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História

Eu nasci Flamengo

História de: Antonio Moreira Leite
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/09/2019

Sinopse

Sua relação com o Clube de Regatas do Flamengo. Atletas que admirava. Atividade como empresário de uma loja de esportes. Momentos marcantes com o clube. Amor pelo Flamengo. Casamento.

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História completa

P/1 - Bom dia, eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo.

 

R - Antônio José Gonçalves Moreira Leite. 

 

P/1 - Gostaria que o senhor me fornecesse a sua data de nascimento e o local de nascimento, por favor.

 

R - Eu nasci no dia trinta de setembro de 1911, mas fui registrado no dia três de outubro. Mas o meu aniversário é trinta de setembro. E eu nasci na Rua da Alfândega. Meu pai tinha uma loja de serralheria na Rua da Alfândega. Mas não sei porque me registraram num lugar chamado... Não fui registrado na Rua da Alfândega, como se deve ser, fui registrado [na Rua] Senhor do Matosinhos, uma Rua que tem aí, na Zona Norte, não sei porque. Por causa de padrinho, qualquer coisa assim. 

 

P/1 - E o nome dos seus pais? Nome completo dos seus pais.

 

R - Meu pai chama-se Paulino Gonçalves Moreira Leite, minha mãe chama-se Natividade Cardoso Moreira Leite. 

 

P/1 - A origem deles. Eles nasceram onde?

 

R - Meu pai é português, nasceu em Aveiro, que pertence ao Porto, e minha mãe nasceu no Rio de Janeiro, em Vila Isabel.

 

P/1 - E os seus avós? O senhor conheceu os avós paternos?

 

R - Conheci os avós maternos, paternos não conheci. Conheci o meu avô materno, que era um homem que tinha dois metros e 25, que se chamava José Cardoso, e a minha avó que nasceu em Niterói, chamava-se Júlia Corrêa Cardoso. E foi componente, essa minha avó, da primeira orquestra de mulheres de Niterói, ela tocava flauta.

 

P/1 - E seu avô, qual era a profissão dele?

 

R - Ele era um grande serralheiro, tinha uma grande fábrica de fogões, cofres. Foi o primeiro fabricante de carroça de lixo para o Rio de Janeiro.

 

P/1 - E onde era a loja do seu avô?

 

R - Foi na Rua do Lavradio, tenho qualquer ideia de ter sido na Rua do Lavradio, mas não me recordo. Sabia que ele foi grande fabricante desses produtos. Depois meu pai veio de Portugal, em 1905, também era dado a essa arte, foi trabalhar com ele. Era um homem muito bem apanhado, meu pai, bonitão. E acabou casando-se com uma das filhas do meu avô, que era a filha mais velha, Natividade. 

 

P/1 - E essa loja da Rua da Alfândega... Que altura da Rua da Alfândega?

 

R - Na Rua da Alfândega deve ser 175, por aí.

 

P/1 - Tinha uma presença grande de portugueses naquela região também?

 

R - É, porque, aliás, naquela época, trabalhava-se na cidade e morava-se no sobrado, era muito comum. Ninguém saía para São Cristóvão. Quem morava em São Cristóvão trabalhava em São Cristóvão. Mais ou menos assim. Alguns operários talvez, mas a tendência era essa.

 

P/1 - E sua família também, tinha os negócios embaixo e vivia no sobrado?

R - Vivia no sobrado. Quando não vivia no fundo. 

 

P/1 - No fundo da loja?

 

R - Às vezes o fundo era muito grande e, por economia, vivia-se no fundo da loja, com todo conforto. Mas quase sempre era no sobrado. Quase todas as lojas tinham sobrado, já próprio para isso. Era hábito da pessoa morar no sobrado, não era para alugar para terceiros, o sobrado era para ser usado como moradia dos comerciantes ou dos filiais.

 

P/1 - Quantos irmãos vocês são?

 

R - Nós éramos seis irmãos, cinco homens e uma mulher. Um tricolor, fluminense.

 

P/1 - Qual era o nome dele?

 

R - Moacir. Agora todos os outros cinco, eu e mais os outros quatro, todos Flamengo. Inclusive a minha irmã também é Flamengo. E meu pai, como português, também era Flamengo. Porque eu era Flamengo, ele me adorava, então passava a ser Flamengo. Naquele tempo não se discutia muito Vasco não. O Flamengo era o clube da elite, porque era o clube de remo. E as mulheres gostavam dos homens fortes, remadores. E era o Flamengo o grande clube, o Flamengo, o Boqueirão, o Internacional, vários clubes aí. Depois veio o Vasco também.

 

P/2 - Onde ficavam esses clubes?

 

R - Esses clubes... O Flamengo ficava na Praia do Flamengo, ali na altura... Entre o Hotel Novo Mundo e o jardim do Palácio do Catete. E os outros clubes ficavam na Rua Santa Luzia. Mais tarde o Vasco arranjou uma sede onde tem esse jardim grande...

 

P/2 - Ali perto do aeroporto?

 

R - É, mas como se chama? Aterro. Mas lá embaixo, perto do aeroporto. Depois eles passaram para a Lagoa. O Flamengo sempre treinou na Lagoa. Antigamente não, treinava na Baía de Guanabara. Depois que ele foi para a Gávea, treinava na Lagoa.

 

P/1 - O senhor pode me dar o nome dos seus irmãos, por favor?

 

R - Um é o Moacir. Não sei se você sabe o que representa em Guarani. O outro é Joaquim, o outro Rubens, o outro Constantino, minha irmã Maria de Lourdes.

 

P/1 - Nasceram ali?

R - Não, nós nascemos no Rio, todos nasceram no Rio. Não na mesma casa que eu nasci, um nasceu aqui, outro nasceu lá. A minha mãe que nasceu em Niterói.

 

P/1 - Como era essa casa da Rua da Alfândega? O senhor se lembra? Quem era a sua vizinhança?

 

R - Era um comércio variado já naquele tempo, tinha indústrias ali, pequenas oficinas. Depois aquilo foi se transformando. Mas era, apesar de tudo, um local bom, em que se botava as cadeiras na porta, a gente ficava sentado, e jogava-se bola no meio da rua. Eu joguei muita bola no meio da rua.

 

P/1 - Mas os seus vizinhos eram imigrantes, eram brasileiros? O senhor se lembra disso?

 

R - Era português e... Naquela época predominava o português. Mas já tinha de outras nacionalidades. Tinha o que nós chamávamos turco, que eram os sírios, que até carregavam uma mala nas costas, grande. Como chamava aquilo? Não me recordo mais.

 

P/1 - Mascates?

 

R - Mascates. Tinha os mascates. Tinha já alguns brasileiros oriundos do norte, essa coisa toda. Era eclético aquilo ali. Mas predominava sempre o português naquela época.

 

P/1 - O senhor estudou em que escola?

 

R - Eu estudei primeiro na escola Nerval de Gouveia, na Avenida Henrique Valadares, número dois, sobrado. Depois essa escola foi transferida para a Rua do Resende. Eu estudei lá. Depois tinha que ajudar o meu pai, ainda era garoto, e fui estudar na Escola Tiradentes. Depois da Escola Tiradentes, já mais crescido, fui estudar na Escola Superior de Comércio. E lá fiz o segundo ano, e depois nunca mais estudei.

