Busca avançada



Criar

História

"Eu não sou mulher de desistir"

História de: Marcia Aparecida Florêncio Guerreiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/03/2022

Sinopse

Avós. Brincadeiras de infância. Período escolar. Trabalho aos 11 anos. Mudança para Guararapes. Encontro com o futuro marido. Retorno para Campinas. Noivado aos 17 anos e nascimento do primeiro filho. Maternidade. Início de seu interesse por caminhões. Viagens em família. Trabalho no caminhão com o marido por 15 anos. Decisão de começar a trabalhar sozinha como motorista de caminhão. Primeira e única mulher caminhoneira na empresa em que trabalha. Netos. Pandemia. Realização profissional. Sonhos.

Tags

História completa

P/1 – Marcia, primeiro quero te agradecer demais pela presença, por topar estar aqui com a gente. E queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R – Obrigada, Luiza. Me chamo Marcia Aparecida Florêncio Guerreiro, minha data de nascimento é um de março de 1975, vou fazer 47 anos. Nascida em Campinas no Estado de São Paulo.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – Minha mãe Doraci Alves Guerreiro, meu pai Ariosto Florêncio Guerreiro.

 

P/1 – E como você descreveria seus pais?

 

R – Meus pais… é uma dona de casa e um engenheiro civil, que fizeram, hoje separados, mas fizeram tudo para a criação dos três filhos. Uma família normal, uma família brasileira.

 

P/1 – E o jeitinho deles, assim com você?

 

R – Minha mãe, a gente se fala umas três vezes, quatro vezes ao dia (risos).  “Você tá bem? Tá tudo certo?” “Você tá se cuidando?” “Você tá comendo né?”. Coisa de mãe. Meu pai, a gente fala um pouco menos, mas a gente tenta se falar toda semana. Essa semana passada mesmo eu passei pela cidade dele, passamos, tiramos fotos, ele foi lá me ver. É assim.

 

P/1 – E como é a sua relação com os seus dois irmãos? São dois homens, duas mulheres? Um casal?

 

R – É um casal, minha irmã Mariana, enfermeira. É parceira. Meu irmão Marcelo, casado também. Engenheiro, já é mais corrido. A gente fala muito quando a gente tá no trânsito, tipo, ele tá viajando, eu também, trabalhando a gente consegue se falar mais. Mas é muito bem, uma família brasileira, comum (risos).

 

P/1 – E Marcia, você conheceu seus avós?

 

R – Conheci, conheci maternos, meu vô e minha vó. Meu vô é falecido já há mais de quinze anos. Mas me lembro dele assim, foi um pai pra mim, me ensinou muita coisa, muitas lembranças, muitos lugares que eu vou tem coisas dele, que eu me lembro muito. É, paternos conheci meu vô, pouca coisa, meu vô Português, lembro dele falando, raiando com a gente. Minha vó por parte de pai conheci mais tempo, ela teve mais tempo com a gente. Conheci.

 

P/1 – Tem algum momento que você se recorda? Essas recordações que você tem do seu avô… Se quiser dividir uma com a gente, algum lugar que você passa, que você lembra dele?

 

R – Meu vô sempre gostou de flores, de plantas, de horta, e foi bem bacana, eu fui fazer uma viagem para o Rio de Janeiro e na volta eu passei em Aparecida do Norte, eu parei lá. E caminhando lá, andando, conhecendo, eu cheguei no Jardim que lá tem, tem algumas estátuas, eu fui nesse jardim e estava cheio de flores primavera, e essa primavera me levou até a casa do meu avô. Foi assim, uma lembrança que eu sentei, chorei assim, chorei de alegria, deu estar lembrando daquele momento, das primaveras assim, todas floridas e foi assim. Claro, eu sentar ali, eu lembrei dele, das histórias que ele me contava.

 

P/1 – Que lindo! E você tem algum costume que te lembra sua família, ou datas comemorativas, ou comidas ou cheiros?

 

R – A gente tem comida, como eu falei que eu vim, que eu sou de uma família portuguesa, então eu não como muito peixe, mas toda vez que eu vejo peixe eu lembro que eles têm é… na semana santa, e faz bacalhau, e isso é claramente lembrar deles, dos meus avós, claramente!

 

P/1 – E esses avós nasceram em Portugal?

 

R – Por parte de pai. Meu avô nasceu, e aqui ele conheceu minha avó, aqui no Brasil.

 

P/1 – E você sabe como foi essa viagem, essa vinda para cá?

 

R – Ele veio já adolescente, tipo doze, treze anos. Vieram com os pais, ele e os irmãos, tanto que ainda tem um vivo que mora realmente na Ilha das Pias, em Portugal, que ainda tenho contato com as sobrinhas dele, bisnetas dele, e a gente conversa. Eles vieram pra cá pra trabalho, vieram de navio, vieram a trabalho e aí meu vô se encantou por uma moreninha (risos) e ficou (risos).

 

P/1 –  E Marcia ,você sabe a história do seu nascimento, como escolheram o seu nome?

R – Sim, porque é Marcia Aparecida, porque Aparecida, né? Minha mãe me conta que ela me queria muito, meu pai queria um homem, eu só não sou homem, mas eu faço tudo que um homem faz, praticamente (risos). Aí quando eu nasci eu ia chamar Maria, ai minha mãe falou: “Não, Maria não”. Mas eu nasci com problema de pele e aí minha mãe antes de me registrar, porque na época não se registrava assim que você nascia, pelo menos esperava algum tempo, e aí ela colocou Aparecida porque ela fez uma promessa e aí ficou Marcia Aparecida.

 

P/1 – E esse problema de pele que você descobriu… Foi sério?

 

R – Então, minha mãe, naquela época, fez o tratamento, minha pele…por baixo da pele ela criava glóbulos assim…vamos colocar que ficava bolhas d’água, mas não tomei o remédio, o médico só passou umas pomadas que minha mãe, na época, acho que era Garamicina, ela nem lembra, mas sumiram, com dois três meses de vida sumiram e nunca mais eu tive.

 

P/1 – E Marcia, você se lembra da casa e da rua onde você passou a sua infância?

 

R – Minha mãe mora nela até hoje! Até eu estava conversando com a minha mãe ontem e ela fala que era uma rua de terra, era uma rua de terra e essa rua é…ela fazia roupa pra mim tipo com um suspensório, porque ela falava que eu arrancava as roupas, eu não gostava de roupa, nada que me apertasse, então eu tirava, ela fazia roupas com suspensórios abotoado nas costas pra eu não conseguir tirar, é cada história (risos).

