Busca avançada



Criar

História

Eu preciso ser quem eu sou

História de: Maya Schneyder
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2020

Sinopse

Infância simples em São Paulo. Descoberta da transexualidade aos nove anos. Dificuldades na inserção ao mercado de trabalho. Preconceito. Fortalecimento da religiosidade no candomblé.

Tags

História completa

Eu tenho a minha melhor história com os meus irmãos foi quando eu tinha treze anos e eu realmente entendi quem eu era, como eu era.

Eu me identifiquei com nove anos, eu tive a certeza de que eu era uma mulher trans e que eu gostava do sexo oposto, no caso eu gostava dos meninos, e que eu não me identificava com o meu corpo. Aí eu contei pra minha mãe, nós mantivemos um segredo por um período, e eu frequentava um psicólogo porque a minha mãe achava que era conflito da idade, aquela história que os antigos tinham de acreditarem nesses vieses inconscientes ou que a criança quando está entrando na fase da pré-adolescência, saindo da fase infantil pra fase adolescente, tem esse conflito de gênero. E, por mais jovens que os meus pais fossem, porque os meus pais faleceram com cinquenta e seis anos, na época, ainda era um assunto não muito comentado, não se era conversado, você não tinha instruções como você tem hoje.

 A minha mãe se preocupou com o pouco que ela conhecia, o que ela acreditava, o que o meu pai pregava, e a preocupação dela era me manter. E, lógico, como a maioria das pessoas achava que [a transexualidade] era uma insanidade, então eu frequentei um psicólogo durante dois anos. E aí, mesmo com essa frequência, com esses estudos, com essas análises, depois de dois anos a conclusão que o analista chegou é de que realmente eu sempre fui uma pessoa normal e que eu não tinha nada além de uma descoberta que era a identificação do meu gênero.

Nós mantivemos esse segredo durante um período e eu comecei a minha transição hormonal, porque eu achei que eu precisava associar o meu corpo ao mais próximo daquilo com que eu me identificava. Então eu passei a, muito por conta, vamos dizer assim, tomar uns hormônios, eu ia na farmácia, comprava, enfim.

Uma das coisas que a minha mãe sempre me ensinou e que eu sempre tive comigo era jamais mentir, principalmente para as pessoas que eu amava, para as pessoas que eu amo. Eu tive uma conversa muito aberta com a minha mãe, que foi quando eu realmente disse pra ela como eu me sentia, como eu me identificava e em um gesto de proteção ela pediu pra que eu não contasse para o meu pai.

Eu precisava contar para os meus irmãos, então eu contei a eles e esse foi o momento mais emocionante, em que eu me senti mais amada na vida, foi quando eles viraram pra mim e falaram assim: “Você pode ser quem você quiser, como você quiser. Nós vamos te amar de qualquer jeito. Você é meu irmão”, e me deram um abraço. Foi engraçado, porque eu contei para os dois ao mesmo tempo e foi espontâneo dos dois dizer a mesma coisa. Essa é a lembrança mais bonita que eu tenho dos meus irmãos.

[A conversa com meus irmãos foi mais ou menos essa]: “Olha irmãos, eu vou contar uma coisa pra vocês, mas eu vou entender muito bem se a posição de vocês... Eu só quero que vocês compreendam e tenham certeza de que eu vou continuar amando vocês, mas eu preciso ser quem eu sou, e para me amar, para continuar me amando, para continuar me aceitando, eu preciso contar uma coisa que vai me libertar para eu chegar onde eu quero chegar”. Eu contei pra eles, eu fui direta: “Eu não me vejo como vocês. Eu nasci um menino, mas eu não sou um menino. Eu não me vejo um menino e eu estou me tratando para fisicamente não ser mais um menino, então daqui um tempo eu não vou ser mais irmão de vocês, eu vou ser a irmã de vocês”.

A grosso modo tive que falar da maneira como todo mundo entende e falei pra eles: “Eu só peço uma coisa pra vocês, existem milhares de pessoas como eu lá fora, e se vocês não querem que o mundo não agrida o irmão de vocês, então não agridam o irmão dos outros, não agridam os amigos dos outros, porque eu sou como eles”. Foi onde eles me olharam e, a gente já estava chorando, falaram: “Olha, você pode ser quem você é, você pode ser como você é, a gente te ama do mesmo jeito”. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+