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História

"Eu nasci muito revolucionária"

História de: Nazaré Flor (Maria Nazaré de Souza)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/05/2007

Sinopse

Maria Nazaré de Souza, nascida no Ceará, conta sobre suas lutas e conquistas de vida, desde sua infância na comunidade Apiques, à sua participação em movimentos sociais e rurais, resultando em seu envolvimento na Rede LAC (Rede de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe).

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História completa

P/1 - Boa tarde. Eu gostaria que você me dissesse seu nome, data e local de nascimento.

 

R – Eu sou Maria Nazaré de Souza, nasci numa comunidade chamada Apiques, localizada no Assentamento Maceió, Distrito de Baleia, Município de Itapipoca, Estado do Ceará.

 

P/1 - E como é o lugar onde você nasceu? 

 

R – O lugar onde eu nasci era muito subdesenvolvido, sem estrutura, faltava estrada, faltava tudo. Hoje ainda falta, porque tem um ramal de estrada muito ruim para poder chegar. Mas até um ano atrás, para chegar à minha casa de transporte, teria que esperar o mar secar, a maré baixar para poder passar, porque moro próximo à praia e se demorar um pouco, só volta depois na outra maré baixa. Também não tinha telefone público nem nada. Não tem torre de celular perto. É difícil. Você tem celular que fica sem sinal. Aí vem a razão: além do pouco dinheiro, eu nunca me interessei em comprar um celular, porque não adianta ter na mão e não ter o som.

 

P/1 - Mas ainda continua assim?

 

R – Agora, com a estradinha de barro, o transporte já chega na minha comunidade, mas celular ainda não pega. Também tem um orelhão, que realmente é bom. Pega mesmo e quanto mais a distância, pega melhor que local.

 

P/1 - Quantas pessoas vivem na comunidade?

 

R – Na comunidade que eu moro, nós somos, hoje, mais de quinhentas pessoas. São 94 famílias. É à beira-mar, uma vila praticamente de pescadores e agricultores. São pequenos pescadores artesanais que sobrevivem da pesca, do cultivo da terra e da criação de pequenos animais. Também tem o trabalho que as mulheres fazem, tem muito artesanato. Essa renda de bilro que eu trouxe, são elas, as mulheres que fazem e tem também a coleta das algas marinhas.

 

P/1 - Voltando um pouco atrás, gostaria de saber a origem da sua família e um pouco mais dos seus pais e dos seus avós.

 

R – Minha família é de origem indígena. Apenas o meu avô paterno, dizem, tinha sangue de alemão. Muitas pessoas antigas ainda dizem. Meus avós são de mil oitocentos e tarará, do outro século, do século dezoito ainda. Então, tem muita mistura com os portugueses, com os alemães, com os holandeses, esse povo que chegava pra explorar as terras, que eram dos indígenas. Meus outros avós eram de origem indígena. Por sinal, minha avó, que é casada com meu avô paterno, é índia pura mesmo, de uma raça chamada Tapuia, que é índio. Minha avó era dessa descendência de índios.

 

P/1 - E os seus pais?

 

R – Meu pai era, por conta dessa mistura, um homem moreno claro e minha mãe também era morena clara. Eles moravam na mesma comunidade, se casaram e viveram.

 

P/1 - Você sabe como eles se conheceram?

 

R – Minha mãe contava o seguinte: eles moravam perto um do outro, isto é, na mesma comunidade e então se apaixonaram e namoraram uns dias e meu pai falou em casamento. Só que naquele período, casamento era meio proibido, tanto pra homem quanto pra mulher. E meu avô, que era um homem muito conceituado na comunidade, não aceitou o casamento, porque minha mãe era de uma família muito pobre. Minha mãe era tão pobre que ela contava que até aos quatorze anos de idade, quase mulher formada, ela andava despida, como índia. Ela tinha muita vergonha disso, de ter feito parte dessa realidade. Por conta disso, de minha mãe ser de família pobre, meu avô, que também era pobre mas mais conceituado um pouco na comunidade, achava que eles não deviam se casar e acabou parando o casamento por algum tempo. Mas com o tempo, meu avô viu que meu pai não desistia e resolveu ir lá e combinar: “Agora sim, podem se casar”. Então saiu o casamento. A maioria dos filhos e das filhas do meu avô paterno tiveram os casamentos negociados por ele. Aquela regra que aparece nas novelas, mulher casa quando o pai oferece e o filho, quando o pai dá a noiva, assim foi a regra do meu avô.

 

P/1 - E eles se casaram porque insistiram...

 

R – Ele acabou cedendo e mandou fazer o casamento.

 

P/1 - O que eles contam do seu nascimento?

 

R – Eu fui a última filha da família de dez irmãos. Depois, parece que minha mãe teve um aborto ainda. Mas filha mesmo, eu sou a última. Dizem que eu nasci num período... Há uma dúvida, uns dizem que eu sou de antes, de 51; outros dizem que eu sou de 52. Só que quando eu vim me registrar, depois de grande, meu registro saiu 52. Não sei porquê. Não fui eu que indiquei meu registro. Apareci registrada em 52. Acho que há uma certa troca aí mesmo.

 

P/1 - E com dez irmãos, você devia ser bem mimada, né? 

 

R – Eu fui muito mimada. Era a última filha, meu pai me queria muito bem. A gente cresceu numa família muito unida, meu pai e minha mãe eram muito unidos. É uma família muito religiosa, que guarda a cultura religiosa, que reza terço toda noite e que senta toda conjunta na mesa pro almoço. A gente se criou mais ou menos nesse ritmo. E nós, como irmãos, éramos muito amigos dentro de casa. Ninguém fazia negócio sem que não fosse combinado na família. Era muito interessante isso. E, assim, eu fui crescendo nessa família e com oito anos de idade meu pai morreu, e minha mãe assumiu essa família, no período ainda em que não existia aposentadoria para trabalhadora rural. 

A gente sofreu muito, porque eu tinha dois irmãos homens, um de quatorze, outro de dezesseis anos, e mesmo adolescentes assumiram o peso da casa de trabalhar forte na roça. A gente ajudava, mas o peso maior era deles. Eles pescavam e trabalhavam na roça. Nós trabalhávamos também na roça, contribuíamos. Era uma família que tinha uma ajuda mútua entre mãe, filhos e todos. Todo mundo trabalhava em comum, ninguém tinha nada para si. A gente trabalhava e a produção toda ia para casa. A gente vendia o que não se necessitava de comer, porque a gente tirava a farinha, o feijão, o milho, a reserva da família para ter alimento suficiente em casa. E o restante, o excedente, a gente vendia para comprar roupa, sapato o que desse e fosse possível. Aí a gente fazia a divisão. Quem tinha maior necessidade de “x” coisa, era a esse que era dado prioridade. Era a regra da família, muito unida. E a gente cresceu, casamos todos. 

Minha mãe morreu vinte anos depois que meu pai tinha morrido. Mas aí, quando ela morreu, tinha se casado o último filho. Estava todo mundo nas suas casas. Uma família muito unida, graças a Deus.

 

P/1 - Como foi a sua escola?

 

R – A escola onde eu estudava não existia. Havia ali uma pessoa que ensinava, nesse tempo, o alfabeto e algumas coisas. Porque alguma professora que aparecia era semi-analfabeta também. Mas a gente valoriza muito isso, porque sabe que o pouco que elas sabiam, elas tinham prazer de compartilhar na comunidade com as pessoas. E as pessoas aprendiam a escrever seu nome e alguma coisa. Foi assim. 

Antes de meu pai morrer, eu tinha um sonho muito grande. Eu nasci muito dotada de inteligência, de tanta coisa, que eu tinha um carisma muito forte. Eu me lembro que minha irmã, a segunda irmã, foi para uma escola, onde estudou até a segunda série do primeiro grau. E ela escondia um livro que nós pegávamos, eu e meu irmão. Nós subíamos na rede, íamos nas paredes da casa, fazíamos tudo, e adquiríamos esses livros dela para ler. Meu irmão pegava para folhear as figuras do livro, e eu para ver a leitura. 

Eu tinha vontade, chorava para ir à escola. E meu pai dizia: “Quando você crescer mais, você vai”. Eu sei que aos seis anos, mais ou menos por aí, meu pai começou a pagar uma sobrinha dele pra me ensinar, porque ela sabia ler um pouquinho. Não existia escola pela prefeitura, de jeito nenhum. Era pago mesmo. Tinha que dar o caderno, o livro, o lápis, tudo. E pagar ainda a professora. Era escola particular. Se fosse boa, ótimo. Mas no campo...

 

P/1 - Essas professoras eram uma iniciativa própria?

 

R – Elas davam uma aulinha e os pais...

 

P/1 - Elas eram da paróquia, da comunidade?