 

P/1 – E como era o bairro?

 

R – É um bairro de classe média, tranquilo, a maioria dos vizinhos ainda estão lá, tipo netos, filhos, ainda estão lá. Há uns vinte dias eu estive lá, na casa que minha mãe e meu filho mais velho mora lá, aí você vê os vizinhos, os vizinhos que te conheciam  quando você era pequena, aí eles ficam contando cada coisa que você passa vergonha, mas a maioria ainda moram lá, nessa rua ainda.

 

P/1 – E as brincadeiras de infância?

 

R – Então, como meu pai queria homem, eu acho que eu vim brincando como um homem, eu gostava de carrinho de rolimã, eu vivia com os dedos machucados, porque passava em cima dos dedos, ralados, é, bolinha de gude (risos). Adorava bolinha de gude, gostava de brincar de escolinha com os meninos, porque a maioria lá era menino, quase não tinha menina, acho que menina só era eu mesmo da idade que a gente tem, que eu tenho, e… mas era brincadeira de menino! 

 

P/1 – E você era a filha mais velha?

 

R – Sou a mais velha.

 

P/1 – E você brincava com os seus irmãos?

 

R – Não, não lembro disso não, não porque meu irmão brincava… ele sempre foi mais de brincar de carrinho e eu acho que eu não gostava de brincar de carrinho. Minha irmã tem uma diferença grande, tipo doze anos, praticamente, então é uma diferença grande.

 

P/1 – E você pensava no que você queria ser quando crescesse?

 

R – Eu queria ser professora, você acha? Professora. Mas aí você vai crescendo, vais vendo que professora não é legal, dá muito trabalho (risos).

 

P/1 – E qual é sua primeira lembrança da escola?

 

R – Eu tenho, pra você ver, eu tenho meu certificado de primeira série guardado, achei hoje, tava guardado. Me lembro da professora, me lembro das brincadeiras, lembro que a gente gostava muito de pintar. Eles cuidavam muito para você brincar na minha época, hoje eles querem alfabetizar e é computador, na minha época era desenhar, pintar, colar, fazer bolinha de papel colorido e colar, isso eu me lembro.

 

P/1 – E como que você ia para escola?

 

R –  Minha mãe me levava a pé, era perto, essa escola ainda existe.

 

P/1 –  E você seguiu nela até o final ou você chegou a mudar de escola? 

 

R – Não, até eu acho… até a quarta, quinta série, depois mudou de escola para ir para o Primeiro Grau, aí depois foi mudando.

 

P/1 – E como foi essa mudança para você?

 

R – Acho que naquela época era bem mais, mais assim, mais tranquila, hoje se preza muito, se apega muito à Fulana vai gostar, Ciclano… naquela época a gente era amigos mesmo, era parceiro. E hoje, eu acho que hoje, não que não tenha, mas antigamente tinha mais essa… esse companheirismo.

 

P/1 – E nessas escolas, ou a de pequena ou um pouco mais velha, você lembra de alguma história marcante assim?

 

R – Eu trabalhava contra a vontade do meu pai, que ele nunca quis deixar e aí eu cheguei em casa do trabalho e falei: “Pai, eu não vou para escola hoje” ele: “ Não, você vai! Não vai perder aula”. Aí eu falei: “Não pai, eu vou ficar em casa”. Nesse dia minha avó por parte de pai estava lá. “Não, você vai”. Aí eu falei: “ Então tá, eu vou” e fui, só que chegando na escola, eu falei: “Eu não quero ir pra escola”. Eu entrei na escola, esperei fechar o portão, pulei o portão e vim embora pra casa. Pulei o muro, mas eu fui embora pra casa, chegando em casa eu falei que não tinha aula e fui dormir, fui dormir, eu estava cansada, eu fui dormir (risos). Até aí, beleza. Fui, no outro dia fui trabalhar, quando eu cheguei em casa o meu pai tava muito bravo e estava com uma cinta na mão, a diretora da escola ligou pra ele e disse que eu pulei o portão, nossa! Ele levantou pra me bater, minha vó, chamada Maria, minha vó Maria entrou na frente e falou: “Você não vai bater nela não, você tem que bater em mim primeiro, você nunca apanhou!” (risos). E aí minha vó entrou na frente e não permitiu que ele batesse, mas meu pai também nunca levantou a mão mesmo, nunca bateu em ninguém, mas eu acho que aquele dia se minha vó não entra, eu ia apanhar sim (risos).

 

P/1 – E você já trabalhava?

 

R – Eu comecei com onze anos, trabalhava no escritório de advocacia, para atender telefone, anotar, só isso, é… em Campinas. Chama Guardinha, é uma instituição que forma crianças pra trabalho, hoje é a partir dos dezesseis anos, mas antigamente você estando na quinta série você já podia fazer.

 

P/1 – E aí você foi por vontade própria, seu pai não era a favor?

 

R – Não, não. De jeito nenhum! Ele ficou muito bravo quando eu fui, ele tinha na mentalidade que eu não precisava de dinheiro, mas eu, eu não ia atrás de dinheiro, eu fui atrás pra trabalhar e não atrás de dinheiro.

 

P/1 – E como foi esse… começar esse trabalho? Você lembra do primeiro dia, como você estava se sentindo? 

 

R – Foi ótimo! A gente ficava três meses fazendo curso, naquela época era datilografia, você tinha que passar na datilografia pra poder continuar e aí tinha todos os ensinamentos, como você trabalhar, tinha contabilidade e tal, e… eu lembro que eu era muito boa na datilografia (risos) os dedinhos tudo certinho. No primeiro dia eles deram a carta pra onde eu ia trabalhar. Ixi, quando eu vi que era um escritório de contabilidade no centro de Campinas, eu falei: “Ai meu Deus, e agora?!” Mas foi muito bom, cheguei lá tinha uma menina trabalhando, ela me ensinou, era só realmente atender telefone, anotar, receber clientes deles, e só. Era muito legal. Muito bom!  

 

P/1 – E como era essa rotina, você ia primeiro pro trabalho, depois pra aula?

 

R – É, era trabalho e depois aula.

 

P/1 – E como você foi crescendo? A juventude, como era seu dia a dia, o que você gostava de fazer?

 

R – Eu sempre gostei de ouvir música, ler livros, tipo eu sou uma nerd até hoje (risos). Gosto muito. E logo estudando e trabalhando, chegava em casa e ia pra escola, estudava, voltava pra casa, trabalhava, minha vida era essa. Até que meu pai teve que mudar de cidade, que ele pegou uma obra muito grande e ficava muito tempo fora de casa e aí ele mudou pra Guararapes, que foi onde eu conheci meu ex-marido.