 

P/1 - O senhor estudava e trabalhava com o seu pai? 

 

R - E trabalhava.

 

P/1 - O que o senhor fazia?

 

R - Eu ajudava em tudo. Eu era meio oficial de tudo. Eu sabia consertar um revólver, eu sabia amolar... Porque meu pai também tinha a parte de cutelaria. Eu sabia amolar uma navalha, uma tesoura, uma máquina de cortar o cabelo. Consertar o revólver, pequenos consertos eu sabia fazer. Aprendi a fazer. Hoje tenho horror, não sei porque eu tenho horror. 

 

P/1 - E a sua vida, a sua infância ali? Além dos jogos de bola, vocês tinham outras brincadeiras? As crianças brincavam ali no Campo de Santana?

 

R - Brincávamos. Fazíamos sempre uma corrida em volta do Campo de Santana. E muitas vezes, quando estava na Escola Superior de Comércio, eu fiz um ano o curso de dia e depois dos outros tive que fazer à noite. E de dia a gente ia lá pescar aqueles peixinhos pequenos, de vez em quando um caía dentro da água, aí era um problema para chegar em casa, até a roupa secar mais ou menos, entrava escondido, esperar que a minha mãe não dissesse nada. E fazíamos lutas de boxe, corrida de revezamento, jogávamos futebol, e fazíamos um pouco de natação, na Praia das Virtudes.

 

P/2 - Onde fica?

 

R - A Praia das Virtudes é ali onde hoje tem o Museu de Arte Moderna, por ali. Ali tinha a Praia das Virtudes e ao fundo tinha a Escola de Villegaignon, que era a escola naval, naquele tempo.

 

P/2 - E como o senhor ia até a praia? A pé?

 

R - Ia a pé. Às cinco horas da manhã a gente levantava para ir à praia. 

 

P/2 - E como o senhor ia vestido?

 

R - Ia vestido de calção e camisa sem manga. O uniforme era esse. Mais tarde é que foi se tirando a camisa, mas antes tinha que ir de camisa sem manga. Havia um cerimonial, tudo isso. 

 

P/1 - E esportes? Nessa época o senhor tinha ídolos de esporte, já torcia por algum time?

 

R - Eu era fã de Jack Dempsey, o campeão mundial de boxe. Tinha o apelido de Leão do Utá, você deve conhecer. E era fã também do Maurice Chevalier, que era o chansonnier de Paris, o conquistador das mulheres. Tinha filmes muito bonitos dele. Então com isso eu andei um tempo... Primeiro jogava boxe, por causa do Dempsey, foi o campeão mundial, e depois também eu frequentava muito teatro. Eu fui... Como chama... Claque de teatro, chefiava um grupo para bater palma para os artistas, entrava de graça.

 

P/1 - Qual teatro?

 

R - Teatro Recreio, na Rua Dom Pedro I, grande teatro naquela época, de revista. Aquele tempo era maravilhoso. As mulheres iam sempre acompanhadas dos irmãos, dos pais, as artistas.

 

P/1 - E cinema? Vocês iam ao cinema?

 

R - Cinema, nós íamos ao cinema, custava trezentos réis, a segunda seção, íamos aos domingos. E assistíamos muitos filmes em série, que passava uma parte e volta na próxima semana. A coisa mais importante ficava para a próxima semana. E a gente ficava então doido para assistir aquilo. 

 

P/1 - Qual cinema?

 

R - Eu frequentava muito o cinema Olímpia, na Rua Visconde do Rio Branco, onde tinha ao lado o jogo de pelotas de cestobol, uma cesta comprida, assim, que enfiava a mão e dava a bola na parede, apanhava de volta e tal.

 

P/1 - Era um salão onde se jogava esse jogo, do lado do cinema?

 

R - Era um salão não, era um local assim como esse aqui. E tinha também um outro mais adiante na Praça Tiradentes, e era o boliche, boliche de bicicleta. Tinha umas canaletas, número um, número dois, número três... Eu tenho até uma estátua aí. A que contasse mais ganhava. Ganhava o apostador, apostava numa ou em outra. 

 

P/2 - O senhor conheceu a família Segreto? 

 

R - Muito. E um deles foi presidente do Flamengo, Paschoal Segreto Sobrinho. Foi o homem que conseguiu o primeiro aterro da Gávea. 

 

P/2 - Ele era ligado ao cinema?

 

R - A família toda era ligada a uma parte recreativa, cinema, tinha um negócio para você botar os olhos para você ver... Uma série de coisas. Inclusive tinha muito de... Ela bate na bola, a bola toma um caminho. Era tão prática que quase sempre ela botava no buraco que queria. Era uma disputa muito grande, coisa bonita.

 

P/1 - E o senhor ganhou em que circunstância essa escultura?

 

R - Isso aí eu ganhei naquela ocasião, apareceu lá a venda, alguns desses troféus, que sempre são italianos, parece. E um amigo meu comprou e me deu de presente. Muita coisa eu ganhei. Whisky, então, eu ganho à beça. Gravata eu ganho à beça. Tenho mais de duzentas gravatas. 

 

P/2 - Então o senhor conhecia a família Secreto, eles eram dedicados ao ramo de...?

R - Diversões. Eles tinham o (ciclo ball?), esse da cesta, Cestobol. Era um jogo muito praticado pelos espanhóis. Na Espanha se pratica muito esse esporte. E tinha uma porção de coisas para você olhar, que aparecia, tinha também coisas como o teu intestino, os vermes que estão no teu intestino. Então não aparecia mulher nua. Mas era divertido, eu pagava aquilo, ficava olhando, não tinha outra coisa para ver.

 

P/1 - Então na sua juventude o senhor estudava, trabalhava, ajudava o seu pai. E ainda tinha uma vida social, ia ao teatro, cinema, jogos. 

 

R - Eu me lembro muito bem da primeira peça que eu fui assistir com o meu pai. O meu pai, como homem de armas, ele fazia muitos efeitos pirotécnicos do Teatro Recreio. Aquelas explosões, aquela coisa, ele que fazia aquilo. E eu fui com ele, desfilando um terno novo, de calça comprida, assistir uma peça que era "Entrada Grátis" o nome da peça. Mas não era, o nome é que era "Entrada Grátis". Aí chegava lá em certa altura: "O que o senhor está reclamando aí? O senhor não pagou nada, o senhor entrou graciosamente." "Que graciosamente nada! Eu paguei!" "É entrada grátis, o que o senhor está falando?" Então tinha... Aí tinha uma atriz maravilhosa, chamada Margarida Marques, era uma mulher bonita, e era a principal artista, dirigida pelo Manuel, que depois veio o filho dele. Era Manuel, um português que dirigiu o teatro, as peças e tudo. Depois mais tarde veio o filho dele, Walter qualquer coisa.

 

P/2 - Walter Pinto?