 

R – É. Eram da própria comunidade, os pais se juntavam e faziam uma combinação de tantos meninos. Porque já que meu pai não podia pagar um salário mínimo ou uma quantia “x”, então se juntava ali um grupo de pais que botavam aqueles meninos e cada um pagava um “x” por mês. E ela arrecadava aquela porcentagem que dava mais ou menos o valor de um salário mínimo mensal. Isso era bom, a combinação da comunidade. Eu, esses dois anos que meu pai foi vivo, que me botou na escola, aprendi.

Quando eu fui pra escola, não sei porquê, eu já sabia ler. Eu conhecia todas as letras do alfabeto, sabia a junção de nomes, sabia ler. Então eu tinha um certo avanço. E eu passei parece que dois meses com essa minha prima e aprendi até a primeira série. Em dois meses, eu passei tudo isso. E então eu decidi não ir mais para escola dela, porque eu queria aprender Matemática e ela não sabia. Eu lia o que dizia, como devia se fazer as letras, os exercícios e eu entendia os exercícios do livro. Eu dizia: “Ah, Carla! A gente tem que fazer assim”. E ela dizia: “Se tu sabe fazer, pois faça”. E eu pegava e fazia as contas sozinha. E disse: “Papai não paga mais, porque a Carla não sabe”. Eu saí da escola dela. Depois ele pagou mais dois meses de outra mulher. Quando papai morreu, eu tinha quatro meses de escola.

 

P/1 - A outra mulher era da comunidade também?

 

R – Da comunidade. Mas essa sabia mais um pouquinho. Ela ensinava contas de somar, diminuir e multiplicar. Ela só não sabia contas de dividir. Mas as outras tinha roteiro e me ensinaram a somar, multiplicar. 

 

P/1 - Em que momentos você estudava? Porque você também ajudava no trabalho da família, né?

 

R – Sim, é uma rotina que...

 

P/1 - Como era essa rotina? 

 

R – Amanhecia o dia cinco horas da manhã, quatro horas. Meu pai saía para roça com meus irmãos. Nós ficávamos em casa, às vezes, ou também íamos pra roça. Porque éramos três irmãos homens - quatro com um neto que minha mãe criou - e cinco irmãs mulheres. Porque quando eu nasci, minha primeira irmã já tinha se casado. Então nós éramos cinco em casa. E eu ficava mais sem acompanhar muito, porque eu era a última filha e era muito mimada. A mamãe dizia que as outras que trabalhavam mais... Mas mesmo assim eu ajudava. Ia pra roça ajudar a apanhar o feijão. Não fazia trabalho muito pesado, mas já fazia algumas coisas.

 

P/1 - Sua mãe ia também para roça?

 

R – Ia. E quando chegava em casa, ajudava a debulhar o feijão, a descascar a mamona, a debulhar o milho no dedo, dedinho de criança doía. Fazia calor, porque debulhava o milho no dedo mesmo. Então era assim. Uma vida muito pesada. E a gente vivia disso, da agricultura, da criação de porco, cabra, galinha, ovelha, pato, peru. A gente criava para se auto-manter. Porque quando faltava o peixe, como nós morávamos perto da praia, nós tínhamos carne para comer. E sem contar o feijão, o milho, a batata doce, o “jerimum” que minha família produzia. Nunca vi dinheiro na minha casa sobrando para dizer: “Vai comprar isso ou botar no banco”. Mas comida natural a gente tinha suficiente. Nunca passei fome.

 

P/1 - Havia troca na comunidade, entre as pessoas?

 

R – Havia muita troca. Por exemplo, meu pai pescava de tarrafa. Tarrafa e paquete, uma canoinha pouco maior que essa mesa. E meu pai botava no mar, botava umas redes em cima e trazia muito peixe. Nesse tempo, não havia muita gente, era uma localidade com poucas pessoas. Acho que tinha onze famílias. E então eles pegavam peixe muito próximo da praia. E tinha peixe suficiente. E os que não pescavam traziam coisas pra trocar com meu pai, se ele não tivesse, trocava por peixe. E assim a gente vivia, trocava peixe por goma ou outra coisa. O que a gente não tinha, trocava com os outros. E também a gente plantava algodão e fiava. Eu aprendi a fiar muito pequena. Fazia um fuso, uma vara de pau fino, igual uma cobra, pesada, que você torce no dedo e vai puxando o algodão e ele vai fazendo em forma de x. Passa na perna, dá uma rodada e fazendo um x.

 

P/1 - Quem te ensinou?

 

R – Minha mãe me ensinou. Ah, eu fiava muito. Tinha uma...

 

P/1 - Você gostava de fiar?

 

R – Gostava, mas não dá mais. Com o tempo a vida da gente vai mudando. Eu fiava. Tinha maioria para trocar de trabalho com as outras colegas, porque trabalhava num mutirão. E tinha uma regra, a mulher que fiava o valor de 125 gramas de fio por dia, essa mulher era muito forte. E eu fazia isso. Fiava mais de 125 gramas por dia. Eu fazia trocando com as companheiras. Fiava um tanto para uma, trabalhava em mutirão, todo mundo fiando isso. No outro dia, elas iam fiar para mim. Era assim.

 

P/1 - Mutirão como?

 

R – Mutirão de mulheres. A gente chama de mutirão, quando um grupo se junta pra fazer um trabalho. 

 

P/1 - E o mutirão era para fiar?

 

R – Era para fiar, para cuidar do algodão. Minha mãe também tinha um tear manual e esse tear também dava renda suficiente pra casa. Elas teciam redes pra nós e teciam redes de outras, desses fios que a gente fiava. E quando elas teciam para terceiros, recebiam o dinheiro por isso e a gente tinha mais essa renda de dinheiro na família. Além da sobra na produção, também tinha essa. É isso, a vida do interior se completava: pesca, agricultura e alguma outra coisa assim.

 

P/1 - Vocês também se juntavam em outros mutirões?

 

R - – Nos juntávamos para apanhar feijão, apanhar algodão nos roçados, para debulhar milho, raspar mandioca nas casas de farinha.

 

P/1 - Era uma tarefa de mulher?

 

R – Era. Tudo isso elas que faziam. Era trabalho bem... Raspei tanta mandioca. E eu achava bom. A gente se levantava três horas da madrugada para ir pra casa de farinha, tinha que caminhar mais ou menos uns dois quilômetros de pés. E ia pra lá, ficava toda suja, mas era um sujo gostoso. Raspava mandioca, depois a gente passava num pano para tirar a goma, para fazer tapioca e, com a massa, fazia farinha. A gente raspava, tirava a goma, botava nos vasos, peneirava. Todo esse trabalho que a gente fazia. Se você me perguntar de trabalho no interior, vai levar uma noite.

 

P/1 - Eu fiquei curioso, porque você disse que foi sua mãe que lhe ensinou. Como era sua mãe? Ela também tinha esse mesmo cotidiano?

 

R – A mesma coisa. Ela também sabia fazer renda, só que a renda que ela fazia era essa renda preta pra enfeite de vestido. Ela fazia o que nós chamávamos de camisa de mulher, que era um vestido de outro vestido, muito rendado, bonito, para vestir por debaixo do vestido. Ela fazia umas camisas de gogó redondo, cheio de renda, rodado na saia. Eram uns vestidos muito bonitos, só que era para usar escondido, porque era para botar o vestido por cima. E, às vezes, botava um vestido fino e transparecia um pouco. Era muito bonito o tipo de trabalho que elas faziam.

 

P/1 - E sua relação com sua mãe?

 

R – A gente era muito próxima. No final, eu andava muito mais com ela. Quando eu era pequena, eu acho que fiz muito minha mãe sofrer. Porque uma das minhas irmãs sofria de epilepsia e ela morreu no último de fevereiro e sepultou-se no primeiro de março. E aí passou o mês de março, meu pai adoeceu. Quatro, cinco dias depois que ela morreu, meu pai adoeceu. E no dia doze de abril do mesmo ano, meu pai também morreu. Então minha mãe teve uma perda muito grande. Ela ficou chorando muito, porque perdeu uma filha e o marido muito perto. E tinha aquela renca de meninos, porque meus irmãos eram pequenos ainda, com quatorze anos, dezesseis, eram adolescentes. Só tinha duas jovens grandes. O resto era de dezesseis anos para baixo, só criança. Ela sofreu muito. 

