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História

Eu gosto de desafiar aquilo que é impossível

História de: Iris Nunes de Oliveira
Autor:
Publicado em: 02/02/2021

Sinopse

Iris relembra em seu depoimento os momentos difíceis em que passou na infância, em cidades baianas como Poções e Itororó, onde sua família passou por dificuldades financeiras após a morte de seu pai. Persistente, sempre lutou pelo seu desejo em estudar. Ela narra sua chegada a São Paulo e como conheceu o seu marido. Iris é mãe quatro filhos e conta como lutou para conseguir trabalho a fim de manter a estabilidade da família. Formou-se em Pedagogia e passou por diversas experiências que realizou na área da educação.

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História completa

P/1 – Inicialmente Iris, muito obrigada por ter vindo aqui, ceder um pouco da sua história pra gente, um pouco do seu tempo. Então, em nome do Museu da Pessoa, gostaria de agradecer sua presença aqui.
R – Eu também nesse momento estou agradecida, né, pela minha filha também que me incentivou e sinto honrada por estar aqui, um momento diferente da minha vida, que já tive vários, tô tendo mais um.
P/1 – Obrigado. Vamos falar sobre ela, né? Iris, para o nosso registro, eu gostaria que você falasse primeiro o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Iris Nunes de Oliveira, nascida em 12 de janeiro de 1948, na cidade de Poções, Bahia.
P/1 – Iris, antes de começar pela sua história mesmo, queria voltar um pouco para as suas raízes. A história da sua família. Conheceu seus avós de parte paterna, materna? Você sabe a história da sua família?
R – Sei um pouco. Assim, meu pai teve com a minha mãe, 15 filhos. Eu fui a 15ª. E o meu pai costumava morar em roça, mas assim, ele mesmo ia lá e começava, inclusive a cidade em que eu nasci foi o meu pai que fundou junto com dois amigos, cortando árvores, né, minha mãe contava pra mim que tinha árvore que quatro homens abraçando assim para conseguir alcançar o tronco da árvore. E foi um trabalho difícil porque não eram máquinas como hoje, mas sim, no machado mesmo e a força do braço. Aí na cidade, ele começou a fazer casinhas e foram aparecendo pessoas nos arredores e lá, o meu pai montou uma lojinha, ele tinha também uma roça de café, fez uma roça grande e nessa loja, ele vendia de tudo, do querosene, do tamanco, do tecido e assim, eles viviam, né? Nessa altura, um dos meus irmãos, alguns já estavam fora da Bahia, pra Minas e quando eu nasci, inclusive tinham dois irmãos que eu não conhecia que já tinham saído que eram os mais velhos. E assim, era uma vida tranquila, meu pai ajudava muito as pessoas, os mais pobres, não tinha escola e ele conseguiu construir um salão e foi até a prefeitura de Itororó e lá conseguiu uma professora por causa dos meus irmãos que eram muito pequenos e das crianças da roça, assim começou essa escolinha na cidade de Itati. É assim, eu nasci em Itati, mas fui registrada em Poções.
P/1 – Entendi. E a cidade que ele formou é Itati?
R – Itati.
P/1 – Entendi. Mas interessante isso, porque isso ele já era adulto, né? Da onde que ele veio?
R – O meu pai?
P/1 – É, por que que veio essa coisa de formar uma cidade? Que história que… de onde que ele é?
R – O meu pai era neto de português e o meu pai era pelo local, mesmo em Poções, onde meu pai conheceu a minha mãe, era uma cidade bem pequena, bem atrasada e o meu pai viajava muito, então o meu pai sabia ler muito bem, era uma das poucas pessoas que sabiam ler, então ele viajava, tinha tropas de animais, também, inclusive em Itati, também, eu já tô falando da época em que eu nasci, dos meus irmãos eu já não tenho muita… né, eu fui a última. Aí, meu pai tinha tropas de animais e viajava, fazia farinha de mandioca, vendia em Minas. O que eu sei dele é isso daí, com os parentes dele, eu não tive contato, fui ter contato quando era adulta já com os primos, com as pessoas. Eu só sei que quando a minha mãe casou com ele, minha mãe tinha 14 anos, meu pai tinha 24 e a minha mãe era muito simples, ela tinha medo quando ele chegava porque minha mãe estava em casa e meu avô chegou com o meu pai e chamou a minha mãe e falou: “Trouxe um homem pra casar com você”, e ela não podia falar não. E assim foi o casamento deles, não teve namoro, não teve nada e a minha mãe muito inocente, ainda não sabia de nada sobre a parte de sexualidade, muito pacata, ela sofreu um pouquinho no início, mas o meu pai, assim, teve muita paciência com a experiência que ele já tinha e foi um casal que viveu muito bem, foram chegando os filhos e ele sempre cuidou bem dos filhos, não foi um pai que batia, que espancava, se ele percebesse, principalmente das filhas, coisa de namoro, ele chamava no quarto sozinha, conversava, não era a minha mãe, era sempre ele. E nessa ocasião, uma das minhas irmãs ficou grávida, mas assim, ninguém sabia e tudo indica que o meu pai sabia que o meu pai falou pra minha mãe que ele tava passando uma tristeza muito grande, ela insistiu para que ele falasse e ele falou: “não vou falar. Pra que dois sofrerem?”, e a minha mãe ficou com aquela tristeza porque ele não contou pra ela. Aí, ele se preparou para fazer farinha e eu tava com oito meses na época e me levava pra roça junto. Aí no caminho, ele parou na casa de um amigo, pediu água pra mim. Aí o senhor falou assim: “Aí, seu José Nunes, que filha bonita que o senhor tem”, aí ele falou assim pro amigo: “Uma pena que eu não vou criar”, a minha mãe conta que deu um beliscão assim, na barriga dele e falou pra ele: “Que bestagem, homem! Você criou todos, por que não vai criar ela?”, aí seguiram pra roça. Aí meu pai foi buscar lenha pra acender o forno pra fazer a farinha de mandioca. E quando ele voltou, ele voltou com o feche de lenha muito grande, minha mãe chamou a atenção dele, porque ele tinha asma, ela falou: “Por que fazer tudo isso de uma vez? Você sabe que você não pode!”, e ele jogou o feche no chão, pediu um copo de água pra ela, ela pediu a moringa, deu água pra ele, no que ele bebeu, ele tossiu e já cuspiu sangue, quando ele cuspiu sangue, aí a minha mãe já o socorreu, ele já estava morto. Aí, a minha mãe foi até a cidadezinha correndo, passando pelas outras roças, debaixo de arame farpado, ela conta que rasgou roupa, riscou todas costas dela dos arames e chamou o farmacêutico. Ele chegou e falou: “Sinto muito. Ele já está morto”. Aí com a morte do meu pai, depois de passar um tempo, minha mãe foi entender que foi causado pela gravidez da minha irmã, que ele não aceitou aquilo. Aí depois, minha irmã mais velha já estava sabendo que a minha irmã estava grávida e minha irmã sempre doente, minha mãe fazendo chás para ela e a minha irmã mais velha chamou a minha mãe e falou: “Mãe, deixa de bestagem, ela não está doente”, era bem agressiva essa minha irmã, ela que tomava conta da casa, era muito respeitada, os irmãos respeitavam ela, porque assim, ia nascendo sempre, minha mãe só dando de mamar, cuidando dos filhos e a minha irmã cuidava da casa. Aí, minha mãe falou: “Como que ela não tá doente?” “não, mãe, ela está grávida”, aí minha mãe desmaiou na hora, no meio do quintal, caiu. Aí, essa minha irmã, com vergonha do pessoal da redondeza que todo mundo conhecia a nossa família, ela resolveu viajar para a cidade de Itororó e foi assim que aconteceu a viagem, mas ela queria que a minha mãe deixasse a minha irmã grávida, minha mãe falou: “Não, então você vai sozinha e eu fico com os dois menores”, que era eu e o meu irmão que tinha seis anos. “Você vai, mas eu não vou deixar a minha filha só”, aí acabou levando a minha irmã junto para a cidade de Itororó. E assim, o que eu entendo hoje, conforme eu entendo o meu pai, tudo o que o meu pai tinha de loja, de roça de café, de tropas de animais, parece que enterrou junto, como ficamos sem nada. Meus pais eram casados no na igreja e nessa época, não tinha essa lei que conviver cinco anos já tem direitos. Quando fomos para Itororó, as coisas foram ficando muito mais difícil, as minhas irmãs começaram, a costurar para fora, um dinheirinho aqui, outro ali. A minha mãe fazia biscoito para vender, que ela não trabalhava, minha mãe tinha uma vida bem tranquila, inclusive, na época do meu pai, meu pai comprava aquelas mulas mais caras, mais bonitas, a sela da minha mãe não era a de montar, era a sentada de lado, tudo, enfeitada com medalhas, tudo. Era uma vida bem bonita, só que eu não alcancei esse momento e eu fui crescendo com uma mágoa de ser a última filha, eu queria ser a mais velha por ter passado por aqueles momentos ali com o meu pai, isso me prejudicou um pouco na minha infância e logo em seguida, minha irmã mais velha conheceu um senhor que inclusive morava perto da casa em que nós fomos morar, ele era carpinteiro e todos os dias, a minha irmã ia lá na oficina dele buscar aquelas palhas da madeira pra ajudar a ascender o fogão de lenha. E ela mesma chegou pra ele… e ele era viúvo, bem senhor já. Falou pra ele que ela queria casar com ele, ele ficou meio assustado, né, uma moça jovem, bonita,ela não tinha nem 25 anos na época e ele concordou. Aí, até logo de inicio houve comentários do pessoal falar que a minha mãe, mal meu pai tinha morrido, minha mãe já estava com outro marido, tava namorando, que ele ia lá, ninguém imaginava que era… porque ele era quase da idade da minha mãe, um pouco mais novo. Os dois se casaram, aí o meu cunhado tinha uma vida mais tranquila também, o marceneiro e ele começou afazer a feira pra gente, ajudando na nossa alimentação e minha mãe começou a correr com as papeladas pra ver se conseguia algo das nossas terras, porque nossa terra era muito grande, aí até que lá nessa cidade de Itororó, eles falaram que os documentos que o meu pai fez tava tudo no cartório de Poções, que era… eu calculo que na época que não tinha asfalto, nada, acho que eram umas cinco, seis horas de viagem. Aí, minha mãe resolveu ir para lá e deixou eu… nessa altura, minha mãe já criava a neta, da minha irmã, porque a minha irmã morreu logo em seguida, também. Ela engravidou pela segunda vez. Na segunda gravidez ela morreu, depois de 15 dias, o bebê morreu e a minha mãe criou essa minha sobrinha que para nós, é como irmã também. A minha mãe levou a neta e me deixou com a minha irmã em Itororó. Aí, minha mãe alugou uma casa, os dois irmãos começaram a trabalhar de alfaiates, mas o dinheiro não dava, era pouquinho e ali, um senhor que era vizinho, que era viúvo, também, e conversou com a minha mãe, né, ele viu a situação difícil dela se ela não queria que ele ajudasse a pagar o aluguel, ajudar em tudo, então a minha mãe começou com esses dois meus irmãos que moravam com ela e foi na casa dos meus avós que os meus avós moravam em Poções e meus avós acharam que era bom tentar. Era um senhor negro, seu Antônio e lá foram morar juntos, depois, a minha mãe começou a mexer lá nas papeladas em Poções e voltou para Itororó para me buscar, porque eu sentia muita falta e ela sentia muita falta porque a partir do momento que o meu pai faleceu, comecei a dormir com a minha mãe. Então, era muito apegada a ela e ela chegou para apresentar para as minhas irmãs, uma das minhas irmãs deixou um recado para minha mãe que a minha mãe entrava por uma porta e ela saía por outra, porque ela não queria conhecer essa pessoa. Então, a minha mãe sofreu bastante com isso daí, porque foi aquela mãe que sempre estava do lado dos filhos e isso magoou muito ela. Aí, eu fui morar na cidade de Poções, eu já estava com mais ou menos, sete anos e a minha vontade era estudar, só que em Itororó, a minha irmã tinha uma pessoa que ensinava em casa, a minha irmã começou… quando eu fui com essa pessoa, eu tinha seis anos e eu sou canhota e ela queria amarrar a minha mão esquerda, que naquela época não podia, tinha que escrever com a mão direita, a minha irmã não deixou, falou: “Não, ela tá aqui mais para passar um tempo, porque ela é ainda muito pequena, não vai fazer isso”, e não amarrou a minha mão. E na chegada em Poções, eu queria estudar, meu sonho era estudar, aí dinheiro não tinha, mas aí falaram que tinha uma pessoa que estudava em casa, aí ela cobrava mais barato. Minha mãe me levou até essa pessoa, era uma moça, uma jovem, e tinha umas cinco meninas nessa salinha e a minha mãe não conseguiu pagar. Aí, eu tive que sair. Aí, eu fiquei muito triste e tinha o prédio na praça que falava o prédio escolar, aquela escola enorme e bonita… voltando um pouquinho o assunto, lá quando eu sai dessa moça, aí já tava com um pouquinho mais de idade, aí eu fui para uma escola que era um salão enorme e nesse salão, uma professora dava aula para quem tava na cartilha, primeiro ano, segundo ano e terceiro ano. Um dos meus irmãos que era antes de mim estava no terceiro ano e eu estava na cartilha. E lá, naquela época, usavam aquelas palmatorias, que não sei se você conhece, ela é redonda assim e tem um cabo comprido e qualquer coisa, a professora tinha o direito de bater na criança ou pôr de castigo, de joelhos, às vezes, até em cima de grãos de milho, feijão. E eu fui criada com os meus irmãos e com a minha mãe, com a morte do meu pai foi assim, a coitadinha: “A coitadinha não tem pai, não judia”, tudo era… eu fui criada com muita manhã, muito carinho, muito chorona e nessa escola, então o meu irmão ajudava a professora e ele foi pegar a lição e eu errei umas palavras e ele pegou a palmatória e me deu… (choro)
PAUSA

R – Naquele momento que ele me deu os bolos na palma da minha mão, que era o nome que ele falava…
P/1 – O professor?
R – É. Quem me deu foi o meu irmão.
P/1 – Ah, foi seu irmão que usou a palmatória?
R – Naquele momento, se fosse a professora, talvez, eu não teria sentido tanto, porque eu sabia que era normal as professoras fazerem aquilo, mas como nenhum dos meus irmãos nunca tinham me batido, os mais velhos, e quando ele fez aquilo pra mim me magoou muito, não aceitei. Depois de adulta, eu fui perceber que o meu irmão não gostava de mim, na minha infância, nós sempre fomos rivais, mas só na minha idade adulta, quando eu fui entender que era muito ciúmes que ele tinha de mim, porque a minha mãe engravidava um ano e meio, dois anos nascia um filho e quando eu nasci, esse meu irmão já estava com cinco anos, minha mãe não esperava mais, ele ainda mamava na minha mãe. Então hoje, eu sinto assim que o que ele fazia comigo não era por maldade, mas eu tomei o espaço dele depois de cinco anos. Aí tudo bem. Essa escola ficava numa cidadezinha de Itororó que chamava Bandeira e foi logo em seguida que a minha mãe me buscou para Poções e eu saí dessa escola. E no dia em que morreu Getúlio Vargas, agora eu confundo… o que se enforcou…
P/1 – Se enforcou?
R – Presidente da Republica. Me deu um branco, agora…Getúlio Vargas…
P/1 – Ele se matou, mas não foi enforcado, né? Foi com um tiro? Foi um tiro, mas enfim…
R – Sim. Getúlio Vargas, não é isso?
P/1 – Getúlio Vargas se matou. 
R – Então, nós estávamos nessa sala de aula, aí a professora falou assim: “Meninos, eu tenho uma noticia triste para dar para vocês, o presidente faleceu e vocês vão para casa”, aquela hora eu fiquei assim: ‘o quê que é presidente?’, eu não sabia. Aí, as crianças foram todas pra casa e quando eu chego em casa, falei para minha irmã: “O quê que é presidente?”, ela já sabia da morte também. Aí ela me explicou, né, até aí eu não sabia. Então, nesse dia, eu estava numa sala de aula. Tinha até a data gravada, mas agora, fugiu da mente. Bom, fomos para Poções, voltando a história, né, e fui com essa moça, não deu certo, não tinha dinheiro…
P/1 – Deixa eu só fazer uma pergunta. Nesse momento em que a sua mãe foi embora e você ficou com os seus irmãos, seus irmãos eram crianças, também?
R – Não, fiquei com a minha irmã casada, a que já era casada e que sustentava a minha mãe quando ela estava lá.
P/1 – Só que você estava em Itororó, e aí, você ia estudar numa cidade perto de Itororó, é isso?
R – Que era pertinho.
P/1 – Ia e voltava.
R – Ia e voltava. Atravessava só o rio.
P/1 – E ia como?
R – A pé. Só atravessava o rio. Aí eu fiquei sem estudar. Aí, eu queria…
P/1 – Isso quando a tua mãe te pegou e foi para Poções?
R – Para Poções. Eu cheguei nessa casa dessa moça…
P/1 – Dessa professora, né?
R – Que cobrava. Minha mãe não teve dinheiro para pagar, venceu o mês…
P/1 – Mas você ficou um tempo com ela, não? Ou só um mês?
R – Com essa professora? Só um mês. Aí, fiquei sem estudar e eu não me conformava e da casa que eu morava com a minha mãe para ir para a casa dos meus avós, passava em frente esse prédio escolar. E chegava imenso, grandão, bonito, maravilhoso. Eu olhava assim, falava assim: “Mãe, eu quero estudar no prédio”, minha mãe falava: “Minha filha, você não pode minha filha. Esse prédio é só os filhos do fazendeiro, os filhos do dono da loja, os pobres não dão para estudar”, sendo que essa escola é estadual, mas os grandões colocavam os filhos e não sobravam vagas para os pobres, nunca tinham vagas para os pobres e aquilo não saía da minha cabeça. Quando foi no ano de 1956, eu brincando com minhas amigas, estava lá na praça, me deu vontade de entrar naquele prédio, entrei, subi as escadas, olhei o balcão grande, enorme, envernizado, escuro, uma senhora com a cara fechada do outro lado. Eu parei e fiquei. Ela falou: ‘Menina, o quê que você quer?”, eu abaixei  a cabeça, “Fala o quê que você quer”, e eu com muita vergonha. Sem olhar nos olhos dela, eu falei: “Eu quero estudar” “você não tá estudando?” “Não”. “Você nunca estudou?” “Não.” “Então, você tem que ir para o primeiro ano?” “É”, e ela fez a minha matricula. Eu sai voando, correndo, gritando de alegria, de emoção. Cheguei em casa: “mãe, eu vou estudar no prédio” “Minha filha, como você vai estudar no prédio, minha filha?” “Mãe, eu fiz a minha matricula. Eu vou estudar” “Minha filha, você não pode, minha filha, não vai dar certo, você vai ter que ir lá e desmanchar isso” ”Mãe, por quê que não vai dar certo?” “Você é pobre, minha filha. Você não tem sapato para ir para a escola, você não tem roupa boa, você vai ficar com vergonha das suas colegas” “Mãe, eu vou estudar no prédio”. E minha mãe costumava… tudo o que eu pedia para ele, eu escutava isso direto: “Ah, minha filha, se seu pai fosse vivo! Suas irmãs tiveram tudo”, e aquilo me magoava, mais ainda eu tinha raiva da minha idade. E nesse dia ela falou: “Ah, minha filha, se seu pai fosse vivo”. Eu fui para a escola, fui estudar, feliz da vida, tamanquinho no pé que comprava nas vendas, que hoje fala tamanco é coisa chique, naquela época, vendia nas vendinhas, mesmo, amarradinho com cordão, pendurado, que eram os calçados dos pobres. Roupa bem surradinha e lá eu via que realmente, tinham meninas bem melhor do que eu na situação financeira que eram filhos dos fazendeiros, né, daqueles que tinham dinheiro. Bom, fiquei feliz da vida. Aí, quando chegou mês de setembro, antes de chegar setembro, a professora falou: “Dia sete de setembro vai ter a marcha…”, que é desfile, mas falava a marcha, “…de sete de setembro, quem quer participar da marcha?”, eu achava a marcha a coisa mais linda, todo ano eu ia pra praça para ver. Mais do que depressa, eu levantei a mão e muitos mais, né, “Então, a partir de amanhã, nós vamos começar a ensaiar”, e eu comecei a ensaiar, cheguei em casa e falei para minha mãe: “Minha filha, tu é doida de fazer isso? Tu não pode, que roupa tu vai vestir?” “Mãe, eu vou marchar”, faltando dois dias, isso dia cinco de setembro, a professora falou: “Dia sete, todos que vão marchar têm que estar com sapato preto e meias brancas nos pés”, meu coração acelerou, nunca tinha posto um sapato no pé. Cheguei em casa e falei pra minha mãe, e quando a minha mãe ia comprar um tamanquinho, um tecido que a minha vó fazia, ela vendia galinha pra comprar. Então, minha mãe falou: “Minha filha, não tem uma galinha no quintal pra vender. Tu não pode”, eu chorava, eu chorava e minha mãe entrava em desespero de ver que todos tiveram e eu fui a única que não tinha nada. No dia sete de setembro, a praça cheia, até o pessoal da roça vinha todo, era uma festa muito bonita, coreto no meio. Aí, eu fui. Eu era bem mirradinha, magrinha, cabelo bem… muito cabelo que penteava uma vez ou outra, às vezes quando era para tirar piolho, tomava banho todos os dias no açude que a gente lavava roupa no açude e coloca os pratos lá para secar e entrava no açude, tomava banho, o cabelo sempre assim. Aí, o desfile começou, eu acompanhei a minha turma da minha sala, mas escondida atrás das árvores, aquelas árvores grandes, eu não queria que ninguém me visse. Conforme passava, eu corria para outra árvore, mas eu queria ver  minha sala desfilar (choro). Aí, a festa ficou a manhã inteira, tudo muito bonito, o pessoal da roça era interessante que eles andavam sempre descalços, mas tiravam o tamanco, o chinelinho na mão…
P/1 – Imagino que nesse dia, ia todo mundo bem arrumado…
R – Bem arrumadinho, né?
P/1 – Com a melhor roupa, né?
R – É. E aqueles colares, né, era muito interessante. O pessoal da roça, para nossa cidadezinha de Poções, já era um costume totalmente diferente, né, tudo a cavalo, tinham aqueles tocos na praça para prender os cavalos. Aí, foi terminando, todo mundo indo para a sua casa, aí quando… na época, tava no auge sorvete de casquinha, eu tinha uma vontade, nunca tinha sentido o sabor do sorvete de casquinha, mas eu tinha vontade. Aí eu tô andando e uma mãe com uma menina na minha frente, cada uma com um sorvete de casquinha na mão e eu fui seguindo. Aí a menina terminou o sorvete, ela pegou a casquinha, assim na grama. Eu olhei para um lado, olhei para o outro, não tinha mais ninguém, abaixei, peguei a casquinha, nunca tinha comido nada do chão, do lixo, que a minha mãe sempre… pobre, mas assim, nunca pedimos nada! Meus irmãos todos assim, uma criação muito bonita, pobre decente, pobre e chique. Aquela casquinha desceu no estômago com um sabor delicioso, tava geladinha, restinho ainda do sorvete no fundo, né, aí não contei para minha mãe, mas fiquei feliz com aquela casquinha. E aí, continuando, acabou a festa, continuamos a estudar. Eu sempre adiantada na escola, amava a escola e eu tinha… a minha mãe, como eu te falei no inicio, a minha mãe criava galinha e teve uma vez que saíram os pintinhos, saiu um pintinho tão bonitinho, uma cor assim, cor de mel, e eu comecei a me apegar com aquele pintinho, que se tornou uma galinha. Aí eu pus o nome dela de Mansinha. Mansinha era tudo para mim, era a minha boneca que eu não tive. Minha mãe fazia as bonecas de pano, bem caprichada, sabe, os cabelinhos pretos, desfiava todo o tecido para fazer… mas quando o meu irmão, esse que era antes de mim, a gente brigava muito e simplesmente, ele pegava por uma perna e pela outra e fazia assim, né, as lãzinhas subiam e minhas lagrimas caíam (risos). Minha mãe corria atrás dele com chinelo, com uma cinta, ele subia num aro que tinha no quintal e ficava lá. Só descia depois que a minha mãe… a minha mãe dizia: “Vou pegar o machado, vou cortar o machado, quero ver se você sai daí ou não sai”, mas aí, esquecia, ele saía, depois ficava por isso mesmo. E essa galinha era a boneca que ninguém ia rasgar para mim. Chegamos a passar, às vezes, até de duas ou três noites sem comer, aí a minha casa era uma casa comprida assim, tinha a entrada da rua e para os fundos, saía para uma outra rua, também, voltando a falar um pouquinho dos piolhos, né, minha mãe usava para passar nos nossos cabelos, tinha um tal de óleo de coco que vendi nas garrafas, assim, esse era o creme que lavava a cabeça com sabão de pedra, né, esse era o normal de todos, porque sabonete a gente não comprava. A, quando eu vi a minha mãe com aquela garrafa de óleo de coco na mão, eu disfarçava, se ela tava na sala, eu saía pela porta da cozinha pra outra rua, e ela ficava lá com o pente na mão e a garrafa me esperando. Me chamava… aí, quando eu voltava, a garrafa já tinha guardado. Aí uma vez, ela me pegou,tava lá penteando, eu chorava, ficava nervosa que… aí, ela pegou as costas do pente, pá na minha cabeça, aí chorei! Aí, meus irmãos vieram, nossa, tudo em cima de mim, porque não podia relar em mim: “A senhora tá judiando da menina” ‘porque não é você, venha então você pentear o cabelo dela, porque ela não deixa…”, eu sempre na base das manhas. Bom, aí eu tô brincando, entrei em casa, estava sem comer uns dois dias, quando eu chego, minha mãe tava assim, picando chuchu na mesa, eu tinha mania de sentar na mesa, meus irmãos me apelidavam de bandeja, diziam que eu parecia uma bandeja em cima da mesa. Eu já sentei na mesa e falei… e o fogão de lenha estava aceso, porque não tinha acendido. “Mãe, a senhora arrumou dinheiro?”, aí ela não respondeu, abaixou a cabeça. “Mãe, a senhora arrumou dinheiro?”, aí, as lagrimas começaram a cair. “Minha filha, não dá mais para ficar tantos dias sem comer, minha filha, eu vendi a Mansinha”, eu dei um grito de choro e caí da mesa, caí no chão. Cai por cima do braço, a minha mãe parou de fazer o picadinho, foi até o quintal, pegou mastruz que é uma erva que ajuda para tirar dor, amassou bem com sal, pôs no meu braço, pôs no meu braço uma tipoia e eu chorava muito por falta da Mansinha. Só que no fundo, meu braço não doía, eu fiz a minha mãe sofrer.
P/1 – Um artificio de criança.
R – Na época, eu não percebi que isso estava magoando a minha mãe, era criança, inocente, eu fiz não sei se foi para provocá-la ou se foi como se fosse um luto pela Mansinha, não sei explicar muito bem, mas ela sofreu muito.
P/1 – Só para eu entender, nessa época, a sua mãe estava sozinha? Só com os filhos, ela não estava…
R –Ela já estava com aquele senhor.
P/1 – Estava com esse senhor?
R – Estava.
P/1 – E mesmo assim, vocês estavam com esse nível de dificuldade?
R – Mesmo assim.
P/1 – De não conseguir comer?
R – Não, porque ele era ferreiro, trabalhava sei lá como que fala, é ferreiro mesmo, trabalhava com ferro, tinha o fogo para derreter o ferro. E ele quando era mais novo, dava aula, mas não que ele fosse um professor, mas ele sabia um pouco, que nessa época era assim, quem sabe um pouquinho, ensinava para o outro, né? E ele era pedreiro também, mas não tinha um serviço, era pouco. E nessa época, dois irmãos meus que era esse antes de mim e o outro antes dele que já trabalhava de sapateiro numa sapataria de consertos, os dois trabalhavam, mas ganhavam pouquinho, muito pouco. Por exemplo, o casal, meus dois irmãos, eu, a minha sobrinha, que é como irmã e uma filha desse senhor, então, eram sete pessoas para comer e três para trabalhar, mas três que não entravano trabalho também, né? E eu brincava normalmente, quando eu via os passos da minha mãe, eu colocava os braços na tipoia, minha mãe sempre lá. Eu não sei se ela fingia também, porque não tinha hematoma, não tinha nada, ou passava despercebido e ela achava que estava mesmo com problemas no braço. Aí no terceiro dia, eu resolvi tirar, falei pra ela… “E aí, minha filha, sarou?” “Sarou, mãe”.  Às vezes, à noite, eu acordava, inventava que estava com dor de dente que eu queria minha mãe perto de mim, porque ela já estava com esse marido, e eu dormia sempre com ela. Eu chorava de dor d dente, às vezes, sim, era dor de dente e às vezes, não era. Minha mãe guardava sempre um pedaço de casca de coco e quando o ente doía, a minha mãe pegava o machado, colocava no fogão de lenha, deixava, quando tava bem vermelhinha, aí colocava o pedacinho da casca do coco e ela soltava o óleo, ela molhava o algodãozinho no óleo e colocava no buraco do dente. Quando eu não tava com dor, eu logo falava: “Aí, mãe já passou” e enquanto ela não fazia isso, eu não parava de chorar e às vezes, era dor de dente e por Deus, ou não sei, o dente passava a dor. Então, foi sempre essa morada, foi sempre assim de dificuldades, de fome, de tristeza…
P/1 – A senhora continuou na escola?
R – Continuei na escola. Isso…
P/1 – E teve situação de você se sentir segregada socialmente, das crianças também te excluírem?
R – Olha…
P/1 – Do professor não te dar a mesma… ou foi uma experiência boa, aprendeu?
R – Foi, porque como eu te falei, eu me dedicava demais aos estudos e a professora tinha uma maior atenção comigo. E como voltou o assunto da escola, que não falou muita coisa, mas vou falar agora… vou esquecer do outro, depois eu falo da escola, então tinha um irmão que morava na cidade de Itabuna, na Bahia também, né, e esse meu irmão, ele era alfaiate e ele foi nos visitar e quando ele chegou, bem mais vestidinho, né, a cidade maior, aí foi na época da quaresma, eu nunca tinha ido a um cinema, aí ia passar o filme “A Paixão de Cristo”, aí ele falou: “Iris, vou te levar para assistir”. Fiquei toda feliz e ele falou: “mas eu vou comprar um sapato pra você, não vai com tamanco para o cinema, não”, e comprou um sapatinho preto para mim. Foi o primeiro sapatinho que eu usei assim. Quando era menorzinha, tinha ainda que as minhas irmãs costuravam e tal, depois foram casando… aí foi o primeiro filme que eu assisti no cinema foi “A Paixão de Cristo”, e foi um filme que eu chorei muito, muito, muito, que era muito triste, né? E fiquei muito feliz dele ter me levado, eu e a minha sobrinha, nós duas para assistir a esse filme, foi muito bom. E voltando na situação da escola, aí passou sete de setembro, veio final de ano e lá as provas, a professora falou: “Eu vou fazer para vocês uma capa com cartolina pra vocês guardarem as provas”, porque o estudo de lá era totalmente diferente daqui, quando eu vim pra cá. Ela falou assim… eu não me lembro que número que era, que 25 que era porque nem era real, né, nem era cruzeiros mas aquela época era outra coisa. Eu sei que era isso, era um tal de 25 não sei o que. Então, cada aluno tinha que pagar esses 25. Aí já me entristeci. Aí cheguei em casa: “Mãe…” “Minha filha, não tenho, filha. Se o seu pai fosse vivo, você tinha”, eu já tinha bronca de ouvir essas palavras dela. Aí, eu fiquei assim… já tinha dois irmãos que moravam em São Paulo, eles não tinham compromisso, de vez em quando eles mandavam dinheiro para a minha mãe e esse dinheiro era assim, minha mãe comprava fiado de um senhor que a gente chamava ele de Chico Grosso, quando a conta estava um pouquinho alta, ele já não nos vendia mais: “Cadê seus filhos que não mandam o dinheiro?”, e o dinheiro nem ia para a mão da minha mãe. Tinha um advogado que a minha mãe trabalhava com esse advogado, trabalhava, não, cuidava dos papeis do meu pai, né, doutor Pedro e era tudo remetente a ele. Quando o doutor Pedro chegava na nossa porta, era alegria! Era o dinheiro que veio de São Paulo. Aí, a minha mãe pagava o Chico Grosso e podia comprar de novo, né? Aí, começava o fiado de novo. Aí, minha mãe falou assim: “Minha filha, eu acho que tá perto dos seus irmãos mandarem dinheiro, quem sabe, né?”, daí eu dei ideia pra ela: “Pede emprestado para o seu Chico Grosso” “Minha filha, ele não gosta nem de vender, tu acha que ele vai emprestar, minha filha? Ele não vai emprestar”. Bom, de tanto insistir, porque a minha mãe foi lá e a divida já tava alta, aí ele falou: “Eu posso emprestar, mas a senhora não vai poder comprar mais nada”, aí ele emprestou dez, aí eu levei no outro dia e falei para a professora que depois, eu dava o restante. Ela aceitou. Só que no dia em que ela levou a cartolina, na época, hoje a gente fala que é adesivo, na época, chamava decalquemonia, era como se fosse um adesivo, hoje. Era um desenho, em baixo tinha uma folhinha branca, você colocava no prato com água, aí levantava uma pontinha e você com muito cuidado, ia colocar e colava onde você queria. E essas capas de cartolina, ela colocou tudo decalquemonia. Aí, ela mandou escolher, só que até aí, eu não tinha coletado com a minha mãe o dinheiro, aí eu não fui. Todas as crianças fizeram tudo aquilo em volta da carteira e eu fiquei lá sentada. E ela tinha um sobrinho que estudava com a gente e esse sobrinho dela tinha faltado nesse dia. Aí ela falou assim: “Ué, sobraram duas, por quê? Essa é do meu sobrinho, quem que não pegou?”, e eu com vergonha dos meus colegas: “Mas Iris, por que que você não veio escolher?” “Não tenho dinheiro, preciso falar com a minha mãe”, ela falou: “Vem aqui. Só sobrou duas, essa daqui eu já escolhi para o meu sobrinho, porque ele não veio, então você vai ter que ficar com esta”, e eu amava gatinhos, gatos, achava lindo e justo o que ela escolheu para o sobrinho era a que eu mais gostava do desenho. Aí quando ela mostrou pra mim, eu peguei. Nisso o sobrinho dela chegou, aí ela falou: “Olha aqui, você não veio, eu escolhi pra você. Olha que lindo!” “Ah tia, eu não gosto de gato”, trocamos e eu fiquei com o do gato e fiquei toda feliz, né, porque o que eu queria era o do gato e foi o do gato que veio parar na minha mão, porque o sobrinho detestava gato. Bom, passamos de ano. Chegou janeiro de 1957 e lá, todo ano tinha que fazer a matricula, fui novamente fazer a minha matricula. Aí a diretora falou assim: Iris, fala pra sua mãe tirar o seu registro, porque não dá mais… veio uma ordem do governo que não é para pegar nenhuma criança sem registro”, e até aí, eu não era registrada. Fui para casa de cabeça baixa, chorando, minha mãe chegou: “Minha filha, o quê que tu tá chorando?”, e assim, não precisava a mãe ir, a gente mesmo ia lá e fazia a matricula, criança. Aí, eu falei: “mãe, tem que tirar o meu registro”  “Oh minha filha, eu não falei pra tu, minha filha, pra tu não inventar de estudar nessa escola? Tu fica insistindo, minha filha, para com isso. Você não pode estudar lá, minha filha, é dinheiro pra isso, é dinheiro pra aquilo, minha filha, a gente não tem. Se o seu pai fosse vivo, tinha tudo isso, minha filha”, eu entrei em desespero. Chorava janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho e eu sem estudar. Não tinha dinheiro porque precisava pagar. Final de junho de 57, os dois irmãos que moravam aqui e tinha uma irmã casada, o meu cunhado estava de férias e meus dois irmãos mandaram buscar a gente para São Paulo. Agora, eu não lembro se escreveram primeiro avisando a minha mãe ou foi de supetão, ou foi surpresa, isso eu não me lembro. Eu sei que o meu cunhado chegou pra levar todos nós para São Paulo. Eu fiquei… parece que eu ia para um reinado, né, São Paulo, coisa chique, coisa maravilhosa! E a minha mãe chorava, não queria ir. Aí, meu cunhado falou assim: “Só que é assim”, então tinha o Valter, o Edvaldo, eu e a minha sobrinha, Carmelina, os quatro sem registro. “A gente não pode sair daqui sem o registro das crianças, em São Paulo, não adianta, tem que ter registro”, aí foram tirar os nossos registros. Aí era caro, quanto mais velho, mais caro o registro, aí foram diminuindo as nossas idades pra ficar mais barato. A minha sobrinha era um ano e oito meses mais nova do que eu, só que ela é bem baixinha e ele era bem menor do que eu: “Ela é pequena mesmo, tira três anos dela” (risos), de mim tirou um ano, do meu irmão antes de mim e esqueceram de diminuir… eu sei que acabou ficando dois que eram quase dois anos mais velho um que o outro, ficou seis meses um mais velho que o outro, quer dizer, um tava com seis meses e o outro, nasceu. Aí, arrumar a mudança pra São Paulo, chegamos em São Paulo no dia 27 de julho de 57. Viajamos três dia e três noites de pau de arara, 25 pessoas em cima de um caminhão, crianças pequenas, bebês, ali fazendo xixi, ali fazendo coco e cada família com seus saquinhos de farofa para comer, foi de madrugada, estava um pouco frio, o motorista pegou a minha sobrinha e colocou na cabine, minha mãe ia na cabine também. Minha mãe quis subir um pouquinho na caminhão, aí dali a pouco, sentimos falta da minha sobrinha e da minha mãe e paramos, minha mãe… o caminhão parou e a minha mãe… era uma estrada e uma ribanceira, buraco fundo, escuro. Era madrugada. Aí quando acharam a minha sobrinha, minha mãe ia se jogar para se matar. Aí deu tempo de segurarem ela, tudo, só que no fim, ela tava lá na cabine, né, com o motorista, graças a Deus, por mais um pouco, minha mãe tinha perdido a vida nesse dia. Chegamos em São Paulo, os meus irmãos casados moravam perto da Francisco Morato, bem pertinho mesmo, o caminhão parou, aí descemos lá e fomos para a casa do meu irmão e ficamos lá uns tempos até… aí foi tudo diferente, minhas cunhadas casadas, era uma casa dividida para as duas, aí elas achavam ruim com muitas coisas, minha mãe tinha mania de pendurar roupa suja na parede, assim, fazia no canto, né, com uma cordinha. E aí, elas reclamaram que a minha mãe estava pendurando roupa suja e começou aquele clima… meus irmãos, rapidinho, arrumaram emprego, os quatro arrumaram emprego e aí, alugamos uma casa no Caxingui, perto da casa dos meus irmãos mesmo e esse meu cunhado, a minha irmã tinha ganhado bebê, o bebê nasceu dia 17 de julho e nós chegamos dia 27 de julho, o nenê tava com dez dias, morava na Vila Mariana, aí resolveram alugar uma casa e morar todo mundo junto. Ela já tinha, nessa época, acho que cinco filhos e mais nós, foi um momento difícil, também, aí o meu padrasto, acostumado com aquele trabalhinho dele, tranquilo, suave e aqui, ele foi trabalhar fazendo o asfalto da estrada de Francisco Morato, Caxingui. Sol muito quente, ele não estava acostumado. Aí ele começou a juntar dinheiro para ir embora e aí, entrou aquele clima que os meus irmãos falaram que ele tava juntando dinheiro, mas ele falou pra minha mãe que ia passear e ele não voltou mais e a minha mãe sofreu muito com a falta dele, depois, minha mãe voltou para a Bahia que ela ia visitar os pais e lá, ele queria que ela não voltasse mais, aí a gente já tinha mudado de residência, já estava morando lá no Monte Kemel, não, na Vila Sonia e aí, minha mãe escreveu para mandar eu e minha sobrinha para Poções e eles mandassem o dinheiro para a gente estudar. Aí eles responderam pra minha mãe que não, que a minha mãe escolhesse: ou nós ou ele. Minha mãe ficou, acho que uns quatro, cinco meses lá. Aí, minha mãe não deixava a gente por nada, ela falou que não ia deixar, eu não podia viver sem minha mãe, também, eu chorava quando eles leram a carta, eu queria ir embora com a minha mãe e um dos meus irmãos, já falecido, disse: “Você não tem voz para falar nada, você não entende nada, você não vai, nós não vamos mandar você para lá, se a mãe quer ficar com vocês, ela que venha e deixe o homem lá”, e a minha mãe fez isso. Deixou ele e voltou para cá. Quando nós fomos na rodoviária encontrar a minha mãe, eu fiquei abismada de tão magra, abatida. Ela não dormia, ela sonhava, delirava, comigo e com a minha sobrinha, sentindo a falta da gente. Até que ela tomou a decisão que não era justo ela deixar eu… que eu fiquei com uma cunhada e a minha sobrinha com outra cunhada. E aí, minha mãe ficou sozinha e quando… antes disso, que eu cortei um pouco do assunto, foram me matricular na escola, só que a diretora falou: “Olha, nós estamos no mês de julho, é besteira. Já perdeu meio ano. Deixa pro ano que vem. Aí no ano de 57, eu não estudei. Em 58, fui estudar, fui fazer o segundo ano. Aí, a professora chamou a diretora e viu que eu não tinha necessidade de estar fazendo o segundo ano, que eu podia ir para o terceiro ano, porque o ensino de lá era muito mais forte, eu sabia tudo que passava, mas eu tinha que ter um boletim da escola para passar pra cá, mas assim, foi uma família que não tinha essa iniciativa de escrever, tal. E acabei ficando no segundo ano, mesmo. Aí estudei segundo, terceiro e quarto ano. Mas o meu sonho era alto, eu queria ser professora. As brincadeiras de criança, tinha uma brincadeira que era assim, tinha a mãe rica e a mãe pobre. A mãe pobre tinha um  monte de filho que tudo dava as mãos assim, e a mãe rica vinha: “Eu sou rica, rica, rica de marré, marré…”, uma musiquinha: “Eu desejo uma de vossas filhas, a mãe pobre perguntava, era tudo cantado, né: “Qual delas será?” (pausa). A escola que eu estudei até a quarta série é Escola Agrupada do Caxingui…
P/1 – Escola Agrupada?