 

R - Walter Pinto. Manuel Pinto e Walter Pinto. Então também depois eu passei a ser Claque e depois Chefe de Claque. Tinha que bater palma para os artistas. E a Margarida Marques... Mais tarde atuava lá um tenor chamado Marcel Klaus. E essa criatura que tinha uma vozinha de tostão casou-se com esse Marcel Klaus e depois tornou-se uma soprano muito importante. Ela era uma mulher bonita, tornou-se uma soprano importante. Tinha a Mara Rúbia também, a Araci Cortes, o Manuel Pera, pai dessa menina Marília Pera, uma porção, o Manuel Vasconcelos. Era um teatro bonito, uns efeitos bonitos, iluminação, muita explosão que havia. 

 

P/1 - O senhor já torcia pelo Flamengo?

 

R - Eu nasci torcendo para o Flamengo. Eu dei, numa ocasião, uma entrevista, que foi a campeã do ano, porque eu era Flamengo. Eu digo: "Porque todo mundo nasce Flamengo, alguns degeneram." Na minha família éramos seis, um era degenerado. Um era fluminense, era degenerado. Todo mundo gostou, aí ganhei prêmio, a honraria do ano.

 

P/1 - Foi feito pelo próprio clube?

 

R - Não, foi feito pelo Correio da Manhã. Esse jornalista, o Diocesano Ferreira, que tinha o apelido de Dão, era o decano do... Foi ele quem criou o "Dragão Negro" do Flamengo. Porque nós tínhamos um grupo na Colombo, que almoçávamos todo dia, tudo Flamengo, Hélio Barroso, José Maria, essa gente toda. E ali nasciam muitas coisas em favor do Flamengo. Derrubar presidente, botar presidente, derrubar diretor, comprar jogador. Então havia, naquela época da guerra, uma organização japonesa, não sei qual é a tradução, parece que é "Dragão Negro". E ele então batizou o nosso grupo de "Dragão Negro", e aí ficou. Eu fui um dos presidentes desse grupo. Mas quem permaneceu toda vida mais na presidência foi o José Lins do Rego, escritor. 

 

P/1 - Era almoços diários?

 

R - Almoços diários.

 

P/1 - De que horas a que horas?

 

R - Mais ou menos de meio dia até às duas horas, por aí, três horas, às vezes avançava. Mas todo dia tinha esse almoço na entrada da Colombo, primeiro andar. E tem lá uma placa do Flamengo. 

 

P/1 - Mas na sua infância, ainda voltando a falar da infância, quais são as suas memórias em relação ao clube? Ouvia os jogos, ia aos jogos, tinha algum jogador que lhe chamava mais a atenção?

 

R - Tinha, porque eu ia aos jogos, desde garoto eu ia aos jogos, com os amigos, até mais idosos. Os jogos, nessa época, eram realizados na Rua Paissandu, que tinha uma grande área, que era dos Guinles, que cederam para o Flamengo, para o Flamengo fazer... Porque o Fluminense era próximo... Para fazer um campo ali para ter onde treinar o futebol. Então eu ia lá sempre. Tinha alguns jogadores. Tinha um jogador que era o Nonô, um camarada grandão, jogava de boné branco, feito um casquete, essa coisa toda, que era o goleador daquele tempo. E tinha grandes jogadores, tinha o Moderato, tinha o Píndaro, tinha o Galo, depois veio o Hélcio, depois veio o Hermínio, depois veio o Penaforte. Moderato era ponta, ponta direita. Eu me esqueço um pouco.

 

P/2 - Como era o estádio? Esse campo na Paissandu, como era?

 

R - Era um campo muito precário. Tinha as balizas e depois tinha uma arquibancada de madeira, de um lado e do outro. E atrás tinha um local onde se dançava, essa coisa toda. 

 

P/2 - Como era a torcida nessa época?

 

R - Era fervorosa. Mas naquele tempo tinha um percentual muito grande de mulheres. As mulheres acompanhavam muito futebol naquele tempo, com seus maridos, namorados. 

 

P/2 - E usavam a camisa do time? Como era?

 

R - Não, uma ou outra usava, mas geralmente elas iam bem vestidas para o campo. Era um local de atração também, como hoje você vai ao jóquei. Naquele tempo o futebol era uma coisa... Era a regata, primeiro a regata e depois o futebol. Futebol era jogado, naquele tempo, na maioria por gente bem classificada, médicos, advogados, economistas, muita gente formada. Engenheiro. A maioria dos jogadores eram formados. Porque havia muita seleção deles, social. Um pé rapado poderia jogar bem, mas não entrava no time. Era um negócio mais de... 

 

P/2 - E essas festas que tinham na Paissandu, como eram?

 

R - As festas eram até muito bonitas. Tinha um negócio maior do que essa piscina, todo fechado, um palanque. E tinha música embaixo e a gente dançava ali com as moças, era até muito bonito.

 

P/1 - Os jogadores, depois dos jogos, incorporavam-se, iam às festas?

 

R - Naquele tempo incorporavam-se. Era todo mundo da sociedade. Não tinha desclassificado, digamos assim. Não quero chamar jogador de futebol de desclassificado. Mas era tudo gente boa. Uns mais pobres, mas... E as mulheres tinham uma adoração para namorar jogador de futebol naquela época. Eram rapazes bonitos, bem tratados, médicos. Eram muito bem situados na vida. 

 

P/1 - E o senhor tinha quantos anos, mais ou menos, nessa época?

 

R - Devia ter uns quinze, dezesseis anos.

 

P/1 - Era pago as entradas?

 

R - Era pago. A gente dava sempre um jeito de pular para não pagar.

 

P/1 - Seus irmãos iam? Seu pai ia? Sua mãe ia?

 

R - Não, da família só quem ia era eu. Era o mais velho, que tinha mais prerrogativa. 

 

P/1 - Tinha alguma música, algum refrãozinho que se cantava naquela época?

 

R - Tinha. A do Flamengo era assim... Deixa eu lembrar... Não me lembro. "Vamos dar um viva ao Flamengo, Flamengo que nos faz morrer. O ronco da bateria escola parece o batalhão naval." Cantava-se muito ele. Isso era os próprios jogadores que cantavam. Depois vieram dois hinos. O hino do Paulo Magalhães, foi um grande escritor, era Flamengo, e depois veio o Lamartine Babo, que era americano, mas fez canções para todos os clubes. E o hino do Flamengo, apesar de muito bonito, ficou sendo superado pela canção do Lamartine Babo. "Flamengo, Flamengo, tu adora vencer. Flamengo, Flamengo, Flamengo até morrer!" O hino do Flamengo eu sei também, mas agora ficou uma embrulhada assim...

 

P/1 - Mas dessa época de quinze, dezesseis anos tem alguma lembrança de algum jogo que tenha lhe marcado bastante?

 

R - Dessa época não, não me lembro bem. Eu tive um jogo que me marcou muito, mas isso foi mais tarde, foi o Fla X Flu da Lagoa.

 

P/1 - Como foi esse jogo?