E eu queria muito ver meu pai e ficava chorando, ficava dentro de casa no quarto. A gente dormia todos juntos, no mesmo quarto. Por sinal, minha redinha era armada perto da rede do meu pai. Eu achava bom, porque eu dormia e quando era de manhãzinha que ele se levantava, pegava o lençol dele que era muito grande e me embrulhava bem embrulhadinha. Ele dizia: “Se acorda moça preguiçosa”, na hora que ele estava me empacotando para eu dormir mais.  Eu me acostumei e na minha casa era sempre a última que acordava, era muito mimada. E, graças a Deus, esse conceito cresceu e ainda hoje eu sou muito admirada por minha família, por meus irmãos, graças a Deus. E eu fiz ela sofrer, porque fiquei chorando. Ia para o quarto, ia para a cozinha, ia para a sala, ia para a outra sala pequena e ficava procurando. Ficava ao redor da casa, procurando e chorando. A casa era pequena, eu achava que ia encontrar. Eu era muito chegada a ele e achava que ia encontrá-lo em algum canto. E quanto mais eu chorava, mais ela chorava também, de ver a minha perseguição de inocência. Eu achava que ia encontrá-lo. Mas, por incrível que pareça, não sei se porque era criança, mas poucas vezes eu sonhei com meu pai. Mas minha mãe morreu já depois de eu casada e é difícil uma semana que eu não sonhe com minha mãe. E eu sonho naturalmente, assim andando, como a gente andava. Junto com ela nos trabalhos, indo passear na casa dos amigos e compadres, que era eu que acompanhava. 

Eu tinha muita confiança e ao mesmo tempo eu era rígida, porque eu nasci muito revolucionária. Eu não aceitava ninguém ditar regras para mim. E eu tinha uma briga interna em casa, briga não, porque nunca nos batemos. Mas não me unia bem com minha irmã mais velha, a mais velha que morava ainda dentro de casa, porque ela queria me mandar. E eu nunca aceitei ninguém me mandar. E minha mãe tinha as regras dela: naquele tempo, moça do interior não usava batom, as filhas só usavam batom se o pai mandasse; não dançavam, porque era pecado; vestia a moda que os pais queriam; saíam pra festa que os pais deixavam sair. Era assim. E eu não. Quando eu fui crescendo, mesmo acompanhando minha mãe, eu fui usando batom, eu desobedeci. No forró, porque às vezes ela acompanhava a gente, eu dançava para ela ver. Então eu fui a ovelha negra.

 

P/1 - Ela também era rígida?

 

R – Não era tão rígida, mas é porque era a regra que tinha. A cultura local tinha que manter. Eu hoje faço mais palhaçada do que fazia de moça, muito mais.

 

P/1 - As festas eram sempre festas religiosas?

 

R – Às vezes eram festas religiosas, outras vezes eram brincadeiras da comunidade. Existia um velho que morava perto, que era sanfoneiro. Tocava uma bicha que é menor que sanfona, que se chamava harmônica. Ele fazia forró. Mas olha como era esse forró: primeiro tinha um novenário de santo e na última noite se fazia um leilão e depois do leilão era um forrozinho pra gente dançar. E aí também só me lembro de festas assim. Não tinha aquela coisa de fazer festa por fazer. Fazia a festa já anexada a um rito religioso. Eram as festas que dava para fazer: leilão, de cantorias de violeiros, de serenatas. O pessoal fazia muita serenata. Eu acordei muito, sou apaixonada por toque de violão, e acordava a noite com o pessoal tocando, a gente abria a porta. Ia até quase amanhecer. Era festa muito bonita e ali se juntavam as famílias, a comunidade, na claridade da lua. Nem pensava em energia.

 

P/1 - Aí que você pegou o gosto de cantar?

 

R – Cantar, eu tinha vontade de cantar desde criança, porque tive muito sonho na minha vida: tive sonho de ser cantora, tive sonho de ser radialista, tive sonho de ser professora. Imagina, tive sonho de ser freira! Porque eu achava bonita aquela de hábito, bem empacotada. Mas, na minha vivência, mesmo não tendo encontrado chance, eu descobri que talvez não fosse a verdadeira freira. Porque freira tem muita obediência e eu nunca fui obediente a ninguém.

 

P/1 - Mas cantora você se tornou...

 

R – Pois é. Mas a pior coisa que eu acho dos encontros é ter uma regra pra acabar a “x” hora, porque eu quero estar num canto e sair a hora que eu quiser.

 

P/1 - Posso te pedir um favor? Eu queria que você cantasse aquela canção que virou um hino nas marchas.

 

R – Essa luta não é fácil. Eu comecei a fazer algumas músicas, perdi algumas. Mas, essa, eu fiz agora, depois que comecei a entrar nos movimentos de mulheres.

 

“Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder.

Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder. 

 

Vamos juntas companheiras, 

vamos botar pra valer

Vamos quebrar as correntes

Do machismo e do poder.

 

Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder.

 

Sem a mulher neste mundo, 

seria triste demais 

Não nascia gente nova

O mundo não tinha paz.

 

Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder.

 

A mulher nasceu pra ser 

pelo homem bem amada

Ser amiga e companheira, 

não pra ser discriminada.

 

Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder.

 

Somos gente, somos força

Temos que ter igualdade.

Ao lado dos homens fortes,

transformar a sociedade.

 

Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder.

 

Vamos conquistar o espaço

Que tem no mundo pra nós.

Chefiar os sindicatos e

Na política ter voz.

 

Essa luta não é fácil, mas tem que acontecer.

A mulher organizada tem que chegar ao poder”

 

(Aplausos)

 

P/1 - Foi numa dessas festas que você conheceu seu namorado?

 

R – Não, eu namorei muito. Comecei a namorar quando tinha onze anos de idade. Eu cresci muito rápido. Com nove anos de idade, eu já estava mocinha e nesse período eu já tinha perdido meu pai e surgiu na região um movimento chamado de Círculo Operário. E quem se associava pagava uma certa quantia e como recompensa tinha uma escola no local. Fundaram lá uma escolinha numa comunidade perto e eu fui para a escola do Círculo Operário, onde eu passei mais ou menos um ano. Não, passei uns seis meses e saí porque a dona da casa teve uma certa briga comigo, porque ela bebia cachaça e um dia se embriagou e eu não aceitei. E bêbado é valente, a mulher pegou meu livro e jogou fora e eu revoltada não fui para escola na casa dela. E nesse tempo, tinha um primo que se apaixonou por mim. Era aquele namoro, sentar perto. A gente começou a paquerar muito pequena. Depois disso, fui paquerando outras pessoas.

 

P/1 - Ele foi o primeiro?

 

R – Ele foi o primeiro. Eu nunca tive namorado firme, de beijo. Não. A pessoa com quem eu mais namorei foi com o rapaz que eu casei. Foram dois anos. 

 

P/1 - E onde você o conheceu?

 

R – Era da comunidade. A gente era primo e morava muito perto. Ele é mais novo que eu quatro anos. Só que, se você vê hoje, pensa que ele é quase meu pai. Acho que é porque ele engordou muito, tem problema de saúde, e também a vida do mar que abate muito o homem. Ele ficou muito idoso, mas é mais novo que eu, quatro anos.

 

P/1 - Quando você se casou?

 

R – Eu me casei com 23 anos e não porque fosse tão danada para casar. Porque eu diria a vocês, sou casada, gosto do marido, gostei e ainda gosto, tolero, tem dia que dá vontade de mandar para longe. Por três vezes, quase me separei dele, não separei por causa dos meus dois meninos que eu criei. Eu tinha responsabilidade com eles, recebi as crianças de outras famílias. Eles viviam comigo e tirar essas crianças para terceiros, aí é que endoidava mais. Porque filho adotivo já é meio problemático, imagina então repassar para outro, para terceiro. Por isso eu aguentei. Mas quase que me separei dele. Quase, quase, quase. Mas a gente se conhecia, era da comunidade mesmo. Eu trabalhava numas farinhadas e vim trabalhar numa farinhada do meu sogro e a gente começou a paquera no trabalho mesmo. E depois foi...

 

P/1 - Aí, casou?

 

R - Casei. Acabei me casando com ele. Algumas coisas eu percebia que ele dava certo comigo. Uma coisa que ele é bom, nesse sentido, é que a gente briga, mas ninguém tem ira. A gente briga, discussão, mas daqui a pouco está falando como se não tivesse brigado. E, às vezes, eu sinto que mesmo me machucando, porque realmente tem homem que parece que gosta de machucar mulher só por prazer, mesmo me machucando, eu sinto que ele gosta de mim. Não devia fazer, porque quem gosta não devia machucar. Mas eu acho que a maioria dos homens são assim, machuca porque gosta de ver a mulher chorar, gosta de ver a mulher atrás dele. Sabe? Só que eu fui só por um certo tempo, porque depois aprendi a me valorizar e não vou atrás de homem nenhum.

 

P/1 - Mas ele te atrapalha no seu... Você é super ativa.

 

R – Mas isso depende muito do estilo da mulher.

 

P/1 - Como é?