R – Não, primeiro, eu fiz o segundo ano numa escola de madeira, toda de madeira. Isso foi em 58. Em 59, já estava construindo outra escola no Caxingui, mesmo, e um lugar bem afastado, era só mato e assim, um padrão bonito de escola. Aí quando eu fui fazer a quarta série, quando eu já tava na quarta série, nós já morávamos na Vila Sônia, já ficava um pouquinho longe da onde eu estudava e a escola nova, mas eu queria estudar na escola nova. Eu fui sempre exibida, sempre gostei de coisas diferentes, eu levava o nome de pobre rica. Aí…
P/1 – Só uma pergunta, e essa transição para São Paulo, vocês não estranharam muito? Estavam felizes de sair para o novo? Você se lembra assim, do primeiro dia…
R – As crianças, sim.
P/1 – Sua primeira impressão de São Paulo? Você se lembra?
R – Lembro, porque assim, quando eu cheguei, tinham os meus dois irmãos casados, as minhas cunhadas brigavam uma com a outra por minha causa, porque queriam sair e queriam me levar. Eu me sentia a rainha da cocada branca, feliz. Porque assim, a minha mãe, ótima mãe, nossa… uma mãe! Mas não era aquela mãe carinhosa, não era aquela mãe… ela fazia a obrigação dela, não me batia, fui criada, como eu te falei assim, tudo era a falta do meu pai, tudo ela falava: “Coitadinha, coitadinha… os outros tiveram pai, ela não teve”, e aí, aquilo que a minha mãe não soube dar para mim, as minhas cunhas era demais. Eu me sentia toda feliz. Então, para mim foi… feliz em São Paulo, uma maravilha. Minha mãe chorava muito, minha mãe queria voltar para a Bahia, não acostumava, costumes diferentes, mas assim…
P/1 – O clima, né?
R – O clima. Muito frio, pegamos época de frio, assim, inclusive, quando nós estávamos preparando para viajar da Bahia para São Paulo, o meu cunhado que foi nos buscar falou assim… levou a minha mãe na loja e mandou comprar flanela para fazer uns casaquinhos para mim e para minha sobrinha, que a minha mãe criava. Aí, nunca tínhamos colocado um agasalho no corpo, nunca. Sempre andando só de calcinha, sem nada, aí aqui, não. Aqui o frio foi terrível no mês de julho ainda que nós chegamos, um frio e aquelas blusinhas de flanela que faz cueiro para bebê, que a minha mãe comprou pra fazer pra gente, imagina o quê que era aquilo  o nosso corpo aqui em São Paulo, foi um pouco difícil, né? Aí, fui adaptando. Ah, deu um branco agora do que eu tava falando…
P/1 – Você tava falando da escola, a sua adaptação em São Paulo e terminou o quarto ano. Você fez exame de admissão?
R – Isso aí. Terminou o quarto ano, eu queria continuar, só que assim, quarto ano você tinha o diploma e aquele diploma era tudo pra mim, aí cheguei para os meus irmãos, nessa época, tinha os meus irmãos em casa solteiros, eu falei: “Eu preciso fazer admissão”, que a admissão fazia a preparação para ir para o ginásio. Aí me chamavam de espirito de rico, ninguém nunca estudou “Você chegou até a quarta série”, nenhum dos 15 filhos, eu fui a única. Então, era um diploma! “Você tem diploma”, mas eu não tava contente com aquilo, eu queria mais. Aí, tinha que pagar a admissão, não era do governo. Aí a professora do quarto ano me chamou e mais dois alunos, que eram os melhores da sala, os mais adiantados e falou: ‘olha, vocês vão até o ginásio, façam a matricula de vocês que eu acredito que vocês têm capacidade de passar sem fazer o cursinho, que era a admissão. Quando eu cheguei em casa que dei essa noticia, parece que um terremoto caiu em cima de mim: “Mulher não precisa estudar, que ideia é essa? Você já tem o diploma, por quê que você…?”, aí foi… nossa, foi demais. Tudo, eu chorava, me chamavam de manteiga derretida, eu chorava por tudo e o quê que eu ouvia da minha mãe? “Ah, filha se o seu pai fosse vivo”, isso era direto: “Se o seu pai fosse vivo…”, eu não gostava mais de ouvir essa palavra da minha mãe, aquela mulher muito parada, muito tranquila. Aí, a professora falou: “Olha, vocês não fizeram…”, tinha uma admissão que a gente fazia antes de prestar a prova para entrar no colégio, aí a professora falou: “Vocês vão, façam a matricula que vocês três têm condições, quem sabe vocês conseguem passar?”, fomos nós três. Quando eu cheguei em casa, que eu dei a noticia, nossa, foi um auê.
P/1 – Isso da sua mãe, dos seus irmãos? Geral!
R – Geral! Uma que a escola era longe, eu morava na Vila Sônia e a escola era no Caxingui, ia ter que pagar condução ou uma boa caminhada. Aí, eu fiz a ficha, eu mesma fiz a ficha para ir. Aí no dia da prova, era noite, quem queria comigo? Foi muito difícil até conseguir um dos meus irmãos que era o mais apegado a mim, que chama Valter. Consegui fazer a cabeça dele, ele me levou, ficou sentado no dia da prova. Aí dia do resultado, então para passar, nota cinco passava, já ia fazer o ginásio, eu tirei quatro vírgula 55, não passei. Os outros tiraram três, os outros dois, um tirou três, o outro tirou quatro, eu fui a que tirei mais. Aí que eu entrei em desespero. Aí eu tinha que fazer o cursinho de admissão, falava na época. Esse cursinho era de dezembro e janeiro e fevereiro, só. Tinha que pagar, aí cheguei em casa, implorei, chorava, me descabelava, tinham quatro irmãos que trabalhavam, já, um pouquinho de cada um, né? Mas acho que nessa época, não era tanto o dinheiro, mas como assim: mulher não precisa estudar. Logo depois, você casa, casava, não podia trabalhar, tinha que ficar em casa cuidando de filho, não podia trabalhar, mas eu queria estudar. Chorei, chorei, bom, não teve jeito, desisti. Aí eu falei: “Bom, quero fazer datilografia”, fui na escola na Vila Sonia, cheguei lá… e tudo era eu que fazia, fui sozinha, peguei a ficha, tinha que pagar tanto. Cheguei em casa  e conversei com eles, tudo, foi a mesma coisa: “Mulher não precisa estudar, pra que você quer fazer?”, não fiz e fiquei sem estudar. Aí, quando estava com 16, 15, 16 anos, não me lembro bem agora, minha irmã morava na Vila Sonia e nós morávamos no Monte Kemel, eu ia andando, era um pouquinho longe, eu ia andando e fui lá, passei, tinha uma loja na Avenida Francisco Morato, uma placa: “Precisa-se de balconista”, eu era muito vergonhosa, vergonha assim, era o máximo. Cheguei na porta da loja, aquele homem de cara fechada, fortão, barrigudo e uma jovenzinha do outro lado do balcão, aí entrei, ela foi me atender. Eu falei: “É que tem uma placa precisando de balconista”, aí ela falou: “Fala com ele”, um sírio. “Você quer trabalhar?”, falei: “Quero” “Você já trabalhou?” “Não. Primeiro serviço” “Por que você quer trabalhar?” “Porque eu quero ter as minhas coisas” “Pode começar amanhã”, mas aí, ninguém da minha família sabia ainda, isso era eu e o dono da loja. E o meu irmão morava perto, aí eu fui. Cheguei lá, ele trabalhava numa fábrica que chamava Regência e vinha almoçar em casa. A Regência era no Caxingui e ele morava na Vila Sonia, era perto. Aí, estamos almoçando lá, eu, minha cunhada e ele e eu falei: “Aí, você vai trabalhar?”, falei: “Vou. Eu preciso das minhas coisas”, aí cheguei em casa e falei pra minha mãe, minha mãe entrou em prantos de choro, como se tivesse acontecido uma coisa grave: “Minha filha, tu não precisa trabalhar, você tem tantos irmãos”, eram quatro solteiros na época, “… quatro irmãos aí, eles te sustentam” “Eu quero trabalhar, mãe, eu quero trabalhar. Eu não vou aprender, vocês não deixaram eu estudar, ninguém quer nada, tudo que eu quero…”, aí comecei a; “Eu vou estudar, eu vou trabalhar, sim”. Aí eu percebi que tava na hora de eu pôr a mão na frente e falar: “Eu quero”, eu vou agir, “não filha, tu não vai” “Vou mãe”, aí no outro dia, eu levantei e fui trabalhar. Aí toda contente, cheguei lá, mas uma vergonha, que era coisa fora do comum. Aí a menina conversando comigo, me explicando alguma coisa, falou assim pra mim: “Eu só vou trabalhar essa semana”, quando ela falou que só ia trabalhar aquela semana, eu me assustei, eu falei: “Mas por que você vai sair?” “Deus me livre de trabalhar aqui, esse homem não vale nada, ele é horrível, eu tô aqui só esperando alguém entrar”, naquele momento, a minha vontade era chegar nele e falar: “Eu não venho mais também”, mas eu queria o meu dinheiro, eu queria as minhas coisas, falei: “Vou tentar”, e ela não ficou nem uma semana e saiu. Aí fiquei com aquele homem carrancudo, sírio, aquela cara fechada, a esposa dele, vamos supor, era… empregada, hoje em dia empregada é bem tratada, ela não passava de uma empregada dele, estupido, bruto e eu falei: “Não, vou ficar”. Aí, elogiava que essa menina ficouquatro meses, como se quatro meses fossem quatro anos, aí eu fiquei, em casa, todos contra. Quando soube… e pra eu chegar em casa e falar que a menina tinha ido embora, que era eu e ele sozinho. E a coragem? Aí: “Vocês não vai mais”, meus irmãos: “Você e aquele homem sozinho?”, aí foi… “Eu vou”, e continuei, até um dia que eu dei um tapa na cara dele, né, porque ele veio me dar um beijo, eu simplesmente… aí, me pediu desculpas e eu não podia falar para os meus irmãos que eram muito valentes, aqueles baianos bravos, né, aí não falei nada pra ninguém, cheguei em casa, assim, toda… se eu falasse isso, inclusive, ele foi padrinho de casamento de um dos meus irmãos, não tive coragem de falar para a minha mãe, para ninguém, ficou só comigo, mesmo. Ele pediu pra fazer… o café dele, o sírio coloca a água pra ferver, enquanto a água ferve, coloca o pó ali para deixar assentar, depois toma aquele café sem coar e ele também fazia o leite do filho dele de dois aninhos, que ele também trazia todos os dias. Ele fazia o leite. Aí, ele falou assim pra mim: “Iris, vai pôr o pó pra mim?”, aí quando ele falou “pô”, eu pensei que era o leite em pó, era água que era para fazer o café e fui fazer o leite. Aí ele chegou assim: “O quê que você fez?” “Não era o leite do…”, esqueci o nome do menino, ele falou assim: “não, é o pó de café”, eu falei: “Desculpa, eu não entendi”, fazia o quê? Uns quatro, cinco meses que eu estava com ele. Aí ele colocou a mão assim, eu tava perto da piazinha, que tinha um fogãozinho, pequenininho, tipo um espiriteira, ele pôs a mão assim e aí, ele beijou o meu rosto. Aí, eu não vi, quando eu vi, eu já tinha batido nele. Ele falou: “O quê que é isso?”, eu disse: “O quê que é isso digo eu”, eu falei: “Você já pensou se eu contar para os meus irmãos? O que vai ser do senhor?”, ele falou assim, quase se jogou nos meus pés: “Nunca mais, é a última vez”, falei: “Eu não vou trabalhar mais aqui, eu vou embora” “não, não faz isso, não me deixe”, e eu acabei ficando pra que os meus irmãos não percebessem, não contei nada. Aí, fiquei trabalhando lá com ele, trabalhei uns dois anos e pouco…
P/1 – Loja do quê? O quê que vendia? Quem era o publico? Tinha circulação, assim, ou era uma loja pequena?
R – Loja pequena.
P/1 – Bem pequena, assim, de bairro?
R – Tinha o Instituto Ana Rosa na Vila Sonia e do lado, era no terreno do Instituto Ana Rosa, hoje não existe mais, foi demolido. E eu fiquei, depois, alugamos uma casa dele, no Jardim Peri Peri, meus irmãos alugaram porque o meu irmão arrumou uma mulher, pôs dentro de casa para dormir tudo junto, foi um problema muito sério e os meus irmãos não queriam, né, que dormissem tudo junto, aí alugamos a casa dele, ficamos morando lá na casa dele e aí, passou o ano, ele veio com um aumento estrondoso, que por lei não dava, aí os meus irmãos foram até o DEIC na época, resolver essas coisas no DEIC e não tinha direito aquele aumento, então os meus irmãos não pagaram, aí eu resolvi sair de lá. Aí, sai de lá, aquele clima tava muito pesado e continuei assim, eu queria trabalhar, fui trabalhar no Bazar 13 também trabalhei lá um pouco, mas aí era só temporário, na época de festas, mas eu precisava trabalhar e continuei assim, trabalhando, depois, fui trabalhar numa fábrica de roupas na rua Teodoro Sampaio, trabalhei um bom tempo, aí a minha chefe casou e saiu do serviço e eu fiquei no lugar dela, que era uma loucura, muito trabalho, muito corre-corre e eu já tinha completado 18 anos lá. Completei lá nessa loja que chama Cori, essa loja ainda existe, é de roupas finas, femininas. E eu cheguei e falei: “não dá. Vocês estão me pagando o mesmo que estavam, que eu pregava botão, só, agora, eu peguei tudo e vou ficar ganhando…?” “Não, vamos deixar para o mês que vem”, passaram dois meses, daí eu pedi a conta. Nesse pedi a conta, eu fiquei desempregada por seis meses, eu ajudava a pagar o aluguel, ajudava na despesa de casa. Aí o clima ficou pior na minha casa, minha mãe não sabia o que fazia, era tanta gente e pouco dinheiro, aí uma sobrinha trabalhava atrás da rua… da igreja de Pinheiros e falou: “Tia, eu passei e tem uma placa, precisa de maiores, não sei o quê que é, só tem a placa”, ela dormiu na minha casa para ir comigo. Aí nós fomos de manhã, ela ia trabalhar e eu cheguei lá e estava a placa. Aí eu perguntei: “Tá precisando sim, você quer trabalhar?”, e era uma tecelagem. Aí eu já comecei a trabalhar nessa tecelagem e o primeiro dia, tinha uma turma que trabalhava à noite, entrava às sete da noite e saía às sete da manhã e o pessoal da manhã entrava às sete da manhã e saía às sete da noite. Aí, quando eu conversei com o gerente, ele me chamou pra conversar, quando eu passei, as máquinas, a tecelagem é enorme, máquinas enormes, aqueles fios, de longe, você olha, parece que é um pano branco, mas é tudo fiozinho. Quando eu fui passando em frente, eu só vi duas mãos abrindo assim e falou assim pra mim… me deu um calafrio tão grande quando eu vi aquela mão… aquelas mãos e aquele rosto, falei: “Nossa, que coisa estranha que eu senti. O quê que é isso?”, tudo bem. Aí, isso, eles saíam e a gente entrava, aí quando ele saiu, um homem forte, branco, grandão, usava tamanco, aquele barulhão, trabalhava com tamanco no pé. Aí, passou, e eu sempre passava e ele olhava pra mim, aí quando fui lavar a marmita assim, no tanque, tinha um espelho até quebrado e nas costas estava escrito: “Euziário”, aí eu peguei assim e falei: “Nossa, que nome estranho”, para a minha colega que estava do lado. Ela era uma negra de quadris largos, assim, olha, os homens mexiam muito com ela, era um problema nesse serviço. Aí, ela tava comigo, essa negra. Aí ela falou assim: “sabe aquele rapaz, aquele branco que tá sempre de tamanco? É ele.” “É ele?!” “Nossa, por quê que você falou assim?” “Não, por quê?” “Nossa, você gosta dele?” “Eu não” “Nossa, parece que você gosta dele” “Imagina, eu nem conheço ele”, nunca tinha namorado na minha vida. Aí, eu usava uma capa porque saía muita poeira, porque eu trabalhava na urdideira e saía aquele pozinho, às vezes, sujava a mão de graxa, então usava uma capa por cima da roupa. Aí, usei segunda, terça e quarta, aí quinta-feira, tava muito suja, não usei. Ia levar para lavar, aí quando cheguei em casa, minha mãe enfiou a mão no bolso, minha mãe não sabia ler e nem escrever, ela falou assim: “Minha filha, o quê que é isso aqui? É um bilhete?”, aí eu comecei a ler em voz baixa. Eu comecei a tremer. Até chegar a esse ponto, eu me sentia a moça mais feia, qual era o homem que ia namorar comigo e casar comigo? Aquele problema de desmaia, de passar mal, de ir para o pronto socorro era dos nervos, quer dizer, era uma depressão, mas naquele tempo, era doença dos nervos. Então, esse serviço que eu trabalhei, eu passava por esses problemas, sempre no médico. Aí começava a tomar aqueles calmantes fortes. Me deixava a mão trêmula. Aí, quando ela falou isso, ela falou: “Você gosta dele?”, aí eu falei: “Nem sei, só sei que é…”, tal, bom, aí quando a minha mãe pegou o bilhete, aí eu vi que era ele, porque o espelho que deixava lá estava escrito o nome dele que eu perguntei também para a menina: “Quem é esse Euziário?”, aí no bilhete: “Eu gostaria de conversar com você. Gostei tanto de você no primeiro dia”, as minhas pernas tremeram. Aí, a minha sobrinha tava ali junto, falou: “O quê é minha filha?”, eu falei: “Nada mãe, é da fábrica lá o quê que eu tenho que fazer amanhã, lá”, aí a minha sobrinha que a minha mãe criou, ela já tinha namorado trocentos e eu, nenhum. Me chamava de caipira, de boba… minhas sobrinhas são tudo assim perto de mim, as idades, né, que 15 filhos, eu fui a última, então, eles foram casando e tendo os filhos. Aí, ela falou assim: “você vai responder o bilhete” “Eu não” “Você não vai responder? Eu respondo para você”, ela me chamava na época de tia Cota, eu tinha o apelido de Cota, “Tia Cota, se você não for fazer isso, eu vou escrever e vou mandar alguém levar lá na fábrica. Quando que você vai começar a namorar, você tá ficando besta, vai ficar para titia?”, só que até aí, eu tinha um sonho de ser freira, porque eu achava que eu era muito feia, que ninguém queria se casar comigo, então eu queria ser freira, mas quando eu falei, uma colega minha me convidou para ir no convento que a tia dela estava lá, minha mãe quase deu um troco. Achou que eu já ia ficar lá. Ela não deixou eu visitar a tia da minha colega. Aí: “Você vai responder”, eu falei: “Tá bom, eu respondo”, e respondi e ficamos se comunicando com bilhetes, eu tenho até hoje guardado e ele tem os meus. Aí, marcamos um encontro, começamos a namorar…
P/1 – Calma. Calma aí, começamos a namorar? Como foi? Qual foi o primeiro encontro?
R – O primeiro encontro foi na Avenida Francisco Morato, em frente uma farmácia, que eu morava na Vila Morse, na esquina da Francisco Morato com eu esqueci o nome da rua, a rua principal que sobe o ônibus da Vila Sonia. Marquei um encontro com ele lá pra eu ver, saber, era muito escondido. Mas eu era tão assim…
P/1 –Vocês foram numa sorveteria? Vocês foram em algum lugar? O quê que foi?
R – Se nós fomos?
P/1 – É. Vocês foram passear?
R – Não. Só foi ali.
P/1 – Só para se falar? (risos)
R – Só (risos). A minha mãe me criou de um jeito assim, tudo perigoso, tudo é perigoso: “Cuidado com os homens”, e eu tinha aquilo, ainda o problema da minha depressão, as palavras da minha mãe, assim, ficavam dentro de mim. Tudo eu tinha medo. Aí, conversamos naquele dia, tudo, de mãos dadas, ali. Aí, eu falei para ele que eu sabia que era o primeiro dia, tal, “Eu gostei de você…”, e ficamos naquele papozinho. Aí, não falei nada em casa, né, que foi rapidinho, também. Ele foi embora, eu fui para casa. Aí quando foi um dia, ele quis me acompanhar até perto da minha casa, eu falei: “Não, não vai. Eu não quero que ninguém saiba por enquanto, vai ser um problema na minha casa”, aí foi até a esquina da minha casa. Quando nós estamos ali na esquina, até aí, não tinha dado nem um beijo, a gente ia fazer quase um mês e ele me beijou e quem passa em frente? O meu irmão. Eu pensando que estava tão escondido. Ele passou, quando eu vi, meu irmão. Era o irmão mais querido meu, continua a ser. Aí quando eu cheguei em casa, ele me chamou: “E aí?”, falei: “Não, faz uns dias, só”, e realmente, fazia pouquinho tempo, “E ele não vai vir aqui?” “Vai”, conversei com ele, conversei com a minha mãe, levei ele em casa, que é o meu marido até hoje, né, e foi muito bom. Eu comecei a me descobrir depois assim, eu não me valorizava de jeito nenhum, eu me olhava no espelho, eu conversava comigo, comigo, não, com o espelho: “Quem vai querer casar comigo? Eu sou muito feia”, eu conversava com o espelho sozinha. E no primeiro dia que eu vi, eu falei: “Nossa, que homem bonito”, só pensei, não ia imaginar que iria ser o meu marido, né? Realmente, muito bonito. E começamos a namorar…
P/1 – Trabalhando juntos, ali…
R – É.
P/1 – Turnos diferentes?
R – A gente só se via na entrada e na saída. Aí, já começamos a frequentar… eu frequentar a casa dele, ele, a minha casa. Aquele namoro muito sigiloso, que eu tinha sobrinhos, que a minha irmã veio morar com a gente, quatro filhos, se separou do marido, era tudo junto e ali, com o maior cuidado. Ir ao cinema, nunca, tinha que levar um sobrinho junto, sozinhos, não. Aí, uma vez, tinha o tio dele que morava no Jaguaré e nós combinamos de almoçar lá na casa desse tio dele. Aí, de manhã, eu tô me arrumando e eu tinha sempre uma das sobrinhas que tinha duas meninas, sobrinhas minhas pequenas, eu sempre levava uma quando saía com ele. Aí, quando eu tô assim, minha irmã se arrumando para sair, eu falei: “Pra onde você vai?” “Vou para a casa da Ermita, que é uma outra irmã minha que morava no Pirajuçara. Mas aí eu falei: “Eu ia sair hoje com o Euziário e as meninas? Deixa uma comigo”, aí nenhuma quis ficar comigo, queriam… porque era mato, correr, brincar: “Quero ir com a minha mãe”. Aí, minha mãe falou: “Sozinha, tu não vai”, não podia sair sozinha com ele, de jeito nenhum. Aí, eu falei assim: “mãe, o tio dele tá lá esperando a gente pra almoçar”, e a minha mãe ia também para essa casa da minha irmã: “Não…”, aí ficou brava comigo e fomos. A gente tomava o ônibus na Vila Sônia e descia na paineira e ia para o Jaguaré. Quando chegou na Paineira, eu falei pra ele: “Eu não vou mais para a casa do seu tio” “Não acredito!” “Não, não vou, não gosto das pessoas ficarem desconfiadas de mim, pensando. Pegamos um ônibus de volta e fomos lá para a casa da minha irmã lá no Campo Limpo, Pirajuçara. Aí, quando descemos, tinha uma escadinha de terra, uma casinha bem humilde, tava descendo, aí todo mundo lá, bateram palmas: “Não acharam ninguém lá! Tá vendo? Bem feito”, tudo rindo. Aí, as lagrimas caiam: “O quê que foi que aconteceu? aí eu falei assim para minha mãe: “A sua filha tá aqui, perfeitinha, do jeito que nasceu.Pra eu ir lá e a senhora ficar aqui pensando mal de mim, eu tô aqui”, aí ela ficou numa tristeza, que ela era assim, mas ela era muito boa pra mim: “Mas que bestagem! Por que que vocês não foram?” “Ela não quis ir, eu não forcei” “Não, mãe, tô aqui, não tenho que estar junto com você, não tinha nenhuma criança pra ir comigo e eu sozinha com ele é perigoso, né, muito perigoso”. Aí ficamos lá, esse dia marcou muito pra mim, também, foi muito triste e ele concordava com tudo: “Não fica assim, deixa, o que é isso?”, e eu ficava: “Onde que tá a confiança?”, não era mais criança. Aí nesse dia eu falei pra minha mãe: “Mãe, se eu quiser aprontar, fazer o que a senhora pensa, eu já tinha feito, a gente dá um jeito. Eu não quero”. Aí, ficamos por lá, um monte de gente lá na minha irmã e esse dia foi muito triste pra mim, eu não tinha alegria, porque eu não sabia até quando a minha mãe não ia confiar em mim, até quando isso, né, e o namoro continuava e assim, todos gostavam muito dele, muito amigo de todo mundo, se ele chegava numa casa, o armário tava com problema, ele arrumava, se o ferro não esquentava, ele arrumava, se o chuveiro parou de funcionar… tudo era assim, então os meus irmãos tinham um carinho muito grande com ele e é uma pessoa, assim, fora de série. Bom, quando preparamos o casamento, eu tava mais ou menos certo, a data não tava ainda, mas já tava tudo já certo, o enxoval, como falavam, eu era pobre de espirito de rico, né, eu fiz um enxoval muito bom, muita coisa que o povo pobre não fazia, mas eu conseguia fazer…
P/1 – Por exemplo?
R – Enxoval?
P/1 – É, o quê que era o diferencial, por exemplo?
R – Assim, eu consegui comprar, por exemplo, os jogos de lençóis, sei jogos que na época, o pessoal comprava dois, achava que tinha que ter mais. Cobertor, fui na loja e comprei o mais caro que tinha que era o mais bonito, que era um verde florescente, assim, aquele verde que seus olhos doíam, parecia uma luz assim, lindo, lindo. E ele concordava com tudo, comigo. Os móveis, fomos escolher, escolhemos o melhor, o mais bonito que tinha, mas tudo pobre, viu, eu e ele e ele dava o envelope na mão da mãe dele, não podia abrir o envelope. Era filho de italiano, ela italiana bruta, grossa e boa, né? 
P/1 – Ele tinha uma origem também humilde, assim, de ajudar em casa…
R – Sim. O aluguel era dividido, cada um tinha o seu tanto para pagar. A despesa do açougue era eu que pagava, minha mãe comprava no açougue, eu que pagava…
P/1 – Mas isso, você. Mas ele também? Na casa dele lá também era assim?
R – Ela que pegava, ela que abria o envelope e dava o dinheiro da condução para ele. Se precisasse comprar uma roupa, ele falava, aí ela dava, mas era assim, ela que abria o envelope. Aí, fomos ver os móveis, me encantei com o mais bonito e fui com essa ideia de que parecia o mais caro também, lá na Teodoro Sampaio, naquela época, você podia fazer assim, você comprava e você pagava quanto você podia, só que o móvel ficava lá na loja, você não trazia para casa. Só trazia quando terminasse de pagar a última mensalidade e não tinha um x para você pagar e foi assim até a gente chegar na época do casamento. Então, o móvel já tava praticamente pago, meu vestido eu encomendei um ano antes, foi o mais caro que eu achei na vitrine, o mais bonito. Eu era muito vaidosa, então eu tinha muito apelido: espirito de rico, que eu comia não sei o que e arrotava caviar, era eu e ele sabe, até hoje, eu sou chata, né? Mas aquele jogo de quarto encantou os meus olhos.
P/1 – E o casamento, como foi?
R – Então, aí faltava pouco tempo, né, não tinha marcado ainda. Eu tava muito doente. Eu sempre tava doente, que era depressão, doença dos nervos, tomando calmante. Aí chegou um dia que eu acordei para a vida: ‘Eu não posso me casar”, e trabalhava à noite. Eu não fui trabalhar e ele passou em casa, aí eu deitada, aí eu tirei a aliança do dedo e falei: “olha, não vou casar mais” “Por quê?” “Porque um dia, eu tenho certeza que você vai chegar e falar pra mim que você casou com uma farmácia. Eu vou ser a farmácia da sua vida. Eu no quero isso. Você não merece casar com uma pessoa tão doente como eu”, aí ele começou a chorar, não quis pegar a aliança, eu falei: “Eu não quero”, tá. Isso, a casa dele eram duas quadras abaixo da minha, não passou dez minutos, a minha sogra chegou em casa, ela bem espalhafatosa, doidona, assim, e eu tava deitada ainda, ela só chegou assim, minha mãe: “Oi” “Cadê a  Iris?” “Tá deitada”, o que tinha a minha sogra de… tinha a minha mãe de pacata, lado oposto: “Que negócio é esse que o Euziário chegou lá pra mim falando isso, isso, o quê que aconteceu?”, aí eu falei o mesmo que eu falei para ele, eu falei: “Eu não quero. Ele, a senhora, a família, tudo vai falar que ele casou com uma mulher doente e eu não tenho condições, olha o meu estado, eu só vivo assim, como que eu vou casar?”, aí ela falou assim: “Será que você não percebeu que você tem que sair dessa casa?”, que era assim de sobrinhos, a minha irmã com quatro e a minha outra irmã viúva com mais dois e brigas entre crianças, meu irmão teve um dia de pegar as quatro crianças e falou assim: “Eu vou matar os quatro e depois eu” e saiu correndo na rua pra jogar as crianças debaixo do ônibus. Eu e a minha mãe correndo atrás dele, então tava um clima muito pesado também na casa, assim. Aí, a minha sogra: “Você não tá vendo que você tem que sair disso aqui? Vocêtem que ter o seu cantinho, vocês dois. Vocês se amam, você tá sofrendo aqui, e ele lá, meu filho tá lá se matando de chorar e você também chorando por causa dele”, ela foi bem grossa e… aí, também não falei nada, aí no dia seguinte, ele passou de manhã de novo, aí veio com a aliança na mão, aí eu peguei, aí marcamos o casamento, já tava tudo em ordem, tudo muito bonitinho, casamos no dia 1 de março, casamos no civil, que eu não queria casar nos dois no mesmo dia, que eu queria tudo muito tranquilo. E depois, dia 14 de março de 70, casamos na igreja. O vestido eu comprei um ano antes também, que foi um dos mais caros, deixei lá pra pegar na véspera. Quando faltava um mês, aí era pra provar o vestido. Um mês depois, era pra pegar, quando eu voltei lá… ela ia fazer, não era só provar, ela ia fazer o vestido, tirei as medidas, tudo. Aí quando faltava um mês, eu voltei lá para provar, quando eu provei, a dona da loja chamou a costureira e falou assim: ‘Puxa vida! Você tava tão distraída, você errou nas medidas. O vestido tá um saco no corpo dela!”, eu falei: ‘Não, não é. Em um mês, eu emagreci dez quilos preparando o meu casamento”, eu fiz cortina da casa inteira que eu ia morar, fiz a colcha do dia, fiz o meu vestido do civil, fiz costura pra mim, dormia as duas horas da manhã, deitava mas não dormia. Eu casava todas as noites. Eu via a casa que eu ia morar todas as noites. Aí fiquei meio assim, e com isso, emagreci dez quilos, estava com 57, parei no 47, foi o peso que eu casei. Aí, teve que apertar todo o vestido e foi um casamento, assim, que eu queria do meu jeito. Nessa época, o bolo da noiva chamava colchão de noiva, era aquele bolo grande, baixo, como se fosse um colchão, eu queria o colchão de noiva, que era o mais caro. Era muito exibida sem ter, né, pobre!Mas não tive ajuda de nenhum dos irmãos, ajudando em casa com o meu dinheiro e quando eu fui trabalhar nessa tecelagem que eu conheci ele, fui ganhar muito melhor que era urdidora e a urdidora era uma das máquinas, ser o tecelão ganhava mais. Fui ganhar muito bem e graças a Deus, deu para eu fazer o enxoval do jeito que eu quis, foi muito bom. E aí, veio o casamento. Mas eu queria viajar, eu queria álbum do casamento, que nessa época, ninguém fazia, pouquíssimas, mas: “Eu vou conseguir o álbum de casamento”, daí fomos viajar para Caraguatatuba, minha sobrinha já era noiva, o noivo dela trabalhava com taxi e nós íamos para Caraguatatuba e ele ia levar a gente até a rodoviária e o ônibus ia sair às seis horas da manhã e não chegava, e não chegava… fomos de ônibus comum, chegamos em cima da hora, quando nós entramos no ônibus, eles chegaram atrás, a minha sobrinha com o noivo. Aí, dentro do ônibus, me deu uma crise de choro, comecei a chorar, chorar, chorar, mas era tudo da depressão, né? Aí, ele não queria viajar mais. “Não, não vou. Vamos descer do ônibus. Aproveita que eles estão aí, a gente vai embora”, e eu não queria ir. Eu tinha vergonha de ir dormir na minha casa e no outro dia, ver as pessoas. Não queria viajar porque eu tinha medo de um homem comigo na cama. Então, foi uma fase bem complicada. Aí eu falei: ‘não vou viajar”, minha sobrinha que tava lá perto, viu a cena: “Tia, pelo amor…”, e ela andava totalmente diferente, eu fui a mais tonta: “Tia, pelo amor d Deus, chega! Não era o que você queria? Para de chorar. Que coisa mais feia”, e quanto mais ela falava, mais eu chorava. Chegou a hora de partir e partiu. Gastamos seis horas de viagem, certinho.
P/1 – Para Caraguá?
