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História

“Eu me sinto a mulher maravilha”

História de: Rosemeire Sodré da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/03/2022

Sinopse

Adoção e falecimento dos pais aos 7 anos. Período curto morando com a irmã mais velha e, depois, começou a morar em casa de amigas. Gravidez aos 18 anos. Nascimento de seus dois filhos. Mudança para Minas Gerais. Diferentes trabalhos, em um hospital, como empregada doméstica e como frentista. Processo de tornar-se motorista de caminhão. Inspiração e incentivo de outra motorista de caminhão. Viagens. Trabalho em dupla com o primo. Pandemia. Desafios e aprendizados na estrada. Realização profissional. Sonho em conhecer seu pai biológico.

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História completa

P/1 - Para começar, eu gostaria que você se apresentasse dizendo seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R - Eu me chamo Rosimeire Sodré da Costa, sou de Jacareí. Nasci no dia 09/08/1980.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais?

 

R - Eugênio Farias Sodré, e minha mãe Terezinha da Piedade Zaí. 

 

P/1 - E o que eles faziam, com o que trabalhavam?

 

R - Meu pai era corretor imobiliário. Minha mãe dona de casa mesmo, doméstica.

 

P/1 - E você sabe como eles se conheceram?

 

R - Não sei porque eu sou filha adotiva, quando eles me adotaram eu tive pouco tempo de vida com eles porque eles faleceram [quando] eu tinha sete anos de idade, então eu não consegui saber muito da vida deles. 

 

P/1 - E você conheceu os pais biológicos ou não? 

R - Conheci a minha mãe biológica, meu pai eu não conheço, sei que ele é de Minas, Caxambu, mas só tem o primeiro nome dele que é Jarbas, não tenho mais nenhum contato com ele, não tenho nenhum conhecimento.

 

P/1 - Rose como foi esse encontro com a sua mãe biológica?

 

R - Desde quando eles me adotaram que eu comecei a ter um entendimento, eles não esconderam de mim a adoção, eu cresci sabendo quem era a minha mãe biológica, morava até próximo, não tive muito contato porque quando a gente é criança a gente cria um bloqueio. Eu criei um bloqueio que eu tinha medo, medo da minha família biológica, mas os meus pais nunca fizeram nada para eu ter medo deles, eu que criei esse bloqueio eu acho. Eu tive muito contato com a minha mãe biológica depois que eu fiquei maior de idade, que eu já tinha meus filhos e que eu tinha uma casa, daí eu fui atrás da minha mãe. Com o tempo ela veio morar comigo, ela morava em Guararema, trabalhava em uma plantação de caqui e estava levando uma vida muito sofrida, eu peguei ela para ir morar comigo, eu morava em São José, ela foi morar comigo, eu trabalhava de doméstica em uma casa de família, em um sítio. Eu saí do meu serviço para ela ficar, eu tinha mais facilidade para arrumar emprego por causa da idade, ela já estava com 54 anos, eu saí do meu emprego e dei para ela, e essa minha patroa como era um sítio lá, ela precisava de um caseiro, e a minha mãe tinha um marido e eles foram morar no sítio, ele ficou trabalhando cuidando do sítio da casa da patroa.

 

P/1 - Isso já é mais velha?

 

R - Depois que eu era maior de idade.

 

P/1 - E seus pais? Que recordações você tem deles?

 

R - São boas recordações. Tive uma infância tranquila enquanto estava com eles, eu fui uma criança feliz durante o tempo que eles eram vivos.

 

P/1 - E como foi esse momento de perdê-los?

 

R - Perdi o chão, porque eles eram meu alicerce, e eu pequena precisei aprender a viver sem um pedaço de mim, sem meu chão. Mas eu consegui. E o pouco tempo que eu vivi com eles, eles me ensinaram a ser digna para que eu trabalhasse honesta, então aprendi em pouco tempo muita coisa com eles. 

 

P/1 - Como seguiu a vida, com sete anos você foi morar com quem?

 

R - Eu tinha uma irmã que era maior de idade, somos três filhas adotivas, três meninas. No caso eu, a Maristela e a Meire. A Meire já era maior de idade, casada e a gente ficou morando com ela, até a gente conseguir se estabilizar e cada uma seguir a sua vida, seu destino.

 

P/1 - Como foi esse período morando com as irmãs?

 

R - Bastante difícil, porque nada e nem ninguém é igual os pais da gente, eles toleram a gente fazer tudo, ensinam, ninguém tem uma tolerância igual os pais da gente tem, tudo que a gente faz de errado, os pais da gente sabe que é errado, mas está sempre ali ensinando, tem aquele carinho de falar com a gente, de corrigir, e com os irmãos, ainda mais eu que não era irmã legítima, foi bem complicado, muito difícil, porque eu fui morar com essa minha irmã e ela já era maior, a gente era menor, tinha sete anos de idade, na época, e eu não consegui ficar muito tempo morando com ela porque ela colocava eu para trabalhar dentro de casa, cuidar do filho dela, tinha o meu cunhado, por conta da gente ser menina, mulher, eu sempre fui grandona, começou ter meio que um assédio e para mim já não deu. Eu tive que sair da minha casa e ir para casa de amigas, morar para poder trabalhar na casa para poder comer e dormir, então foi bem complicado mesmo, essa minha infância foi bem turbulenta depois que eu perdi os meus pais. 

 

P/1 - E você ainda menina foi morar na casa de amigas, ou demorou um tempinho?

 

R - Não, já saí da casa dela e fui morar na casa de uma amiga minha que eu estudava junto na escola, eu contando para ela o que estava acontecendo, ela falou que ia conversar com a mãe dela, conversou e a mãe dela falou para eu morar lá com eles, eu fui.

 

P/1 - E como foi esse período para você? Que lembranças você tem dessa época?

 

R - Então foi um período que eu saí de casa criança ainda, mas eu já sabia lidar com a vida. Eu sabia lavar, passar, cozinhar, eu consegui me sair bem por conta do que eu aprendi bastante com essa minha irmã, e devido esses problemas que eu tive ela me ensinou muito, eu consegui aprender. Na casa das pessoas eu conseguia me sair bem, porque tudo que eu fazia eu fazia bem feito e eles gostavam, eu consegui ficar nessas casas por conta disso, porque eu sabia ajudar bastante.

 

P/1 - Rose você conheceu os seus avós?

 

R - Só a minha avó biológica. Dos meus pais que me criaram eu não sei, não tenho nenhum conhecimento da família deles, nada. 

 

P/1 - Me conta uma coisa, quando você pensa em casa de infância, que casa você se lembra? Qual seria a sua casa de infância que você se sentiu melhor acolhida?

 

R - Dos meus pais, quando eles eram vivos lá era uma casa muito grande. Meu pai tinha bastante casa de aluguel dos lados e lá era quase que uma chácara, tinha pomar, tinham várias árvores, tinha um pé de goiaba que a gente subia para apanhar goiaba, tinha uma represinha que ele fez de cimento, colocou lá uns peixes dentro, eu gostava de ficar lá e ficar cutucando os peixe com pauzinho, que eu era criança, eu lembro de tudo isso. Brincava de casinha, a inquilina do meu pai tinha uma filha, ela é minha melhor amiga até hoje, mora lá em Jacareí, a gente ia para casa dela, a mãe dela trabalhava o dia inteiro e ela ficava em casa sozinha. Aí chegava do colégio eu fazia o que tinha que fazer na casa da minha irmã - depois que meus pais morreram - eu já ia para a casa dela, ficava lá brincando de casinha o dia todo. Meus pais tinham um pé de limão, a gente fazia suco de limão, fazia geladinho. Então a casa de infância é a casa dos meus pais mesmo. 

 

P/1 - E que o que você mais gostava de fazer criança?

 

R - Brincar de casinha com a Ellen, minha amiga.

 

P/1 - E quando você se mudou para casa da sua irmã, era o mesmo bairro ou você mudou de bairro?

 

R - Mesmo bairro. 

 

P/1 - E como era esse bairro?

 

R - Era muito bom, bem próximo do colégio onde eu estudava, era um bairro tranquilo. A gente ficava até tarde na rua, não tinha perigo nenhum, super tranquilo, brincava sempre de pique-esconde na rua, era queimada. Hoje em dia ninguém nem vê mais isso, mas a gente juntava uma galerinha e brincava de queimada. Era muito bom.

 

P/1 - Rose, nessa época você pensava o que você queria ser quando crescesse?

 

R - Eu pensava em ser médica. Eu tenho um tio que sempre teve um caminhão, e quando ele chegava na casa da minha irmã… nossa, eu amava porque ele chegava e levava a gente para o comércio que tinha, a mercearia, e comprava tudo que a gente queria. Eu falava assim: “Meu tio é caminhoneiro, ele é rico”. Eu entrava, já ficava dentro do caminhão. Eu adorava, desde criança. Eu queria ser médica, mas eu não sabia desse amor pelo caminhão que eu sentia, era por conta de uma profissão que hoje eu ia me tornar uma carreteira.

 

P/1 - E que lembranças você tem da escola? 

R - Boas lembranças, que a gente faz bastante amizades. Eu tive bons professores, inclusive a maioria era tudo vizinho, eu tenho uma boa lembrança do colégio. 

 

P/1 - Teve algum professor que te marcou mais na escola, em específico?

 

R - A minha professora da primeira série, professora Helena, que a gente nunca esquece da professora do primeiro ano.

 

P/1 - Como ela era?

 

R - Super carinhosa, muito atenciosa. Os professores moravam todos próximos, então era aquele carinho tão grande que quando eu via ela na rua eu corria para poder abraçar e beijar de tanto que eu gostava dela.

 

P/1 - Você se formou nessa escola ou você mudou em algum momento?

 

R - Eu mudei.

 

P/1 - Com quantos anos?

 

R - Eu fiz até a quarta série lá. Eu creio que seja sete, oito, nove, dez anos, e como eu saí da casa da minha irmã e fui para outra casa, eu mudei de colégio. O nome do Colégio é Hermínia. 

 

P/1 - E quando você foi morar com essa sua amiga, como que era o seu dia a dia?

 

R - Eu acordava, ia para o colégio pela manhã com ela, nós voltávamos juntas, a mãe dela trabalhava fora e o pai dela também. A mãe dela era manicure e o pai dela trabalhava na Android Gutierrez. A gente se juntava para poder limpar a casa, dividir as tarefas diárias da casa. A comida que a mãe dela já deixava pronta, mas a questão de casa, louça, roupa era eu e ela que dividíamos as tarefas da casa.

