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"Eu me vejo como transformador"

História de: Cleber
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2019

Sinopse

A história de Cleber se trata de um sonho em ser transformador. Relembra sua infância marcada por bullying e preconceito pelos colegas de sala por conta da formação de glandulazinhas em sua pele por não transpirar. Conta como escolheu fazer o curso de História, sobre o seu maior objetivo em se tornar professor: se tornar um professor diferente para transformar e ajudar as pessoas, além de ter a intenção de atingir os jovens. Conta do seu processo trabalhando no Projeto ViraVida, suas dificuldade, as maiores transformações pessoais e na vida desses jovens.

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História completa

Me chamo Cleber, nasci na Região Nordeste do Brasil, onde moro até hoje. Minha infância foi boa, a não ser com alguns problemas relacionados ao bullying. Eu tive problema com bullying por conta dos carocinhos, quando eu era moleque era terrível porque os meninos pegavam muito no meu pé em relação a isso, e eu me sentia muito inferior, eles tomavam muito cuidado, a mãe deles muitas vezes não deixavam eles brincarem comigo porque dizia assim: “Ah, isso deve ser câncer”, criança não sabe o que diz: “Pode ser AIDS”, até coisas assim. Então eu não tinha muitos amigos, era difícil essa relação com as pessoas de fora, era mais fácil com o pessoal da família, meus primos e tudo, porque esses carocinhos são hereditários, é porque eu não transpiro, eu transpiro pouco na verdade, aí forma essas glandulazinhas, esses carocinhos, o pessoal não conhecia, e eu era bem escanteado mesmo das brincadeiras e tudo mais, tanto pelas mães como pelas crianças.

 

Eu me criei tendo uma coisa na minha cabeça, o terceiro lugar em tudo estava ótimo, no caso no campo de futebol se eu fosse o terceiro, qualquer campeonato, qualquer coisa, estava ótimo, numa brincadeira, no videogame, qualquer coisa, se eu fosse o terceiro era um bom resultado, eu nunca ousei ultrapassar essa barreira, questão de: “Ah, vou ser o primeiro ou vou chegar até o segundo”, eu nunca ousei porque na verdade eu tinha medo de repente eu conseguir fazer isso e eles começarem a “zoar” da minha cara e se afastar de mim novamente, então ser o terceiro estava ótimo.

 

Tudo começou porque eu entrei numa fase na minha vida, de indecisão, fiz o meu primeiro vestibular, passei para a Agronomia, que na verdade não era o meu sonho, era o sonho dos meus pais, do meu pai na realidade, por ele trabalhar nessa parte de agricultura ele sonhava que o filho fosse um engenheiro agrônomo, só que não era legal para mim. Eu desisti, eu passei, mas na verdade nem a matrícula eu fiz na universidade e tentei no ano seguinte, porque eu gostava muito de História, gostava muito de lidar com gente, mesmo tendo um pouco de receio de trabalhar com o público, mas eu gostava muito e eu pensava que através da História eu poderia mudar algumas vidas, na verdade eu queria ajudar as pessoas, queria ser um professor de forma diferente, não aquele professor tradicional que eu estava acostumado a ver, aquele cara que não deixava a pessoa se expressar e tudo, que tudo era para parar, não deixava a pessoa ir além, e na minha cabeça podia ser diferente. Eu queria mudar de alguma forma, a minha intenção era atingir o jovem, queria mesmo trazer para uma realidade, politizar, trabalhar na questão musical com eles de uma forma geral, trabalhar História de uma forma geral e conseguir mudar a cabeça.

 

Então na minha cabeça era o seguinte: eu ia tentar ser um professor para transformar mesmo a vida, tentar transformar a vida dessas pessoas… E eu achei que através das aulas eu poderia ser formador de opiniões, era mágico, mais do que a intenção de você ganhar bem, ter uma vida, foi realmente o que eu me decidi.

 

Por incrível que pareça meu primeiro emprego foi aqui no SESI (Serviço Social da Indústria) como estagiário, foi no SESI, fui estagiário do SESI, depois acabou o tempo, o período era só dois anos de estágio, consegui passar os dois anos e fui trabalhar em uma escola privada e foi assim.