R – É, estrada todinha de terra, muito abismo, nossa! E o ônibus bem devagarinho. Aí chegamos lá, aquele monte de molequinho pra pegar as bolsas, já levou a gente pra uma pensão e fomos. Aí chegamos lá, tomamos um banho e a cena que eu fiquei meio assustada, mas tinha que ser, né, mas pra mim era tudo novidade, tudo era medo, tudo era pavor. Depois, curtimos bem. Aí quando foi… isso, nós chegamos domingo ao meio-dia e na segunda-feira à tarde oi que nós conseguimos fazer algo que foi satisfatório, aí fomos comemorar. Nessa comemoração, o que aconteceu? Ele pediu a comida mais cara, melhor que tinha, acho que tinha camarão, salada de pepino e uma cerveja. Acabamos de jantar, ele começou a passar mal. Aí, quando eu lembrava da distância que eu estava, eu e ele sozinhos, falei: “Meu Deus do céu”, aí paramos numa padaria, ele quis ir ao banheiro e eu fiquei andando pra lá e pra cá, enrolando os dedos, tensa, nervosa. Aí o dono da padaria falou assim: “Você tá nervosa? Aconteceu alguma coisa?”, eu falei: “É que o meu marido não tá passando bem, ele foi até o banheiro e até agora, não voltou” “Vai lá, vai lá ver”, nossa que vergonha quando o dono falou para eu ir lá ver ele no banheiro. Aí quando eu cheguei, ele tava sentado, caindo assim. Aí, eu levei, saiu do banheiro, aí o dono da padaria falou assim: “Olha, eu tenho um comprimido aqui que é o Engov”, nunca tinha visto, foi a primeira vez, porque a cerveja com o pepino fez mal para ele, que era salada de pepino.
P/1 – Não foi o camarão que tá intoxicado?
R – Não, foi a cerveja com o pepino. Aí, ele tomou aquele Engov, sentamos na praça, voltou tudo ao normal, ficamos ali um pouquinho, esperando. Aí voltou ao normal. Aí na quarta-feira, retornarmos para casa, quando eu cheguei na minha casa que eu ia morar, estava todinha arrumada, porque eu não cheguei a ir para a minha casa, da casa da minha mãe, mesmo que estávamos, nós já viajamos. Os presentes ficaram todos na minha mãe. Aí, as minhas sobrinhas que eram várias, né, levaram tudo para a casa que a gente ia morar. Quando abri a casa, aquilo ali tava tudo no seu ugar, tudo arrumadinho: prato, panela, os presentes tudo lá. Casamento maravilhoso, tudo bem e assim, a vida foi passando. Aí, no primeiro mês, ele ficou preocupado, porque ele queria filhos logo de cara e não deu e achou que tinha que procurar médico e na minha família todo mundo tinha filhos e era ele, falei: “Calma, não é assim, não”, só que no segundo mês já engravidei, aí minha filha nasceu no dia sete, a Claudia, dia sete de janeiro de 71 e eu tinha casado em março de 70, não chegou nem a um ano. Aí veio uma criança linda, maravilhosa.
P/1 – E essa questão dos medos, essa… toda essa questão da sua formação, de ter medo, inclusive de tomar… isso passou com o casamento? Imagino que você foi amadurecendo, foi se transformando, né?
R – Foi. O casamento melhorou muito, né? A minha mãe falava pra mim assim: “Minha filha, você não só casou, você ganhou um pai, o pai que você não teve”, porque ele, realmente, foi um pai e marido para mim, compreensível, muito… e a chegada do filho foi assim, muito bom. Uma criança muito linda que chamava a atenção de todo mundo e assim, foi sempre querida por todos…
P/1 – Continuando trabalhando na fábrica?
R – Quem?
P/1 – Você…
R – Não.
P/1 – E ele na tecelagem, não?
R – Não, porque aí, antes de casar, eu fui mandada embora da tecelagem que eu trabalhava com ele. E agora, não sei se fui mandada embora ou pedi a conta. Não, eu pedi a conta, porque tinha uma outra fábrica que ia me pagar mais, que era o mesmo serviço, porque eu fazia trabalho de urdidora e urdidora é um serviço muito… como se fosse um carretel de linha, mas um carretel de metal grande e ali, você tem a urdideira e você vai passando tudo, parece assim que é um pano grande que tá enrolado. Então, exige muita dedicação, se quebra um fio é defeito no tecido depois, então eles pagavam muito bem na época. E aí nessa época, eu achei uma que pagava quase o dobro do que eu estava ganhando nessa primeira e ele também já tinha saído dela e já tava trabalhando em outra fábrica na Lapa. Eu trabalhava em Pinheiros. Aí essa outra que eu fui trabalhar foi também na Lapa, mas antes dele, eu foi mais pra frente, ainda. Aí foi onde eu completei mais o meu enxoval que subiu bem o meu ordenado, né? Só que naquela época, casar, nada de trabalhar.
P/1 – Seu marido pensava assim, também?
R – Todos! A mulher que trabalhava, o homem não tinha capacidade de casar, ele levava o nome de… e eu tive que pedir a conta. Aí, depois eu queria trabalhar, ele não deixou. Aí casamos, veio a primeira filha…
P/1 – A Claudia.
R – Claudia e a situação foi ficando mais difícil, né, uma criança a mais e eu sempre gostei de ter as minhas coisas boas, sei lá se fazia bem pra mim ou se fazia mal. Aí depois, eu comecei a trabalhar num grupo de mães da igreja do Caxingui, você trabalhava lá, eram trabalhos manuais e eles vendiam e a gente ganhava aquela coisa pouquinha e era um momento de distração, era muito bom, inclusive antes da minha filha nascer, eu já tava lá, nesse grupo, inclusive, tinha um cesto de vime, grande, e tinha o pedestal para pôr em cima e quando eu bati os olhos, eu tava no começo da gravidez, eu falei assim: “Um berço para a minha filha”, e eu comprei, era um valor simbólico. Eu comprei aquele berço e enfeitei ele, forrei ele todinho de renda, com passa fita, era… sabe um bolo bem enfeitado? Pessoal falava: “Iris, parece mais um bolo do que um berço”, era muito lindo. Minha filha nasceu nesse berço divino. Então, quando nasceu a primeira, eu comecei a costurar para fora, fiz plaquinha, costurava para fora. Depois, meu marido mudou de fábrica, trabalhava em tecelagem, foi trabalhar já no Embu, perto da BR e ele achou melhor que a gente mudasse pra lá, pertinho da firma. Aí, mudei para lá, minha filha quando completou um ano, a gente já tava nessa casa, depois fiquei grávida da beleza aí, né…
P/1 – Da Débora.
R – Da Débora, e quando eu fiquei grávida dela, a minha mãe já estava morando com uma das minhas irmãs, que essa minha sobrinha que a minha mãe criou construiu um quarto e cozinha. Aí, essa minha sobrinha já ia casar e eu não queria deixar a minha mãe sozinha, porque o quarto dela era separado e ela deu a ideia pra mim: “Tia, o quê que você acha da gente alugar uma casa grande, divide o aluguel, a despesa para a minha mãe, porque não quero deixar a minha mãe sozinha”, e foi o que aconteceu. Eu tava grávida de sete meses dela e aí, fomos procurar casa lá, já na Vila Sônia, novamente e quando estava arrumando a mudança, a Claudia estava sentadinha no peniquinho e ela começou assim e eu: “Filha, para”, e ela não parava, “Filha, você vai cair”, aí ela se esticou tudo, aí deu convulsão. Aí, eu comecei a gritar na rua de dia, o meu marido não estava, até alguém chamar a ambulância e peguei ela como morta nos meus braços. Chegamos até o pronto-socorro e até aí, eu não sabia o que era convulsão, né? Aí, tratamento, remédio… ela voltou ao normal e a convulsão se ela dá, fica normal, tudo bem. Eu já fazendo todas as embalagens da mudança. Aí, mudamos para o Campo Limpo, uma casa grande e ficamos morando lá. Foi quando aí ela nasceu, já nasceu no Campo Limpo. Aí, quando eu fui para a maternidade para ganhar ela, eu entrei em pânico. Eu não me conformava de deixar a Claudia. Aí falei para a minha mãe: “Mãe, por favor, eu vou para a maternidade, eu não sei se eu volto”, porque antigamente, tinha esse negócio, né? “Cuida da minha filha, mãe, tenha paciência com ela”, nossa, minha mãe ficou no desespero quando eu falei isso, né, depois vim para casa, moramos um tempo lá no Campo Limpo, aí depois foi quando… isso junto com a minha mãe e depois, a minha sobrinha resolveu construir na minha irmã. Foi nessa época. Construiu no quintal da minha irmã para a minha mãe ficar junto, ficou lá. Só que aí, a minha irmã teve problema, teve que sair da casa, problema de filhos e tal e aí, minha mãe veio morar comigo depois. Quando a Débora nasceu, minha mãe ainda estava comigo. Depois, nós mudamos porque o meu marido comprou um terreno lá no Embu e os alugueis lá eram muito baratos e aí, acharam melhor que mudássemos para lá para ficar perto da construção e nessa época, minha mãe tava morando com um dos meus irmãos. Minha mãe morava lá no Embu, Jardim Santa Emília. Depois, nós ficamos juntos. Ela nasceu no Campo Limpo, depois nós mudamos lá para o Embu, compramos um terreno também, só que aí, chegou uma hora que recebemos uma carta de cobrança para comparecer em 24 horas. Fazia seis meses que a gente não pagava, meu marido não me deixava trabalhar fora, eu como costureira, um bairro muito pobre lá, poucas pessoas, pouca gente, ninguém ou não pagava, ou não aparecia costura. Então, não ia para frente. Aí, veio carta de cobrança, meu marido foi até lá, eles combinaram de pagar de duas em duas até normalizar, mas ele não tinha esse dinheiro. Aí, ele emprestou de um vizinho nosso metade e metade a minha sogra emprestou e deu a entrada de duas mensalidades e ficou pagando… eu falei pra ele: “Se você quer construir, se você quiser criar os filhos, eu tenho que trabalhar. Pagar aluguel não dá mais”, e foi que ele acabou concordando. Fuitrabalhar… minhas sobrinhas trabalhavam na rua Augusta e falaram: “Tia, tem uma mulher que tem oficina de costura e tá precisando de uma costureira. Você não quer trabalhar lá? é uma travessa da rua Augusta”, aí fui. Sem vontade, né, aí fui trabalhar. Essa daqui chupava chupeta na época e fizemos uma cerquinha, a casa que nós morávamos era de aluguel e não tinha nada, só uma cerquinha e ela ficava o dia inteiro ali naquela cerquinha com aquela chupeta, porque nunca tinha ficado sem mim, a outra já entendia mais. Foi um momento assim, muito triste pra mim de deixar as filhas…
P/1 – Elas ficavam com a sua mãe?
R – Não, aí a minha mãe não tava ainda. Não, minha mãe já estava já… ela morou comigo no Campo Limpo… não, minha mãe já tava morando com um outro irmão, que meu irmão separou da mulher e levou a minha mãe com ele. Foi morar também lá no Jardim Santa Emília. Eu sei que foi um momento assim, muito difícil pra mim, pra eu trabalhar. Mas com um mês que eu estava trabalhando lá, o dinheiro era pouco. Aí minha sobrinha falou: “Tia, a loja em que eu tô trabalhando, tá precisando de vendedora” “Não, mas uma loja super chique” “Vamos, você fala que já trabalhou”, como de fato, trabalhei dois anos e ouço, né, lá com 16 anos e fui trabalhar na loja Verano que tava inaugurando no shopping Ibirapuera, já tinha inaugurado, mas tinham muitas lojas começando. Aí eu fui trabalhar nessa loja Verano que existe até hoje. O primeiro pagamento que eu estourei nas vendas que era por comissão, o primeiro pagamento, nós já demos entrada no material de construção, porque naquela época, não comprava sem entrada, era tudo mais difícil, né? Para começar a construção. Eu sei que um belo dia, eu trabalhava até às dez da noite, das 13 às 22, no shopping, eram três conduções para ir e três conduções para voltar, muito sofrimento. Aí, com a chuva, o ônibus não vinha. Então, eu tinha que andar um pedaço enorme, muito pra chegar na minha casa. Aí, eu tinha duas sobrinhas que trabalhavam também no shopping: “Vamos pegar um taxi”, descemos no Campo Limpo, pegamos um taxi para ir até a nossa casa. O taxi foi, quando chegou no meio do caminho, o taxi não ia, barro, era só barro, barro… aí, ele deu a volta pela estrada de Itapecerica, nada também, não conseguiu, aí: “Alguém sabe dirigir?” “Eu sei” “Então, você vem que eu ajudo a empurrar”, aí começamos a pegar galhos dos matos lá e tal, pôr no pneu… aí, nessa altura, nós estávamos revestidos de barro, ele falou: “Não dá”, voltamos de novo lá para o Campo Limpo, aí deixou até o Macedônia que era um pouquinho mais perto da minha casa. Mas eu queria ligar para aloja e avisar para minha gerente que eu não ia trabalhar, que eu não tava em condições psicológicas, nervoso, cansaço. Só que a minha sobrinha tinha que ir porque ela tinha marcado encontro com o namorado no shopping: “Tia, fala que eu não estou aqui”, trabalhava comigo na mesma loja “E a Linda?” “A Linda foi lá para o Ferreira, tá dormindo lá na casa da minha irmã, ela vai, ela tá sem problemas, mas eu e a Perpetua – que era a irmã dela – nós não temos, estamos… pena que não dá para tirar uma foto pra mostrar para você”, mas eu percebi que em volta de nós três, estava uma roda de homens olhando pra gente que tinha barro. Bom, aí fomos andando para casa. E eu tenho um problema que quando fico muito nervosa, eu sinto ataque de riso, começo rir e não paro, eu começava a rir naquele barro e eu ria, e ela: “Tia, pelo amor de Deus, para de rir, você não consegue andar”, aí que eu ria mais, quanto mais ela me chamava a atenção, mais eu ria. Aí, cataram a minha bolsa, cataram as sacolas que eu tinha na mão para ver se eu andava mais rápido. Aí quando eu cheguei em casa, meu marido abriu a porta, não tinha água encanada e nem chuveiro, então ele já deixava uma vasilha com água quente para eu tomar meu banho…
TROCA DE FITA






FINAL DO ÁUDIO

Programa Conte Sua História Depoimento de Iris Nunes de Oliveira_Parte 2Entrevistada por Danilo Eiji LopesSão Paulo, 01/10/2015 Realização Museu da Pessoa PCSH_HV512_Iris Nunes de Oliveira_Parte 2Transcrito por Karina MediciBarrellaMW Transcrições


P/1 – Iris, muito obrigado por voltar aqui ao Museu para podermos fechar a sua trajetória.
R – Eu que agradeço.
P/1 – No último encontro a gente parou justamente quando você estava contando, após casar e tudo, você ficou um tempo já morando na parte lá perto da Raposo Tavares, Embu, por ali. É perto, né?
R – É, mais ou menos.
P/1 – E teve dificuldades financeiras e você voltou a trabalhar. Eu me recordo que você foi trabalhar no shopping, numa loja, e na ocasião você estava contando da dificuldade, que era muito longe, e na época onde você morava era tudo terra. Você estava contando de uma aventura ali que o carro parou, não me lembro mais com quem você estava...
R – Duas sobrinhas.
P/1 – E saíam do carro e você começava a rir nervosa, com duas sobrinhas. A gente parou ali. Agora vamos começar ou dali ou...
R – Então, eu gostaria de retornar um pedacinho, inclusive, quando era minha infância ainda, em Poções, que naquela época os bois andavam na rua. Eram boiadas, muito gado, e nessa época passava justo em frente à casa em que eu morava. Era rua de terra e geralmente o boiadeiro que vinha na frente vinha com berrante, tocando, avisando as famílias que era perigoso. Aí quando as mães escutavam os berrantes, elas já começavam: “Menina!” “Menino!” Essa época não costumava muito chamar a gente pelo nome, mas era menino e menina. “Vem pra dentro, a boiada vai passar”. Aí as crianças corriam todas pra dentro de casa. E a poeira era imensa, a poeira subia que ficava como se fosse uma nuvem. Mas a curiosidade das crianças era demais. E pra mim nessa época eu tinha como se fosse, que eu nunca tinha escutado falar em televisão, mas hoje, lembrando, é como se fosse uma televisão. Porque eu deixava um pouquinho aberta a janela para eu ver passar e era um divertimento pras crianças. A gente ria dentro de casa, gostava de ouvir o berrante tocar, aquelas coisas enormes, aquela alegria. Mas as mães também, fechavam a janela, fechavam tudo pra poeira não entrar, imagina, quando a gente via a cabecinha delas estava lá também, curiosa pra ver. Então eu lembro muito bem disso aí, até inclusive mais pra frente eu vou contar um pouco da minha situação que eu trabalhei nas escolas, eu sempre comecei a contar história contando essa primeira história minha, das boiadas. Além disso eu tenho um irmão, o Walter, ele gostava muito de contar história, principalmente noite de lua cheia, as comadres sentavam fora, uma trazia um bolinho, outra trazia um chá e as crianças brincavam ali na rua de pega-pega, brincadeira de roda, principalmente. Tinha uma brincadeira que falava assim, tinha a mãe rica e a mãe pobre. A mãe pobre é aquela que é com um monte de filha, a mãe rica era sozinha e aí a mãe rica que iniciava a brincadeira, (cantando): “Eu sou rica, rica, rica, de marré, marré, marré”. Então ela falava assim: “Eu desejo uma de vossas filhas” e citava um nome. Quando ela citava o nome, aí a mãe pobre falava (cantando): “Qual delas será?”, falava o nome. Ela citava que dava um emprego. Eu só aceitava se ela falasse que era emprego de professora, que na minha infância eu sempre tive vontade de ser professora.
P/1 – Então ficava um grupo de meninas lá, de meninos...
R – De meninas. Os meninos não brincavam junto com as meninas.
P/1 – Os meninos não brincavam.
R – Não. Não podia (risos).
P/1 – Então ficava uma turma de menina de um lado, vai, dez, e uma sozinha do outro.
R – É. 
P/1 – Daí era cantado.
R – É, era tudo cantado.
P/1 – Tudo cantado. Ela pedia o seu nome, alguém, dos dez.
R – Era a mãe rica.
P/1 – Ela propunha uma coisa. Te dou um castelo.
R – Não, era sempre emprego.
P/1 – Sempre emprego. 
R – A mãe pobre falava (cantando): “Que ofício dará a elas?”. Aí ela falava assim: “Sou rica, rica, rica, de marré, marré, marré. Eu darei ofício de costureira de marré, marré, marré”. E repetia. Aí a mãe pobre perguntava pra filha se ela queria. Se a filha não quisesse falava não. Aí ela cantava: “Ela não aceita”. E comigo era assim, se ela falasse de professora eu aceitava e passava pra ela e ia passando um a um até que ela ficava com todos os filhos, ela tornaria a mãe pobre, a outra rica e continuava a brincadeira. Era uma brincadeira bem alegre, divertida.
P/1 – Sempre cantava.
R – Tudo cantando. E enquanto isso às vezes meu irmão começava a contar história. Eu largava a brincadeira, eu sentava do lado, eu queria ouvir história. Contava aquelas histórias bonitas, eu adorava história.
P/1 – Lembra de alguma?
R – Então, eu lembro que ele contava de uma menina que a mãe dela morreu. Ela tinha os cabelos longos, dourados e depois tinha a vizinha que começou a gostar do pai da menina. Ela começou a fazer a cabecinha da menina pro pai casar com ela. Ele falava assim: “Filha, não vai dar certo”. E ela falava assim: “Pai, mas ela dá mel pra mim”. E ele respondia: “Filha, hoje ela te dá mel, amanhã ela não vai te dar mel”. Eu sei que no fim da história a madrasta maltrata muito a menina e ela põe ela pra tomar conta dos pés de figo, que o pai dela era viajante. Quando ela sabia que o pai estava pra voltar tratava bem a menina. Aí os passarinhos não podiam bicar o figo. Uma tarde ela não aguentou, ela estava muito cansada, dormiu embaixo do pé de figo e os passarinhos devoraram. E a madrasta pegou ela e enterrou ela viva. Quando o pai chegou, cadê a filha? Ela falou: “Olha, ela saiu, não voltou mais, eu já procurei nas redondezas”. O pai ficou muito triste. Aí o pai mandou o jardineiro que viu que o capim cresceu muito rápido, falou pra ele: “Por favor, vá cortar o capim”. Aí quando ele começou a cortar não seria mais o capim, já seria o cabelo da menina. Ele escuta uma voz (cantando): “Jardineiro do meu pai, não me corte meu cabelo, que a madrasta me enterrou. Xô, xô, passarinho da figueira”. O jardineiro ficou muito assustado e correu. Ele: “Não vou falar isso pro meu patrão, ele não vai acreditar”. No dia seguinte de manhã o patrão levantou e falou: “Você não cortou o capim que eu te pedi, sempre que eu peço as coisas você faz”. Ele falou: “Olha, eu estou passando mal, eu não estou me sentindo bem, não dá para eu ir” “Ah, tudo bem”. Quando foi no outro dia: “Você está melhor?” “Estou”. Ele foi e a menina cantou novamente e ele voltou, chegou lá pro patrão: “Olha patrão, está acontecendo isso e isso”. Ele falou: “O que é isso? Você está sonhando, você está delirando. Acho que você estava com febre e tal” “Não, patrão, é verdade. Eu não estava doente ontem, eu fingi porque eu não tive coragem” “Então quero ir lá”. Ele foi junto. Quando o jardineiro pegou a foice, passou no capim a menina novamente (cantando): “Jardineiro do meu pai, não me corte meu cabelo, que a madrasta me enterrou. Xô xô passarinho da figueira”. O pai ficou desesperado, entrou em prantos e pediu pro jardineiro: “Traz um enxada, vamos cavar”. E foi cavando, cavando, a menina estava viva. Quando ele tirou a menina, que entrou dentro de casa, a madrasta já tinha fugido. Foi embora e não voltou nunca mais e os dois viveram felizes para sempre, o pai e a filha. 
P/1 – Isso foi ele que criou?
R – Não, é que ele ouvia e vai passando. Essa e outras. E aí eu deixava a brincadeira para ouvir as histórias.
P/1 – Tinha outras pessoas também que contavam? Era uma prática?
R – Não, que eu lembro era ele.
P/1- Que era próximo, né?
R – É, era mais próximo, estava ali. E como o meu nome é Iris ele costumava me chamar de Sapiris. “Sapiris, vamos contar história”, ele contava várias histórias pra mim. Ele foi um dos irmãos mais apegados, mais dedicado a mim e eu tenho um carinho muito grande, até hoje nós somos assim.
P/1 – Vamos voltar lá pra década de 70?
R – Então, antes de voltar pra década de 70, quando aqui em São Paulo já, eu tinha uns 13, 14 anos. Sempre pobre, né, fui sempre pobre. Nasci rica e depois de um ano e meio comecei a ficar muito pobre. Aí a vizinha deu um vestido pra minha mãe, já moçona. Eu era bem magrinha, mirradinha e ela deu um vestido de linho branco e falou pra minha mãe: “Olha dona Mônica, esse vestido a senhora podia reformar pra Iris, vai ficar muito bonito”. E minha mãe reformou o vestido pra mim. Só que era um vestido godê que tinha saído da moda, ninguém usava mais. E eu já na minha idade de 12, 13 anos já estava começando a ficar meio vaidosinha e falei: “Eu não quero esse vestido”, mas minha mãe insistiu, era o vestido de missa, falavam, que era o vestido mais novo que eu tinha. E eu não gostava do vestido, eu detestava. Um dia, nós morávamos nessa época na Vila Morse, próximo à Vila Sônia e uma irmã casada morava no Caxingui. A gente ia caminhando, um percurso de 40 minutos andando, mais ou menos. Eu saí de casa emburrada, cara brava e minha mãe gritava. E era um caminho, que a gente cortava caminho, era uma granja de um japonês, muito mato, muito perigoso, pessoas atacavam outras e era um pedaço que as pessoas evitavam até de passar à noite. Eu fiquei pra trás e minha mãe gritava: “Vem menina! Por que tu tá aí atrás?” E aquilo me revoltava. Bom, fomos. Chegamos lá, brinquei bastante com a minha sobrinha que as nossas idades ficam próximas. E quando chegamos de volta pra minha casa tinha um porão onde dormiam meus irmãos solteiros e o porão era bem baixinho, pra por o guarda-roupa teve que fazer um buraco para encaixar, quebrar o piso de cimento. E ali naquele guarda-roupa de solteiro tinha roupa de todo mundo, quatro irmãos homens, eu, minha sobrinha e minha mãe. Minha mãe foi passar roupa. “Minha filha, pega as camisas dos seus irmãos para eu passar”. Eu fui pegar. Logo de cara eu achei um martelo. E eu estava com o vestido ainda. Quando eu sentei, o godê abre assim, né? Eu peguei o martelo e comecei. Cada batida que eu dava era um buraco que fazia no vestido. Mas até aí eu não estava dando conta do prejuízo que eu estava dando. Quando eu percebi já estava todo picotado. Na hora eu peguei aquele vestido, tirei, já peguei um do guarda-roupa, coloquei, embolei, bem emboladinho e joguei bem no fundo do guarda-roupa que minha mãe não visse. Aí os dias passaram. Foi passando e ela falou: “Minha filha, cadê o teu vestido novo?” “Não sei” “Minha filha tem que achar. O vestido está novo, vestido bom pra você sair, minha filha”. Aí eu fiquei preocupada. Minha mãe foi no guarda-roupa e achou. Quando ela viu, ela me mostrou: “Você viu como está esse vestido? O que é isso?” Eu olhei pra ela assustada: “Nossa, mãe, só pode ter sido rato!” Eu não sei se a minha mãe fingiu ou se fez de inocente. Como o rato ia cortar tudo redondinho como se fosse a metade da cabeça de um martelo, né? Aí passou e eu nunca mais usei o vestido, fiquei feliz. Então isso foi na minha infância ainda, em Poções. E como você falou retornar aos anos 70, quando eu estava ainda namorando. Não, disfarça. Aqui em São Paulo, eu com 14 anos, minha mãe viajou pra Bahia e eu fiquei com uma das minhas cunhadas, que eram a Doraci e Idalina. As minhas cunhadas eram um carinho muito grande comigo, tinha um carinhoespecial. E essa minha cunhada Doraci trabalhava fora e vez em quando eu colocava o feijão no fogo pra ela pra agradar ela. E as duas moravam na mesma casa mas dividiram, os dois irmãos. Eu pus o feijão no fogo e comecei a brincar. Só senti o cheiro, o feijão queimou. Eu fiquei assustada. Aí fui lá, tinha fossa no quintal e tinha um cano. Eu peguei o feijão e joguei tudo lá, feijão queimado, coloquei outro feijão e fui brincar. Novamente o feijão queimou e eu entrei em pânico, eu falei: “O que eu vou fazer agora?” E nessa época a gente fazia feira só em feira mesmo, não era em supermercado as compras. Então já comprava aquele tanto certo pra dar de uma semana pra outra. Eu falei: “Bom, pra ela não perceber”, eu fui na lata de feijão da minha outra cunhada, da Idalina, peguei outro feijão e coloquei no fogo pela terceira vez e fiquei sentada lá na cozinha, não saí mais até cozinhar. Quando chegou no final da semana a minha cunhada falou assim: “Eu não estou entendendo, o homem entrou no peso! O feijão está pouco, acabou o feijão. Como que pode?” A minha outra cunhada: “Mas eu também! Porque o feijão tá menos”, porque eu tirei uma parte da outra lata, né? E ali eu comecei a tremer, saí correndo pra rua e não tive coragem de contar. E ainda estou com isso na minha cabeça, ainda vou contar pra minha cunhada essa história. Hoje ela é acamada, tem problema nas pernas, há sete anos que ela está acamada. E foi um momento de querer ajudar, prejudiquei, mas não tive coragem de assumir. E foi isso daí, na minha infância ainda. Agora voltando nos anos 70.
P/1 – É que tem várias situações.
R – Nossa (risos).
P/1 – Coisa que a gente faz. Quando é criança ainda. Mas carregou até hoje, hein?
R – Até hoje (risos). E sempre quando eu vou lá eu falo: “Hoje eu vou contar pra ela”. Aí começa a conversar, conversar, esquece. Ainda vou falar pra ela.
P/1 – E ela vai achar tudo bem.
R – Vai, vai (risos). Então voltamos aos 70.
P/1 – É, a gente estava falando dessa fase, que vocês estavam com um aperto financeiro e você teve que voltar a trabalhar.
R – Isto.
P/1 – E você contou que você começou a trabalhar numa loja. A gente parou aí. Não sei como foi essa experiência de shopping, se foi pouco.
R – Retornando um pouquinho, do meu namoro. Meu marido trabalhava à noite e eu trabalhava de dia. Então era na mesma fábrica, uma tecelagem, e depois nós mudamos, eu fui pra uma, ele foi pra outra então a gente não se via, só final de semana. Aí um belo dia eu estava fazendo corte e costura, aprendendo, saía do meu serviço de uma fábrica de roupas femininas e ia pra escola de corte e costura. E ele ia encontrar comigo às vezes, quando era folga dele. E aquele dia era uma folga e ele não foi e eu fiquei preocupada. Eu comecei a andar no bairro de Pinheiros procurando ele e vim pra casa. Aí foi batendo aquela saudade. Não, isso não era folga, era dia dele trabalhar mesmo, é que me deu saudades dele. Misturei. Me deu saudades dele e quando eu cheguei perto da minha casa tinha um hospital lá na Vila Sônia que é hospital psiquiátrico, pessoas com problemas sérios. E só lá tinha telefone público. Eu nunca tinha telefonado na minha vida, já estava com uns 21 anos mais ou menos, nunca tinha pego num telefone. Nisso eu desci do ônibus, era em frente do hospital, aí me deu vontade. Bati lá, o porteiro abriu, eu falei se eu podia usar o telefone. Aí eu liguei, a pessoa atendeu e eu falei: “Gostaria de falar com o Eliziário” “Olha, ele agora não pode atender. Você não quer deixar recado?”, eu falei: “Não, fala pra ele que não é nada, não. É que ele estava um pouco resfriado e eu queria saber se ele melhorou”. E fui pra casa. Mas aquela saudade, queria conversar com ele. Quando eu chego em casa a minha irmã não estava em casa com as crianças, que ela era separada do marido com quatro crianças e foi dormir na casa de uma outra irmã. Chego em casa, estava aquele silêncio. E na mesa tinha um vaso de flores. Aquele cheiro gostoso e aquilo me deu um clima de tristeza. A minha irmã não está, ele não pôde atender ao telefone, aconteceu alguma coisa grave. Bom, eu fiquei muito triste, chorei porque eu não consegui falar com ele, depois que eu já estava deitada, já dormindo, meu irmão estava acordado e me chamou, foi lá no quarto. “Iris, o seu namorado está aí”. Eu cheguei, quando eu fui, abri a porta, eu falei: “O que aconteceu? Por que você está aqui?” “Ah, você não ligou pra lá?” “Liguei” “Então. O porteiro falou pra mim que não era grave, mas você estava muito doente”. Ele inverteu. Mas foi tão bom que ele inverteu (risos). Foi um momento tão gostoso, aconchegante, muito bom. Mas ainda levei bronca do meu irmão: “Você fica atrapalhando o rapaz, tal. Coitado, vir de lá preocupado”. Eu falei: “Ah, eu não tenho culpa, o rapaz que deu o recado errado, eu falei certo”. Isso daí é uma coisa que marcou muito pra mim que foi o meu primeiro telefonema, e por ser o primeiro eu não consegui falar com ele, eu queria escutar a voz dele. E por um acaso, quando eu cheguei em casa o rádio estava ligado. E qual música que estava cantando? (cantando) “Vou telefonar dizendo que eu estou quase morrendo de saudades de você” (risos). Aí entrei em prantos, chorei (risos). Aí uma hora e meia mais ou menos a saudade matou. Era isso que eu tinha de falar porque eu não queria deixar de falar isso aí.
P/1 – Sem deixar registrado essa emoção.
R – É. Então, na loja, né?
P/1 – Da onde você quiser, na verdade. 
R – Pra mim foi muito bom, foi uma experiência muito boa.
P/1 – Voltar a trabalhar?
R – É, voltar a trabalhar.
P/1 – Você ficou quanto tempo sem trabalhar? Só quando casou?
R – Eu casei no ano de 70 e trabalhei até o ano de 69. E retornei a trabalhar em 74, então fiquei esse tempo todo sem trabalhar devido àquele problema que marido que tinha que sustentar a família e não a mulher, né? E na loja eu tive muito apoio porque era loja de calçados, loja muito fina no Shopping Ibirapuera. E sempre você encontra uma pessoa, inclusive a minha sobrinha, a Linda, trabalhava nessa mesma loja, foi ela quem me incentivou. Aí uma colega começou a me ajudar porque você tinha que conhecer referência do trabalho, a cor, por nome, muita coisa. E ela falou assim pra mim: “Pode ficar sossegada que eu te ajudo”. Quando ia atender a cliente ela subia comigo no estoque, só perguntava: “O que ela pediu?”, eu falava: “Assim, assim”, ela já: “Está aqui, aqui”, eu aprendi rapidinho, foi muito bom. E nessa época eles pagavam assim, tinha uma cota, um x pra você vender até o fim do mês, do dia primeiro ao dia 30. Se você fizesse aquela cota você ganhava o valor de 6% da venda e se você não atingisse era 4%. Então era muita luta. No começo do mês a gente ia tudo tranquilo, no final do mês era aquela luta pra gente vencer porque dava muita diferença no salário. E foi quando nós já estamos lá com o terreno pra construir a casa, o meu primeiro pagamento já foi mesmo pra construção da casa. Fiquei trabalhando um bom tempo e nessa época que eu estava lá, um ano e pouco, eu engravidei pela terceira vez e trabalhei bastante, só que tinha o costume que lá era só madame, você tinha que atender sentada, no chão, pôr o sapato no pé. Hoje já está diferente, mas naquela época era mais rígido. E eu trabalhei quando estava com sete meses e meio, como eu tomava três ônibus pra ir, três ônibus pra voltar e não tinha nada de preferencial, você chegava ali, não tinha lugar, você ficava na sua, não importava se a barriga estava grande ou não. Eu lembro que uma vez eu passei tão mal no ônibus, eu não estava aguentando. Aí eu sentia que minhas lágrimas escorriam, aí uma senhora que estava sentada me deu o lugar. Eu sentei, só que na hora de descer, que a minha casa fica na estrada mesmo, eu não conseguia tirar o pé do lugar. Estava chegando meu ponto e adormeceu tudo. E eu queria me mexer, comecei a mexer, aí com a mão eu comecei a mexer pra perna sair porque senão eu passava do ponto de ônibus. E nesse dia eu cheguei em casa muito mal, cansada, eu joguei a bolsa, deitei no sofá, me deu uma crise de choro porque eu sempre chorei muito, por qualquer motivo eu chorava. E meu marido perguntava pra mim o que foi e eu não conseguia falar. Depois de um bom tempo que eu peguei e contei pra ele. Mas assim, meu marido não foi só marido, foi um pai, aquele pai que eu não tive. Como eu falei no início minha mãe falava só coisas boas do meu pai com minhas irmãs, com meus irmãos e eu não tive esse momento porque com oito meses eu o perdi. Então a minha mãe se preocupava muito quando eu comecei a namorar, falava: “Minha filha, como que você vai casar? Por ser doente”, todo mundo falava que eu era doente, que eu era manhosa, eu chorava à toa, “qual homem que vai te aguentar?”. Isso também pra mim era difícil, eu mesmo pensava: “Meu Deus”. Mas Deus preparou uma pessoa compreensiva, amável, carinhosa, romântica, tudo o que eu queria. E nesse dia que eu cheguei ele cuidou muito de mim e ao mesmo tempo ele se revoltava e falava que ele não merecia ter casado comigo, que eu tinha que ter casado com uma pessoa que pudesse me sustentar melhor. E eu não gostava que ele falava aquilo, que não era legal. Mas tudo bem. Com sete meses e meio eu tive que parar de trabalhar porque eu não estava aguentando mais, o médico falou: “Olha, esse percurso seu é muito longo”. Só que lá no serviço eu trabalhava bem, eu sentava assim e abria as pernas. Aí quando a gente estava grávida o patrão liberava da gente atender em pé. Mas eu estava tão acostumada que eu conseguia atender em pé. Mesmo as freguesas falavam: “Não, não, não pode ficar de pé”. Eu falava: “Por favor, eu me sinto bem”. Até elas brincavam comigo: “Essa criança vai escorregar, vai ser um quiabo”. Porque a minha posição já era, parece, preparando um parto. E realmente foi o parto melhor que eu tive, foi maravilhoso, não sofri tanto. Aí a criança nasceu, continuei trabalhando e quando ele estava com um ano ele começou a ficar doentinho, doentinho. Aí um domingo o meu marido foi visitar uns parentes que moravam no Ferreira e lá tomando uma cerveja, tal, que ele nunca foi de ir em boteco, beber, mas quando juntava... e ele chegou, eu vi que estava meio. Aí ele chegou e falou assim pra mim: “Olha aqui”, porque meus parentes também achavam que eu não precisava trabalhar. E lá, conversando, falando da criança, acho que encheram a cabeça dele. Aí ele chegou: “Olha aqui, vou falar uma coisa pra você: se essa criança morrer você é a culpada”. Aquilo pra mim foi como se uma faca tivesse me espetado assim, sabe? Foi muito triste. Eu falei pra ele: “Tudo bem, amanhã eu vou pedir minha conta”. Aí fui, pedi a conta, no dia seguinte fui até o escritório que era na rua do Arouche e o patrão falou pra mim: “Olha Iris, você está saindo. Se o teu filho não melhorar você liga pra mim, eu vou marcar uma consulta com a pediatra dos meus filhos e você não vai pagar nada. Essa pediatra é ótima, eu não quero que esse teu filho fique doente, ele vai ser curado”. Agradeci, ele falou: “A porta continua aberta”. Bom, voltei e não precisei de incomodar o patrão. Meu filho foi melhorando mas eu não consegui ficar parada, eu comecei a trabalhar vendendo Stanley, é como se fosse um produto famoso como a Natura, por exemplo, mas tinha muito produto de limpeza e produto pessoal.
P/1 – Representante de uma marca.