 

R - O campo do Flamengo é próximo a Lagoa. Então o Flamengo apostava o Fluminense... Foi com o Fluminense. O Fluminense jogava todas as bolas na Lagoa. Mas acabou vencendo o Flamengo por um a zero. Eu lembro um jogo também com o América, que o Flamengo bombardeou o América. O América tinha o Tadeu, a bola batia nas costas dele, e ele defendia todas as bolas, o Flamengo dominando. Até que um jogador do América, (Plácio?) Mansores, era de Bangú e jogava no Américo, chutou a bola lá do campo e ela entrou. Aí ficou América vencedor e o Flamengo dominando o jogo todo. Isso é muito comum em futebol, o clube dominar e perder. O Flamengo também perdeu mais tarde dois campeonatos com o Fluminense, no último minuto, com as bolas lá no meio da...

Técnicos, Canela, que foi campeão onze anos seguidos. Foi um grande Botafoguense. Era muito meu amigo. E ele dizia o seguinte: "Moreira, só tem um clube se eu um dia sair do Botafogo que me interessa, que é o Flamengo." E numa certa ocasião ele brigou com o Carlito Rocha, que era presidente do Botafogo. E eu disse: "Canela, acho que está na hora. Você está brigado com o Botafogo." "Você chegou na hora, Moreira. Eu tenho uma dívida aí de seis mil e tanto..." Não sei a moeda da época, seis contos... "Eu pago." Paguei. Ele não era mercenário não, mas estava... Aí levei para o Flamengo. Interessante, ele era considerado grande torcedor, dos maiores do Botafogo, ficou dos maiores do Flamengo. Se apaixonou pelo Flamengo, gritava, brigava, tornou-se o sócio do Flamengo, tem um ginásio com o nome dele. Passou a só ver o Flamengo na frente dele. 

 

P/1 - O senhor disse: "Eu paguei." Como funcionava isso? Vocês pagavam mesmo?

 

R - Não, foi o seguinte: eu não disse que eu paguei. Ele tinha uma dívida, não sei da onde, com o Botafogo, de seis mil e poucos reais, que ele ajudava muitos jogadores. Eu disse: "Isso não é problema." Eu paguei para ele, dei o dinheiro a ele, no dia seguinte ele estava no Flamengo. Nunca mais saiu. Morreu no Flamengo. Levantou onze ou doze campeonatos de basquete seguidos no Flamengo, seguidos. 

 

P/3 - Foi técnico de natação sem saber nadar.

 

R - E foi técnico de natação, também sem ter jogado futebol. Ele era muito atuante, e depois tinha uma grande habilidade de lidar com o ser humano, com os jogadores. Ele sabia lidar com os jogadores, tornava os jogadores amigos dele. Ele gastava o salário dele, que ele era técnico da Escola Naval, e da Escola de Aeronáutica, o dinheiro dele ele gastava mais presenteando os jogadores, pagando comida, pagando isso, aquilo. Foi uma criatura maravilhosa. Tenho até livro dele, acho que dei outro dia não sei para quem. 

É uma passagem... Para contar tudo... É que muita coisa, a gente já com essa idade, vai pulando, mas tem muita coisa. Entrar no campo para dar no juiz de futebol. Papelão, né?

 

P/1 - O senhor fazia isso?

 

R - Eu fiz. É o seguinte: vocês, mulheres, às vezes são muito culpadas de certas coisas. E eu já empresário importante. Eu estou sentado no campo do Vasco, era Flamengo e Botafogo. O juiz era o Zilá Costa, fazendo bobagem contra o Flamengo aos montes. Não sei porquê. Não acredito que estivesse roubando não, mas fazendo bobagem, prejudicando o Flamengo. Aí tinha um grupo de mulheres, que eu estava sempre rodeado por elas. "Antigamente no Flamengo tinha homem, mas não tem mais". Eu aí levantei correndo atrás dele, ele na minha frente. Depois veio a polícia no meio da rua. 

 

P/1 - Elas deram um empurrão, né?

 

R - É. "Antigamente o Flamengo tinha homem, agora não tem mais." "Como é que não tem? Tem". Fui bancar que tinha.

 

P/2 - Qual foi o resultado do jogo?

 

R - O Flamengo ganhou, parece. Nem me lembro direito. Eu fui porque eu tive que ir para casa, eu não pude mais assistir o jogo. Foi uma confusão muito grande. Já viu um torcedor correndo atrás do juiz dentro de campo? Que papelão! Um papelão terrível. Mas coisas que a gente faz inconscientemente. "Não tem mais homem no Flamengo", e esse "Não tem mais homem no Flamengo" era uma ofensa... Porque sempre se disse isso: "O Flamengo é o clube dos machos, ou dos valentes. As mulheres do Flamengo sempre foram grandes torcedoras, a mulher do Francisco Abreu, a mulher do Ari de Melo Pinto, eram criaturas que só faltavam entrar no campo para dar no adversário. O Flamengo é tido por esse estigma de que é de gente capaz, de gente valente, de gente que não se...

 

P/3 - Da raça?

 

R - Que tem raça, a raça Rubro Negra. E sempre apareceram, porque teve aquela equipe da Praia do Flamengo, que era Flamengo até debaixo d'água. Brigavam com todo mundo, cada um com um bíceps desse tamanho. Quem é que podia com eles? 

 

P/2 - Mas isso era o quê? 

 

R - Torcedor que vivia... Atleta, uns eram atletas até, de ginástica de aparelho, peso, essa coisa toda.

 

P/2 - Mas era um grupo de torcedores, uma associação?

 

R - Torcedores, todo mundo se juntava com eles. Eles eram fortes, a gente se juntava com eles. Sabia que o pau ia comer mais para lá do que para cima da gente. Era bonito, às vezes até desfilavam de escafandro. "Flamengo até debaixo d'água." Então para considerar o Flamengo até debaixo d'água tinha uns que desfilavam de escafandro.

 

P/2 - Em que época isso?

 

R - Cinquenta, por aí. Até o Almirante Faria Lima, que foi governador aqui da Guanabara, já foi do Estado da Guanabara, a mulher dele e a irmã foram grandes campeãs de natação do Flamengo. Porque o Flamengo não tinha piscina, fazia natação no Fluminense. E lá não podia dizer que era Flamengo. Mas depois que o Flamengo fez piscina lá na Gávea todo mundo passou para lá. Elas até parece que botaram a marcação das mãos ali na entrada. Tem muita coisa para contar. Era bonito, era um companheirismo muito grande, nós víamos as vésperas dos jogos, no dia dos jogos, íamos almoçar com os jogadores, levávamos para lá grupos de cantores. Grande Otelo era um que estava sempre lá, Russo do Pandeiro, tantos outros lá, Jorge Ben também. O Flamengo tem uma característica, no meu modo de entender, diferente de outro qualquer clube. O Flamengo era uma família. A gente tratava os jogadores de futebol, mesmo já no profissionalismo, com todo carinho, para que ele sentisse que ele não era apenas um instrumento para ganhar alguns tostões, tinha que ter uma ideia do que era o clube. Então almoçávamos com eles, jantávamos com eles, trazíamos filmes, a Embaixada Americana trazia muita coisa, e por aí afora. Então havia uma fraternidade. Por exemplo, hoje aniversariava o roupeiro, tinha bolo para ele, cantoria para ele, essa coisa toda. Isso eu acho que o Flamengo não pode perder, se perder isso ele perde tudo. A característica do Flamengo é essa, de solidariedade, de bem querer. Não é só na hora do campo não, é antes, todo o tratamento. Eu fui até... De gente torcedora do Flamengo, ajudei a levar jogadores bons para o Flamengo também. Comprei para o Flamengo, dei de presente, vestia basquete, voleibol e remo, praticamente era eu que vestia com produtos da Super Bowl, na minha conta.

