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História

Eu já contei essa história pra muita gente

História de: Luiz Firmino de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Luiz Firmino de Souza nasceu em Tauá, Ceará, em 1933. Criado em Crateús, partiu para Fortaleza e depois para outras cidades do sertão do Ceará. Aos 26 anos veio para a região de Brasília, onde prestou serviço um tempo para a Camargo Corrêa até que pediu as contas e foi para Fercal. Trabalhou em diversas pedreiras exercendo várias funções, o que o tornou um grande conhecedor da história das pedreiras na região. Acompanhou todo o desenvolvimento da área do Queima Lençol.

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História completa

Diz que eu nasci nesse dia, eu não vi. Se vi, não entendi. Foi no dia 6 de maio de 1933, em Tauá, Ceará. Meu pai era um homem alto, é até bem parecido, mas morreu. Minha mãe era uma mulher baixa e tranquila. Meu pai vivia de negócio, comprando porco, galinha, bode, e vendendo na cidade, em Crateús. Eles pelejavam com a vida porque ganhavam a vida assim trabalhando de qualquer jeito e tal e iam levando a coisa. Porque gente pobre sabe como é, peleja daqui, peleja acolá, briga com um, arruma com outro, mas gente pobre só vive de sofrimento mesmo. Toda vida fui brincalhão. Toda vida brinquei e acordei cedo e comecei a tratar da vida pra aqui, pra acolá trabalhando. Eu estudei em Crateús. Crateús era minha cidade, a cidade em que eu fui criado. Estudei lá uns tempos, depois fiquei adulto, larguei pra lá: “Eu vou cuidar em trabalhar”. Fui embora pra Fortaleza, lá eu danei por aquele sertão do Ceará, Iguatu, praquele mundo lá trabalhando nuns e noutros cantos. Dezoito anos mais ou menos, eu fui vaqueiro, fui tudo na vida. No sertão do Ceará eu corria atrás de boi brabo.

  Eu fiquei pouco com o meu povo porque eu vim do sertão trabalhar, do sertão eu desandei pra cá pra vir ganhar dinheiro em Brasília, cheguei e ganhei, foi a vida, eu fiquei com a vida comprida demais e sem opção pra voltar. Vim parar aqui, trabalhei com o Roure dez anos – ele que me deu isso aqui.

  Quando eu completei a idade mais ou menos de 26 anos, eu vim embora. Cheguei aqui na Cidade Livre, no Núcleo Bandeirante. Calixto era chefe das máquinas da Camargo Corrêa. “Eu vou fichar 50 homens de hoje pra amanhã pra irem pro rio. Vocês vão fazer os bueiros” [da estrada federal que descia lá do Café Planalto]. Aí quando foi um dia de manhã, nós estávamos trabalhando, chegou o seu Alfa: “Estevam, pega aqueles rapazes pra nós levarmos eles lá na galeria pra fazer um serviço, que a máquina não deu conta de tirar a terra”. A galeria era aqui na subida da Fercal. Eu pegava um serviço e fazia mesmo. Aí peguei de um lado, fui tirando terra e fui jogando dentro dos carros, o sujeito ficava parado: “Tira o carro daí”. Tirava pra lá, eu enchia o outro. Seu Alfa tá lá em cima olhando. Quando foi de tarde, ele disse: “Olha, baiano, se você não achar ruim ficar aqui, você vai ficar aqui mais nós. Você pode pegar suas coisas lá no acampamento até amanhã e vem embora pra cá”. Eu estava achando bom, porque dormir naqueles alojamentos lá cheios de pulga, percevejo e tudo... Nós dormíamos debaixo de uma lona grande armada. Tava faltando um marteleteiro, eu era novo, tinha muita força e era interessado no serviço, iam me levar pra terminar o serviço do piso do rio que era justamente a estrada de ferro. “Leva aquele rapaz pra lá, que ele é bom.” De sábado pra domingo nós íamos dormir na pensão, ia lá praqueles puxa-faca e tal e no outro dia ia embora. Mas eu cansei de ficar furando pedra de noite com a luz acesa no compressor, furando pedra de noite que é pra eles detonarem no outro dia. Eu pedi as contas e eles disseram que não podiam dar, não. Aí mandaram eu vir embora pra Brasília. Fiquei de guarda. Depois, eu vim pra cá, cheguei na Fercal, no Queima Lençol, em 60.

