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"Eu nasci sustentável"

História de: Juan Muzzi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Juan Muzzi é uruguaio, descendente de italianos. Desde a infância via a influênica vinda dos dois lados da família: de um lado o lado criativo, artistico e do outro o lado empreendedor. Avesso ao ensino tradicional, Juan buscou outras formas de apredizado, manifestando desde cedo uma verve inventiva que o levou a inventar coisas. Após trabalhar na craição de brinquedos, como uma mola plástica, Juan retomou uma antiga paixão e a aliou à redução do consumo criando as Muzzicycles, bicicletas feitas a partir de resíduos plásticos.

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História completa

Meu nome completo é Juan Carlos Calabrese Muzzi. Eu sou uruguaio, nasci na cidade de La Paz, Departamento de Canelones, em 1949. Meus pais se chamavam Maria Estela e José, ambos de descendência italiana. Meu pai, um empreendedor, sempre trabalhou por sua conta, nunca conseguiu trabalhar para algum tipo de sistema, sempre foi independente. O pai dele era um homem muito rico e deu pra cada filho uma fazenda, menos para o meu pai e para o meu tio. Naquela época uma filha tinha que ser freira e um filho tinha que ser padre, então um tio meu foi pra ser padre e uma tia pra ser freira. Só que eles não queriam e falaram pro meu pai: “Pô, me ajuda a sair do convento aqui”. Ele os ajudou, pulou o muro do convento e fugiram. Só que o meu avô ficou sabendo e tirou ele e meu tio da herança: “Você não tem mais direito a nada”, tirou os dois, o resto da família ficou rica, mas os dois ficaram pobres. Então ele começou a construir coisas, tinha ônibus, táxi, canteras, tinha tudo o que podia fazer, mas nunca ganhou dinheiro, sempre quebrava. A minha mãe tinha que compensar e era empregada do governo uruguaio, aí tinha todo mês certinho a entrada de dinheiro, que era o que ajudava a criar os filhos. Mas eles conseguiram criar dois filhos, eu e meu irmão, e ir até o final da vida. Meu irmão é parapsicólogo e vive hoje na Argentina.

 

Acabei precisando trabalhar, porque a família ficou pobre. Então, fui arar as terras na fazenda de um desses tios meus. E começava às quatro da manhã, um trabalho árduo, mas no galpão tinha uma bicicleta pendurada, por anos e anos que ele achava que era uma relíquia. Tanto, tanto insisti, que um dia ele falou: “Olha, pode pegar essa bicicleta”, na época eu tinha doze anos, peguei essa bicicleta e deixei ela um brinco, linda, linda, pintei, arrumei, fiz tudo e comecei a trabalhar de bicicleta, conheci a liberdade. Só que um dia meu pai falou: “Olha, não temos comida em casa, nós temos que vender a bicicleta”. Aquilo foi o primeiro golpe que eu senti na minha vida, vender a bicicleta foi a pior coisa que poderia me acontecer, assim não conseguia mais trabalhar, não saía do meu quarto, ficava o dia inteiro trancado, foi um problema. E meu pai: “Bom, pra resolver isso eu vou te arrumar um emprego numa oficina de bicicletas”. Trabalhei por muito tempo lá até que um dia chegou uma bicicleta, uma super bicicleta importada, eu a vi e fiquei encantado. Não tinha ninguém, cidade tranquila, eu peguei a bicicleta e saí a passear e esqueci, fiquei andando de bicicleta. Quando eu voltei o homem estava na porta, como castigo ele falou: “Você está dispensado”. Cheguei em casa, foi um desastre.

 

Sempre tive problema com escola porque tinha uma disciplina e eu nunca aceitei muito a disciplina, então, pelo fato da minha família ser muito religiosa, as escolas eram sempre as escolas que eram católicas. A gente tinha que ir nessas escolas, mas sempre aprontava, até que no último ano eu fui pra escola pública. Minha mãe falou: “Chega! Você quer ir? Então vai”, e fui pra escola pública e foi uma maravilha, porque estava livre. Mesma coisa com o trabalho, eu só sabia que não queria, eu tinha esse pavor de ser preso a alguma coisa, sempre tive, porque eu via alguns amigos meus, comecei a crescer um pouco mais, e eram obrigados a trabalhar, terem um horário, tinha uma coisa assim que eu falava: “Gente, isso é uma tortura! Será que um dia vai acontecer comigo?”.