 

P/1 - E a Super Bowl? Já que o senhor comentou da Superbowl, qual foi o ano da criação da Super Bowl e por que a ideia de fazer uma loja de artigos esportivos? Quando é que surgiu isso? 

 

R - Nós montamos uma loja em 1934, onde o meu sócio não vivia bem de vida. Era um bom rapaz, mas não vivia bem de vida. E eu tinha algum dinheirinho, que eu tinha saído de Niterói, da sociedade com o meu pai, e recebi 25 contos naquela época. Então alugamos uma loja e começamos a trabalhar com os artigos onde eu tinha relacionamento de crédito. Fábrica de malas, material, tesoura, navalha, canivete, cutelaria. Mas depois fomos mudando para material de esporte, aos poucos, botando chuteira. Depois resolvemos acabar com tudo de cutelaria e só trabalhar em esporte.  

 

P/1 - Onde era essa loja?

R - A primeira loja era na Rua Marechal Floriano, 57.

 

P/1 - E quais foram os primeiros materiais esportivos que vocês venderam? E quem era a sua clientela?

 

R - A clientela passou a ser todos os clubes de futebol, grandes e pequenos.

 

P/1 - Como quais, por exemplo?

 

R - Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco, América. O América foi um grande clube. Foi o primeiro clube brasileiro a importar jogadores estrangeiros, uma porção de Argentinos, e foi o primeiro clube brasileiro a vender jogador para o exterior, que foi o _________, um center ______. O América era um grande clube. E depois tinha uma condição muito interessante. E segundo clube de quase todo mundo era o América. Era bonito, era ____ rubro, todo vermelho. Mas teve grandes times o América, teve grande destaque no futebol. 

 

P/1 - E o nome da loja? Por que Super Bowl?

 

R - Super Bowl porque a bola chamava-se Super Bowl. A bola foi inventada por um brasileiro que morava na Argentina, trabalhava com esses artigos, e lá ele patenteou e vendeu a outros a marca lá. Depois nós conseguimos trazer para o Brasil. Primeiro, trouxemos a representação da bola oficial, depois passamos a comprar o título e fabricar as outras bolas. E como era muito importante Super Bowl, ficou Super Bowl. E havia o seguinte, o nome de fantasia era Loja Super Bowl. Agora o nome jurídico era Santos e Moreira Leite.

 

P/1 - Eram sócios?

 

R - Éramos dois sócios. Mas o Moreira Leite, sem querer me convencer, ficou muito mais destacado, que eu vivia muito mais no esporte, meu sócio era mais retraído. Foi diretor do América. O pai dele era muito granfino, eu era mais popular. Quem atiçou aquela reunião do Flamengo na Colombo fui eu. Como dessa vez, quando foi criada a FAF no Flamengo, quem levou a maioria fui eu, eram Flamengo, mas não tinham nenhuma atividade.

 

P/1 - Mas como era um dia seu de trabalho? Trabalhava na loja, ia aos almoços na Colombo?

 

R - É. Você não almoça todo dia? Nós almoçávamos, mas em vez de levar meia hora, levávamos duas horas. Uma vez ou outra. E reuníamos muito aos sábados. Aos sábados a turma toda ia para lá para depois ir para o futebol. 

 

P/1 - E a clientela da sua loja? Quem iam? Iam os representantes do clube? Eles iam lá comprar o quê? Compravam chuteiras, as camisas?

 

R - Compravam tudo que eles precisavam. Às vezes custavam muito a pagar, mas compravam sempre.

 

P/1 - Vocês faziam por encomenda?

 

R - Fazíamos por encomenda também. Nem sempre tínhamos tudo nas cores do clube, como eles queriam, então fazíamos por encomenda. 

 

P/1 - E as chuteiras? Qual era o material das chuteiras?

R - As chuteiras antigamente, quase todas eram provenientes da Inglaterra. E se fabricavam alguma coisa aí fabricava mais ou menos no mesmo estilo. Em vez de ser uma chuteira era um sapatão, botina pesada. E passamos a ver que a diferença do clima da Inglaterra para o Brasil é uma brutalidade. Lá eles não usam essa roupa nem ficam assim. Mas nós jogávamos com o material deles. Então era um sacrifício para nós. Mas depois fazendo a chuteira de lona, de pelica, é uma delícia fazer o calção de um tecido fino, quase transparente, a camisa também de uma malha bem leve, bem fina, para pesar o menos possível, tudo isso nós tínhamos contrato com as fábricas para fazer assim. E todo mundo queria, porque a Super Bowl, naquela época, era sinônimo de qualidade, de importância. "Estou jogando com uma bola Super Bowl, estou vestindo uma camisa Super Bowl." Como você tem aí as grifes.

 

P/1 - E vocês atendiam vários Estados do país?

 

R - Sim.

 

P/1 - Vocês tinham lojas onde? Representantes onde?

 

R - Em quase todos os Estados. Muita gente que vinha ao Rio, do Paraguai... O Paraguai era um nosso grande cliente, Uruguai. Não sei se é porque eles não vão muito com argentino, mas vinham ao Brasil e ficaram nossos clientes. E o produto nosso era bom.

 

P/1 - Vocês tinham lojas em quais Estados?

 

R - Em Belo Horizonte, e no Rio de Janeiro, em Petrópolis, Niterói, o resto era representante.

 

P/1 - E as camisas? O senhor estava comentando sobre uma camisa do Flamengo branca com listras. Como foi? Foi a Super Bowl que criou essa camisa?

 

R - Foi, fui eu que criei.

 

P/1 - O senhor pode contar um pouquinho?

 

R - Eu já contei. O técnico austríaco que veio contratado para o Brasil era muito estudioso, ele filmava todos os treinos. E depois uma das coisas que ele observou é que com esse calor, dia de calor, uma camisa vermelha e preta atraía muitos raios solares, cansava mais os jogadores. Então ele foi lá na Super Bowl para resolver esse problema. Eu resolvi o problema, dei a sugestão. Não queria que saísse o preto e o vermelho da camisa nunca, mas era uma faixa. E ficou um sucesso naquela época. Hoje eles jogam pouco com essa camisa.

 

P/3 - É a camisa reserva.

 

R - Mas é a camisa bonita. E a camisa do Flamengo eles também modificaram, a camisa do Flamengo era muito elegante. Era com golinha e com o cadarço. Era muito granfino naquela época, toda enfeitada. Aí quiseram botar a camisa azul no Flamengo. Só não botou no camarada contra a parede e passando fogo nele. Por que camisa azul no Flamengo? Camisa branca com o risquinho fininho, vermelho e preto, engraçado. Azul! Bobagem do Kléber. Não sei se... 