 

P/1 – A Família inteira mudou junto?

 

R – Mudou, teve que todo mundo ir porque ele ficava muito tempo fora. Ele ia e ficava um mês fora de casa, então aí entrou-se em um acordo com a minha mãe deles irem, aí arrumou escola, arrumou tudo, mas foi bem legal.

 

P/1 – Como foi essa mudança pra você, você estava com quantos anos?

 

R – Tava com quinze, quinze pra dezesseis. Foi muito legal (risos).

 

P/1 – O que você gostou?

 

R – Conheci novas pessoas. Cidade do interior. E logo conheci meu ex-marido, que trabalhava numa fazenda, uma menina da cidade encontrou um cara da fazenda, do mato (risos).

 

P/1 – E vocês se conheceram novinhos e logo começaram a namorar?

 

R – E casamos.

 

P/1 – Como foi esse período?

 

R – Então, ele era muito tímido e eu também, a gente praticamente nem conversava, a gente só casou (risos).

 

P/1 – Mas onde vocês se conheceram?

 

R – Nos conhecemos em Guararapes, no fundo de uma igreja (risos) tinha Deus como testemunha (risos). Não tem uma música que fala?

 

P/1 – E aí você foi crescendo com ele e como continuou a vida lá, na cidade?

 

R – Ele trabalhava numa fazenda, então a gente se via a cada vinte dias, uma vez por mês. Ele ia na cidade pra ligar pra mim, uma vez por semana, porque na fazenda não tinha telefone, eu tinha na minha casa, então da fazenda ele ia pra cidade pra ligar pra mim uma vez por semana, e a gente ficou namorando tipo uns cinco meses assim. Ai meu pai acabou a obra, e aí meu pai: “Vamos voltar pra Campinas”. E aí meu pai trouxe ele embora (risos).  

 

P/1 – Ele começou a morar com vocês?

 

R – É, eu fiz meu pai trazer ele embora. Fiz meu pai arrumar um serviço pra ele e trazer ele embora.

 

P/1 – E como foi esse período?

 

R – Ele veio realmente, a gente namorava à distância, não tinha contato físico, mesmo morando na mesma casa, então ele saía cedo pra trabalhar e só voltava de noite e daí a gente foi namorando assim, até noivar e casar.

 

P/1 – E com quantos anos você noivou?

 

R – Dezessete. 

 

P/1 – E casou em seguida?

 

R – Já, e logo em seguida nasceu o meu filho.

 

P/1 – E como foi o casamento?

 

R – Foi bem simples. Foi na chácara do meu avô. Foi na chácara do meu avô, a gente se casou lá, com poucos convidados, só parentes mesmo.

 

P/1 – E como foi esse dia pra você? Como você estava se sentindo?

 

R – Muito feliz! Eu me lembro desse dia, estava muito feliz!

 

P/1 – E depois vocês foram morar juntos?

 

R – Fomos, a gente já tinha uma casa. Meu avô praticamente deu quase tudo que tinha dentro da casa, geladeira, fogão, essas coisas, a gente foi morar na nossa casinha mesmo.

 

P/1 – E aí vocês decidiram ter filhos ou não?

 

R – Não, a gente teve (risos).

 

P/1 – E como foi se tornar mãe pra você?

 

R – Então… aí meu filho não nasceu em Campinas, porque a gente voltou pra Guararapes, eu e ele, só eu e ele. Meu filho mais velho nasceu em Guararapes.

 

P/1 – E como sua gravidez, a chegada do seu filho, a dinâmica, mudou a dinâmica familiar?

 

R – Não, foi tranquilo, foi tudo bem tranquilo. Eu acho que mulher, não sei, eu acho que eu fui criada pra ser mãe, foi muito tranquilo, cuidar da vinda foi tudo muito tranquilo.

 

P/1 – E nessa época você trabalhava?

 

R – Não.

 

P/1 – Seu marido trabalhava com o seu pai ou não?

 

R – Não, não. Aí ele voltou pra trabalhar na fazenda, com caminhão, com trator.

 

P/1 –  E como você começou a se aproximar do caminhão?

 

R – Então, aí a gente voltou para Campinas de novo, e aí ele arrumou um serviço numa empresa, começou a trabalhar com caminhãozinho pequeno, basculante. E todo dia ele estava em casa, e aí ele contava as histórias: "Aí o caminhão quebrou, aí o caminhão não sei o quê, aí o caminhão... eu ficando curiosa. Até o tempo dele vir com caminhão para casa. E a minha casa era grande, a garagem, e ele colocava o caminhão na garagem, e aí foi o começo de tudo. Aí eu pegava para limpar, manobrar, colocar mais para trás, mas para frente.

 

P/1 – E aí você começou a fazer essas manobras?

 

R – Sim.

 

P/1 – E o que você começou a sentir?

 

R – E aí (risos). Eu acho que foi uma satisfação, acho que foi aí que eu me encontrei sem saber que eu tinha me encontrado.

 

P/1 – Foi aí que começou a surgir o seu interesse por dirigir?

 

R – Por caminhão, isso.

 

P/1 – E aí como seguiu a vida, vocês começaram a viajar?

 

R – Sim, ele começou a trabalhar e eu ficando em casa, aí veio o segundo filho, eu trabalhava perto de casa em um posto de gasolina, vinha pra casa e quando o nenê nasceu - que é o Lucas - quando o Lucas nasceu eu parei de trabalhar e fui pra casa. Quando o Lucas nasceu ele já começou a trabalhar em outra empresa e ficava fora de casa, ele ficava quinze, vinte dias trabalhando fora, aí era difícil, porque só ficava eu e as crianças dentro de casa. Logo veio o Léo, o mais novo. Quando eu engravidei do Léo aí ele já estava viajando mesmo, e aí a gente começou… botamos todo mundo dentro do caminhão (risos) e ia viajar. As crianças ainda não estavam na escola, então dava pra viajar. Aí chegava na… quando as crianças começaram a ir pra escola a gente viajava só nas férias, colocava todo mundo lá dentro e ia viajar.

 

P/1 – E nessa época você acompanhava, você ainda não dirigia?

 

R – Não, é assim, com carteira assinada e tudo ainda não.

 

P/1 – E conta pra gente como eram essas viagens com três crianças?