 

Tinha no Uruguai uma escola que chamava Universidad del Trabajo del Uruguay. Essa universidade você entrava lá sem saber nada, com doze anos de idade como marceneiro e fazia mecânica, tornearia, fresador, engenharia e você saía como perito de engenharia mecânica. Eram sete anos na Universidade do Trabalho e depois mais dois na faculdade de Engenharia. E era uma escola totalmente gratuita, eu estive lá oito anos e não comprei um livro, era o máximo poder entrar nessa universidade. Por que? Porque aí você tinha tudo. Você queria ser marceneiro? Era aí. Você queria ser pintor? Era aí. Você queria ser torneiro mecânico? Era aí. Você queria ser cientista? Era aí. Você queria tirar Filosofia? Era aí. Você queria estudar História? Pronto. Para mim foi Arte, Arte e Ferramentaria, eu me especializei em Ferramentaria, pois sempre fui um bom desenhista, ganhava umas boas notas e tal, tinha um destaque. Depois disso começaram movimentos sociais muito fortes, aí eu pensei: “Chega”, e fui embora do Uruguai.

 

O meu destaque foi na área de Ferramentaria, de Design, eu era muito bom em Matemática, mas eu não ia ser um matemático nunca porque eu precisava de liberdade, precisava ver as coisas na rua, procurar, eu trazia coisas pra casa, juntava coisas, sempre tive esse lado muito forte. O Calabrese era o lado empreendedor da família e o Muzzi era o lado artista da família, então a família se dividia, pra mim, nessas duas facetas. Eu era empreendedor porque eu via isso na minha família do meu pai e eu entrei na arte por causa do lado da minha mãe, acho que tem a ver com o fato de, tanto do meu avô como da minha família, nada se jogava fora, tudo se aproveitava, sempre foi tudo muito aproveitado, e isso fica no inconsciente, hoje eu não posso jogar nada fora, eu não teria coragem de jogar uma coisa fora. As minhas coisas têm um final, eu fiz muito brinquedo com plástico que estava na rua, lixo. Eu sempre fiz brinquedo reciclado n minha fábrica, Muzzi, só que não podia falar que usava material reciclado porque ninguém comprava, você tinha que falar que o material era novo, mas eu sempre punha um pouquinho de reciclado. Uma vez eu fui para o interior, não me lembro o nome da cidade, eles fabricavam Pinga 51, e tinham muito material pra vender, tampinha de garrafa de pinga. Para mim foi, imagina, jogar esse plástico na rua, fora, ele jogava fora. Aí eu comprei um caminhão desse plástico, trouxe tudo pra fábrica moí tudo e fiz brinquedos. Só que o brinquedo cheirava à pinga! Não serviu pra nada, você entrava na fábrica e tinha cheiro de pinga no ar, porque ele fica impregnado eu também não sabia disso e no final tive que me desfazer do material.

 

Nessa época eu fabricava um óculos que a lente saía, não sei se você lembra, você andava assim, você mexia a cabeça e o olho ia pra fora e vinha. Eu sempre expunha aí no Anhembi e eles falaram pra mim: “Juan, quando você vier na exposição traga uma caixa de óculos”, porque a gente dava de brinde pras crianças. E eu levava a caixa de óculos, um dia eu cheguei lá e tinha uma fila enorme em um stand que não dava pra ver o stand. Eu pensei assim: “Puxa vida, esse cara acertou em alguma coisa. Um dia, talvez, eu consiga ter uma fila assim no meu stand”. E fui andando, e onde era a fila? Era no meu stand. Eu não acreditei. O que as crianças faziam? Pegavam o óculos, tiravam a lente a ficavam com a molinha. Eles que me alertaram, que falaram pra mim: “Você tem que fazer uma mola”. Aí eu vi isso e falei: “Bom, eu vou começar a trabalhar com essa mola”. Comecei a fazer uma mola, só que era difícil fazer uma mola porque era uma mola pequenininha assim, com três espiras ou quatro, tinha que fazer uma mola grande com oitenta espirais pra poder brincar, descer escadas.