R – Representante. Tinha bolsa com todos os produtos, agendava. A casa que agendava a pessoa convidava vizinhas e ali fazia a venda. E com um mês eu já ultrapassei nas vendas e passei a ser promotora. E pra ser promotora tinha que ter carro. E eu me empolguei, que a minha promotora falou: “Iris, você bateu o recorde, vai firme”. E a promotora ia trabalhar menos e ia ganhar melhor. Fiz minha inscrição na autoescola, comecei, estava indo já pra pegar o volante, aí tinha uma romaria pra Tambaú e nós nos preparamos para ir nessa romaria. Saímos de casa meia-noite, duas horas da manhã o ladrão entrou na minha casa e limpou a minha casa. Eu tinha bastante cheque de clientes, dinheiro. Aí junto com a Stanley eu comecei a vender cerâmica também, então vendia duas coisas ao mesmo tempo. Eu cheguei em casa e não tinha nada. Roupa das crianças, tudo. Os dois botijões de gás, duas televisões, ventiladores. Tudo. Praticamente tudo. Só ficou a roupa que nós trocamos pra viajar. Cobertores, lençóis.
P/1 – Roubaram tudo. Rapelaram, vieram de caminhão.
R – Colchão. E quando eu cheguei, onde estava a minha máquina de costura, que eu sempre costurei pra fora, antes de ir para a loja, que eu ganhei antes de casar. Eu sentei e ele ficou lá em cima. E ele era muito revoltado essa época com igreja, com tudo. E em Tambaú ia lá visitar uma igreja. E eu fiquei com medo quando ele chegasse e falasse assim: “Olha aí, a gente vai atrás de igreja, o que recebemos”. Eu sentei e as crianças, as duas meninas e o meu pequeno já estava com um ano e pouco, aí eu olhava e falava: “Ele vai ficar desesperado”. Pelo contrário. Ele sentou no chão, todos nós ali abraçados, ele falou pra mim: “A gente vai dar um jeito. O importante é que nós estamos aqui, a nossa família está aqui, não aconteceu nada”. Entraram duas horas da manhã. Aí fiquei mais tranquila. E voltei pra loja de novo, pro Shopping Ibirapuera. Porque aí eu não tinha mais confiança naquele dinheiro que vinha um pouco de um, um pouco de outro, eu queria o meu salário lá no final do mês. Aí voltei lá, ele falou: “Pode ir”. Comecei a trabalhar de novo na mesma loja, trabalhei mais um ano e pouco. Aí eu comecei a ficar com aquele problema de depressão, quando era solteira tinha forte, depois melhorei e comecei de novo.
P/1 – Voltou?
R – Voltou. E aí eu vinha, trabalhava, ficava em casa.
P/1 – Você identifica os motivos hoje?
R – Hoje?
P/1 – É, que está mais distante disso, você identifica os motivos que você foi ficando deprimida novamente?
R – Acho que, como eu falei no início eu não me conformava de ser a filha mais nova, queria ser a mais velha pra ter aquele momento do meu pai, aqueles momentos de tudo o que eu queria nunca podia porque eu não tinha meu pai. E acho que com isso também foi me deixando... e depois também a minha irmã morava com a gente, separada do marido, os filhos dela eram um ano, dois anos, três anos e quatro anos. Daí a pouco meu irmão separou da esposa e veio com mais dois filhos. Aí havia muita briga entre as crianças, a minha irmã achava que minha mãe defendia os filhos do meu irmão, maltratava minha mãe, começou um clima. Eu nunca gostei de brigas, de discussões e esse clima foi me deixando com problema de saúde, eu sei que isso daí mexeu muito comigo. E nessa época que eu já estava na loja, depois me mandaram embora aí eu fiquei um mês em casa. Eram duas lojas rivais, Verano e Corello, um queria ganhar mais do que o outro. E um ficava feliz quando pegava uma funcionária do outro. Aí fui naCorello e falei: “Olha, trabalhei tanto tempo na Verano, tal”. Não tinha entrevista, não tinha nada: “Pode começar amanhã”. Trabalhei mais uns dois anos e pouco na Corello e lá também ganhava bem, como a outra também e foi onde construímos a nossa casa. Depois tinha quarto e cozinha, as crianças dormiam no mesmo quarto, depois consegui fazer a sala e o quarto. Inclusive a Débora, que esteve aqui comigo, nessa época ela devia estar com uns cinco, seis anos quando construiu o quartinho, eu pus bastante quadrinhos, enfeitei o quartinho delas e às vezes eu pegava ela ajoelhadinha no quarto com a mãozinha: “Papai do céu, por que você ajudou a minha mamãe trabalhar pra ganhar dinheiro? Eu não quero esse quarto, quero o quarto da minha mãe”. Aquilo meu coração doía. Muitas vezes eu pegava ela dormindo no chão, na beirada da cama, do lado do meu marido. Aí sem eu perceber ele pegava, colocava ela. Ela fez isso várias vezes. Ou às vezes a gente não via e ela dormia no taco, ainda bem que não era piso, era taco mesmo, ela dormia lá. E a Claudia, que era a mais velha e já entendia falava: “Para, o nosso quarto, a gente precisa do nosso quarto, olha que bonito”, ajudava, mas ela queria o quartinho dela. E assim foi indo.
P/1 – Só uma questão, foi uma grande conquista de vocês? 
R – A casa?
P/1 – A casa. Porque vocês projetaram anos isso, né?
R – Anos, foi.
P/1 – Você lembra o primeiro dia que você entrou lá, tipo: “Mudamos”. Você lembra disso?
R – Foi uma coisa que, principalmente quando nós deitamos, cansados, fazendo a mudança. Olhava pro teto eu chorava e ele também. Eu não acreditava que estava morando numa coisa que era minha. E ao mesmo tempo eu ficava muito chateada porque meus parentes iam nos visitar e todo mundo elogiava, mesmo que é um cômodo que é seu todo mundo elogia, né? “Ai que bom, é de vocês”. Aí ele falava assim: “É, se não fosse ela a gente não tinha”. E aquilo também não aceitava. Um dia eu cheguei e falei pra ele: “Olha, se você falar mais uma vez que essa casa foi construída por minha causa a coisa vai ficar feia. Porque se não tivesse o seu dinheiro no meio não teria a casa também, só o meu não iria fazer”. Porque o que acontecia? Como eu trabalhei em loja eu ganhava mais do que o dobro do que ele ganhava, então foi o que deu essa levantada. Então logo de cara ele já falava, eu falei: “Corta, não fala mais”. Uma que assim, o salário dele vinha todo pra minha mão, eu que resolvia, nós dois juntos, não tinha esse, o dinheiro era dele e meu. Eu nunca comprava nada sem falar, às vezes tinha sapato em oferta, as colegas compravam: “Eu nem vou falar com meu marido”. Não. “Eu comprei esse sapato porque estava em oferta”, nós sempre tivemos determinado em comum, os dois. Quando estava fazendo os dois outros cômodos, a sala e o quarto, aí apertou de novo e a gente comprava no supermercado e pagava a cada 15 dias, que hoje não existe mais isso. Ai foi num sábado, lá no Shopping Ibirapuera mesmo, na hora da janta eu estou olhando assim quando eu vi uma coisa, um relógio no chão. Eu olhei aquele relógio e pensei: “Esse relógio é de ouro”. Olhei para um lado, olhei pro outro, não vi ninguém e levei até numa loja lá, ele todinho de ouro, a pulseira, tudo. O que aconteceu? A gente empenhorava aquele relógio (risos) pegava aquele dinheiro, pagava aquela dívida, depois pagava. E esse relógio andou em mão de meus parentes, minhas sobrinhas: “Tia, empresta seu relógio” (risos). Ia na Caixa Econômica, empenhorava (risos).
P/1 – E era de um valor alto.
R – Valor alto. Uma época ele estava empenhorado, foi num sábado também. Aí quando não tinha calçado na loja de cima a gente podia ir na loja de baixo, que era a Verano e Marella que eram dos mesmos donos, eram dois irmãos. E a gente descia. Eu nem esperava a escada rolante, é rápido porque a cliente não gostava de esperar. Quando eu olho no orelhão, uma carteira. E tinha um casal sentado do lado igual eu estou aqui e o orelhão aqui, no banco eles sentados. Eu peguei a carteira e falei pra ele: “Essa carteira não é de vocês?” “Não”. Eu falei: “Então vou levar no Achados e Perdidos”. Cheguei lá na loja, quando abri a carteira tinha muito dinheiro, não posso dizer o valor agora que eu não lembro, era muito dinheiro. Eu peguei a carteira e coloquei dentro da calça assim e subi. Cheguei lá na loja, atendi a freguesa e chamei a minha gerente. “Débora, olha o que eu achei”. Tinha cartão de crédito, cartão de banco, documentos. Ela falou: “O que você vai fazer?” “Eu vou levar lá no Achados e Perdidos”. Ela falou: “O quê?! Você vai levar? Você precisando de dinheiro na sua construção? Não faça isso não, não seja boba! Esse dinheiro fica pra você”. Aí eu comecei a tremer de nervoso. “Gente, não é possível, não posso fazer isso”. Ela falou: “Iris, pela carteira, com tanto cartão”, que naquela época poucas pessoas tinham cartão de crédito, só quem tinha dinheiro, “essa pessoa tem dinheiro, não seja boba”. Bom, aí fui pra casa, levei. Eu cheguei em casa e meu marido meio chateado, ele falou assim: “Bem, não sei o que a gente vai fazer” “Por que?” “Amanhã é dia de fazer compra” “E o que tem? Dinheiro tem pra pagar o mercado”. Ele falou: “Não, não dá”. Eu falei: “Cadê o dinheiro?” “Bem, o pedreiro falou pra mim que não tinha, nem feijão e nem arroz na casa dele, eu paguei ele” “Ah, você tá brincando!? E a gente vai ficar sem comer?”. Ele falou: “Não sei, sei lá, a gente vai dar um jeito. Não esquenta”. Não aguentei o homem falar aquilo pra mim, eu falei: “Você vai dar um jeito?” “Vou” “Vai não” “Como que eu não vou?” “Você não vai”, meio assim brava, mas brincadeira. Ele falou: “Por que você fala que eu não vou dar?”, aí abri a carteira e mostrei o dinheiro. Aí pagamos supermercado (risos), aproveitamos para fazer uma compra pra não ficar devendo, pra deixar já pro mês que vem. Aí tinha uma quermesse na igreja, fomos pra quermesse com as crianças, gastar um pouco com as crianças. Aí falava: “Tem um bingo de uma garrafa de vinho nãosei o que lá, falta um número só”. Eu falei: “Vou comprar”, aí ganhei a garrafa de vinho (risos). Então foi uma fase difícil mas foi uma fase de alegria, de amor, sabe? Bom, outra coisa que eu também não posso deixar de fazer, ainda trabalhando na Verano essa minha amiga que me ajudou muito, muito amiga, solteira, aí era sábado de carnaval e ela falou assim: “Ai, a gente podia ir pra praia amanhã, né?”, eu falei: “Se você quiser ir vamos”. Ela falou: “Você topa?” “Topo”. Ela falou isso na sexta-feira. Aí cheguei em casa e falei: “Bem, a Elza falou isso e isso, o que você acha?” “Vamos”. Aí falei pra ela no sábado. Preparamos pra nos encontrar na rodoviária. Domingo de carnaval. Chegamos na rodoviária, então tinha duas meninas, que as minhas filhas chamavam a atenção de todo mundo porque eram, não é por serem minhas filhas mas todo mundo falava, muito bonitas. E eu sempre deixei muito bem arrumadinha, não tinha dinheiro mas eu comprava tecido, eu que costurava pra elas, aquelas roupas. As pessoas viam e perguntavam: “Onde você comprou essa roupa?” “Eu que fiz” “Ah, você pode fazer pra minha filha?”, ganhei muito dinheiro também pelas roupas, minhas filhas eram mostruário. Comprei uma passagem pras duas, uma pra ele e uma pra mim, e o bebê no colo, um ano e pouco. Aí nisso os ônibus paravam e iam pegando as pessoas, ia lotado pra praia. Um senhor parou perto do nosso banco e começou a brincar com as meninas, brincando, já bem senhor, como se fosse meu marido hoje. Eu falei: “Bem, a gente devia era levar as crianças no colo e pôr esse senhor pra sentar, né bem?” “Não, por que ele não foi pra rodoviária como nós fomos? Pega no meio do caminho, problema dele”. E o homem com carinho com as meninas, elas fizeram amizade. “Bem, não tá certo” “Você que sabe”. Aí peguei, tirei as meninas do banco. Uma ficou com a minha amiga, uma ficou comigo e o menino também, com ele. Eu falei: “Por favor, o senhor se senta aqui” “Não, não, imagine, o que é isso, a senhora pagou passagem”. Eu falei: “Por favor, senta, não é justo, elas estão brincando, pra elas não importa, elas não se incomodam”. Quando estava chegando perto da praia o homem foi conversando com a gente e falou assim: “Vocês têm casa lá?” “Não” “Vocês têm parente?” “Não” “Mas vocês alugaram alguma coisa?” “Não” “E vocês estão indo pra lá, domingo de carnaval? Eu saí de lá ontem à noite”, que ele morava lá, “a praia está lotada, vocês não vão achar um lugar pra vocês ficarem” “Não, mas a gente vai fazer um bate e volta, só pras crianças tomarem um banho de praia”. Quando o ônibus parou, o homem pôs a mão no bolso: “A chave do meu apartamento. Vocês vão ficar lá. Eu vou entrar só pra pegar uma roupa e vou pra casa de um amigo meu, esquece de mim, vocês vão ficar lá o tempo que vocês quiserem. Na geladeira tem carne moída, lá tem macarrão, se vocês quiserem fazer, por favor”. Eu fiquei assim, meu marido: “Não, pelo amor de Deus, isso não é justo, o senhor fazer isso” “Não é justo eu ver vocês com essas crianças, a atenção que vocês me deram e eu deixar vocês na rua”. Eu falei assim: “Meu Deus, Deus mandou um anjo pra ficar perto da gente?” Cheguei lá, preparei uma macarronada, deixei tudo prontinho e fomos pra praia. Foi um dia maravilhoso. Ele falou: “Quando vocês saírem eu não quero atrapalhar vocês, vocês podem tomar banho, tranquilos e deixam a chave na portaria”. Fizemos tudo, tomamos banho de chuveiro, deixamos a chave. Fomos pra rodoviária. Chegamos na rodoviária não tem passagem pra São Paulo. E no outro dia eu tinha que trabalhar, ele tinha que trabalhar, minha amiga também. E aí? E ele não saía do guichê, toda hora perguntando e anunciava: “Não temos passagem, não está previsto, não tem ônibus”. Uma hora de espera, as crianças já estavam cansadas, brincaram muito, com sono, um deitou no chão e começou a dormir. Três crianças. E meu marido não saía do guichê. Só estou falando: “Quem tem criança, por favor, casal com criança forma uma fila”. Meu marido foi pra fila, já estava no guichê. Compramos a primeira passagem. O que nós fizemos? Eu peguei o meu, meu marido pegou a Débora e a minha colega pegou a outra, compramos passagem pra nós três e viemos embora pra São Paulo felizes e tranquilos, nos divertimos. Eu só agradeci a Deus, que a minha vida é agradecer a Deus.
P/1 – Nunca mais encontrou esse sujeito?
R – Nunca mais.
P/1 – E o apartamento, deixou em ordem?
R – Tudo, imagina! No quarto dele nós nem entramos, só a sala, banheiro e cozinha. Falei pras crianças: “Não”, tinha um sofá grande na sala, descansamos. Olha, foi um dia assim que se eu for te contar as graças que eu já recebi. Bom, resumindo, né, chegou essa parte (risos).
P/1 – Tudo bem (risos). Vocês têm outros filhos ainda, né? Teve outros.
R – Então.
P/1 – Continuou na loja também?
R – Não, aí depois parei de trabalhar, fiquei costurando em casa novamente mas só quebrando um galho porque não dão valor pra costureira, não te paga ou acha caro. E ele sempre trabalhando em tecelagem, depois saiu da tecelagem e foi trabalhar com jogo de bicho junto com meus sobrinhos, aí começou a ganhar mais também, mas eu nunca gostava porque era perigoso, às vezes eles levam presos, aquela coisa muito desagradável. Ficamos nessa situação. Aí a minha mãe veio morar com a gente nessa época porque o meu filho estava pequeno ainda, o Claudinei e aí minhas filhas tinham caixa de som no quarto e a primeira coisa que eu falei: “Filhas, nós vamos tirar essa caixa de som do quarto, a vó não suporta barulho”, fiz a cabecinha delas duas, elas entenderam. Minha mãe morou comigo durante 13 anos.
P/1 – Treze?
R – Treze anos. E aquela pessoa pacata, não era de conversar muito, muito tranquila. Muito puxa-saco do meu marido, eu não podia falar nada dele. E aquele genro que ela falava assim: “Esse é o meu filho”, porque os filhos não ligavam pra ela. Meus irmãos não faziam visita pra minha mãe. Chegava domingo a minha mãe levantava, sentava fora assim e ficava com o olho no portão esperando que um viesse visitar. Ai tinha um que visitava toda semana, se ele não ia, mas a cada 15 dias ele ia, esse visitava. Esse Deus levou logo. A primeira coisa que ela falou: “Meu Deus, o único filho que me visitava Deus levou”. E ela sempre muito triste, muito parada.
P/1 – Vocês se distanciaram, a família? Porque antes eram bem próximos. Vocês também não visitavam? 
R – A minha mãe?
P/1 – Vocês, de levar, de ir, almoço de domingo.
R – Sim.
P/1 – Isso acabou depois.
R – Eu não, porque o meu marido, onde eu chamava...
TROCA DE FITA
P/1 – Iris, você estava falando quando a sua mãe mudou pra sua casa e no fim deu tudo certo, ela passou 13 anos com vocês. Mas me ocorreu essa curiosidade, esse distanciamento que teve na família. Porque eu me lembro que durante a sua história ela sempre mostrou a família sempre junto. O que você acha, por que teve esse distanciamento?
R – Eu acho que a maioria dos meus irmãos e irmãs se acomodaram porque sabiam que ela estava comigo, ela estava sendo apoiada. Às vezes ela ia na casa de uma filha: “Ah mãe vamos pra lá ficar comigo uns dois, três dias”. Ela não conseguia, no segundo dia: “Eu quero ir pra casa de Iris, eu quero ir pra casa de Iris”. Aí tinha essa uma que é sobrinha, que é neta dela, também ela gostava de ficar lá. E um dia, lá era sobrado, ela estava dormindo no quarto e próximo do quarto tinha a escada pra descer, depois o banheiro. Ela levantou pra ir ao banheiro, esqueceu, foi do lado da escada e caiu. Nesse cair ela não quis dormir mais lá. E essa minha sobrinha é uma pessoa que se preocupa muito comigo e a minha mãe não ficava sozinha por nada em casa, então era complicado pra mim, pra sair ela tinha medo, nunca gostou. Você fala: “Mãe, vou ali e volto. Vou em Pinheiros, vai rapidinho” “Não”. Então minha sobrinha me chamou e falou: “Olha tia Iris, faz o seguinte, arruma uma pessoa pra trabalhar meio período na sua casa e esse meio período você vê se é melhor pra você de manhã ou à tarde e aí você vai fazer suas coisas sossegada, aí minha mãe vai lá com essa pessoa e eu pago”. E ela fez isso e me ajudou muito nisso daí, quebrou esse galho pra mim. Se minha mãe ficasse doente, sentisse mal, eu falava: “Mãe, eu vou ao pronto socorro”, ela ficava mais doente, não aceitava ir pro hospital, ela tinha medo de morrer no hospital, ela tinha medo de fazer autópsia, tinha pavor. Aí descobrimos um médico particular, então era só lá. Quando a minha mãe não estava bem eu ligava pra ela: “Linda, a minha mãe está assim, assim”, na hora ela já vinha com o carro, levava a minha mãe. Ela mora aqui no Butantã. Ela já passava na farmácia, ela que comprava os remédios da minha mãe. Ela sempre me ajudou assim. Vamos supor, se eu estivesse com um problema financeiro e precisava de um dinheiro emprestado, ela que me arrumava. Assim, todos os meus irmãos, parentes, são todos legais, um carinho muito grande, isso eu agradeço a Deus, gosto demais. E tem outros mais que já me ajudaram. Mas eu estou falando mais referente à minha mãe, por isso que eu estou citando o nome dela. Aí teve uma hora que eu estava com um problema de depressão, ela descobriu um local na Estrada de Itapecerica que tinha um japonês que trabalhava com massagem. E uma amiga dela estava passando pela mesma situação que a minha, foi lá e insistiu para eu ligar pra lá, eu liguei e cada sessão era muito cara. E ela falou: “Mas eu que vou pagar”, e fiquei quase um ano e ela pagava toda semana. Essa época meu marido tinha carro, ele me levava e ela depositava o dinheiro na minha conta. Me ajudou muito. E tem mais coisas ainda que ela me ajudou muito. Todos os meus sobrinhos, sempre quando eu precisei de algo nunca me negaram, eles gostam muito de mim, quer dizer, pelo menos mostram que gostam e eu acredito, eu não vou falar assim: “Ah, será?”, eu acredito que todos gostam, um carinho muito grande comigo. Acho que por eu ser a tia mais nova deles, a maioria já foi.
P/1 – E a sua mãe faleceu?
R – A minha mãe faleceu depois. Nesse intervalo o Claudinei já estava grande, com quatro anos, e eu estava na igreja e falavam que precisava de catequista. E eu tinha muita vontade de ser, aí eu acabei concordando, cheguei em casa com o meu marido e falou assim: “Você fez coisa errada em assumir isso, você tem uma criança pequena, você tem a sua mãe e você não tem saúde”. Eu ainda brinquei com ele: “Eu não vou assinar nenhum contrato, eu vou tentar, se eu não conseguir”. No primeiro dia da reunião, Danilo, foi uma coisa assim, a leitura que foi feita eu sentia que falava: “Iris, você não é doente”. A partir daquele dia eu percebi que eu tinha que pensar em mim, meus filhos, na minha mãe e que eu não precisava daqueles calmantes fortes que eu tomava todas as noites. Levantar de manhã minhas mãos eram trêmulas. E a leitura bateu muito comigo. Eu entreguei na mão de Deus, falei: “Senhor, a partir de hoje eu não vou mais tomar aqueles remédios”. E não tomei mais, parei. Aí, bom, aí continuei, trabalhei praticamente 18 anos na coordenação da catequese, ali eu trabalhava com, vamos supor, umas 50 catequistas, eu que coordenava as crianças, os pais. Foi um trabalho muito bonito, muito bom, muita alegria e cada vez mais eu me aprofundando nesse Deus, que tudo o que eu faço eu não venho pra cá sem primeiro conversar com ele. Eu e Deus, nós estamos sempre ligados, Nossa Senhora que é a minha protetora também. E eu parei e comecei a me sentir muito melhor no começo do meu trabalho, que eu devo à catequese, eu devo a minha saúde pela catequese, por esse trabalho da igreja. Eu sei que você sabe o que é trabalhar, ensinar o catecismo pras crianças fazerem a primeira eucaristia e hoje eu vejo crianças que começaram com nove anos comigo e hoje já são mães, pais, os anos foram passando e me reconhecem, é aquela alegria. Aí foi quando eu comecei a trabalhar em projeto na escola, quando eu comecei a ter uma amizade na prefeitura. E tem o projeto Férias que trabalha na semana na escola, a escola é aberta e esse projeto eles pagam a semana um salário razoável, bom e você trabalha aquilo que você apresenta, às vezes você faz um trabalho, passa pra lá e é avaliado. E o meu foi avaliado a primeira vez, foi com bonequinhas, fazia bonequinha, roupinha, trabalhei com as crianças e foi maravilhoso. As crianças que nunca tinham pego em agulha, porque tinha que costurar: “Não, minha mãe nunca deixou”. E essas crianças costuravam. Mães que entravam também e ficavam maravilhadas de fazer aquelas bonequinhas. Foram três anos seguidos nesse projeto.
P/1 – Mas a ponte foi pela igreja?
R – Não.
P/1 – Foi iniciativa sua.
R – Foi. Não foi nada da igreja.
P/1 – De onde veio essa iniciativa de ir pra escola, propor projeto, ser esse projeto, bonecas.
R – Então, como que iniciou? Teve o projeto Férias na escola perto da minha casa e é livre. Entrei lá e vi uma bonequinha, achei interessante e guardei. Quando foi seis meses depois o outro projeto, que era julho e janeiro. Aí eu desmanchei ela e fiz uma em casa. E gostei. Aí fiz, escrevi o próximo projeto, mandei e foi aprovado. Aí me chamaram, no outro ano me chamaram e foram me chamando. Eu comecei a trabalhar com rolinho de jornal com eles, cada ano eu fazia um projeto diferente. Eu ia trazer pra você ver mas eu esqueci, estou fazendo um abajur, a coisa mais linda, só com jornal. E as crianças se empolgavam muito, sabe, as mães, muito trabalho eu fiz assim pela prefeitura. Foi quando eu te falei que eu fiz aquela prova, falei lá na sala. Que lá na escola já acharam que eu era professora, nesses projetos. Aí falaram que tinha essa prova e eu eliminei o ensino fundamental.
P/1 – Desculpa, que prova?
R – Que a gente conversou lá na sala.
P/1 – Então, a gente conversou lá na sala, aqui não temos o registro (risos).
R – Foi assim. A minha filha trabalhou...
P/1 – Só para entender, o pessoal da escola começou a te pressionar de alguma maneira?
R – Sim.
P/1 – De falar: “Poxa, você não tem graduação”, é isso?
R – Isso. “Eu achava que você tinha”. Depois a minha filha trabalhou dois anos no Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, você deve saber como é, sabe, né?
P/1 – Sim.
R – E quando ela saiu uma colega minha entrou. Essa minha colega, que era quatro anos agora já são três anos que fica, minha colega falou: “Iris, por que você não se inscreve pra trabalhar no Conselho Tutelar?” Só que eu tive uma convivência com a minha filha, é muito sofrido quem trabalha lá e como eu sou muito sensível às coisas eu senti medo. Mas ela insistiu tanto, só que eu tinha que ter o colegial completo. E ela me deu a ideia dessa prova. Eu me inscrevi, lá pro lado de Santo Amaro eu não me lembro bem o local, e a prova foi das oito da manhã às 17 horas. Meu marido me levou. Antes do meu marido me levar, a prova era no domingo, no sábado teve o aniversário de uma criança, aí eu fui lá, tal, mas foi coisa simples. Eu cheguei, deitei no sofá e estava assim: “Ai, eu não vou fazer essa prova, não. Eu não vou conseguir, imagine, quantos anos! Eu terminei a quarta série no ano de 60 e agora nós estamos no ano de 2002”. Fechei os olhos e cochilei. Quando eu abri eu falei assim: “Iris, quando que você pensou em fazer uma coisa e você desistiu? Por que você vai desistir agora?” Levantei rapidinho do sofá, era dez horas da noite, arrumei minhas coisas, chamei meu marido: “Olha, você vai me levar” “Ah não, você falou que não ia” “Não, eu vou”. E me levou. Bom, eu fiz a primeira prova, vi que não foi tão difícil, eu falei pra ele: “Vai embora, depois você vem me buscar”. E ele foi embora. E eu fiz. Eu sei que das 120 eu acertei 85 questões. E minha filha foi vendo: “Mãe, essa acertou”. Eu gritava. Eu estava rouca, rouca, de tanto que eu gritava a cada questão que eu tinha acertado. Depois eu pensei: “Bom, já que eu acertei, por que não fazer o colegial?” Aí fui na escola perto de casa, fiz a minha matrícula e fui fazer o primeiro colegial em seis meses, o segundo em seis, um ano e meio. Quando eu entrei na sala, que susto! Tanto jovem na sala, 18, 20, 25. E a Iris? A Iris estava no meio. Fiquei meio assim, acho que perto de mim a mais velha devia ter uns 40 anos. Mas aí eu falei: “Quem está aqui sou eu” e foi. Aí passei em primeiro lugar da sala, sem saber de nada passei e fui, terminei o colegial. Os rapazes, jovens, fizeram amizade porque eu gosto de lidar com jovem, com criança, tudo é na brincadeira, fazíamos palhaçadas. Teve uma colega minha que ele estava bagunçando lá no fundo, ela chegou, deu uma bronca e ele chegou assim na carteira dela, a minha aqui e a dela aqui: “Olha aqui, é a última vez que você chama a nossa atenção. Quem é você pra chamar a nossa atenção? A única pessoa que chama a atenção e nós vamos ouvir e abaixar a cabeça é a Iris, só” (risos). Porque eu entrava na deles, brincava. Teve o dia da bruxa, que eu me vesti de bruxa, pedi pra minha amiga fazer um caldeirão de sopa desse tamanho, servimos, era o caldeirão da bruxa, né? E todo mundo entrava na sala. Foi maravilhoso esse dia, o dia da bruxa. Eu sempre gostei de brincadeira.
P/1 – Isso foi o EJA?
R – Não, eu estava fazendo o colegial.
P/1 – Você estava no colegial no EJA? É uma classe de várias idades, não é?
R – Isso.
P/1 – No noturno?
R – Noturno.
P/1 – E teve o ano inteiro, primeiro ano, segundo ano inteiro?
R – Não, meio ano cada um.
P/1 – Meio ano cada um.
R – Um ano e meio.
P/1 – Um ano e meio de formação.
R – Só que antes disso, antes de eu fazer essa matrícula eu engravidei novamente. Só que eu estava com 44 anos. Eu falei: “Não, eu com 44 anos grávida?”, o meu filho estava com 11 anos, o Claudinei. Eu me sentia velha, sentia vergonha de sair na rua. Só que quando eu nasci a minha mãe tinha 45 anos e calhou igualzinho, quando meu último filho nasceu eu tinha 45 anos também. E minha mãe falava: “Graças a Deus que Deus me deu essa filha”. E hoje eu falo: “Graças a Deus que Deus me deu esse filho!”, porque é o que está ali do meu lado, do meu marido, que dá banho no meu marido todos os dias. Quando ele nasceu, quando eu cheguei da maternidade o Claudinei, com 12 anos, que era tudo Claudinei, Claudinei, chegava visita, se eu estivesse na cama ele deitava nos pés da cama de atravessado e ficava. E as pessoas não sabem trabalhar com criança: “Ah, você perdeu, você não é mais o caçula”, isso é um terror pras crianças, né? E ele sempre tristinho. Um dia eu cheguei e falei pra ele: “Filho, deita aqui perto da mãe. Você está observando a chegada do Lucas? A alegria de todo mundo?” “Sei mãe” “Você foi igualzinho, filho. Ou talvez mais porque você foi o homem que tinha chegado na nossa casa, tinha duas filhas”. E comecei a conversar com ele: “Filho, papai do céu dá o coração para uma mãe dividido por igual pra cada filho. O amor que eu tenho por Lucas, tenho pra Cláudia, pra Débora e pra você. Deus divide ali certinho, filho. Essa alegria toda que você está vendo, essa festa, foi igualzinho”. E graças a Deus ele foi melhorando, mas ele estava muito tristinho e ficou bem. Mas mesmo assim, ele teve muito, muito ciúmes do Lucas, até grande.
P/1 – Lucas agora está com?
R – Vinte e dois.
P/1 – Vinte e dois. E hoje todo mundo se dá bem.
R – Muito bem. Mas a parte de juventude, de criança do Lucas, ele teve muito ciúmes. Era brincadeira estúpida de machucar e eu percebia que não era só a brincadeira, né? Só que uns quatro anos atrás ele chegou em casa e falou: “Mãe, tudo o que eu passei com o Lucas, eu quero deixar tudo pra trás”. Ele falou chorando. “Eu não dei apoio pra ele, eu não fiz nada por ele, mãe. A partir de agora eu sou amigo do Lucas”. Mas assim, eu em oração. Às vezes eu tinha medo de sair de casa e deixar os dois sozinhos. Nunca se machucaram. E o Lucas provocava muito, provocava ele. Mas foi assim. E antes do Lucas nascer, eu trabalhando na igreja tinha uma Campanha da Fraternidade e eu ia nas casas fazer oração e o Claudinei me acompanhava. E tem uma frase na bíblia que fala assim, Jesus fala: “Quem acolhe ao menor a mim acolhe”, e justo nesse dia ele estava comigo. E ele queria um irmão, de todo jeito ele queria um irmão. Estava com seis anos na época. Ele falou assim pra mim: “Mãe, a senhora não faz as coisas que Jesus pede, né?” Eu falei: “Por que, filho?” “Mãe, você não falou lá na casa que a gente estava fazendo oração que Jesus falou que quem acolhe o menor a mim acolhe?”, eu falei: “É” “E por que você não adota um menino pra mim?”. Eu expliquei pra ele toda a situação. Aí tinha uma senhora grávida, viúva, quatro filhos e ia nascer o quinto. O pai morreu porque era bandido e a freira que eu trabalhava com ela me convidou pra visitar e estava já pra ganhar neném. E ela morava com uma irmã com três filhos. E conversando ela falou: “A minha preocupação é como que eu vou deixar essas crianças aqui, tal. Eu falei pra ela: “Se você quiser eu levo um até você voltar da maternidade”. Ela falou: “Se você fizer isso eu agradeço, mas eu prefiro o mais velho” “Por que?” “Porque é o mais danado. Ele não para, ele só vive na rua” “Tudo bem”. Nisso o menino passa, quando ele passou ela falou: “É esse daqui”, ele estava com uma faca na mão, correndo, pra fazer pipa. No outro dia ela ia levar, não levou, choveu. Eu fui lá no outro dia: “Então, choveu, eu não tinha roupa pra ele vestir, tal”. Eu falei: “Dá do jeito que está”. Ele tinha nove anos, o Claudinei tinha nove anos. Ele batia aqui no Claudinei. Pequenininho, magrinho, usando roupa de bebê, aquelas calças de bebês. “Quantos anos ele tem?” “Nove” “Nove? Está na escola?” “Não”. Levei pra casa. Bom, chegando lá, uma semana depois o neném nasceu e eu chamei ele, eu falei: “Paulo, a sua mãe já ganhou neném e a gente vai buscar ela na maternidade”, meu marido que buscou, “e você vai pra sua mãe”. Ele sentou assim, encostou na parede, pôs a mãozinha assim. “Paulo, sua mãe ganhou neném, ela está bem, por que você está triste?” “Tia, eu não quero ir pra casa da minha mãe, eu quero ficar aqui”. Aí conversei com meu marido, fui lá com ela, ele não queria nem visitar a mãe, levei ele. Conversei com ela: “Ah, tudo bem, pode ficar”. Como se fosse um cachorrinho, como se fosse um gato. Só que ele já tinha passado uns tempos com uma outra família. Aí ele ficou comigo, um amor de criança e o Claudinei começou a sentir ciúmes dele. Ele nunca teve carinho, o Paulo, nunca teve nada. Eu sentava no sofá, ele encostava aqui em mim. Se o Claudinei visse... aí foi passando esse problema, eu fui vendo que ele tinha mais os irmãos e eu falei que não é justo eu ficar com essa criança porque ele tem mãe, pela lei, né? Pela lei também não pode. Aí pus ele na escola, estudou até a terceira série. E ele falou: “Tia, eu prefiro ir pra casa mesmo, tia, porque o meu irmão já está fumando”. E esse negócio de droga, bebida, morte, ele sabia de tudo por causa do pai. A mãe podia estar o calor que fosse ia para o supermercado com ele que era o mais velho e o segundo filho e punha aqueles blusões, ela ia pegando as coisas e pondo dentro das jaquetas junto com ele, ele fez isso também. Hoje é uma pessoa excelente, tem família, tem um filhinho e eu considero como filho. E sempre quando ele vai na minha casa ele fala: “Ah tia, eu sou o que eu sou por causa de vocês dois, vocês foram meu pai e minha mãe” e agradece muito a gente. Depois com o nascimento do Lucas, ele brincava muito também com o Lucas, brincadeira de rolar, e o outro, Claudinei, já tinha ciúmes, Claudinei já não tinha jeito. Mas foi assim, uma vida tranquila e hoje o Claudinei e o Lucas se dão muito bem. Eu tenho quatro filhos, o Paulo demora mais a me visitar, mas a gente tem contato. Então assim, um precisa de uma coisa, o outro está ali próximo. Aí esse meu trabalho como voluntária, depois fiz essa prova, terminei o colegial e falei: “Ah”. Aí a diretora da escola falou: “Iris, por favor, faça uma faculdade”. Aí em julho eu terminava, quando foi em maio uma pessoa da Secretaria de Educação ligou pra mim e falou: “Iris, você sabe de alguma pessoa que mora aí perto da escola”, que tinha inaugurado uma escola, Paulo Freire, pertinho da minha casa, “que tem o colegial completo pra pegar uma sala de MOVA?”. Eu falei assim: “Olha, pode ser eu?” “Iris, mas você falou pra mim que não tem o colegial”. Eu falei: “Não tinha, vou terminar agora” “A sala é sua. Você só precisa trazer no mínimo uma lista de 15 alunos”. Só que eu já trabalhava com um grupo da terceira idade, eu fundei o grupo da terceira idade lá no Santa Emília. Como que eu fundei? Tinha no Vazame, tinha no Santa Eduarda. Santa Emília ficou no meio sem nada. Então eu ia em um e em outro porque eu gostava de ir pra fazer ginástica. Um dia teve uma reunião lá no Santa Eduarda e o prefeito, que na época era o Geraldo Cruz, estava presente nessa reunião. Esperei a reunião, chamei ele no canto e falei: “Geraldo, é o seguinte, Santa Emília está no meio e não tem o grupo, por quê?” “Não sei, nunca ninguém comentou nada”. Eu falei: “Eu não faço questão de andar, eu vou em um e vou no outro, pra mim tanto faz, mas a maioria dos idosos que estão lá sentados numa cadeira não faz esse sacrifício. E se tiver no Santa Emília eu tenho certeza. Ele falou: “Olha, arruma o local, é só você arrumar o local, aí você vai na prefeitura”. No dia seguinte eu fui e conversei com o padre. Tem um pátio grande, conversei com ele: “Não, tudo bem”. Aí fui na prefeitura e lá: “Você me traz uma lista de no mínimo 20 pessoas pra arrumar o professor. Só que professor não tem época, tá, e falta”. Rapidinho eu fiz a lista pra ginástica. Consegui 35 pessoas na lista, levei na prefeitura: “Olha, está aqui, mas daqui um mês mais ou menos”. Em três dias ligou na minha casa: “Já arrumei professor pra você”. E esse grupo está em pé até hoje, faz dez anos. Nesse grupo da terceira idade eu já peguei pessoas pro MOVA também. Comecei com 20 pessoas no MOVA. O MOVA pra mim foi um momento de alegria, de felicidade. Um aluno chegou pra mim e falou assim: “Professora, posso falar uma coisa?” “Pode” “Esse lápis que está aqui na minha mão é mais pesado do que a minha enxada, porque eu não conseguia nem segurar no lápis”. Então era assim, o que nós  estamos fazendo hoje também fiz trabalho, pegava assim e falava: “Você vai contar a sua história. Da onde você veio, tal, tal, tal”. Coisinha pequena. Eles iam falando e eu ia anotando.
