Busca avançada



Criar

História

Eu posso transformar aquilo

História de: Rafaela Otaviano Feitosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/10/2021

Sinopse

Rafaela recorda a infância na comunidade Parque União (RJ) , onde, junto com a sua mãe e irmã, passou muita dificuldade por conta do falecimento do pai. Ela conta que sua mãe teve que sustentar as três com o ofício de costureira. Rafaela lembra que após a maternidade precoce, inspirada e amparada pela mãe ela começou a desenvolver o ofício de costureira, passou por fábricas e ateliês até fundar a própria marca “By Rapha” de roupas e acessórios e o selo “MADE IN MARÉ”.  Além do empreendedorismo ela conta também sobre as ações de doações de cobertores e comida.


Tags

História completa

E aí quando minha chegou lá pra alugar, tinha um banquinho do lado de fora, e era um casal de velhinhos, aí: ah, não aceitamos crianças. Mas minha mãe arrumava a gente, muito bonitinhas, lacinho no cabelo, aí a senhora falava assim; não nego, são tão bonitinhas, deixa. A gente passava o dia na escola, chegava da escola era comida e cama, pra no dia seguinte de novo. A gente só ficava sábado e domingo em casa, vendo televisão, só. E aí a dona Luiza tratou a gente como netas, a vida inteira.

 

Aí foi num baile, a gente também ia muito rápido, porque dependendo da hora a gente ia muito rápido, dava uma escapada, ia lá curtir o baile e voltava pra casa, era assim, pra nossas mães não sentirem nossa falta. E foi numa rapidez assim, de ir no baile, só olhar o baile, ele se aproximou de mim e trocamos um “oi”, e essa foi a primeira aproximação. Aí depois, dias seguintes ele veio a passar mais vezes na rua, ele sentava lá na porta de casa, se minha mãe estivesse com a vizinha ele não parava, aí a gente foi ficando, a gente foi se vendo assim. Ele chegou um dia e pediu pra minha mãe deixar eu ir ao baile com ele, ela disse que ia dar a hora pra voltar, ele disse que traria na hora que eu ela determinasse. E foi nessas permissões que ela dava que dávamos uns beijos, até que aconteceu. Acho que com oito meses de namoro, eu engravidei.

 

E ele mesmo teve a atitude de chegar pra minha mãe, aliás eu percebi que estava com a menstruação atrasada e comentei com ele, e aí ele: “Não, a gente tem que contar pra sua mãe, você vai esconder? Vai aparecer né!” E eu disse que não tinha coragem. E ele disse; eu falo. Ele é o filho mais velho da mãe dele, foi criado também sem pai, ele foi criado pelo padrasto, e ele teve essa atitude de falar, ele disse que só não poderia casar, porque ele quem cuidava dos irmãos, a mãe dele trabalhava fora, mas ele dizia: o que precisar eu estou aqui, eu vou assumir. Aí depois de um tempo, assim foi indo, eu trabalhava fora, sempre trabalhei fora.

 

Eu trabalhava em uma das fábricas em que minha mãe sempre trabalhou. Foi a primeira fábrica que me aceitou, lá eu entrei como arrematadeira, era só pra tirar pontas de linha, até então como eu não tinha nenhum registro de que eu sabia costurar, então não entrei como costureira.

 

Quando eu saí de lá, fiquei um tempo sem trabalho, eu ainda morava com a minha mãe. Depois que eu entrei numa camisaria, e aí lá eu entrei como costureira mesmo. Maior felicidade, porque tinha que ter o registro, não adianta saber só em casa, porque precisa comprovar e lá eu fiquei por uns cinco anos.

 

E aí chegou um ponto que eu fazia a peça que era escolhida para fazer os comerciais, fazer as fotos. Quando íamos ao shopping, eu dizia: está vendo aquela camisa daquela foto que o Luigi Baricelli está usando, foi eu que fiz.