 

Meu estágio na verdade foi aqui no SESI, foram aulas comuns, primeiro eu fiquei meio perdido porque na verdade eu queria ser um professor diferente, mas eu me deparei com a realidade, pessoas que pensam, que formam, tem um senso crítico. Eu nunca pensei assim: “Ah, como vai ser passar uma História para eles, trabalhar de forma diferente e se eles não quiserem?”, então eu tive que armar estratégias para conseguir trazer eles para minha ideia, comprar na verdade, para que eles comprassem minha ideia e foi aí que rolou, aconteceu, foi bastante beleza mesmo.

 

As estratégias para motivar esses alunos é primeiro com a música, eu sou um pouco tímido, mas na sala de aula eu danço com os alunos, antes de começar na sala de aula eu chegava, cantava uma música, uma música de época, tipo uma música do Geraldo Vandré: “Pra não dizer que não falei das flores”: “Caminhando e cantando...”, eu chegava e tal: “Pô, professor, negócio estranho”, já chega um cara diferente, cheio de carocinho, inclusive colocaram o apelido em mim que até hoje ficou, Chokito, porque era moreninho, magrinho, cheio de carocinho, colocaram e foi através dessas brincadeiras e tudo, levava a História brincando, sempre foi assim, até nas aulas de Direitos Humanos, que na minha ideia vai ser muito diferente, você trabalhar História de uma forma, mas trabalhar Direitos Humanos com essas pessoas, o estatuto, trabalhar tudo com eles, como vai ser? Eu comecei a pensar na ideia de teatro dentro da sala de aula e inventar: “Você vai ser o juiz, você vai ser o promotor” e ali inventava algumas situações, eu trazia algumas situações para eles e a aula rolava beleza mesmo.

 

A escola privada é totalmente diferente, assim que eu cheguei, primeiro me deparei com uma cobrança imensa em relação não só às questões normais de trabalho, mas algumas posturas que eu me sentia um pouco incomodado: não corrigir o aluno, eles tinham muito cuidado com isso de correção dos alunos, porque na verdade é aquela, é uma educação empresarial na verdade, você está ali, mas a questão é a mensalidade, é o dinheiro, muitas vezes eles barravam, íamos educar, ia dizer que eles estavam errados e muitas vezes o diretor chamava na direção para mostrar: “Não, professor, você não deve agir assim, não, conversa com ele, manda aqui para sala, para psicóloga”, então era meio que assim, tentava chamar a atenção de uma forma, óbvio que de uma forma dentro da ética, mas mesmo assim era chamado a atenção, era muito limitado, eu não podia fazer as brincadeiras, trazer novas aulas, na verdade a minha primeira patroa, a diretora da escola, ela disse assim: “Olha, seja tradicional, não vem inventar aqui na minha escola porque aqui não tem espaço para invenção, não”, ela foi bem áspera.

 

Eu sempre trabalhei com Ensino Médio, trabalhei com primeiro, segundo ano, segundo e terceiro ano e foi assim, as turmas sempre se envolviam, por ser Ensino Médio tinha visão de vestibular, visão de universidade, era fácil o entendimento, era bem legal mesmo.

 

Aí voltei ao SESI por meio de uma moça que trabalhava lá e também era professora de História e ela estava grávida, no período em que ela foi ter nenê ela ligou para mim, perguntou se eu queria tirar o tempo dela de licença maternidade, eu disse que queria e fiquei, tirei o período de licença maternidade, só que ela gostou de cuidar do bebê dela, não quis voltar, eu fiquei, depois apareceu a oportunidade do concurso, eu fiz o concurso e consegui passar e estou aqui trabalhando.