P/1 – O que é o MOVA?
R – MOVA é um movimento de jovens e adultos, é de 15 anos pra cima, só que de 15 anos nunca tem. Eu tinha aluno de 70 anos, aluno mais velho do que eu. Só que eu trabalhava com eles em todo sentido. Primeira coisa: o que vocês estão fazendo aqui? Por que? Uma fala, o outro falava: “Ah, agradeço o prefeito”. Não agradeça ao prefeito, é um direito seu que você não teve na sua infância, na sua adolescência, você está cumprindo esse direito agora. E eu trabalho muito o valor de cada pessoa. “Ah, mas eu não sei fazer nada” “Você não sabe fazer?” “Não” “Mas você trabalha no quê?” “Ah, eu trabalhei na roça” “Ah, eu sou cozinheira, eu faço um bom prato” “Então você não sabe nada? Eu não sou uma boa cozinheira, eu não sei trabalhar na roça. E por que eu sou melhor do que você, porque eu sei fazer uma letra?”. Então eu trabalho muito assim, no começo, nesse estilo. E a amizade, o carinho, o respeito. Te tratam, que até hoje ele me encontra na rua e beija minha mão, senhorzinho de 70 e poucos anos. Essa história dele eu preciso te contar. Eu fiz uma brincadeira, um círculo, eu começo a contar uma história e tem uma palavra chave, vamos supor, trem. A história tem que ter a palavra trem. Quando fala a palavra trem todo mundo levanta. Depois de novo trem, todo mundo sentava. Aquele que sentava por último continua a história. É muito bacana, muito legal essa dinâmica. Coincidência o primeiro foi ele. Paraná, tímido, branquinho, tímido demais. Eu falei: “José, continua a história” “Não, professora, eu não sei” “Você sabe, basta você falar essa palavra. Você vai falar, todos aqui, nós somos iguais”. Bom, ele falou. Ele parecia um pimentão vermelhinho, vermelhinho, vermelhinho, eu pensei que ia dar um troço no homem e ia cair. Quando terminou ele falou assim: “Professora, eu nunca pensei na minha vida, na minha idade, que um dia eu ia falar coisas pra muita gente escutar, hoje eu falei”. Uma vez eu estava dando aula de Matemática, continha, aí quando eu vi ele arrumando o caderninho dele e guardando eu cheguei assim: “José, está com algum problema?” “Professora, eu vou embora” “Por que você vai embora? Não deu hora ainda” “Eu vou embora porque eu sou um burro” “Você é um burro, José?” “Sou, professora” “Ah, tá bom. José, fica de pé um pouquinho”. Ele levantou. “Vira as costas pra mim”, ele virou. “José, cadê o seu rabo? Nunca vi um burro sem rabo. Cadê sua orelha grande? Você é um ser humano, você é imagem e semelhança de Deus. Eu não sou nada mais do que você aqui”. Aí as lágrimas dele caíam. Arrumou as coisinhas dele, quando terminou a aula ele ficou por último, me abraçou e falou: “Professora, como você me valoriza desse jeito?” “Eu estou falando o que você é, não estou te valorizando, é o que você é, você é importante”. Isso foi em 2006, faz uns seis meses mais ou menos ele chegou em casa pra visitar meu marido. Ele é todo assim, pra falar ele é complicado. “Professora, eu vim aqui também pra ver se você pode fazer um favor pra mim” “O que foi?” “Professora, jogaram um tênis amarrado no outro e caiu no fio do poste que vai pra minha casa e não dá pra gente assistir televisão. Eu fui na Eletropaulo mas lá eles falaram que eu precisava levar foto da entrada da minha casa e do poste, mas uma carta feita a punho. Professora, eu só lembrei de você: quem vai fazer essa carta pra mim?” “Tá bom, José” “Mas professora, por favor, me desculpa. Eu estou tomando seu tempo, não precisa ser agora” “Nós vamos fazer agora”. Chamei ele lá na cozinha e fui escrevendo. Ai li pra ele. “Nossa professora está ótimo!”, eu falei: “Não. José, quando a gente faz qualquer coisa, uma carta, qualquer escrita, a gente tem que ler uma, duas, três vezes que vai aparecer erros, vai aparecer coisas a mais ou coisas a menos. Aqui ó, eu li pra você e já vi o que precisa”. E refiz. Ele levou a carta. Com uma semana ele passou na minha casa. “Professora, o homem falou quem fez essa carta e eu falei que era minha professora. Porque essa carta está perfeita, nossa, ele falou tanto dessa carta, professora! Professora, eu não sei como te agradecer. Professora, eu vou te pagar” “Eu não trabalho com isso” “Não professora, eu vou te pagar sim. Quanto você vai cobrar?”. Eu falei: “José, eu não trabalho pra fazer carta! Não é meu emprego, como eu vou te cobrar? Será que eu não posso te fazer um favor?” “Mas um agrado eu vou te dar” “Tá bom”. E foram passando os meses. Ele foi e eu não estava em casa, deixou lá. Sacolinha de supermercado toda cheia de durex. Falou pro meu neto e contou toda a história pro meu neto. Aí eu cheguei e o menino falou assim: “Vó, um ex-aluno da senhora chegou aqui e deixou isso daqui que é da senhora”. Eu falei: “Ah, já sei, é o José. Meu Deus. Sabe por que Samuel?” “Vó, não me conta! Ele me contou a história inteirinha, eu sei de tudo. Da carta, da televisão, do que o homem lá na Eletropaulo falou, sei de tudo”. Tá bom. E eu estou quebrando durex, quebra durex. O que tinha lá dentro? Duas lampadazinhas, aquela mais fraca. Então, aquilo não sei, não foi um presente, né? O que eu senti? Uma lâmpada, uma coisa tão comum, duas, uma usei, a outra eu guardei pra sempre. O que eu percebi, aquilo pra ele é que eu fui uma luz na vida dele. E assim foram outros e outros e outras coisas. Então amei trabalhar com o MOVA.
P/1 – Você continua no MOVA?
R – Então, aí depois, quando eu comecei a fazer a faculdade.
P/1 – E essa transição? Foi uma pressão, não sei o quê. A prefeitura “te pressionou”: “Você não tem graduação e tal, daí você fez todo esse corre e entrou na universidade. Você fez vestibular?
R – Não. Eu entrei na faculdade como eu te falei lá, um desafio. Eu gosto de desafiar aquilo que é impossível, porque seria impossível. E ao mesmo tempo, meu Deus, eu sonhei de quando era criança. Quando estava eu e minhas sobrinhas, tudo mais ou menos da mesma idade eu era a professora de brincadeira em casa, eu dava aula. Eu era a professora porque eu era a mais velha. Se eu estava com 13 anos a outra estava com 12, a outra com 10, outra com nove, tudo sobrinhas. E todo mundo ficava perguntando se eu sou professora, pergunta e eu tenho que falar que não, que não. Eu fiz a matrícula. E foi aí que eu tive que deixar do MOVA. Entrei na faculdade, com um mês a prefeitura já me chamou pra fazer estágio e foi onde eu fui contar história. Quando eu fui fazer estágio eu cheguei lá e a professora, no dia de formação de história na escola tinha uma projeto de formação de contador de história e eu fui, de xereta. E estavam lá as professoras todas nesse dia. E calhou que a diretora da escola que eu fui fazer estágio me reconheceu do dia da história. Ela falou: “Iris, eu já te conheço, você não é que estava na aula de contador de história?”, eu falei: “É” “E aí, o que você acha?” “Eu amo contar história” “Iris, eu não vou te botar aqui como estagiária, você vai ter uma sala pra você”. Me chamou lá. Só lixo, bagunça mesmo. Tiramos tudo. Tinha uma mesa de centro de madeira desse tamanho, feia, toda rabiscada, suja de tinta e fomos. Eu falei: “Eu posso fazer um trabalho nessa mesa?” “Pode”. O que eu fiz? Eu revesti ela inteirinha com filtro de café usado, filtro usado, é como se fosse uma madeira. Ficou linda, passei verniz, todo mundo que chegava: “Nossa, que mesa linda!”, ia pra reciclagem. E comecei a contar história. Nessa época era oito horas de estágio, quatro horas de manhã e quatro à tarde. Eu trabalhava, contava história quatro horas, quatro salas de manhã e quatro salas à tarde. Eu trabalhei com a escola inteirinha, da fase cinco até a quarta série. Então trabalhei com todos os alunos. Foi emocionante. As professoras chegavam pra mim e falavam: “Iris, eu não sei o que acontece, eu conto história todo dia mas quando chega o seu dia eles ficam no relógio: ‘Professora, está na hora de descer’. E quando eles retornam, começam a contar história que você contou”. Abriu um sacolão perto da minha casa. Uns três meses atrás eu entrei no sacolão, estou lá, a moça me atendendo, ela falou assim: “Nossa, você não lembra de mim?”, eu falei: “Não” “Você não era contadora de história no Villa Lobos? Eu fui sua aluna”. Ela falou assim: “Eu só não lembro do seu nome, eu lembro de dois nomes, eu não sei se você chama Iris ou Isis” “Iris” “Olha, até hoje eu lembro das suas histórias”. O que eu fazia? Em casa eles tinham obrigação como tarefa de casa. Chegar em casa e chamar mamãe e papai e sentar: “Agora vocês vão escutar a história que eu ouvi hoje”, e eles escutavam. Outro dia uma mãe no pátio, era o menino mais terrível da fase cinco, e por coincidência a minha sala era do lado da sala dele. Ele fugia de lá pra vir pra minha sala. A mãe está carregando ele, aí a mãe me puxou:  “Ah, você que é a professora contadora de histórias?”, eu falei: “Sou” “Olha, meu filho me deixou tão emocionada”, eu falei: “Por quê?”. Ele pegou uma formiguinha na mão, olhou pra mim e falou assim: “Mãe, você tá vendo essa formiguinha?” “Sim, filho, por quê?” “Mãe, é um ser vivo!” “Ah é, filho?” “É” “Quem falou?” “A professora Iris falou que a formiguinha também é um ser vivo”. Então foram momentos de muita emoção pra mim, muita alegria. E quando foi renovar, que era dois anos, renovou meu contrato, a secretaria de educação foi descobrir que eu estava em sala de aula contando história, eu não podia porque eu não era formada. Aí foi um terror. A diretora fez o que pôde, correu, correu atrás. As crianças mudaram na sala de aula em tudo. O gosto pela leitura que eles não tinham. E a diretora falou: “A escola não vale mais nada. O que está fazendo bem eles tiram, eu não podia, por lei”. Aí eu fui trabalhar com uma deficiente e essa deficiente tinha nove anos, na terceira série, ela babava muito, corria na sala inteira. Eu consegui fazer ela parar de babar e ela copiava as coisas, fazia o nome dela, Amanda. Falava: “Amanda, agora você vai fazer sem olhar”. Ela não conseguia. Eu falei: “Então faz o meu nome sem olhar”, e o meu nome ela fazia sem olhar. Então eu passei muitos momentos de emoção, de alegria. Bom, depois terminei o estágio, aí veio um outro projeto pra trabalhar na creche. Tinha 30 vagas e 120 inscritos e eu consegui também, me aprovaram. Ainda estava cursando a faculdade, isso foi em 2011, eu terminei no final de 2011, em dezembro. Eu tenho problema sério de coluna, proibida pelo ortopedista de pegar peso, pegar balde d’água e tal. Quando me mandaram pra creche eu fui, Jardim Pinheirinho lá em Embu das Artes mesmo, chego lá e a diretora fala assim: “Eu estou precisando urgentemente de uma ADI mas é pra fase I”. Quando eu abri a porta da sala e entrei, 23 crianças, três andavam e 20 engatinhavam. Eu falei: “Meu Deus, é aqui que você me colocou, é aqui que eu vou ficar”. Bom, comecei a trabalhar. Periferia, crianças muito maltratadas, muito pobres, muito sujas. Aí tinha um menino, João Vitor. O João Vitor andava com uma mamadeira de suco, esse suco de saquinho, que a mãe trazia. Ele não comia comida de jeito nenhum e eu vendo. No terceiro dia eu falei: “Gente, por que o João Vitor não come?”, porque era em três, trabalhava eu e mais duas, as duas concursadas e eu com o projeto. “Ah Iris, nem adianta por comida, o João Vitor não come comida”. Eu falei: “Mas ele passa o dia com esse suco?” “É”. No terceiro dia eu peguei ele no colo, peguei o caldinho de feijão, fui. E ele. Eu fui sujando a boca dele, fui sujando e ele comeu. Comeu e comeu e comeu. As mamadeiras de suco foram descartadas. Aí as professoras: “Não entendo”. Então pela experiência que eu já trabalhei em muitas salas de aula como projeto eu vejo que professor está a desejar, não é aquilo. A Pedagogia que a gente faz é só no papel, que na realidade não é aquilo. E na sala de aula quando eu estava fazendo eu falava pra professora: “Isso aqui é uma farsa porque não acontece em sala de aula, não acontece”. Outro dia eu estava conversando com uma professora, que esse dia eu estava fazendo outro tipo de projeto e o menino tirou o chapeuzinho e batendo na carteira. Aquele barulhinho que vai te irritando, né? A professora chegou lá, foi perto dele, arrancou dele e falou assim: “Se quiser bater esse teu chapéu vai ter na cabeça da sua mãe!” Aquilo pra mim, isso não é professora. Quer dizer, aquela carteira tinha mais valor do que a mãe dele, eu já penso assim. Eu engoli aquilo. Então, eu gostaria de dar aula. Depois teve o concurso na prefeitura pra ADI, ADI é que trabalha só com creche e pra professora. Eu prestei pros dois, passei pros dois, só que eu fiquei na peneira, não me chamaram. Bom, nisso daí, quando eu terminei com as crianças, que era um projeto de um ano só, em março era para eu ir na prefeitura pra ver se eu conseguia um outro projeto, porque eu nunca fiquei sem trabalhar, meu foco é trabalhar, principalmente com criança, jovem, adolescente. Em março já estava para eu ir lá para ver o que eles iam me encaixar. Dia 28 de fevereiro de 2012, e eu ia em março de 2012, meu marido saiu cedo, amanheceu com uma mancha na barriga, eu falei: “Vai ao médico ver o que é isso”, estava um sol muito quente, foi o dia mais quente do ano, foi falado demais nesse dia. Ele ligou pra mim: “Olha, eu estou aqui, estou em observação”, eu liguei para o meu filho que estava de férias, o Claudinei, e falei: “Filho, vai até o hospital buscar o pai que o pai está em observação. O Claudinei ligou pra ele, ele falou assim: “Não, não vem me buscar não que eu vou de ônibus, já estou indo” “Pai, me espera” “Não, eu estou indo”, porque ele não gosta, tudo pra ele falava incomodando. Ele falou: “Eu já estou dentro do ônibus”. Meu filho falou: “Mãe, não tem jeito”. Nisso ele chegou. Eu preparei o almoço, ele almoçou, nós ficamos ali conversando na mesa e meu filho falou: “Estou indo”, ele falou: “Ah, eu vou também”. Não: “Pra onde você vai?” “Ah pai, eu vou assistir ao jogo do Brasil” “Ah, eu vou com você”. E ele nunca é de ir lá no meu filho sozinho, sempre comigo. Meu filho fez assim pra mim. Eu falei: “Leva, pra distrair”. E foram. Eu fui pro supermercado, que em casa a gente não fica sem fruta, principalmente laranja e banana era sagrado. Eu estava chegando no supermercado, eu liguei pra ele: “Bem, eu estou entrando no supermercado, eu tenho umas coisas pra comprar e não vai dar para eu levar tudo. Na volta você passa no mercado”, que perto da casa do meu filho também tinha outro supermercado, “você traz laranja e banana”. Ele falou assim: “Tá”. Foi a última voz que eu escutei do meu marido. Eu estou passando no caixa. E eu estava nessa época trabalhando em um outro trabalho que é um aparelho de massagem da Nissan Fisio, também ganhei um bom dinheiro essa época e eu tinha encontrado com uma pessoa no ônibus e comentei com ela. Ela falou assim: “Eu ligo pra senhora. Se o meu filho estiver em casa a senhora vai fazer a demonstração na minha casa”. O telefone tocou, eu pensei... estou conversando como se fosse a mulher. Eu falei: “Não estou te entendendo, você não é a pessoa que eu encontrei no ônibus, que você ficou de ligar?”, aí ela falou assim: “Dona Iris, eu sou sua nora, Maria” “Nossa Maria, o que foi?” “Dona Iris, seu Eliziário passou mal, o Claudinei levou ele pro hospital”. Aí eu cheguei em casa eram 16 horas, 48 minutos do dia 28 de fevereiro de 2012. Cheguei em casa, já peguei o ônibus e fui pro hospital. Cheguei lá meu marido estava totalmente parado, foi um AVC. Esse foi o quinto, né, já tinha tido quatro mas logo voltou ao normal. E meu marido totalmente parado e até hoje não fala, não anda (suspiro, emocionada). Como ela resolveu mudar pra lá, ela deu a casa pro Lucas morar, então o que acontece? Eu não vou ficar sozinha, Deus preparou tudo, ele vai continuar na casa que ela morava e meu filho está lá junto conosco até hoje, ele faz faculdade. E a menina é muito legal, eles vão se casar, gosto muito dela, bacana, uma menina simplesinha, delicada, muito boa e vão morar lá perto de nós. Porque quando a minha filha pensou de ir pra Curitiba ela achou assim: “Mãe, alugar a casa e com o aluguel metade eu deixo pra Juraci e metade pra mim, tal”. Eu ficava pensando: “Meu Deus, minha filha vai pra lá e eu aqui com um estranho no quintal” (emocionada).
P/1 – Deixa eu perguntar. Você sempre falou que teve vários sonhos e os sonhos foram sendo realizados, né? Casamento, faculdade, estudar. E hoje a senhora já está mais velha. E aí, quais são seus sonhos de agora? A filha voltar de Curitiba não vale, hein? (risos)
R – Não, mas ela está bem lá, eu estou feliz com ela lá.
P/1 – Tem alguma coisa que você fica sonhando?
R – Então, sonhos, se a gente for falar em sonhos são muitos, mas por exemplo, cada nascimento de um filho é um sonho, é uma alegria. Meu marido, quando eu chegava da maternidade eu nunca levantei à noite pra cuidar de um bebê, era ele, sempre carinhoso com os filhos. Quando os primeiros netos dormiam em casa nenhum me chamava, chamava era o avô, era o único que chamava de madrugada: “Pai, quero água!” “Pai, quero fazer xixi”. E os netos também foi a mesma coisa. Então cada nascimento de um foi um sonho, foi alegria, foi uma realidade. E além de tudo, a companhia, o carinho desse homem com esses filhos, muito carinho. E hoje ele recebe deles a mesma coisa, trocou, né? Quando ele vê eles lá é uma festa. Se está faltando um ele percebe e fica ãhãh, até eu já entendo: “Gente, tá faltando Fulano”. Aí: “Bem, é isso que você está falando?”, aí explica por que aquele não está. Então tem momentos de muita alegria, aniversário, ele canta parabéns do jeito dele mas ele canta. A gente percebe que é o parabéns que está saindo. E o meu sonho, quatro filhos foram sonhos maravilhosos. A minha primeira eucaristia foi um sonho maravilhoso. A faculdade além do sonho foi um desafio mostrar, na minha idade, a minha faculdade eu era a mais velha. No colegial eu era a mais velha da sala. E meu sonho agora seria, meu marido precisa de um local pra colocar aquela barra pro fisio trabalhar com ele. Para eu fazer essa barra eu tenho que fazer um pedaço do piso, do quintal, fazer uma coberturinha e colocar aquela barra pra ele segurar com uma mão e o fisio trabalhar com ele. Acho que no momento o sonho é esse. Mas eu sou feliz, uma família maravilhosa. Se um irmão está com uma encrenquinha, às vezes tem encrenca sabe como: “É porque eu cuidei mais do pai”, coisa de bobeira, eu falo: “Olha o que o seu irmão faz de bom, não olha o que ele faz de ruim”. Que o ser humano tem esse defeito: olhar o defeito das pessoas e não ver o positivo da pessoa, então eu comento isso. “Você está fazendo a sua parte? A sua parte você acha que está boa? Continua”. Eu converso muito com eles. Às vezes eu vou falar alguma coisa de um e vem: “E Fulano?” “Eu estou falando com você, não estou falando do Fulano, eu estou falando agora com você, então fique na sua. Se eu precisar falar com ele eu vou falar com ele sozinho”. Então dá impressão que é uma atenção só dele. Não, eu não vou falar na frente dos outros, eu gosto de falar em particular com cada um. Que quando eu acho que tenho que falar eu falo, né? 
P/1 – Gostou de contar um pouco a sua história?
R – Muito. Muito.
P/1 – Você chegou aqui falando que tinha sido meio dolorido (risos), que saiu meio desnorteada, mas você gostou de revisitar, de registrar?
R – Gostei muito. E saber que assim, um exemplo, tem mães que às vezes não dão muito valor pros filhos, que o filho é isso. Eu acho assim, como mãe a gente entender que, igual no caso a nossa mão tem cinco dedos, nenhum é igual ao outro, né? E cada filho tem o seu lado bom, tem o seu lado negativo. Como eu não sou perfeita e ninguém é perfeito, né? Então eu procuro entender cada um, cada jeito dos meus filhos. E com meu marido eu faço tudo o que está ao meu alcance, não consigo trocar uma fralda dele com nojo, rindo com ele para ele perceber que eu estou fazendo numa boa, brincando. Às vezes de manhã por mais que você cuida, põe plástico embaixo, põe travessa, põe fralda, às vezes vaza, molha. E aí eu brinco: “Eita que chuva que deu nessa noite! Cadê as goteiras, você não arruma a goteira e choveu na cama”, ele dá risada. Então eu vivo em momento de agradecimento, agradeço muito, muito a Deus por todas as pessoas que me envolveram nesse problema dele, parentes, amigos, que estavam ali na minha volta, precisando de alguma coisa tinha alguém pra me socorrer. Hoje graças a Deus eu pego os remédios do governo. Fralda eu pego do governo. Tenho que comprar também porque a que vem é frágil, fraquinha, então pra dormir eu tenho que comprar. A dificuldade financeira continua, mas eu acho assim, a minha riqueza é a minha família. Então faltou dinheiro a gente dá um jeito, está devendo no banco não vem na minha porta cobrar, eu recebo uma cartinha e a gente vai indo. Então.
P/1 – Iris, em nome do Museu da Pessoa eu gostaria muito de agradecer, obrigado por ter dado a sua história, por ter compartilhado por dois dias a sua narrativa e espero que você tenha gostado, então, muito obrigado.
R – Muito, gostei muito, porque foi um momento diferente na minha vida. Espero que eu consiga terminar o meu livro, um dia eu fazer o meu livro, que eu gostaria. Que a gente sabe que não é fácil, não é barato.
P/1 – Aqui já tem algum registro, você vai poder depois ir vendo.
R – E completar.
P/1 – Obrigado.
R – Eu agradeço muito a vocês o carinho, a atenção, o seu jeito maravilhoso, que eu percebi em você um espírito humano, que é isso que a gente precisa ter, espírito humano. E quem tem espírito humano é um espírito divino, né? Se é divino já falou tudo, né?
P/1 – Obrigado, Iris.
R – Muito obrigada eu. 
FINAL DA ENTREVISTAP/1 – Inicialmente Iris, muito obrigada por ter vindo aqui, ceder um pouco da sua história pra gente, um pouco do seu tempo. Então, em nome do Museu da Pessoa, gostaria de agradecer sua presença aqui.
R – Eu também nesse momento estou agradecida, né, pela minha filha também que me incentivou e sinto honrada por estar aqui, um momento diferente da minha vida, que já tive vários, tô tendo mais um.
P/1 – Obrigado. Vamos falar sobre ela, né? Iris, para o nosso registro, eu gostaria que você falasse primeiro o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Iris Nunes de Oliveira, nascida em 12 de janeiro de 1948, na cidade de Poções, Bahia.
P/1 – Iris, antes de começar pela sua história mesmo, queria voltar um pouco para as suas raízes. A história da sua família. Conheceu seus avós de parte paterna, materna? Você sabe a história da sua família?
R – Sei um pouco. Assim, meu pai teve com a minha mãe, 15 filhos. Eu fui a 15ª. E o meu pai costumava morar em roça, mas assim, ele mesmo ia lá e começava, inclusive a cidade em que eu nasci foi o meu pai que fundou junto com dois amigos, cortando árvores, né, minha mãe contava pra mim que tinha árvore que quatro homens abraçando assim para conseguir alcançar o tronco da árvore. E foi um trabalho difícil porque não eram máquinas como hoje, mas sim, no machado mesmo e a força do braço. Aí na cidade, ele começou a fazer casinhas e foram aparecendo pessoas nos arredores e lá, o meu pai montou uma lojinha, ele tinha também uma roça de café, fez uma roça grande e nessa loja, ele vendia de tudo, do querosene, do tamanco, do tecido e assim, eles viviam, né? Nessa altura, um dos meus irmãos, alguns já estavam fora da Bahia, pra Minas e quando eu nasci, inclusive tinham dois irmãos que eu não conhecia que já tinham saído que eram os mais velhos. E assim, era uma vida tranquila, meu pai ajudava muito as pessoas, os mais pobres, não tinha escola e ele conseguiu construir um salão e foi até a prefeitura de Itororó e lá conseguiu uma professora por causa dos meus irmãos que eram muito pequenos e das crianças da roça, assim começou essa escolinha na cidade de Itati. É assim, eu nasci em Itati, mas fui registrada em Poções.
P/1 – Entendi. E a cidade que ele formou é Itati?
R – Itati.
P/1 – Entendi. Mas interessante isso, porque isso ele já era adulto, né? Da onde que ele veio?
R – O meu pai?
P/1 – É, por que que veio essa coisa de formar uma cidade? Que história que… de onde que ele é?
R – O meu pai era neto de português e o meu pai era pelo local, mesmo em Poções, onde meu pai conheceu a minha mãe, era uma cidade bem pequena, bem atrasada e o meu pai viajava muito, então o meu pai sabia ler muito bem, era uma das poucas pessoas que sabiam ler, então ele viajava, tinha tropas de animais, também, inclusive em Itati, também, eu já tô falando da época em que eu nasci, dos meus irmãos eu já não tenho muita… né, eu fui a última. Aí, meu pai tinha tropas de animais e viajava, fazia farinha de mandioca, vendia em Minas. O que eu sei dele é isso daí, com os parentes dele, eu não tive contato, fui ter contato quando era adulta já com os primos, com as pessoas. Eu só sei que quando a minha mãe casou com ele, minha mãe tinha 14 anos, meu pai tinha 24 e a minha mãe era muito simples, ela tinha medo quando ele chegava porque minha mãe estava em casa e meu avô chegou com o meu pai e chamou a minha mãe e falou: “Trouxe um homem pra casar com você”, e ela não podia falar não. E assim foi o casamento deles, não teve namoro, não teve nada e a minha mãe muito inocente, ainda não sabia de nada sobre a parte de sexualidade, muito pacata, ela sofreu um pouquinho no início, mas o meu pai, assim, teve muita paciência com a experiência que ele já tinha e foi um casal que viveu muito bem, foram chegando os filhos e ele sempre cuidou bem dos filhos, não foi um pai que batia, que espancava, se ele percebesse, principalmente das filhas, coisa de namoro, ele chamava no quarto sozinha, conversava, não era a minha mãe, era sempre ele. E nessa ocasião, uma das minhas irmãs ficou grávida, mas assim, ninguém sabia e tudo indica que o meu pai sabia que o meu pai falou pra minha mãe que ele tava passando uma tristeza muito grande, ela insistiu para que ele falasse e ele falou: “não vou falar. Pra que dois sofrerem?”, e a minha mãe ficou com aquela tristeza porque ele não contou pra ela. Aí, ele se preparou para fazer farinha e eu tava com oito meses na época e me levava pra roça junto. Aí no caminho, ele parou na casa de um amigo, pediu água pra mim. Aí o senhor falou assim: “Aí, seu José Nunes, que filha bonita que o senhor tem”, aí ele falou assim pro amigo: “Uma pena que eu não vou criar”, a minha mãe conta que deu um beliscão assim, na barriga dele e falou pra ele: “Que bestagem, homem! Você criou todos, por que não vai criar ela?”, aí seguiram pra roça. Aí meu pai foi buscar lenha pra acender o forno pra fazer a farinha de mandioca. E quando ele voltou, ele voltou com o feche de lenha muito grande, minha mãe chamou a atenção dele, porque ele tinha asma, ela falou: “Por que fazer tudo isso de uma vez? Você sabe que você não pode!”, e ele jogou o feche no chão, pediu um copo de água pra ela, ela pediu a moringa, deu água pra ele, no que ele bebeu, ele tossiu e já cuspiu sangue, quando ele cuspiu sangue, aí a minha mãe já o socorreu, ele já estava morto. Aí, a minha mãe foi até a cidadezinha correndo, passando pelas outras roças, debaixo de arame farpado, ela conta que rasgou roupa, riscou todas costas dela dos arames e chamou o farmacêutico. Ele chegou e falou: “Sinto muito. Ele já está morto”. Aí com a morte do meu pai, depois de passar um tempo, minha mãe foi entender que foi causado pela gravidez da minha irmã, que ele não aceitou aquilo. Aí depois, minha irmã mais velha já estava sabendo que a minha irmã estava grávida e minha irmã sempre doente, minha mãe fazendo chás para ela e a minha irmã mais velha chamou a minha mãe e falou: “Mãe, deixa de bestagem, ela não está doente”, era bem agressiva essa minha irmã, ela que tomava conta da casa, era muito respeitada, os irmãos respeitavam ela, porque assim, ia nascendo sempre, minha mãe só dando de mamar, cuidando dos filhos e a minha irmã cuidava da casa. Aí, minha mãe falou: “Como que ela não tá doente?” “não, mãe, ela está grávida”, aí minha mãe desmaiou na hora, no meio do quintal, caiu. Aí, essa minha irmã, com vergonha do pessoal da redondeza que todo mundo conhecia a nossa família, ela resolveu viajar para a cidade de Itororó e foi assim que aconteceu a viagem, mas ela queria que a minha mãe deixasse a minha irmã grávida, minha mãe falou: “Não, então você vai sozinha e eu fico com os dois menores”, que era eu e o meu irmão que tinha seis anos. “Você vai, mas eu não vou deixar a minha filha só”, aí acabou levando a minha irmã junto para a cidade de Itororó. E assim, o que eu entendo hoje, conforme eu entendo o meu pai, tudo o que o meu pai tinha de loja, de roça de café, de tropas de animais, parece que enterrou junto, como ficamos sem nada. Meus pais eram casados no na igreja e nessa época, não tinha essa lei que conviver cinco anos já tem direitos. Quando fomos para Itororó, as coisas foram ficando muito mais difícil, as minhas irmãs começaram, a costurar para fora, um dinheirinho aqui, outro ali. A minha mãe fazia biscoito para vender, que ela não trabalhava, minha mãe tinha uma vida bem tranquila, inclusive, na época do meu pai, meu pai comprava aquelas mulas mais caras, mais bonitas, a sela da minha mãe não era a de montar, era a sentada de lado, tudo, enfeitada com medalhas, tudo. Era uma vida bem bonita, só que eu não alcancei esse momento e eu fui crescendo com uma mágoa de ser a última filha, eu queria ser a mais velha por ter passado por aqueles momentos ali com o meu pai, isso me prejudicou um pouco na minha infância e logo em seguida, minha irmã mais velha conheceu um senhor que inclusive morava perto da casa em que nós fomos morar, ele era carpinteiro e todos os dias, a minha irmã ia lá na oficina dele buscar aquelas palhas da madeira pra ajudar a ascender o fogão de lenha. E ela mesma chegou pra ele… e ele era viúvo, bem senhor já. Falou pra ele que ela queria casar com ele, ele ficou meio assustado, né, uma moça jovem, bonita,ela não tinha nem 25 anos na época e ele concordou. Aí, até logo de inicio houve comentários do pessoal falar que a minha mãe, mal meu pai tinha morrido, minha mãe já estava com outro marido, tava namorando, que ele ia lá, ninguém imaginava que era… porque ele era quase da idade da minha mãe, um pouco mais novo. Os dois se casaram, aí o meu cunhado tinha uma vida mais tranquila também, o marceneiro e ele começou afazer a feira pra gente, ajudando na nossa alimentação e minha mãe começou a correr com as papeladas pra ver se conseguia algo das nossas terras, porque nossa terra era muito grande, aí até que lá nessa cidade de Itororó, eles falaram que os documentos que o meu pai fez tava tudo no cartório de Poções, que era… eu calculo que na época que não tinha asfalto, nada, acho que eram umas cinco, seis horas de viagem. Aí, minha mãe resolveu ir para lá e deixou eu… nessa altura, minha mãe já criava a neta, da minha irmã, porque a minha irmã morreu logo em seguida, também. Ela engravidou pela segunda vez. Na segunda gravidez ela morreu, depois de 15 dias, o bebê morreu e a minha mãe criou essa minha sobrinha que para nós, é como irmã também. A minha mãe levou a neta e me deixou com a minha irmã em Itororó. Aí, minha mãe alugou uma casa, os dois irmãos começaram a trabalhar de alfaiates, mas o dinheiro não dava, era pouquinho e ali, um senhor que era vizinho, que era viúvo, também, e conversou com a minha mãe, né, ele viu a situação difícil dela se ela não queria que ele ajudasse a pagar o aluguel, ajudar em tudo, então a minha mãe começou com esses dois meus irmãos que moravam com ela e foi na casa dos meus avós que os meus avós moravam em Poções e meus avós acharam que era bom tentar. Era um senhor negro, seu Antônio e lá foram morar juntos, depois, a minha mãe começou a mexer lá nas papeladas em Poções e voltou para Itororó para me buscar, porque eu sentia muita falta e ela sentia muita falta porque a partir do momento que o meu pai faleceu, comecei a dormir com a minha mãe. Então, era muito apegada a ela e ela chegou para apresentar para as minhas irmãs, uma das minhas irmãs deixou um recado para minha mãe que a minha mãe entrava por uma porta e ela saía por outra, porque ela não queria conhecer essa pessoa. Então, a minha mãe sofreu bastante com isso daí, porque foi aquela mãe que sempre estava do lado dos filhos e isso magoou muito ela. Aí, eu fui morar na cidade de Poções, eu já estava com mais ou menos, sete anos e a minha vontade era estudar, só que em Itororó, a minha irmã tinha uma pessoa que ensinava em casa, a minha irmã começou… quando eu fui com essa pessoa, eu tinha seis anos e eu sou canhota e ela queria amarrar a minha mão esquerda, que naquela época não podia, tinha que escrever com a mão direita, a minha irmã não deixou, falou: “Não, ela tá aqui mais para passar um tempo, porque ela é ainda muito pequena, não vai fazer isso”, e não amarrou a minha mão. E na chegada em Poções, eu queria estudar, meu sonho era estudar, aí dinheiro não tinha, mas aí falaram que tinha uma pessoa que estudava em casa, aí ela cobrava mais barato. Minha mãe me levou até essa pessoa, era uma moça, uma jovem, e tinha umas cinco meninas nessa salinha e a minha mãe não conseguiu pagar. Aí, eu tive que sair. Aí, eu fiquei muito triste e tinha o prédio na praça que falava o prédio escolar, aquela escola enorme e bonita… voltando um pouquinho o assunto, lá quando eu sai dessa moça, aí já tava com um pouquinho mais de idade, aí eu fui para uma escola que era um salão enorme e nesse salão, uma professora dava aula para quem tava na cartilha, primeiro ano, segundo ano e terceiro ano. Um dos meus irmãos que era antes de mim estava no terceiro ano e eu estava na cartilha. E lá, naquela época, usavam aquelas palmatorias, que não sei se você conhece, ela é redonda assim e tem um cabo comprido e qualquer coisa, a professora tinha o direito de bater na criança ou pôr de castigo, de joelhos, às vezes, até em cima de grãos de milho, feijão. E eu fui criada com os meus irmãos e com a minha mãe, com a morte do meu pai foi assim, a coitadinha: “A coitadinha não tem pai, não judia”, tudo era… eu fui criada com muita manhã, muito carinho, muito chorona e nessa escola, então o meu irmão ajudava a professora e ele foi pegar a lição e eu errei umas palavras e ele pegou a palmatória e me deu… (choro)
PAUSA

R – Naquele momento que ele me deu os bolos na palma da minha mão, que era o nome que ele falava…
P/1 – O professor?
R – É. Quem me deu foi o meu irmão.
P/1 – Ah, foi seu irmão que usou a palmatória?
R – Naquele momento, se fosse a professora, talvez, eu não teria sentido tanto, porque eu sabia que era normal as professoras fazerem aquilo, mas como nenhum dos meus irmãos nunca tinham me batido, os mais velhos, e quando ele fez aquilo pra mim me magoou muito, não aceitei. Depois de adulta, eu fui perceber que o meu irmão não gostava de mim, na minha infância, nós sempre fomos rivais, mas só na minha idade adulta, quando eu fui entender que era muito ciúmes que ele tinha de mim, porque a minha mãe engravidava um ano e meio, dois anos nascia um filho e quando eu nasci, esse meu irmão já estava com cinco anos, minha mãe não esperava mais, ele ainda mamava na minha mãe. Então hoje, eu sinto assim que o que ele fazia comigo não era por maldade, mas eu tomei o espaço dele depois de cinco anos. Aí tudo bem. Essa escola ficava numa cidadezinha de Itororó que chamava Bandeira e foi logo em seguida que a minha mãe me buscou para Poções e eu saí dessa escola. E no dia em que morreu Getúlio Vargas, agora eu confundo… o que se enforcou…
P/1 – Se enforcou?
R – Presidente da Republica. Me deu um branco, agora…Getúlio Vargas…
P/1 – Ele se matou, mas não foi enforcado, né? Foi com um tiro? Foi um tiro, mas enfim…
R – Sim. Getúlio Vargas, não é isso?
