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Eu não esqueço nunca mais

História de: Gabriel Dias Pereira Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/11/2014

Sinopse

Gabriel nasceu no campo, filho de produtor rural que cultivava o café em Olímpio de Noronha, ES. Começou a ser alfabetizado pela sua mãe em casa, com a ajuda de uma cartilha e quando atingiu a idade de sete anos foi estudar em um colégio interno, porque não havia opções próximas à fazenda. A saída de casa ainda criança foi muito difícil, porque estava habituado com uma família grande e afetuosa, mas foi se acostumando ao longo dos anos. Passou por dois internatos e um semi-internato antes de prestar vestibular para medicina, inspirado por um médico de família que conheceu na infância.

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História completa

Meu nome é Gabriel Dias Pereira Filho, nasci em Carmo de Minas, em três de março de 1944. O meu pai é Gabriel Dias Pereira, minha mãe, Maria Aparecida Pereira. A minha mãe, eu me recordo que mês que vem ela vai fazer 98 anos. Agora, do meu pai, quer dizer, foi em julho de 1909 a data de nascimento dele. Mas ele é falecido, a minha mãe, não. Eles nasceram em Carmo de Minas. Nós somos uma família de oito irmãos, sendo que hoje somos sete vivos. Minha mãe tem 105 descendentes, entre filhos, genros, noras, bisnetos e tataranetos, então uma família grande. E ela já tem acho que uns cinco ou seis tataranetos. Então uma família bem grande e muito unida. Então isso aí é aquela família tradicional, quer dizer, os dois cultivaram essa união entre nós. Meu pai era uma pessoa que não terminou o segundo grau, porque naquela época era muito difícil. Às vezes o ensino, você saía, ia ter que deslocar pra alguns centros maiores. E havia não só essa dificuldade de distância, mas também uma dificuldade até mesmo financeira. Meu pai seguiu a carreira do pai dele, do meu avô, então era fazendeiro. Dedicou-se muito aqui em Carmo de Minas à cultura de café. Não bem em Carmo de Minas, mas próximo a Carmo de Minas, uma cidadezinha pequena, chama hoje Olímpio Noronha.

Mas a vida desenvolveu em Carmo de Minas, a parte social, tinha residência em Carmo de Minas. E era uma pessoa, eu diria assim, tinha uma sabedoria muito grande em termos assim, apesar de não ter estudado. Então às vezes eu fico comparando algumas coisas que ele fazia nos negócios dele. Um detalhe que eu achei importante é que ele preocupava muito em cativar o cliente dele. E hoje a gente vê tanto falar em o cliente é o principal, o cliente é o dono da sua empresa, você tem que fidelizar seu cliente. Ele tinha essa preocupação já lá na década de 50, 50 e pouco. E a minha mãe, por sua vez, seguindo mais ou menos a mesma linha de pensamento, já era uma pessoa mais extrovertida e sempre preocupando com os filhos, a preocupação em criar e transmitir valores. E muito religiosa, muito dedicada à vida religiosa. E nos deu muitos exemplos bons. Ela também nasceu em Carmo de Minas e acompanhou sempre o meu pai durante toda a trajetória. E ele com 66 anos, até mais novo que eu, hoje eu to com 70, ele sofreu um acidente, nesse acidente ele faleceu, acidente de carro. E ela ficou muito baqueada, mas depois foi superando. Então uma pessoa assim, de muita fibra.


Nós fomos criados na fazenda em Olímpio Noronha. Então aquelas fazendas antigas, grandes. E dentro dessa fazenda, da sede, então moravam meu avô, minha avó, meus pais, meu irmãos. Mas teve período que moravam alguns outros filhos, tios, com as respectivas famílias. Então teve época que a gente morava numa casa, quer dizer, três famílias, quatro: meu avô com a minha avó, meu pai com a minha mãe e com a família dele, e mais dois tios, cada um com a sua família. Então era uma casa mesmo daquelas fazendas antigas, que até hoje ainda persiste. E ali a gente teve uma vivência muito comunitária, quatro famílias morando numa residência, numa casa. Era um convívio muito bom.

Eu diria que a minha infância eu fui até privilegiado, vivia muito em contato com a natureza, não só com os irmãos mais ou menos da mesma idade, mas primos. E ali a gente passou a infância. Na fazenda, você tinha: correr, brincar de pique, andar a cavalo, caçar passarinho. Naquela época, a gente não tinha ainda aquela cultura da preservação ambiental, então às vezes a gente saía caçando passarinho, punha nas gaiolas. E aquele dia a dia. E sempre tinha os horários que minha mãe impunha. Tinha horário pra levantar, pra almoçar, jantar, tudo aquilo. Horário do banho. Tinha os castigos quando a gente fazia algumas peripécias. E às vezes tinha época que reunia toda a família, os descendentes do meu avô, então a fazenda ficava cheia. Eram oito filhos que ele tinha, mais seus netos, então quando tinha, por exemplo, os aniversários dos meus avôs, então a família toda reunia na fazenda.

