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História

"Eu não sei o que vai ser o meu dia"

História de: Olga Antonieta D'Ippolito
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/05/2020

Sinopse

Conta sobre sua infância no bairro do Bom Retiro. Foi estagiária na Pfizer antes de estagiar na Avon. Comenta sobre os processos de produção de cosméticos e sobre seus 25 anos na Avon. Possui uma filha.  

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História completa


P/1 – Oi!

R – Oi!

P/1 – Gostaria que você começasse dizendo seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Olga D'Ippolito. Eu nasci em São Paulo, em três de junho de 1958.

P/1 – E qual a sua atividade atual?

R – Hoje na Avon eu sou coordenadora de pesquisa e desenvolvimento de produtos.

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

R – Meu pai é Pietro D'Ippolito, minha mãe, Lúcia D'Ippolito. Só que os dois já são falecidos.

P/1 – E qual era a atividade profissional deles?

R – Meu pai era metalúrgico e minha mãe era… Cuidava da casa, só.

P/1 – Qual a origem da família?

R – Eles eram italianos.

P/1 – De que região da Itália?

R – Do Sul da Itália.

P/1 – Você tem irmãos?

R – Tenho um irmão só.

P/1 – Qual o nome dele?

R – É Antonio.

P/1 – Agora vamos conversar um pouquinho sobre a infância. Na sua infância, onde morava?

R – Eu morava no Bom Retiro, que é tipo Centro, Zona Norte de São Paulo.

P/1 – E como era a casa, o cotidiano naquela época?

R – Era uma casa grande, antiga. Era tranquilo porque a gente podia ainda brincar na rua, tinha um monte de amigos. Ia pra escola, era seguro - pelo menos a gente se sentia seguro. Na nossa infância minha família não era rica; a gente não passava necessidade, mas não esbanjava. Não tinha abundância, não tinha excessos, então tudo que a gente tinha era muito esperado. A gente curtia, dava valor pra tudo que tinha, justamente porque não vinha fácil. Hoje em dia eu acho que as pessoas não dão tanto valor porque vem mais fácil pra alguns, né?

P/1 – E quais eram as suas brincadeiras preferidas?

R – Ah, tudo. Brincava na rua, ficava... Todas as brincadeiras que hoje as crianças não têm: correr, pular corda, juntar aquelas pedrinhas, brincar de se esconder… Sei lá, todas aquelas coisas de criança.

P/1 – E como era o Bom Retiro, como era São Paulo naquela época?

R – Bom, era... A rua que eu morava tinha muita firma, muita fábrica, então chegava uma hora do dia e ela ficava com menos pessoas porque tinha poucas casas, residências mesmo. Era tranquila, não tinha muito movimento, não tinha tanto carro como tem hoje. 

Depois de um tempo, a minha rua virou acesso para a rodoviária, então todos os ônibus que iam pra rodoviária antiga - não a Rodoviária do Tietê - tinham que passar pela minha rua. Aí ficou horrível, já não podia brincar na rua; ficava congestionada literalmente, de ficar buzina e trânsito de ônibus que estavam indo pra rodoviária, principalmente em feriado prolongado. Mudou, ficou um pouquinho pior. 

Mas aí também a gente já começou a estudar, passando o período de escola, então cada vez [a gente ficava] estudando por mais tempo e acabava não ficando tanto tempo na rua pra brincar.

P/1 – Tem mais alguma lembrança marcante da infância?

R – Ah, os amigos. A gente tinha a turminha, fazia de tudo, até teatro a gente fazia e cobrava ingresso dos menores. (risos) Fazia roupinha de boneca e vendia, aquelas coisas que hoje não tem mais. Isso eu lembro, eu acho que era interessante porque era a criatividade que a gente tinha com os recursos que a gente podia ter na época. Era legal.

P/1 – Como foi e quando foi que você começou a estudar?

R – Estudar, estudar o básico?

P/1 – É, o começo dos estudos.

R – Eu comecei como qualquer criança, no prezinho, numa escola... Foi curioso porque meus pais, por serem italianos, falavam italiano em casa, então eu falo italiano porque aprendi com eles, o dialeto. Acho que, talvez por falta de informação, eles não sabiam que tinha colégio do Estado, então com todo sacrifício que a gente tinha, a gente foi pra uma escola particular - do bairro, mas particular. 

Mesmo assim foi bom, porque eu acho que a base de ter um bom aprendizado é você ter uma base boa. E a gente teve uma base boa. Só quando foi pro ginásio é que [a gente] foi pro colégio do Estado. 

Durante todo o primário fiquei em escolinha particular do bairro, aprendi bastante. Eu acho que foi lá que a gente acabou tendo mais incentivo, apesar de que na época que eu estudei o colégio de Estado era bom, não era que nem hoje, então eu tinha bons professores. Eu lembro que eu tinha professores do colegial, professores que eram do Mackenzie, da faculdade, hoje em dia já não tem isso. 

Eu tenho essa lembrança da época da escolinha pequena lá do bairro, particular, antes de ir pra escola grande, que era o colégio do Estado que eu estudei.

P/1 – E realizou mais cursos?

R – Depois fui fazer o ginásio, na minha época era colegial. Depois fui fazer cursinho, aí fui fazer faculdade.

P/1 – Faculdade de quê?

R – De Farmácia e Bioquímica.

P/1 – E o que a influenciou na escolha dessa carreira de química?

R – Desde pequena… Na realidade, é Farmácia e Bioquímica, ela não é tanto ligada com a área química. É mais ligada com a área de corpo, com a medicina. Não que eu quisesse ser médica, mas gosto muito da área médica. 