 

P/3 - Foi a primeira camisa, antes de virar vermelho e preto, era amarelo e azul. A camisa número um do Flamengo, quando separou. E aí ele fez comemorativa dos...

 

R - Não. 

 

P/3 - Mas não era para jogar.

 

R - A camisa do Flamengo era uma camisa... Como se chama? Cobra-coral. Desde que eu me entendo, quase cem anos, é a camisa vermelha e preta. O presidente do Flamengo não deixaria fazer outra coisa. É como a bandeira nacional. Você vai modificar a bandeira nacional? Se é aquilo que atraiu, que tornou a maioria dos brasileiros Flamengo, essa coisa toda, não tem nada que mexer. Tem que difundir mais, cada vez mais, essa coisa toda. Pode fazer de um tecido mais leve. Hoje tem recurso para tudo isso. Mas sempre com as cores. Tem até um... Que a gente dizia, era: "Preto como o negrume da noite e vermelho como o sangue que corre no meu coração." 

 

P/1 - Bonito, né?

 

R - É. Era uma... Eu pelo menos fui assim, e muitos dos meus amigos. Era uma decisão, não podia modificar. "Flamengo é Flamengo, até morrer." Essa coisa toda. Tanto é que depois eles fizeram uma opção, fizeram uma porção de referências: "Uma vez Flamengo, sempre Flamengo", quando entrou na guerra, "Como o Flamengo serviu o Brasil", "Onde encontrares um Flamengo encontrarás um amigo", por aí afora. Tem uma porção de coisas assim. Sempre marcando. Os outros não podem fazer mais, porque vão copiar.

 

P/1 - O senhor usava algum distintivo, algum símbolo do Flamengo?

 

R - Eu usava o escudo do Flamengo. Eu tinha um escudo do Flamengo. Até depois que sua avó morreu, ele desapareceu. Eu tinha um escudo do Flamengo todo pedrejado de brilhante. Eu usava. Não era por diletantismo não, era porque era bonito mesmo, todo mundo gostava. Eu chegava em qualquer repartição, "Doutor, que escudo lindo do nosso clube." Aí me encaminhavam. Me recordo que certa feita eu estava me sentindo deficiente em conseguir solvente para desmanchar o látex para fazer as câmaras de ar. E tudo só vinha medida. E um dia eu resolvi ir à Esso, era a nossa fornecedora. E botei um escudo do Flamengo - a minha mulher que gostava muito de usá-lo - e quando eu cheguei lá, entrei no elevador, foi essa a expressão do crioulo lá, acessorista: "Doutor, nunca vi um escudo tão bonito do nosso clube." "O que o senhor quer aqui?" "Eu quero aqui, porque eu tenho necessidade de solvente e estão me dando pouco solvente." "O diretor dessa área é um Flamengão, Doutor." E me levou ao diretor da área, nunca mais me faltou solvente. Verdade.

 

P/1 - E as famosas bolas que vocês faziam na sua fábrica? A bola de dezoito, a bola da pelada, como era?

 

R - Tinha a bola de dezoito, que era a bola oficial. Eram dezoito gomos. E fazíamos bola mais baratas também, a bola tipo amador, a bola para atender à concorrência, essa coisa toda. Mas as bolas de qualidade eram todas de dezoito, em futebol, em basquete. Em voleibol a gente transformou um pouco, às vezes fazia de dezoito, às vezes fazia de dezesseis gomos. E também nas bolas de futebol de salão. Fomos nós que criamos a bola de futebol de salão. Como chama agora? 

 

P/3 - Handball.

 

P/1 - Futsal.

 

R - Futsal. Viu que ela está mais em dia? Porque primeiro quem fazia futebol de salão aqui era a Associação Cristã de Moços. E nós fazíamos, enchíamos de cortiça para ficar macia, essa coisa toda. Mais tarde, então, passou-se a fazer com enchimento de espuma, espuma de plástico. Fizemos bola para cegos também. Era uma bola cheia de guizos. 

 

P/1 - E o Flamengo era um grande cliente da sua loja?

 

R - O importante não era ser um grande cliente. Porque o escudo, naquela época, pagavam com dificuldade. Mas era referência para os outros que iam comprar. Todo mundo queria comprar onde o Flamengo comprava, onde o Botafogo comprava, onde o América comprava, onde o Fluminense comprava. Nós fazíamos as camisas do Fluminense. E naquele tempo fazer as camisas do Fluminense não era brincadeira, porque inegavelmente o Fluminense tinha uma exigência muito grande, eles eram muito organizados. Então a cor da camisa do Fluminense é grená, verde e branco. Mas o grená é um grená todo especial, não é um grená comum, e o verde é todo especial. Não é esse verde, é um verde garrafa, mais ou menos. Se chegasse e não estivesse bem nas cores, eles devolviam. Hoje em dia todo mundo acha que o Fluminense é a cor da bandeira italiana, vermelha, verde e branco. Não é. Fluminense é grená, verde garrafa e o branco. 

 

P/1 - E o senhor recebia na sua loja, às vezes, visita de atletas, jogadores, dirigentes?

 

R - Recebia.

 

P/1 - E passavam lá para comprar, para conversar? Como era?

 

R - Para papear também. Chegava aí uma autoridade, até boxer, ia almoçar com eles, essa coisa toda, para depois tirar fotografia e botar no estabelecimento.

 

P/1 - O senhor tem fotos?

 

R - Deve ter alguma coisa. Eu entreguei para um filho meu, não sei se ele guardou isso. Sabe o que acontece? Apesar de eu querer muito o Flamengo, agora mesmo deu uma meia dúzia de faixas. Eu estou oferecendo aos meus netos, nunca ninguém vem buscar. Então eu tenho meu médico, que não me cobra nada, que é um grande médico, ele é Flamengo e o filho dele de oito anos, são Flamengo, eu peguei toda essa traquitana que tinha aí do Flamengo, levei para ele. Umas seis faixas de Flamengo campeão, essa coisa toda. Tem que esvaziar. Eu tenho até quadros, já dei três ou quatro quadros, porque eu, como estou sozinho hoje, eu tenho a minha mulher, a mulher é tudo na vida da gente. Então ela ajuda a arrumar, ela cria a ideia. E a minha casa é interessante, ela tem poucas paredes, tem muitas janelas e poucas paredes, então já dei vários quadros. E outras coisas mais para dar ainda. Eu tenho móvel de trezentos anos. Da tataravó, não é nem bisavó, é da tataravó. Tem um Santo Antônio aí que tem mais de trezentos anos. E esse não pode ser nunca vendido, o resto eu posso vender. Porque esse passa para o mais velho da família. Eu sou o mais velho da família. Sou o capo di tutti capi, não é assim que os italianos dizem? Sabia disso?

 

P/1 - Não.

