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História

"Eu me vejo trabalhando na área social"

História de: Magali dos Santos Quintal Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/04/2015

Sinopse

Magali conta um pouco em seu depoimento sobre sua adoção e a de seu irmão gêmeo, sua infância e adolescência. Também fala sobre como, aos 18 anos de idade, saiu de casa para morar com seu atual marido, e como isso implicou em dificuldades de interação com sua família. Fala sobre seus trabalhos e como ingressou no Instituto Monsenhor Antunes, onde trabalha até hoje ajudando crianças em situações  de risco. Fala também um pouco sobre a participação que teve no projeto que o Criança Esperança que apoiou no Instituto no projeto Andrezinho Cidadão. 

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História completa

Meu nome completo é Magali dos Santos Quintal Ferreira. Eu nasci em São Paulo, em 16 de dezembro de 1980. Meus pais são José Antônio Quintal e Marlene dos Santos Quintal. A minha mãe sempre foi dona de casa e o meu pai é orçamentista, hoje aposentado. Tenho quatro irmãos: Melissa, Flávio, Marcos e Danilo. Eu sou a terceira. O meu pai muito trabalhador, minha mãe sempre dona de casa, esforçada. Batalharam bastante pra criar a gente. E sempre supriram as necessidades dos filhos de acordo com o que podiam. Na realidade, eu sou adotada, eu e meu irmão gêmeo. Então somos adotados, então minha mãe sabia do casal de gêmeos que viria pra adoção e foi e adotou a gente. Só sou nascida em São Paulo, mas sempre residi em Santo André. Saímos do hospital já no colo da minha mãe adotiva, dos meus pais adotivos. Eu sempre soube da adoção. Desde quando eu me entendo, minha mãe nunca escondeu nada, nem de mim, nem do meu irmão, nem dos meus outros irmãos. Meu pai, graças a Deus, sempre teve condições, então muito boa.

Sou muito apegada aos meus irmãos. Por ser cinco irmãos, então a minha mãe tinha medo de ir pra rua, então as brincadeiras eram sempre no quintal. Os meus avós moravam na casa do fundo, tinha um quintal de terra, então a gente aproveitava bastante aquele quintal. Meu pai comprava piscina pra que a gente brincasse, pra ficar sempre perto deles. A casa era grande. Era muito boa a casa, tinha a casinha da minha avó e do meu avô nos fundos, sempre moraram com a gente também. Tinha esse quintal enorme que eu te falei, que dava pra fazer muitas brincadeiras. Muita. E a família toda sempre se reunia aos finais de semana, irmãos da minha mãe, dos meus pais. Família grande. Meu pai acabou vendendo o terreno e agora hoje são prédios.

A escola também muito bem aproveitada. Tenho boas recordações da escola, dos amigos que a gente traz. Eu tenho uma amiga até de 27 anos, que a gente não perdeu essa união, esse laço. Era no Centro de Santo André, então a gente tinha que pegar um ônibus. Geralmente ônibus pra poder ir até lá. A minha irmã tem oito anos a mais de diferença, então ela já tinha responsabilidade de levar a gente e trazer. Estudei da primeira a oitava série nessa escola, e depois eu tive que sair porque não tinha mais o colegial na época, que era chamado. Também o colegial eu fiz na mesma escola. Era bem mais longe. Mudou toda a rotina. Eu mudei de horário, saí do dia, fui pra noite, então mudou totalmente a rotina. Porque eu precisava trabalhar já. Já fazer estágios, então... Meu pai sempre ofereceu tudo pra gente, mas falava que também em troca, quando tivesse idade pra trabalhar, pra poder dar valor. Então foi onde ajudou. Eu não ajudava em casa. Eu pagava uma parte da escola, irrisória. Ele quis ensinar pra gente, como orçamentista, pra dar valor ao dinheiro. Então uma parte, que era muito irrisória mesmo, do meu salário ia pra escola, o restante ele bancava: o transporte, a escola toda.  Eu trabalhei na Caixa Econômica como estagiária, então eu aprendi bastante, já mexia com dinheiro também. Mas era muito bom, amei trabalhar. Dois anos eu fiquei como estagiária, aprendi bastante. Atendimento ao público que eu gosto muito, eu gosto de lidar com pessoas. Então foi assim um encaixe perfeito. E junto com o ensino médio, eu fiz Administração de Empresas, e ajudava também então no ensino médio pra poder entender um pouco da administração, na parte administrativa também.

