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Eu posso dar a volta por cima

História de: Simone Cardoso dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/10/2021

Sinopse

Simone Cardoso dos Santos tem dermatite atópica desde as primeiras memórias. Aos cinco anos já fazia tratamento e, dessa época, carrega boas lembranças: de menores preocupações com a pele e das vezes que desafiava seu pai para poder fazer o que desejava. Por alguns anos, a dermatite não afetou Simone, mas as complicações de saúde de seu ex-marido trouxeram de volta as crises. Mas também trouxeram a possibilidade de Simone conhecer mais a si e de ver que a dermatite atópica não é um obstáculo para seus sonhos.

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Eu não sei a história da dermatite atópica do meu nascimento até os cinco anos, mas dos cinco anos para frente eu sei, porque a dermatite atópica sempre esteve presente na minha vida. Sei que é uma coisa que não existe uma cura, mas uma melhora. Comecei a fazer tratamento, acho que minha mãe me levava no bairro da Penha para tomar vacina durante dez anos, dos cinco aos quinze, e aí depois com quinze anos o médico falou: “Olha, agora você nem precisa tomar mais, o seu organismo também já acostumou, e daqui para a frente, conforme o crescimento, você vai melhorar”, e dos quinze aos vinte e três eu tive a pele maravilhosa.

 

Foi a época que fui mais livre, eu fazia o que eu queria, eu saía, meu pai falava “não” e eu ia, porque eu sempre fui bem abusada.

 

Ele falava: “Você não vai viajar”, e eu: “Está bom, pai”, mas quando chegava no dia da viagem, eu estava pronta para ir. Sempre fui muito desafiadora, tudo na minha vida quando eu tenho objetivo eu vou até o fim, eu acho que a gente só pode se arrepender daquilo que a gente faz, o que a gente não faz não tem como você se arrepender. E eu tenho mais três irmãos: a Márcia, o Rogério e o Eduardo e eles não têm dermatite. Na família, até os primos mais próximos, ninguém tem, só eu, eu e agora o meu filho.

 

Tenho gêmeos. O Gustavo também tem dermatite, mas a dele é controlada. Ele tem do mesmo jeito que eu tinha na infância, que é só em algumas partes. Hoje eu tenho em praticamente cem por cento do corpo.

 

Quando casei tinha 23 anos. Eu conheci o Valmir (temos 13 anos de diferença) e me apaixonei. Com oito meses que a gente estava junto, eu juntei as minhas coisas e fui embora. Só que um ano depois que eu estava com ele, ele descobriu que tinha problema renal. Ele começou a fazer hemodiálise porque já estava em uma situação grave a gente não tinha noção. A partir daí a minha dermatite começou a voltar, só que eu não percebi, porque eu acompanhava ele em tudo, então eu saía meia-noite do trabalho e seis horas da manhã a gente estava no hospital.

 

Eu estava tão engajada no que estava acontecendo que não percebi a volta da dermatite atópica. Ela começou a voltar de uma forma muito rápida.

 

Comecei a sofrer discriminação, de estar na rua e a pessoa falar: “Nossa, é queimadura isso? Nossa, isso é esquisito”, e eu ter que falar: “Não, isso é dermatite, isso não pega”. Porque você já tem que falar logo, senão a pessoa tem até medo de pôr a mão em você.

 

Mas o meu médico é o melhor. Ele faz tudo que ele pode para me ajudar, às vezes eu escrevo que eu o amo, sabe? Porque é muito difícil um médico que seja humano, que se importe realmente. Ele faz tudo que ele pode para mim. Se ele tem um remédio novo, se ele tem um creme novo, pra tudo ele fala: “Simone, vem aqui”. Sou grata todos os dias por ele ter passado pela minha vida.

 

Hoje, eu percebo que minha dermatite é mais emocional do que coisa de contato, então se eu estiver bem, a minha pele fica ótima, se eu não estiver, é automático. A melhor coisa que eu fiz na minha vida, desde que eu comecei a perceber que era emocional, é terapia.  A terapia foi o que realmente me ajudou desde a minha separação até hoje. Hoje exatamente eu não faço mais, porque a minha terapeuta ela arrumou emprego fora daqui, mas de vez em quando, até pelo WhatsApp, a gente se ajuda, porque ela foi minha colega de infância na escola, e eu nunca imaginei que existisse essa relação.

 

Eu também tento fazer coisas que gosto, estar com as pessoas que gosto, tenho muitos amigos, então, assim: o que eu puder fazer para desestressar, eu faço.

 

Hoje, com a dermatite atópica, eu penso que tem que melhorar, porque está num grau muito forte. Compartilhar minha história acho que vai ajudar outras pessoas. Porque a pessoa vai saber que você convive com isso e faz tudo. Nunca foi um obstáculo para mim. Lógico que eu queria estar bem, cem por cento, porque é difícil. É igual relacionamento: eu não consigo me relacionar com ninguém porque eu tenho vergonha, é complicado. Então tem coisas que me machucam, mas eu tenho que tentar superar. Eu tenho que perceber que é um problema, mas eu posso passar por cima disso.


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