Eu fui aprender a parte de farmácia porque, naquela bobeira que hoje eu acho meio idealismo, eu achava que eu ia encontrar a cura de alguma doença, de alguma coisa. Na área de farmácia você vai estudar medicamentos, então você vai fazer pesquisa com medicamentos e... Só que depois de formada é que eu fui ver que essa área é muito difícil. O campo de trabalho pra pesquisa no Brasil, quando eu me formei há 25 anos, era difícil. 

Fazendo estágio com a área de cosméticos, eu vi que era muito mais dinâmico.  Você tem as estações primavera, verão, outono e inverno; mudam as cores, muda o perfume, muda tudo, então você consegue trabalhar e desenvolver alguma coisa. Se você está na área de medicamentos, um medicamento, pra ser pesquisado e lançado, você tem anos de estudo, é muito mais lenta a coisa. Por isso eu acabei indo pra área de cosméticos, adorei e estou lá há 25 anos.

P/1 – Com quantos anos começou a trabalhar?

R – Só depois de formada. Com vinte... Eu comecei a trabalhar em 83, com 25 anos.

P/2 – E qual foi o seu primeiro emprego?

R – Avon. (risos)

P/1 – Avon?

R – Esse ano eu faço 25 anos de Avon.

P/1 – Já conhecia a Avon antes disso?

R – Só de consumidora, né? A gente sempre comprava produtinho, na época a Avon tinha muito… Não sei se nesses 25 anos de Avon… Eu acho que vocês vão colocar fotos... Antigamente tinha muita coisinha de enfeite, então você tinha uma loção na forma de uma chaleirinha, na forma de um bonequinho. Tudo aquilo era novidade e a gente acabava comprando como novidade. Eu conhecia assim, só como consumidora. Nunca imaginei, idealizei um dia ir lá procurar emprego e trabalhar lá por tanto tempo.

P/2 – Como é que surgiu a oportunidade de trabalhar na Avon?

R – Eu fiz Farmácia e Bioquímica. A gente tem um estágio obrigatório que, pra poder se formar, você tem que cumprir. Na época, eu fiz estágio na Pfizer, que é uma indústria farmacêutica. Terminou o período de estágio, não teve oportunidade de efetivação. Éramos oito estagiários, oito foram pra rua. 

Passou isso, eu era formada e não tinha experiência porque eu fiz curso diurno, então nunca tinha trabalhado. Eu ia procurar emprego como estagiária, não podia mais porque eu já era formada. Eu ia como funcionária, não tinha experiência, ninguém me pegava, então o que eu fiz? Eu voltei a estudar, porque dentro de Farmácia você tem análises clínicas, indústria farmacêutica e indústria de alimentos -  tinha na época. Tinha feito indústria farmacêutica, voltei a fazer análises clínicas, aí eu continuava estudante e podia ser estagiária. Fui fazer estágio na Avon e do estágio eu fui efetivada.

P/1 – E como ficou sabendo da vaga?

R – Foi um processo que eu fiz numa outra empresa. Fui até as finais do processo e não fui escolhida. O próprio RH daquela empresa me apresentou pro RH da Avon e aí eu nem fiz, foi aproveitado o mesmo teste que eu fiz pra outra empresa. Fiz só as entrevistas e já fiquei como estagiária.

P/1 – Lembra como foi o seu primeiro dia de trabalho?

R – Na Avon? Eu acho que não. (riso) Quando eu entrei na Avon, eu entrei no laboratório de microbiologia. Eu não lembro exatamente o dia, como foi, mas todos os dias eram muito parecidos, então... Tinha uma rotina muito igual. Você chegava, fazia determinadas atividades e era aquilo direto. 

Como eu era estagiária, tudo era, pra mim, aprendizado. Só que pro meu estilo, eu queria uma coisa mais dinâmica. Eu ainda fiquei dois anos lá, mas fui transferida pro laboratório químico e quando eu fui, já fui pra área de desenvolvimento. Aí sim já começou a ser uma coisa melhor. 

No laboratório químico eu já me lembro. Eu lembro que eu cheguei lá e o produto que hoje eu faço em uma, duas horas, eu levava o dia inteiro pra fazer. Eu não conseguia nem levantar o equipamento; eu levantava demais, eu abaixava demais, eu esquentava uma parte, a outra esfriava; a hora que eu esquentava a outra, aquela primeira tinha esfriado. Não tinha aquela sincronia de você fazer as coisas na ordem certa. Hoje não, hoje enquanto esquenta a água. você faz outra coisa. Você vai e já consegue fazer em muito menos tempo.

P/1 – E qual foi a primeira impressão que você teve quando chegou lá na Avon?

R – É que são duas coisas. Uma é como empresa. Como empresa foi maravilhoso, eu adorei. E no trabalho tudo era novo, então também foi bom porque tudo era aprendizado. É claro que tem dia que você tem alguns problemas, algumas coisas não dão certo e durante esse tempo todo eu tive muitos dias assim, mas se você for pensar no balanço de tudo, cada dia é um aprendizado.

P/1 – Você entrou no laboratório de microbiologia. Qual foi o seu processo, sua trajetória dentro da empresa?

R – Eu entrei como estagiária no laboratório de microbiologia. Depois eu fui efetivada no laboratório de microbiologia, fiquei ainda um ano e meio depois de ser funcionária, aí fui pro laboratório químico como analista química. 

Fui tendo promoções: analista de desenvolvimento, analista de desenvolvimento sênior, química de desenvolvimento, química de desenvolvimento sênior, até ser coordenadora.

P/1 – Quais são as atribuições, o que você fez em cada uma desses cargos? Conta pra gente um pouquinho das atribuições de cada um desses cargos.

R – Bom, na parte de analista e de técnico, você faz muita análise regular de controle de qualidade. Você vai checar se o produto está bom, se não está; você vai fazer dosagens, avaliações. Sempre você tem uma referência pra poder comparar se está bom ou se não está. 

