo em projeto. A hora que se configurar, aí eu posso dar um toque. Mas uma coisa é certa. Eu acho que a gente não pode pensar a aposentadoria como um fim de tudo, o trabalho tem que continuar. O que mantém vivo as pessoas são os sonhos. O trabalho, ele faz com que você mantenha a mente ativa. Se você não mantiver a mente ativa, as células morrem. P/1 - Acho que você herdou isso do seu pai? Você herdou isso dos seus pais? R - Eu acho que sim. Eu gosto de passar pensamentos sempre positivos, eu nunca penso no lado negativo. Se falar: "Mas tem não sei o que..." Eu falo assim: "Tudo se resolve. Vamos analisar. Vamos ver." Então eu acho importante no ser humano é isso. Quando eu for abrir a boca por qualquer coisa, penso primeiro. Ninguém é mau, ninguém nasce mau. O que pode talvez estar errado são as atitudes das pessoas, mas você pode ajudá-las a mudar, mostrar onde está o erro. Custa ajudar? Não. Isso é grátis, é a coisa mais banal do mundo. Transmitir uma coisa positiva para as pessoas faz bem, você levanta qualquer astral. E a sociedade precisa pensar nisso, porque evita esses drogados, essas coisas que estão acontecendo hoje o que é? É falta de entendimento, falta de diálogo dos pais, dos irmãos, das irmãs, dos filhos, é isso que está faltando. E isso é a coisa mais simples do mundo. P/1 - A gente já está chegando ao fim, Emy, eu queria fazer uma última pergunta. Eu queria saber o que você achou dessa experiência de ter contado um pouquinho da sua história? R - Eu fiquei bastante honrada e muito feliz, por fazer parte da história da empresa, porque jamais isso passou pela minha cabeça. E por outro lado eu me sinto um pouco constrangida porque eu nunca fui de contar vida pessoal. Isso é uma cultura japonesa. Então a gente às vezes se sente constrangida, e eu no final eu até me empolguei, [risos] passei umas mensagens, assim, eu não sei se isso vai de interesse ou não, eu não sei se isso é importante. Mas é que eu não gostaria que todo mundo tivesse, sabe, esses pensamentos medíocres, eu queria que todo mundo tivesse pensamento positivo, acreditar e gostar da gente mesmo, e passar sempre mensagem positiva para todo mundo. Porque aí você cresce. Fazer parte da história da empresa, isso é bom, não resta a menor dúvida, para mim foi muito importante, fiquei feliz por isso, por ter sido convidada, porque eu não esperava isso, eu nunca esperaria isso. De poder contar do meu pai, que por exemplo ele faz parte da história da agricultura, tanto é que ele foi... o depoimento foi também no Globo Rural, na Manchete Rural, foi na TV Manchete, TV Cultura, foi nos jornais. Quer dizer, é importante, as universidades que respeitam ele. Ele conseguiu isso, eu também consegui. Mas isso não significa dizer que isso é orgulho para nós. Isso é uma satisfação que a gente tem dentro da gente, de você saber que você pode. Não é porque meu pai tem uma perna que não é normal que ele não consiga fazer. Ele mostrou a força que pode existir dentro da gente. Por que todo mundo não pode ter? Claro que todo mundo pode ter. Então você conseguir passar isso para todo mundo, e falar para essas pessoas novas do Aché, que continuem lutando, acreditem que um obstáculo não significa o fim de tudo, que você consegue transpor, você consegue se tornar um profissional, e principalmente um profissional competente, com algo mais, pô, o mundo vai bem. Eu penso assim. Não é verdade? P/1 - Muito obrigada pela participação. FIM DA ENTREVISTA
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