 

R – Quando nós casamos, eu já era um tipo de liderança na comunidade. Desde criança, eu tinha muita fé na comunidade, rezava terço, aprendi a rezar terço porque era a coisa da moda da época. Eu aprendi a rezar terço e conseguia chamar a juventude, chamar a juventude e os mais idosos. Então eu lia, sabia ler e, com esse pouco que eu sabia, também virei a professora semi-analfabeta ensinando. Não porque eu fosse a professora formada, mas porque eu via a necessidade local e tinha que ensinar. Então juntava grupos de meninos, os pais me pagavam por mês. Com isso eu tinha minha independência. Comecei a alfabetizar quando tinha treze anos. Eu sempre fui uma menina independente dos meus irmãos. Sempre tinha meus trocados pra comprar meus vestidos, meu sapato, meu batom. Sempre fui assim. E eu tinha uma certa amizade na comunidade. E foi no tempo que começou às comunidades e eu fiquei muito amiga das pessoas. 

E quando eu casei, foi na época que lá surgiram as comunidades eclesiais de base. Eu entrei na igreja. Fazia celebração, tive uma formação quase de freira mesmo, porque eu fazia celebração da palavra, fazia preparação de casamento, fazia preparação de batizado, preparação de crisma. Fazia parte do conselho paroquial e diocesano de leigos engajados. Então tinha uma ligação tão forte com a igreja que acabei também me martelando com o bispo e não fui mais. Porque igreja é assim, te dão liberdade até um certo ponto. Mas quando ela vê que você enxerga além do nariz ou cria voz pra dizer “não”, porque eu nunca soube dizer “sim” ao que eu não quero, como eu não disse “sim”, houve briga e eu acabei... Eu não rachei de vez, porque ainda faço muita coisa na comunidade, eu sou católica, tudo bem, mas acabei deixando mais pra lá.

 

P/1 - Tinha padre na comunidade?

 

R – Tinha não. O padre mora muito distante e a gente ia para a paróquia. Nós é que fazíamos várias coisas na comunidade. Preparava tudo para quando o padre viesse. Isso era trabalho voluntário que a gente fazia para igreja, ninguém fazia para ganhar nada. E, quando eu me casei, já tinha essa certa liderança. E aí também, quando eu me casei, era exatamente na época em que se formou uma colônia de pescadores, como que diz, uma mini-delegacia da capitania dos portos, e nessa colônia os pescadores estavam organizados. E esse dinheiro que eles arrecadavam de pagar mensalmente para a colônia era retribuído com uma escola para os filhos deles. E a professora nomeada fui eu, logo no ano em que casei. Comecei como professora e tinha todo esse trabalho da igreja. Acabei deixando de ser professora, mas mesmo assim voltei a ensinar alfabetização de jovens e adultos. Ensinei muito tempo pelo método Paulo Freire, aprendi muito. Aprendi a respeitar o outro, a tirar dele o que ele sabe, a valorizar mais o outro. Foi muito bom.

 

P/1 - Como você conheceu o método Paulo Freire?

 

R – Conheci pelo MEB, que é o Movimento de Educação de Base, coordenado pela diocese. Eles trabalhavam com esse método para ensinar jovens e adultos nas comunidades onde existiam jovens e adultos analfabetos. Eu ensinei muito tempo por ele. Depois ensinei um ano pelo Unicef, que tinha esse mesmo método. Ensinei muito tempo, mas era parcelado. Dava seis meses, parava. Depois ensinava de novo. Assim, pelo Unicef, ensinei um ano e depois acabei desistindo.

 

P/1 - Pelo MEB também era trabalho voluntário?

 

R – Eu tinha minha gratificação. Como professora, em tudo quanto é que eu ensinei, eu tinha minha gratificação.

 

P/1 - Você foi ensinar fora da comunidade?

 

R – Não. Ensinava na comunidade. Eu ensinei fora da comunidade quando era solteira. Eu fui para uma outra comunidade distante, onde tinha um pessoal que fazia parte da minha família, por parte de mãe. Um tio meu me levou pra lá pra eu alfabetizar uns jovens e uns adolescentes. Num ano, eu fui e passei quatro meses, no outro, eu fui e passei três meses. Depois voltei. Foi a viagem que eu fiz fora da comunidade para ensinar. O restante ensinava na comunidade. E foi quando eu entrei pra esses movimentos de igreja. No movimento de igreja, estava engajada no movimento popular, sindical, partido, comissões, foi quando o CETRA começou fazendo articulação com os trabalhadores, já participava do movimento de mulheres e fui me envolvendo mais. 

Em 86, eu participei do primeiro encontro de fundação do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste. Aí pronto. Eu voei. Foi a primeira viagem que eu saí além do estado, fui para João Pessoa e já fiquei na primeira comissão provisória, que organizava as coisas. Eu passei logo doze anos nessa coordenação.

 

P/1 - Quando começou a trabalhar com as mulheres?

 

R – Eu comecei a trabalhar com as mulheres nesse movimento de igreja. Tinha um movimento que chamava Dia do Senhor, que juntou algumas mulheres. Esse movimento articulava, dava uma certa visão crítica para os movimentos sindicais. Era um padre e uma freira americana. E a freira começou a descobrir que para as reuniões só iam homens. Então a freira decidiu que, para as mulheres participarem, tinha que fazer um encontro de esposas. Aí começou a história de encontro de esposas. Só que a gente começou a se reunir com esposa, mas foi todo tipo de mulher, porque a gente descobriu que as esposas são exploradas, mas as prostitutas também são, as solteiras são. Então tem que trabalhar a questão das mulheres. E aí a gente virou para isso. E quando eu comecei a trabalhar com o CETRA, o CETRA tinha um trabalho que era chamado Mulher e Cidadania, um programa.

 

P/1 - O que é o CETRA?

 

R – Centro de Estudos e Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador. É uma ONG que tem sede em Fortaleza, mas vai para as comunidades. Ainda hoje ela trabalha lá.

 

P/1 - Essa ONG é ligada a quem? A igreja?

 

R – É autônoma. Mesmo trabalhando muito com pessoas da igreja, não tem vínculo nenhum. Começaram sozinhos vendo uma realidade. Começaram como assessoria de trabalhadores, depois passaram para a questão da desapropriação das terras. Hoje já estão com programa de geração de renda, para melhor condição nas áreas de assentamento. A questão da água, nesse programa de um milhão de cisternas, eles também estão por dentro. Muita coisa. A COOCREDI é iniciativa deles, do CETRA. Porque eles acham que o banco, eles acham não, os bancos excluem muito o trabalhador rural quando vão fazer empréstimo. É uma burocracia danada, muitas vezes, você não tem licença nem de chegar perto do gerente. A COOCREDI é como se fosse a casa dos trabalhadores, vai lá e negocia, faz o empréstimo, paga na hora que quer. As regras são totalmente diferentes.

 

P/1 - Como você começou a focar só as mulheres? Como foi esse percurso?

 

R – Em 86, além de eu ter trabalhado com esse movimento, eu também fazia parte de um grupo de oposição sindical no meu município, porque o sindicato era muito pelego lá. Trabalhava só para o lado dos patrões e a gente queria que o sindicato de trabalhadores rurais mudasse essa realidade. Eu era da oposição e me candidatei a presidente do sindicato. Nesse tempo mulher não entrava no sindicato, nem era sócia. A gente registrava na carteira como dependente do marido. E nós criamos uma revolução no município, quando nessa data se filiaram mais de quatrocentos mulheres, obrigamos o sindicato a nos filiar. Eu estava no meio das brigas. Depois de vinte anos, dezoito anos trabalhando, como que a gente ia ficar só como dependente dos homens, trabalhando junto com eles todo dia? Deu muita briga, muita confusão. Eu fui brigando, mas para mim era uma contradição, porque eu fico brigando demais com os homens. Tem hora que não dá para trabalhar. Tem homens honestos, sérios, mas tem uns que perdem o controle de tudo.

 

P/1 - Mas esses trabalhos, essas organizações que você participa, elas também tem ligações com outros movimentos? Como se dá?

 

R – Com o movimento de mulheres, a gente vê a necessidade de parceria com outros movimentos. Por exemplo, o MMTR Nordeste, ele surgiu onde tinha participação de movimentos, dessas ONGs que participavam nos   municípios. Nós fomos contatados pelo MMTR. É como se fosse um pedaço do CETRA entrando dentro. No Rio Grande do Norte, é um movimento pela igreja chamado – Serviço de Assistência Rural. Esse movimento também estava lá. De Alagoas era a CEAPA, no Maranhão era pela Pastoral da Mulher, no Piauí era pela Pastoral da Terra e a CPT. Em Pernambuco, era pelo movimento sindical. Nós fomos juntando esse bolo, esses pedaços se juntando, mas a gente sempre respeitou de onde o outro veio. O que nos interessava naquela hora era a junção das mulheres e trabalhar para que elas, dentro de sua instituição, pudessem se capacitar para ir ao confronto. Não de briga, mas ter voz e ter vez para lá dentro questionar, fazer acontecer. Mais ou menos isso. 