 

Conheci o Projeto ViraVida através de um congresso aqui no espaço cultural, e chegando tinha uma colega minha que ela que ia ser a professora de Direitos Humanos, Ética e Cidadania e ela começou a falar o perfil dos alunos que eles iam trabalhar, falou do projeto e tudo e eu disse: “Como eu faço para entrar nesse projeto?”, ela disse: “Por quê?”, “Porque eu vou encontrar o que eu sempre busquei quando eu decidi ser professor”, ela disse: “Como assim?”, ela ficou sem entender, eu disse: “Não, porque na verdade eu fui ser professor como uma revolta, eu queria dar uma resposta a sociedade, porque eu me sentia, às vezes, excluído e eu queria ensinar que a exclusão não é legal, eu queria ensinar que as coisas não eram assim, que as pessoas eram iguais, que não precisava ter medo porque a outra pessoa era diferente e trabalhar com esse público que vinha já de uma história de vida triste e tudo, está ali uma oportunidade para mim, é esse público que eu sempre sonhei trabalhar” e eu pedi para ela assim. Aí falei com a pedagoga do projeto, ela disse: “Ah, beleza, vamos ver”, aconteceu e foi muito bom.

 

Os jovens do projeto são pessoas que tem uma história de vida muito triste, a maioria deles vem de abuso sexual, violência sexual em si, e é um público que vem com uma frustração gigantesca, às vezes eu me deparo com uma situação com eles, eu me sinto da família deles e algumas vezes, quando eu escuto as histórias de vida deles, muitas vezes a exclusão, a sociedade que exclui muito essas pessoas, que não sabem porque a pessoa foi parar naquela situação de vida e começa a deixar a pessoa no escanteio e trata a pessoa como a música de Chico Buarque dizia, como a Geni: “Joga pedra na Geni” e não tinha aquela ideia de parar e escutar, porque a pessoa chegou até aí, e por conta da exclusão, eu acho que pela experiência que eu tive na minha vida, foi aí que eu me identifiquei mais com esse público.

 

Então mostrei ali que eu era uma pessoa igual a eles e que eu queria passar o que eu sabia de forma amigável, eu queria ajudar, na verdade eu sempre digo nas minhas aulas o seguinte: “Olha, aqui eu não sou só o professor, eu sou o professor e amigo de vocês”, às vezes eu digo à eles assim: “Eu sou o adulto que vocês podem confiar”, eu converso com eles, me contam coisas que vocês nem imaginam, coisas para lá de pesadas e ali eu sei na hora, eu não posso de forma nenhuma mostrar a eles que eu fiquei horrorizado com aquela história, que eu fiquei assustado com aquela história, não, eu tento agir de forma natural, tranquila e às vezes eu consigo direcionar eles para procurar uma ajuda, às vezes mesmo quando eu posso ajudar, eu sempre tento ajudar.

 

Nas minhas aulas o grande desafio é tentar trazer eles para participarem, eles se tornam muito fechados em relação a isso, eles fazem grupos e esses grupos são muito difíceis de você adentrar, eles tem que ter confiança em você para que você consiga adentrar esses grupos e puxar, chamar eles para as aulas, porque eles ali se formam em grupo, eles ficam meio fechados, você tem que ter um jogo de cintura mesmo pra conseguir fazer com que eles confiem mesmo, saber que você tem alguma coisa real para passar a eles, alguma coisa que vai mudar a vida deles mesmos, quando você faz isso você nota que eles te dão resposta, eles vem e assistem a aula, participam da aula e muitas vezes eles montam a aula comigo. A última experiência que eu tive foi mágica, porque ia ter um seminário estadual, e eu tive uma ideia de tirar fotos, a ideia é o seguinte: era tirar fotos de pessoas que estavam em situação de vulnerabilidade, situação de risco, eram pessoas que estavam se prostituindo, eram pessoas no sinal pedindo esmola, pessoas que estavam nessa situação e o pessoal aqui do projeto deram câmeras fotográficas à eles, e eles saíram na rua, foi muito legal, tiraram fotos, eles saíram com gravadores, às vezes com o celular eles gravavam, conseguiram fazer entrevistas com essas pessoas, eu tenho isso gravado, tem no DVD do projeto, eles gravaram entrevistas com essas pessoas, tiravam foto. Porque a minha ideia era o seguinte, muitas vezes quando se vê numa situação a qual não estamos inseridos, estamos fora desse problema, é mais fácil da gente encontrar uma solução e a minha ideia era o seguinte: se eu mostrar esse problema para eles eu acho que eles vão analisar, vão dizer: “Meu irmão, não quero entrar ali naquela situação, não quero fazer parte daquela vida” e eles vão tanto se ajudar como também ajudar as pessoas que estavam próximos a eles que fazem essas coisas, fazem essas besteiras aí. O resultado foi muito bom, eles fizeram uma peça teatral, eles se envolveram tanto que alguns choravam, encontraram uma moça que morava na rua, ela tinha cortado, amputado o pé por conta disso, morava na rua há muito tempo, tinha sido expulsa da casa da mãe dela por conta da prostituição, porque fazia programas, a mãe expulsou, então depois ela teve uma complicação, teve que amputar o pé e eles se sensibilizaram muito com a história dessa senhora e queriam porque queriam levar ela em algum departamento público para que houvesse um direcionamento e tudo. Procuramos saber onde tinha abrigos para encaminhar essas pessoas e tudo, eles choraram. 