A gente comia arroz, feijão, muita carne de porco. Porque na época existia um contrato entre o fazendeiro e o seu empregado, em que pagava uma parte em salário e uma parte em víveres, em alimentação. Então fornecia arroz, fornecia feijão, fornecia café, fornecia a própria carne. E a carne que fornecia era de porco. Tudo fogão à lenha. Na época não tinha geladeira, então eles preparavam esses alimentos tudo de uma maneira especial. Por exemplo, parecia uma geladeira à querosene. E a luz na fazenda era própria, mas só acendia à noite, porque era pequena a usina, o gerador. Então existia essa limitação de usar a geladeira, de rádio. Televisão nem se fala na época. A água era uma água que vinha... Era captada no alto de uma serra, vinha encanada, tinha lá um reservatório, uma caixa, e ali então fornecia não só pra consumo de beber, de fazer o alimento, banho.

Então era própria, mas natural, não havia nenhum tratamento na época. Saía do alto de uma serra lá, porque a fazenda era grande, onde tinha a cultura de café. E naquela época, a vantagem é que não existiam também esses inseticidas, esses agrotóxicos, então a cultura do café, que era a atividade principal lá da fazenda, ela era feita mais assim com uma parte muito orgânica, então não havia aqueles riscos de contaminação dos lençóis. Mas normalmente a preocupação das pessoas mais antigas era de pegar exatamente essas minas que existiam no alto da serra, porque aí o risco de contaminação era muito menor. A sabedoria do povo. Então era uma água bem potável mesmo, tudo bem trabalhado.

O café fazia parte da tradição, da cultura. Era cedo, à tarde, cafezinho na hora dos intervalos: depois do almoço, jantar. Nos intervalos. Então o café fazia parte do cardápio diário. E meu pai, não só ele, mas meus avôs, meus tios, tomavam sempre uma xicrinha de café. Naquela época tinha o bendito tabagismo, que era muito mais difundido, então toda vez antes de fumar um cigarro, tomava-se uma xícara de café. Existiam aquelas chaleiras de ferro e ali o coador de pano, então colocava o pó naquelas chaleiras, depois coavam. Eles já vinham adoçados. Na época não se fazia café sem açúcar, não existia adoçante. Então já eram nas medidas certas, você fazia o café e já saía doce. Não tem mais hoje, que você tem lá o café com açúcar e o café sem açúcar. Então lá não, era só com açúcar. Então o consumo sempre fez parte da cultura da família. E na região, de modo geral, que eu sou de Minas, é muito voltado pra essa cultura da cafeicultura.

A escola a gente tinha uma dificuldade grande de escola, principalmente na fase de alfabetização. Então como os meus pais sempre preocupados em dar um ensino de qualidade pra gente, então quando tava com sete anos, naquele tempo existia muito na região aqui aqueles colégios internos. Então a gente saía com uma idade bem precoce e ficava internado. Então quando eu tava de sete pra oito anos, eu fui estudar em Lambari, num colégio interno. Mas nesse período, até completar sete anos e meio, mais ou menos, a minha mãe nos ensinou, nos alfabetizou, tinha lá uma cartilha. Então quando nós chegamos ao primeiro ano primário, na época, já tínhamos uma noção, quer dizer, uma semialfabetização. A saída para o Instituto Santa Terezinha, em Lambari, foi muito traumática. Que a gente é acostumado, criado na fazenda com toda aquela liberdade, muito ligado com a família, então isso aí foi um corte muito abrupto. E foi um trauma. Quando a gente ia pela primeira vez, foi aquele choro, achava que o mundo ia acabar.

Mas aí ficamos internados. Fiquei internado lá, eu e mais um irmão. Era próximo da fazenda, pra você ver, por exemplo, de Olímpio Noronha hoje a Lambari dá o quê? Vinte, 30 minutos. Mas naquela época era estrada de terra, então você gastava mais de uma hora, uma hora e meia, dependendo do estado, se tinha chuva, dependendo do estado da estrada. Quer dizer, a locomoção era mais difícil. Mas lá a gente ficava três meses. A gente ia, por exemplo, em março, só voltava em julho, depois voltava em dezembro. Aí ficava ou na fazenda ou então em Carmo de Minas, que tinha residência também na cidade, ainda tem até hoje, minha mãe mora lá. Mas era assim, no começo era um trauma muito grande, a gente sentia falta quando voltava para o colégio. Ali tinha toda uma disciplina pra gente seguir, e a ligação afetiva com a família era muito grande, então sentia.

A Medicina, quer dizer, eu sempre... Quando eu fui pra Belo Horizonte, pra estudar no Santo Antônio, logo que eu terminei a quarta série, então tava em Carmo de Minas, então a gente sempre tem alguém, quer dizer, uma imagem de pessoas que você passa a ter referência, servir como referência. Então quando eu era ainda adolescente, tava em casa, então tinha um médico lá em Carmo de Minas, o doutor Altamiro Coli, então era aquele médico de família. Naquele tempo existia só o médico de família. Era o clínico que resolvia tudo, ele olhava a criança, o idoso, a mulher, o marido, quer dizer, não tinha nada de especialidade. Então ele quando chegava lá com a maletinha dele, eu achava aquilo interessante e comecei a vê-lo como uma figura que me inspirou. Achava bonito ele chegar, medir a pressão, examinar.