Nós tínhamos mulheres de várias organizações, mas no fundo, no fundo, nós queríamos era formar um movimento de mulheres que mesmo ligadas a isso ou aquilo, se tornassem autônomas para brigar ali dentro, se capacitassem para isso. E teve mulher que depois fez o movimento sindical, sendo dirigente de sindicato e tudo. Uma coisa que eu acho muito boa no MMTR é esse respeito que a gente tem pela diferença e a visão do que nós queremos. Por exemplo, a mulher é o foco certo. O que nós queremos é essa capacitação, é esse crescimento da mulher. Não importa em que organização ela esteja. Por isso que trabalhamos a questão do corpo, para que ela se entenda, se auto-valorize. E isso mudou muito. A mulher aprendeu a se valorizar mais, andar mais bonita, mais arrumada, tanta coisa que a trabalhadora às vezes... Eu, não. Confesso a você que eu sempre fui vaidosa. Só não estou aqui bonita porque não posso. Mas realmente, minha condição financeira me dá até aqui. Eu aprendi com a minha família duas coisas: primeiro lugar, comida para auto-manutenção da vida, da saúde; e roupa, calçado, televisão, beleza dentro de casa. Isso eu aprendi. Mas tem pessoas que não são assim. Tem mulheres que começaram e você via aquelas pobres coitadas, cabelinho desgramado para cima do olho, um cocó com pente, toda desarrumada. Hoje você vê que andam nos trinques, salto alto, toda bacana, vestidinho bem alinhado. A gente vê como as mulheres mudaram.

 

P/1 - Como é essa capacitação?

 

R – Na capacitação, a gente aborda um tema e se temos pessoas no movimento capacitadas nesse tema que a gente quer abordar, nós fazemos a capacitação. Se não temos, nós chamamos assessoria de fora e fazemos a capacitação. 

Por exemplo, a campanha de documentação da trabalhadora rural, nós sempre trabalhamos só, porque é uma coisa de conscientização da trabalhadora buscar, orientar por onde ela tira os documentos e fazer campanha, pressionar o governo. Hoje, eu digo a vocês, que se existe um projeto no Governo Federal de que a documentação é uma política pública, que você pode tirar registro, carteira de não sei o quê, é graças a esse nosso movimento. Porque nós pressionamos o governo, eu participei dessa turma, ficamos seis dias em Brasília, vasculhando tudo quanto foi Ministério, entregando documento na mão do governo Lula. E como ele é um governo mais ou menos popular, ele aceita. 

A questão da Marcha das Margaridas… O foco que nós levamos uma pauta de reivindicação. Levamos várias: a questão da terra, a questão do crédito para as mulheres, a questão do aumento do salário. Isso nós brigamos, por aumento de salário. Porque nós achamos que você como assalariada, tendo um melhor salário, vai pagar melhor pela minha produção. É uma visão que a gente tem e briga pelo aumento do salário. A questão da saúde especializada pras mulheres, todas essas coisas formam um montante de reivindicação que a gente entrega ao governo, aos deputados, ao senado. Vamos negociar e pressionar. Todas essas coisas que acontecem, salário maternidade, aposentadoria da mulher aos 35 anos, todas elas, nós tivemos participação, porque a gente estava lá com as companheiras, com os outros, pressionando deputados, pressionando governadores. As coisas melhoraram um pouco, mas não é porque os governos são bons, não. É a pressão do movimento de mulheres.

 

P/1 - Você citou o exemplo da Marcha das Margaridas. O que foi?

 

R – Marcha das Margaridas é uma marcha que junta vários movimentos de trabalhos feministas e movimentos mistos, como o MST, o movimento sindical, a Contag. Muitas vezes a bandeira de frente é a Contag, e dentro da Contag existe uma comissão de mulheres. Até porque elas estão num movimento misto, vão articulando, vão juntando outros movimentos. Só para ter uma ideia, nessa última Marcha das Margaridas de 2003, nós botamos mais de cinquenta mil mulheres dentro de Brasília.

 

P/1 - Como começou essa marcha?

 

R – Exatamente essa discussão que a gente fazia de levar documento de pauta e juntar muita gente pra pressionar, muita mulher. Porque para ir com uma pauta e duas mulheres, às vezes, nem se é recebida. Mas se vão duas, três fazer a negociata lá, porque não entra todo mundo, mas nós estamos milhões ao redor do Palácio do Planalto, estamos lá no Palácio do Governo fazendo barulho.

 

P/1 - Mas como conseguiram juntar cinquenta mil mulheres? De todos os movimentos do Brasil?

 

R – Apoio, tanta coisa, sindicatos. As mulheres fazem muita coisa, bingo, rifa nas comunidades, cada uma faz o que pode. E também a gente tem ajuda das ONGs, dos sindicatos, das federações dos sindicatos, da própria Contag, das ONGs do exterior, porque a gente faz projeto. E aí tudo isso você junta, arrecada e faz. Tivemos nessa última também, o apoio do projeto PDHC – Projeto Dom Helder Câmara. A gente estava trabalhando a campanha de documentação e ele também nos apoiou com uma certa quantia financeira. A gente vai trabalhando, freta ônibus. Como eu sofri! Ir de ônibus pra Brasília nunca mais. Freta ônibus, enche de mulheres e vai. Chega em Brasília e faz um auê.

 

P/1 - Vocês têm uma pauta que já foi discutida antes?

 

R – Sim. Antes teve uma preparação. Existem os encontros em cada movimento para organizar cada um deles. Existem os encontros regionais, municipais, estaduais para depois chegar a uma coordenação nacional. Essa coordenação prepara tudo e no final está tudo arrumado.

 

P/1 - Dessa articulação, já chegamos na Rede LAC então? Primeiro eu queria saber como você entrou, como apareceu essa ideia de ter a rede?

 

R – Aqui no Brasil, depois que houve o Primeiro ENLAC, a gente tirou uma comissão que iria cuidar desses assuntos da Rede e se tornou uma coordenação. Fomos lutando até conseguir uma sede própria. Porque nós necessitávamos de um local pra junção de todos os documentos. Por exemplo, Equador queria mandar um aviso, para quem manda? Então existia essa discussão de onde devia ser essa sede. Primeiro nós votamos no Peru, mas não foi possível. Depois decidimos que ia ficar no Brasil. Durante muito tempo o MMTR Nordeste ficou com esses materiais. Todas as notícias vinham pro MMTR, porque a Vanete também participava do MMTR nesse tempo, como assessora e tudo chegava no MMTR. O MMTR assumiu também a conta bancária da rede. Para dar qualquer ajuda para a Rede, entrava na conta do MMTR e eles passavam para a Rede, porque a Rede juridicamente não era registrada e não podia. E foi indo até que a gente conseguiu, agora em 2003, a sede, e conseguiu também fazer o estatuto e montar a coordenação. 

E a razão de eu estar nessa coordenação desde o início é porque a gente tinha essa coordenação provisória, mesmo sem ser registrada, a gente fazia parte dessa coordenação. Existia esse grupo que cuidava.

 

P/1 - Que era um grupo que tinha vindo do MMTR?

 

R – Era do MMTR. Hoje, praticamente a rede está assim: quem faz a coordenação da Rede são os movimentos. Aqui no Brasil, por exemplo, fazem parte a Contag, o MAMA e o MMTR. São as pessoas que estão na direção da Rede.

 

P/1 - Quem é da Contag hoje?

 

R – Da Contag é sempre a presidente. Hoje é a Carmem, uma menina lá do Pará. É muito boa, tem uma visão muito boa. E aí MAMA tem um certo crédito, mas acho que vai retomar.

 

P/1 - O que é MAMA?

 

R – Movimento Articulado das Mulheres do Amazonas, uma coisa assim. Daquela região, Tocantins, Pará, até do Maranhão, tem um pessoal que faz parte.

 

P/1 - Eu fico curioso com esse começo do MMTR, porque ele vai ser importante para surgir a rede. Onde surgiu o MMTR?

 

R – Num encontro que foi a Vanete e Auxiliadora, porque elas faziam parte do movimento do Sertão Central, isso por volta de 85, ainda. Quando elas chegaram desse movimento, também chegaram com a decisão de articular as mulheres. Porque havia toda uma negatividade de que trabalhadoras rurais não apareciam nesses movimentos grandes. Elas sentiam falta disso. Estavam lá mulheres, mas se era uma conferência pra falar de assuntos de mulheres, porque não todas as camadas, índias, negras, brancas, todas as classes? Então existia o movimento do Sertão Central e o da Paraíba. Os dois movimentos se juntaram e resolveram fazer essa articulação no Nordeste para saber quem trabalhava com mulheres trabalhadoras rurais. Essas pessoas que eles contataram, essas ONGs, entidades, igrejas, que trabalhavam com mulheres trabalhadoras rurais foram convidadas a levar seus representantes. E assim, no Ceará, o Cepra foi convidado. 

