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Eu professora

História de: ANDEGLEUMA SALES
Autor: ANDEGLEUMA SALES
Publicado em: 08/01/2022

Sinopse

Me chamo Andegleuma, e o relato da minha história faz parte de um trabalho acadêmico da disciplina de Ensino de Língua Portuguesa I, sob responsabilidade da professora Tatiane Castro, pela Universidade Federal do Acre.

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História completa

UNIVERDIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE EDUCAÇÃO LETRAS E ARTES

CURSO DE PEDAGOGIA – 5º PERÍODO

DISCIPLINA : ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA I

DOCENTE: TATIANE CASTRO

 

 

 

Eu, professora: ...

 

SENTA QUE LA VEM HISTÓRIA: minha longa trajetória até chegar ao Ensino Superior.

 

            Meu nome é Andegleuma, isso mesmo, ANDEGLEUMA. Muitos me perguntam a origem do meu nome, eu sempre respondo em tom de brincadeira que são as invencionices e criatividade de pobre. Nasci em uma pequena cidadezinha no interior do Acre chamada Feijó, nasci no dia 17 de Abril de 1982, portanto, nesse ano de 2022, completo 40 anos, o que ainda me assusta um pouco, pois ainda não me sinto com a maturidade que a idade exige. Como boa ariana que sou, sempre agi com o coração, emoção e impulsividade ao invés da razão, o que me causou muitos prejuízos na minha trajetória escolar, fazendo com que eu chegasse ao Ensino Superior fora da idade adequada.

Fui criada em um lar cristão muito rigoroso, cheio de regras, imposições, limites exagerados e proibições desnecessárias, como, uso de roupas muito compridas para ir à escola, o que fazia com que eu sofresse muito bullyng (apesar de que, na época, pouco se falava sobre isso nas escolas), além disso, a proibição de tv em casa, usar saia para ir até mesmo às aulas de Educação Física, era proibida de participar de qualquer atividade na escola que envolvesse dança ou qualquer coisa que minha mãe considerasse pecado, incluindo maquiagens.

Lembro-me de um dia em que fui para a casa de uma amiguinha e passei um brilho labial, quando cheguei à igreja e encontrei com a minha mãe, ela esfregou a minha boca na frente de todos que estavam presentes, o que me deixou muito constrangida. Acredito que esse excesso de regras me tornou o que minha mãe chamava de adolescente rebelde, aliado à minha personalidade que, acredito, não ser das mais fáceis de lidar, fez com que eu me casasse muito cedo, apenas com o intuito de sair daquele ambiente onde me sentia oprimida.

Assim, repetindo a história da minha mãe, também me casei aos 16 anos. Esse foi o meu primeiro casamento, eu com 16 e ele com 18, praticamente duas crianças. Devido ao trabalho dele, que exigia que ele passasse muito tempo fora de casa, eu desisti dos estudos pela primeira vez na intenção de acompanhá-lo; após essa primeira desistência, houve muitas outras. Após dois anos de casamento, nos separamos e eu voltei para casa dos meus pais, sentia a necessidade de trabalhar para comprar as roupas de que eu gostava, pois já com 18 anos, minha mãe ainda queria me obrigar a seguir seus princípios religiosos, então, para ter o direito de usar o que eu queria, decidi trabalhar.

Tentei, por diversas vezes, conciliar trabalho e estudo, sem sucesso. Cursava algumas disciplinas, parava, nunca mais consegui voltar ao Ensino Médio regular, pois, na época, só tinha  o regular durante o dia, a noite era destinada ao supletivo, que era exatamente para quem trabalhava durante o dia. Com a rotina do trabalho e o excesso de festas que eu comecei a frequentar, chegava à escola com muito sono e não conseguia acompanhar as aulas, dormia a maioria do tempo. Acredito que faltou incentivo por parte dos meus pais para que eu estudasse. A minha convivência com a minha mãe era bastante conflituosa, pois eu não obedecia mais às regras que ela me impunha. Assim, passei dez anos indo e voltando à escola e, por algum tempo, nem tentei mais.

            Eu lembro pouco ou quase nada da minha infância, mas lembro que cheguei à escola sabendo ler e escrever, o que era considerado um grande feito, era sempre muito elogiada pelos professores e usada como exemplo da turma, mas confesso que achava a escola cansativa e maçante, não fiz pré-escola, já fui direto para o primeiro ano. Como disse anteriormente, eu sofria muito bullying , o que fazia com que eu  não gostasse de frequentar a escola. Apesar disso, gostava de estudar, sempre tirei boas notas e era uma leitora voraz (um dos benefícios de não ter TV em casa), a leitura era um dos meus passatempos preferidos, adorava ler de tudo, romance, terror, histórias de faroeste. Lembro que, na época, existiam os bolsilivros, que eram livros que cabiam no bolso, eu sempre tinha um em mãos. Acredito que o fato de gostar de ler me ajudou muito na minha escrita, pois, apesar da minha conturbada vida escolar, não me considero tão abaixo da média.