 

R - A máfia italiana, os mafiosos chamam-se de capo. Agora tem os chefes deles, que é o capo di tutti capi. É o capo de todos os capos. Então eu me intitulo disso, capo di tutti capi, porque sou o mais velho, dessa montanha de Moreira Leite que tem aí no Brasil, em Niterói e por aí afora, são todos mais moços que eu. 

 

P/1 - Mas para a gente então ir encerrando, só mais algumas perguntas sobre a Super Bowl. Sobre as nadadeiras, que o senhor estava comentando, vocês fabricavam?

 

R - Fabricávamos.

 

P/1 - Como era? Que material era feito?

 

R - Era borracha. Borracha fundida. Tinha a fôrma, levava a borracha ali, depois levava calor, era isso. 

 

P/3 - Máscaras também?

 

R - As máscaras, as câmaras de ar, todas eram feitas por nós. Nós tínhamos as fôrmas e injetávamos o látex, tomava forma, fundia, pronto.

 

P/1 - Faixas vocês também fabricavam?

 

R - Faixas.

 

P/1 - Alguma situação que o senhor se lembre, de algum título em que vocês fabricavam, especialmente faixas com nome?

 

R - Eu estou dizendo que dei agora uma meia dúzia de faixas do Flamengo? Nós fizemos para todos os clubes. Eles nos procuravam, porque nós tínhamos um setor de bordado, porque as nossas faixas não eram pintadas, eram bordadas. "Flamengo campeão", do ano tal, "Botafogo campeão", do ano tal, tudo bordada. Era uma faixa que o fulano tinha um prazer muito grande, uma honra de guardar isso. Tudo isso. Eu tinha um bordador que era capaz de fazer o seu retrato na linha, um argentino. Capaz de fazer o retrato da pessoa. E hoje também tem outros que fazem. É uma atividade que evoluiu muito. Tanta coisa. Sabe o que é sair de um sapato pesado, uma chuteira pesada para jogar com uma chuteira de lona, lona boa, ou de pelica leve? Você tem outra velocidade, tem outro comportamento. Calção que não fique pesando no seu corpo, camisa que não fique pesando no seu corpo. Tudo isso nós fizemos. É bem leve. Nosso produto é, como diz o argentino, levianito

 

P/1 - E a Super Bowl, teve outras lojas na cidade além da Rua Marechal Floriano? Vocês tiveram outras lojas? 

 

R - Teve. Aqui na cidade nós tivemos na Avenida Rio Branco, na Galeria do Comércio, nós tivemos em Niterói na Rua São Clemente, na Rua Visconde de Uruguai. Nós tivemos em Belo Horizonte, na Rua da Bahia, e fábrica, também em Belo Horizonte, na Rua Pouso Alegre. Tivemos fábrica aqui no Rio, na Estação de Engenheiro Real.

 

P/1 - Vocês mandavam material para outros Estados como? De trem?

 

R - Não, vai embalado de avião, de trem, qualquer tipo, conforme a exigência do cliente. Mas quase tudo ia de avião, porque sempre tinha tanta pressa. O brasileiro deixa tudo para a última hora. Ele quer jogar naquele dia com tudo pronto, e você tem que mandar de avião, quase sempre de avião. 

 

P/1 - E a Super Bowl, quer dizer, foi fundada em 1934. E ela acabou...?

 

R - Ela acabou em 69.

 

P/1 - Por que ela acabou, vocês se desfizeram?

 

R - Acabou porque tínhamos uma sociedade, nós desfizemos a sociedade. Depois, aqui no Brasil, agora melhorou um pouco, mas ainda não há um conceito do que seja o tratamento para com os industriais e para com os comerciantes. O Brasil é o país que tem a maior taxa de impostos do mundo. Então você fica sobrecarregado dessas coisas, veio também o modelo trabalhista. No modelo trabalhista passou a haver muito abuso, porque advogados assim, advogados assado. E como eu me separei, depois eu fui me enjoando de tudo, eu digo: "A vida é para ser vivida, não é para a gente morrer antes do tempo." Então o meu sócio acabou a parte dele, que ele ficou com uma parte, eu fiquei com outra, eu resolvi acabar também. Muito triste, muita coisa. Porque os meus filhos também, moços. Em família é muito difícil, porque o mais velho quer mandar no outro, o outro acha que é mais capacitado que o mais velho. O mais novo acha que é mais capacitado que todos eles. Aí começa um conflito, essa coisa toda. E você vai ficando cansado. Depois o dinheiro do Brasil custava muito caro, agora que está melhorando um pouco. Você tinha que fazer uso de créditos financeiros. Então, com isso, para que você vai estuporar? Acaba, fazer o quê? Até o dia em que venha a entender que o industrial é necessário, que o comerciante é necessário, que todo mundo é necessário. Mas sabe que de um modo geral existe uma perseguição contra o empresário. O empresário é sempre ladrão, não se vê o empresário como criador de emprego, de riqueza. 

 

P/1 - A firma chegou a ter quantos empregados, a Super Bowl?

 

R - Entre as lojas e tudo, uns quatrocentos. 

 

P/1 - Um grande negócio, né?

 

R - Um grande negócio e grande despesa, grande preocupação. De um modo geral, os grandes clubes, principalmente, pagavam com muito atraso. Eram bons clientes, mas pagavam com muito atraso. E o dinheiro custava dinheiro. E nós também não éramos uma firma muito capitalizada. Nós fomos capitalizando de acordo com os nossos resultados. Na ocasião que nós nos estabelecemos, eu tinha 25 contos, meu sócio não tinha nada, esses 25 contos foram procriando aos poucos.

 

P/2 - Vocês se estabeleceram também no período anterior à guerra?

 

R - É, a guerra foi 39. 

 

P/1 - Esse período você lembra de alguma coisa da loja? Como era? Tinha movimento, não tinha? Os jogos aconteciam de qualquer forma?

 

R - O período da guerra foi muito bom. No período da guerra os americanos compravam muita coisa. Porque tinha várias bases aqui no Rio, no Brasil. Só de uma vez nós vendemos para eles sessenta mesas de pingue-pongue. Vendíamos para um uma mesa, para outro outra mesa, mas teve de uma vez sessenta mesas de pingue-pongue, cem bolas de pingue-pongue. Eles compravam e pagavam bem, pagavam na hora. O resto não, é natural, estavam sempre sem dinheiro. Então o fornecedor é sempre... E depois o seguinte, chega: "O cheque já está pronto, mas falta o tesoureiro assinar. O cheque está pronto, o tesoureiro já assinou, mas falta o presidente assinar." E ficava nisso, nesse enrola, enrola. Pagavam, mas custavam muito. Ocasião de levar ano para pagar uma fatura. Mas a gente dizia: "Eu vou entregar a mercadoria. Sob palavra de honra você vai..." "Não, pode entregar que segunda feira vem o dinheiro." A palavra de honra entrava por um tubo, saía pelo outro.

 

P/2 - Só queria fazer uma última pergunta, já que o senhor falou em 1939, o senhor assistiu a um filme chamado "Corpo e alma de uma raça"? 