 

E aí comecei a trabalhar, mas a mola não funcionava, a mola não saía. E foi um mês, dois meses, cinco meses, seis meses, um ano. Minha primeira mulher, eu me casei seis vezes, falou assim: “Olha, não dá mais. Adoro você, mas viver com você não dá. Ou essa mola funciona”, eu tinha dois filhos, “ou pego os meus filhos e vou embora pro Uruguai”. Aí eu falei:  “Bom, tem que funcionar a mola”. No fim de semana ajeitei a mola pra funcionar, mas não funcionava. E ela falou: “Olha, não dá mais, desculpa”, e no domingo foi embora. Eu fiquei arrasado, chorava que nem uma criança, ela levou os filhos pequenos. Eu tinha escolhido a mola e não a família. Eu sei que eu tenho esse problema, quando eu entro em um projeto eu tenho que terminar isso daí, o resto é o resto. Hoje eu sou um pouco mais cuidadoso, mas no começo não. Enfim, depois de um ano e mola ficou pronta. E uma miséria espantosa, eu tinha cinco mil molas no estoque e ninguém comprava uma mola. Aí um amigo falou: “Juan, se não tiver televisão não vende, só vende o que tem em TV. Dá um jeito, vai na Xuxa, conversa com a Xuxa. Você vai ver que se a Xuxa colocar na televisão tudo vai dar certo”. Aí fui falar com a Xuxa, pra ela mostrar na televisão: “Fala com o meu irmão”, ela falou. Eu fui falar com o irmão dela. “Eu vou mostrar pra você na televisão, você tem que pagar alguma coisa”.  "Quanto você quer?”, perguntei. “Um milhão”. Eu falei: “Quanto? Um milhão? Não tenho condições”. Voltei desolado, peguei umas funcionárias que eu tinha lá: “Vamos pegar cada um uma caixa de mola e vamos pro Olímpia. E vamos ficar lá fora no Olímpia, dando uma de camelô”. Todas crianças que vinham a gente dava uma mola de presente, pra todas as crianças. Então chegou um ônibus com as paquitas, pela janela a gente dava as molas pra elas, elas pegavam as molas e tal. Sabe o que aconteceu? Todas as crianças entravam no teatro com a mola. E as crianças que estavam lá dentro do teatro falavam: “Onde arrumou isso daí?”. “Estão dando na porta”. Eles corriam pra fora, foi uma loucura. Aí a Xuxa chamava as crianças pra subir no palco, né? E elas subiam com o quê? Com a mola na mão. Aí falavam: “Olha aqui, tia, o que eu tenho”. Uma hora ela teve que pegar a mola e começou a brincar, achou a mola maravilhosa e tal. Bom, pronto. Na segunda-feira tinha fila de caminhões na minha empresa querendo mola. E aí começou a mola, aí não parou mais, foi uma loucura, foi pro mundo inteiro. Eu fiz mola em 22 países, fui pra Europa, Estados Unidos, aí deslanchou.

 