E comecei a sentir que eu tinha uma... Comecei a despertar um gosto por isso. E eu sempre fui com um espírito um tanto voltado para o social. Então com isso eu comecei a achar que como médico eu poderia ajudar muitas pessoas. E quando eu fui pra Belo Horizonte, eu já fui com esse objetivo, de fazer um bom curso científico, num colégio de qualidade, e ali então com a opção de entrar na faculdade Medicina. Formei-me na Faculdade de Ciências Médicas, em Belo Horizonte.
Na época a gente tinha Ciências Médicas, era uma escola muito... E o campo de trabalho era muito grande, muito vasto, então a prática da Medicina, quer dizer, a gente como aluno tinha pra atender a Santa Casa todinha de Belo Horizonte por conta só da Faculdade de Ciências Médicas. Então ali você tinha doente pra você examinar, praticar à vontade. Então isso foi muito positivo no sentido de te dar uma base muito boa da prática médica. Hoje às vezes o aluno aprende a teoria, mas na hora da prática ele vai ver ou no boneco, ou no vídeo, ou CD. Ele não tem aquele contato assim, a oportunidade de ter um contato maior com o próprio paciente, pra você ir ali conversar, fazer um relacionamento médico-paciente.

Eu me recordo que quando tava no quarto ano... Final do terceiro ano de Medicina, então a gente já tinha visto, aprendeu a examinar o paciente. E aí surgiu um emprego no hospital municipal em Belo Horizonte. E naquela época tinha sempre o interno do sexto ano que ficava de plantão e a gente acompanhava. Então a gente examinava o paciente, medicava uma coisinha ou outra, orientado por ele. Chega fim ano, vêm as formaturas, vêm as festas dos homenageados, do paraninfo. E um belo dia eu tava lá no plantão junto com um colega que tava formando naquele ano, ele falou: “Gabriel, eu vou dar uma saída, hoje tem a festa que o paraninfo vai dar pra gente  e tal, mas ali pra 11 e meia, meia-noite, eu to de volta”. E nada de ele voltar. E a pediatria, eu tinha lá 30 crianças internadas, tudo tomando soro, vomitando, desidratada, pneumonia. E eu não sabia, tava começando. E aquilo me deu um stress tão grande, no fim eu falei: “Isso é um desafio, eu vou fazer Pediatria”. Eu falei: “Eu vou estudar, um dia eu vou ser um pediatra”. E aquilo me provocou. E a partir dali eu comecei a ler, comecei a me interessar pela pediatria. Então ali, a escolha da Pediatria foi naquele exato plantão.

Uma situação que eu me recordo, aí já não foi dentro da pediatria, mas pra demonstrar como o médico antigamente fazia um vínculo com o doente, a relação médico-paciente era muito mais sólida. Um dia eu tava de plantão no pronto-socorro do hospital aqui em São Lourenço e aí chegou lá um... E a gente de plantão, você fazia tudo, atende pediatria, adulto, tudo que chegasse. Chegou lá um senhorzinho com câncer de estômago, já na fase final, sentindo dor, sofrendo, ele chegando, falava assim: “Eu queria que chamasse o doutor Emílio”. O doutor Emílio era um médico antigo que tinha aqui, mas muito humano. E um mês de maio, um frio, em São Lourenço fazia frio de zero grau naquela época. Então eu falei: “Olha, o doutor Emílio tá cansado, tá dormindo. Eu vou dar uma medicada no senhor”.

E ele já quase agonizando e pedindo o doutor Emílio. Eu senti aquilo, falei: “Gente, eu vou ter que ligar pra ele”. E liguei. Falei: “Olha, doutor, o negócio é o seguinte, o paciente tá aqui”. Ele falou: “Ah, eu conheço, é o fulano de tal. Esse aí não tem mais nada pra fazer, coitado, ele tá na fase final de câncer” “Ele insiste que queria que o senhor viesse, mas deixa que eu medico aqui, tá muito frio, tal” “Não, tá, tudo bem, Gabriel”. Daí cinco minutos aparece o doutor Emílio. O doutor Emílio chegou e nisso ele sentou do lado do paciente, o paciente pegou na mão dele, eles se entreolharam, aí o paciente virou a cabeça e faleceu. Enquanto o doutor Emílio não chegou, ele não... Aí eu vi a ligação tão forte que existia, e que é o ideal. A relação médico-paciente era muito... E aquilo ali, aquela cena, me marcou por muito... Até hoje. Eu não esqueço. Uma coisa assim, dentro da nossa profissão, quando você encara com compromisso, você vivencia a sua profissão, te traz muita alegria, muita realização, mas tem certos momentos que você sofre também. Então essa desse paciente demonstrou como é a ligação, a confiança que tinha. Enquanto o doutor Emílio não chegou, ele não se desligou desse mundo. Mas foi uma coisa tão marcante que eu não esqueço nunca mais. 

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