Fomos Margarida, que era a secretária, eu e Vera, que era uma amiga minha, para esse primeiro encontro. E quando nós saímos, saímos com essa discussão, porque na troca de experiência que você vai vendo a necessidade. Não tinha aposentadoria para trabalhadora rural, não existia salário maternidade, não existia nada. Nós já saímos desse encontro com a carta de pauta assinada e enviada aos deputados federais pressionando pra que fosse votada uma lei, sancionada uma lei, onde a trabalhadora rural fosse aposentada independente de ser casada, solteira, quem fosse. Nós queríamos mais, queríamos que fosse aos cinquenta anos. Depois foi aos 55. Epa! Parou dinheiro no bolso! É aos 55 anos que se aposenta. 

Eu me lembro muito que a gente cantava uma música que é de um cara, parece que do Rio Grande do Sul, ele cantava assim: “Mulher da roça só pode se aposentar no dia em que morrer o seu marido”. Porque ela tinha uma pensão. Não era aposentadoria, era pensão. A gente trabalhou, fez a carta e enviou para o Senado e para os deputados federais para que eles fizessem essa lei de aposentadoria. Uma carta bem feita e assinada por todas nós que estávamos lá presentes. E, ainda mais, tinha outro estado como o Rio Grande do Sul que tinha uma pessoa participando, também assinou. E nós achamos que era pouco, mesmo sendo poucas pessoas, estava ali representando um estado. Essa carta eu acho que foi muito válida, porque mexeu mesmo. No ano de 88 foi aprovado. A partir daí a gente ficou articulando e foi quando surgiu esse outro encontro em noventa, lá na Argentina. Criou-se aquela história da oficina, elas se juntaram lá. E também por falta de trabalhadoras rurais...

 

P/1 - Elas quem?

 

R – Vanete e Betty que estavam nessa reunião, lá na Argentina, e acabaram fazendo uma oficina lá. E saíram com a proposta de trabalhar num encontro latino-americano. E foram trabalhar. Em 92, a Vanete já tinha me enviado como assessora do movimento, porque eu já tinha feito algumas articulações e a gente já pensava no Primeiro ENLAC. Foi quando me convidaram a fazer parte desse negócio. Eu já era de um movimento e me nomearam, eu e a Vanete, que era para ter uma assessora e uma trabalhadora.

 

P/1 - Você já era do MMTR?

 

R – Já era do MMTR. A partir daí, fui para a primeira reunião em Fortaleza. Depois disso, a gente ficou aqui na articulação no Ceará, fui para Beijing para fazer a articulação, porque não tinha outra pessoa. Até tinha, foi uma viagem muito cobiçada, só que eu fui a mais votada, porque era eu que fazia parte da Coordenação Internacional e tinha que ir. Eu fui pra Beijing com a responsabilidade de fazer essa articulação com outros países, juntamente com Betty. E aconteceu. A gente foi lá, nessa reunião.

 

P/1 - Como foi em Beijing?

 

R – Foi muito interessante. Nós chegamos dois dias antes do começo da Conferência. Havia uma Conferência Oficial, dos problemas mundiais, onde iam discutir políticas públicas voltadas para a mulher. É claro que os movimentos criaram uma curiosidade de saber o que eles iam discutir nessa conferência, se não tinha ninguém lá para fazer propostas. Aí os movimentos se articularam, movimentos do mundo inteiro e criaram uma conferência paralela. Existia a oficial e a paralela. E eu fui pra paralela, porque eu era do movimento. Margarida, que era de uma ONG, foi convidada pelo governo a participar da Conferência Oficial. Então tinha um certo conflito. Margarida foi para a oficial e eu fui para a paralela. Foi bom conhecer a realidade da China, ver muitas mulheres. 

 

P/1 - Teve algum fato marcante?

 

R – Coisas que marcaram: primeiro a chegada. Eu admirei muito o trabalho da embaixada brasileira. A gente deve muito a eles. Eles foram nos receber no aeroporto, nos dizer qual ônibus que a gente deveria pegar, porque nós não ficamos na capital. Era pra ser na capital, mas o governo da China não aceitou. Nós ficamos num estado a cinquenta quilômetros de distância da capital. E a embaixada estava lá pra nos receber, com flores para todas. Nós saímos da Coréia do Sul e fomos para Xangai e depois para Beijing. Em Xangai quando nós chegamos, o aeroporto estava todo enfeitado de flores. E quando nós chegamos no aeroporto de Beijing, nossa passagem foi por uma muralha de flores, bem bonita. E cada mulher recebia uma flor ao chegar.

 

P/1 - Quem organizou isso?

 

R – Eu não sei se foi totalmente o governo ou quem foi. Sei que estava muito bonito e organizado. Para mim, marcou. Acho até que se foi o governo, ele queria dar uma de bonzinho, para a gente maneirar. E aí a embaixada estava lá e também tinha feito um livro, um caderninho, todo escrito em mandarim e português, com todos os pontos turísticos da China, as palavras mais usadas, as que a gente mais necessitava falar, tudo isso. E quando nós queríamos ir para parte tal, nós falávamos “please” e mostrávamos o caderninho. O cara ia, e nós íamos atrás. Porque nós sabíamos que estavam lá os garranchos dele e embaixo estava dizendo o que era aquele garrancho. Por exemplo, eu queria ir para a Praça da Paz Celestial, estava lá escrito e em cima em mandarim. Eu vou e mostro para o taxista e ele me leva. Uma coisa eu digo a vocês, com muita sinceridade: não existia roubo, nada. Um pessoal sério, que se pedir para deixar aqui, ficava aqui mesmo. Eram muito sérios, honestos. Pelo menos nesse período, não sei depois. 

 

P/1 - Como foi o encontro em si?

 

R – O encontro foi assim: já existia uma pré-inscrição, eu me inscrevi em abril e, em maio eu já tinha certeza do hotel que eu ia, o número do meu quarto, já tinha recebido em casa tudo, tudo. Até o desenho da cama eu tinha. Tudo, tudo, tudo. Porque era assim: você fazia a inscrição e se a ONU dissesse que você ia, você ia. Mas se você não tivesse licença, não iria não. Porque a gente fazia a inscrição pela ONU. Mesmo sendo paralela, a ONU é que dizia se o movimento podia ir ou não. E eu tive essa glória de ser a primeira cearense a receber. Por incrível que pareça. Ser a primeira cearense a receber lugar de hotel, tudo direitinho. A gente chegou lá dois dias antes, só que eu não fiquei nesse hotel. Porque o hotel que eu tinha nomeado, eu ia ficar isolada das cearenses. Mas me arrependi, porque fiquei num outro hotel junto com as cearenses e não foi tão bom para mim. Como trabalhadora eu senti desprezo, não me senti bem. E Margarida, que é muito minha amiga, praticamente uma mãe, nesse sentido, Margarida não ficava aí. Porque eu fui para a paralela e ela ficou em Beijing. Por isso meu sofrimento.

 

P/1 - Essas que ficaram com você não eram do movimento? 

 

R – De outros movimentos. Outras organizações urbanas. Mulheres que se engajaram em movimento só pra dizer que iam, mas não iam totalmente para conferência. A gente ficou nesse hotel e começou o encontro. Era assim, de manhã existia um local, um fórum grande onde se reuniam todos os líderes de países e se fazia uma discussão do debate “x”. Por exemplo, era discutido o tema da violência, saúde, aborto, educação. Tanta coisa que foi discutida... A questão dos direitos das prostitutas, tudo que era organização estava lá. Tinha até muçulmanas berrando e batendo na cara das outras mulheres. Porque elas achavam que mulher não tinha que sair de casa, mas também estavam lá, batendo na cara das prostitutas. Bateram na cara de uma mulher. Porque a prostituta estava com uma roupa um pouco mais simples e elas andam com aquelas telas e acham que mulher tem que andar daquele jeito. A gente acompanhou a passeata, você viu aquela foto que eu estou com uma faixa em inglês? É de uma passeata.

 

P/1 - Acho que é: “diga não à violência”. 

 

R – Aquele dia era sobre reforma agrária. Mas tinham outros. O meu era de reforma agrária. Se juntava aquela turma, tinha muitas pautas, contra violência, pela reforma agrária, cada uma levava seu papel.

 

P/1 - E como foi a pauta da mulher agrária nesse encontro?

 

R – Nesse encontro era exatamente a discriminação da mulher quanto ao crédito. Porque nas áreas de assentamento, os homens têm os créditos, a carta de anuência, o título se dá ao homem. E a gente ia lá brigar para que o título da terra ficasse em nome dos dois e as mulheres pudessem fazer crédito. Porque existem trabalhadores rurais que são honestos e bons para a família, mas existem os que fazem empréstimo e gastam até em cachaça, e depois fica a dívida e a pobre da mulher que chia. A gente estava nessa briga para que a mulher tivesse esse direito garantido, porque ela também é trabalhadora rural. Tinham todas essas pautas.