 

P/1 - Rose, você se lembra como você se sentia nessa casa?

 

R - Eu me sentia confortável, mas nunca como na casa dos pais da gente. Eu nunca mais senti aquele conforto da casa dos meus pais, por mais que eles me dessem liberdade, mas eu não conseguia ter a liberdade que eu tinha na casa dos meus pais. 

 

P/1 - Quanto tempo você ficou com eles todos?

 

R - Eu fiquei uns cinco anos.

 

P/1 - E como foi esse período de mudança de escola, novas pessoas?

R - Tudo no início é meio complicado, porque é tudo novo, até você pegar, conseguir fazer novas amizades, se entrosar, é um pouco complicado. Mas eu consigo me sair porque eu sou uma pessoa muito comunicativa, então eu acabo interagindo rápido com as pessoas.

 

P/1 - Como era o dia a dia dessa casa que você morava com os pais da sua amiga?

 

R - A mãe dela Margareth era manicure, então ela ficava quase que o dia todo fora por conta da profissão, e o pai trabalhava na Android Gutierrez também o dia todo, então as divisões das tarefas da casa eram divididas entre eu e ela, nós duas combinávamos e fazíamos. A mãe dela achou até bom eu ter ido para lá que eu fiquei fazendo companhia para ela que ficava sozinha o dia todo, então foi tranquilo. Uma certa fase eu consegui ficar com uma pessoa que me ajudava e também estava ajudando… mas era uma rotina diária de uma casa como qualquer outra, porém era nós duas que dominávamos lá por conta que os pais estavam trabalhando.

 

P/1 - E você ficou nessa casa até quantos anos?

 

R - Até meus quinze anos.

 

P/1 - E depois, como que foi?

 

R - Eu fiquei bastante tempo lá, a gente vai mudando a cabeça, já conheci outras pessoas onde eu fui morar também. Falei: “Eu quero coisa diferente para mim, não está dando mais”. E tem coisas que acontecem que não agradam a gente. Fui ficando chateada, não tinha muito juízo, nova, tive outros conhecimentos e acabei saindo de lá para ir para outras casas, que era tudo igual a que eu estava, mas a gente não tem uma pessoa para poder ajudar a gente em relação a centrar, ficar quieta no lugar. Eu não tive isso, uma pessoa para me orientar. Eu tive ajuda, eu recebi deles lá, mas é igual eu te falei, não eram os meus pais. Eu fazia para ajudar, eles me ajudaram, mas era aquela coisa, eu arrumei outras amizades, chamaram para eu ir morar e eu fui porque eu queria ter outros conhecimentos, ver se era diferente ou não, mas não era, era tudo a mesma coisa. Eu tive que chegar, tive que trabalhar, tive que fazer as mesmas coisas que eu fazia lá. E por conta de não ser família a gente acaba se aborrecendo e era tudo igual. Todos os lugares que eu ia, passava, tinha problema. Toda família tem problema. Eu com dezesseis anos conheci o pai dos meus filhos, fiquei dos dezesseis até os dezenove morando com ele, a gente se conheceu através de uma equipe de vendedores de livros que estava em São José dos Campos, estava morando lá. Fui para São José, conheci ele, fiquei com ele morando e trabalhando. Fui representante da Editora Globo Livros por muitos anos, e a cada três meses a gente mudava de cidade, fazia apresentações em todos os colégios da cidade, tentava vender o produto que a gente trabalhava, atlas, dicionário, enciclopédias, a gente fazia divulgações em colégios. Passava entregando uma fichinha com o nome do aluno, endereço para gente ir na casa apresentar para os pais, porque não tinha muita tecnologia igual hoje, então eles precisavam muito das enciclopédias. Eu conheci o pai dos meus filhos, fiquei com ele, tive meus filhos com dezenove anos e daí por diante fui seguindo a minha vida assim. 

 

P/1 - E como foi começar a morar com um namorado?

 

R - Foi um refúgio que eu consegui, eu achava que ia construir uma família, estar com ele, ter minha casa e ia mudar a minha vida em relação a estar dependendo de pessoas estranhas que não seria nada da minha família. Aí eu falei: “Eu vou tentar com uma pessoa que eu gosto e que a gente vai montar uma família juntos”. E foi tudo gostoso, tudo bacana até um certo ponto. Eu tive meu filho. Com um ano de idade já estava grávida de novo, tive dois filhos, um atrás do outro. E foi muito bom, porque eu tive um, nem saí do trabalho de um já tive outro, então quando eu saí, eu já saí de uma vez, os dois já estavam grandes juntos. O trabalho que eu tinha que passar eu passei tudo de uma vez, foi bem precoce, mas foi bom. 

 

P/1 - E como foi se tornar mãe? O que a maternidade representou na sua vida?

 

R - Nossa, é um momento único, é uma dádiva que Deus me deu, foi um dos melhores momentos da minha vida. O que eu queria da minha infância, o que eu não tive, que foi os meus pais comigo, eu fiz tudo pelos meus filhos e faço até hoje. Então foi um momento muito importante, momento que eu descobri o que é ser mãe, mulher, porque é uma sensação única e para sempre na vida da gente os filhos. A maternidade me ensinou a ser o que eu sou hoje.

 

P/1 - Como foi sua primeira gravidez?

 

R - A gente não tinha planejado, mas era aquilo, não era nada que eu não queria também, porque tinham muitos meios de evitar e eu não evitei, só que não foi uma coisa assim: “Vamos fazer, eu quero, vamos se programar”, não. Aconteceu e quando fiquei sabendo, eu fiquei muito surpresa, muito feliz também. Minha primeira gravidez eu estava com meus dezoito para dezenove anos. Mas foi uma gravidez tranquila, eu estava com o pai dos meus filhos, e então a gente passou por aquela gestação juntos, passamos a gestação do meu primeiro filho juntos, foi tranquilo. Na época eu estava morando em Minas, Boa Esperança, quando eu tive meu primeiro filho. E eu morava no quintal junto com a minha cunhada, ela já era mãe, já tinha tido dois filhos, então ela me ajudou, e por mais que eu já sabia muitas coisas, ela sempre me acompanhou, me deu todo o suporte que eu precisei, ela me ajudou muito. 

 

P/1 - E na segunda gestação também foi sem querer ou foi mais planejado?

 

R - Eu tive um atrás do outro. Eu não tinha muita aquela coisa de falar: “Eu vou me proteger para não engravidar”. Fiz aquele negócio de tabelinha que eles ensinavam, porque eu tomava o anticoncepcional e passava mal, o homem não quer usar o preservativo, então eu fazia a tal da tabelinha. Todo mundo falava que não é nada seguro, e acabou que dessa tabelinha eu já engravidei logo em seguida quando eu estava com outro pequeno. Eu falei: “Meu Deus, como eu vou fazer? Eu não posso arrumar outro filho, porque eu sou nova” e eu não tinha estrutura nenhuma com ele. Eu fiquei pensando, foi quando a gente foi para Santo Antônio do Jacinto, Minas Gerais, lá no Vale do Jequitinhonha. A situação é precária, é muito difícil emprego, é tudo muito difícil, até para eu ter o meu filho eu tive que sair de lá e ir para uma outra cidade chamada Almenara, porque lá só tinha médico das sete da manhã às cinco da tarde. Das sete da manhã até uma hora mais ou menos tinha um doutor que atendia pelo SUS, um doutor só na cidade. E depois do meio-dia ele ia para a clínica particular dele. Dava cinco horas da tarde de segunda a sexta-feira ele ficava lá na cidade, chegava sexta-feira às cinco horas da tarde e ia embora para outra cidade que ele morava. E a cidade ficava sem médico, quem passava mal, o enfermeiro que tomava conta, se fosse uma coisa simples. Se fosse uma coisa grave tinha que arrumar um carro para sair para fora da cidade. E como eu estava gestante do meu segundo filho… o primeiro eu tive muita dificuldade na hora do parto, eu fiquei com medo. No meu parto eu comecei a ter normal o primeiro filho e tiveram que correr comigo, e eu fiz a cesárea, porque o cordão umbilical tinha enrolado no pescoço do neném, se tirasse por baixo ia morrer e estava saindo, foi aquela correria toda. Aí eu fiquei com aquilo na cabeça, eu tive que sair dessa cidade de Santo Antônio e ir para Almenara para casa de uma colega do meu marido que eu nem conhecia, fiquei lá na casa dela até eu ganhar neném, ela me tratou muito bem, ela é a mãe de todos ali, todo mundo que ia ganhar neném ia para casa dela. Ela cuidou muito bem de mim, me deu suporte na casa dela, então eu tive que sair, ficar na casa de uma pessoa estranha, mas ela me tratou muito bem. A minha segunda gravidez não foi planejada, mas também era de se esperar, porque eu não fazia por onde não engravidar, mas também foi tranquilo que eu tive o meu marido perto de mim, na época o pai dos meus filhos acompanhou minha gestação.

 

P/1 - Rose, qual você considera que foi seu primeiro trabalho?

 

R - Meu primeiro trabalho… Ah, meu primeiro trabalho acho que foi o que eu fichei, que eu considero. 

 

P/1 - Qual? Desculpa…

 

R - Eu trabalhei no [Hospital] São Francisco [de Assis], um hospital que tem lá em Jacareí. Eu trabalhei como auxiliar de cozinha. Só que na verdade, eu era auxiliar de cozinha, mas quando as meninas que serviam o quarto faltavam, chama copeira, eu ia de copeira, eu ia até no lactário para ajudar a fazer as dietas dos bebês, das pessoas idosas, então eu aprendi muitas outras coisas lá, mas eu fui fichada como auxiliar de cozinha. 

 

P/1 - Quantos anos você tinha quando você entrou nesse trabalho?

 

R - Eu acho que eu tava com 25, 26 anos, por aí.

 

P/1 - E que recordações você tem desse período? Teve alguma história de um dia marcante?