Eu achava que podia comprar várias roupas, mas por trás eu sabia que não era eu, não era o meu salário, porque eu ganhava muito pouco, eu ganhava 200 reais. Então a minha mãe sempre fez questão que eu andasse bem arrumada, me levava para as lojas, comprava roupas. Quando ela via que já estava surradinha aquela roupa: “Não, pode jogar fora, vamos comprar outra”. Mas sempre dando valor. Ela sempre fez com que a gente usasse até pra dar valor, e quando precisasse, eles estariam ali por trás, ela e meu pai sempre auxiliando.

O primeiro namorado foi na Caixa Econômica, ele era o segurança da Caixa, mas durou muito pouco. E o meu marido hoje, o meu marido eu conheci no terceiro ano do ensino médio. Na mesma escola, só que porque eu pegava ônibus, ele já estava na faculdade, eu no colégio, então a gente se encontrava no ônibus.

Bem na minha época era época do samba, então a gente gostava de ir. Mesmo na praia, ia pra praia porque a gente sabia que ia ter um grupo tocando ali que a gente gostava. Essa minha amiga que eu carrego hoje há 27 anos, ela tinha uma casa na praia, a mãe dela ia com a gente, então a mãe dela estava sempre junta, ela levava a gente para as baladas. E era muito aproveitado. Muito. Sempre consciente e era muito bom. Meus irmãos não iam. De vez em quando o meu irmão gêmeo, por ter a mesma aproximação com a minha amiga, então ela é amiga minha e dele, então às vezes ele ia sim. Mas ele já estava em outra, já estava namorando também, já trabalhava há muito mais tempo que eu, então já tinha outros amigos fora essa amizade.

Se eu te falar hoje que administração era o que eu queria, não sei, eu sei que deu certo. Mas foi mais por ouvir os outros falarem sobre administração, por ter um ensino médio técnico pra conseguir um emprego mais rápido. Mas que foi a minha intenção assim de já escolher, não, não foi, fiquei bastante em dúvida. Saí da Caixa Econômica, depois fui trabalhar com telemarketing, que não tinha nada a ver pra mim, com administração não tem. E depois fiz a faculdade muito tardia e acabei escolhendo por Pedagogia.

Eu comecei a namorar o Mário, eu tinha 17 pra 18 anos. Eu já fui morar com ele um ano depois e logo um ano depois eu tive a minha primeira filha, que hoje vai completar 15 anos.  Foi barra para a família, ainda mais nessa época. Mas hoje eu sei que está tudo bem e tudo nos eixos. A gente aprende muita coisa. Marília Gabriela é o nome da minha filha. Depois de dois anos veio o Matheus. Depois de cinco anos veio a Mariana. E a última minha, com quatro anos hoje, é a Maria Eduarda. Meu marido fez Administração de Empresa. E depois que eu me formei, logo eu entrei no Instituto Monsenhor Antunes, que é onde eu já estou até agora. Vai fazer oito anos agora em dezembro.

Então, justamente, é o que até os meus amigos de trabalho falam, eu entrei numa outra realidade. Isso era muito distante de mim, porque eu tive uma vida muito boa, estudei em escolas particulares, nunca foi falado isso antigamente. E você confrontar com outra realidade, isso até choca. A gente ouve falar em televisão, mas até então eu nunca tive contato com projetos sociais, não. E foi gratificante. Eu até agradeço sempre por estar assim nessa área social, porque é onde eu me encontrei. Eu fiz os estágios obrigatórios, mas eu não me vejo professora em sala de aula. Eu me vejo sim trabalhando na área social, é onde eu escolhi pra mim e quero continuar sempre. A minha sogra, ela trabalhava como estagiária na Prefeitura, como ela fazia estágio na faculdade, e surgiu essa vaga, ela levou meu currículo e eu fui chamada. A vaga era para educador social no Programa Andrezinho Cidadão. O meu primeiro dia? Lembro. Eu queria ir pra rua de qualquer forma, só que eu fui contratada, a princípio, pra ficar dentro por causa da minha formação de Pedagogia, se chegasse uma criança de rua, pra gente desenvolver atividades ali dentro, então ficava dentro da sede. Mas a minha vontade era de ir pra rua com os educadores, porque eles iam buscar aquelas crianças até ali, eu queria ver a situação de cada um deles. É onde eu fui me envolvendo na área. Foi em novembro, acabaram as aulas, entreguei meu TCC e defendi o meu TCC, e em dezembro eu fui chamada, um dia depois do meu aniversário eu entrei.