 

Nesse dia eu não estava em casa, quem estava era a minha mãe cuidando do meu filho. Quando eu cheguei ela disse: ó neném, está aqui anotado, a moça ligou e passou o endereço, pra você ir. Era no Catete, eu nem conhecia direito, não sabia, na época meu esposo tinha moto, ele me deixou no largo do machado e eu me achei. E quando eu cheguei lá, a própria patroa que abriu a porta, olhou pra mim e mandou eu sentar que a modelista iria passar o serviço. Desse ocorrido eu não sabia, um ano depois ela veio me contar do impacto que ela teve, que quando ela me recebeu, me passou pra modelista e foi pra outra sala, conversar com as outras meninas do corte, “a Sônia está maluca, ela me indicou uma garota, essa garota não vai saber fazer nada”. Aí eu fiz a peça, demorei umas duas horas, a peça era bem trabalhosa, nunca tinha feito bolsa na minha vida daquele jeito, eu sabia fazer ecobag que é coisa simples, para qualquer costureira ou iniciante, ainda mais pra quem é costureira de roupa, fazer bolsa é outra mão né?! Outro caminho. E aí depois de um ano ela veio me contar, que ficou de cara quando abriu a porta e não acreditou, quando passou esse ano eu já estava fazendo as peças que iam para desfile da Fashion Week e eram peças de grandes marcas, até internacionalmente.

 

Fazia em casa, a irmã me ajudou fazendo fotos, aquela câmera antiga, aquela digital. Aí criou uma página pra mim no Facebook, aí me ajudou no primeiro nome, By Rapha, que é ‘Feito por Rafa’, que vai lido em qualquer linguagem. Ela me ajudou muito no início, sempre me apoiou em tudo. E volta e meia eu trabalhava para os outros, mas o que eu via na rua eu dizia, eu posso transformar aquilo, não vou fazer igual, porque não pode, mas eu posso melhorar. Eu sempre pensava dessa forma. A pochete que voltou à moda, eu não vejo como moda, vejo como uma peça prática. Uma irmã de consideração chegou com uma lá em casa, que não tinha forro, não tinha bolso, ela falou: Rafa eu comprei isso aqui, porque é prático pra usar. Olhei por dentro! “Comprei, porque eu estava precisando, pra gente que não usa bolsa, mas você pode melhorar”. Aí eu olhei, “não quero fazer isso não”! Mas ela insistiu, eu olhei, na hora eu tirei o molde num jornal, risquei, medi o comprimento da alça, no dia seguinte mandei a foto pra ela. Fiz! E fiz do jeito que ela imaginou. Que teria um forro, que teria uma estrutura, que teria um bolso extra, aí ela falou: Caraca, você é demais! E eu fui fazendo assim, aos pouquinhos, com um tecido que eu tinha eu fui fazendo, aí fui pegando gosto. E cada vez que eu saía pra comprar material diferente, minha irmã, que não é desse estilo, ela sempre dava esses toques: Sabe aquele negócio que você faz, isso aqui vai dar certo. E eu: “É mesmo né?!” E fazia.

 

Eu já tinha a minha logo, By Rapha, que um amigo meu fez pra mim, que porventura é muito bonita. Um certo dia, eu estava sentada no ponto final de um ônibus, e aí vi um container escrito ‘Made in França’, aquilo me despertou, porque as roupas vêm “Made in China” e outros. Eu falei: tem que ter uma Made in Maré, porque a minha Maré não tem que ser só ouvida pelo que a televisão fala, pelo que a mídia fala, da violência, ela precisa ser enxergada por produtos que são produzidos dentro da Maré, porque tem pessoas que produzem dentro da Maré, ela tem que ser vista dessa forma, ela tem que ser falada desse jeito, não só pela violência. Foi quando eu criei essa logo, essa logo determina os produtos feitos na Maré, por uma pessoa que é da Maré, que foi criada na Maré, que quer que a Maré seja conhecida desta forma. Que tem pessoas que produzem, que são normais, que não é só violência que reina aqui.

 

Eu nunca parei pra me observar, eu sempre quis olhar pra fora, de olhar pra algo e querer melhorar ou ajudar a melhorar, ou completar, sempre pra frente. Se a gente pode mudar algo, vamos lá, se a gente não pode, paciência. Sempre quis melhorar tudo em si, ou pensar, pensar em quem não está conseguindo, quem tem o poder de melhorar e não está conseguindo, a gente oferecer uma ajuda, dar uma opinião, ou ir lá e fazer.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+