Depois, quando fui pra área de desenvolvimento - apesar da Avon não ter desenvolvimento aqui no Brasil, as nossas fórmulas vêm todas da matriz; no Brasil a gente faz só algumas adaptações, faz cor nova, cheiro novo ou adiciona alguma coisa que vai ser utilizada pra promover o produto -  já começava a ser uma coisa mais desafiadora. Você tinha que checar a legislação brasileira, checar a legislação interna da Avon, checar se a fórmula estava de acordo com o que precisava fazer. A responsabilidade era maior, mas o desafio e o trabalho também era mais gostoso. E a quantidade de coisas, se eu for ver hoje... Hoje mesmo eu estava comentando com o pessoal na hora do almoço: a gente achava muito, naquela época, muita coisa. Hoje, se a gente for ver, o que a gente fazia em um mês, hoje a gente faz em tipo três, quatro dias - só que tem mais gente, é claro. Mas são muito mais coisas, detalhes, hoje, do que era na época, então tudo evolui. A profundidade dos procedimentos, as coisas que você tem de recortar, tudo complicou, no sentido de ficar complexo, mas tudo é necessário. Complicou por causa da necessidade. 

P/2 – Nessa questão da qualidade dos produtos, como é? Você se relaciona com quem? Com o inspetor de linha?

R – Não. Quando eu era da parte de microbiologia, a gente fazia análise da parte microbiológica, pra saber se o produto estava contaminado ou não. Vinha a moça pro laboratório, a gente fazia só a dosagem. Quando era na área de desenvolvimento, eu dava suporte também pra produção. Eu tinha contato com eles, mas só quando eu tinha algum problema de produção. Normalmente não, normalmente o meu trabalho ficava meio independente porque eu atendia mais marketing, pra desenvolver novos produtos, do que propriamente os problemas. Quando tinha problemas, eles vinham e a gente tinha que ajudar a resolver.

P/2 – Quando tinha problemas, como era?

R – Depende do problema. Você tem que investigar a causa pra evitar que aconteça de novo aquilo. E aquele problema é uma coisa assim: você vai perder o produto, você pode recuperar o produto e não perder? Tudo isso era o estudo que a gente fazia na minha área.

P/1 – Como era essa relação com o desenvolvimento e o marketing?

R – Até hoje é assim: tudo que a gente vai desenvolver, é o marketing que dá a direção. Eles fazem a pesquisa do mercado pra ver o que precisa, o que falta no que a gente tem, no banco de produtos, no banco de dados e eles passam pra gente o que eles querem. Por exemplo, se o concorrente tem o produto e vamos supor que o concorrente tem um xampu dessa cor; eles querem um igual e a gente não tem nenhum no banco de dados da Avon, então eu vou fazer o xampu dessa cor pra eles. Mostro pra eles, é o que eles querem? É. Aí a gente começa a fazer os testes, aprova com a matriz e depois é aprovado; entra no esquema de todo departamento fazer a sua parte, até o lançamento.

P/1 – E como é esse processo de criação de novas coisas, de novos cheiros?

R – Depende do que o marketing direciona. O que o marketing pedir, a gente faz. Se ele quer uma sombra marrom, o que eles falarem, a gente vai misturar os corantes a ponto de fazer aquilo que eles querem. O cheiro também; o cheiro a gente não faz, a gente só testa. Quem faz é a casa que desenvolve os cheiros, que são fornecedores externos. Eles fazem e a gente só aplica no nosso produto pra ver se aquilo vai ficar bom durante o tempo de vida do produto ou não. 

P/2 – Essa questão que você falou de misturar os corantes: descreva um pouco esse trabalho pra gente? É uma curiosidade que a gente não conhece. 

R – A gente não vai misturar o que quiser. A gente tem uma direção da matriz de usar só corantes permitidos da Avon. Mesmo tendo a direção dos corantes permitidos pela Avon a gente também não pode misturar o que quiser, porque de repente a Avon permite, porque ela fica nos Estados Unidos, mas a legislação [brasileira] não permite, então a gente tem que respeitar sempre a mais restritiva. Se a Avon dos Estados Unidos permite e a legislação brasileira não, nós vamos respeitar a do Brasil, senão não adianta a Avon aprovar, porque a Anvisa não aprova aqui. 

Se a nossa lei brasileira permite, mas a Avon não, a gente vai respeitar aquela porque se aprova aqui [e] vai lá pra aprovar, eles não vão aprovar. Atendendo isso, a gente vai pegar: como eu faço esse amarelo? Eu vou pegar corantes amarelos, só que isso é um amarelo meio avermelhado, então eu misturo amarelo com vermelho. Pra ele ficar assim… Não está transparente, eu tenho que pôr o branco junto, porque o branco dá fundo. 

Tudo isso é experiência que você vai adquirindo com a prática. Eu nunca achei que tinha experiência de saber fazer isso. No dia a dia de fazer... Até meu pintor uma vez foi em casa e ele não conseguia fazer um negócio, aí eu falei: "Espera aí que eu faço pra você." (risos) Eu fiz e fiquei passando na parede até... Falei: "Tá vendo como dá?" E aí deu. Então você acaba... 

Outra coisa que eu às vezes também acabo ficando chata: você vai comprar uma roupa que às vezes o consumidor comum não vê, aí você abre a blusa em cima do balcão e você vê que a manga está ligeiramente em outro tom. Pra pessoa normal, ela não vê. Mas pra gente, que tem o olho treinado pra ver, você já vê que é a mesma cor, mas numa direção de tonalidade diferente. Aí você fala e a pessoa fala: "Ai que chata", mas não é, você enxerga. Não é que você fica procurando, é claro pra você pegar essas diferenças. Isso você não consegue ensinar. 