 

P/1 - Você falou alguma coisa?

 

R – Falei, mas era muito difícil entender, porque eu não sabia falar nenhuma língua. Eu entendo um pouco de espanhol e minhas amigas falam um pouco de espanhol para brincar. Mas eu não vou me encontrar contigo, se não te conheço, e falar espanhol, porque eu sei que estou falando errado, não estou falando um espanhol correto. Não vou me meter nessa. Em qualquer canto onde vou falar, no México, no Peru, onde já andei, eu falo minha língua. Quem quiser me entender procure outras pessoas. Aí falei. E tinha várias intérpretes brasileiras da organização. Falei um pouco, cantei uma música.

 

P/1 - A música que você nos cantou ou outra?

 

R – Não, outra música. Essa é “Onde estão nossos direitos”.

 

P/1 - Você sabe ela?

 

R – Sei, mas não quero cantar, não. Essa é bem revolucionária, uma crítica bem pesada.

 

P/1 - Você escreve também?

 

R – Eu escrevo. Não tenho muitas músicas, porque fazer letra de música é muito fácil, até demais, qualquer inspiração tua faz a música. Agora, fazer uma música que não seja rastro do outro, criar uma música que não seja a música do outro. Porque se tu pegar e fizer uma letra e botar numa música minha, é paródia, não tem validade e eu posso te processar, ainda. Eu não faço paródia. Não tenho nenhuma música parodiada.

 

P/1 - Você ainda mora na mesma comunidade? Como é tua vida no dia-a-dia na comunidade?

 

R – Eu continuo morando na comunidade. Vou para as reuniões para discussão de melhoria da educação, estrada, telefone, de tudo aquilo que eu falei que não existe, a gente está sempre se reunindo, discutindo. Para discutir os problemas do assentamento, que nosso assentamento é coletivo. Por exemplo, eu moro no meu pedaço de terra e ali é o meu quintal, mas a partir daí é coletivo. Isso requer uma certa articulação dentro para se auto-manter seguro. Principalmente minha comunidade que é na beira do mar e corre o risco dos grileiros de terra a beira-mar. E isso dá uma confusão danada e a gente precisa estar sempre se reunindo para segurar as pontas. Porque o cabra chega e oferece pela tua casinha que é na beira do mar uma caixolinha mais pequena que essa e o cabra bota trinta, quarenta mil reais. E o caboclo que nunca viu dinheiro na mão ficava doido pra vender. Pegar trinta mil reais, quarenta numa chibatada, Virgem Maria! E nós temos que segurar as pontas.

 

P/1 - Como vocês fazem pra evitar que venha alguém de São Paulo, por exemplo, para comprar?

 

R – A gente não aceita de jeito nenhum. Se alguém souber que tem alguém lá fazendo alguma coisa, a gente se reúne e faz um auê. Às vezes dá ventania e vai embora casa, cerca, telha, um bocado de coisa. Aí o cabra desaparece. E com isso a gente não deixa o cabra se meter.

 

P/1 - A ventania leva a casa de quem entrou sem...

 

R – De quem entrou sem passar pela direção do movimento. O movimento tem sua direção.

 

P/1 - Você morava na comunidade desde que nasceu. E como esse assentamento aparece?

 

R – Essa é uma história que se eu for te contar, você vai me prender aqui até meia noite.

 

P/1 - Então depois você conta. Mas voltando ao teu dia a dia, como é?

 

R – A gente tem a reunião da comunidade, tem a reunião do grupo de mulheres, porque a gente trabalha com grupo específico de mulheres, nós temos também reunião como CETRA, às vezes, a Cocred me chama, eu saio. Ou quando eu chego em casa, eu passo uma semana fora de casa, mas quando eu chego, meu quarto está lá, porque o marido não faz não. O marido faz a comida para comer no dia que está em casa. Meu filho também não faz. Até porque meu filho ensina, é professor e tem um trabalho, ele ensina numa escola que é do CETRA, que é uma escola que dá um trabalho muito grande a ele. Além de ensinar, ele tem que passar o dia escrevendo, porque tem que fazer um relatório de cada aluno, relatório geral, não sei o quê, tanta coisa. É um trabalho de universidade que ele faz. Aí quando eu chego, tem roupa suja, tem tanta coisa para fazer que eu corro demais. Às vezes tenho pena, porque tem morrido galinha por falta de cuidado, tem se estragado ovo, porque a galinha tem posto e ninguém tem arrecadado. Às vezes, quando eu chego tem até perda. Mas aí eu chego, tomo de conta e assumo. E minha casa não tem água encanada, tem que trazer água para casa. Eu moro ainda numa situação muito rústica. Aparentemente não tenho cara de trabalhadora rural, só que minha vida é essa, muito dura.

 

Como é quando você está lá?

 

Nazaré – Meu dia-a-dia é isso: lavar, secar roupa, consertar muitas vezes a canoa do meu marido. Fazer o trabalho de outras que chegam, tudo isso. Fazer o trabalho da casa: cuido das galinhas, dos animais pequenos e vou trabalhando, por exemplo, se ele trabalha na terra, se cava a terra, eu tenho que plantar batata, plantar feijão. Depois tenho que colher feijão, colher o milho, tudo isso se eu estou em casa, faço. Juntar o coco dos coqueiros que está caindo, porque tem que juntar eles lá pra dentro. Tudo isso. Uma vida árdua de trabalhadora rural. Porque tem horas que você não sabe, está aqui fazendo uma coisa e limpando um peixe, assando um peixe lá no fogo, porque o peixe vem, como no ditado popular, com tripa e nó, e você chega, vai limpar, descamar, ajeitar bem ajeitadinho. Graças a Deus, há uns seis anos eu tenho energia em casa e isso me aliviou um pouco. Porque eu comprei uma geladeira e já não tenho mais o trabalho de salgar peixe, que eu salgava. Outra coisa: assim que eu me casei, usei um ano fogo de lenha, mas aí comprei fogão a gás que me dá mais descanso, não ficar esfregando as panelas sujas. Essas coisas que vão melhorando um pouco a vida da gente. E passo o dia nessa luta. E quando eu saio pra essas reuniões e volto.

 

E ainda participa da Rede.

 

Nazaré – Participo da Rede. De vez em quando eu dou um fora, passo uma semana aqui em São Paulo, passo uma semana, duas semanas em Recife. Não passa um mês que eu não vá duas vezes em Recife.

 

E a casa como fica? O marido?

 

Nazaré – O marido fica em casa, quando sai tranca. Eu tenho uma menina que eu crio, ela ainda está estudando. Ela está indo todo dia, dorme e vai de manhã e volta à tarde. Quando ela está em casa, ela faz alguma coisa. É mais ou menos isso minha vida. Tem que fazer todo esse trabalho. E ainda corre para fazer as reuniões, a celebração na comunidade, para juntar o pessoal, essas coisas. E encontra tempo para essas coisas.

 

E como você conseguiu, com tudo isso, ainda fazer um primeiro encontro da Rede LAC?

 

Nazaré – Aí foi um período pior, em que eu passei três meses em Fortaleza. Eu saía segunda cedinho e voltava sábado. Só tinha a tarde do sábado e o domingo para estar em casa.

 

E como foi participar desse 1o Enlac?

 

Nazaré – Foi bom pelo trabalho que a gente fez. Diz o pessoal que o prazer de ter um filho é que depois da dor vem a graça que é a criança. A gente sentiu as dores de parto mesmo, porque foi muito, muito sofrido. Sabe quando a gente viu a realização do encontro, juntar trabalhadoras rurais de 22 países, conseguir isso, e ver as trabalhadoras discutindo, dizendo sim ou dizendo não ao que elas não querem, a dizer nós queremos usar nossa língua, queremos falar, não queremos que ninguém peça mais por nós, vamos dizer o que queremos, isso, quando termina, e se você pega hoje os relatos daquele livro que Vanete estava, aquele verde, se você tivesse a oportunidade de ver aquele livro, veria a riqueza, os pontos que coincidem em toda América Latina, as diferenças. Tudo isso que está ali escrito foi muito árduo para se cumprir. Quando aconteceu, a gente se sentiu realizada, como se tivesse parido a criança mais linda do mundo. A verdade é essa: há sofrimento, mas também...

 

E, no Enlac, vocês discutiram também a pauta que vocês têm, mas também teve capacitação?

 

Nazaré – Quando a gente saiu do 1o Enlac, já saiu com uma decisão de fazer o segundo. E, como disse Vanete hoje, tinha uma previsão de ser antes e, por condição financeira, porque a gente não conseguiu recursos, apoio, então adiou por mais tempo. Na época da fundação da Rede, a gente já sabia que ia acontecer esse encontro, e a gente marcou lá em Olinda onde seria. Fomos discutir junto com os países da coordenação internacional onde era. O México decidiu que seria lá. 