 

R - Várias, porque é um hospital. Ali eu trabalhava… mas no meu horário de almoço eu tirava para fazer as visitas, são muitos casos. Eu conheci um senhor lá na roça onde eu morei, em Jacareí, e ele estava com câncer, estava internado, ele não conseguia se alimentar, ele não conseguia comer nada, tudo que levava para ele, ele não comia, eu visitava ele, o nome dele era Nicanor, chamava ele de Seu Nicanor. “Seu Nicanor, tudo bem com o senhor?” Ele falava assim: “Eu estou bem, mas eu não estou conseguindo me alimentar, está tudo ardendo, queimando”. “E um picolé, o senhor quer um picolé?” Um dia ele falou: “Eu não sei”. Eu falei: “Vou trazer um picolé para o senhor”. Levei um picolé de limão, que é refrescante, geladinho. Aí ele não podia me ver, toda vez que ele me via ele já queria picolé, era a única coisa que ele gostava. Ele falava quando ele me via, eu já levava, eu sabia que ele queria ou de uva ou de limão, mas ele gostava mais de limão. No meu horário de almoço eu ia lá e já levava o picolé para ele de limão. São muitas histórias de vida que a gente aprende dentro do hospital, dar valor a vida, a gente acha que a vida da gente é ruim, é difícil, mas lá dentro a gente aprende a dar valor em um dia que a gente levanta, abre o olho, a gente fala: “Obrigado senhor, porque eu estou aqui com saúde e estou bem, estou viva”. São muitas histórias de vida que a gente aprende lá, a dar valor no ar que a gente respira. 

 

P/1 - Rose quanto tempo você ficou lá?

 

R - Onze meses só, porque por ser um hospital com muita infecção, muita bactéria e muita coisa, eu tenho a imunidade muito baixa, sou o tipo de pessoa que eu gostava de ir em tudo quanto é lugar que eu podia ir visitar, como eu tenho imunidade baixa pegava tudo quanto é doença. Nossa! Tudo que acontecia no hospital eu pegava. Eu peguei uma conjuntivite hemorrágica no olho, aquilo lacrimejava sangue no meu olho, eu quase fiquei cega. Fui em um médico, ele me passou antibiótico para colocar na vista, eu quase perdi, não era para eu ter colocado, era só para ter lavado. Aí eu decidi sair, pedi a conta, pedi para eles me mandar embora, porque eu estava ficando muito doente lá no hospital, muito doente mesmo, acabava de sarar de uma coisa e pegava outra. Eu falei: “Não, para mim deu”. Então fiquei onze meses só. 

 

P/1 - E depois para onde você foi?

 

R - Depois que eu saí de lá, fui trabalhar em casa de família mesmo, sem registro. Trabalhei em uma doceria que tinha lá, fui fazendo serviços autônomos.

 

P/1 - E seus filhos, eles iam para creche, eles ficavam com alguém?

 

R - Eles ficavam na creche para eu poder trabalhar em período integral, das sete às cinco.

 

P/1 - Rose, desses vários trabalhos, tem algum que você queira contar alguma coisa importante, de algum momento importante?

 

R - Teve uma família que me acolheu. Eu me envolvi com drogas, até então não tinha filhos, eu era solteira. Me envolvi com drogas e eu ia em uma igreja católica que tinha lá, eu conheci um rapaz que falou para mim: “Minha mãe adotou uma menina e ela precisa de uma pessoa para ajudar”. Ela já tinha seis filhos, tudo grande. Eu falei: “Eu vou”, só que como eu estava envolvida com droga, ele queria que morasse lá na casa com ele, e eu tinha um cômodo que eu tinha alugado, que eu ficava. Só que eu ficava lá e cá. Ele falou: “Não precisa ir lá mais não, vamos trazer as suas coisas para cá, você fica aqui”. Eu falei: “Está bom, então vamos”. Só que eu estava com drogas e eu tinha que entregar. O que eu fiz? Joguei tudo fora. E não contei nada pra ele. Quando eu estava lá lavando a frente da casa dele, passou a mulher que eu fui lá pegar a droga para vender, eu fui e contei: “Eu vou falar para você. Lembra aquela vez que vim para cá, eu estava com droga e joguei fora”. Estava em um valor hoje mais ou menos de R $1.000,00. Eu falei, e a mulher passou aqui na frente: “Ela está me procurando”. Ele falou: “Eu vou conversar com a mãe”. Ele conversou com a mãe dele, na época era ele, o Edson, a Isabel que trabalhava fora e a Rita, juntou todo mundo e me deram o valor e eu fui lá levar esse dinheiro. Fui lá levar com a noiva dele. Cheguei lá na mulher, bati, ela falou: “Entra aqui”, eu entrei. Ela falou: “O que aconteceu?” Eu menti, falei que a polícia invadiu minha casa e eu tive que jogar a droga fora. E ela falou: “Mas e aí, o que você veio fazer?” Eu falei: “Eu vim trazer o dinheiro”. Ela falou: “É bom mesmo, porque se alguém me falasse que você morreu, você me devendo, eu ia pagar um bom coveiro para desenterrar para eu ver se era você, porque se não fosse eu ia te buscar até no inferno, e eu já sabia onde você estava”. Eu falei: “Mas eu vim aqui trazer o dinheiro e eu estou tranquila, não quero mais mexer com essas coisas, eu estou tentando mudar de vida”. Ela falou: “E tem outra coisa, se a minha casa cair aqui vou atrás de você”. Ela ficou com medo de eu entregar. Falei: “Não, fica tranquila”. Graças a Deus não aconteceu nada. Então foi uma família que me abraçou, me ajudou, e em outros momentos da minha vida. Depois que eu tive meus filhos, continuei tendo contato, ela me trata como filha, os filhos dela me trata como irmãos, moram lá. Eu já tive outros problemas depois disso, não com drogas, eu me separei do meu marido, pai dos meus filhos, fui embora para casa dela de novo, levei os meus filhos. Falei para ela: “Dona Dirce, a senhora pode me ajudar?” Ela falou: “Posso, do que você precisa?” Eu falei: “Eu preciso que a senhora fique com os meus filhos, que eu preciso de ajuda, porque eu preciso me levantar, eu preciso me ajudar. A senhora me ajudando ficando com os meus filhos eu já consigo me levantar”. Ali eu fui trabalhando, conheci outra pessoa, fui morar na roça, essa pessoa falou para eu trazer os meus filhos, eu fui morar, fiquei muitos anos com essa pessoa, seis anos eu fiquei morando com ele.

Então, esta família me ajudou e me ajuda até hoje. Era impossível não falar disso porque é a minha segunda família, que realmente depois que meus pais faleceram, até hoje o que eu preciso eu procuro eles, tudo é com eles, tudo, então é impossível não falar deles.

 

P/1 - Rose, como você fez para se levantar?

 

R - Essa minha segunda família foi o meu porto seguro, me ajudou cuidando dos meus filhos para eu me levantar, me reerguer. Em qualquer momento da minha vida que eu precisar, eu acredito, eu tenho total certeza que eles estão sempre a minha disposição para me ajudar. A gente, o ser humano está disposto a acontecer muita coisa, ao mesmo tempo que você está bem, daqui a pouco você pode não estar. Hoje eu estou bem, estou estruturada, os meus filhos não moram comigo, mora eu e meu esposo, os meus filhos moram em Angra, eu moro aqui em Campinas, mas o que eu precisar eu tenho certeza que eu posso contar com eles, qualquer coisa que eu vá fazer, que eu preciso, eu conto com eles. Eles estão sempre me apoiando, e nessa força que eles sempre me dão é que eu consegui me reerguer e ser o que eu sou hoje, porque eu tive muitos momentos difíceis na minha vida, e eles sempre me apoiaram, nunca me abandonaram. Essa família foi a única. Eu nunca tive uma festa de aniversário, quando eu fui para lá no meu primeiro aniversário o marido dela me deu um conjunto de moletom e levou para mim seis horas da manhã na minha cama um cupcake e um copo de Nesquik, comprou assim, fez assim. Para mim aquilo foi muito marcante, porque eu nunca tive isso, nunca. Foi uma família que me abraçou, me respeitou, me acolheu, fez eu me tornar a mulher que eu sou hoje, eles foram muito importantes na minha vida. A opinião que eles davam, o carinho que eles me tratavam, eu achava que eu não podia magoar eles, porque eu tinha que mostrar para ele que eles eram a minha força, minha rocha, que tudo que eles faziam por mim eu tinha que fazer por onde merecer, eles me ajudaram, foram o meu equilíbrio. Hoje eu estou bem, estou feliz. Eu agradeço muito a eles, a família deles que me apoiaram, me apoia até hoje. Aí o Senhor faleceu, teve mal de Alzheimer, hoje a dona Dirce se encontra internada em estado grave de saúde, mas eu acredito que tudo é da vontade de Deus, porque ela sempre foi uma pessoa boa, acolheu não só eu, teve outras pessoas que ela ajudou, eu acredito que eu também não posso querer que ela fique com nós se for dela ir, porque é da vontade de Deus, não a minha. Eu queria muito que ela ficasse com a gente, mas ela está sofrendo muito, então está nas mãos de Deus. Eu acredito que ela tem um lugar muito bom lá no céu, porque ela já ajudou muitas pessoas, inclusive eu, minha família, meus filhos, eu sou muito feliz e muito grata a eles.

 

P/1 - Me conta desse seu aniversário, quantos anos você estava fazendo?

 

R - Esse meu aniversário, eu acho que eu estava fazendo dezesseis para dezessete anos, porque eu não tinha meus filhos. Eu tive meus filhos com dezoito para dezenove, mais ou menos nessa idade. Uma idade que eu estava bem rebelde, que era difícil lidar comigo, envolvida com droga, eu vivia solta no mundo. Eu não tive aquela coisa de ter carinho de pai, mãe: “Você não pode por conta disso”, não. Eu fui criada solta, eu não tinha muita maturidade, eu não tinha nada, não tinha carinho, não tinha afeto, o que eu fizesse estava bem feito. Quando eu conheci eles, eles me abraçaram, eu comecei a mudar, a me sentir uma outra pessoa, sentir que eu tinha uma família, eu comecei a me sentir assim, que eu tinha encontrado realmente uma família.

 

P/1 - Como surgiu o interesse em dirigir caminhões, como foi esse período?