Também teve uma oportunidade que aqui próximo tinha um ponto de prostituição, quando ia subindo tinha uma moça que estava chorando muito numa escada, já era uma senhora, na base de uns 45 anos, ela chorava muito e nós paramos, vínhamos tirando essas fotos, parou e veio perguntar o que estava acontecendo, eles mesmo tiveram a iniciativa de chegar e: “Professor, o senhor viu uma moça chorando lá?” e foi e perguntou, parou e perguntou à ela o que foi que houve, ela disse que tinha sido agredida por um cliente que não quis pagar ela, disse que já tinha, que ela não merecia nem ser paga, como ela mesmo disse: “você não vale nem um real”, ele bateu nela para ela sair do carro dele e ela estava ferida, os meninos começaram a chorar assim e eu fiquei muito... Eu nunca pensei que eles iriam chegar a esse ponto porque muitas vezes eles mostram ser muito fortes, eu acho que pela vida que eles tiveram, às vezes eles mostram ser muito fortes, às vezes mais forte que nós mesmos.

 

Nas aulas de Direitos Humanos, Cidadania e Ética, primeiro eu trabalho com eles, eu gosto muito de trabalhar o estatuto, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA. Eu sempre mostro à eles as leis, os direitos que eles têm, os deveres, eu focalizo nos deveres, eu trago livros de sociólogos, de pessoas de referência. A última vez agora eu trouxe um livro de um escritor muito conhecido, Augusto Cury, o livro é “Código da Inteligência”, eu comecei a trabalhar com ele alguns traumas, mesmo não tendo muita prática, nessa questão da psicologia, mas eu comecei a trabalhar com eles essa questão, dos códigos, dos traumas mesmo, essa questão do medo, dos medos e tudo e esse livro foi muito bom para trabalhar com ele, eu gostei muito. Também trabalhei temas transversais, foi legal. E às vezes, muitas vezes eu trazia uma aula e dentro da aula eles começavam a falar, eles têm muita resistência à força policial, eles falam muito da força policial porque a polícia é isso e tudo, então eu tive a oportunidade quando vi essa dificuldade que eles tinham em relação à força policial, eu comecei a ter uma ideia, disse: “Não, espera, eu vou trazer aqui uma sala de profissões, vou mostrar que tanto tem profissionais, bons profissionais como maus profissionais e tanto na polícia como em outra área temos essa dificuldade” e eles foram analisando, fizemos várias vezes debates, uma vez eu fiz um debate sobre a menoridade penal, um grupo que dizia que queria que diminuísse a questão da maioridade penal, outro que era contra, eu dividi e fiz uma discussão e foi muito bom, foi muito bom mesmo, coloquei uma pessoa como mediador, entre eles mesmos, eu ficava só de fora, eu botei um deles para ser mediador e foi muito bom, muito bom mesmo, eu usei como base também alguns livros de direito, trabalhei com eles em relação a isso.