Eu tive uma vez um estagiário que no primeiro dia -, porque estagiário a gente sempre vai ensinando aos poucos - ele já fez um monte de coisa. Eu fui ver como ele estava fazendo tanta coisa que teoricamente ele não sabia. Ele foi investigando e falou que tinha como hobby pintar. Uma pessoa que pinta tem percepção de cores, de misturas, então ele foi super bem. Isso é um dom, você melhora, mas se de certa forma a pessoa não tem, não adianta.

P/2 – Então seu trabalho é com cores, fragrâncias e o que mais?

R – A gente pode também colocar alguns aditivos. Por exemplo, se eu tenho um xampu que eu quero colocar uma proteína de trigo, então eu posso pegar essa proteína de trigo, colocar na minha fórmula e fazer um estudo pra ver se ele continua bom, porque na hora que você põe qualquer coisa diferente na fórmula, você tem que acompanhar em testes. A gente coloca em geladeira, em estufa de 40 graus, congela. Depois tem uma amostra que a gente deixa na luz, então a gente deixa na janela pra bater sol, porque todo mundo deixa os produtos na janelinha do banheiro. Dependendo do sol, ele pode descolorir, pode mudar o cheiro, pode ficar estranho, então a gente deixa lá também. Tem outro que a gente congela e descongela, tudo isso pra ver se não vai dar problema no produto. 

Na hora que eu ponho alguma coisa diferente na fórmula, um xampu, por exemplo… O pessoal tem mania de pegar xampu grosso - a gente chama de viscosidade esse grosso. Se o xampu tem viscosidade alta, é grosso, o pessoal já fala: “É xampu bom.” Você cheira: "Hum, esse é bom." Você não sabe se o xampu é bom, o que é bom é o cheiro e ele é grosso; se ele vai ser bom pro seu cabelo, só utilizando e vendo a forma que você vai saber.

P/1 – E quais tipos de restrição eles fazem com algum produto?

R – Depende da área que você vai usar o produto. Você tem produtos que... A área mais restritiva é a área dos olhos, então você tem… Por exemplo, se você vai desenvolver uma sombra, você vai ter que olhar quais corantes você vai usar, porque você vai ter que usar corantes permitidos pra área dos olhos. Eu não posso usar nesta área um corante permitido, por exemplo, pra pele pra contato breve. Então o que eu posso usar pra pele pra contato breve? Alguma coisa que seja pra sabonete, porque é uma coisa que eu vou passar e vou enxaguar; no xampu a mesma coisa, eu vou pôr um corante, mas eu vou enxaguar no condicionador... Se eu for fazer uma base, um batom ou alguma coisa que vai permanecer em contato prolongado com a pele, já é outro tipo de corante. Na área dos olhos ela é mais restritiva ainda, porque qualquer coisinha que entrar pode causar cegueira. 

As restrições são essas, você saber pra que tipo de área você vai ter o produto, se ele vai ficar em contato direto, prolongado, se ele vai ser enxaguado. É mais nesse sentido. E às vezes, mesmo um corante que é permitido pra essa área dos olhos ou pra área dos lábios você só pode usar até uma certa quantidade, acima daquilo já não pode. Eu tenho que ficar atenta pra não passar isso, senão você faz todo um estudo, todo um trabalho, chega pra aprovação e não vai aprovar, aí você perde... 

A Avon tem muitos prazos, isso é o que mata a gente. A cada três semanas muda aquele folhetinho, então todos os produtos estão programados pra uma campanha. E você tem que atender aquela campanha, se você não conseguir aprovar o seu desenvolvimento pra entrar naquela campanha, o marketing vai perder aquele... Às vezes é capa, às vezes está previsto um monte de retorno financeiro naquilo, então é grave você usar um corante que não pode. Se não for aprovado por isso, é grave. 

P/1 – E geralmente qual o prazo que eles dão pra vocês?

R – É sempre pra ontem. (risos) É assim: até um tempo atrás a gente tinha um prazo. Até você aprovar a fórmula é um prazo; da fórmula aprovada pra frente, cada departamento vai fazer a sua parte, até o lançamento. A gente pedia pelo menos quatro meses pra aprovar, agora já conclui com um pouco mais. Tem casos de levar até sete, oito meses, um ano porque é muita coisa. A complexidade está ficando maior, cada vez mais.

P/1 – As exigências do mercado, né?

R – Sim.

P/1 – Você tinha comentado comigo que já trabalhou em Nova York algumas vezes.

R – Já fiz treinamentos.

P/1 – Como foram esses treinamentos?

R – A primeira vez que eu fui pra lá foi meio assim: eu sabia falar inglês, mas tinha vergonha de falar, então acabei ficando assim, mais ouvindo do que falando. Era aquela coisa, primeira vez: você não sabe como é, foi mais pra conhecer. Agora não, agora a gente já fica em treinamentos participando. É muito legal porque lá é um centro de desenvolvimento; tem um monte de gente trabalhando, especialistas em várias áreas, então cada vez que a gente vai lá, a gente aprende muito.

P/1 – Qual o tipo de treinamento que vocês fazem?

R – Depende. Eu já fui fazer treinamento pra fragrâncias, tudo pra desenvolver produtos. Já fui fazer para fragrância, para batom. 

P/1 – E qual o contato que vocês têm em relação aos demais produtos?

R – A gente faz, na minha área, todos os produtos. Toda linha que tem desenvolvimento local é feita pela minha área.

P/2 – Olga, [são] 25 anos nessa profissão. Se você puder fazer um paralelo, uma comparação, como era antes, como é hoje? A tecnologia, como era antes, como é hoje? Você citou fornecedores. Já existiam fornecedores no começo? Fale um pouco disso.