 

R - Eu sempre tive vontade, mas por conta de eu ter meus filhos pequenos, de trabalhar, ter que cuidar deles, eu sempre soube que essa profissão você tem que abrir mão de muitas coisas, então por conta disso eu optei… eu nem pensava nisso, acho que por conta de escola, trabalho, filho, todas essas coisas, mas depois que os meus filhos se estruturaram, que foram embora para Angra dos Reis, eu comecei a perceber que eu tinha que tirar uma habilitação. Eu não tinha nem de carro, eu tirei de carro e moto, depois eu fui tirar a de ônibus, e acabei tirando a da carreta também. Sempre trabalhei de doméstica, essa profissão a gente acaba sendo muito humilhada. Eu me vejo hoje sendo uma dona de casa, eu não gosto que ninguém faça nada para mim, por mais que eu pague uma pessoa, mas não vai ficar do jeito que eu quero. Às vezes a gente tenta fazer o melhor para as pessoas, mas as pessoas não reconhecem isso, foi onde eu comecei a pensar: “Vou trabalhar dirigindo, onde eu não tenho que receber humilhação de ninguém. Eu vou passar por problemas que toda empresa tem, onde tem mais de uma pessoa você sempre tem um probleminha, que nunca nada é perfeito. Mas eu acreditava que ser motorista ia mudar a minha vida e eu estava fazendo o que eu realmente gostava, que eu gosto, aliás. Por não estar só em um lugar, eu gosto de estar em vários lugares, eu gosto de fazer novas amizades, eu não tenho problema com nada nem com ninguém. Se eu tiver que ficar, eu sei que essa profissão minha… às vezes eu vou chegar em um lugar que eu não vou ter um lugar para tomar um banho, então eu já carrego as minhas coisas para fazer uma higiene pessoal mais ou menos ali, mas eu sei que se eu tiver que ficar um dia sem tomar banho eu vou ter que ficar, para mim está tudo bem, se eu tiver um lugar para tomar banho melhor ainda. Então eu sei que a profissão exige muito da gente e também a gente passa por muita dificuldade, mas é o que eu realmente gosto. Queria fazer e estou fazendo, eu faço por amor à profissão. Foi um dos melhores empregos que eu já tive até hoje, por ser motorista, por conta de não estar parada, de não estar só em um lugar. Desde que eu tirei a minha habilitação, que eu consegui o meu primeiro emprego no truque, que eu descobri que realmente é isso que eu queria, que há mais tempo eu deveria estar na profissão, só que por eu ter filhos pequenos sempre foi adiado um pouco mais, mas eu estou feliz, eu estou bem, é realmente o que eu quero fazer, amo o que eu faço, ser motorista.

 

P/1 - Rose, nesse comecinho de carreira como motorista você teve incentivo, teve apoio?

 

R - Eu tive incentivo sim, meu marido que eu estou hoje. Eu não estou mais com o pai dos meus filhos, estou com outro esposo. Ele sempre me incentivou, me ajudou, nunca colocou empecilho em nada, mesmo sabendo que a gente, às vezes, ia ficar um pouco distante. E tive também de amigas, de colegas que eu conheci. Eu também trabalhei em posto de gasolina, eu abastecia, mas o meu coração quase saltava fora da boca quando eu via um caminhão. Geralmente o posto que eu trabalhava era meio difícil carreteira, era mais homem, até que um dia apareceu uma carreteira, a Sandrinha, apareceu me pedindo ajuda, porque ela ia pernoitar lá e precisava de um banheiro para tomar banho. Eu falei pra ela: “Olha, aqui o posto não suporta carretas para dormir, para pernoitar, mas eu vou conversar. Você coloca ali. Agora, para banho não tem suporte nenhum para você aqui, porque só tem um banheiro com sanitário, um vaso, não tem nada”. Ela falou: “Nossa, como eu vou fazer?” Conversou comigo, isso já eram dez horas da noite. Falei: “Daqui vinte minutos eu estou saindo”, era em São José dos Campos. Eu falei para ela: “Eu moro em Jacareí, na cidade do lado, se você quiser, você deixa a carreta aqui, vai ficar bem cuidada, você vai comigo para minha casa, lá você toma banho, a gente janta, você dorme, amanhã cedo eu trago você de volta”. Ela: “Jura, você vai fazer isso por mim?” Eu falei: “Claro que eu vou”. E meu maior incentivo foi ela, porque meu coração saltava pela boca de tanta felicidade em vê-la ali assim. Ela estava acho que era bitrem que fala, que são duas carretinha engatada no cavalo. Eu falava: “Gente do céu!” Nesse percurso de eu levá-la embora para a minha casa, ela falou: “Vai, você é capaz, você tem a categoria E e não está trabalhando ainda? Você vai conseguir”. Daquele dia em diante eu botei na minha cabeça: Eu vou conseguir. E eu estava trabalhando no posto de gasolina e comecei a jogar currículo em tudo quanto era lugar, até eu conseguir na transportadora Trans Daniel, que é de Pouso Alegre. Foi meu primeiro emprego de motorista de caminhão duque, eu fui para lá e fiz a entrevista, fiz o teste. O rapaz falou: “Você está aprovada, só que tem um problema, você mora em São Paulo, interior, e a gente não contrata”. Eu falei: “Eu estou vendo casa, eu estou vindo para cá”. Ele falou: “Mas você vai vir para cá? Como assim?” Falei: “Eu só estou dependendo desse serviço, se vocês realmente me contratarem eu já tenho casa para alugar aqui”. Não tinha nada, menina! Ele falou: “Então tudo bem, você vai ser contratada, já passou em tudo, o problema só era que você morava lá e para tirar folga não dá para você ficar aqui na empresa”. Eu falei: “Estou mudando para cá, estou até vendo casa para alugar”. “Então tudo bem, sem problema. Você volta na sua casa, semana que vem a gente dá o OK”. Eu falei: “Está bom”. Eu já saí de lá, fui procurando casa para alugar e meu marido trabalhava fora, viajava, fui procurando casa para alugar. No bairro onde eu pus vários currículos, eu deixei meu telefone, não consegui fechar nada e fui embora para casa triste, já estava de noite. Na outra semana uma mulher me ligou: “Oi Rosemeire, tudo bem?” Eu falei: “Tudo”. “Surgiu um apartamento aqui e eu queria saber se você ainda tem interesse?” Eu falei: “Tenho sim. Você tem foto para me mostrar?” Ela falou: “Não tem”. Eu falei: “Mas qual é o valor do aluguel?” Ela: “Setencentos”. Eu: “Está bom”. “Mas eu preciso de um cheque caução de dois meses”. “Tudo certo”, eu falei para ela. Fui lá, fiz o depósito para mulher, nem tinha visto o apartamento, aluguei um caminhão, desmontei minhas coisa tudo sozinha, não falei nada com meu marido, fiquei quietinha, já coloquei as coisa dentro do caminhão e fui embora para Pouso Alegre. Chegou lá a mulher falou: “Vagou outro, tem o de cima e tem o de baixo para você olhar”. Eu falei: “Está bom, eu estou a caminho”. Cheguei lá com a mudança, desci tudo do caminhão e coloquei em uma garagem enorme que tinha lá. Ela me mostrou a casa debaixo e a de cima e falou para eu escolher qual eu queria. Eu olhei, fiquei com dúvida, mas eu peguei a de cima. Lá vai eu subir tudinho aqueles trens, eu e Deus. Subi, lavei logo o apartamento rapidinho, lavei mais ou menos, mas estava limpinho. Eu lavei para tirar poeira, já chamei um montador de móveis, foi montar meu guarda-roupa para eu arrumar as roupas, fui fazer tudo no mesmo dia. Eu botei a casa toda em ordem. Quando foi meia noite não podia ficar fazendo barulho, porque o povo estava dormindo, eu ia só dobrando as roupas e arrumando, organizando o guarda-roupa tudinho, que eu já tinha arrumado a cozinha, tinha arrumado a sala. Quando foi meia-noite o meu marido me ligou: “O que você está fazendo acordada até uma hora dessa?” Eu falei: “Estava arrumando o guarda-roupa”. “Mas uma hora dessas? Você dorme cedo. Está acordada uma hora dessas?” Eu falei: “Na hora que você for vir embora para casa, seu novo endereço é esse aqui”. Ele: “Como assim? Você está doida?” Eu falei: “Eu arrumei o serviço lá na Trans Daniel e o cara falou que eu precisava mudar, então eu já arrumei a casa, já mudei, já estou aqui”. Ele: “Não acredito!” No dia que eu fui fazer o teste com uma outra motorista, ela foi para o Rio de Janeiro, era de noite, oito horas da noite eu passei o dia inteiro nervosa porque eu ligava para o meu marido e ele não atendia, eu falei com ele de manhã, quando foi mais tarde eu liguei e ele não atendia. Quando foi onze e meia eu liguei na empresa e falei: “Vocês falaram que meu marido estava lá para o lado de Alexânia, eu estou tentando ligar para ele e ele não me atende, pode olhar que ele foi sequestrado, ele foi roubado, alguma coisa”. Aí que a empresa foi ver e ele tinha sido roubado mesmo, tinha sido sequestrado, só que a empresa não falou nada para mim, eu fiquei o dia inteiro agoniada porque eu ligava, ligava, ligava ele não atendia. Eu liguei para outro amigo dele, o amigo dele já sabia que ele tinha sido roubado, mas não podia me contar também, ele ficou preso dezesseis horas no cativeiro. E eu nervosa porque o dia inteiro eu não conseguia falar com ele. Fui viajar de noite com a menina, quando foi meia noite a gente parou em um posto na divisa com o Rio, perto do posto fiscal para dormir. Porque no Rio a gente só pode entrar de manhã por conta de roubo. Eu fiquei nesse posto conversando com um amigo e com outro por telefone para ver se tinha notícias dele, ninguém falava nada, falava que estava tudo bem e lá não pegava telefone. Eu falei: “Não é, porque eu já fui viajar com ele e lá pega, está acontecendo alguma coisa e ninguém quer me falar, ninguém me falou nada”. Quando foi no outro dia, às seis horas da manhã que a gente acordou e fomos tomar café ele me ligou, quando eu atendi o telefone ele falou: “Vida, liga para o meu patrão e fala que eu estou na DF 190.” Ali eu fiquei surda. “Eu fui sequestrado, me liberaram agora”. Aquele surdo de nervoso foi tanto que eu não conseguia ouvir, eu pedi para menina, falei: “Pelo amor de Deus, fala aqui com ele que eu não estou escutando nada”, ela foi e ouviu o que estava acontecendo. Depois que foi cair minha ficha, ele falou para mim e contou certinho que tinha sido sequestrado. Quando ele voltou eu fui fazer teste com todo esse problema. Tinha sido sequestrado às onze e meia da manhã, pegaram ele em Brasília e levaram ele para um cativeiro, ele ficou dezesseis horas preso no cativeiro. Ele tem trauma, não quer saber mais de viagem de jeito nenhum. Ele quer saber de trabalhar igual ele está. Ele vai até o Rio e volta para Campinas. Todo dia ele está em casa, mas para viajar, ficar fora, ele não quer de jeito nenhum. Então, a profissão eu amo, eu gosto mesmo sabendo dos perigos que ela me oferece, não que eu não tenha medo, eu tenho medo, mas é aquilo, enquanto não me acontece nada, então eu estou bem, estou feliz, e eu acredito que não vá me acontecer nada, até agora eu estou muito feliz, eu estou bem, estou amando essa minha profissão. 