A gente foi fazer toda essa articulação e, em maio de 2005, - o encontro era para acontecer em outubro - em maio, nós fomos para o México, eu e a Vanete, e passamos 14 dias lá também combinando, concordando, discutindo pontos. Eu, a Vanete, Betty e outras companheiras fomos para lá e fizemos os últimos ajustes. E, logo em julho, Vanete foi e passou dois meses lá no mesmo preparo. E, uma semana antes, foi um grupo, com a secretaria do movimento. 

Esse ano, graças a Deus, não fui como coordenação internacional, mas como participante. Participar e dar uma animada na mulherada. Quando estava alguém cochilando, estava lá no palco a bonequinha fazendo fofoca. Mas para acordar as mulheres, no momento correto. Para mim, foi muito bom. Foi um pouco conflituoso, como disse Vanete, acho que aqui no Brasil esteve um pouco melhor, porque, não é exibição, mas realmente o nosso país é o que tem mais controle das coisas. Os outros países são muito duvidosos. Eles são muito tumultuados e, às vezes, não conseguem ajustar as coisas. Uma coisa que a gente percebe é que existe um medo, na América Latina, existe um medo do poder governamental. Na maioria dos países, não é o nosso regime democrático. É uma democracia muito concentrada em poder arcaico, primitivo e a discriminação prevalece, de trabalhadoras rurais, de indígenas. E, para essa, é pior ainda do que trabalhadora rural, porque é uma vida totalmente diferente, muito mais atrás. Há todo esse processo de dificuldades.

 

P/1 - Vocês se encontram, discutem e depois cada uma volta para o seu país e aplica coisas discutidas no ENLAC? Como funciona?

 

R – De cada encontro desses a gente sai com uma pauta dos temas debatidos. Nesse último, que aconteceu ano passado, nós saímos com uma pauta final, reivindicatória, que era enviada a todos os governos de cada país. Aí entra a questão da saúde, educação, salário-maternidade nos países em que não há aposentadoria da trabalhadora, nos países em que não há questão da moradia, migração, meio ambiente, tudo que possa fazer a trabalhadora ter uma vida mais razoável.

 

P/1 - Entre um ENLAC e outro, como continua tendo o movimento da Rede junto às bases?

 

R – É esse trabalho de transmissão, de comunicação. Por exemplo: está acontecendo algo no México, a Rede tem notícia ou vai alguém participar e, chegando, informa a outras. Muitas vezes são temas que a gente pode debater em determinados momentos, nos grupos. Tanto nos encontros maiores, ao nível de movimento, como nos encontros da base.

 

P/1 - Quando termina o ENLAC, vocês se organizam para ir fazer capacitação numa outra organização? Como funciona?

 

R – Depende de cada movimento, cada um dá a capacitação do seu jeito, da sua forma e na linha que ele quer capacitar. Nós, por exemplo, terminamos um curso de capacitação de educadoras, onde capacitamos dezesseis mulheres. Era uma capacitação desde a formação, a visão crítica, a própria leitura, a fala. Então a gente foi fazendo textos. Esse livro que tem aí, “Estrada da Sabedoria”, foi feito por nós, trabalhadoras. Cada uma escreveu um texto, um ou dois textos. E o que a assessora do programa teve que fazer foi aperfeiçoar e colocar num esquema de lançar o livro, mas o escrito é nosso, é da gente. 

 

P/1 - Qual o programa?

 

R – Formação de educadoras. É escrita das pessoas falando sobre os movimentos sociais, o que a gente entende, o que quer saber. E esse livro a gente vai levando para as bases, para ler nos grupos. Por exemplo, tinha uma mulher que está lá há dez anos e não sabe como se dá o movimento sindical, como se dá no movimento pela terra, quem é o MMTR. E está lá: “O que é isso, aquilo”. A partir da própria fala da mulher, do que ela participa. Ela é uma sindicalista, vai lá e fala como que é. Isso aí é a própria mulher que escuta a experiência da outra. Não é aquele movimento social supérfluo, mas aquele movimento social vivido. E com a própria fala da mulher, a modos compreensíveis, de uma para outra. Eu falar para uma trabalhadora rural é diferente de você falar. Mesmo você sendo sabida, estudada, formada, sua formação impede muitas vezes, quanto mais formada, mais impede a capacidade da trabalhadora rural semi-analfabeta ou analfabeta de compreender a linguagem. Tem toda essa história que a gente faz e por isso a gente colocou o nome do livro “Estrada da Sabedoria”.

 

P/1 - Tem um livro seu também, não tem?

 

R – Tem. Um só de músicas. Eu tenho no meu livro 48 músicas, não quarenta. E três são só faladas. Por exemplo, a primeira do livro é uma versão da história do meu assentamento, desde os anos de mil oitocentos e tarará até agora. Está escrito em 32 versos, que é o “Maceió ontem e hoje”. Contada em 32 versos, uma redução do século dezoito até o 21. Está contado em 32 versos. Um pouco da realidade enxugada, bem enxugada. E também tem uma outra que é solidariedade em ação que eu nunca coloquei música nela. E tem outra, que tem o título “Cidadania”, que também não coloquei. Mas vêm muitas outras: “Homenagens”, “Papel da Mulher”, “Vem Rimar Comigo”, “Mulher e Produção”, “Escrita Não é Fácil”, “Mulher Gerando Vida”, “Gênero em Igualdade”, “500 anos de Brasil”, “O Brasil em que vivemos”, tem muitas músicas. Porque é assim, o livro está escrito em duas partes: tem uma parte que ela está como guerreira, que são as músicas revolucionárias de luta; e tem a sonhadora, que está na parte mais romântica. E tem músicas mais religiosas, como “Mulher na Bíblia”, “Mulher Modelo” que também é de ritmo religioso. “Estrela Guia”, antes de ter aquela novela eu já tinha a música. “Tá aí a novela, tu não registrou?”.

 

P/1 - Já que você falou de sonho, qual o seu sonho? 

 

R – Meu sonho é isso mesmo, de ser tanta coisa. Em algumas coisas eu me sinto realizada. Por exemplo, eu tinha muito sonho de viajar. E isso já tenho feito na minha vida, que já estou até querendo ficar em casa. Mas eu estou ficando em casa e daqui a um mês já estou viajando pro Acre. 

 

P/1 - Qual o seu sonho para a Rede?

 

R – Meu sonho para Rede é que ela venha contribuir para os movimentos sociais que estão engajados nela e os que não estão. Que ela venha a ser exemplo, sirva de elo de comunicação, difusão das organizações de mulheres. E um maior, uma junção maior das lutas e vitórias de toda América Latina.

 

P/1 - E você gostaria de deixar uma mensagem para todas as mulheres?

 

R – Eu diria que como mulher a gente não deve nunca se sentir diminuta, a coitada. Mas a gente tem que sentir, em primeiro lugar, gente e começar a valorizar-se a partir de si mesma. Porque eu só vou valorizar a outra, quando eu valorizo a mim própria. Enquanto eu não faço essa descoberta de mim própria, do meu valor de mulher, do papel que eu tenho que assumir na sociedade, dificilmente eu passo para outra pessoa. Eu não consigo ultrapassar os limites para o outro lado, porque estou presa ao meu, de dizer que não sirvo, que não presto, que não posso ir para ali, tenho medo, não sei o quê. E quando você tem essas coisas dentro de si, não consegue ser a revolucionária, a mulher que critica, que educa, que fala. Então essa é minha mensagem: que cada uma procure se sentir gente, valorizar a si mesma e assim ela vai poder contribuir com a sociedade na qual ela, embora viva numa pequena comunidade, ela começa a contribuir quando ela se auto-valoriza.

 

P/1 - Muito bom. E por último, o que você achou de dar essa entrevista para a gente?

 

R – Eu te digo, pra mim, foi boa. Entrevista sempre dá uma ansiedade, porque você fala, fala e você diz coisas que realmente não queria nem dizer, mas acaba dizendo. Porque a história requer dizer coisas que tu quer prender. Eu me senti muito à vontade e dizer que confio em vocês e espero que esse trabalho venha a contribuir tanto para o crescimento da Rede, quanto para vocês do Museu, que a gente já pode contar no quadro dos nossos parceiros. E queria dizer assim, que como eu senti confiança, espero que essa confiança perdure e que ela seja fiel. Que não se torne utopia nos meus olhos. Que se torne verdadeira ação, que venha a servir de luz, transformação, de críticas e despertar de uma sociedade mais justa, onde homens e mulheres possam se amar com mais dignidade e respeito.

 

P/1 - Em nome do Museu da Pessoa, muito obrigado.

 

P/2 - Essas coisas que você fala é muito bom ouvir. Ensinam muito. Obrigado.

 

R – Obrigada.

 

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