Aí o que aconteceu? Eu conheci o mundo, vi como isso funcionava, a China copiou e foi um desastre. Eu fui no porto de Aveiro, vinham os navios com containers cheios de molas, eu não acreditava, eu falei: “Gente, o que é isso? Uma molinha!”. Então acabou a mola e foi uma tristeza. Eu falei: “Bom, preciso criar outra coisa, preciso fazer alguma coisa”. Porque eu estava vazio, me sentia vazio. E eu comecei a pensar nesse assunto, demorei um tempinho para eu armar isso na minha cabeça, até que eu sabia qual era o material porque já tinha trabalhado com ele, mas não sabia como fazer e o que fazer certamente, até que eu fui visitar uma fábrica de bicicletas. Duas coisas que me aconteceram: a visita a uma fábrica e eu fui comer num restaurante gourmet, foi muito importante pra mim esse restaurante gourmet. Porque na salada tinha um osso, sabe? Eu fui comendo a salada e falei: “Isso aqui está duro”, aí fui ver e estava tampado pela alface e um osso. E eu peguei esse osso e falei: “Gente, que genial!”, era um osso oco, lógico. Aí eu falei: “Por que oco o osso?”, aí comecei a analisar por que o osso é oco? Porque vivemos mais 20% da vida, porque nosso coração trabalha 20% menos, porque se não fosse oco o braço entortaria. Porque o oco tem uma força igual e contrária na parede da espessura. Comecei a analisar na Medicina por que o osso era oco. Aí falei: “Ótimo, pronto, já entendi por que o osso é oco. Agora vou ver o que eu faço com esse osso oco”. Fui na fábrica de bicicleta e vi que é um desastre ecológico, duzentas pessoas trabalhando, aquela fumaça, um consumo de CO2 tremendo, soldas, tintas, impressionante. Eu falei: “Eu vou juntar duas coisas, o osso oco e o consumo de CO2 excessivo. E juntei as duas coisas. Aí que eu comecei, no ano de 1998, fiz a primeira bicicleta de madeira, pensando em eliminar o ferro e o alumínio e o carbono e fazer ela como osso. E comecei a desenvolver, cada ano fazia uma, muito tranquilo porque era uma coisa que não existia no planeta, uma coisa totalmente fora. Foram doze anos de desenvolvimento, até que consegui fazer a primeira bicicleta que funcionasse mais ou menos.

 

Então pensei no plástico para o material, pois ele absorve. Isso tem uma coisa que ver com o fato de eu ter pilotado muitos anos, e perceber que a asa do avião mexia. Eu falei: “Gente, como é que pode”, eu já tinha estudado no curso de piloto como era resistência dos materiais, comportamento, por que disso, por que de outro, mas eu nunca tinha pensado em uma outra coisa. Falei: “Olha, mexe a asa para ele não mexer aqui dentro, a asa absorve os movimentos de trepidação”, e levei isso pra bicicleta, falei: “A bicicleta poderia ser assim também, eu poderia fazer a bicicleta de tal forma que quando chegasse a trepidação ela fosse absorvida pelo material. E quando chegasse no corpo não tivesse nada”. Apliquei esse princípio na bicicleta, que é o Princípio de Venturi, e pronto! Saiu! Cada molde faz de dez a doze mil bicicletas por mês, é impressionante. Estamos aprendendo muito, as primeiras bicicletas que eu fazia demoravam nove minutos para fazer na injeção de plástico, com uma máquina de duas mil toneladas, hoje são três minutos e 40 segundos pra tirar um quadro de bicicleta. É uma maravilha, é gostoso de ver entrar o material e sair um quadro de bicicleta sozinho, antes pra fazer isso você precisava de toneladas de alumínio, CO2,  um caos. É um processo muito contemporâneo.

 

Ainda há muito a ser melhorado, porque essa bicicleta ainda é usa muito combustível fóssil, a ideia é construir uma mobilidade urbana proveniente do sistema, do processo de fotossíntese. O processo da fotossíntese faz com que esse material vai evoluindo, crescendo e pronto, esse material verde você pode transformar ele em polímeros. Você vê, a Braskem tem o plástico verde, não mais proveniente do combustível fóssil. Isso se chama economia circular, nada do que você produzir pode ter detritos, a gente não pode mais se dar a esse luxo de fazer coisas e jogar milhões de coisas fora pra fazer algumas coisas por causa de um sistema. Eu penso que tudo o que tem que ser feito daqui pra frente tem que ser economia circular, uma hora vai acontecer.

 

É, minha vida não muda porque a minha vida é essa, nunca mudou, eu já nasci com os 4Rs (risos). Acho que eu nasci sustentável, desde que comecei a brincar com brinquedos feitos por mim a vida inteira, tudo. Quando comecei a andar de bicicleta, correr, essa liberdade que eu tinha conhecido, que me cativou, né? E eu sempre fiquei com isso na minha cabeça. Os últimos quinze, dezoito anos, que eu resolvi fazer uma bicicleta popular, que todo mundo pudesse ter, que o cara, por mais pobre que ele fosse, podia ter uma bicicleta. São as campanhas que estamos fazendo hoje nas escolas, as crianças recolhem plástico e ganham uma bicicleta pra levar pra casa. Eu falo que a bicicleta é um conjunto de coisas que se deu, então você vê, tudo fecha, tudo tem a ver, nada é por acaso.

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