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História

Eu profissionalizei a minha militância

História de: Léo Voigt
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2015

Sinopse

O cientista social Léo Voigt fala sobre a origem alemã de sua família, relembra momentos da infância, seu envolvimento com as escolas onde estudou, sua passagem pelo movimento da juventude, em Porto Alegre e sua militância política. Bacharelado em Sociologia e Mestre em Ciência Política, Léo conta que pôde colocar em prática tudo o que aprendeu no meio acadêmico, através de trabalhos voltados para políticas públicas e seu engajamento em questões voltadas para a sustentabilidade.

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História completa

Eu nasci em Porto Alegre em junho de 1959. O pai chama-se Adroaldo José Voigt. Ele nasceu na cidade de Estrela, na zona rural, na colônia alemã. A mãe nasceu em Santa Clara, que era distrito do município de Lajeado. Ela se chama Erna Marina Voigt. Eles se conheceram na cidade de Estrela, eram jovens razoavelmente bem sucedidos, a minha mãe já trabalhava porque era de uma família muito pobre, o meu avô morreu muito cedo, então os sete filhos tiveram que ir trabalhar pra sobreviver. E o meu pai era um jovem que podemos chamar de pequeno burguês, de uma vida muito aventureira e muito sapeca, tanto que houve muita resistência de que a minha mãe namorasse ele porque a minha mãe era filha de uma viúva com sete filhos, pobre, e isso era um risco. Houve uma série de advertências, mas acabaram aprovando o namoro e o vigário da paróquia também não obstaculizou. E isso virou logo um casamento.

Na minha infância tinha a turma da rua, que se dividia; era turma pertencente a dois colégios que eram bem próximos, que era um colégio público, Souza Lobo, e o outro colégio era o colégio privado Santa Família. Os alunos dessas duas escolas que moravam naquelas quadras ali próximas do Souza Lobo eram a nossa turma de rua. E era uma turma muito consistente, sempre a mesma, muito amigo, os pais se conheciam todos e a vida se dava na rua. A gente brincava de esconder, de pegar. No novo bairro, quando eu vou a partir dos sete anos, as brincadeiras eram mais de guris, sempre tinha futebol, muita sela e taco. A primeira coisa que eu idealizei na primeira infância era Medicina. A segunda foi ser padre, até porque eu sou sobrinho de um padre, o meu nome, inclusive, é herança desse tio. Depois, o meu grande sonho era ser oceanólogo, tanto que eu cheguei a prestar vestibular depois, aos 18 anos, para oceanologia em Rio Grande, e cheguei a ler uma enciclopédia inteira sobre Oceanologia. Eu não passei no primeiro vestibular, mas eu já tinha uma forte influência dos movimentos de juventude da igreja católica de fazer militância juvenil, política, social e eclesial, e foi aí que eu decidi fazer Sociologia. E de fato eu acertei porque eu gostei desde o primeiro dia. Fiz Bacharelado e Licenciatura e depois fui automaticamente aprovado pro Mestrado em Ciência Política. Eu realmente me realizei como sociólogo e trabalho nessa área. Eu profissionalizei a minha militância.

Eu comecei com o movimento de juventude aos 14 anos. Em Porto Alegre surgiu um dos mais sólidos movimentos de juventude organizado por um pool de cinco congregações religiosas à esquerda. A noção nossa de que evangelizar não significava converter espiritualmente, significar engajar na vida prática. Eu fui metalúrgico e sou fundador da Oposição Sindical Metalúrgica de Porto Alegre. Nós éramos católicos esquerdistas que pregávamos a resistência à ditadura e que estávamos dedicados à rearticulação partidária. Tanto que o nosso movimento acaba quando há rearticulação partidária. Porque nós nos dividimos, o grupo que vai para o PMDB e o grupo que ajuda a criar o PT. E essa divisão gera uma briga entre nós e acaba o movimento de juventude.

O primeiro colégio que estudei é um colégio de freiras franciscanas, é o Colégio Santa Família. E pro meu pai a educação nunca foi uma prioridade, sempre foi uma obrigação. Até que a minha avó, a mãe do meu pai, que era uma alemã muito sabichuda e que eu tenho uma gratidão muito grande a esta avó, chamou a atenção do filho dizendo: “Escuta, tu vai deixar teu filho num colégio de periferia, desqualificado?”, e meu pai obedeceu. E aí fui pro melhor colégio da zona norte de Porto Alegre e ali tive o desabrochar da vida, eu participava de coral, passei a ter uma rede de relações fora do pequeno mundo e da localidade do bairro, aquilo ali me colocou num mundo muito mais dinâmico. Quando eu termino a quarta série ginasial, o meu pai decide que eu deveria deixar o colégio e ir trabalhar. E como eu queria continuar a estudar ele me colocou num colégio à noite. Eu comecei a trabalhar aos 14 anos no Makro Atacado, depois na Forjas Taurus, uma fábrica de armas, em Porto Alegre. Neste período nós fundamos a Oposição Sindical Metalúrgica e aí eu fui demitido. Mas uma outra metalúrgica me contratou, que foi a Wallig. Dali eu fui pra universidade e fui convidado por um professor pra ser técnico científico da UFRGS. Eu acabei a universidade de Sociologia e imediatamente entrei no mestrado, que foi sobre a formação do PT. Desde o início, quais são as matrizes ideológicas, como nasceu o PT e qual a característica que ele tem, faço uma análise das características do PT.