 

00:58:08

P/1 - Rose esse acontecimento não te paralisou?

 

R - De jeito nenhum. Eu entrei nessa empresa, ele veio embora para conhecer a casa nova que ele não conhecia. Ele falou para mim: “Eu vou arrumar um serviço de pedreiro, frentista, qualquer coisa, mas de motorista nunca mais”. Eu falei pra ele: “O que é isso? Você não pode parar não, você não gosta da profissão?” “Eu gosto, mas eu não quero”. Eu falei: “Pois você não vai ficar parado”. Eu entrei lá, com dois meses que eu estava lá, ele ficou em casa, eu arrumei um serviço para ele na mesma empresa que eu estava, ele começou a viajar de novo, meio que traumatizado, mas ele não ia para muito longe. Mande ele para qualquer lugar, mas não mande ele para Brasília que ele não vai ficar mais. Ele vai pro Rio de Janeiro, ele vai para qualquer lugar, mas para Brasília ele não vai mais não. E a rota que eu mais fazia era Brasília, mas ele nunca falou pra eu não ir porque é perigoso. “Eu estou indo para Brasília, vou fazer a entrega lá”. “Está bom, vai com Deus, Deus te acompanhe”. Nunca me colocou medo nem nada. Então ele ficou bem traumatizado mesmo. Ele saiu dessa empresa Trans Daniel, entrou em uma outra e dessa outra ele veio para essa. Porque quando eu fui mandada embora por conta da pandemia, eu vim para Campinas, porque eu consegui serviço aqui, mas eu tinha que mudar também. Falei: “Isso não é o problema”. Eu já estou aqui em Campinas, eu vim para Campinas, fechei o serviço lá com a menina, dei endereço que eu nem sabia, dei de uma outra colega minha, fui lá fiz tudo que tinha de fazer, já saí procurando casa e ele junto comigo, porque a gente estava morando em Pouso Alegre. Caiu em uma folga dele, eu falei: “Eu vou lá ver um serviço, vamos comigo?” Ele falou: “Vamos”. Chegou dentro da sala o rapaz falou, um dos donos: “Vocês são para entrevista, você é carreteiro, você que é do truque?” Ele falou: “Eu não, vim para entrevista não, só estou acompanhando ela”. “Pensei que você veio para a carreta”. Ele falou: “Não, mas está precisando para a carreta?” Ele falou: “Está”. Ele falou: “É porque eu estou trabalhando lá em Pouso Alegre, e se ela arrumar aqui para mim seria bom vir para cá também com ela”. Ele falou: “Então, está precisando de carreteiro”. Ele falou: “Então eu posso pedir conta?” Ele falou: “Pode”. Começou nós dois na mesma empresa. Eu no truque e ele na carreta. Viemos para cá, procuramos casa, mudamos e estamos aqui.

 

P/1 - Rose, me conta uma coisa, nessa primeira empresa tinham outras mulheres caminhoneiras?

 

R - Tinha sim, a Suelen e tinha a Mariana que eu fui fazer o teste com ela.

 

P/1 - E como funciona? Você sente apoio das mulheres? Você sentiu preconceito?

 

R - Sim, porque eu me sinto assim… quando eu chego em um lugar parece que a gente quer tomar o espaço dela, e na verdade não é, porque cada um tem seu brilho, a gente vai ali para trabalhar, não é para disputar espaço, não é para disputar nada, a gente quer somente trabalhar. Eu acho que nessa empresa que eu fui trabalhar eu não senti o apoio delas, não. Essa Suelen é youtuber, ela nunca falou um bom dia para mim, ela nunca conversou comigo na empresa. A Mariana já é diferente, eu fui fazer o teste com ela, a Mariana me apoiou, ela fez tudo para eu ficar na empresa, porque eu já tinha ganhado um sim pelos testes que eu fiz, pela entrevista que eu fiz, mas a resposta final ia ser da Mariana, então ela me ajudou, mas não são todas. A gente não sente o apoio das mulheres, parece que elas querem ser mais, ser melhores, e acham que aquele espaço é delas e que elas não podem dividir com ninguém. E não é dessa forma, a gente está para trabalhar, a gente está para ser reconhecida igual, não tem mais e nem menos, porque a gente está ali para trabalhar. É meio complicado você chegar em uma empresa que já tem mulheres, elas te olham assim. Os homens acolhem a gente melhor, falam porque homem é safado, não, não é, é porque eles acham bonito, eles vêem que ali as mulheres se sentem ameaçadas, e não é dessa forma que funciona. A gente não está para disputar o lugar delas, a gente está pra trabalhar. Eu acho que nós, mulheres, deveríamos ser mais unidas por conta de ser um trabalho no qual a gente já tem muito preconceito. A gente está começando, não é a maior quantidade de mulher, hoje, no transporte, mas pelo tempo que vai passando já tem muitas, só que não é a maior quantidade, é um serviço normal para homem. Fala “motorista”, você já vai normal. Quando eu chego em um lugar é muito legal, os homens me tratam bem. Hoje, as mulheres nas empresas que eu vou entregar vem me parabenizar, vem tirar foto, vem conversar, então é muito gostoso. Nossa, eu fico muito feliz mesmo, mas é o que eu falo, a gente não quer tomar o espaço de ninguém, a gente quer dividir o espaço com elas, mas as vezes elas se sentem ameaçadas, por conta disso cria ciúmes, parece que dá aquela insegurança nelas, mas ali por um tempo também, depois a gente passa a conhecer e vê que não é nada daquilo. A Mariana me apoiou, a outra lá não me fortaleceu nem me enfraqueceu em nada, porque eu conquistei o meu espaço ali.

 

P/1 - Rose você lembra da sua primeira experiência dirigindo, sua primeira viagem? Como você se sentiu?

 

R - Eu lembro sim. Foi muito bom, eu sozinha, juntou o medo, ansiedade, alegria, era uma mistura de sentimento ali que estava me causando uma explosão por dentro. Minha vontade era de gritar para todo mundo ouvir que eu estava feliz, que eu era uma mulher realizada. Foi um momento mágico e único, aquele que eu não esqueço. 

 

P/1 - E o que você costumava transportar?

 

R - Produtos da Unilever. Era produto de limpeza, muito sabão em pó, produtos de higiene pessoal, todos os produtos do Unilever. Lá a gente já era dedicado, carregava lá só Unilever. Carreguei também Cimed, que é remédio, Invicta que são os garrafões, garrafas térmicas, eram esses três itens que eu carregava, mas era Unilever mesmo. 

 

P/1 - E você viajava ou era sempre bate e volta?

 

R - Viajava, entregava o Brasil inteiro.

 

P/1 - Como você se sente sendo mulher, dirigindo sozinha nas estradas do país? Você se sente segura? Tem momentos de insegurança?

 

R - Eu me sinto segura e ao mesmo tempo insegura, porque devido às estradas serem perigosas, mas ao mesmo tempo as estradas que são pedagiadas são umas estradas boas, são um tapete, na verdade. E insegura por conta dos roubos, minha insegurança é isso por conta de roubos nas estradas. Mas eu vou para qualquer lugar sem medo, a minha insegurança só por conta de roubo, coisas assim, mas medo de sair, viajar, de dormir fora, de dormir no posto, se tiver que parar na estrada quebrada eu paro e durmo. Então eu não tenho problema com isso.

 

P/1 - Você já passou por alguma situação que você teve que pedir assistência, ajuda nas estradas?

 

R - Não, por incrível que pareça ainda não, tudo tranquilo. Durante esse tempo que eu comecei, já tem quatro anos que eu estou na profissão, já passei por momentos de caminhão quebrado na estrada, mas em relação a roubo, graças a Deus nada, nunca tive esse problema.

 

P/1 - Rose, de todas as suas viagens, dessas suas experiências, você se lembra de alguma situação inusitada, engraçada, curiosa na estrada, de algum dia que tenha te marcado de alguma forma?

 

R - Que me marcou tem as amizades que a gente faz que são várias, mas muito marcante não, tudo normal, tudo que acontece no dia a dia mesmo, nada muito marcante não.

 

P/1 - Você já enfrentou alguma dificuldade por ser mulher? Algum tipo de preconceito na estrada?

 