Entrei final de 2007, início de 2008. Eu trabalhei no Andrezinho Cidadão, que é o programa com meninos de rua, de 2007, final de 2007, até o ano passado, 2014. Eu fiquei três anos e meio como educadora. Quando eu voltei de licença maternidade da minha última filha, o Roberto, que é o coordenador do Instituto, me chamou pra ser técnica social, que o trabalho de técnica é acompanhamento das famílias daquelas crianças que estão na rua, em situação de rua. Ir até a casa, fazer um estudo, inserir em programas sociais pra garantir alguns direitos ali. Na realidade, tem que garantir todos os direitos, mas depende da Prefeitura, que eu falo como município, pra garantir isso também. Então meu trabalho era técnico de acompanhar, fazer o primeiro atendimento e depois já passar para as assistentes sociais da prefeitura, do município, pra que deem a continuidade no trabalho, pra que garantam. Eu fiquei três anos e meio como educadora, e como eu completei o ano passado sete anos, mais três anos e meio como técnica, no Andrezinho. Ainda agora venho pra cá, quatro meses, como técnica social do abrigo agora, do serviço de acolhimento.

Eu tive muito pouco contato com o Criança Esperança, porque eu estava voltando da licença maternidade, então quando eu cheguei, já estava acontecendo o projeto, que eram os minicurtas, cine debate. Então eram dois colegas nossos que estavam fazendo. Eu não ia pra rua mais nessa época, então não consegui acompanhar nenhum desses... Mas a gente sabia, tinha conhecimento, óbvio. O André só veio mesmo pra este projeto do Criança Esperança, ele não era um educador nosso. A Carla fez o Projeto Criança Esperança e depois foi chamada pra trabalhar conosco como educadora social. Então finalizou o projeto e ela veio como educadora pra ir para as ruas. Eu não consegui acompanhar de perto, porque como eu já voltei como técnica social e a gente tinha que acompanhar as famílias, então eu estava fazendo um trabalho paralelo ao deles.

Eu sei do Sacadura Cabral, que foi um dos projetos, eu já tinha contato com o Marcelo, que é o que recebia o Pirata e a Carla pra fazer esses debates. Sempre muito companheiro, trazia a criançada da comunidade pra participar desse projeto. Havia uma mobilização fora do normal em todas as três comunidades que foram passadas: Sacadura, Cabral, João Ramalho e o outro foi o Jardim Santo André. Esses são os que eu tenho certeza, que eu peguei quando eu voltei. Não sei se houve outras comunidades. Mas tinha um envolvimento, eles conseguiam trazer as crianças, fazer com que elas participassem mesmo, se envolvessem no projeto sim.

Aqui no Andrezinho é o acompanhamento de famílias, reuniões com mães. A gente sempre tinha que trazer as mães pra próximo pra saber a real situação que estava vivendo. Porque às vezes só ia até a casa pra fazer uma visita, não era só aquilo. Mesmo porque tem vizinhos, elas ficam com medo de contar. Então fazia uma entrevista social somente com elas. E o fortalecimento de vínculos com as crianças junto com as mães pra que saíssem dessa situação de trabalho infantil, de situação de rua. Depois fui para o Instituto, então, agora em novembro eu fui convidada pra trabalhar aqui no serviço de acolhimento institucional de crianças e adolescentes, uma coisa muito gostosa também, porque eu nunca tinha trabalhado, não tinha noção do que era o serviço de acolhimento. É muito diferente dos meninos de rua com quem eu trabalhei sete anos. Questão de negligência, essas coisas então que tiram essas crianças dos pais, mas porque já estão naquela situação pior. Não é igual os meninos de trabalho infantil, eles estão ali sim em situação de rua, mas a gente ainda consegue trabalhar com as mães. Esses daí não, já perderam, porque a gente não conseguiu nem chegar, vamos supor, o Andrezinho não conseguiu chegar a essas crianças antes de que eles viessem para o abrigo, então eles já são acolhidos em situações que já estão muito gritantes assim.

O serviço de acolhimento é assim, o Conselho Tutelar traz pra casa de entrada, a casa de entrada faz uma triagem e manda para as outras casas. São oito casas, cada casa comporta 20 crianças. É a moradia deles a partir dali. Enquanto a gente não conseguir reverter a situação, verificar a possibilidade reinserção familiar, eles vão ficando ali, então é a casa deles. E na casa que eu trabalho tem muito assim, tem crianças que estão há sete anos já aguardando adoção.

 

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