R – Na época que eu era estagiária… Eu acho que a Avon sempre exigiu muito de todos, em qualquer nível você tem responsabilidades. Ela te dá muita liberdade, mas você tem responsabilidades e você tem que cumprir o que você está lá pra fazer. 

O que eu senti [é] que, apesar de tudo, o estagiário não tem acesso a um monte de coisas, então tinha muita coisa que pra mim era fácil porque eu não via o todo. À medida que você vai conhecendo o todo, que você vai vendo a complexidade, se você for comparar… 

É aquilo que eu falei agora há pouco, a gente achava que tinha muito serviço e hoje você faz em três, quatro dias o que antes se fazia em um mês. Só que coisas que eu fazia sozinha, hoje nós somos [em] quatro. Tem muito mais coisas pra fazer, [é] muito mais complexo, apesar da área física da Avon não ter crescido - o prédio continua o mesmo, mas ele foi mais aproveitado. Criaram-se novas linhas, novos aparelhos foram instalados. O meu laboratório mesmo, que era uma área de três por quatro, hoje eu tenho tipo vinte, sei lá, trinta metros quadrados, então tem um espaço maior. Tudo cresceu, tem que acompanhar a tecnologia, tudo foi evoluindo. Coisas que a gente tinha mais simples, hoje é tudo com coisas muito mais complexas, acompanhando muito mais a tecnologia, até pra se manter no mercado, senão não conseguiria ficar tanto tempo bem como a Avon está.

P/2 – Pode dar um exemplo de uma coisa que há vinte anos era feita normalmente e hoje é feita de forma completamente diferente?

R – No próprio laboratório a gente chegou a fazer a bolsa pra apresentação de vendas, na época, pra compactar aquelas sombras e os pós com a mão. A gente pegava essa parte aqui da mão e apertava o pó na bandejinha. Hoje não, hoje você tem a prensinha manual que você pode compactar, ou eles já programam direto na linha pra atender. Isso, na época, dava pra fazer no laboratório e o pessoal pedia. Hoje não tem nem cabimento pedir uma coisa dessas.

P/2 – E essa questão dos fornecedores...

R – Todas as matérias-primas da Avon têm uma especificação. Elas só vão ser aprovadas se tiverem de acordo com aquele resultado. E os fornecedores já estão na especificação disso: qual o fornecedor que você tem que trabalhar pra aquela matéria-prima? Então sempre existiram, sempre eles estão... O que acontece é que cada vez mais vão se criando matérias-primas mais complexas. Antes você tinha uma coisinha simples, hoje você tem moléculas que fazem uma combinação e aquela combinação é uma matéria-prima, mas isso é tudo comprado e só adicionado ao produto.

P/1 – Em meio a um campo tão complexo de atuação, quais os maiores desafios que você enfrentou?

R – Olha, teve várias coisas. Cada produto novo é um desafio, porque você não sabe como vai se comportar. Outra coisa que é um desafio é você conseguir atender todos ao mesmo tempo, porque todo mundo acha que o seu é prioridade. 

O departamento regional... Até 2003 a Avon tinha um desenvolvimento local no Brasil e tinha a nossa matriz. A nossa matriz atendia às Avons do mundo inteiro. A partir de um momento, eles tiveram tanta coisa pra fazer que tiveram de descentralizar, então veio assim: a América Latina ficou um satélite, outro ficou no Japão, China, Polônia, e cada satélite faz algumas atividades. Com essa divisão, houve a regionalização também de marketing, da parte de embalagens, então a área de marketing tem hoje umas quarenta pessoas, em cada categoria. E nosso laboratório atende a todos. 

Por exemplo, o pessoal de cabelo tem um projeto, pra eles é o projeto deles; maquiagem tem um projeto, é a capa deles; o pessoal de pele tem um projeto... Só que nós atendemos a todos, então o desafio é conseguir atender a todos dentro do prazo, porque é um samba lá. (risos) Você tem que não deixar nada parado, mas ao mesmo tempo você não consegue atender a todos, então você tem que negociar as datas porque todos são importantes. E também você não consegue se atualizar com as tecnologias que estão no mercado no mesmo ritmo porque você acaba tendo só as que estão na Avon. Você acaba aprendendo, se inteirando mais das que a Avon utiliza, mas a Avon não usa todas as que existem, então você acaba ficando sem tempo de conhecer melhor as outras que estão por aí.

P/1 – E quais as maiores alegrias nesse período que ainda está a caminho?

R – Cada projeto que você entrega em tempo é uma alegria. Cada projeto que a Avon teve... Este ano não teve ainda, mas eles costumam ter projetos que todos os países inscrevem na matriz, tipo um campeonato, pra ver os projetos que trouxeram os maiores retornos, os melhores. É uma alegria quando o do Brasil é escolhido e você está naquele grupo, porque além do prêmio que você tem, financeiro, você tem aquela coisa de: "Puxa vida, eu consegui fazer parte disso. Ajudei a acontecer."

P/1 – E qual a principal realização até o momento?

R – Na Avon? Tem muita coisa. Eu acho que a realização… Eu só trabalhei na Avon até hoje, então tudo que eu tenho meu, pessoal, eu consegui com o dinheiro do meu trabalho e com as oportunidades que eu tive. Isso é uma realização pra mim.

P/1 – E como é o seu relacionamento com o pessoal do laboratório, com os colegas de trabalho?

R – O nosso ambiente é muito bom. Eu acho que você não fica tanto tempo numa empresa se você não tiver um ambiente bom pra trabalhar, se você não tiver oportunidades. Durante esses anos todos eu tive propostas, mas você acaba… Trabalho você vai ter em qualquer lugar, mas ambiente bom não é em todo lugar que tem. 