R - Tem vezes que a gente vai em lugares, empresas que não tem banheiro feminino, tem só o masculino, porque parece que eles acham que a gente nunca vai estar nessa profissão, às vezes não tem banheiro. Eu fui fazer teste em uma empresa há pouco tempo atrás e o cara falou que eu não sabia dirigir, são dois instrutores, o que eu fiz a entrevista foi um, mas no dia ele não pôde me atender que ele estava atendendo uma outra pessoa, e no dia que eu cheguei lá a mulher me falou: “Nossa, você pegou o pior instrutor, ele é machista, vieram cinco mulheres fazer teste, três ele mandou embora, só ficaram com duas”. Eu falei: “Seja o que Deus quiser”. Saí daqui de Campinas e fui para Curitiba fazer o teste lá, e ele simplesmente falou que eu estava reprovada, que eu não sabia dirigir, eu peguei o caminhão, sai com a carreta do lugar e engatei, andei na rodovia tudinho com ele, voltei, e ele não me aprovou. Mas ele não falou comigo, ele falou lá no RH, simplesmente falaram para mim: “Eu vou voltar a ligar para você. Você fica aguardando retorno”. Só que eu já sabia que ali ele já estava me dispensando, porque eles falaram que eu ia ficar quinze dias para fazer integração, já tinha levado roupa, tudo, eles mandam eu voltar, então eu já sabia que eu estava sendo reprovada ali. Eu perguntei para o rapaz: “O que aconteceu?” Ele falou: “Você não está apta porque você tem dificuldade para dirigir”. Fiquei nervosa, lógico, chateada, vim embora. Cheguei de Curitiba cinco horas da manhã, seis horas já estava indo para São Paulo, fui lá para Marone e fiz o teste, passei, tudo normal. Só não fui trabalhar na Marone porque ficava setenta dias fora de casa, eu não quis, mas eu fui lá, fiz o teste no mesmo dia. Eu falei: “Não é possível, esse cara é doido. Eu tenho que mostrar que eu não estou errada”. Eu tive que ir lá para fazer esse teste, fui lá, fiz entrevista, fiz o teste, passei tudo. Mandaram eu ir lá para assinar a carteira, eu só falei que eu não ia aceitar porque era muito tempo fora de casa, mas isso daí para mim não passa de machismo, o que ele fez comigo, porque eu não menti na entrevista, eu falei que eu não tinha muito tempo de carreta, que eu estava ali disposta a aprender com eles, mas que eu tinha uma noção, porque eu já tinha pegado carreta e eu já tinha viajado, mas que eu tinha algumas dificuldade em manobrar. Chega no cliente, tem que colocar na doca, eu sozinha não dou conta, mas se tiver uma pessoa para olhar, vai para lá, vem para cá, eu vou, eu falei com eles isso, não menti para ele, e ele simplesmente não me passou no teste. Eu acho que era um pouco de machismo isso daí, para mim não passou disso, porque em momento nenhum eu falei para ele que eu era a profissional, eu fui bem simples, humilde e objetiva. Já falei para ele: “Eu quero, eu consigo, e se vocês me der oportunidade eu posso”. Não me deram oportunidade, mas eu não desisti, porque eu saí de lá, fiz um outro teste, eu não fui porque eu não quis. Eu consegui em outra empresa, entrei e estou na luta, e hoje em dia o mercado de trabalho está muito aberto, está amplo, ainda mais quando se trata de uma motorista mulher, porque por mais que tenham os preconceitos, mas eles também tem um outro olhar. Mulher é mais atenciosa, mulher é caprichosa. A empresa que está disponível para dar uma oportunidade para mulher, ela sabe que ela não vai perder com isso, que vai estar sempre ganhando, porque a mulher é profissional no que faz, ela é mãe, ela é mulher, ela é tudo, advogada, é médica. Eu saí com um amigo meu, fui viajar, conheci ele, ele é de Blumenau, eu cheguei no lugar que ele já estava, a gente ficou se enturmando e eu me enturmo logo. Fomos para praia, nos divertimos, voltamos, fiz comida. Daqui a pouco ele ficou doente, eu fui na farmácia, falei: “Já que você não quer ir ao médico, então toma isso, toma aquilo”, fiz chá, dei para ele. Ele: “Não é que eu melhorei!” No outro dia ele já amanheceu melhor. “Não é que eu melhorei mesmo”. Ele falou: “Vocês, mulheres, são fogo mesmo, vocês são tudo, advogada, médica, de tudo um pouco”. Eu falei: “Pois é”. A empresa, quando olha para uma mulher para dar uma oportunidade… eu acho que hoje eles já estão com a mente mais aberta, mais ampla, que eles vêem que a gente é capaz, não que seja fácil, mas as empresas estão dando mais oportunidade para as mulheres hoje, que eram poucas, agora tem mais.

 

P/1 - Rose, qual foi o lugar que você mais gostou de visitar trabalhando?

 

R - São vários, eu fui para Bahia, adorei que eu fui para a praia. Eu fui para Belém, eu adorei que eu fui para praia. Eu fui para Patos de Minas, eu fiquei uma semana lá para eu descarregar que eu não conseguia, mas eu me senti em casa, porque lá o pessoal é muito hospitaleiro. Quando eles viram que era uma mulher que estava chegando, não tinha um posto de gasolina lá para eu ficar. Que eu pego no meio da rua, parada na rua, foi uma briga, todo dia uma queria que eu dormisse na casa. “Não, você vai dormir na minha casa hoje”, “Você vai comer na minha casa”, “Eu fiz almoço, estou te esperando”. Eu não sabia nem onde que eu ia comer de tanta briga. Foi um lugar que eu adorei, Patos de Minas, pessoal hospitaleiro, me trataram muito bem, lógico que eles não vão fazer isso com o motorista homem, porque a gente não sabe do coração de ninguém, nem do meu eles sabem, mas eu sou uma mulher, eles acham que é indefesa. Então quando elas viram que eu cheguei, eu parei. Lá é uma cidadezinha pequena, o pessoal na rua fica todo dia, de tardezinha na rua conversando, quando eu cheguei: “Olha, é uma mulher dirigindo! “Quando eu parei o caminhão, foi aquele monte lá me receber para conversar comigo. “Você quer água?” “Desce aí, vamos lá para casa”. “Você quer tomar um banho?” Eu falei: “Eu quero tomar um banho”, adoro tomar banho, foi muito bom. Eu adoro todas as viagens que eu faço, mas essa de Patos de Minas foi inesquecível, porque nunca vi um pessoal tratar a gente tão bem igual lá, queria voltar mais vezes, mas eu só fui uma vez para lá. 

 

P/1 - Rose, como você se sente sendo bem acolhida?

 

R - Você nem imagina, eu me sinto toda, toda, porque quem não gosta de ser bem tratada? De ser bem acolhida, de receber elogios? Porque onde eu chego as pessoas elogiam, pode ser óbvio, pode ser homem, pode ser mulher, eu me sinto muito bem, muito bem mesmo. 

 

P/1 - E para você, qual é a parte mais difícil de estar na estrada?

 

R - Eu nem digo que seja família, porque eu vou, mas eu volto. Eu acho que é mais difícil em relação a mecânica do caminhão, eu não conheço nada, então quando quebra, eu falo: “Aconteceu isso”, mas quando é um homem ele já sabe se virar melhor em relação a mecânica. Eu não, é isso que pega para mim, em relação a mecânica do caminhão. Mas em relação a família, a outras coisas eu não tenho problema. O que é mais difícil para mim é só a mecânica do caminhão, porque se o caminhão está bem eu vou até o fim do mundo com ele, se ele não está eu fico parada ali, acaba que eu fico nervosa, porque eu quero estar andando, eu quero estar fazendo entrega, se o caminhão quebra eu não sei o que é. Eu falo: “Parou, aconteceu isso”. O homem já sabe qual é o problema que deu. Então o que me pega mais em relação é só a mecânica do caminhão.

 

P/1 - E a parte mais legal?

 

R - É trabalhar e ganhar o dinheiro da gente, depois gastar. A parte mais legal é essa. Você pegar, sair, viajar, conhecer novas pessoas, fazer novas amizades, é bom demais. A gratificação maior é que chegou o dia do meu pagamento, agora eu vou pagar o que eu devo e gastar o resto. É muito bom. 

 

P/1 - E para você como é a sensação de voltar para casa em segurança e cheia de história para contar?

 

R - É ótimo a gente saber que a gente foi, realizou a entrega com sucesso, finalizou e voltou para casa. Então isso é muito bom, muito gratificante, mas eu gosto de ficar na estrada, não gosto de vir para casa, porque chega em casa… Eu cheguei ontem era meio-dia, cheguei já fiz almoço, eu estou com a minha enteada em casa que ela mora no Rio, mas tem uns quinze dias que ela está para cá, e ela não quer ir embora não. Mas vai começar as aulas, ela vai. Eu cheguei, fui fazer almoço, fui lavar a louça e nisso já coloquei roupa para bater, a casa de perna para o ar que fica aqui só ela. Ela come marmita, eu peço para entregar marmita para ela todo dia, ela não mexe com o fogão, mas às vezes ela quer dar uma de cozinheira, tem medo, mas aí ela faz as artes dela, bagunça lá. Eu falo: “Deixa - que eu prefiro que nem limpe, porque não vai ficar igual eu faço - deixa que quando eu chegar, só passar água e tirar o excesso da sujeira, coloca o detergente e deixa lá”. Eu já chego pensando: “Poxa…” Eu já vou tirando as roupas de cama, roupa de banho, já tiro tudo, lavo tudo. Ontem eu já fui tirando tudo para lavar, fiz o almoço, lavei as louças, deitei e dormi gostoso. Era umas três horas que eu deitei e dormi, fui acordar às oito horas da noite, ela ficou assistindo. Acordei, fui limpar dentro do guarda-roupa, ajeitei tudo, as roupas limpas no varal, hoje eu acordei cinco horas da manhã, fui levantando tudo, tirando o pó, joguei água na casa inteira, lavei tudo, fiz café da manhã, tomei, enquanto eu falei com você que eu ia tomar banho e me arrumar, você falou: “É só às dez horas”. Eu já fui descendo tudo, organizando tudo de novo, é maravilhoso a volta para casa, na estrada é bom, você não precisa ficar mexendo com a casa.

 

P/1 - Você trabalha de todo jeito, seja na estrada ou em casa.

 

R - Exatamente. Mas é muito maravilhoso você saber que você saiu para trabalhar e você voltou para casa. Porque tem muitos que vão e não voltam, é muito triste isso.

 

P/1 - E nessa empresa que você trabalha hoje, tem outras mulheres também ou não muito? 

 

R - Eu comecei nesta empresa recentemente e tem uma mulher lá, porque nessa empresa que eu estou trabalhando, estou trabalhando de dupla e lá trabalham casais. Como meu marido já estava trabalhando, eu estou com o meu primo, lá tem uma mulher com marido, e começou agora isso, essa empresa que eu estou agora tem essa daí. Tem dez dias que eu estou nela, mas eu estou gostando, só faço Recife agora, são cinco dias para ir, cinco dias para voltar, eu volto e venho para casa. Eu cheguei ontem, eu vou pegar só quinta-feira e amanhã, no caso, meia noite, carrego lá, passo no posto, abasteço, Recife.

P/1 - E o que é o que que você transporta?

 

R - Eu estou trabalhando na Sedex, então é de tudo, não sei te dizer especificamente o que é.

 

P/1 - Rose, como é essa questão de dupla jornada da mulher? Acho que você já estava falando um pouco de voltar para casa, ter que organizar tudo. E com os filhos também, eles já estão criados?