 

R – Era uma aventura (risos). Meus filhos sempre foram bem tranquilos, acho que eles herdaram isso de mim, bem tranquilos, então… e era um caminhão grande, não era um caminhão automático como esse que eu dirijo hoje. Era um caminhão grande, então tinha espaço pra todo mundo, e eles ficavam desenhando, ficavam brincando, viajávamos com nosso cachorrinho também, e aí eles ficavam brincando com o cachorrinho, era uma casa dentro… era uma casa andante.

 

P/1 – E vocês dormiam dentro do caminhão?

 

R – Sim, como eu disse era grande, então os dois dormiam no chão, o mais pequenininho dormia na cama com a gente.

 

P/1 – E Marcia, desse período, que lembranças você tem, tem alguma história marcante de alguma viagem?

 

R – Tem uma viagem que eles já eram grandes, até esses dias a gente estava conversando sobre essa viagem, eles eram grandes, grandes. Meus filhos tem 1.95m, 1,90m, 1,89m, são grandes, grandes! E a gente foi fazer uma viagem, a gente morava em Guararapes, não, minto. Não, Guararapes mesmo (risos), que eu já mudei e voltei… E aí a gente foi fazer uma viagem, a gente ia passar o Natal na casa da minha mãe que mora em Campinas, e ai vai o que? Vai de caminhão, claro! Foi eu, meu marido, os três filhos e o cachorro. Na época a gente trabalhava com uma Scania, Scania é grande mas é um pouquinho mais apertadinha, e a gente fez a viagem de boa, bem apertando, então ficamos todos unidos, bem unidos mas foi uma viagem que os irmãos foram conversando bastante, trocando ideia: “Ah, não me aperta, você tá me apertando” Foi muito legal (risos). “Só a senhora mesmo pra trazer todo mundo dentro de um caminhão” é assim, essas coisas.

 

P/1 – Boas memórias, bons registros.

 

R – Não, sim, sim! Boas memórias, e nesse dia a gente teve que almoçar num lugar que não é legal, porque a nossa profissão acontece, às vezes, de você ir num lugar, pô! Se fosse em outras circunstâncias, nunca você comeria lá, mas como não tem o que fazer, ou você come ou você come. A gente comeu. Isso serviu muito de lição pra eles. Já tinham passado várias coisas, mas essa foi a que eles falaram assim: “É mãe”. E eles sempre deram valor, muito valor ao nosso trabalho, meu e do pai.

 

P/1 – E Marcia, como você começou a trabalhar dirigindo, como foi esse período? Você decidiu?

R – Eu decidi. Decidi trabalhar sozinha, isso vai fazer uns seis anos, seis a sete anos mais ou menos, tive uma discussão com meu marido porque ele queria que eu tivesse dirigido do jeito dele, tudo dele, igual ele, aquela coisa de homem machista, mas do trabalho… beleza. Aí eu falei assim: “Quero mais não” e aí eu falei assim: “Vou pra casa e não quero mais viajar com você”. E aí eu fui entregar um currículo, a história… essa história também vale livro. E eu decidi, eu vou trabalhar! Mas não falei pra ele que ia, e aí eu tava em Campinas. Fui na minha mãe e falei: “Ah, eu vou entregar uns currículos”. E eu já viajava com ele, então eu já era muito conhecida no trecho, por aí, e aí eu fui entregar um currículo lá em Paulínia, porque eu queria trabalhar com tanque, a gente já trabalhava com tanque e tal. Aí eu fui entregar um currículo quando eu cheguei lá nessa empresa, estava tendo processo seletivo pra motorista, aí eu cheguei na portaria e falei que queria deixar meu currículo, ai falou: “Ah, moça, é para o escritório?” (risos). Eu tenho cara de quem faz trabalho no escritório (risos). Aí ele, eu falei assim: “Não moça, é pra motorista”. “Como assim moça, motorista?”. Eu falei: “É, é motorista de caminhão”. “É pelo processo seletivo, eu vou chamar o encarregado, aí você entrega pra ele”. Eu falei: “Ah, maravilha”. E chega esse encarregado, um amigo meu de óh, longa data. De trecho, a gente cozinhava, eu cozinhava pra ele, pra esposa. E ele chegou no portão e falou: “Ué, o que você tá fazendo aqui Marcia?”. Falei: “Vim trabalhar. Vim trazer o meu currículo”. Ele falou: “O Sérgio deixou?”. Eu falei assim: “Como assim o Sérgio deixou? Eu quero trabalhar”. Ele: “Não, então, pera aí. Eu vou ver lá”. Aí ele pegou meu currículo, levou lá pra dentro, e voltou meio tristonho e falou assim: “Marcia, ó, hoje não vai ter jeito de eu te colocar no processo seletivo porque eles já tão marcado, já vieram faz algum tempo. Mas a gente marca outro dia, pode, ser?”. Eu falei: “Claro, pode ser”. Eu fui embora. Falei: “Já entreguei meu currículo, vou embora pra casa”. Tava no… Na hora que eu estava chegando no ponto de ônibus, o ônibus que eu iria pegar passou, então eu perdi ele. Logo que passou o ônibus, eu cheguei no ponto, o meu telefone tocou. Ele chama Fábio, a gente carinhosamente chama ele de Fabinho Coelho, ele: “Marcia”. Eu falei: “Oi Fabinho!” Ele falou assim: “Você já foi embora?” Eu falei: “Acabei de perder o ônibus”, ele falou: “Não, volta aqui que você vai fazer o processo seletivo com todo mundo. Eu falei com o Wellington - que era, na época, o dono da empresa -. Ele mandou você fazer o processo seletivo, você vai ficar por último, tem problema?" Eu falei: “De jeito nenhum!” E eu fui lá fazer esse processo, e aí fiz toda a prova, a parte teórica depois, eu fui realmente a última a fazer a prova prática, que foi dirigir, e aí ele falou assim: "Dá até vergonha de andar com você, eu sei como você trabalha, eu sei como você dirige, só to fazendo um teste porque é por praxe, mas você já passou”. E aí eu estou nela até hoje. Se ela não tivesse vendido pra essa que eu trabalho hoje, eu tô trabalhando até hoje. E aí como contar que eu fui contratada? Porque eu não tinha contado, eu falei: “Eu só vou contar quando eu tiver com a carteira assinada”. Ele estava viajando e ainda não tinha vindo pra casa. Quando eu recebi minha carteira assinada lá com carimbo certinho: Motorista! Eu mandei uma foto pra ele (risos). Mandei a foto e escrevi: Estou trabalhando agora. Ele não acreditou, ele achou que eu estava brincando, que eu tinha feito alguma montagem, alguma coisa. E foi assim que ele ficou sabendo que eu comecei a trabalhar de motorista sem estar com ele. 

