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História

"Eu não ensinei, eu aprendi"

História de: Isabel
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Isabel recorda de sua infância através das origens indígenas e negras de seus avós. Desde pequena foi interessada por histórias, passando horas lendo romances e ouvindo os causos e lendas tradicionais através do avô. Após concluir o magistério passa a lecionar em uma escola comunitária, onde entra em contato com crianças periféricas e transforma sua visão sobre a educação totalmente. Começa seu trabalho no Projeto Sentinela — atual CREAS — como a assistente social, auxiliando jovens que sofreram violência sexual através de buscas ativas. Mais tarde, já no Projeto ViraVida, tem a chance de intensificar esse processo com o contato direto com esses jovens e o trabalho constante de avaliação e transformação desses. Hoje em dia, com planos de se aperfeiçoar e ajudar cada vez mais jovens, está se formando em Fisioterapia.

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História completa

O pai de minha mãe era indígena. O que me contaram é que eles foram pegos nas matas de Maragogipe. E minha avó, mãe de meu pai, também era índia. Eu sou descendente de índios e de negros. A mulher de meu avô, pai de minha mãe, era parda, e o marido da minha outra avó era negro.

 

Meu avô materno dizia que foi pego no mato com a mãe dele ainda criança. Cresceu já no meio da civilização, conheceu a minha avó e se casaram. Ele lia as horas pelo sol e se baseava muito pela lua. Era um homem assim, sabia o momento da pesca, sabia quando a maré estava alta, quando a maré estava em baixa, quando dava muito peixe. Ele sabia dizer tudo baseado no sol e na lua.

 

Eu nasci na cidade de Salvador, na Bahia. Morava em uma casa de sapé. Antigamente as casas eram assim, de varas com barro. Ela tinha três quartos, duas salas, uma cozinha, um quintal bem amplo com muitas plantações, porque como era família que vinha de uma cidade do interior, não poderia viver num lugar sem plantação. O quintal era cheio de árvores frutíferas: mangueira, pé de goiaba, coqueiro, jenipapo. Era uma casa bem movimentada. Eu me recordo que tinha dia que minha mãe colocava vinte pratos na mesa, porque pra comer eram os filhos, os irmãos que estavam ainda convivendo com ela, e as cunhadas.

 

Eu tive uma infância maravilhosa. Cresci num lar unido. Fui criada na Assembleia de Deus. Casei lá e hoje a igreja pra mim é tudo. Com quinze anos eu comecei a dar aula particular na minha casa. Começamos a ensinar os guris do bairro onde eu morava, eu e minha irmã. 

 

Depois eu terminei o ensino médio, que antigamente era ensino normal e o magistério, e comecei a lecionar em escolas particulares no bairro. Fui me desenvolvendo, mudei do bairro que morava, o San Martin, casei e vim pro Alto da Terezinha, no subúrbio ferroviário. 

 

Nesse novo bairro fui trabalhar em escolas comunitárias, eram escolas que vinham do movimento popular. Eu aprendi muito através do Método Paulo Freire, que foi uma coisa que me ajudou bastante, e também com o método do Construtivismo. Pude trabalhar com aquilo que a criança tinha, de fato: trabalhar sua origem, sua história, o seu “eu”, a sua família, dentro da sua realidade. Essa experiência foi um choque em minha vida profissional. Aprendi bastante. Foi uma mudança de vida, isso me transformou. A escola comunitária me fez ser quem eu sou hoje. 

 

Hoje eu trabalho nas ruas, identificando crianças e jovens em situação de risco. Primeiro ganho a confiança deles, depois os encaminho para projetos sociais. Comecei minha trajetória profissional em salas de aula. Fui conselheira tutelar e hoje trabalho no CREAS, na Secretaria de Ação Social de Salvador. Fico em contato direto com crianças e jovens nas ruas e também com suas famílias. Nesse trabalho eu detecto os casos que, uma vez analisados pela equipe do CREAS, são encaminhados ao projeto Vira Vida. 

 

Nas ruas, os jovens não têm noção de que estão sendo explorados. Eles mudam aos poucos, quando começam a conviver com outra realidade. Aí se percebem cidadãos com direitos. Muitos dizem: “Puxa, não sabia que estava destruindo a minha vida!” As meninas dizem: “Fico com raiva de mim mesma porque me deitava com aqueles homens tão nojentos, que estavam só se aproveitando de mim, levando embora o meu futuro!”

 

A primeira turma encaminhada ao Vira Vida foi um grupo difícil porque era um projeto-piloto. Não sabíamos se ia dar certo. E foi muito bom! A menina com quem eu tinha mais dificuldade, que eu achava que não iria ficar, foi quem me deu o maior prazer da vida! Ela foi até o fim, terminou o curso e está trabalhando. No dia da formatura, na festa, ela chorava muito e dizia assim para mim: “Isabel, se você não me encontrasse, eu não estaria aqui!”

 

Quando eu comecei, as pessoas da comunidade falavam: “Aqui tem um foco de meninas que ficam se prostituindo!” E eu dizia: “Adolescente não é prostituta, ela é explorada sexualmente.” Porque o adolescente ainda não tem domínio sobre si, sempre tem um pai e uma mãe que são responsáveis. Então ele tem alguém que o está explorando, aproveitando da inocência e de seu desenvolvimento psicossocial e físico.

 

Antes do ViraVida não existia nenhum projeto voltado para adolescentes e jovens em situação de exploração sexual estruturado nessa dimensão, que trouxesse oportunidade de mudança de vida não só para os jovens, mas também para suas famílias. Aqui em Salvador, o projeto dá oportunidade para vários pais fazerem os cursos. Alguns pais até montaram seu próprio negócio depois de se formarem.

 

Eles entram no ViraVida, ficam estudando, depois recebem treinamento na empresa. Já sabem que terão oportunidade de sair do curso empregados. Fazem um curso que não poderiam pagar lá fora. Mesmo quando não permanecem nas empresas onde receberam o treinamento, estarão preparados para enfrentar o mercado de trabalho em qualquer lugar.

 

Começam do nada e saem com uma bagagem muito grande. E aqueles que não querem agarrar a oportunidade que o SESI lhes propõe é porque realmente não querem, ainda não estão preparados, ainda não escolheram o foco de suas vidas. Mas os demais, todos têm entrado assim: com a cabeça pensando que não vai dar certo e, no fim, saindo vitoriosos.

 

Busco me qualificar e estou me formando em Fisioterapia. Quando alguém me pergunta por que sair da educação e ir pra saúde, respondo que alguém tem que cuidar desse corpo que começa a ser abusado desde a infância. Como esses músculos ficam e como são dilaceradas essas fibras musculares. Meu sonho é montar uma clínica para trabalhar com essas meninas e meninos.

 

Enquanto não realizo meu sonho, continuo nas ruas, nos bairros, tentando transformar vidas. É muito gratificante. Tem vezes que eu chego no ViraVida e acabo me emocionando. Quando apareço na porta, eles dizem: “Isabel, você chegou!” E eles contam: “Eu tô quieto, não tô aprontando, tá tudo bem. Eu não pensei que eu fosse ter uma oportunidade dessas, Isabel!” Saio chorando, mas são lágrimas de felicidade.

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