 

R - Ontem meu filho ligou. “Oi mãe, tudo bem? Que dia que a senhora vai estar em casa, porque eu quero ver se a senhora, parece que a senhora esqueceu da gente”. Falei: “Não esqueci de vocês, só que eu tenho que trabalhar”. O dia que eu estou em casa, que é dia de semana, eles não podem vir, estão trabalhando também, e final de semana não está coincidindo. Eu falei para ele: “Agora eu vou ter que ver na minha escala de trabalho quando vai cair em um final de semana para eu falar para vocês”. O meu marido faz lá o Rio, aí eles vêm com o meu marido, depois volta. Eu falei para ele: “A hora que eu estiver em casa eu aviso vocês, daí vocês vem na sexta, passa o sábado e domingo comigo e volta na segunda com o Tiago”, que é meu marido, ele volta na verdade no domingo à tarde. Ele falou: “Parece que a senhora esqueceu da gente”. Eu falei: “Nunca vou esquecer de vocês, mas eu estou em uma luta”, porque esse agora que eu comecei é bem cansativo, não dá tempo nem para respirar, é pauleira mesmo. Eu trabalho, eu viajo o dia todo, meu primo dirige a noite toda, é assim, o caminhão não para, são 24 horas por 48 rodando. Quando amanhece o dia que ele já terminou a jornada dele, eu já pego, a gente para, tem o horário de almoço tudo certinho, para, almoça, toma banho e volta, se tiver que parar, ir ao banheiro, acontecer qualquer coisa você pode ir, mas para você dar conta, quantos menos paradas você fizer é melhor. Eu falo para ele: “Vamos tomar banho, comer, tomar banho para a gente acelerar”. Quando é ele que vai pegar de tarde, o que eu faço? A gente já para no posto, come, toma banho, eu vou dormir e ele vai dirigir, mas eu falo para ele: “Wallace é pior do que eu, que sou mulher, toda hora quer ir ao banheiro”. Ele vai tomar banho, demora um ano, ele volta para o caminhão, passa creme, passa isso, passa aquilo. Ele falou assim: “Deixa eu cuidar da minha beleza”. É pior que mulher, passa creme, é creme para isso, creme para aquilo, a necessaire dele, sabonete líquido para o rosto, sabonete esfoliante, nem eu que sou mulher tenho essas coisas. “Mas eu não tenho culpa de você não ser vaidosa”. Eu falei: “Realmente”.

 

P/1 - Vocês dormem no caminhão então?

 

R - Enquanto ele dorme de dia eu estou dirigindo, quando é a noite que eu vou dormir ele está dirigindo. Mas eu falo para ele: “Wallace, você é muito empolgado”, porque quando ele vai deitar e dormir, eu abaixo o som, quando sou eu, eu até desligo, para ele ficar quietinho, dormir e relaxar. Quando eu estou dormindo à noite, que ele fica relaxado, cansado, com sono, ele liga o ar condicionado, abre a janela, liga o som alto, aí eu acordo e sento, olho para a cara dele, a gente começa a conversar. Eu falo: “Wallace, não tem vergonha não de me acordar?” Ele me acorda e fala assim: “Eu não te acordei, em nenhum momento eu te chamei”. “Não precisa nem chamar, você liga o ar condicionado gelado, vidro, o trem começa a ventar a cortina, balançar tudo lá dentro”. Ele falou: “Não, é que eu queria conversar um pouquinho”. Quando sou eu, viajo o dia todinho sozinha, eu e Deus conversando, eu e meus botões, e ele dormindo, mas o homem é mais carente. Ele já é motorista há muitos anos. Ele falou: “Prima, esse tempo todinho que eu trabalhei na estrada para mim essa está sendo a melhor experiência da minha vida, porque além da gente estar trabalhando junto, você fica mais tempo sozinha porque você faz companhia para mim, eu quase não consigo conversar com você, mas você cuida de mim”. Ele mora aqui comigo agora que a gente conseguiu fazer a dupla, ele está comigo aqui no outro quarto, está morando. Eu lavo a roupa dele, eu cozinho para ele, então ele falou assim: “Você é minha prima, minha mãe, minha esposa, você é minha tudo”. Eu falei: “Aí meu Deus do céu”, porque os outros já pensam que a gente é marido e mulher na estrada, porque estão os dois, chega: “Nossa, que legal o casal”. Deixamos eles iludidos. Ele falou: “Você é minha mulher na estrada, minha mãe em casa, minha prima, minha amiga, minha confidente, você é tudo”, ele fala que eu sou o fechamento.

 

P/1 - Rose, como você conheceu o seu marido?

 

R - Quando eu fui embora para Angra, que meu filho foi morar com o pai dele, ele tinha quatorze anos, eu não aguentei ficar longe e fui para Angra, aluguei uma casa lá e fui trabalhar lá, ele ficou com o pai dele, ele engravidou uma menina lá em Barra Mansa, em outra cidade, eu fui lá conversar com a menina, eu fui saber a menina que estava grávida de quase cinco meses. Eu fui conversar com a menina, eu e meu filho Luan, mais novo. Eu fui conversar com os pais dela, e eu tinha que trabalhar, eu trabalhava lá. E nessa cidade, lá em Barra Mansa, tinha ônibus de hora em hora, eu tinha que pegar o ônibus das cinco para poder chegar às nove para trabalhar, e eu perdi o único ônibus que tinha na parte da manhã, eu fiquei lá em frente ao terminal rodoviário que era uma BR, em uma cidade pequenininha que chamava ____, eu peguei o ônibus de Barra Mansa para ____, e fiquei porque era o único caminho para passar para Angra dos Reis. “Eu vou pegar uma carona ali para eu ir embora, que senão eu vou perder meu dia de serviço e eu estou lascada”, eu dependia para pagar aluguel, água, luz, tudo. Eu falei: “Eu não posso perder”. E essa minha patroa estava com o marido com câncer em estado terminal, ela dependia muito de mim, então se acontecesse qualquer coisa de eu não ir, ela pedia para eu avisar com antecedência e ela ia procurar alguém para ajudar naquele dia, e eu fui tranquila, falei: “Vai dar tempo” e eu fiquei pensando… porque agora eu perdi o ônibus, fui pegar uma carona. Olha, para você ver que destino, o meu marido ia passando no caminhãozinho 3/4 que ele fazia entrega em Angra dos Reis, e ele me deu uma carona, eu e meu filho, me levou até Angra, a gente conversa vai, conversa vem, uma colega minha - era SMS ainda que mandava, antigamente - ela foi e mandou uma mensagem muito engraçada. “Manda para mim”, ele falou. Eu falei: “Está bom, mando”, “passa seu numero”, passei o número, mas já foi um meio dele pegar o meu número. Passei o número para ele ali, a gente começou a conversar. Ele tinha quinze dias de separado, ele contou a história dele para mim, só que ele já estava com uma outra mulher, ele tinha a filhinha dele, tinha dois anos de idade, começamos conversar. E ele toda semana ia para Angra fazer entrega lá. A gente ficou amigo, ele começou a frequentar a minha casa, e como eu sabia que lá onde ele ficava, o caminhão era pequeno, ele é o ajudante, eu falei para ele: “Se você precisar de um banho, de repente comer, pode vir aqui em casa”. Começamos a conversar, um dia ele foi tomar banho, voltou para o caminhão. Outro dia ele me chamou para tomar um açaí com meus filhos, levou, tomamos açaí, sempre assim, só que toda semana ele estava na minha casa, a gente começou a ficar, ficar, ficar, e estamos até hoje. Casamos e tudo. Eu conheci ele através de uma carona. Ele trabalhava no caminhão pequeno, ele falava para mim que o sonho dele era trabalhar em um caminhão maior, em um truque, que era um toco o que ele trabalhava, quando a gente se conheceu. Ele foi crescendo profissionalmente… que eu falo… porque ele falava para mim… ele saiu de uma empresa, ele falou para mim: “Nossa, eu queria tanto tirar minha categoria E, porque era o meu sonho ir para carreta, mas pelo meu acerto não vai dar para eu pagar as contas e tirar a carteira”. Eu falei para ele: “Atrasa as contas, paga juros, vai lá e tira sua carteira que você vai conseguir, você vai trabalhar, vai ganhar mais para pagar as contas que estão atrasadas”. Ele fala para mim: “Nossa, eu não pensava dessa forma, eu pensava em pagar as contas e ficar sem a carteira, mas se eu tivesse feito o que eu pensei, hoje eu não ia ter minha carteira e ia ter pagado as contas, mas eu atrasei as contas, tirei minha carteira, consegui um bom emprego, paguei as contas e estou com a minha carteira”. Eu falei: “Está vendo?”. Eu já trabalhava também, e o pouco que eu tinha também ia ajudar a pagar as contas, mas era um pouco, e deu certo o que eu falei para ele, então ele fala que é muito bom a gente conversar e entrar em um acordo, porque ele também falou que tinha medo de dever, as contas atrasar e iam ficar depois falando para ele. “Está vendo? Você foi tirar habilitação, as contas estão atrasadas. E aí como é que faz?” Mas graças a Deus deu tudo certo. Ele tirou a habilitação, realizou o sonho dele ser carreteiro também, de viajar, de ganhar melhor. Só que infelizmente hoje a categoria não está compensando mais, ele trocou categoria porque ia ganhar mais. Hoje em dia eu tenho a E, mas se eu arrumar um serviço na D eu volto para D, que a D está ganhando a mesma coisa, até melhor, às vezes. Hoje o meu pensamento seria diferente, porque eu vivo disso, eu trabalho nisso, então eu estou sabendo como está funcionando, e quando eu não estava… e ele falou para mim que ganhava melhor, que realmente ganha melhor, tanto é que ele trocou, pagou as contas atrasadas e ainda sobrou dinheiro. Hoje em dia não dá mais para isso, a categoria E, hoje, infelizmente está defasada. A gente tem um sonho, a gente gosta, eu não sei para homem a categoria E normal, mas pra gente que é mulher a categoria E é um sonho, porque eu pensava: “Será que eu dou conta de dirigir essa carreira desse tamanho?” Hoje eu vejo que eu dou conta, meu primo, minha família, mais os primos trabalham no transporte, trabalham já na carreta, tem um tio, tem um primo, tudo que é voltado ao transporte, trabalham assim, eu tenho um outro primo que está no rodotrens nove eixos, ele me ligou ontem. “Prima você está bem aí? Se você não estiver bem”, ele mandou o patrão dele falar comigo. O patrão dele mandou mensagem para mim: “O seu primo fala muito bem de você, eu estou com um nove eixos aqui, estou indo buscar o cavalo zerado para você, você quer?” Eu falei: “Não quero”. Ele falou: “Se você quiser, a hora que você quiser, você me liga”. Então, a carreta é grande, o nove eixos é o dobro, são duas carretas em um cavalo, eu sei que eu dou conta, mas agora eu não quero, mais para frente, em uma próxima entrevista, você vai ver eu falar: “Estou no nove eixos, eu estou no rodotrem, no trem”.

 

P/1 - Rose, como a pandemia afetou a sua vida, a sua rotina? Pensando profissionalmente e pessoalmente também.