 

P/1 – E Marcia, antes você trabalhava como motorista, mas era em dupla, é isso?

 

R – Sim, a gente trabalhava no mesmo caminhão, a gente trabalhava…eu ajudava. Ele trabalhava sozinho, mas eu ajudava, trabalhava com contrato de algumas outras empresas que a gente trabalhou e assim por diante.

 

P/1 – Quanto tempo vocês ficaram trabalhando juntos?

 

R – Ah, uns quinze anos.

 

P/1 –  E nesse meio tempo você fazia viagens, conheciam pessoas, como foi esse período antes de você começar a trabalhar sozinha?

 

R – Sim, a gente viajava pra todo lugar, a gente viajava o Brasil todo. Bolívia e Paraguai nessa época também. Então a gente conhecia…conhecia e conhece gente até hoje, tem gente que eu conheço faz vinte anos que de vez em quando: “Opa, Tatuada! Tudo bom?!” (risos).

 

P/1 – E como eram essas viagens pelo Brasil, mas também pra fora, pra outros países? Quais eram as maiores dificuldades, obstáculos?

 

R – Olha, eu nem posso falar muito isso, porque como eu sou apaixonada pelo que eu faço esses obstáculos pra mim eu nem vejo. Enquanto o povo fala: “Ah, tem que ficar muito tempo esperando”, “Ai, a comida é ruim" Eu não vejo por esse lado, eu falo: “Eu to dentro do meu caminhão, tô segura aqui dentro, tô assistindo Netflix, tô lendo um livro, então pra mim não tem muita dificuldade”. A maior dificuldade que eu acho é banheiro, isso me pega muito ainda hoje, tem lugar que você chega e não tem banheiro, só por esse motivo, mas aí você vai no banheiro de homem, pede pra alguém cuidar e tudo certo.

 

P/1–  E desse período que você trabalhava em dupla, em conjunto com seu marido, teve alguma viagem que tenha te marcado muito?

 

R - Teve uma viagem que a gente fez para Primavera do Leste, no Paranatinga, Mato Grosso. A gente carregou em São Paulo, Paulínia e a gente estava indo pra lá e foi essa viagem que fez eu não trabalhar mais com ele, foi uma viagem bem, tipo estressante que ele queria que eu dirigisse do jeito dele, que fizesse do jeito dele, e eu falava: “Nós somos dois motoristas, dois motoristas. Cada um dirige do seu jeito, não tem como eu dirigir como você dirige, fazer o que você faz”. E foi nessa viagem que eu decidi que eu não ia mais viajar com ele, que eu iria trabalhar sozinha.

 

P/1 – E você gosta de viajar?

 

R – Adoro! É uma aventura, é uma liberdade! É uma liberdade assistida, porque eu digo que não tem preço. É, e eu sempre falo: “A maioria das vezes onde eu acordo eu não durmo” (risos).

 

P/1 – E as paisagens e pessoas… teve algum lugar bem significativo?

 

R – Ah, sempre tem, sempre tem lugares lindos, pessoas maravilhosas que você vai encontrando no decorrer da sua jornada, faço amigos, amigas que são pra vida, não é da estrada só, é pra vida! São histórias maravilhosas, meu Deus! Lugares então! Tem lugares divinos que você fala assim: “Não, não existe”. Existe, tem lugares lindos! Comida diferente, às vezes boas, às vezes ruim pro seu paladar, mas é uma aventura, que eu ganho pra fazer isso (risos).

 

P/1 – E você sempre transportou combustível?

 

R – Há uns doze anos já venho no combustível, mas quando eu estava com ele já transportamos carga seca, trabalhamos no frigorífico, também carregava osso, osso pra fazer ração animal.

 

P/1 – Como foi isso?

 

R – A gente morava no Goiás, a gente carregava lá pra Dirce Reis, em São Paulo, carregava osso e vem pra cá pra moer, moe e vira ração animal, o boi come praticamente ele mesmo (risos).

P/1 – E Marcia, quando você decidiu que ia começar a trabalhar junto com seu marido, você teve apoio?

 

R – Dele não, ele foi totalmente contra. Não, eu tive muito apoio do meu filho, meu filho mais velho falou: “Mãe, pode ir que eu cuido” (risos). Ele já era mais velho, mais velho de idade, maior de idade e aí ele ajudou a cuidar dos irmãos e logo o do meio ficou mais velho e ajudou a cuidar do mais novo, tive muito o apoio dele, muito! E tenho até hoje.

 

P/1 – Eles ficavam sozinhos na sua casa e vocês trabalhando e eles se cuidando.

 

R – Se cuidando.

 

P/1 – E Marcia, me conta como foi sua primeira experiência dirigindo o caminhão, como você se sentiu?

 

R – Sozinha?

 

P/1 – Os dois, as duas experiências.

 

R – A primeira vez com ele eu já dirigia carro então foi de boa. Mas quando eu me senti sozinha no volante sem ter ninguém do meu lado no banco do passageiro as minhas pernas tremeram. Lembrando, eu sabia que eu era capaz porque eu já fazia, mas aquela falsa sensação que eu tinha uma pessoa do lado que podia me socorrer a qualquer momento eu não tinha mais, então a primeira viagem sozinha foi de tremer as pernas, literalmente, tremia de tremia mesmo (risos).

 

P/1 – E como foi terminar ela com sucesso e perceber que dava conta?

R – Ah, foi maravilhoso! Ficou ecoando na minha cabeça assim, porque meu ex-marido falou assim: “Mas você não é capaz de fazer isso sozinha” E eu falei: “Eu fazia pra você, eu não consigo fazer pra mim?” É que ele achou várias palavras porque ele não queria que eu saísse de perto dele, então ele jogou vários… Porque ele sabia sim que eu era capaz e que eu fazia, mas ele quis colocar esse medo em mim pra eu não sair de perto dele. E quando eu fiz a viagem, que terminei a viagem eu falei: “Poxa vida, eu dou conta!” Foi muito bom!

 

P/1 – Marcia, como era pra você… vocês tinham essa abertura, você falava pra ele, você conseguia mostrar que ele não estava te ajudando muito?