Na nossa área, a gente tem um ambiente muito legal pra trabalhar. Na minha área, especificamente, a gente tem um ambiente muito bom. A gente tem um ambiente de parceria, de equipe mesmo, então eu gosto disso.

P/1 – E o que a Avon representa para os funcionários?

R – Posso dizer em meu nome, em nome de todos eu não sei. Pra mim, eu adoro trabalhar na Avon. Eu adoro o meu trabalho, não tem um dia que é igual ao outro. Eu não gosto de coisa repetitiva. Lá eu posso até ter produtos parecidos, mas cada um vai se comportar de um jeito, então eu nunca posso chegar lá e dizer "meu dia vai ser assim hoje", não é. Eu não sei o que vai ser o meu dia. Eu posso saber o que eu preciso fazer, mas eu não consigo fazer tudo que preciso porque tem mil coisas diferentes acontecendo. Isso pra mim, pro meu jeito, eu gosto. 

Tem gente que gosta de todo dia aquilo, já saber o que vai fazer. Eu não gosto, então pra mim é muito bom. Eu não sei para as outras pessoas, mas eu acredito que a Avon busca sempre que aquele seja o melhor lugar pra se trabalhar, está naquele processo. E eu acredito que todo mundo que está lá não está só por necessidade.

P/1 – Existe algum fato pitoresco, algum caso divertido que aconteceu?

R – Ai, deixa eu lembrar. Ah, sempre tem os trotes que a gente faz para os estagiários. (risos)

P/1 – Conta um pra gente!

R – Quando a gente... Todo estagiário, quando vem, para ele se integrar ao grupo a gente sempre faz assim: põe creme no telefone, deixa ali fora, faz tocar, alguém liga; só que atende, não encosta, e chama o estagiário. O estagiário vai, aí enche o ouvido de creme. (risos) É uma bobeira, mas é legal porque integra, quebra aquelas barreiras,; já recebe, a pessoa já fica mais à vontade. 

Tem os churrascos, um tempo atrás tínhamos mais tempo. Teve umas pessoas que já saíram, mas a gente fazia muito churrasco, às vezes até nas casas das pessoas. Hoje menos, não sobra tanto tempo para essa integração, mas era mais ou menos isso.

P/1 – E como eram essas confraternizações?

R – Hoje já não tem com tanta frequência quanto antes, mas era muito bacana. Tinha churrasco, brincadeiras, batucada, tinha um monte de coisa. As próprias festas da Avon - tinha muita festa no final de ano, chegou a ter, numa época, festa junina. Ano passado eu não fui, mas as festas são boas. 

Mas eu acho que é muita gente, já perdeu aquela... Por mais que você fique com vários grupos, a gente fazia mais com o nosso grupo, só com a nossa área, então era mais gostoso.

P/1 – Agora vamos conversar um pouquinho sobre o lado pessoal. Você tem filhos?

R – Eu tenho uma menina.

P/1 – Uma menina? E o que vocês gostam de fazer de lazer, você com ela?

R – A gente gosta de sair, cinema, compras. que tem que ser todo fim de semana, ou ir pra alguma festinha, alguma reunião. É só o fim de semana, passa muito rápido.

P/1 – Quantos anos ela tem?

R – Quinze. Agora já começa a sair sozinha, então sobra um pouco mais de tempo.

P/1 – A gente vai partir pra uma parte avaliativa, pode ficar à vontade. A Avon é pioneira no Brasil em relação à venda direta. Qual a sua opinião em relação à Avon e à venda direta no Brasil?

R – No começo, eu não conhecia muito. Quando eu não trabalhava na Avon, apesar de comprar algumas vezes na escola os produtos, eu não conhecia muito as revendedoras. Hoje, já sabendo dos números, eu sei que a Avon têm muitas: é um exército de revendedoras, é muito abrangente. Acho muito importante porque pra muitas mulheres isso é um meio de sobrevida, até. É a maneira delas se sentirem importantes, delas terem um retorno financeiro, de criarem agentes de histórias dos próprios jornaizinhos internos. Tem pessoas que deixaram os filhos estudar compraram casas, isso é super bonito, né? E do porta a porta, é interessante porque você fica esperando aquela coisa chegar e você cria, você escolhe. Você não sabe como é, mas quem é cliente fiel da Avon sabe que o produto é bom, sabe que vai chegar o produto e quando chegar é um produto que vai atender, então eu acho que é legal.

P/1 – E esse fator de que os produtos chegam nos lugares mais distantes do Brasil, o que você acha disso?

R – A gente já ouviu aquela história que tem lugares da Amazônia que nem o Correio chega, mas a caixa da Avon chega, né? Isso é a maneira deles se sentirem fazendo parte até do Brasil, porque se você não tem nem o Correio chegando e a caixa da Avon chegando, é muito importante isso. É uma maneira da pessoa sobreviver naquele lugar, lá longe, onde ela está.

P/1 – E você, que trabalha diretamente com a produção e desenvolvimento de cosméticos: na sua opinião, qual é a importância da Avon na história dos cosméticos?

R – Hoje, se você perguntar para as pessoas a marca que vem à cabeça, a Avon é uma delas que vem primeiro. Apesar de ter muita coisa em supermercado, ter muita coisa em farmácia, a Avon ainda é muito importante - pelos dados que a gente tem, de cada três batons vendidos, dois são da Avon. Isso é muita coisa. 

Se você pensar no número de revendedoras, eu acho que a Avon faz parte dessa história de cosméticos no Brasil. Qualquer pessoa que você… Principalmente se eu comento que eu trabalho na Avon. a pessoa comenta: "Ah, eu uso tal produto da Avon." Não tem um que não use alguma coisa da Avon.