 

R - A pandemia fez com que eu fosse mandada embora da Trans Daniel, fracassou, a empresa achou que não ia conseguir, porque no início deu uma abalada bem geral, mandou vários funcionários embora, como eu fui uma delas que fui mandada embora… mas foi bom, porque eu consegui sair de lá, consegui outro emprego, eu estava só no truque, eu consegui passar também para a carreta, realizar o meu sonho que era ser carreteira, eu fui, consegui. Então, por conta da pandemia eu saí de uma empresa, vim para outra e hoje eu estou onde eu estou, mas afetou não só a mim como todas as famílias, teve muita perda, muitas pessoas morreram, perda de trabalho, perda de família, dos parentes. Me afetou nessa parte, até da gente estar se comunicando com as pessoas. Agora está mais tranquilo, mas foi muito difícil. Tiveram pessoas que não quiseram chegar perto da gente por conta dele estar tendo aquele cuidado todo, que eu entendo, mas afetou muitas famílias nessa pandemia. Tiveram aqueles reajustes de salário, “vou abaixar o seu salário por conta da pandemia, que eu não estou tendo lucro, então para eu não te mandar você embora, você vai trabalhar por tanto”, você teve que acabar acatando o que tinha que ser feito, ou você ficava desempregado, ou você ficava recebendo aquela quantia que eles te estipularam. Afetou muito, muitas, muitas famílias. Desestruturou muitas empresas, foi bem difícil, agora está melhor um pouco.

 

P/1 - Rose, pensando desde o comecinho da sua trajetória profissional como motorista, quais foram os maiores aprendizados que você tira da sua trajetória profissional?

 

R - Humildade, a gente tem que ser humilde em todos momentos, independente da classe, da profissão. Mas essa minha profissão, eu aprendi que a gente… quanto mais humilde a gente é, mais a gente consegue, porque são lugares que você não conhece, pessoas que você não conhece, então você está no meio de muitas pessoas boas, pessoas ruins, maldosas, então você tem que estar sempre humilde, pedindo, o que você fizer com mais humildade você consegue e mais quantidade na estrada em geral. Mas na estrada eu acho que é melhor, porque eu, por exemplo, se eu chegar, voltado ao transporte, vou chegar em uma empresa para estacionar, eu chego lá tenho dificuldade na manobra. Eu paro o caminhão do jeito que eu estou, em um lugar seguro que não vai atrapalhar ninguém, ligo meu alerta, desço, converso: “Oi, tudo bom? Tudo, você me ajuda a colocar ali na doca, olha para mim porque eu estou com um pouco de dificuldade?” “Beleza”. Eu vou encontrar um monte de gente para me ajudar. Se eu chegar e quiser colocar lá na doca sem pedir ajuda, eles acham assim: Não precisa da minha ajuda, então não me pediu, eu não vou ajudar. Aí eu vou quebrar a minha cara lá. Se você desce, você é humilde, pede, a gente consegue muito. Eu aprendi em primeiro lugar a ser bem, humilde eu sempre fui, mas aprendi mais, a gente aprende que não tem tempo ruim com a gente, e que tudo que a gente passa ali na estrada serve de aprendizado, de ruim é só por um aprendizado mesmo, para o outro dia ser melhor para você não deixar acontecer o um erro que você fez não acontecer no outro dia. A estrada ensina muito, a gente passa por muitos momentos bons, marcantes, felizes, mas passa por muitos momentos tristes. Eu passo por vários acidentes onde o motorista veio a óbito, a primeira coisa que eu penso: “Será que um dia vai ser eu que vou estar nessa situação?” Ali a gente pensa. Eu vindo lá do Recife, um caminhão de perdureiro tombou lá na serra de Belo Horizonte, você via que o cara estava morto lá dentro da cabine, porque ele tombou, e além dele ter tombado, ele tombou e virou sentido contrário, nós estamos aqui e ele virado para cá, foi uma batida muito grave, moeu a frente, despedaçou tudo, e aquilo te deixa abalado o dia inteiro, porque eu passo eu já penso: “Será que um dia vai ser eu? E o pai daquela pessoa que estava lá, e o filho dele que estava lá esperando ele voltar?

E a esposa dele?” A gente sabe que a gente sai, mas a gente não sabe se a gente volta, e o dia de amanhã só a Deus pertence. A gente tem que fazer de tudo para ser o mais humilde possível na estrada, porque a nossa família está em casa esperando a gente, mas a gente acaba criando uma outra família que são os colegas que orientam, que ajudam, a nossa família da estrada, então a gente tem que aprender a ser humilde, a gente tem que aprender que nem tudo vai sair do jeito que a gente quer, mas a gente tem que agradecer, porque a gente aprende com Deus. Isso foi um dos maiores ensinamentos que a estrada me ensinou, me ajudou, e a cada dia que passa a gente vai se aperfeiçoando mais.

 

P/1 - Como é pra você ser uma mulher, dirigir caminhão, trabalhar em uma área que historicamente, culturalmente costumava ser realizada só por homens, e se perceber capaz, se perceber conquistando tudo isso, conseguindo realizar seu sonho, que você nem sabia que queria quando era pequena, como é para você isso?

 

R - Eu me sinto a mulher maravilha. Eu me sinto honrada, nossa, eu me sinto muito capaz, muito feliz. Eu tenho orgulho de mim, eu sinto orgulho da pessoa que eu me tornei, da motorista que eu sou, da mulher que eu sou, eu me sinto uma guerreira, eu me sinto, E as pessoas me fazem sentir assim, porque elas vem até mim, me fazem elogios e me falam o que eu falei: “Você é uma guerreira, parabéns.” Isso aí me deixa radiante de alegria. Aí eu me sinto a mulher maravilha.

 

P/1 - Rose, quais são os seus maiores sonhos?

R - Meu maior sonho é ficar rica, ter muita saúde para gozar dessa riqueza, porque eu já sou uma mãe e já realizei bastante sonhos, que era ser mãe, que era ter filhos, os filhos bons que me fizeram sentir que eu fui uma boa mãe, então eu realizei esse sonho. Ser motorista eu já realizei, então eu peço só para Deus me dar muitos anos de vida, saúde e o dia que eu ficar rica para eu gozar dessa riqueza toda, porque eu já realizei bastante sonho, agora no momento é só curtir mesmo.

 

P/1 - Rose, a gente está encaminhando para o fim, mas antes queria te perguntar se você gostaria de acrescentar alguma coisa, contar de alguma passagem que eu não tenha te perguntado, ou deixar alguma mensagem. 

 

R - Do sonho que você falou, eu também queria realizar um outro sonho que fica quase impossível, que é conhecer meu pai, que eu não conheço. É quase impossível, porque eu já fui atrás dele, eu já procurei, mas eu só sei o primeiro nome dele, Jarbas, e que ele morava em Caxambu, ele é de Caxambu. A história dele com a minha mãe eu não consegui saber, eu sei que ele foi morar em Jacareí, que ele trabalhou muitos anos em uma churrascaria gaúcha romana, eu fui lá conversei com o dono, o dono falou: Pela época que você está falando eu tenho o relatório dos funcionários, só que era tudo escrito e está tudo dentro de um quartinho lá e eu tenho que ter muito tempo para ver isso, eu não tenho agora, se você puder voltar um dia”. Eu falei para ele: “Está bom, mas esse um dia é quanto tempo mais ou menos?” Ele falou: “Olha, como você está me falando agora eu vou ver se daqui uns dois meses eu consigo ver isso para você. Você volta daqui dois meses?” Eu falei: “Volto”. Quando eu voltei lá ele tinha falecido, o dono da churrascaria, e ele era o único que me apoiou, porque os outros não quiseram nem saber da minha história. E ele faleceu e hoje em dia nem existe mais essa churrascaria lá em Jacareí. Então meu pai era garçom ali, ele é de Caxambu. É o único sonho que eu acho que é quase impossível de ser realizado, por ter poucas informações. Era só o que complementava a história da minha vida, seria isso. 

 

P/1 - E você gostaria de deixar alguma mensagem para possíveis outras mulheres, incentivar ou não?

R - Para nunca desistir dos sonhos, porque nunca é tarde, e quando a gente quer a gente consegue alcançar, só basta a gente ter um pouco de força de vontade, porque a gente consegue, a gente é capaz, a gente é muito mais capaz do que a gente imagina. Então nunca desista do seu sonho.

 

P/1 - Rose, queria te perguntar, qual é a sua primeira memória da vida? Primeira lembrança que você tem?

 

R - Da vida, da vida? Como assim?

 

P/1 - Não sei, tentar buscar uma primeira lembrança de infância, bem pequenininha, sua primeira lembrança da vida.

 

R - Eu lembro, eu pequenininha eu lembro só de quando eu estudava no prézinho, que eu era pequena, eu lembro só eu menor, para eu buscar lá no fundo, você falou, só lembrei de eu pequena no prézinho.

 

P/1 - E como foi para você ter contado um pouquinho, dividido com a gente um pouco da sua história, compartilhar e lembrar, desde essa menina pequenininha até hoje, tudo que conquistou, tudo que ainda vai conquistar, como foi para você?

 

R - Foi muito bom, foi maravilhoso, foi uma volta ao passado, o túnel do tempo, foi interessante. Porque igual você falou, eu voltei lá atrás, eu revivi aqueles momentos, eu me emocionei, eu passei um pouco da minha vida para vocês, eu contei, foi o túnel do tempo, foi muito bom reviver esse momento. 

 

P/1 - Te agradeço demais, demais, demais por ter participado, por ter topado, por estar disponível em contar um pouquinho. Eu acho que é isso mesmo, voltar um pouco no passado para dar força para gente continuar no futuro. Então te agradeço demais, de coração. Assim que estiver tudo pronto e muito lindo a gente vai te enviar. Isso vai ficar um registro para você, para sua família, espero que te traga boas recordações, volte para momentos importantes. E quero te agradecer demais! Foi muito gostoso passar essa manhã com você. E você contando, a gente vai imaginando na cabeça junto, acompanhando. É muito gostoso. Muito obrigada!

 

R - Obrigada, eu que agradeço, fiquei muito feliz por contar um pouquinho da minha história para vocês, passar aí, tudo que eu falei foi uma coisa positiva, de verdade. Obrigada vocês por ouvirem minha história, e que vocês ouçam histórias melhores que a minha, emocionante, e que vocês passem manhãs maravilhosas com outros motoristas carreteiros. Eu desejo do fundo do meu coração!

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