 

R – Várias vezes eu perguntei pra ele: “Como faz isso?” Alguma coisa do caminhão. E ele falou assim: “Você vai aprender fazendo sozinha” Ele poderia, sempre falou isso, ele poderia ter me instruído a fazer, porque ele já tinha feito, mas ele sempre quis colocar algum empecilho pra eu abandonar. Mas eu sou guerreira, e guerreira não abandona as coisas pela metade não, a gente vai e faz.

 

P/1 – Como você se sentia quando ele falava essas coisas pra você? Você já duvidou de si mesma?

 

R – No começo eu falava: “Será gente?” Não, mas eu trabalhava com ele, eu viajava a noite inteira e ele dormia, agora eu nem trabalho de noite e eu faço. Bem, no comecinho eu fiquei pensando, mas depois passou, eu descobri que eu era capaz.

 

P/1 – E como você se sente sendo mulher e dirigindo nas estradas do Brasil sozinha agora, você se sente segura?

 

R – Me sinto muito segura. A estrada te proporciona isso, o caminhão te proporciona… me sinto realizada, é um sonho que eu tornei realidade e vivo esse sonho até hoje. Hoje, nos meus 47 anos, fui homenageada pela Petrobras, que é uma empresa mundialmente conhecida, no Outubro Rosa. Fiquei lisonjeada demais, me sinto orgulhosa do que eu faço, faço por merecer tanto carinho, tento proporcionar esse respeito com a profissão, gosto demais do que eu faço! Então quando você gosta demais do que você faz, você faz com excelência, você faz por amor e tudo que você faz com amor você faz bem feito.

 

P/1 – E você se lembra de alguma situação em alguma das suas viagens, inusitada ou engraçada ou algum problema de alguma viagem, ou algum acidente, não sei, alguma experiência desafiadora ou legal?

 

R – Eu tive um acidente, dia 28 de agosto de 2019 eu sofri um acidente de caminhão. O caminhão que eu estava teve um problema mecânico e veio a tombar, eu tombei fazendo uma curva, uma curva a 23 km por hora, carregada de álcool combustível. O caminhão tombou, mas ele não correu, ele não andou, então ele não pegou fogo, graças a Deus! Porque eu estava quase parando já, machuquei e fiquei quatro meses afastada. O retorno… o retorno é uma coisa assim que… no dia eu fiquei muito brava com a empresa que eu trabalho, mas depois eu entendi que eu precisava ter passado pelo o que eu passei. Como eu tombei numa curva e isso acaba ficando na sua cabeça. Eu tombei em câmera lenta, eu lembro de detalhes do tombamento que só por estar muito devagar, eu escapei. Eu vi as rodas levantando do chão, eu sabia que eu ia tombar, eu consegui desviar o caminhão do guard-rail, pra eu não bater de frente com o guard-rail. Então eu consegui fazer tudo isso e foi por esse motivo até que quebrei o braço, porque a força que eu fiz pra ele não tombar em cima do guard-rail, isso ajudou. E a experiência… Como a gente estava falando, eu desviei, pelo tempo de volante a experiência ajudou, eu desviei o cavalo pra não tombar em cima do guard-rail. E o meu medo era ter medo e não voltar mais a dirigir, eu fiquei um mês mais ou menos acordando assustada com o tombamento, eu acordava parece que eu ia pular, cair da cama, e eu fiquei quatro meses afastada. Quando eu voltei a trabalhar eu já não voltei no mesmo caminhão porque ele já estava arrumando, foi nesse aqui que eu voltei e a minha primeira viagem foi descer pro Rio Grande Do Sul. Rio Grando Do Sul é lindo, mas é só curva, é só direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda… só isso, eu falava: “Não, não vou não! Ah, não vou!” Eu fui carregar o caminhão pra lage e aí eu desci essa viagem de três dias chorando, cada curva parecia que meu coração ia cair fora, sair pela boca e eu falava: “Não! Se for pra ter medo eu não quero mais, eu vou embora”, eu eu falava assim: “Nossa, meu chefe também nem pra ajudar, ele poderia ter esperado, ele precisava ter me mandado agora pro Sul?” Eu voltei hoje! Eu ficava falando sozinha. E eu falava: “Mas não, só porque aconteceu um acidente, quantos e milhares já viveram um acidente e voltaram a trabalhar? E eu não sou mulher de desistir, porque que eu vou desistir agora? É  meu sonho realizado, não vou desistir!” Fui, descarreguei o caminhão, eu voltei outra Marcia! Corajosa, fazendo o que eu sempre fiz e agradecendo a Deus por estar viva e por ele ter me dado outra oportunidade de estar no volante de novo.

 

P/1 – Voltou com tudo então?

 

R – Voltei.

 

P/1 – E você se machucou?

 

R – Ah, machuquei um pouco. Eu quebrei o braço em dois lugares, machuquei a boca, porque acho que bateu no volante e eu uso aparelho, então cortou muito a boca. Eu quebrei o maxilar, que bateu, creio que bateu, devo ter batido a cara no volante. Tive um corte na cabeça, tive algumas escoriações nas pernas. O cinto me segurou no banco, muito, mas ele me machucou muito, por me segurar no banco, mas isso foi tudo, passou (risos). Já passou.

 

P/1 – Hoje em dia você não tem mais esse medo?

 

R – Não.

 

P/1 – E a sua viagem mais marcante, qual foi?

 

R – Foi a minha primeira viagem sozinha (risos). Foi a minha primeira viagem sozinha, que eu fui pro Rio de Janeiro, fui pelo GPS, falei: “Senhor, GPS não me leva por lugar ruim que eu não posso não hein”, foi pra lá. E foi uma viagem bem daora, muito tranquila, gostei demais.

 

P/1 – E Marcia, qual é o momento mais difícil pra você, de estar na estrada?

 

R – Quando fica muito tempo fora, nessa empresa a gente não fica muito tempo fora, mas às vezes acaba que fica quinze dias, vinte, aí é ruim porque eu sinto saudades. Eu tenho dois netos, sinto muita saudades deles, saudade dos meus filhos, é… eu sou motorista mas não deixei de ser mãe e nem vó, então isso, às vezes, pega um pouquinho, mas aí tem o WhatsApp, você liga de vídeo e mata um pouquinho da saudade.

 

P/1 – E qual é a parte mais legal de estar na estrada?

 

R – Tá na estrada (risos). Estar na estrada. De você vê lugares novos, vocês vê pessoas, conversar com pessoas diferentes, conhecer histórias de vida diferentes, o porque ela tá alí, como ela chegou ali, é isso.

P/1 – E tem alguma pessoa que você conheceu na estrada que você lembra da história e que tenha te marcado de alguma forma?