 

Também já aconteceu de uma menina chegar pra mim e dizer: “Professor, trabalhar pra que, por que, se eu fizer programa, professor, dois programas que eu fizer eu tiro o dinheiro de um salário” e eu fiquei muito preocupado porque eu digo: “Meu Deus do céu, dois programas que você fizer você tira o dinheiro de um salário”, eu digo: “Meu Deus, o que eu vou dizer à essa pessoa?”, me veio uma ideia de dizer assim: “Você tem filhos?”, ela tinha uma filha, ela disse: “Eu tenho”, eu disse: “Você preferia que ela ganhasse um salário mínimo ralando, chegasse em casa tranquila, sem ter medo de nada, sem correr os riscos que a prostituição te coloca ou você queria que ela fosse ganhar muito dinheiro na prostituição?”, ela começou a chorar na mesma hora, para mim foi, eu digo, eu achei que eu acertei naquele momento, eu chamei ela para conversar e falei que a importância não é só o dinheiro, não, eu falei da importância da questão do caráter, da questão de você se dar valor. Porque se você não se der valor, quem vai te dar valor?

 

Eu lembro de um momento da minha vida, da minha infância, que ninguém, ninguém mesmo, queria brincar comigo, ter um relacionamento amigável comigo e tudo. E eu me senti tão um lixo, tão inferiorizado que para mim o meu amigo era a televisão porque a televisão não podia dizer aqueles apelidozinhos que me machucavam na época, então eu comecei a analisar: “Meu Deus do céu, é muito doloroso uma pessoa que tem uma visão dessa, que não se dá ao valor”, foi a partir do momento que eu me dei valor, que eu vi que o mundo é de acordo com a sua ótica, é de acordo como você vê esse mundo, eu acho que o primeiro passo é você se mostrar importante.

 

Nós trabalhávamos muito a questão da sexualidade também. De início foi complicado trabalhar a sexualidade com eles porque eles observavam essa questão do sexo, da sexualidade como aquela coisa que o mundo ensinou a eles, que a vida que eles vieram era, para uns era uma coisa horrível, para outras pessoas sexo era uma coisa tão normal que eu me assustei, seria uma coisa tão natural que poderia fazer como quem compra um “dindin” numa esquina, “dindin” é o geladinho que é pronto, era tão natural para eles. Para alguns, eu acredito que o tabu mais relativo a mim, porque para eu conversar com essas pessoas em relação a isso era complicado, até que um dia eu me vi à vontade de trabalhar isso com eles, mostrar que o sexo não era coisa feia e também não era uma coisa de se usar com irresponsabilidade, eu comecei a trabalhar isso com eles e daí eu também comecei a trabalhar com o tema família, sexualidade dentro da família, a visão de família.

 

Eu acredito que não tem só aqui abuso, é em todo o Brasil. De início, na maioria das vezes, acontece dentro da própria residência, dentro da própria casa, mas aqui vemos lugares como litoral, nas pontas de praia, nos lugares, eles vão para alguns bairros localizados à beira mar e são naqueles lugares em que eles fazem os programas, os pontos de encontro, aqui tem muitos bares que eles chamam de ponto de encontro, eles vão à esses bares e a fiscalização é quase inexistente, então eles ficam lá e encontram pessoas mais velhas que tem esse tipo de contrato com eles.

 

A questão da exploração sexual mesmo, o abuso, como eu disse, mais em casa, a maioria das vezes acontece na própria residência da pessoa e a questão da exploração são nesses pontos aqui no litoral, nos bares à beira mar, nas avenidas próximas às praias e também aqui no centro da cidade tem demais.

 

O início do trabalho foi complicado, teve alguns dias que eu cheguei em casa e chorei muito, eu digo, eu aprendi a ser um pouco forte, a ser forte por conta da minha história de vida e tudo, eu tive que ser forte porque se eu não fosse forte, eu acho que eu tinha parado por ali, eu tinha acabado tudo ali, deixado, o jeito que as pessoas diziam, como as pessoas me tratavam, e tudo, então através disso eu me senti muito forte, hoje eu me sinto uma pessoa muito forte, mas quando eu comecei a trabalhar com esses meninos eu tive um período complicado porque quando eu comecei a escutar algumas histórias, já ouvi história que o pai abusou, que o tio abusou, então aquilo ali eu ouvia e eu ficava muito triste, até porque eu tenho filhos e quando eu imaginava meus filhos naquela situação...