  Vim parar nessa pedreira, que era do finado Roure. O nome da empresa dele era Fertil. Trabalhei com ele dez anos. Depois ele vendeu a pedreira pra Ciplan e me colocou lá. Eu trabalhei na Ciplan 23 anos. Conheci minha esposa aqui mesmo. Ela nasceu e se criou no morro pro lado do Torto. Tivemos seis filhos, quando eu juntei com ela, ela tinha quatro. Eu digo: “Não tem problema, não. Eu registro esses meninos”. E registrei tudo como filho. No total são dez. Todo sábado era uma festa lá em casa. E era ali, uma casa de tábua que está lá até hoje. Dançava forró mesmo. Pior é que no outro dia às vezes eu tinha que trabalhar, não parava o forró, não. Só parava na hora de ir trabalhar. Nós dançávamos a noite todinha. O que tocava era uma radiola. Eu a chamo de cabeça de paca. Radiolinha velha que eu tinha, colocava ela debaixo do braço, saía aí fazendo forró no meio do mundo. Tinha dia que não tinha aqui, eu ia pra esses interiores e o pau quebrava.

  Quando eu vim pra cá [o Queima Lençol] isso aqui era mata até chegar lá no córrego da Fercal. O córrego da Fercal descia lá atrás. Não tinha ônibus, tinha uns caminhões que passavam aí carregados de brita ou de areia que vinha aqui da cachoeira, a gente pegava carona e ia pra cidade, mas às vezes pra voltar precisava vir a pé, de noite. Plantava o pé lá e vinha embora. Uma vez eu vinha numa bicicleta com uma feira na garupa. Comprei um saco de arroz e um bocado de coisa e tal, aí o compadre Chico: “Não, pega essa bicicleta, vai nela, depois você a traz”. E eu amarrei esses sacos nessa bicicleta e vim de lá pra cá no escuro. Quando chegou naquele morro lá era muito alto e essa bicicleta embalou comigo de cabeça baixo, eu digo: “Não. Eu não vou morrer lá embaixo, não”. Lá embaixo tem uns buracos, um buraco que você não vê o fim. Eu digo: “Vou morrer aqui mesmo”. E toquei ela pra cima do morro, ela subiu um pouco, eu caí de costas lá no meio da serra. Deu um trabalho pra eu arrumar essa bicicleta pra poder vir embora, porque ela enjangou o guidão, não tinha um troço pra eu voltar o guidão dela pro lugar e ela rodava e ia pegando no para-lama. Foi um sacrifício pra eu chegar aqui em casa, morava lá embaixo. Eu ataquei com essa bicicleta empurrando ela com a feira, misturou arroz com açúcar e tudo. Quando cheguei lá em casa eu digo: “Ó, mulher, eu levei um tombo ali, eu não sei como é que tá esse negócio, não. Mas deixe isso aí, amanhã a gente olha”. Quando foi no outro dia ela foi catar arroz, catar feijão, açúcar, tudo misturado.

  Depois veio o ônibus pra cá e hoje tem ônibus aí direto. Hoje melhorou, tem essa fábrica que funciona, solta cimento adoidado. Tem os britadores ali, esse ano soltaram muita brita. Tem uma fábrica de manilha que solta manilha direto aqui embaixo. E sempre tem serviço, tem muito serviço. Antes do Roure morrer ele me deu essa área, era particular, não era da pedreira. E a área do posto de saúde fui eu que doei. Hoje eu só trabalho aqui na roça e trato de porco, galinha e bode. 

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