 

R – Tem a Janaina, motorista também, conheci ela no banheiro, é… conheci ela num banheiro lá em Erechim, Rio Grande Do Sul, estava ela e uma amiga dela viajando numa Tego, num Bi-truck e eu fui tomar banho. E ela estava lá e a gente começou conversar, porque mulher puxa conversa, não tem jeito, ainda mais em banheiro, puxa conversa. E aí ela falou: “Nossa, você tá com aquele caminhão lá, aquele Bitrem?” E aí eu falei: “Tô”, ela: “Ah, eu to com aquele caminhão pequenininho, eu te sigo pelas redes sociais”, eu falei: “Ai que legal!” E olha que eu nem to muito nas redes sociais, que como eu disse eu não sei mexer muito, e ela falou: “Nossa eu curto demais, eu sou de família de motoristas mas nenhum deles me apoiaram, porque eu sou a única mulher”, eu falei: “Não, não deixa seus sonhos não! Siga seus sonhos”. E hoje ela é uma youtuber assim, uma motorista demais! Faz um ano e pouco, quase dois anos que eu a conheço e foi assim, nos falamos sempre e ela é… ela conta o que acontece na estrada, ela conta experiências muito bacana, eu falo que ela é uma motorista multimídia (risos).

 

P/1 – E Marcia, você já sofreu algum tipo de preconceito na estrada ou até mesmo falando pras pessoas como é sua profissão… você já sentiu algum preconceito?

 

R – Ah sim, né? Sempre tem, ainda, infelizmente. Nós estamos num mundo machista, ainda é predominante… não deveria, porque estamos em 2022, mas ainda tem: “Não, não precisa ajudar ela, porque ela é mulher e ela escolheu estar nessa profissão de homem, então ela tem que se virar sozinha”. Ainda, de vez em quando, você escuta umas coisas: “Ah, ela não tem força. Mas porque ela escolheu ser motorista de caminhão? Ela poderia ser professora!” Ainda tem umas coisinhas assim, mas você leva de boa, na diplomacia você leva.

 

P/1 – E há bastante mulheres na empresa que você trabalha?

 

R – Só eu (risos). Em 77 anos que essa empresa tem, ela nunca contratou nenhuma mulher, nunca teve mulher… pra você ver que vai fazer quatro anos que tem mulher no escritório, ela é uma empresa familiar totalmente machista e hoje os netos que estão tomando conta, e os filhos tem uma nova visão, me colocaram, me deram um caminhão rosa pra mostrar que eles não têm esse preconceito.

 

P/1 – E como você se sente sendo pioneira e abrindo as portas para que outras mulheres possam entrar nessa área?

 

R – Lisonjeada, me sinto lisonjeada. Como tiveram várias que fizeram, abriram as portas para eu entrar nesse meio, eu também faço questão de fazer o mesmo.

 

P/1 – E você tem percebido se o número tem crescido, de mulheres que trabalham na direção, dirigindo caminhão?

 

R – Graças a Deus! Somos 3% ainda, mas eu creio que logo logo seremos muitas, somos bastante, mas ainda somos só 3% no meio de tanto homem, mas o rosa domina, está dominando aos poucos.

 

P/1 – E como é essa questão de dupla jornada da mulher, de ter que cuidar dos filhos, e estar na estrada, e receber o salário, ganhar o dinheiro com o próprio trabalho? Como é lidar com tudo isso, com a casa, com a família e com a profissão?

 

R – Gratificante! E a gente vê que a gente dá conta de fazer tudo isso e com excelência! A prova disso são meus filhos falarem pra todo mundo: “A minha mãe é motorista de caminhão cara, minha mãe trabalha numa empresa que só tem ela, minha mãe saiu num vídeo de uma empresa que é totalmente machista, só tem homem!”. Isso daí é gratificante.     

 

P/1 - E Marcia, o que representa pra você dirigir, transportar, de um lugar pra outro, movimentar cargas importantes para o país. O que essa profissão representa pra você, a importância dela para a movimentação do país, mesmo? Como é trabalhar com transporte?

 

R - Eu me sinto honrada em fazer isso, que é literalmente você levar o progresso nas suas costas, literalmente. Com todos os pinguinhos, com todas as letras, você levar o progresso nas costas. Me sinto lisonjeada, me sinto honrada em fazer isso.

 

P/1 - E o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?

 

R - Como eu disse, eu adoro música, e adoro ler, leio demais, e ainda bem que hoje tem muito podcast, tem muitos livros online, que aí você não tem tempo de ir lá comprar o livro, mas o livro só você fazer assim, só. Só ler. Eu continuo, ainda consigo ler um livro, um livro e meio, às vezes, por mês.

 

P/1 - Como foi pra você se tornar avó?

 

R - É a coisa mais maravilhosa do mundo. Eu vi a minha mãe viver os netos, sendo boba neles, assim, olhar pra eles com uma cara de boba. É o que eu faço (risos). É um amor incondicional, é um amor que é, que não tem tamanho, você não consegue explicar o amor que é. Você ama seus filhos, mas os netos eu não sei o que é, eles vêm com mel, um doce. É bom demais.

 

P/1 - E Marcia, como a pandemia afetou o seu dia a dia, pensando em aspectos profissionais, mas também pessoais, como esse momento chegou?

R - Profissionais, pessoais é… profissionais nenhum. A não ser usar máscara, que a gente não tinha esse costume, mas de higienizar as mãos eu sempre tive, por estar cada dia em um lugar, cada hora você tá em um ambiente diferente. Então profissionalmente falando pra mim a pandemia não, só foi o uso da máscara que alterou o meu dia a dia, porque eu continuei trabalhando igual ou mais, não mudou, é… Pessoal, teve, várias restrições de não poder ter festinha, de fazer uma festa de aniversário, uma festa de casamento de você reunir sua família. E a gente que fica muito tempo na estrada, quando você quer, quer reunir todo mundo junto. A pandemia só atrapalha… No começo, atrapalhou isso. Mas agora tá tranquilo, graças a Deus já tá tudo mais controlado. 

 

P/1 - E me conta do seu caminhão customizado, como ele é?