P/1 – Getúlio Vargas se matou. 
R – Então, nós estávamos nessa sala de aula, aí a professora falou assim: “Meninos, eu tenho uma noticia triste para dar para vocês, o presidente faleceu e vocês vão para casa”, aquela hora eu fiquei assim: ‘o quê que é presidente?’, eu não sabia. Aí, as crianças foram todas pra casa e quando eu chego em casa, falei para minha irmã: “O quê que é presidente?”, ela já sabia da morte também. Aí ela me explicou, né, até aí eu não sabia. Então, nesse dia, eu estava numa sala de aula. Tinha até a data gravada, mas agora, fugiu da mente. Bom, fomos para Poções, voltando a história, né, e fui com essa moça, não deu certo, não tinha dinheiro…
P/1 – Deixa eu só fazer uma pergunta. Nesse momento em que a sua mãe foi embora e você ficou com os seus irmãos, seus irmãos eram crianças, também?
R – Não, fiquei com a minha irmã casada, a que já era casada e que sustentava a minha mãe quando ela estava lá.
P/1 – Só que você estava em Itororó, e aí, você ia estudar numa cidade perto de Itororó, é isso?
R – Que era pertinho.
P/1 – Ia e voltava.
R – Ia e voltava. Atravessava só o rio.
P/1 – E ia como?
R – A pé. Só atravessava o rio. Aí eu fiquei sem estudar. Aí, eu queria…
P/1 – Isso quando a tua mãe te pegou e foi para Poções?
R – Para Poções. Eu cheguei nessa casa dessa moça…
P/1 – Dessa professora, né?
R – Que cobrava. Minha mãe não teve dinheiro para pagar, venceu o mês…
P/1 – Mas você ficou um tempo com ela, não? Ou só um mês?
R – Com essa professora? Só um mês. Aí, fiquei sem estudar e eu não me conformava e da casa que eu morava com a minha mãe para ir para a casa dos meus avós, passava em frente esse prédio escolar. E chegava imenso, grandão, bonito, maravilhoso. Eu olhava assim, falava assim: “Mãe, eu quero estudar no prédio”, minha mãe falava: “Minha filha, você não pode minha filha. Esse prédio é só os filhos do fazendeiro, os filhos do dono da loja, os pobres não dão para estudar”, sendo que essa escola é estadual, mas os grandões colocavam os filhos e não sobravam vagas para os pobres, nunca tinham vagas para os pobres e aquilo não saía da minha cabeça. Quando foi no ano de 1956, eu brincando com minhas amigas, estava lá na praça, me deu vontade de entrar naquele prédio, entrei, subi as escadas, olhei o balcão grande, enorme, envernizado, escuro, uma senhora com a cara fechada do outro lado. Eu parei e fiquei. Ela falou: ‘Menina, o quê que você quer?”, eu abaixei  a cabeça, “Fala o quê que você quer”, e eu com muita vergonha. Sem olhar nos olhos dela, eu falei: “Eu quero estudar” “você não tá estudando?” “Não”. “Você nunca estudou?” “Não.” “Então, você tem que ir para o primeiro ano?” “É”, e ela fez a minha matricula. Eu sai voando, correndo, gritando de alegria, de emoção. Cheguei em casa: “mãe, eu vou estudar no prédio” “Minha filha, como você vai estudar no prédio, minha filha?” “Mãe, eu fiz a minha matricula. Eu vou estudar” “Minha filha, você não pode, minha filha, não vai dar certo, você vai ter que ir lá e desmanchar isso” ”Mãe, por quê que não vai dar certo?” “Você é pobre, minha filha. Você não tem sapato para ir para a escola, você não tem roupa boa, você vai ficar com vergonha das suas colegas” “Mãe, eu vou estudar no prédio”. E minha mãe costumava… tudo o que eu pedia para ele, eu escutava isso direto: “Ah, minha filha, se seu pai fosse vivo! Suas irmãs tiveram tudo”, e aquilo me magoava, mais ainda eu tinha raiva da minha idade. E nesse dia ela falou: “Ah, minha filha, se seu pai fosse vivo”. Eu fui para a escola, fui estudar, feliz da vida, tamanquinho no pé que comprava nas vendas, que hoje fala tamanco é coisa chique, naquela época, vendia nas vendinhas, mesmo, amarradinho com cordão, pendurado, que eram os calçados dos pobres. Roupa bem surradinha e lá eu via que realmente, tinham meninas bem melhor do que eu na situação financeira que eram filhos dos fazendeiros, né, daqueles que tinham dinheiro. Bom, fiquei feliz da vida. Aí, quando chegou mês de setembro, antes de chegar setembro, a professora falou: “Dia sete de setembro vai ter a marcha…”, que é desfile, mas falava a marcha, “…de sete de setembro, quem quer participar da marcha?”, eu achava a marcha a coisa mais linda, todo ano eu ia pra praça para ver. Mais do que depressa, eu levantei a mão e muitos mais, né, “Então, a partir de amanhã, nós vamos começar a ensaiar”, e eu comecei a ensaiar, cheguei em casa e falei para minha mãe: “Minha filha, tu é doida de fazer isso? Tu não pode, que roupa tu vai vestir?” “Mãe, eu vou marchar”, faltando dois dias, isso dia cinco de setembro, a professora falou: “Dia sete, todos que vão marchar têm que estar com sapato preto e meias brancas nos pés”, meu coração acelerou, nunca tinha posto um sapato no pé. Cheguei em casa e falei pra minha mãe, e quando a minha mãe ia comprar um tamanquinho, um tecido que a minha vó fazia, ela vendia galinha pra comprar. Então, minha mãe falou: “Minha filha, não tem uma galinha no quintal pra vender. Tu não pode”, eu chorava, eu chorava e minha mãe entrava em desespero de ver que todos tiveram e eu fui a única que não tinha nada. No dia sete de setembro, a praça cheia, até o pessoal da roça vinha todo, era uma festa muito bonita, coreto no meio. Aí, eu fui. Eu era bem mirradinha, magrinha, cabelo bem… muito cabelo que penteava uma vez ou outra, às vezes quando era para tirar piolho, tomava banho todos os dias no açude que a gente lavava roupa no açude e coloca os pratos lá para secar e entrava no açude, tomava banho, o cabelo sempre assim. Aí, o desfile começou, eu acompanhei a minha turma da minha sala, mas escondida atrás das árvores, aquelas árvores grandes, eu não queria que ninguém me visse. Conforme passava, eu corria para outra árvore, mas eu queria ver  minha sala desfilar (choro). Aí, a festa ficou a manhã inteira, tudo muito bonito, o pessoal da roça era interessante que eles andavam sempre descalços, mas tiravam o tamanco, o chinelinho na mão…
P/1 – Imagino que nesse dia, ia todo mundo bem arrumado…
R – Bem arrumadinho, né?
P/1 – Com a melhor roupa, né?
R – É. E aqueles colares, né, era muito interessante. O pessoal da roça, para nossa cidadezinha de Poções, já era um costume totalmente diferente, né, tudo a cavalo, tinham aqueles tocos na praça para prender os cavalos. Aí, foi terminando, todo mundo indo para a sua casa, aí quando… na época, tava no auge sorvete de casquinha, eu tinha uma vontade, nunca tinha sentido o sabor do sorvete de casquinha, mas eu tinha vontade. Aí eu tô andando e uma mãe com uma menina na minha frente, cada uma com um sorvete de casquinha na mão e eu fui seguindo. Aí a menina terminou o sorvete, ela pegou a casquinha, assim na grama. Eu olhei para um lado, olhei para o outro, não tinha mais ninguém, abaixei, peguei a casquinha, nunca tinha comido nada do chão, do lixo, que a minha mãe sempre… pobre, mas assim, nunca pedimos nada! Meus irmãos todos assim, uma criação muito bonita, pobre decente, pobre e chique. Aquela casquinha desceu no estômago com um sabor delicioso, tava geladinha, restinho ainda do sorvete no fundo, né, aí não contei para minha mãe, mas fiquei feliz com aquela casquinha. E aí, continuando, acabou a festa, continuamos a estudar. Eu sempre adiantada na escola, amava a escola e eu tinha… a minha mãe, como eu te falei no inicio, a minha mãe criava galinha e teve uma vez que saíram os pintinhos, saiu um pintinho tão bonitinho, uma cor assim, cor de mel, e eu comecei a me apegar com aquele pintinho, que se tornou uma galinha. Aí eu pus o nome dela de Mansinha. Mansinha era tudo para mim, era a minha boneca que eu não tive. Minha mãe fazia as bonecas de pano, bem caprichada, sabe, os cabelinhos pretos, desfiava todo o tecido para fazer… mas quando o meu irmão, esse que era antes de mim, a gente brigava muito e simplesmente, ele pegava por uma perna e pela outra e fazia assim, né, as lãzinhas subiam e minhas lagrimas caíam (risos). Minha mãe corria atrás dele com chinelo, com uma cinta, ele subia num aro que tinha no quintal e ficava lá. Só descia depois que a minha mãe… a minha mãe dizia: “Vou pegar o machado, vou cortar o machado, quero ver se você sai daí ou não sai”, mas aí, esquecia, ele saía, depois ficava por isso mesmo. E essa galinha era a boneca que ninguém ia rasgar para mim. Chegamos a passar, às vezes, até de duas ou três noites sem comer, aí a minha casa era uma casa comprida assim, tinha a entrada da rua e para os fundos, saía para uma outra rua, também, voltando a falar um pouquinho dos piolhos, né, minha mãe usava para passar nos nossos cabelos, tinha um tal de óleo de coco que vendi nas garrafas, assim, esse era o creme que lavava a cabeça com sabão de pedra, né, esse era o normal de todos, porque sabonete a gente não comprava. A, quando eu vi a minha mãe com aquela garrafa de óleo de coco na mão, eu disfarçava, se ela tava na sala, eu saía pela porta da cozinha pra outra rua, e ela ficava lá com o pente na mão e a garrafa me esperando. Me chamava… aí, quando eu voltava, a garrafa já tinha guardado. Aí uma vez, ela me pegou,tava lá penteando, eu chorava, ficava nervosa que… aí, ela pegou as costas do pente, pá na minha cabeça, aí chorei! Aí, meus irmãos vieram, nossa, tudo em cima de mim, porque não podia relar em mim: “A senhora tá judiando da menina” ‘porque não é você, venha então você pentear o cabelo dela, porque ela não deixa…”, eu sempre na base das manhas. Bom, aí eu tô brincando, entrei em casa, estava sem comer uns dois dias, quando eu chego, minha mãe tava assim, picando chuchu na mesa, eu tinha mania de sentar na mesa, meus irmãos me apelidavam de bandeja, diziam que eu parecia uma bandeja em cima da mesa. Eu já sentei na mesa e falei… e o fogão de lenha estava aceso, porque não tinha acendido. “Mãe, a senhora arrumou dinheiro?”, aí ela não respondeu, abaixou a cabeça. “Mãe, a senhora arrumou dinheiro?”, aí, as lagrimas começaram a cair. “Minha filha, não dá mais para ficar tantos dias sem comer, minha filha, eu vendi a Mansinha”, eu dei um grito de choro e caí da mesa, caí no chão. Cai por cima do braço, a minha mãe parou de fazer o picadinho, foi até o quintal, pegou mastruz que é uma erva que ajuda para tirar dor, amassou bem com sal, pôs no meu braço, pôs no meu braço uma tipoia e eu chorava muito por falta da Mansinha. Só que no fundo, meu braço não doía, eu fiz a minha mãe sofrer.
P/1 – Um artificio de criança.
R – Na época, eu não percebi que isso estava magoando a minha mãe, era criança, inocente, eu fiz não sei se foi para provocá-la ou se foi como se fosse um luto pela Mansinha, não sei explicar muito bem, mas ela sofreu muito.
P/1 – Só para eu entender, nessa época, a sua mãe estava sozinha? Só com os filhos, ela não estava…
R –Ela já estava com aquele senhor.
P/1 – Estava com esse senhor?
R – Estava.
P/1 – E mesmo assim, vocês estavam com esse nível de dificuldade?
R – Mesmo assim.
P/1 – De não conseguir comer?
R – Não, porque ele era ferreiro, trabalhava sei lá como que fala, é ferreiro mesmo, trabalhava com ferro, tinha o fogo para derreter o ferro. E ele quando era mais novo, dava aula, mas não que ele fosse um professor, mas ele sabia um pouco, que nessa época era assim, quem sabe um pouquinho, ensinava para o outro, né? E ele era pedreiro também, mas não tinha um serviço, era pouco. E nessa época, dois irmãos meus que era esse antes de mim e o outro antes dele que já trabalhava de sapateiro numa sapataria de consertos, os dois trabalhavam, mas ganhavam pouquinho, muito pouco. Por exemplo, o casal, meus dois irmãos, eu, a minha sobrinha, que é como irmã e uma filha desse senhor, então, eram sete pessoas para comer e três para trabalhar, mas três que não entravano trabalho também, né? E eu brincava normalmente, quando eu via os passos da minha mãe, eu colocava os braços na tipoia, minha mãe sempre lá. Eu não sei se ela fingia também, porque não tinha hematoma, não tinha nada, ou passava despercebido e ela achava que estava mesmo com problemas no braço. Aí no terceiro dia, eu resolvi tirar, falei pra ela… “E aí, minha filha, sarou?” “Sarou, mãe”.  Às vezes, à noite, eu acordava, inventava que estava com dor de dente que eu queria minha mãe perto de mim, porque ela já estava com esse marido, e eu dormia sempre com ela. Eu chorava de dor d dente, às vezes, sim, era dor de dente e às vezes, não era. Minha mãe guardava sempre um pedaço de casca de coco e quando o ente doía, a minha mãe pegava o machado, colocava no fogão de lenha, deixava, quando tava bem vermelhinha, aí colocava o pedacinho da casca do coco e ela soltava o óleo, ela molhava o algodãozinho no óleo e colocava no buraco do dente. Quando eu não tava com dor, eu logo falava: “Aí, mãe já passou” e enquanto ela não fazia isso, eu não parava de chorar e às vezes, era dor de dente e por Deus, ou não sei, o dente passava a dor. Então, foi sempre essa morada, foi sempre assim de dificuldades, de fome, de tristeza…
P/1 – A senhora continuou na escola?
R – Continuei na escola. Isso…
P/1 – E teve situação de você se sentir segregada socialmente, das crianças também te excluírem?
R – Olha…
P/1 – Do professor não te dar a mesma… ou foi uma experiência boa, aprendeu?
R – Foi, porque como eu te falei, eu me dedicava demais aos estudos e a professora tinha uma maior atenção comigo. E como voltou o assunto da escola, que não falou muita coisa, mas vou falar agora… vou esquecer do outro, depois eu falo da escola, então tinha um irmão que morava na cidade de Itabuna, na Bahia também, né, e esse meu irmão, ele era alfaiate e ele foi nos visitar e quando ele chegou, bem mais vestidinho, né, a cidade maior, aí foi na época da quaresma, eu nunca tinha ido a um cinema, aí ia passar o filme “A Paixão de Cristo”, aí ele falou: “Iris, vou te levar para assistir”. Fiquei toda feliz e ele falou: “mas eu vou comprar um sapato pra você, não vai com tamanco para o cinema, não”, e comprou um sapatinho preto para mim. Foi o primeiro sapatinho que eu usei assim. Quando era menorzinha, tinha ainda que as minhas irmãs costuravam e tal, depois foram casando… aí foi o primeiro filme que eu assisti no cinema foi “A Paixão de Cristo”, e foi um filme que eu chorei muito, muito, muito, que era muito triste, né? E fiquei muito feliz dele ter me levado, eu e a minha sobrinha, nós duas para assistir a esse filme, foi muito bom. E voltando na situação da escola, aí passou sete de setembro, veio final de ano e lá as provas, a professora falou: “Eu vou fazer para vocês uma capa com cartolina pra vocês guardarem as provas”, porque o estudo de lá era totalmente diferente daqui, quando eu vim pra cá. Ela falou assim… eu não me lembro que número que era, que 25 que era porque nem era real, né, nem era cruzeiros mas aquela época era outra coisa. Eu sei que era isso, era um tal de 25 não sei o que. Então, cada aluno tinha que pagar esses 25. Aí já me entristeci. Aí cheguei em casa: “Mãe…” “Minha filha, não tenho, filha. Se o seu pai fosse vivo, você tinha”, eu já tinha bronca de ouvir essas palavras dela. Aí, eu fiquei assim… já tinha dois irmãos que moravam em São Paulo, eles não tinham compromisso, de vez em quando eles mandavam dinheiro para a minha mãe e esse dinheiro era assim, minha mãe comprava fiado de um senhor que a gente chamava ele de Chico Grosso, quando a conta estava um pouquinho alta, ele já não nos vendia mais: “Cadê seus filhos que não mandam o dinheiro?”, e o dinheiro nem ia para a mão da minha mãe. Tinha um advogado que a minha mãe trabalhava com esse advogado, trabalhava, não, cuidava dos papeis do meu pai, né, doutor Pedro e era tudo remetente a ele. Quando o doutor Pedro chegava na nossa porta, era alegria! Era o dinheiro que veio de São Paulo. Aí, a minha mãe pagava o Chico Grosso e podia comprar de novo, né? Aí, começava o fiado de novo. Aí, minha mãe falou assim: “Minha filha, eu acho que tá perto dos seus irmãos mandarem dinheiro, quem sabe, né?”, daí eu dei ideia pra ela: “Pede emprestado para o seu Chico Grosso” “Minha filha, ele não gosta nem de vender, tu acha que ele vai emprestar, minha filha? Ele não vai emprestar”. Bom, de tanto insistir, porque a minha mãe foi lá e a divida já tava alta, aí ele falou: “Eu posso emprestar, mas a senhora não vai poder comprar mais nada”, aí ele emprestou dez, aí eu levei no outro dia e falei para a professora que depois, eu dava o restante. Ela aceitou. Só que no dia em que ela levou a cartolina, na época, hoje a gente fala que é adesivo, na época, chamava decalquemonia, era como se fosse um adesivo, hoje. Era um desenho, em baixo tinha uma folhinha branca, você colocava no prato com água, aí levantava uma pontinha e você com muito cuidado, ia colocar e colava onde você queria. E essas capas de cartolina, ela colocou tudo decalquemonia. Aí, ela mandou escolher, só que até aí, eu não tinha coletado com a minha mãe o dinheiro, aí eu não fui. Todas as crianças fizeram tudo aquilo em volta da carteira e eu fiquei lá sentada. E ela tinha um sobrinho que estudava com a gente e esse sobrinho dela tinha faltado nesse dia. Aí ela falou assim: “Ué, sobraram duas, por quê? Essa é do meu sobrinho, quem que não pegou?”, e eu com vergonha dos meus colegas: “Mas Iris, por que que você não veio escolher?” “Não tenho dinheiro, preciso falar com a minha mãe”, ela falou: “Vem aqui. Só sobrou duas, essa daqui eu já escolhi para o meu sobrinho, porque ele não veio, então você vai ter que ficar com esta”, e eu amava gatinhos, gatos, achava lindo e justo o que ela escolheu para o sobrinho era a que eu mais gostava do desenho. Aí quando ela mostrou pra mim, eu peguei. Nisso o sobrinho dela chegou, aí ela falou: “Olha aqui, você não veio, eu escolhi pra você. Olha que lindo!” “Ah tia, eu não gosto de gato”, trocamos e eu fiquei com o do gato e fiquei toda feliz, né, porque o que eu queria era o do gato e foi o do gato que veio parar na minha mão, porque o sobrinho detestava gato. Bom, passamos de ano. Chegou janeiro de 1957 e lá, todo ano tinha que fazer a matricula, fui novamente fazer a minha matricula. Aí a diretora falou assim: Iris, fala pra sua mãe tirar o seu registro, porque não dá mais… veio uma ordem do governo que não é para pegar nenhuma criança sem registro”, e até aí, eu não era registrada. Fui para casa de cabeça baixa, chorando, minha mãe chegou: “Minha filha, o quê que tu tá chorando?”, e assim, não precisava a mãe ir, a gente mesmo ia lá e fazia a matricula, criança. Aí, eu falei: “mãe, tem que tirar o meu registro”  “Oh minha filha, eu não falei pra tu, minha filha, pra tu não inventar de estudar nessa escola? Tu fica insistindo, minha filha, para com isso. Você não pode estudar lá, minha filha, é dinheiro pra isso, é dinheiro pra aquilo, minha filha, a gente não tem. Se o seu pai fosse vivo, tinha tudo isso, minha filha”, eu entrei em desespero. Chorava janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho e eu sem estudar. Não tinha dinheiro porque precisava pagar. Final de junho de 57, os dois irmãos que moravam aqui e tinha uma irmã casada, o meu cunhado estava de férias e meus dois irmãos mandaram buscar a gente para São Paulo. Agora, eu não lembro se escreveram primeiro avisando a minha mãe ou foi de supetão, ou foi surpresa, isso eu não me lembro. Eu sei que o meu cunhado chegou pra levar todos nós para São Paulo. Eu fiquei… parece que eu ia para um reinado, né, São Paulo, coisa chique, coisa maravilhosa! E a minha mãe chorava, não queria ir. Aí, meu cunhado falou assim: “Só que é assim”, então tinha o Valter, o Edvaldo, eu e a minha sobrinha, Carmelina, os quatro sem registro. “A gente não pode sair daqui sem o registro das crianças, em São Paulo, não adianta, tem que ter registro”, aí foram tirar os nossos registros. Aí era caro, quanto mais velho, mais caro o registro, aí foram diminuindo as nossas idades pra ficar mais barato. A minha sobrinha era um ano e oito meses mais nova do que eu, só que ela é bem baixinha e ele era bem menor do que eu: “Ela é pequena mesmo, tira três anos dela” (risos), de mim tirou um ano, do meu irmão antes de mim e esqueceram de diminuir… eu sei que acabou ficando dois que eram quase dois anos mais velho um que o outro, ficou seis meses um mais velho que o outro, quer dizer, um tava com seis meses e o outro, nasceu. Aí, arrumar a mudança pra São Paulo, chegamos em São Paulo no dia 27 de julho de 57. Viajamos três dia e três noites de pau de arara, 25 pessoas em cima de um caminhão, crianças pequenas, bebês, ali fazendo xixi, ali fazendo coco e cada família com seus saquinhos de farofa para comer, foi de madrugada, estava um pouco frio, o motorista pegou a minha sobrinha e colocou na cabine, minha mãe ia na cabine também. Minha mãe quis subir um pouquinho na caminhão, aí dali a pouco, sentimos falta da minha sobrinha e da minha mãe e paramos, minha mãe… o caminhão parou e a minha mãe… era uma estrada e uma ribanceira, buraco fundo, escuro. Era madrugada. Aí quando acharam a minha sobrinha, minha mãe ia se jogar para se matar. Aí deu tempo de segurarem ela, tudo, só que no fim, ela tava lá na cabine, né, com o motorista, graças a Deus, por mais um pouco, minha mãe tinha perdido a vida nesse dia. Chegamos em São Paulo, os meus irmãos casados moravam perto da Francisco Morato, bem pertinho mesmo, o caminhão parou, aí descemos lá e fomos para a casa do meu irmão e ficamos lá uns tempos até… aí foi tudo diferente, minhas cunhadas casadas, era uma casa dividida para as duas, aí elas achavam ruim com muitas coisas, minha mãe tinha mania de pendurar roupa suja na parede, assim, fazia no canto, né, com uma cordinha. E aí, elas reclamaram que a minha mãe estava pendurando roupa suja e começou aquele clima… meus irmãos, rapidinho, arrumaram emprego, os quatro arrumaram emprego e aí, alugamos uma casa no Caxingui, perto da casa dos meus irmãos mesmo e esse meu cunhado, a minha irmã tinha ganhado bebê, o bebê nasceu dia 17 de julho e nós chegamos dia 27 de julho, o nenê tava com dez dias, morava na Vila Mariana, aí resolveram alugar uma casa e morar todo mundo junto. Ela já tinha, nessa época, acho que cinco filhos e mais nós, foi um momento difícil, também, aí o meu padrasto, acostumado com aquele trabalhinho dele, tranquilo, suave e aqui, ele foi trabalhar fazendo o asfalto da estrada de Francisco Morato, Caxingui. Sol muito quente, ele não estava acostumado. Aí ele começou a juntar dinheiro para ir embora e aí, entrou aquele clima que os meus irmãos falaram que ele tava juntando dinheiro, mas ele falou pra minha mãe que ia passear e ele não voltou mais e a minha mãe sofreu muito com a falta dele, depois, minha mãe voltou para a Bahia que ela ia visitar os pais e lá, ele queria que ela não voltasse mais, aí a gente já tinha mudado de residência, já estava morando lá no Monte Kemel, não, na Vila Sonia e aí, minha mãe escreveu para mandar eu e minha sobrinha para Poções e eles mandassem o dinheiro para a gente estudar. Aí eles responderam pra minha mãe que não, que a minha mãe escolhesse: ou nós ou ele. Minha mãe ficou, acho que uns quatro, cinco meses lá. Aí, minha mãe não deixava a gente por nada, ela falou que não ia deixar, eu não podia viver sem minha mãe, também, eu chorava quando eles leram a carta, eu queria ir embora com a minha mãe e um dos meus irmãos, já falecido, disse: “Você não tem voz para falar nada, você não entende nada, você não vai, nós não vamos mandar você para lá, se a mãe quer ficar com vocês, ela que venha e deixe o homem lá”, e a minha mãe fez isso. Deixou ele e voltou para cá. Quando nós fomos na rodoviária encontrar a minha mãe, eu fiquei abismada de tão magra, abatida. Ela não dormia, ela sonhava, delirava, comigo e com a minha sobrinha, sentindo a falta da gente. Até que ela tomou a decisão que não era justo ela deixar eu… que eu fiquei com uma cunhada e a minha sobrinha com outra cunhada. E aí, minha mãe ficou sozinha e quando… antes disso, que eu cortei um pouco do assunto, foram me matricular na escola, só que a diretora falou: “Olha, nós estamos no mês de julho, é besteira. Já perdeu meio ano. Deixa pro ano que vem. Aí no ano de 57, eu não estudei. Em 58, fui estudar, fui fazer o segundo ano. Aí, a professora chamou a diretora e viu que eu não tinha necessidade de estar fazendo o segundo ano, que eu podia ir para o terceiro ano, porque o ensino de lá era muito mais forte, eu sabia tudo que passava, mas eu tinha que ter um boletim da escola para passar pra cá, mas assim, foi uma família que não tinha essa iniciativa de escrever, tal. E acabei ficando no segundo ano, mesmo. Aí estudei segundo, terceiro e quarto ano. Mas o meu sonho era alto, eu queria ser professora. As brincadeiras de criança, tinha uma brincadeira que era assim, tinha a mãe rica e a mãe pobre. A mãe pobre tinha um  monte de filho que tudo dava as mãos assim, e a mãe rica vinha: “Eu sou rica, rica, rica de marré, marré…”, uma musiquinha: “Eu desejo uma de vossas filhas, a mãe pobre perguntava, era tudo cantado, né: “Qual delas será?” (pausa). A escola que eu estudei até a quarta série é Escola Agrupada do Caxingui…
P/1 – Escola Agrupada?
R – Não, primeiro, eu fiz o segundo ano numa escola de madeira, toda de madeira. Isso foi em 58. Em 59, já estava construindo outra escola no Caxingui, mesmo, e um lugar bem afastado, era só mato e assim, um padrão bonito de escola. Aí quando eu fui fazer a quarta série, quando eu já tava na quarta série, nós já morávamos na Vila Sônia, já ficava um pouquinho longe da onde eu estudava e a escola nova, mas eu queria estudar na escola nova. Eu fui sempre exibida, sempre gostei de coisas diferentes, eu levava o nome de pobre rica. Aí…
P/1 – Só uma pergunta, e essa transição para São Paulo, vocês não estranharam muito? Estavam felizes de sair para o novo? Você se lembra assim, do primeiro dia…
R – As crianças, sim.
P/1 – Sua primeira impressão de São Paulo? Você se lembra?
R – Lembro, porque assim, quando eu cheguei, tinham os meus dois irmãos casados, as minhas cunhadas brigavam uma com a outra por minha causa, porque queriam sair e queriam me levar. Eu me sentia a rainha da cocada branca, feliz. Porque assim, a minha mãe, ótima mãe, nossa… uma mãe! Mas não era aquela mãe carinhosa, não era aquela mãe… ela fazia a obrigação dela, não me batia, fui criada, como eu te falei assim, tudo era a falta do meu pai, tudo ela falava: “Coitadinha, coitadinha… os outros tiveram pai, ela não teve”, e aí, aquilo que a minha mãe não soube dar para mim, as minhas cunhas era demais. Eu me sentia toda feliz. Então, para mim foi… feliz em São Paulo, uma maravilha. Minha mãe chorava muito, minha mãe queria voltar para a Bahia, não acostumava, costumes diferentes, mas assim…
P/1 – O clima, né?
R – O clima. Muito frio, pegamos época de frio, assim, inclusive, quando nós estávamos preparando para viajar da Bahia para São Paulo, o meu cunhado que foi nos buscar falou assim… levou a minha mãe na loja e mandou comprar flanela para fazer uns casaquinhos para mim e para minha sobrinha, que a minha mãe criava. Aí, nunca tínhamos colocado um agasalho no corpo, nunca. Sempre andando só de calcinha, sem nada, aí aqui, não. Aqui o frio foi terrível no mês de julho ainda que nós chegamos, um frio e aquelas blusinhas de flanela que faz cueiro para bebê, que a minha mãe comprou pra fazer pra gente, imagina o quê que era aquilo  o nosso corpo aqui em São Paulo, foi um pouco difícil, né? Aí, fui adaptando. Ah, deu um branco agora do que eu tava falando…
P/1 – Você tava falando da escola, a sua adaptação em São Paulo e terminou o quarto ano. Você fez exame de admissão?
R – Isso aí. Terminou o quarto ano, eu queria continuar, só que assim, quarto ano você tinha o diploma e aquele diploma era tudo pra mim, aí cheguei para os meus irmãos, nessa época, tinha os meus irmãos em casa solteiros, eu falei: “Eu preciso fazer admissão”, que a admissão fazia a preparação para ir para o ginásio. Aí me chamavam de espirito de rico, ninguém nunca estudou “Você chegou até a quarta série”, nenhum dos 15 filhos, eu fui a única. Então, era um diploma! “Você tem diploma”, mas eu não tava contente com aquilo, eu queria mais. Aí, tinha que pagar a admissão, não era do governo. Aí a professora do quarto ano me chamou e mais dois alunos, que eram os melhores da sala, os mais adiantados e falou: ‘olha, vocês vão até o ginásio, façam a matricula de vocês que eu acredito que vocês têm capacidade de passar sem fazer o cursinho, que era a admissão. Quando eu cheguei em casa que dei essa noticia, parece que um terremoto caiu em cima de mim: “Mulher não precisa estudar, que ideia é essa? Você já tem o diploma, por quê que você…?”, aí foi… nossa, foi demais. Tudo, eu chorava, me chamavam de manteiga derretida, eu chorava por tudo e o quê que eu ouvia da minha mãe? “Ah, filha se o seu pai fosse vivo”, isso era direto: “Se o seu pai fosse vivo…”, eu não gostava mais de ouvir essa palavra da minha mãe, aquela mulher muito parada, muito tranquila. Aí, a professora falou: “Olha, vocês não fizeram…”, tinha uma admissão que a gente fazia antes de prestar a prova para entrar no colégio, aí a professora falou: “Vocês vão, façam a matricula que vocês três têm condições, quem sabe vocês conseguem passar?”, fomos nós três. Quando eu cheguei em casa, que eu dei a noticia, nossa, foi um auê.
P/1 – Isso da sua mãe, dos seus irmãos? Geral!
R – Geral! Uma que a escola era longe, eu morava na Vila Sônia e a escola era no Caxingui, ia ter que pagar condução ou uma boa caminhada. Aí, eu fiz a ficha, eu mesma fiz a ficha para ir. Aí no dia da prova, era noite, quem queria comigo? Foi muito difícil até conseguir um dos meus irmãos que era o mais apegado a mim, que chama Valter. Consegui fazer a cabeça dele, ele me levou, ficou sentado no dia da prova. Aí dia do resultado, então para passar, nota cinco passava, já ia fazer o ginásio, eu tirei quatro vírgula 55, não passei. Os outros tiraram três, os outros dois, um tirou três, o outro tirou quatro, eu fui a que tirei mais. Aí que eu entrei em desespero. Aí eu tinha que fazer o cursinho de admissão, falava na época. Esse cursinho era de dezembro e janeiro e fevereiro, só. Tinha que pagar, aí cheguei em casa, implorei, chorava, me descabelava, tinham quatro irmãos que trabalhavam, já, um pouquinho de cada um, né? Mas acho que nessa época, não era tanto o dinheiro, mas como assim: mulher não precisa estudar. Logo depois, você casa, casava, não podia trabalhar, tinha que ficar em casa cuidando de filho, não podia trabalhar, mas eu queria estudar. Chorei, chorei, bom, não teve jeito, desisti. Aí eu falei: “Bom, quero fazer datilografia”, fui na escola na Vila Sonia, cheguei lá… e tudo era eu que fazia, fui sozinha, peguei a ficha, tinha que pagar tanto. Cheguei em casa  e conversei com eles, tudo, foi a mesma coisa: “Mulher não precisa estudar, pra que você quer fazer?”, não fiz e fiquei sem estudar. Aí, quando estava com 16, 15, 16 anos, não me lembro bem agora, minha irmã morava na Vila Sonia e nós morávamos no Monte Kemel, eu ia andando, era um pouquinho longe, eu ia andando e fui lá, passei, tinha uma loja na Avenida Francisco Morato, uma placa: “Precisa-se de balconista”, eu era muito vergonhosa, vergonha assim, era o máximo. Cheguei na porta da loja, aquele homem de cara fechada, fortão, barrigudo e uma jovenzinha do outro lado do balcão, aí entrei, ela foi me atender. Eu falei: “É que tem uma placa precisando de balconista”, aí ela falou: “Fala com ele”, um sírio. “Você quer trabalhar?”, falei: “Quero” “Você já trabalhou?” “Não. Primeiro serviço” “Por que você quer trabalhar?” “Porque eu quero ter as minhas coisas” “Pode começar amanhã”, mas aí, ninguém da minha família sabia ainda, isso era eu e o dono da loja. E o meu irmão morava perto, aí eu fui. Cheguei lá, ele trabalhava numa fábrica que chamava Regência e vinha almoçar em casa. A Regência era no Caxingui e ele morava na Vila Sonia, era perto. Aí, estamos almoçando lá, eu, minha cunhada e ele e eu falei: “Aí, você vai trabalhar?”, falei: “Vou. Eu preciso das minhas coisas”, aí cheguei em casa e falei pra minha mãe, minha mãe entrou em prantos de choro, como se tivesse acontecido uma coisa grave: “Minha filha, tu não precisa trabalhar, você tem tantos irmãos”, eram quatro solteiros na época, “… quatro irmãos aí, eles te sustentam” “Eu quero trabalhar, mãe, eu quero trabalhar. Eu não vou aprender, vocês não deixaram eu estudar, ninguém quer nada, tudo que eu quero…”, aí comecei a; “Eu vou estudar, eu vou trabalhar, sim”. Aí eu percebi que tava na hora de eu pôr a mão na frente e falar: “Eu quero”, eu vou agir, “não filha, tu não vai” “Vou mãe”, aí no outro dia, eu levantei e fui trabalhar. Aí toda contente, cheguei lá, mas uma vergonha, que era coisa fora do comum. Aí a menina conversando comigo, me explicando alguma coisa, falou assim pra mim: “Eu só vou trabalhar essa semana”, quando ela falou que só ia trabalhar aquela semana, eu me assustei, eu falei: “Mas por que você vai sair?” “Deus me livre de trabalhar aqui, esse homem não vale nada, ele é horrível, eu tô aqui só esperando alguém entrar”, naquele momento, a minha vontade era chegar nele e falar: “Eu não venho mais também”, mas eu queria o meu dinheiro, eu queria as minhas coisas, falei: “Vou tentar”, e ela não ficou nem uma semana e saiu. Aí fiquei com aquele homem carrancudo, sírio, aquela cara fechada, a esposa dele, vamos supor, era… empregada, hoje em dia empregada é bem tratada, ela não passava de uma empregada dele, estupido, bruto e eu falei: “Não, vou ficar”. Aí, elogiava que essa menina ficouquatro meses, como se quatro meses fossem quatro anos, aí eu fiquei, em casa, todos contra. Quando soube… e pra eu chegar em casa e falar que a menina tinha ido embora, que era eu e ele sozinho. E a coragem? Aí: “Vocês não vai mais”, meus irmãos: “Você e aquele homem sozinho?”, aí foi… “Eu vou”, e continuei, até um dia que eu dei um tapa na cara dele, né, porque ele veio me dar um beijo, eu simplesmente… aí, me pediu desculpas e eu não podia falar para os meus irmãos que eram muito valentes, aqueles baianos bravos, né, aí não falei nada pra ninguém, cheguei em casa, assim, toda… se eu falasse isso, inclusive, ele foi padrinho de casamento de um dos meus irmãos, não tive coragem de falar para a minha mãe, para ninguém, ficou só comigo, mesmo. Ele pediu pra fazer… o café dele, o sírio coloca a água pra ferver, enquanto a água ferve, coloca o pó ali para deixar assentar, depois toma aquele café sem coar e ele também fazia o leite do filho dele de dois aninhos, que ele também trazia todos os dias. Ele fazia o leite. Aí, ele falou assim pra mim: “Iris, vai pôr o pó pra mim?”, aí quando ele falou “pô”, eu pensei que era o leite em pó, era água que era para fazer o café e fui fazer o leite. Aí ele chegou assim: “O quê que você fez?” “Não era o leite do…”, esqueci o nome do menino, ele falou assim: “não, é o pó de café”, eu falei: “Desculpa, eu não entendi”, fazia o quê? Uns quatro, cinco meses que eu estava com ele. Aí ele colocou a mão assim, eu tava perto da piazinha, que tinha um fogãozinho, pequenininho, tipo um espiriteira, ele pôs a mão assim e aí, ele beijou o meu rosto. Aí, eu não vi, quando eu vi, eu já tinha batido nele. Ele falou: “O quê que é isso?”, eu disse: “O quê que é isso digo eu”, eu falei: “Você já pensou se eu contar para os meus irmãos? O que vai ser do senhor?”, ele falou assim, quase se jogou nos meus pés: “Nunca mais, é a última vez”, falei: “Eu não vou trabalhar mais aqui, eu vou embora” “não, não faz isso, não me deixe”, e eu acabei ficando pra que os meus irmãos não percebessem, não contei nada. Aí, fiquei trabalhando lá com ele, trabalhei uns dois anos e pouco…
P/1 – Loja do quê? O quê que vendia? Quem era o publico? Tinha circulação, assim, ou era uma loja pequena?