 

Outra questão que sempre encontramos são os  problemas com drogas, porque na verdade, principalmente as meninas e os meninos que vinham de prostituição, raramente eles não se drogam, porque muitas vezes o cliente pede, é uma das exigências do cliente é que eles se droguem, já vi várias vezes elas chegarem assim, dizer: “Ah, o cliente disse que para me pagar aquela quantia eu tinha que me drogar”, eu acredito que era para ver ela mais solta, não sei, eu sei que eles pediam para elas se drogarem, então a maioria das vezes temos esse público, sempre vem acompanhado, nunca vem uma coisa isolada assim, só exploração sexual, sempre vem uma coisa, uma junta da outra, a droga não tem como.

 

Trabalho a importância deles se verem como cidadão, porque essas pessoas são vistas como marginalizadas, vivem à margem da sociedade, eles não sabem, tanto que teve uma aula, eu fui falar assim: “Queridos, quando tomamos essa posição na vida de viver com drogas ou viver na prostituição, ficamos às margens da sociedade” e as meninas não sabiam o que era sociedade.

 

Eu trouxe primeiro a noção de sociedade para essas pessoas porque na verdade quando você vai conversar sobre sociedade com eles, eles não analisam a sociedade num contexto geral, para eles sociedade são aquelas pessoas que têm dinheiro, a elite mesmo, e nós temos que trazer a noção que eles fazem parte da sociedade, que a partir do momento que eles são cidadãos eles são vistos diferente, as pessoas vão analisar eles diferente, vão ser tratados diferente.

 

P/1 – E o que mudou em você, no Cleber, de trabalhar no ViraVida?

 

Ao trabalhar no ViraVida, mudou em mim a questão do preconceito. Você trabalhar com pessoas que muitas vezes são homossexuais, não era por conta da situação de homossexual, era porque, às vezes, eu dizia: “Como eu vou agir com essas pessoas?”, tinha aquela coisa de: “Ah, como eu vou agir?. E dentro do projeto eu comecei a analisar eles, comecei a ver essas pessoas como seres humanos. Hoje eu vejo o ser humano de uma forma, eu não vejo com gênero, homem, mulher. Eu vejo o ser humano, o humano mesmo, e ele merece ser amado, ter atenção, independente da sua situação sexual, independente do gênero sexual, da sexualidade, independente. Então hoje eu vejo assim, os meninos do projeto que são homossexuais, eu me dou muito com eles, eles são engraçados, às vezes me fazer rir, e hoje eu abraço eles e tudo, dou beijo na testa deles, muitas vezes: “O pai”, tratam assim como um pai e tudo, como um irmão, e hoje eu não vejo como diferente, eu acho que isso em mim mudou muito.

 

Eu acho que o meu papel como professor é de transformador, eu me vejo como uma pessoa que está aqui para contribuir com a transformação dessas pessoas, desses alunos, do pessoal que está no projeto, que está precisando, eu me vejo como transformador, às vezes eu digo a eles assim: “Eu sempre acreditei em anjo e quando trabalhamos num projeto desses é Deus dando a oportunidade se ser um pouquinho anjo”.

 

É uma responsabilidade muito grande, porque primeiro temos que dar exemplo, você não pode ser hipócrita, temos que dar exemplo, tem uma responsabilidade também em relação a você levar a coisa sem amedrontar, você também não frustrar as pessoas porque como formador de opinião você pode frustrar as pessoas com sobrecarga de informação ou trazer alguma coisa que não está dentro da visão cultural deles, então temos que ter muito cuidado para saber o nível das pessoas que estamos trabalhando e quando eu falo de nível, eu falo nível de cultura mesmo, a educação, nível intelectual, então tem que ir com cuidado, bastante cuidado, ajudando, mostrando sempre que somos iguais, somos seres humanos que precisamos ajudar uns aos outros para mudar, que eles são importantes. Então eu vejo o meu papel aqui como transformador mesmo.



"Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações."

 

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