 

R - Ele é todo rosa (risos). Chega até a doer de tão rosa, e ele é rosa por fora hoje. Desde outubro, desde setembro do ano passado eles enveloparam de rosa, que é uma vitória imensurável para a empresa que eu trabalho. Todo mundo acha que o caminhão é meu. Meu, particular, porque eles acham que a empresa nunca faria isso. “Nossa, fazer isso por uma mulher, nossa”, eu falo: “Não, não é meu não, é da empresa”. “Ah, mas foi ideia tua?”. “Não, não foi ideia minha, não”. Partiu a ideia do dono do caminhão, do dono da empresa. Dentro ele sempre foi rosa, sempre quis botar rosa pra chamar atenção: é uma mulher que tá aqui. Até questão de segurança, até questão de que um ladrão não vai querer roubar uma mulher com cinquenta homens no pátio, ele não sabe se ela está acompanhada, se ela tá sozinha, então muita gente fala assim: “Ah, não é perigoso?”. Graças a Deus, eu sempre tive, sempre eu fui muito bem cuidada nas estradas. E ele é rosa, tudo rosa (risos).

 

P/1 - E pensando nessa sua grande trajetória profissional no caminhão, quais foram os maiores aprendizados que você consegue tirar de toda essa experiência?

R - O aprendizado eu acho que é o amor ao próximo. Isso eu sempre tive comigo mas, é… O amor ao próximo, a gratidão, ficou mais aflorado isso em mim. Você pode ajudar o próximo e logo você, do nada, vem a retribuição. É muito bom.

 

P/1 - E como é pra você ser uma mulher, dirigir caminhão, trabalhar numa área que é historicamente, culturalmente, vista como uma área masculina? O que isso representa pra você?

 

R - Na minha vida o importante é provar que nós, mulheres… a mulher pode trabalhar no que ela quiser. Não só no caminhão, que realmente é uma área muito machista, como em outras áreas também. Então ser mulher no meio, imagina, 97% ser homem, então só 3% ser mulher e a gente tá aqui e estamos dominando, estamos aparecendo, sendo vistas, é gratificante, o profissionalismo da gente vai às alturas! Você fala: “Nossa eu sou capaz mesmo ó!” Bom demais isso!

 

P/1 – E quais são os seus maiores sonhos?

 

R – Olha, o meu maior era ser avó, só falta um me dar mais um neto, o mais velho ainda tá bem tranquilão. Mas poder estudar meus filhos eu estudei, então esse era um sonho. É continuar do jeito que tá, tá muito bom, meus filhos perto de mim, meus netos crescendo perto de mim. Ter uma família unida como eu tenho hoje, não sou mais casada, mas os filhos, minha mãe… a gente é muito junto, é uma família portuguesa como eu digo, é uma família juntinha! Tá bom demais! Esses sonhos eu já tenho realizado, muito bom! Nada assim… agora um sonho loucura? Um sonho loucura é ter um caminhão pra eu ir passear, tipo eu ir num supermercado de caminhão, só pra passear, é meu! A maioria quer ter uma Lamborghini… uma carro de passeio chique, eu quero um caminhão.

P/1 – E você gostaria de acrescentar alguma coisa na sua história que eu não tenha te perguntado, alguma passagem, algum momento importante que eu não tenha te perguntado?

 

R – Não, você foi a fundo, você me fez relembrar coisas bem importantes, o que são realmente importantes.

 

P/1 – Você gostaria de deixar alguma mensagem para essas mulheres que estão chegando nessa profissão?

 

R – Bem clichê o que eu vou falar, mas é bem a verdade, não desista dos seus sonhos, porque os seus sonhos só dependem de você, não depende de ninguém. O seu sonho, pra ser realizado, depende de você acreditar que vai ser realizado, é só você acreditar em você, não desista dos sonhos.

 

(1:05:04) P/1 – Você contou uma história de superação, de não ter desistido dos seus sonhos, enquanto muita gente, seu marido falava que você não ia conseguir. Como foi pra você agora, vendo tudo isso, vendo um pouco a sua história, ter batido o pé e ter bancado o seu desejo e não ter desistido, como é isso pra você?

 

R– Primeiro eu sou teimosa né, Português ele é teimoso, ele bate o pé e fala que é pedra, é pedra e acabou, e vai embora. Mas eu me sinto orgulhosa de não ter desistido, de não ter abaixado a cabeça e falado: “Não, acho que eu não posso mesmo não”. Por isso que eu falo: “Não desista do sonho, se você acha que ele é grande, luta mais, corre mais atrás que vai dar certo!” Foi isso que eu fiz, enquanto todo mundo achou que eu estava lá em cima, foi tão fácil, mas foi tão fácil que até hoje eu falo assim: “Senhor, o Senhor tava na frente né?!” Foi muito fácil! Eu achei que seria muito mais difícil.

 

P/1 –  E Marcia, qual é a sua primeira lembrança de vida, de bem pequenininha?

 

R – Eu lembro, sou doceira, sabe? Eu gosto muito de doce e eu me lembro deu nas costas do meu tio já falecido há muito, muito tempo, ele me levando pro bar pra comprar doce. Eu acho que ele foi o incentivador de eu gostar de doce até hoje e assim, eu tinha dois ou três anos no máximo, e eu tenho essa lembrança. Minha mãe me conta isso, que eu era muito pequenininha e ele me colocava “aqui” e me levava no bar pra comer doce, aquele suspiro que eu acho que você não sabe, porque você é muito novinha, parecendo um colchãozinho, aqueles suspiros coloridos, eu lembro que eu gostava do cor de rosa.

 

P/1 – E como foi pra você por fim ter participado, de estar aqui com a gente dividindo um pouco da sua história, lembrando desde as primeiras lembranças até hoje, dar uma revisitada na sua história. Como foi essa experiência pra você?

 

R – Nossa gente, foi prazeroso demais, vi que outras pessoas vão ouvir minha história, lisonjeada por vocês terem me escolhido, escolhido a minha história pra contar, minha história de vida. Não é a história do caminhão, é minha história de quando eu nasci até hoje. Fico feliz demais por poder compartilhar e feliz mais ainda que eu consegui lembrar de coisas assim, não que estavam esquecidas, mas estavam adormecidas na memória. Foi muito bom! Muito obrigada, agradeço demais a vocês por isso.

 

P/1 – Querida, eu que te agradeço de verdade, do fundo do coração, por esse tempo, pela disponibilidade, por dividir com a gente a sua história, sei que muita vezes não é tão fácil, mas te agradeço demais e eu tenho certeza que ela vai ficar linda, porque ela já é linda! Então quando tudo tiver pronto a gente vai entrar em contato, você vai ter o registro dela, um link, você pode passar pra quem você quiser e guarda pra família. Acaba sendo um registro mesmo. Muito obrigada!  

R – Eu que te agradeço, agradeço mesmo! Fico feliz demais por compartilhar minha história com você.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+