R – Loja pequena.
P/1 – Bem pequena, assim, de bairro?
R – Tinha o Instituto Ana Rosa na Vila Sonia e do lado, era no terreno do Instituto Ana Rosa, hoje não existe mais, foi demolido. E eu fiquei, depois, alugamos uma casa dele, no Jardim Peri Peri, meus irmãos alugaram porque o meu irmão arrumou uma mulher, pôs dentro de casa para dormir tudo junto, foi um problema muito sério e os meus irmãos não queriam, né, que dormissem tudo junto, aí alugamos a casa dele, ficamos morando lá na casa dele e aí, passou o ano, ele veio com um aumento estrondoso, que por lei não dava, aí os meus irmãos foram até o DEIC na época, resolver essas coisas no DEIC e não tinha direito aquele aumento, então os meus irmãos não pagaram, aí eu resolvi sair de lá. Aí, sai de lá, aquele clima tava muito pesado e continuei assim, eu queria trabalhar, fui trabalhar no Bazar 13 também trabalhei lá um pouco, mas aí era só temporário, na época de festas, mas eu precisava trabalhar e continuei assim, trabalhando, depois, fui trabalhar numa fábrica de roupas na rua Teodoro Sampaio, trabalhei um bom tempo, aí a minha chefe casou e saiu do serviço e eu fiquei no lugar dela, que era uma loucura, muito trabalho, muito corre-corre e eu já tinha completado 18 anos lá. Completei lá nessa loja que chama Cori, essa loja ainda existe, é de roupas finas, femininas. E eu cheguei e falei: “não dá. Vocês estão me pagando o mesmo que estavam, que eu pregava botão, só, agora, eu peguei tudo e vou ficar ganhando…?” “Não, vamos deixar para o mês que vem”, passaram dois meses, daí eu pedi a conta. Nesse pedi a conta, eu fiquei desempregada por seis meses, eu ajudava a pagar o aluguel, ajudava na despesa de casa. Aí o clima ficou pior na minha casa, minha mãe não sabia o que fazia, era tanta gente e pouco dinheiro, aí uma sobrinha trabalhava atrás da rua… da igreja de Pinheiros e falou: “Tia, eu passei e tem uma placa, precisa de maiores, não sei o quê que é, só tem a placa”, ela dormiu na minha casa para ir comigo. Aí nós fomos de manhã, ela ia trabalhar e eu cheguei lá e estava a placa. Aí eu perguntei: “Tá precisando sim, você quer trabalhar?”, e era uma tecelagem. Aí eu já comecei a trabalhar nessa tecelagem e o primeiro dia, tinha uma turma que trabalhava à noite, entrava às sete da noite e saía às sete da manhã e o pessoal da manhã entrava às sete da manhã e saía às sete da noite. Aí, quando eu conversei com o gerente, ele me chamou pra conversar, quando eu passei, as máquinas, a tecelagem é enorme, máquinas enormes, aqueles fios, de longe, você olha, parece que é um pano branco, mas é tudo fiozinho. Quando eu fui passando em frente, eu só vi duas mãos abrindo assim e falou assim pra mim… me deu um calafrio tão grande quando eu vi aquela mão… aquelas mãos e aquele rosto, falei: “Nossa, que coisa estranha que eu senti. O quê que é isso?”, tudo bem. Aí, isso, eles saíam e a gente entrava, aí quando ele saiu, um homem forte, branco, grandão, usava tamanco, aquele barulhão, trabalhava com tamanco no pé. Aí, passou, e eu sempre passava e ele olhava pra mim, aí quando fui lavar a marmita assim, no tanque, tinha um espelho até quebrado e nas costas estava escrito: “Euziário”, aí eu peguei assim e falei: “Nossa, que nome estranho”, para a minha colega que estava do lado. Ela era uma negra de quadris largos, assim, olha, os homens mexiam muito com ela, era um problema nesse serviço. Aí, ela tava comigo, essa negra. Aí ela falou assim: “sabe aquele rapaz, aquele branco que tá sempre de tamanco? É ele.” “É ele?!” “Nossa, por quê que você falou assim?” “Não, por quê?” “Nossa, você gosta dele?” “Eu não” “Nossa, parece que você gosta dele” “Imagina, eu nem conheço ele”, nunca tinha namorado na minha vida. Aí, eu usava uma capa porque saía muita poeira, porque eu trabalhava na urdideira e saía aquele pozinho, às vezes, sujava a mão de graxa, então usava uma capa por cima da roupa. Aí, usei segunda, terça e quarta, aí quinta-feira, tava muito suja, não usei. Ia levar para lavar, aí quando cheguei em casa, minha mãe enfiou a mão no bolso, minha mãe não sabia ler e nem escrever, ela falou assim: “Minha filha, o quê que é isso aqui? É um bilhete?”, aí eu comecei a ler em voz baixa. Eu comecei a tremer. Até chegar a esse ponto, eu me sentia a moça mais feia, qual era o homem que ia namorar comigo e casar comigo? Aquele problema de desmaia, de passar mal, de ir para o pronto socorro era dos nervos, quer dizer, era uma depressão, mas naquele tempo, era doença dos nervos. Então, esse serviço que eu trabalhei, eu passava por esses problemas, sempre no médico. Aí começava a tomar aqueles calmantes fortes. Me deixava a mão trêmula. Aí, quando ela falou isso, ela falou: “Você gosta dele?”, aí eu falei: “Nem sei, só sei que é…”, tal, bom, aí quando a minha mãe pegou o bilhete, aí eu vi que era ele, porque o espelho que deixava lá estava escrito o nome dele que eu perguntei também para a menina: “Quem é esse Euziário?”, aí no bilhete: “Eu gostaria de conversar com você. Gostei tanto de você no primeiro dia”, as minhas pernas tremeram. Aí, a minha sobrinha tava ali junto, falou: “O quê é minha filha?”, eu falei: “Nada mãe, é da fábrica lá o quê que eu tenho que fazer amanhã, lá”, aí a minha sobrinha que a minha mãe criou, ela já tinha namorado trocentos e eu, nenhum. Me chamava de caipira, de boba… minhas sobrinhas são tudo assim perto de mim, as idades, né, que 15 filhos, eu fui a última, então, eles foram casando e tendo os filhos. Aí, ela falou assim: “você vai responder o bilhete” “Eu não” “Você não vai responder? Eu respondo para você”, ela me chamava na época de tia Cota, eu tinha o apelido de Cota, “Tia Cota, se você não for fazer isso, eu vou escrever e vou mandar alguém levar lá na fábrica. Quando que você vai começar a namorar, você tá ficando besta, vai ficar para titia?”, só que até aí, eu tinha um sonho de ser freira, porque eu achava que eu era muito feia, que ninguém queria se casar comigo, então eu queria ser freira, mas quando eu falei, uma colega minha me convidou para ir no convento que a tia dela estava lá, minha mãe quase deu um troco. Achou que eu já ia ficar lá. Ela não deixou eu visitar a tia da minha colega. Aí: “Você vai responder”, eu falei: “Tá bom, eu respondo”, e respondi e ficamos se comunicando com bilhetes, eu tenho até hoje guardado e ele tem os meus. Aí, marcamos um encontro, começamos a namorar…
P/1 – Calma. Calma aí, começamos a namorar? Como foi? Qual foi o primeiro encontro?
R – O primeiro encontro foi na Avenida Francisco Morato, em frente uma farmácia, que eu morava na Vila Morse, na esquina da Francisco Morato com eu esqueci o nome da rua, a rua principal que sobe o ônibus da Vila Sonia. Marquei um encontro com ele lá pra eu ver, saber, era muito escondido. Mas eu era tão assim…
P/1 –Vocês foram numa sorveteria? Vocês foram em algum lugar? O quê que foi?
R – Se nós fomos?
P/1 – É. Vocês foram passear?
R – Não. Só foi ali.
P/1 – Só para se falar? (risos)
R – Só (risos). A minha mãe me criou de um jeito assim, tudo perigoso, tudo é perigoso: “Cuidado com os homens”, e eu tinha aquilo, ainda o problema da minha depressão, as palavras da minha mãe, assim, ficavam dentro de mim. Tudo eu tinha medo. Aí, conversamos naquele dia, tudo, de mãos dadas, ali. Aí, eu falei para ele que eu sabia que era o primeiro dia, tal, “Eu gostei de você…”, e ficamos naquele papozinho. Aí, não falei nada em casa, né, que foi rapidinho, também. Ele foi embora, eu fui para casa. Aí quando foi um dia, ele quis me acompanhar até perto da minha casa, eu falei: “Não, não vai. Eu não quero que ninguém saiba por enquanto, vai ser um problema na minha casa”, aí foi até a esquina da minha casa. Quando nós estamos ali na esquina, até aí, não tinha dado nem um beijo, a gente ia fazer quase um mês e ele me beijou e quem passa em frente? O meu irmão. Eu pensando que estava tão escondido. Ele passou, quando eu vi, meu irmão. Era o irmão mais querido meu, continua a ser. Aí quando eu cheguei em casa, ele me chamou: “E aí?”, falei: “Não, faz uns dias, só”, e realmente, fazia pouquinho tempo, “E ele não vai vir aqui?” “Vai”, conversei com ele, conversei com a minha mãe, levei ele em casa, que é o meu marido até hoje, né, e foi muito bom. Eu comecei a me descobrir depois assim, eu não me valorizava de jeito nenhum, eu me olhava no espelho, eu conversava comigo, comigo, não, com o espelho: “Quem vai querer casar comigo? Eu sou muito feia”, eu conversava com o espelho sozinha. E no primeiro dia que eu vi, eu falei: “Nossa, que homem bonito”, só pensei, não ia imaginar que iria ser o meu marido, né? Realmente, muito bonito. E começamos a namorar…
P/1 – Trabalhando juntos, ali…
R – É.
P/1 – Turnos diferentes?
R – A gente só se via na entrada e na saída. Aí, já começamos a frequentar… eu frequentar a casa dele, ele, a minha casa. Aquele namoro muito sigiloso, que eu tinha sobrinhos, que a minha irmã veio morar com a gente, quatro filhos, se separou do marido, era tudo junto e ali, com o maior cuidado. Ir ao cinema, nunca, tinha que levar um sobrinho junto, sozinhos, não. Aí, uma vez, tinha o tio dele que morava no Jaguaré e nós combinamos de almoçar lá na casa desse tio dele. Aí, de manhã, eu tô me arrumando e eu tinha sempre uma das sobrinhas que tinha duas meninas, sobrinhas minhas pequenas, eu sempre levava uma quando saía com ele. Aí, quando eu tô assim, minha irmã se arrumando para sair, eu falei: “Pra onde você vai?” “Vou para a casa da Ermita, que é uma outra irmã minha que morava no Pirajuçara. Mas aí eu falei: “Eu ia sair hoje com o Euziário e as meninas? Deixa uma comigo”, aí nenhuma quis ficar comigo, queriam… porque era mato, correr, brincar: “Quero ir com a minha mãe”. Aí, minha mãe falou: “Sozinha, tu não vai”, não podia sair sozinha com ele, de jeito nenhum. Aí, eu falei assim: “mãe, o tio dele tá lá esperando a gente pra almoçar”, e a minha mãe ia também para essa casa da minha irmã: “Não…”, aí ficou brava comigo e fomos. A gente tomava o ônibus na Vila Sônia e descia na paineira e ia para o Jaguaré. Quando chegou na Paineira, eu falei pra ele: “Eu não vou mais para a casa do seu tio” “Não acredito!” “Não, não vou, não gosto das pessoas ficarem desconfiadas de mim, pensando. Pegamos um ônibus de volta e fomos lá para a casa da minha irmã lá no Campo Limpo, Pirajuçara. Aí, quando descemos, tinha uma escadinha de terra, uma casinha bem humilde, tava descendo, aí todo mundo lá, bateram palmas: “Não acharam ninguém lá! Tá vendo? Bem feito”, tudo rindo. Aí, as lagrimas caiam: “O quê que foi que aconteceu? aí eu falei assim para minha mãe: “A sua filha tá aqui, perfeitinha, do jeito que nasceu.Pra eu ir lá e a senhora ficar aqui pensando mal de mim, eu tô aqui”, aí ela ficou numa tristeza, que ela era assim, mas ela era muito boa pra mim: “Mas que bestagem! Por que que vocês não foram?” “Ela não quis ir, eu não forcei” “Não, mãe, tô aqui, não tenho que estar junto com você, não tinha nenhuma criança pra ir comigo e eu sozinha com ele é perigoso, né, muito perigoso”. Aí ficamos lá, esse dia marcou muito pra mim, também, foi muito triste e ele concordava com tudo: “Não fica assim, deixa, o que é isso?”, e eu ficava: “Onde que tá a confiança?”, não era mais criança. Aí nesse dia eu falei pra minha mãe: “Mãe, se eu quiser aprontar, fazer o que a senhora pensa, eu já tinha feito, a gente dá um jeito. Eu não quero”. Aí, ficamos por lá, um monte de gente lá na minha irmã e esse dia foi muito triste pra mim, eu não tinha alegria, porque eu não sabia até quando a minha mãe não ia confiar em mim, até quando isso, né, e o namoro continuava e assim, todos gostavam muito dele, muito amigo de todo mundo, se ele chegava numa casa, o armário tava com problema, ele arrumava, se o ferro não esquentava, ele arrumava, se o chuveiro parou de funcionar… tudo era assim, então os meus irmãos tinham um carinho muito grande com ele e é uma pessoa, assim, fora de série. Bom, quando preparamos o casamento, eu tava mais ou menos certo, a data não tava ainda, mas já tava tudo já certo, o enxoval, como falavam, eu era pobre de espirito de rico, né, eu fiz um enxoval muito bom, muita coisa que o povo pobre não fazia, mas eu conseguia fazer…
P/1 – Por exemplo?
R – Enxoval?
P/1 – É, o quê que era o diferencial, por exemplo?
R – Assim, eu consegui comprar, por exemplo, os jogos de lençóis, sei jogos que na época, o pessoal comprava dois, achava que tinha que ter mais. Cobertor, fui na loja e comprei o mais caro que tinha que era o mais bonito, que era um verde florescente, assim, aquele verde que seus olhos doíam, parecia uma luz assim, lindo, lindo. E ele concordava com tudo, comigo. Os móveis, fomos escolher, escolhemos o melhor, o mais bonito que tinha, mas tudo pobre, viu, eu e ele e ele dava o envelope na mão da mãe dele, não podia abrir o envelope. Era filho de italiano, ela italiana bruta, grossa e boa, né? 
P/1 – Ele tinha uma origem também humilde, assim, de ajudar em casa…
R – Sim. O aluguel era dividido, cada um tinha o seu tanto para pagar. A despesa do açougue era eu que pagava, minha mãe comprava no açougue, eu que pagava…
P/1 – Mas isso, você. Mas ele também? Na casa dele lá também era assim?
R – Ela que pegava, ela que abria o envelope e dava o dinheiro da condução para ele. Se precisasse comprar uma roupa, ele falava, aí ela dava, mas era assim, ela que abria o envelope. Aí, fomos ver os móveis, me encantei com o mais bonito e fui com essa ideia de que parecia o mais caro também, lá na Teodoro Sampaio, naquela época, você podia fazer assim, você comprava e você pagava quanto você podia, só que o móvel ficava lá na loja, você não trazia para casa. Só trazia quando terminasse de pagar a última mensalidade e não tinha um x para você pagar e foi assim até a gente chegar na época do casamento. Então, o móvel já tava praticamente pago, meu vestido eu encomendei um ano antes, foi o mais caro que eu achei na vitrine, o mais bonito. Eu era muito vaidosa, então eu tinha muito apelido: espirito de rico, que eu comia não sei o que e arrotava caviar, era eu e ele sabe, até hoje, eu sou chata, né? Mas aquele jogo de quarto encantou os meus olhos.
P/1 – E o casamento, como foi?
R – Então, aí faltava pouco tempo, né, não tinha marcado ainda. Eu tava muito doente. Eu sempre tava doente, que era depressão, doença dos nervos, tomando calmante. Aí chegou um dia que eu acordei para a vida: ‘Eu não posso me casar”, e trabalhava à noite. Eu não fui trabalhar e ele passou em casa, aí eu deitada, aí eu tirei a aliança do dedo e falei: “olha, não vou casar mais” “Por quê?” “Porque um dia, eu tenho certeza que você vai chegar e falar pra mim que você casou com uma farmácia. Eu vou ser a farmácia da sua vida. Eu no quero isso. Você não merece casar com uma pessoa tão doente como eu”, aí ele começou a chorar, não quis pegar a aliança, eu falei: “Eu não quero”, tá. Isso, a casa dele eram duas quadras abaixo da minha, não passou dez minutos, a minha sogra chegou em casa, ela bem espalhafatosa, doidona, assim, e eu tava deitada ainda, ela só chegou assim, minha mãe: “Oi” “Cadê a  Iris?” “Tá deitada”, o que tinha a minha sogra de… tinha a minha mãe de pacata, lado oposto: “Que negócio é esse que o Euziário chegou lá pra mim falando isso, isso, o quê que aconteceu?”, aí eu falei o mesmo que eu falei para ele, eu falei: “Eu não quero. Ele, a senhora, a família, tudo vai falar que ele casou com uma mulher doente e eu não tenho condições, olha o meu estado, eu só vivo assim, como que eu vou casar?”, aí ela falou assim: “Será que você não percebeu que você tem que sair dessa casa?”, que era assim de sobrinhos, a minha irmã com quatro e a minha outra irmã viúva com mais dois e brigas entre crianças, meu irmão teve um dia de pegar as quatro crianças e falou assim: “Eu vou matar os quatro e depois eu” e saiu correndo na rua pra jogar as crianças debaixo do ônibus. Eu e a minha mãe correndo atrás dele, então tava um clima muito pesado também na casa, assim. Aí, a minha sogra: “Você não tá vendo que você tem que sair disso aqui? Vocêtem que ter o seu cantinho, vocês dois. Vocês se amam, você tá sofrendo aqui, e ele lá, meu filho tá lá se matando de chorar e você também chorando por causa dele”, ela foi bem grossa e… aí, também não falei nada, aí no dia seguinte, ele passou de manhã de novo, aí veio com a aliança na mão, aí eu peguei, aí marcamos o casamento, já tava tudo em ordem, tudo muito bonitinho, casamos no dia 1 de março, casamos no civil, que eu não queria casar nos dois no mesmo dia, que eu queria tudo muito tranquilo. E depois, dia 14 de março de 70, casamos na igreja. O vestido eu comprei um ano antes também, que foi um dos mais caros, deixei lá pra pegar na véspera. Quando faltava um mês, aí era pra provar o vestido. Um mês depois, era pra pegar, quando eu voltei lá… ela ia fazer, não era só provar, ela ia fazer o vestido, tirei as medidas, tudo. Aí quando faltava um mês, eu voltei lá para provar, quando eu provei, a dona da loja chamou a costureira e falou assim: ‘Puxa vida! Você tava tão distraída, você errou nas medidas. O vestido tá um saco no corpo dela!”, eu falei: ‘Não, não é. Em um mês, eu emagreci dez quilos preparando o meu casamento”, eu fiz cortina da casa inteira que eu ia morar, fiz a colcha do dia, fiz o meu vestido do civil, fiz costura pra mim, dormia as duas horas da manhã, deitava mas não dormia. Eu casava todas as noites. Eu via a casa que eu ia morar todas as noites. Aí fiquei meio assim, e com isso, emagreci dez quilos, estava com 57, parei no 47, foi o peso que eu casei. Aí, teve que apertar todo o vestido e foi um casamento, assim, que eu queria do meu jeito. Nessa época, o bolo da noiva chamava colchão de noiva, era aquele bolo grande, baixo, como se fosse um colchão, eu queria o colchão de noiva, que era o mais caro. Era muito exibida sem ter, né, pobre!Mas não tive ajuda de nenhum dos irmãos, ajudando em casa com o meu dinheiro e quando eu fui trabalhar nessa tecelagem que eu conheci ele, fui ganhar muito melhor que era urdidora e a urdidora era uma das máquinas, ser o tecelão ganhava mais. Fui ganhar muito bem e graças a Deus, deu para eu fazer o enxoval do jeito que eu quis, foi muito bom. E aí, veio o casamento. Mas eu queria viajar, eu queria álbum do casamento, que nessa época, ninguém fazia, pouquíssimas, mas: “Eu vou conseguir o álbum de casamento”, daí fomos viajar para Caraguatatuba, minha sobrinha já era noiva, o noivo dela trabalhava com taxi e nós íamos para Caraguatatuba e ele ia levar a gente até a rodoviária e o ônibus ia sair às seis horas da manhã e não chegava, e não chegava… fomos de ônibus comum, chegamos em cima da hora, quando nós entramos no ônibus, eles chegaram atrás, a minha sobrinha com o noivo. Aí, dentro do ônibus, me deu uma crise de choro, comecei a chorar, chorar, chorar, mas era tudo da depressão, né? Aí, ele não queria viajar mais. “Não, não vou. Vamos descer do ônibus. Aproveita que eles estão aí, a gente vai embora”, e eu não queria ir. Eu tinha vergonha de ir dormir na minha casa e no outro dia, ver as pessoas. Não queria viajar porque eu tinha medo de um homem comigo na cama. Então, foi uma fase bem complicada. Aí eu falei: ‘não vou viajar”, minha sobrinha que tava lá perto, viu a cena: “Tia, pelo amor…”, e ela andava totalmente diferente, eu fui a mais tonta: “Tia, pelo amor d Deus, chega! Não era o que você queria? Para de chorar. Que coisa mais feia”, e quanto mais ela falava, mais eu chorava. Chegou a hora de partir e partiu. Gastamos seis horas de viagem, certinho.
P/1 – Para Caraguá?
R – É, estrada todinha de terra, muito abismo, nossa! E o ônibus bem devagarinho. Aí chegamos lá, aquele monte de molequinho pra pegar as bolsas, já levou a gente pra uma pensão e fomos. Aí chegamos lá, tomamos um banho e a cena que eu fiquei meio assustada, mas tinha que ser, né, mas pra mim era tudo novidade, tudo era medo, tudo era pavor. Depois, curtimos bem. Aí quando foi… isso, nós chegamos domingo ao meio-dia e na segunda-feira à tarde oi que nós conseguimos fazer algo que foi satisfatório, aí fomos comemorar. Nessa comemoração, o que aconteceu? Ele pediu a comida mais cara, melhor que tinha, acho que tinha camarão, salada de pepino e uma cerveja. Acabamos de jantar, ele começou a passar mal. Aí, quando eu lembrava da distância que eu estava, eu e ele sozinhos, falei: “Meu Deus do céu”, aí paramos numa padaria, ele quis ir ao banheiro e eu fiquei andando pra lá e pra cá, enrolando os dedos, tensa, nervosa. Aí o dono da padaria falou assim: “Você tá nervosa? Aconteceu alguma coisa?”, eu falei: “É que o meu marido não tá passando bem, ele foi até o banheiro e até agora, não voltou” “Vai lá, vai lá ver”, nossa que vergonha quando o dono falou para eu ir lá ver ele no banheiro. Aí quando eu cheguei, ele tava sentado, caindo assim. Aí, eu levei, saiu do banheiro, aí o dono da padaria falou assim: “Olha, eu tenho um comprimido aqui que é o Engov”, nunca tinha visto, foi a primeira vez, porque a cerveja com o pepino fez mal para ele, que era salada de pepino.
P/1 – Não foi o camarão que tá intoxicado?
R – Não, foi a cerveja com o pepino. Aí, ele tomou aquele Engov, sentamos na praça, voltou tudo ao normal, ficamos ali um pouquinho, esperando. Aí voltou ao normal. Aí na quarta-feira, retornarmos para casa, quando eu cheguei na minha casa que eu ia morar, estava todinha arrumada, porque eu não cheguei a ir para a minha casa, da casa da minha mãe, mesmo que estávamos, nós já viajamos. Os presentes ficaram todos na minha mãe. Aí, as minhas sobrinhas que eram várias, né, levaram tudo para a casa que a gente ia morar. Quando abri a casa, aquilo ali tava tudo no seu ugar, tudo arrumadinho: prato, panela, os presentes tudo lá. Casamento maravilhoso, tudo bem e assim, a vida foi passando. Aí, no primeiro mês, ele ficou preocupado, porque ele queria filhos logo de cara e não deu e achou que tinha que procurar médico e na minha família todo mundo tinha filhos e era ele, falei: “Calma, não é assim, não”, só que no segundo mês já engravidei, aí minha filha nasceu no dia sete, a Claudia, dia sete de janeiro de 71 e eu tinha casado em março de 70, não chegou nem a um ano. Aí veio uma criança linda, maravilhosa.
P/1 – E essa questão dos medos, essa… toda essa questão da sua formação, de ter medo, inclusive de tomar… isso passou com o casamento? Imagino que você foi amadurecendo, foi se transformando, né?
R – Foi. O casamento melhorou muito, né? A minha mãe falava pra mim assim: “Minha filha, você não só casou, você ganhou um pai, o pai que você não teve”, porque ele, realmente, foi um pai e marido para mim, compreensível, muito… e a chegada do filho foi assim, muito bom. Uma criança muito linda que chamava a atenção de todo mundo e assim, foi sempre querida por todos…
P/1 – Continuando trabalhando na fábrica?
R – Quem?
P/1 – Você…
R – Não.
P/1 – E ele na tecelagem, não?
R – Não, porque aí, antes de casar, eu fui mandada embora da tecelagem que eu trabalhava com ele. E agora, não sei se fui mandada embora ou pedi a conta. Não, eu pedi a conta, porque tinha uma outra fábrica que ia me pagar mais, que era o mesmo serviço, porque eu fazia trabalho de urdidora e urdidora é um serviço muito… como se fosse um carretel de linha, mas um carretel de metal grande e ali, você tem a urdideira e você vai passando tudo, parece assim que é um pano grande que tá enrolado. Então, exige muita dedicação, se quebra um fio é defeito no tecido depois, então eles pagavam muito bem na época. E aí nessa época, eu achei uma que pagava quase o dobro do que eu estava ganhando nessa primeira e ele também já tinha saído dela e já tava trabalhando em outra fábrica na Lapa. Eu trabalhava em Pinheiros. Aí essa outra que eu fui trabalhar foi também na Lapa, mas antes dele, eu foi mais pra frente, ainda. Aí foi onde eu completei mais o meu enxoval que subiu bem o meu ordenado, né? Só que naquela época, casar, nada de trabalhar.
P/1 – Seu marido pensava assim, também?
R – Todos! A mulher que trabalhava, o homem não tinha capacidade de casar, ele levava o nome de… e eu tive que pedir a conta. Aí, depois eu queria trabalhar, ele não deixou. Aí casamos, veio a primeira filha…
P/1 – A Claudia.
R – Claudia e a situação foi ficando mais difícil, né, uma criança a mais e eu sempre gostei de ter as minhas coisas boas, sei lá se fazia bem pra mim ou se fazia mal. Aí depois, eu comecei a trabalhar num grupo de mães da igreja do Caxingui, você trabalhava lá, eram trabalhos manuais e eles vendiam e a gente ganhava aquela coisa pouquinha e era um momento de distração, era muito bom, inclusive antes da minha filha nascer, eu já tava lá, nesse grupo, inclusive, tinha um cesto de vime, grande, e tinha o pedestal para pôr em cima e quando eu bati os olhos, eu tava no começo da gravidez, eu falei assim: “Um berço para a minha filha”, e eu comprei, era um valor simbólico. Eu comprei aquele berço e enfeitei ele, forrei ele todinho de renda, com passa fita, era… sabe um bolo bem enfeitado? Pessoal falava: “Iris, parece mais um bolo do que um berço”, era muito lindo. Minha filha nasceu nesse berço divino. Então, quando nasceu a primeira, eu comecei a costurar para fora, fiz plaquinha, costurava para fora. Depois, meu marido mudou de fábrica, trabalhava em tecelagem, foi trabalhar já no Embu, perto da BR e ele achou melhor que a gente mudasse pra lá, pertinho da firma. Aí, mudei para lá, minha filha quando completou um ano, a gente já tava nessa casa, depois fiquei grávida da beleza aí, né…
P/1 – Da Débora.
R – Da Débora, e quando eu fiquei grávida dela, a minha mãe já estava morando com uma das minhas irmãs, que essa minha sobrinha que a minha mãe criou construiu um quarto e cozinha. Aí, essa minha sobrinha já ia casar e eu não queria deixar a minha mãe sozinha, porque o quarto dela era separado e ela deu a ideia pra mim: “Tia, o quê que você acha da gente alugar uma casa grande, divide o aluguel, a despesa para a minha mãe, porque não quero deixar a minha mãe sozinha”, e foi o que aconteceu. Eu tava grávida de sete meses dela e aí, fomos procurar casa lá, já na Vila Sônia, novamente e quando estava arrumando a mudança, a Claudia estava sentadinha no peniquinho e ela começou assim e eu: “Filha, para”, e ela não parava, “Filha, você vai cair”, aí ela se esticou tudo, aí deu convulsão. Aí, eu comecei a gritar na rua de dia, o meu marido não estava, até alguém chamar a ambulância e peguei ela como morta nos meus braços. Chegamos até o pronto-socorro e até aí, eu não sabia o que era convulsão, né? Aí, tratamento, remédio… ela voltou ao normal e a convulsão se ela dá, fica normal, tudo bem. Eu já fazendo todas as embalagens da mudança. Aí, mudamos para o Campo Limpo, uma casa grande e ficamos morando lá. Foi quando aí ela nasceu, já nasceu no Campo Limpo. Aí, quando eu fui para a maternidade para ganhar ela, eu entrei em pânico. Eu não me conformava de deixar a Claudia. Aí falei para a minha mãe: “Mãe, por favor, eu vou para a maternidade, eu não sei se eu volto”, porque antigamente, tinha esse negócio, né? “Cuida da minha filha, mãe, tenha paciência com ela”, nossa, minha mãe ficou no desespero quando eu falei isso, né, depois vim para casa, moramos um tempo lá no Campo Limpo, aí depois foi quando… isso junto com a minha mãe e depois, a minha sobrinha resolveu construir na minha irmã. Foi nessa época. Construiu no quintal da minha irmã para a minha mãe ficar junto, ficou lá. Só que aí, a minha irmã teve problema, teve que sair da casa, problema de filhos e tal e aí, minha mãe veio morar comigo depois. Quando a Débora nasceu, minha mãe ainda estava comigo. Depois, nós mudamos porque o meu marido comprou um terreno lá no Embu e os alugueis lá eram muito baratos e aí, acharam melhor que mudássemos para lá para ficar perto da construção e nessa época, minha mãe tava morando com um dos meus irmãos. Minha mãe morava lá no Embu, Jardim Santa Emília. Depois, nós ficamos juntos. Ela nasceu no Campo Limpo, depois nós mudamos lá para o Embu, compramos um terreno também, só que aí, chegou uma hora que recebemos uma carta de cobrança para comparecer em 24 horas. Fazia seis meses que a gente não pagava, meu marido não me deixava trabalhar fora, eu como costureira, um bairro muito pobre lá, poucas pessoas, pouca gente, ninguém ou não pagava, ou não aparecia costura. Então, não ia para frente. Aí, veio carta de cobrança, meu marido foi até lá, eles combinaram de pagar de duas em duas até normalizar, mas ele não tinha esse dinheiro. Aí, ele emprestou de um vizinho nosso metade e metade a minha sogra emprestou e deu a entrada de duas mensalidades e ficou pagando… eu falei pra ele: “Se você quer construir, se você quiser criar os filhos, eu tenho que trabalhar. Pagar aluguel não dá mais”, e foi que ele acabou concordando. Fuitrabalhar… minhas sobrinhas trabalhavam na rua Augusta e falaram: “Tia, tem uma mulher que tem oficina de costura e tá precisando de uma costureira. Você não quer trabalhar lá? é uma travessa da rua Augusta”, aí fui. Sem vontade, né, aí fui trabalhar. Essa daqui chupava chupeta na época e fizemos uma cerquinha, a casa que nós morávamos era de aluguel e não tinha nada, só uma cerquinha e ela ficava o dia inteiro ali naquela cerquinha com aquela chupeta, porque nunca tinha ficado sem mim, a outra já entendia mais. Foi um momento assim, muito triste pra mim de deixar as filhas…
P/1 – Elas ficavam com a sua mãe?
R – Não, aí a minha mãe não tava ainda. Não, minha mãe já estava já… ela morou comigo no Campo Limpo… não, minha mãe já tava morando com um outro irmão, que meu irmão separou da mulher e levou a minha mãe com ele. Foi morar também lá no Jardim Santa Emília. Eu sei que foi um momento assim, muito difícil pra mim, pra eu trabalhar. Mas com um mês que eu estava trabalhando lá, o dinheiro era pouco. Aí minha sobrinha falou: “Tia, a loja em que eu tô trabalhando, tá precisando de vendedora” “Não, mas uma loja super chique” “Vamos, você fala que já trabalhou”, como de fato, trabalhei dois anos e ouço, né, lá com 16 anos e fui trabalhar na loja Verano que tava inaugurando no shopping Ibirapuera, já tinha inaugurado, mas tinham muitas lojas começando. Aí eu fui trabalhar nessa loja Verano que existe até hoje. O primeiro pagamento que eu estourei nas vendas que era por comissão, o primeiro pagamento, nós já demos entrada no material de construção, porque naquela época, não comprava sem entrada, era tudo mais difícil, né? Para começar a construção. Eu sei que um belo dia, eu trabalhava até às dez da noite, das 13 às 22, no shopping, eram três conduções para ir e três conduções para voltar, muito sofrimento. Aí, com a chuva, o ônibus não vinha. Então, eu tinha que andar um pedaço enorme, muito pra chegar na minha casa. Aí, eu tinha duas sobrinhas que trabalhavam também no shopping: “Vamos pegar um taxi”, descemos no Campo Limpo, pegamos um taxi para ir até a nossa casa. O taxi foi, quando chegou no meio do caminho, o taxi não ia, barro, era só barro, barro… aí, ele deu a volta pela estrada de Itapecerica, nada também, não conseguiu, aí: “Alguém sabe dirigir?” “Eu sei” “Então, você vem que eu ajudo a empurrar”, aí começamos a pegar galhos dos matos lá e tal, pôr no pneu… aí, nessa altura, nós estávamos revestidos de barro, ele falou: “Não dá”, voltamos de novo lá para o Campo Limpo, aí deixou até o Macedônia que era um pouquinho mais perto da minha casa. Mas eu queria ligar para aloja e avisar para minha gerente que eu não ia trabalhar, que eu não tava em condições psicológicas, nervoso, cansaço. Só que a minha sobrinha tinha que ir porque ela tinha marcado encontro com o namorado no shopping: “Tia, fala que eu não estou aqui”, trabalhava comigo na mesma loja “E a Linda?” “A Linda foi lá para o Ferreira, tá dormindo lá na casa da minha irmã, ela vai, ela tá sem problemas, mas eu e a Perpetua – que era a irmã dela – nós não temos, estamos… pena que não dá para tirar uma foto pra mostrar para você”, mas eu percebi que em volta de nós três, estava uma roda de homens olhando pra gente que tinha barro. Bom, aí fomos andando para casa. E eu tenho um problema que quando fico muito nervosa, eu sinto ataque de riso, começo rir e não paro, eu começava a rir naquele barro e eu ria, e ela: “Tia, pelo amor de Deus, para de rir, você não consegue andar”, aí que eu ria mais, quanto mais ela me chamava a atenção, mais eu ria. Aí, cataram a minha bolsa, cataram as sacolas que eu tinha na mão para ver se eu andava mais rápido. Aí quando eu cheguei em casa, meu marido abriu a porta, não tinha água encanada e nem chuveiro, então ele já deixava uma vasilha com água quente para eu tomar meu banho…
TROCA DE FITA






FINAL DO ÁUDIO

Programa Conte Sua História Depoimento de Iris Nunes de Oliveira_Parte 2Entrevistada por Danilo Eiji LopesSão Paulo, 01/10/2015 Realização Museu da Pessoa PCSH_HV512_Iris Nunes de Oliveira_Parte 2Transcrito por Karina MediciBarrellaMW Transcrições


P/1 – Iris, muito obrigado por voltar aqui ao Museu para podermos fechar a sua trajetória.
R – Eu que agradeço.
P/1 – No último encontro a gente parou justamente quando você estava contando, após casar e tudo, você ficou um tempo já morando na parte lá perto da Raposo Tavares, Embu, por ali. É perto, né?
R – É, mais ou menos.
P/1 – E teve dificuldades financeiras e você voltou a trabalhar. Eu me recordo que você foi trabalhar no shopping, numa loja, e na ocasião você estava contando da dificuldade, que era muito longe, e na época onde você morava era tudo terra. Você estava contando de uma aventura ali que o carro parou, não me lembro mais com quem você estava...
R – Duas sobrinhas.
P/1 – E saíam do carro e você começava a rir nervosa, com duas sobrinhas. A gente parou ali. Agora vamos começar ou dali ou...