P/1 – Voltando um pouquinho à questão do laboratório, como é a rotina do laboratório? Como são feitos os produtos?

R – Como eu estava falando, de acordo com o que o marketing determina, a gente vai aplicar no produto pra tentar montar uma fórmula. Aquela fórmula que nós montamos vai ser testada. Depois dos testes, vai para aprovação na matriz. 

Tudo que a gente vai vender no Brasil não é vendido sem aprovação da nossa matriz. A gente vai mandar pra eles os resultados dos nossos testes e as amostras que a gente testou a gente também manda pra eles avaliarem. Eles vão rever toda aquela fórmula. 

Lá nos Estados Unidos, cada departamento cuida de uma parte. Você tem um departamento que vai olhar a fórmula, o departamento que vai olhar cada matéria- prima, se ela está de acordo; o departamento que vai olhar o processo, porque depois, aquela fórmula que eu fiz no laboratório só um pouquinho vai ser feita na produção, um monte. Se eu fiz um quilo pra fazer o teste, a produção depois vai fazer mil quilos, então ela tem que estar certinha: como eu vou fazer esses mil quilos, o que eu vou esquentar, misturar com o que, em que temperatura, com que agitação, quanto tempo, quanto eu vou esfriar. Tudo isso o departamento vai avaliar.

O pessoal de toxicologia vai avaliar se eu não usei nada que não pode ser utilizado. Se eu pego uma matéria-prima desconhecida, eu não posso pegar; eu só posso pegar o que é aprovado pela Avon. Mas vamos supor que eu pegasse: quando chegar lá, eles vão barrar porque aquela matéria-prima não foi avaliada pra saber se é segura pra usar. 

A Avon tem muita preocupação de segurança de uso. Já que a Avon é uma marca mundial e o consumidor da Avon é um consumidor livre… Ele não é uma receita de médico, onde o médico vai estar acompanhando o uso. Ele é um produto livre; eu quero, vou lá, compro e uso. E muita gente não... Alguns não leem porque não sabem ler, outros não leem porque pegam e usam, então aquele produto tem que ser testado pra garantir que durante o uso ele não vai causar nenhum problema. 

Vamos supor que você tenha um creme para passar aqui. Você tem que ter certeza que se você passar e cair um pouquinho dentro do olho não vai te dar problema nenhum. Esse pessoal vai olhar aquela fórmula e avaliar se aquilo é seguro ou não pra usar. Se eu falar que o produto que eu vou passar aqui em duas semanas vai tirar minhas rugas, vai ter um departamento lá que vai fazer testes com isso e vai comprovar que em duas semanas vai tirar rugas. Quando eu falar isso aqui no Brasil pro consumidor, o consumidor não vai poder falar: "Mentira, não tirou." Não, eu vou ter testes comprovando que tirou. E para eu registrar aqui no Brasil, no Ministério da Saúde, eu tenho que indexar o resultado desse teste, pra comprovar que o que eu estou falando não é mentira. 

Todo esse processo nos Estados Unidos é um ciclo que fecha, todos os departamentos envolvidos com aquilo avaliam. Na hora que cada um der o seu ok, significa que aquela fórmula está ok. Aí volta pra gente como aprovada e a gente [envia] pra área que vai fazer a regulamentação dessa fórmula com o Ministério da Saúde, no Brasil.

P/1 – Nossa, é grande o processo. 

A Avon, como a gente estava conversando, dá oportunidade de emprego a muitas mulheres. Como mulher, como você vêr essa grande oportunidade de trabalho num mundo onde a gente ainda tem predominância masculina?

R – Maravilhoso, porque a gente tem toda a condição de responder à altura. Ainda mais maquiagem, mulher entende muito, então você vai olhar como profissional e como consumidora. Você pode participar, pode dar o seu parecer como consumidora daquele produto; isso às vezes é até bom no momento de você decidir, aprovar alguma coisa ou não. 

Vamos supor, você tem um padrão de referência para aprovar. O seu produto… A gente tem critérios de aprovação, onde ele é aprovado ou ele é 100% perfeito, você pode usar aquela fabricação como sendo o próximo padrão. Aquele aprovado, de repente ele está com uma cor um pouquinho mais clarinha - é aquilo que eu te falei, a gente vai na loja e vê a diferença, mas a gente está treinado, então eu me ponho na condição de consumidor. Se eu fosse o consumidor, eu iria perceber essa diferença? A gente pode até perguntar para uma pessoa da limpeza, para um estagiário que não tem tanta experiência: "Passe isso aqui, você vê diferença?" "Ah, não." “Cheire isso aqui, você vê diferença?" "Não." 

Nosso nariz [é] treinado, nosso olho [é] treinado pra enxergar, mas o consumidor normal veria? Você se põe como consumidor e avalia como consumidor. Você percebe que como consumidor aquilo não é perceptível, aí você pode até deixar aquilo porque não vai impactar em nada na performance do produto.

P/1 – A Avon desenvolve várias atividades sociais. Como você vê essas atividades?

R – Eu acho que fortalece ainda mais a marca Avon, porque quando você sabe que uma empresa não está só preocupada em fazer a parte de ganhar dinheiro, mas está preocupada também em atender alguma coisa que é mais a imagem que ela vai mostrar, eu acho importante, acho muito legal. 

Eu acho, no meu… Apesar de trabalhar lá, acho que deveria ter mais divulgação disso. A Avon ainda faz coisas que não aparecem tanto.

P/2 –Olga, a gente leu que você desenvolveu cheiradores profissionais. Explique o que é isso.

R – (risos) Não é assim. Vocês leram onde?

P/2 – Eu não sei, foi a equipe de comunicação que passou isso pra gente.