            Na oitava série, conheci um rapaz muito inteligente, era considerado o mais inteligente da turma, logo veio a se tornar o meu melhor amigo, esse que dez anos após um longo período de afastamento (pois ele se apaixonara por mim e, na época, não pude corresponder), viria a se tornar o pai do meu filho. Após dez anos, nos reencontramos no colégio Vencedor, eu mais uma vez tentando cursar o Ensino Médio e ele fazendo um pré vestibular, pois tentava ingressar no seu segundo curso superior. Começamos a namorar, engravidei e nos casamos. Foi um começo muito difícil, pois não foi uma gravidez planejada, eu trabalhava de frentista em um posto de gasolina e ele já era funcionário público, policial militar, no entanto, como vinha de uma família muito humilde, era responsável pelo sustento de quase toda família dele. Não tínhamos uma casa para morar, nem uma cama se quer. Moramos um tempo na casa dos meus pais. Trabalhei a minha gravidez inteira no posto. Após o período de licença maternidade, tentei voltar ao trabalho, mas meu filho era considerado uma criança difícil de cuidar, dessa maneira, tive que largar o emprego para cuidar dele, que mais tarde viria descobrir que era uma criança especial (Autismo). Com a rescisão, começamos a construir nossa casa, tudo com muita dificuldade.

            Quando meu filho tinha dois anos, resolvi levar ele à fonoaudióloga, pois ele era muito agitado e falava duas ou três palavras. Aconselhada por ela, coloquei ele em uma creche, pois, segundo ela, ele não falava por conta de ter pouco contato com outras crianças. Isso acabou sendo crucial para que, enfim, ele pudesse ser diagnosticado com autismo, pois, até então, eu não sabia. Durante o período em que ele estava na creche, tentei retomar os estudos e, mais uma vez, larguei para trabalhar, pois não conseguia conciliar, cuidar de casa, de uma criança especial, estudar e trabalhar, ficava sobrecarregada.

Após algum tempo trabalhando, resolvi largar o emprego e cuidar exclusivamente de casa e do meu filho, o que acabou me deixando frustrada, pois, desde muito cedo, acostumei trabalhar e ter meu dinheiro. Após um ano sem estudar ou trabalhar fora, o pai do meu filho, vendo que eu estava muito ociosa e depressiva, me matriculou no ENCEJA, e praticamente me obrigou a fazer as provas, pois eu não tinha motivação para nada. Para minha surpresa, passei em todas as provas sem estudar, enfim, concluí o ensino médio. Após isso, também por iniciativa dele, me matriculou no Enem, e, novamente, para minha surpresa, após 20 anos sem estudar regularmente, alcancei uma boa pontuação, que aliada à cota por ter estudado exclusivamente em escola pública, me permitiu ingressar no Ensino Superior.

            A princípio, fiquei em dúvida entre Educação física e Pedagogia, pois gosto de frequentar academia e praticar exercícios físicos. Mas, pela maior oferta no mercado de trabalho, optei pela Pedagogia. Confesso que odiei o primeiro período, pois tinha muita dificuldade na compreensão do que lia, nesse sentido, o Ensino Médio me fez muita falta, sentia que tinha que correr atrás e estudar mais que meus colegas que concluíram os estudos no tempo adequado. Isso acabava me desmotivando. Felizmente, encontrei alguns professores como o professor Igor, Pelegrino, Giane e, em especial, a professora Aline Nicolli, que, no seu último dia de aula, fez um discurso muito motivador. Entre outras coisas, disse que há muito tempo não via uma turma tão especial quanto a nossa, com tão bons escritores, e que nós acreditássemos que nós éramos capazes e que apesar da grande taxa de evasão do nosso curso, que nós prosseguíssemos. Talvez ela nunca saiba disso, mas aquelas palavras me motivaram a continuar e acreditar no meu potencial.

            O quarto período foi um dos mais difíceis até agora, pois, após 12 anos, meu casamento chegou ao fim. Há algum tempo eu já me sentia deprimida, não fazia mais nada por prazer, e, agora, em meio a uma pandemia mundial, saindo de casa apenas para necessidades básicas, acabou gerando em mim um quadro de depressão profunda. Além disso, tive que acompanhar a minha mãe em um tratamento de câncer. Frequentar aquele hospital e ver tanta gente doente, algumas em estado terminal, também abalava meu psicológico. Se eu puder tirar alguma experiência positiva desse tratamento, foi a reaproximação com a minha mãe, pois me fez ver o quanto eu a amava e entendi que nada do que ela fez na minha infância foi com objetivo de me fazer mal ou me prejudicar, mas, sim, com a intenção de me educar, ainda que de maneira equivocada.

Enfrentar um tratamento de câncer, um divórcio, em meio a uma pandemia, junto ao ensino remoto com alguns professores abusivos que desmotivavam os alunos, durante uma das piores crises de depressão, foi uma das coisas mais difíceis que tive que enfrentar durante a minha vida. Não foi fácil. Após o meu divórcio, por muitas vezes, pensei em desistir de tudo, pois me via sozinha, aos 39 anos, cuidando de uma criança especial, desempregada e aquele que me motivara a voltar aos estudos estava saindo da minha vida. Felizmente, pude contar com o apoio da minha família, especialmente da minha mãe, procurei ajuda psicológica e hoje estou melhor.

Se eu amo Pedagogia? Ainda não sei. Mas, a essa altura da minha vida, sinto que virou questão de honra concluir esse curso. Por vezes me sinto desmotivada e apenas cumpro tabela, faço o que tem que ser feito sem grande empolgação. Mas também faço alguns trabalhos e disciplinas com prazer, tive a sorte de contar com colegas que mais tarde vieram a se tornar meus amigos, especialmente minha amiga Gilvama, que também passou por momentos terríveis durante essa pandemia, mas, mesmo assim, nunca soltou minha mão. Enfim, espero me tornar uma boa professora, ciente do meu papel e cumprir o exercício da minha futura profissão com qualidade e amor.

 

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