Depois do meu mestrado aconteceu uma super virada na minha vida, eu perco, inclusive, os vínculos tão esquerdistas assim. Um professor meu de Ciência Política se aproximou de um grande líder empresarial do Rio Grande do Sul que era um cara que desejava ser governador do estado, um cara que estava fazendo carreira dentro do mundo empresarial, entrou na política dentro do PMDB e queria ser o sucessor do governador Simon. Um dos parceiros que ele junta é esse meu professor. Ele recebe o pedido desse candidato: “Não era o caso de pegar um jovem cientista político e botar aqui dentro e ele crescer com a gente?”. E o meu professor disse: “Vou pegar um cientista político lá que está fazendo mestrado na UFRGS”. Entre tantos alunos me convidou, eu aceitei o convite. E aí o que acontece? Eu vou trabalhar no Banco Meridional durante dois anos vinculado a este grupo político que é do PMDB.

Depois fui convidado a ser o sucessor do presidente da Cruz Vermelha do RIO Grande do Sul, o Luiz Octavio Vieira. Isso foi um grande sucesso, porque era um jovem, eu tinha 28 anos, com um discurso progressista, com formação na universidade federal, cercado de médicos e de militantes na área de álcool e drogas. Isso me deu uma grande legitimidade a ponto de, em seguida, me tornar diretor da Fundação Maurício Sirotsky. Quando a RBS entrou numa crise com a sua fundação, a dona Ione Sirotsky, que é a mãe da família, disse: “Eu conheço aquele cara que preside a Cruz Vermelha. Esse cara aqui tem esse potencial”. E aí a empresa me contrata como consultor durante um ano e ao final de um ano me contrata como diretor. Lá, a gente financiou alguns projetos de galpões de reciclagem. O que eu me tornei ao final dessa transição, foi não só um intelectual da área das Ciências Humanas, mas também um executivo de organizações.

Quando eu fui pra RBS o tema só mudou, mas eu era executivo de políticas de proteção à infância e juventude. Fiquei dez anos na RBS e depois outros dez anos na Vonpar, que é a Coca-Cola local. A Vonpar pede uma consultoria para montar a sua fundação, até que um dia que eles perguntam: “Qual é o tema que tu acha que a gente tem que trabalhar?”. Eu disse: “Eu sou que nem psiquiatra, quem dá a resposta é tu. Eu crio a circunstância, mas o insight tem que vir de vocês”. O presidente da empresa disse: “Se tu estivesse no meu lugar o que tu faria?”. Eu disse: “Olha, não tenho nenhuma dúvida que eu investiria no sistema de reciclagem, na inclusão de catadores, no desenvolvimento desses sistemas populares tão marginais e empobrecidos, de resíduos”. Ele respondeu: “Mas nós fizemos projetos de sustentabilidade”. Eu disse: “Eu acho que vocês deveriam fazer um projeto de inclusão produtiva de populações vulneráveis através do fomento ao desenvolvimento econômico e social de populações empreendedoras populares como impacto ambiental, porque vocês vão reduzir o volume. Mas o foco de vocês não é sustentação, não é ambientalismo, o foco de vocês é fomento econômico”. Aí ele me convidou pra ser o diretor do novo instituto. Eu achei mágico esse negócio de fazer as pessoas tirarem do lixo a sobrevivência. E vi que se tu desse alguns insumos básicos aquilo deixaria de ser uma renda marginal e passaria a ser uma renda digna, basta atender alguns pré-requisitos. E isso que eu exercitei na Vonpar, eu peguei esse pressuposto: nós temos pouco dinheiro, o que a gente vai fazer? Vamos botar na dignificação que signifique aumento de produção, que se aumentar a produção aumenta o dinheiro no bolso. Eu digo sempre: nós é que somos marxistas porque nós somos economicistas, sobretudo, nós acreditamos que a geração da mudança se dá pela conquista material.

A coleta é uma atribuição pública paga por meio dos impostos pela prefeitura, isso tem que ser contratado pela prefeitura, seja fazendo por cooperativas populares, seja por empresas privadas. A prefeitura tem que fazer a coleta seletiva, é um dever público do Estado e tem que entregar esses materiais gratuitamente nas unidades populares de triagem. As unidades populares de triagem não podem mais ser amontoados artesanais, com resultado pobre e mantendo todos eles na pobreza. Tem que ser unidades populares de empreendedorismo. A primeira coisa é isso: é dividir a catação como atividade pública entregue a domicílio e de forma subsidiada. Dois, a triagem é um negócio minimamente profissionalizado, não mais artesanal, e sim manufaturado. Assim que isso está organizado e tem uma cooperativa você já pode começar a colocar tecnologia, seja esteira, seja fazer ele parte de um sistema de beneficiamento desses materiais.

Quando saí da Vonpar eu reuni as pessoas que eu conheci lá e propus da gente formar uma cooperativa e criamos a Cooperativa Mãos Verdes, com especialistas de diferentes formações, engenheiro, educador social, tem quatro líderes de galpões de reciclagem, quatro presidentes catadores, eu, que sou cientista político e uma administradora financeira. Nossos parceiros são de três perfis diferentes. Primeiro, empresa privada; o grande parceiro, o grande mecenas aqui é a Braskem. Segundo, os poderes públicos municipais; nós temos um contrato grande com a prefeitura.

Sobre a mudança de mentalidade tanto do setor privado quanto do setor público em relação ao lixo e aos resíduos. Isso se deve a dois fatores. O primeiro fator é a imensa e competente militância de todas as organizações ecologistas, ambientalistas e preservacionistas que durante mais de dez anos, durante quase 20 anos bradaram as bandeiras da sustentação e da sustentabilidade do meio ambiente e convenceram a todos. Eu não me tornei um sujeito diferente em nada, nem em renda, nem consciência, nem em trabalho, nem em legitimidade, nem em visibilidade do que eu já era. Eu continuo sendo um cientista social trabalhando na execução de políticas públicas, a partir do Estado, do setor privado e do Terceiro Setor. O que muda é a causa.

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