R – É assim: você tem o nariz da mesma forma que os olhos, é um dom que você tem de perceber o cheiro. Ou você sente ou não. Você pode ir associando um cheiro com alguma coisa pra você ter... Às vezes você tem aquela capacidade, mas você não sabe que tem. Você tem que ir treinando pra você perceber que você tem, então a gente tem uns testes internos. O teste vem da matriz, tem várias substâncias que a gente que está aplicando o teste, sabe o que é: a gente pega pessoas, várias pessoas que estarão envolvidas com cheiros de produtos e você aplica aquilo. 

A pessoa tem que ter memória olfativa. Ela vai cheirar uma coisa e vai falar assim: “Isso me lembra laranja quando eu era criança.” “Isso me lembra o mato quando eu ia pro sítio, na casa da minha avó lá no interior.” 

A memória olfativa é um ponto. Outro ponto é você cheirar, é um teste triangular: você coloca duas coisas iguais e uma diferente, mistura e a pessoa tem que separar a diferente. Ou você mistura três coisas iguais em cheiro, porém diferentes em quantidade de cheiro: um mais fraco, um médio e um superforte para a pessoa dizer qual é o mais forte, qual é o mais fraco. Isso é pra medir o grau de acuracidade do nariz, então se for mau cheirador, profissionais… É pra você identificar pessoas que têm capacidade maior de saber diferenciar melhor ou não cada cheiro.

P/1 – E qual o fato mais marcante que você presenciou até agora nesses 25 anos de empresa?

R – Em que sentido?

P/1 – O fato mais marcante que você presenciou, alguma coisa que você falou assim: "Nossa!"

R – Eu vou pensar, tem muita coisa. (pausa) Eu estou pensando aqui, porque é tudo tão importante que o mais marcante... Eu queria ver alguma coisa interessante pra falar. Não está me ocorrendo nada porque tem muita coisa que acontece...

P/1 – Então qual foi o seu maior aprendizado até agora na empresa?

R – De vida? Nada é impossível! Esse é o nosso lema lá, porque tudo… Você tem uma meta que marketing te põe; você tem que atender, tem que fazer. Pode não ser exatamente o que eles queriam, mas você tem que dar opções pra eles. 

Uma coisa que eu acho que coloca muito isso: uma vez eu fiz um curso de homeopatia, de pós-graduação. O professor vinha de Santos pra dar aula. Era um curso para a área de saúde: vinham profissionais médicos, veterinários, farmacêuticos, dentistas, enfermeiros, um monte de gente. 

Era em Moema, o curso. Era num salão, tinha um restaurante embaixo e em cima tinha um salão para reuniões; o pessoal alugava esse salão pra fazer o curso. 

Era de sábado; minha filha era pequena, ela devia ter um aninho, dois, não sei. Eu montava o maior esquema pra deixar tudo ok, uma pessoa lá pra olhar, para poder ir à aula. Começava às nove, eu cheguei e todo mundo lá fora esperando porque alguém do restaurante que abria a sala não tinha chegado para abrir. E alguém falou que eles dormiam lá e que estavam lá dentro. Todo mundo batia na porta e ninguém acordava. 

Eu não me conformo muito com as coisas, talvez por esse aprendizado da Avon, então eu pensei comigo: todo mundo já estava lá, tinha gente que vinha de Santos, tinha gente que vinha de outros estados. Eu pensei assim: “Não, eu montei o maior esquema pra poder ter aula e já estavam falando de ir embora.” E o professor vinha da praia lá de Santos. 

Eu lembro que tinha um prédio ao lado, eu falei com o porteiro. Falei se ele me deixava entrar. Eu entrei nos fundos do prédio, subi no muro, acordei os empregados do restaurante, pedi para abrir e a gente teve aula. Então eu não aceito que não dá, no que depender de mim, acontece!

P/1 – E o que acha da Avon estar resgatando a sua memória através desse projeto?

R – Eu acho legal, mas são coisas que a gente nunca para pra pensar porque não dá tempo. Ainda mais assim, essa memória minha, que é mais longa. Tem gente que tem menos tempo de Avon, tem menos tempo pra lembrar. A minha tem um período maior pra lembrar, é legal.

P/1 – E o que achou de estar participando do projeto através dessa entrevista?

R – No primeiro dia eu estranhei, porque ninguém tinha me comunicado nada - normalmente eles comunicam. E por ser da minha área, eu recebo um monte de ligações do Brasil inteiro oferecendo produto, pedindo informação. A Avon não trabalha assim, todos os nossos produtos têm que ser aprovados pela matriz, segurança de uso. Às vezes vêm os vídeos que eles mandam, CD gravado de uma planta que descobriram numa garagem do vizinho, que é boa, que tira estria, não cai cabelo, então eu falei: "Será que é mais alguém que vai..." Mas depois eu vi que não era. 

Eu achei muito legal esse projeto de colocar pessoas, documentar essa memória que está na nossa memória, fazer com que ela seja um documento e que esteja disponível para todo mundo.

P/1 – Tem mais alguma coisa que você gostaria de contar pra gente?

R – Assim, que eu me lembre... Eu só queria dizer: eu gosto muito de falar o que vale a pena fazer, então eu diria que se eu tivesse que voltar 25 anos atrás… Quando eu fui, eu tinha mais de uma proposta na época; eu escolhi a Avon e deixei outras. Eu diria que se eu fosse voltar no tempo, eu escolheria de novo. Eu acho que isso resume tudo porque todos os dias eu tive aprendizados, todos os dias - bons e ruins, mas até dos ruins você tira os bons, né? É isso.

P/1 – Em nome da Avon e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua participação.

R –Tá bom. Obrigada também por terem me convidado.





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