 

R - Assisti. Filme do Flamengo, foi protagonizado pela... Eram duas irmãs... Lígia Cordovil, e a outra era... Acho que foi a Lígia, porque eram duas irmãs. E o homem do filme era aquele, muito meu amigo, Fortúnio. Um filme bonito.

 

P/2 - O senhor se lembra da sessão de estréia? O senhor foi?

 

R - Eu nem sei, fui. Era tanta coisa. Ia ao Cassino da Urca quase toda semana. Porque antigamente o Cassino da Urca gastava doze cruzeiros, não me lembro a moeda, jogava, ganhasse ou perdesse você tinha um ticket para jantar na boate. E era um espetáculo maravilhoso. A Urca tinha três palcos giratórios. E tinha dia de ter dois, três eventos internacionais. Carlos Ramires, Sônia Rennes, coisa assim. Num dia só tinha três... Muito bonito. Como foi bonito também a Quitandinha, não era igual, mas também o Cassino Atlântico, sabe onde é o Cassino Atlântico? E tinha também o Cassino Niterói. Mas o bom dos cassinos era a Urca. 

 

P/1 - Mas o senhor frequentava esses lugares com grupos de amigos ligados ao Flamengo?

 

R - Não, ligado não. Ia com a minha família. Eram shows maravilhosos, fantásticos, acrobatas, tudo. Sem pagar nada. Você pagava com o ingresso que você jogou, ganhou ou perdeu, de qualquer maneira você ficava com aquele ingresso na mão. Eles te davam ingresso depois para jantar. E você ia jantar, ficava até altas horas da madrugada assistindo aqueles shows todos, a Orquestra de Carlos Machado, o Grande Otelo cantando, que ele cantava. O Grande Otelo vivia aqui na minha casa, aqui não, lá em Ipanema, ele, o Russo do Pandeiro, aquele de chapéu de palha, o Dilermando. Uma porção deles iam lá pra casa.

 

P/1 - O senhor morava em que bairro?

 

R - Eu morei em vários bairros. Eu morei em Copacabana, depois fui morar na Lagoa, depois na Barão de Jaguaribe, em Ipanema, casa própria. E nessa minha casa tinha uma particularidade interessante. Era uma casa que eu fiz mais um andar, com um quarto para cada filho e um quarto ainda para amigo de filho que fosse para lá. E como o terreno dava para guardar o carro, era coberto lá embaixo, mas era comprido, então eu resolvi fechar tudo aquilo, deixar o carro do lado de fora, e fiz ali uma boate. Um palco assim, o pai dele, mais velho, tocava muito bem bateria, e o senador Artur da Távola tocava acordeon. E tinham outros que tocavam outros instrumentos, tal.

 

P/1 - O senhor recebia amigos naquela casa?

 

R - Recebia não na boate, meus amigos eram de casa. Porque a boate era para a rapaziada. 

 

P/1 - Quantos filhos o senhor tem?

 

R - Eu tenho atualmente quatro filhos, não, três filhos. Morreu um.

 

P/1 - O nome deles?

 

R - Um é Marco Antônio, que é o pai dele, que queriam botar o nome de Antônio, eu não quis, então arranjaram Marco Antônio, depois tinha o Marco Aurélio, agora mesmo Marco Aurélio... Depois Marco Pólo, que é um rapagão, se vocês virem ele vão ficar impressionados, é um rapaz bonito à beça. E uma filha, que mora em Portugal, também Flamenga.

 

P/1 - Qual o nome dela?

 

R - Márcia Maria. Essa é Márcia Maria Moreira Leite Gouveia, que o marido dela era Gouveia, mas fiz em homenagem a ela essa pérola aqui.

 

P/1 - Todos os filhos são flamenguistas?

 

R - Graças à Deus, senão eu mato. 

 

P/1 - E a sua esposa? Qual o nome da sua esposa?

 

R - Minha esposa é Mariana dos Reis, nasceu no dia dos Reis. E na terra dela, na Bahia, há um desfile que eles chama de desfile dos ternos à noite. É uma espécie de um bloco que entram nas casas das famílias para comer e beber, e ai de quem não fornecer. Mas todos fornecem. Comida e bebida, vão gritando, cantando. 

 

P/1 - Ela era flamenguista também?

 

R - Ela começou botafoguense, mas depois foi forçar, ela veio a ser Flamengo. Tanto é que o escudo de brilhante que eu tinha ela gostava muito de usar. E os filhos, Flamengo, essa coisa toda. E toda festa do Flamengo era muito festejada. Eu tive uma mulher muito interessante. Não era tipo de beleza não, era mignon, fui casado 54 anos com ela. Não fui mais porque ela morreu, senão seria hoje 64 anos. Ela era uma criatura muito coquete, só gosto de mulher coquete, muito arrumada, muito pintadinha, cabelo sempre pintado, muito bem vestida. E tinha uma coisa, ela era muito graciosa. Se ela estivesse aqui vocês estavam rindo a toda hora, porque ela estava arranjando qualquer coisa para rir.

 

P/1 - Ela sentia ciúmes do Flamengo?

 

R - Assistia. Ela ficou Flamengo. Como o Canela, que era botafoguense, virou um Flamengo doido. Ela ia casar com um Rubro Negro que ela amava e não ia ser? O que há? Eu não proibia não, mas veio naturalmente, tinha que vir naturalmente. E até hoje eu fiquei viúvo, porque eu não encontrei... Mulher não falta para homem nem homem para mulher, não é verdade? Mas aquela que você se acostumou durante 56 anos, 54 de casado, dois de noivado, namoro, noivado, é muito difícil você encontrar uma criatura mais ou menos dentro desses padrões. Pode existir, eu sei que existe, mas para mim o que tem aparecido... Agora já não sou muito interessado, mas até alguns anos eu estava interessado em me casar, mas sempre me aparecia aquelas mulheres grandonas, bonitas e tal, mas como eu vou andar com uma mulher desse tamanho? Já estou acostumado com ela que dava aqui no meu ombro. E sobremodo a minha mulher era uma criatura maravilhosa, divertida para burro. Se ela estivesse aqui vocês iriam ficar amigas dela. Ela ia fazer recepções. Todo mundo queria o endereço dela, para vir ficar com ela. Ela era muito atraente nessa parte, brincalhona à beça, muito brincalhona. Como era o Marco Aurélio, o filho que eu perdi era mais ou menos igual a ela, brincalhão. E com os chistes interessantes que inventava. Um dia, foi o Marco Aurélio, que o meu filho mais velho desde cedo tinha um pronunciamento careca. E o mais novo tinha os seus quatorze anos, hoje tem cinquenta e tantos anos, um garoto de quatorze, quinze anos, tinha uma tendência a não ser muito amigo de banho, a não ser quando é banho de mar, e tal, mas banho... Então uma dia ela chegou e disse: "Meu marido, você conhece a nova dupla que existe na praça?" "Qual é a nova dupla?" "É o fede e o carequinha." Um porque não tomava banho, o outro porque tinha... Uma dupla, "o fede e o carequinha"...

Mas é isso. Eu estou aí à disposição.

 

P/1 - Muito obrigada pela entrevista.

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