R – Então, eu gostaria de retornar um pedacinho, inclusive, quando era minha infância ainda, em Poções, que naquela época os bois andavam na rua. Eram boiadas, muito gado, e nessa época passava justo em frente à casa em que eu morava. Era rua de terra e geralmente o boiadeiro que vinha na frente vinha com berrante, tocando, avisando as famílias que era perigoso. Aí quando as mães escutavam os berrantes, elas já começavam: “Menina!” “Menino!” Essa época não costumava muito chamar a gente pelo nome, mas era menino e menina. “Vem pra dentro, a boiada vai passar”. Aí as crianças corriam todas pra dentro de casa. E a poeira era imensa, a poeira subia que ficava como se fosse uma nuvem. Mas a curiosidade das crianças era demais. E pra mim nessa época eu tinha como se fosse, que eu nunca tinha escutado falar em televisão, mas hoje, lembrando, é como se fosse uma televisão. Porque eu deixava um pouquinho aberta a janela para eu ver passar e era um divertimento pras crianças. A gente ria dentro de casa, gostava de ouvir o berrante tocar, aquelas coisas enormes, aquela alegria. Mas as mães também, fechavam a janela, fechavam tudo pra poeira não entrar, imagina, quando a gente via a cabecinha delas estava lá também, curiosa pra ver. Então eu lembro muito bem disso aí, até inclusive mais pra frente eu vou contar um pouco da minha situação que eu trabalhei nas escolas, eu sempre comecei a contar história contando essa primeira história minha, das boiadas. Além disso eu tenho um irmão, o Walter, ele gostava muito de contar história, principalmente noite de lua cheia, as comadres sentavam fora, uma trazia um bolinho, outra trazia um chá e as crianças brincavam ali na rua de pega-pega, brincadeira de roda, principalmente. Tinha uma brincadeira que falava assim, tinha a mãe rica e a mãe pobre. A mãe pobre é aquela que é com um monte de filha, a mãe rica era sozinha e aí a mãe rica que iniciava a brincadeira, (cantando): “Eu sou rica, rica, rica, de marré, marré, marré”. Então ela falava assim: “Eu desejo uma de vossas filhas” e citava um nome. Quando ela citava o nome, aí a mãe pobre falava (cantando): “Qual delas será?”, falava o nome. Ela citava que dava um emprego. Eu só aceitava se ela falasse que era emprego de professora, que na minha infância eu sempre tive vontade de ser professora.
P/1 – Então ficava um grupo de meninas lá, de meninos...
R – De meninas. Os meninos não brincavam junto com as meninas.
P/1 – Os meninos não brincavam.
R – Não. Não podia (risos).
P/1 – Então ficava uma turma de menina de um lado, vai, dez, e uma sozinha do outro.
R – É. 
P/1 – Daí era cantado.
R – É, era tudo cantado.
P/1 – Tudo cantado. Ela pedia o seu nome, alguém, dos dez.
R – Era a mãe rica.
P/1 – Ela propunha uma coisa. Te dou um castelo.
R – Não, era sempre emprego.
P/1 – Sempre emprego. 
R – A mãe pobre falava (cantando): “Que ofício dará a elas?”. Aí ela falava assim: “Sou rica, rica, rica, de marré, marré, marré. Eu darei ofício de costureira de marré, marré, marré”. E repetia. Aí a mãe pobre perguntava pra filha se ela queria. Se a filha não quisesse falava não. Aí ela cantava: “Ela não aceita”. E comigo era assim, se ela falasse de professora eu aceitava e passava pra ela e ia passando um a um até que ela ficava com todos os filhos, ela tornaria a mãe pobre, a outra rica e continuava a brincadeira. Era uma brincadeira bem alegre, divertida.
P/1 – Sempre cantava.
R – Tudo cantando. E enquanto isso às vezes meu irmão começava a contar história. Eu largava a brincadeira, eu sentava do lado, eu queria ouvir história. Contava aquelas histórias bonitas, eu adorava história.
P/1 – Lembra de alguma?
R – Então, eu lembro que ele contava de uma menina que a mãe dela morreu. Ela tinha os cabelos longos, dourados e depois tinha a vizinha que começou a gostar do pai da menina. Ela começou a fazer a cabecinha da menina pro pai casar com ela. Ele falava assim: “Filha, não vai dar certo”. E ela falava assim: “Pai, mas ela dá mel pra mim”. E ele respondia: “Filha, hoje ela te dá mel, amanhã ela não vai te dar mel”. Eu sei que no fim da história a madrasta maltrata muito a menina e ela põe ela pra tomar conta dos pés de figo, que o pai dela era viajante. Quando ela sabia que o pai estava pra voltar tratava bem a menina. Aí os passarinhos não podiam bicar o figo. Uma tarde ela não aguentou, ela estava muito cansada, dormiu embaixo do pé de figo e os passarinhos devoraram. E a madrasta pegou ela e enterrou ela viva. Quando o pai chegou, cadê a filha? Ela falou: “Olha, ela saiu, não voltou mais, eu já procurei nas redondezas”. O pai ficou muito triste. Aí o pai mandou o jardineiro que viu que o capim cresceu muito rápido, falou pra ele: “Por favor, vá cortar o capim”. Aí quando ele começou a cortar não seria mais o capim, já seria o cabelo da menina. Ele escuta uma voz (cantando): “Jardineiro do meu pai, não me corte meu cabelo, que a madrasta me enterrou. Xô, xô, passarinho da figueira”. O jardineiro ficou muito assustado e correu. Ele: “Não vou falar isso pro meu patrão, ele não vai acreditar”. No dia seguinte de manhã o patrão levantou e falou: “Você não cortou o capim que eu te pedi, sempre que eu peço as coisas você faz”. Ele falou: “Olha, eu estou passando mal, eu não estou me sentindo bem, não dá para eu ir” “Ah, tudo bem”. Quando foi no outro dia: “Você está melhor?” “Estou”. Ele foi e a menina cantou novamente e ele voltou, chegou lá pro patrão: “Olha patrão, está acontecendo isso e isso”. Ele falou: “O que é isso? Você está sonhando, você está delirando. Acho que você estava com febre e tal” “Não, patrão, é verdade. Eu não estava doente ontem, eu fingi porque eu não tive coragem” “Então quero ir lá”. Ele foi junto. Quando o jardineiro pegou a foice, passou no capim a menina novamente (cantando): “Jardineiro do meu pai, não me corte meu cabelo, que a madrasta me enterrou. Xô xô passarinho da figueira”. O pai ficou desesperado, entrou em prantos e pediu pro jardineiro: “Traz um enxada, vamos cavar”. E foi cavando, cavando, a menina estava viva. Quando ele tirou a menina, que entrou dentro de casa, a madrasta já tinha fugido. Foi embora e não voltou nunca mais e os dois viveram felizes para sempre, o pai e a filha. 
P/1 – Isso foi ele que criou?
R – Não, é que ele ouvia e vai passando. Essa e outras. E aí eu deixava a brincadeira para ouvir as histórias.
P/1 – Tinha outras pessoas também que contavam? Era uma prática?
R – Não, que eu lembro era ele.
P/1- Que era próximo, né?
R – É, era mais próximo, estava ali. E como o meu nome é Iris ele costumava me chamar de Sapiris. “Sapiris, vamos contar história”, ele contava várias histórias pra mim. Ele foi um dos irmãos mais apegados, mais dedicado a mim e eu tenho um carinho muito grande, até hoje nós somos assim.
P/1 – Vamos voltar lá pra década de 70?
R – Então, antes de voltar pra década de 70, quando aqui em São Paulo já, eu tinha uns 13, 14 anos. Sempre pobre, né, fui sempre pobre. Nasci rica e depois de um ano e meio comecei a ficar muito pobre. Aí a vizinha deu um vestido pra minha mãe, já moçona. Eu era bem magrinha, mirradinha e ela deu um vestido de linho branco e falou pra minha mãe: “Olha dona Mônica, esse vestido a senhora podia reformar pra Iris, vai ficar muito bonito”. E minha mãe reformou o vestido pra mim. Só que era um vestido godê que tinha saído da moda, ninguém usava mais. E eu já na minha idade de 12, 13 anos já estava começando a ficar meio vaidosinha e falei: “Eu não quero esse vestido”, mas minha mãe insistiu, era o vestido de missa, falavam, que era o vestido mais novo que eu tinha. E eu não gostava do vestido, eu detestava. Um dia, nós morávamos nessa época na Vila Morse, próximo à Vila Sônia e uma irmã casada morava no Caxingui. A gente ia caminhando, um percurso de 40 minutos andando, mais ou menos. Eu saí de casa emburrada, cara brava e minha mãe gritava. E era um caminho, que a gente cortava caminho, era uma granja de um japonês, muito mato, muito perigoso, pessoas atacavam outras e era um pedaço que as pessoas evitavam até de passar à noite. Eu fiquei pra trás e minha mãe gritava: “Vem menina! Por que tu tá aí atrás?” E aquilo me revoltava. Bom, fomos. Chegamos lá, brinquei bastante com a minha sobrinha que as nossas idades ficam próximas. E quando chegamos de volta pra minha casa tinha um porão onde dormiam meus irmãos solteiros e o porão era bem baixinho, pra por o guarda-roupa teve que fazer um buraco para encaixar, quebrar o piso de cimento. E ali naquele guarda-roupa de solteiro tinha roupa de todo mundo, quatro irmãos homens, eu, minha sobrinha e minha mãe. Minha mãe foi passar roupa. “Minha filha, pega as camisas dos seus irmãos para eu passar”. Eu fui pegar. Logo de cara eu achei um martelo. E eu estava com o vestido ainda. Quando eu sentei, o godê abre assim, né? Eu peguei o martelo e comecei. Cada batida que eu dava era um buraco que fazia no vestido. Mas até aí eu não estava dando conta do prejuízo que eu estava dando. Quando eu percebi já estava todo picotado. Na hora eu peguei aquele vestido, tirei, já peguei um do guarda-roupa, coloquei, embolei, bem emboladinho e joguei bem no fundo do guarda-roupa que minha mãe não visse. Aí os dias passaram. Foi passando e ela falou: “Minha filha, cadê o teu vestido novo?” “Não sei” “Minha filha tem que achar. O vestido está novo, vestido bom pra você sair, minha filha”. Aí eu fiquei preocupada. Minha mãe foi no guarda-roupa e achou. Quando ela viu, ela me mostrou: “Você viu como está esse vestido? O que é isso?” Eu olhei pra ela assustada: “Nossa, mãe, só pode ter sido rato!” Eu não sei se a minha mãe fingiu ou se fez de inocente. Como o rato ia cortar tudo redondinho como se fosse a metade da cabeça de um martelo, né? Aí passou e eu nunca mais usei o vestido, fiquei feliz. Então isso foi na minha infância ainda, em Poções. E como você falou retornar aos anos 70, quando eu estava ainda namorando. Não, disfarça. Aqui em São Paulo, eu com 14 anos, minha mãe viajou pra Bahia e eu fiquei com uma das minhas cunhadas, que eram a Doraci e Idalina. As minhas cunhadas eram um carinho muito grande comigo, tinha um carinhoespecial. E essa minha cunhada Doraci trabalhava fora e vez em quando eu colocava o feijão no fogo pra ela pra agradar ela. E as duas moravam na mesma casa mas dividiram, os dois irmãos. Eu pus o feijão no fogo e comecei a brincar. Só senti o cheiro, o feijão queimou. Eu fiquei assustada. Aí fui lá, tinha fossa no quintal e tinha um cano. Eu peguei o feijão e joguei tudo lá, feijão queimado, coloquei outro feijão e fui brincar. Novamente o feijão queimou e eu entrei em pânico, eu falei: “O que eu vou fazer agora?” E nessa época a gente fazia feira só em feira mesmo, não era em supermercado as compras. Então já comprava aquele tanto certo pra dar de uma semana pra outra. Eu falei: “Bom, pra ela não perceber”, eu fui na lata de feijão da minha outra cunhada, da Idalina, peguei outro feijão e coloquei no fogo pela terceira vez e fiquei sentada lá na cozinha, não saí mais até cozinhar. Quando chegou no final da semana a minha cunhada falou assim: “Eu não estou entendendo, o homem entrou no peso! O feijão está pouco, acabou o feijão. Como que pode?” A minha outra cunhada: “Mas eu também! Porque o feijão tá menos”, porque eu tirei uma parte da outra lata, né? E ali eu comecei a tremer, saí correndo pra rua e não tive coragem de contar. E ainda estou com isso na minha cabeça, ainda vou contar pra minha cunhada essa história. Hoje ela é acamada, tem problema nas pernas, há sete anos que ela está acamada. E foi um momento de querer ajudar, prejudiquei, mas não tive coragem de assumir. E foi isso daí, na minha infância ainda. Agora voltando nos anos 70.
P/1 – É que tem várias situações.
R – Nossa (risos).
P/1 – Coisa que a gente faz. Quando é criança ainda. Mas carregou até hoje, hein?
R – Até hoje (risos). E sempre quando eu vou lá eu falo: “Hoje eu vou contar pra ela”. Aí começa a conversar, conversar, esquece. Ainda vou falar pra ela.
P/1 – E ela vai achar tudo bem.
R – Vai, vai (risos). Então voltamos aos 70.
P/1 – É, a gente estava falando dessa fase, que vocês estavam com um aperto financeiro e você teve que voltar a trabalhar.
R – Isto.
P/1 – E você contou que você começou a trabalhar numa loja. A gente parou aí. Não sei como foi essa experiência de shopping, se foi pouco.
R – Retornando um pouquinho, do meu namoro. Meu marido trabalhava à noite e eu trabalhava de dia. Então era na mesma fábrica, uma tecelagem, e depois nós mudamos, eu fui pra uma, ele foi pra outra então a gente não se via, só final de semana. Aí um belo dia eu estava fazendo corte e costura, aprendendo, saía do meu serviço de uma fábrica de roupas femininas e ia pra escola de corte e costura. E ele ia encontrar comigo às vezes, quando era folga dele. E aquele dia era uma folga e ele não foi e eu fiquei preocupada. Eu comecei a andar no bairro de Pinheiros procurando ele e vim pra casa. Aí foi batendo aquela saudade. Não, isso não era folga, era dia dele trabalhar mesmo, é que me deu saudades dele. Misturei. Me deu saudades dele e quando eu cheguei perto da minha casa tinha um hospital lá na Vila Sônia que é hospital psiquiátrico, pessoas com problemas sérios. E só lá tinha telefone público. Eu nunca tinha telefonado na minha vida, já estava com uns 21 anos mais ou menos, nunca tinha pego num telefone. Nisso eu desci do ônibus, era em frente do hospital, aí me deu vontade. Bati lá, o porteiro abriu, eu falei se eu podia usar o telefone. Aí eu liguei, a pessoa atendeu e eu falei: “Gostaria de falar com o Eliziário” “Olha, ele agora não pode atender. Você não quer deixar recado?”, eu falei: “Não, fala pra ele que não é nada, não. É que ele estava um pouco resfriado e eu queria saber se ele melhorou”. E fui pra casa. Mas aquela saudade, queria conversar com ele. Quando eu chego em casa a minha irmã não estava em casa com as crianças, que ela era separada do marido com quatro crianças e foi dormir na casa de uma outra irmã. Chego em casa, estava aquele silêncio. E na mesa tinha um vaso de flores. Aquele cheiro gostoso e aquilo me deu um clima de tristeza. A minha irmã não está, ele não pôde atender ao telefone, aconteceu alguma coisa grave. Bom, eu fiquei muito triste, chorei porque eu não consegui falar com ele, depois que eu já estava deitada, já dormindo, meu irmão estava acordado e me chamou, foi lá no quarto. “Iris, o seu namorado está aí”. Eu cheguei, quando eu fui, abri a porta, eu falei: “O que aconteceu? Por que você está aqui?” “Ah, você não ligou pra lá?” “Liguei” “Então. O porteiro falou pra mim que não era grave, mas você estava muito doente”. Ele inverteu. Mas foi tão bom que ele inverteu (risos). Foi um momento tão gostoso, aconchegante, muito bom. Mas ainda levei bronca do meu irmão: “Você fica atrapalhando o rapaz, tal. Coitado, vir de lá preocupado”. Eu falei: “Ah, eu não tenho culpa, o rapaz que deu o recado errado, eu falei certo”. Isso daí é uma coisa que marcou muito pra mim que foi o meu primeiro telefonema, e por ser o primeiro eu não consegui falar com ele, eu queria escutar a voz dele. E por um acaso, quando eu cheguei em casa o rádio estava ligado. E qual música que estava cantando? (cantando) “Vou telefonar dizendo que eu estou quase morrendo de saudades de você” (risos). Aí entrei em prantos, chorei (risos). Aí uma hora e meia mais ou menos a saudade matou. Era isso que eu tinha de falar porque eu não queria deixar de falar isso aí.
P/1 – Sem deixar registrado essa emoção.
R – É. Então, na loja, né?
P/1 – Da onde você quiser, na verdade. 
R – Pra mim foi muito bom, foi uma experiência muito boa.
P/1 – Voltar a trabalhar?
R – É, voltar a trabalhar.
P/1 – Você ficou quanto tempo sem trabalhar? Só quando casou?
R – Eu casei no ano de 70 e trabalhei até o ano de 69. E retornei a trabalhar em 74, então fiquei esse tempo todo sem trabalhar devido àquele problema que marido que tinha que sustentar a família e não a mulher, né? E na loja eu tive muito apoio porque era loja de calçados, loja muito fina no Shopping Ibirapuera. E sempre você encontra uma pessoa, inclusive a minha sobrinha, a Linda, trabalhava nessa mesma loja, foi ela quem me incentivou. Aí uma colega começou a me ajudar porque você tinha que conhecer referência do trabalho, a cor, por nome, muita coisa. E ela falou assim pra mim: “Pode ficar sossegada que eu te ajudo”. Quando ia atender a cliente ela subia comigo no estoque, só perguntava: “O que ela pediu?”, eu falava: “Assim, assim”, ela já: “Está aqui, aqui”, eu aprendi rapidinho, foi muito bom. E nessa época eles pagavam assim, tinha uma cota, um x pra você vender até o fim do mês, do dia primeiro ao dia 30. Se você fizesse aquela cota você ganhava o valor de 6% da venda e se você não atingisse era 4%. Então era muita luta. No começo do mês a gente ia tudo tranquilo, no final do mês era aquela luta pra gente vencer porque dava muita diferença no salário. E foi quando nós já estamos lá com o terreno pra construir a casa, o meu primeiro pagamento já foi mesmo pra construção da casa. Fiquei trabalhando um bom tempo e nessa época que eu estava lá, um ano e pouco, eu engravidei pela terceira vez e trabalhei bastante, só que tinha o costume que lá era só madame, você tinha que atender sentada, no chão, pôr o sapato no pé. Hoje já está diferente, mas naquela época era mais rígido. E eu trabalhei quando estava com sete meses e meio, como eu tomava três ônibus pra ir, três ônibus pra voltar e não tinha nada de preferencial, você chegava ali, não tinha lugar, você ficava na sua, não importava se a barriga estava grande ou não. Eu lembro que uma vez eu passei tão mal no ônibus, eu não estava aguentando. Aí eu sentia que minhas lágrimas escorriam, aí uma senhora que estava sentada me deu o lugar. Eu sentei, só que na hora de descer, que a minha casa fica na estrada mesmo, eu não conseguia tirar o pé do lugar. Estava chegando meu ponto e adormeceu tudo. E eu queria me mexer, comecei a mexer, aí com a mão eu comecei a mexer pra perna sair porque senão eu passava do ponto de ônibus. E nesse dia eu cheguei em casa muito mal, cansada, eu joguei a bolsa, deitei no sofá, me deu uma crise de choro porque eu sempre chorei muito, por qualquer motivo eu chorava. E meu marido perguntava pra mim o que foi e eu não conseguia falar. Depois de um bom tempo que eu peguei e contei pra ele. Mas assim, meu marido não foi só marido, foi um pai, aquele pai que eu não tive. Como eu falei no início minha mãe falava só coisas boas do meu pai com minhas irmãs, com meus irmãos e eu não tive esse momento porque com oito meses eu o perdi. Então a minha mãe se preocupava muito quando eu comecei a namorar, falava: “Minha filha, como que você vai casar? Por ser doente”, todo mundo falava que eu era doente, que eu era manhosa, eu chorava à toa, “qual homem que vai te aguentar?”. Isso também pra mim era difícil, eu mesmo pensava: “Meu Deus”. Mas Deus preparou uma pessoa compreensiva, amável, carinhosa, romântica, tudo o que eu queria. E nesse dia que eu cheguei ele cuidou muito de mim e ao mesmo tempo ele se revoltava e falava que ele não merecia ter casado comigo, que eu tinha que ter casado com uma pessoa que pudesse me sustentar melhor. E eu não gostava que ele falava aquilo, que não era legal. Mas tudo bem. Com sete meses e meio eu tive que parar de trabalhar porque eu não estava aguentando mais, o médico falou: “Olha, esse percurso seu é muito longo”. Só que lá no serviço eu trabalhava bem, eu sentava assim e abria as pernas. Aí quando a gente estava grávida o patrão liberava da gente atender em pé. Mas eu estava tão acostumada que eu conseguia atender em pé. Mesmo as freguesas falavam: “Não, não, não pode ficar de pé”. Eu falava: “Por favor, eu me sinto bem”. Até elas brincavam comigo: “Essa criança vai escorregar, vai ser um quiabo”. Porque a minha posição já era, parece, preparando um parto. E realmente foi o parto melhor que eu tive, foi maravilhoso, não sofri tanto. Aí a criança nasceu, continuei trabalhando e quando ele estava com um ano ele começou a ficar doentinho, doentinho. Aí um domingo o meu marido foi visitar uns parentes que moravam no Ferreira e lá tomando uma cerveja, tal, que ele nunca foi de ir em boteco, beber, mas quando juntava... e ele chegou, eu vi que estava meio. Aí ele chegou e falou assim pra mim: “Olha aqui”, porque meus parentes também achavam que eu não precisava trabalhar. E lá, conversando, falando da criança, acho que encheram a cabeça dele. Aí ele chegou: “Olha aqui, vou falar uma coisa pra você: se essa criança morrer você é a culpada”. Aquilo pra mim foi como se uma faca tivesse me espetado assim, sabe? Foi muito triste. Eu falei pra ele: “Tudo bem, amanhã eu vou pedir minha conta”. Aí fui, pedi a conta, no dia seguinte fui até o escritório que era na rua do Arouche e o patrão falou pra mim: “Olha Iris, você está saindo. Se o teu filho não melhorar você liga pra mim, eu vou marcar uma consulta com a pediatra dos meus filhos e você não vai pagar nada. Essa pediatra é ótima, eu não quero que esse teu filho fique doente, ele vai ser curado”. Agradeci, ele falou: “A porta continua aberta”. Bom, voltei e não precisei de incomodar o patrão. Meu filho foi melhorando mas eu não consegui ficar parada, eu comecei a trabalhar vendendo Stanley, é como se fosse um produto famoso como a Natura, por exemplo, mas tinha muito produto de limpeza e produto pessoal.
P/1 – Representante de uma marca.
R – Representante. Tinha bolsa com todos os produtos, agendava. A casa que agendava a pessoa convidava vizinhas e ali fazia a venda. E com um mês eu já ultrapassei nas vendas e passei a ser promotora. E pra ser promotora tinha que ter carro. E eu me empolguei, que a minha promotora falou: “Iris, você bateu o recorde, vai firme”. E a promotora ia trabalhar menos e ia ganhar melhor. Fiz minha inscrição na autoescola, comecei, estava indo já pra pegar o volante, aí tinha uma romaria pra Tambaú e nós nos preparamos para ir nessa romaria. Saímos de casa meia-noite, duas horas da manhã o ladrão entrou na minha casa e limpou a minha casa. Eu tinha bastante cheque de clientes, dinheiro. Aí junto com a Stanley eu comecei a vender cerâmica também, então vendia duas coisas ao mesmo tempo. Eu cheguei em casa e não tinha nada. Roupa das crianças, tudo. Os dois botijões de gás, duas televisões, ventiladores. Tudo. Praticamente tudo. Só ficou a roupa que nós trocamos pra viajar. Cobertores, lençóis.
P/1 – Roubaram tudo. Rapelaram, vieram de caminhão.
R – Colchão. E quando eu cheguei, onde estava a minha máquina de costura, que eu sempre costurei pra fora, antes de ir para a loja, que eu ganhei antes de casar. Eu sentei e ele ficou lá em cima. E ele era muito revoltado essa época com igreja, com tudo. E em Tambaú ia lá visitar uma igreja. E eu fiquei com medo quando ele chegasse e falasse assim: “Olha aí, a gente vai atrás de igreja, o que recebemos”. Eu sentei e as crianças, as duas meninas e o meu pequeno já estava com um ano e pouco, aí eu olhava e falava: “Ele vai ficar desesperado”. Pelo contrário. Ele sentou no chão, todos nós ali abraçados, ele falou pra mim: “A gente vai dar um jeito. O importante é que nós estamos aqui, a nossa família está aqui, não aconteceu nada”. Entraram duas horas da manhã. Aí fiquei mais tranquila. E voltei pra loja de novo, pro Shopping Ibirapuera. Porque aí eu não tinha mais confiança naquele dinheiro que vinha um pouco de um, um pouco de outro, eu queria o meu salário lá no final do mês. Aí voltei lá, ele falou: “Pode ir”. Comecei a trabalhar de novo na mesma loja, trabalhei mais um ano e pouco. Aí eu comecei a ficar com aquele problema de depressão, quando era solteira tinha forte, depois melhorei e comecei de novo.
P/1 – Voltou?
R – Voltou. E aí eu vinha, trabalhava, ficava em casa.
P/1 – Você identifica os motivos hoje?
R – Hoje?
P/1 – É, que está mais distante disso, você identifica os motivos que você foi ficando deprimida novamente?
R – Acho que, como eu falei no início eu não me conformava de ser a filha mais nova, queria ser a mais velha pra ter aquele momento do meu pai, aqueles momentos de tudo o que eu queria nunca podia porque eu não tinha meu pai. E acho que com isso também foi me deixando... e depois também a minha irmã morava com a gente, separada do marido, os filhos dela eram um ano, dois anos, três anos e quatro anos. Daí a pouco meu irmão separou da esposa e veio com mais dois filhos. Aí havia muita briga entre as crianças, a minha irmã achava que minha mãe defendia os filhos do meu irmão, maltratava minha mãe, começou um clima. Eu nunca gostei de brigas, de discussões e esse clima foi me deixando com problema de saúde, eu sei que isso daí mexeu muito comigo. E nessa época que eu já estava na loja, depois me mandaram embora aí eu fiquei um mês em casa. Eram duas lojas rivais, Verano e Corello, um queria ganhar mais do que o outro. E um ficava feliz quando pegava uma funcionária do outro. Aí fui naCorello e falei: “Olha, trabalhei tanto tempo na Verano, tal”. Não tinha entrevista, não tinha nada: “Pode começar amanhã”. Trabalhei mais uns dois anos e pouco na Corello e lá também ganhava bem, como a outra também e foi onde construímos a nossa casa. Depois tinha quarto e cozinha, as crianças dormiam no mesmo quarto, depois consegui fazer a sala e o quarto. Inclusive a Débora, que esteve aqui comigo, nessa época ela devia estar com uns cinco, seis anos quando construiu o quartinho, eu pus bastante quadrinhos, enfeitei o quartinho delas e às vezes eu pegava ela ajoelhadinha no quarto com a mãozinha: “Papai do céu, por que você ajudou a minha mamãe trabalhar pra ganhar dinheiro? Eu não quero esse quarto, quero o quarto da minha mãe”. Aquilo meu coração doía. Muitas vezes eu pegava ela dormindo no chão, na beirada da cama, do lado do meu marido. Aí sem eu perceber ele pegava, colocava ela. Ela fez isso várias vezes. Ou às vezes a gente não via e ela dormia no taco, ainda bem que não era piso, era taco mesmo, ela dormia lá. E a Claudia, que era a mais velha e já entendia falava: “Para, o nosso quarto, a gente precisa do nosso quarto, olha que bonito”, ajudava, mas ela queria o quartinho dela. E assim foi indo.
P/1 – Só uma questão, foi uma grande conquista de vocês? 
R – A casa?
P/1 – A casa. Porque vocês projetaram anos isso, né?
R – Anos, foi.
P/1 – Você lembra o primeiro dia que você entrou lá, tipo: “Mudamos”. Você lembra disso?
R – Foi uma coisa que, principalmente quando nós deitamos, cansados, fazendo a mudança. Olhava pro teto eu chorava e ele também. Eu não acreditava que estava morando numa coisa que era minha. E ao mesmo tempo eu ficava muito chateada porque meus parentes iam nos visitar e todo mundo elogiava, mesmo que é um cômodo que é seu todo mundo elogia, né? “Ai que bom, é de vocês”. Aí ele falava assim: “É, se não fosse ela a gente não tinha”. E aquilo também não aceitava. Um dia eu cheguei e falei pra ele: “Olha, se você falar mais uma vez que essa casa foi construída por minha causa a coisa vai ficar feia. Porque se não tivesse o seu dinheiro no meio não teria a casa também, só o meu não iria fazer”. Porque o que acontecia? Como eu trabalhei em loja eu ganhava mais do que o dobro do que ele ganhava, então foi o que deu essa levantada. Então logo de cara ele já falava, eu falei: “Corta, não fala mais”. Uma que assim, o salário dele vinha todo pra minha mão, eu que resolvia, nós dois juntos, não tinha esse, o dinheiro era dele e meu. Eu nunca comprava nada sem falar, às vezes tinha sapato em oferta, as colegas compravam: “Eu nem vou falar com meu marido”. Não. “Eu comprei esse sapato porque estava em oferta”, nós sempre tivemos determinado em comum, os dois. Quando estava fazendo os dois outros cômodos, a sala e o quarto, aí apertou de novo e a gente comprava no supermercado e pagava a cada 15 dias, que hoje não existe mais isso. Ai foi num sábado, lá no Shopping Ibirapuera mesmo, na hora da janta eu estou olhando assim quando eu vi uma coisa, um relógio no chão. Eu olhei aquele relógio e pensei: “Esse relógio é de ouro”. Olhei para um lado, olhei pro outro, não vi ninguém e levei até numa loja lá, ele todinho de ouro, a pulseira, tudo. O que aconteceu? A gente empenhorava aquele relógio (risos) pegava aquele dinheiro, pagava aquela dívida, depois pagava. E esse relógio andou em mão de meus parentes, minhas sobrinhas: “Tia, empresta seu relógio” (risos). Ia na Caixa Econômica, empenhorava (risos).
P/1 – E era de um valor alto.
R – Valor alto. Uma época ele estava empenhorado, foi num sábado também. Aí quando não tinha calçado na loja de cima a gente podia ir na loja de baixo, que era a Verano e Marella que eram dos mesmos donos, eram dois irmãos. E a gente descia. Eu nem esperava a escada rolante, é rápido porque a cliente não gostava de esperar. Quando eu olho no orelhão, uma carteira. E tinha um casal sentado do lado igual eu estou aqui e o orelhão aqui, no banco eles sentados. Eu peguei a carteira e falei pra ele: “Essa carteira não é de vocês?” “Não”. Eu falei: “Então vou levar no Achados e Perdidos”. Cheguei lá na loja, quando abri a carteira tinha muito dinheiro, não posso dizer o valor agora que eu não lembro, era muito dinheiro. Eu peguei a carteira e coloquei dentro da calça assim e subi. Cheguei lá na loja, atendi a freguesa e chamei a minha gerente. “Débora, olha o que eu achei”. Tinha cartão de crédito, cartão de banco, documentos. Ela falou: “O que você vai fazer?” “Eu vou levar lá no Achados e Perdidos”. Ela falou: “O quê?! Você vai levar? Você precisando de dinheiro na sua construção? Não faça isso não, não seja boba! Esse dinheiro fica pra você”. Aí eu comecei a tremer de nervoso. “Gente, não é possível, não posso fazer isso”. Ela falou: “Iris, pela carteira, com tanto cartão”, que naquela época poucas pessoas tinham cartão de crédito, só quem tinha dinheiro, “essa pessoa tem dinheiro, não seja boba”. Bom, aí fui pra casa, levei. Eu cheguei em casa e meu marido meio chateado, ele falou assim: “Bem, não sei o que a gente vai fazer” “Por que?” “Amanhã é dia de fazer compra” “E o que tem? Dinheiro tem pra pagar o mercado”. Ele falou: “Não, não dá”. Eu falei: “Cadê o dinheiro?” “Bem, o pedreiro falou pra mim que não tinha, nem feijão e nem arroz na casa dele, eu paguei ele” “Ah, você tá brincando!? E a gente vai ficar sem comer?”. Ele falou: “Não sei, sei lá, a gente vai dar um jeito. Não esquenta”. Não aguentei o homem falar aquilo pra mim, eu falei: “Você vai dar um jeito?” “Vou” “Vai não” “Como que eu não vou?” “Você não vai”, meio assim brava, mas brincadeira. Ele falou: “Por que você fala que eu não vou dar?”, aí abri a carteira e mostrei o dinheiro. Aí pagamos supermercado (risos), aproveitamos para fazer uma compra pra não ficar devendo, pra deixar já pro mês que vem. Aí tinha uma quermesse na igreja, fomos pra quermesse com as crianças, gastar um pouco com as crianças. Aí falava: “Tem um bingo de uma garrafa de vinho nãosei o que lá, falta um número só”. Eu falei: “Vou comprar”, aí ganhei a garrafa de vinho (risos). Então foi uma fase difícil mas foi uma fase de alegria, de amor, sabe? Bom, outra coisa que eu também não posso deixar de fazer, ainda trabalhando na Verano essa minha amiga que me ajudou muito, muito amiga, solteira, aí era sábado de carnaval e ela falou assim: “Ai, a gente podia ir pra praia amanhã, né?”, eu falei: “Se você quiser ir vamos”. Ela falou: “Você topa?” “Topo”. Ela falou isso na sexta-feira. Aí cheguei em casa e falei: “Bem, a Elza falou isso e isso, o que você acha?” “Vamos”. Aí falei pra ela no sábado. Preparamos pra nos encontrar na rodoviária. Domingo de carnaval. Chegamos na rodoviária, então tinha duas meninas, que as minhas filhas chamavam a atenção de todo mundo porque eram, não é por serem minhas filhas mas todo mundo falava, muito bonitas. E eu sempre deixei muito bem arrumadinha, não tinha dinheiro mas eu comprava tecido, eu que costurava pra elas, aquelas roupas. As pessoas viam e perguntavam: “Onde você comprou essa roupa?” “Eu que fiz” “Ah, você pode fazer pra minha filha?”, ganhei muito dinheiro também pelas roupas, minhas filhas eram mostruário. Comprei uma passagem pras duas, uma pra ele e uma pra mim, e o bebê no colo, um ano e pouco. Aí nisso os ônibus paravam e iam pegando as pessoas, ia lotado pra praia. Um senhor parou perto do nosso banco e começou a brincar com as meninas, brincando, já bem senhor, como se fosse meu marido hoje. Eu falei: “Bem, a gente devia era levar as crianças no colo e pôr esse senhor pra sentar, né bem?” “Não, por que ele não foi pra rodoviária como nós fomos? Pega no meio do caminho, problema dele”. E o homem com carinho com as meninas, elas fizeram amizade. “Bem, não tá certo” “Você que sabe”. Aí peguei, tirei as meninas do banco. Uma ficou com a minha amiga, uma ficou comigo e o menino também, com ele. Eu falei: “Por favor, o senhor se senta aqui” “Não, não, imagine, o que é isso, a senhora pagou passagem”. Eu falei: “Por favor, senta, não é justo, elas estão brincando, pra elas não importa, elas não se incomodam”. Quando estava chegando perto da praia o homem foi conversando com a gente e falou assim: “Vocês têm casa lá?” “Não” “Vocês têm parente?” “Não” “Mas vocês alugaram alguma coisa?” “Não” “E vocês estão indo pra lá, domingo de carnaval? Eu saí de lá ontem à noite”, que ele morava lá, “a praia está lotada, vocês não vão achar um lugar pra vocês ficarem” “Não, mas a gente vai fazer um bate e volta, só pras crianças tomarem um banho de praia”. Quando o ônibus parou, o homem pôs a mão no bolso: “A chave do meu apartamento. Vocês vão ficar lá. Eu vou entrar só pra pegar uma roupa e vou pra casa de um amigo meu, esquece de mim, vocês vão ficar lá o tempo que vocês quiserem. Na geladeira tem carne moída, lá tem macarrão, se vocês quiserem fazer, por favor”. Eu fiquei assim, meu marido: “Não, pelo amor de Deus, isso não é justo, o senhor fazer isso” “Não é justo eu ver vocês com essas crianças, a atenção que vocês me deram e eu deixar vocês na rua”. Eu falei assim: “Meu Deus, Deus mandou um anjo pra ficar perto da gente?” Cheguei lá, preparei uma macarronada, deixei tudo prontinho e fomos pra praia. Foi um dia maravilhoso. Ele falou: “Quando vocês saírem eu não quero atrapalhar vocês, vocês podem tomar banho, tranquilos e deixam a chave na portaria”. Fizemos tudo, tomamos banho de chuveiro, deixamos a chave. Fomos pra rodoviária. Chegamos na rodoviária não tem passagem pra São Paulo. E no outro dia eu tinha que trabalhar, ele tinha que trabalhar, minha amiga também. E aí? E ele não saía do guichê, toda hora perguntando e anunciava: “Não temos passagem, não está previsto, não tem ônibus”. Uma hora de espera, as crianças já estavam cansadas, brincaram muito, com sono, um deitou no chão e começou a dormir. Três crianças. E meu marido não saía do guichê. Só estou falando: “Quem tem criança, por favor, casal com criança forma uma fila”. Meu marido foi pra fila, já estava no guichê. Compramos a primeira passagem. O que nós fizemos? Eu peguei o meu, meu marido pegou a Débora e a minha colega pegou a outra, compramos passagem pra nós três e viemos embora pra São Paulo felizes e tranquilos, nos divertimos. Eu só agradeci a Deus, que a minha vida é agradecer a Deus.
P/1 – Nunca mais encontrou esse sujeito?
R – Nunca mais.
P/1 – E o apartamento, deixou em ordem?
R – Tudo, imagina! No quarto dele nós nem entramos, só a sala, banheiro e cozinha. Falei pras crianças: “Não”, tinha um sofá grande na sala, descansamos. Olha, foi um dia assim que se eu for te contar as graças que eu já recebi. Bom, resumindo, né, chegou essa parte (risos).
P/1 – Tudo bem (risos). Vocês têm outros filhos ainda, né? Teve outros.
R – Então.
P/1 – Continuou na loja também?
R – Não, aí depois parei de trabalhar, fiquei costurando em casa novamente mas só quebrando um galho porque não dão valor pra costureira, não te paga ou acha caro. E ele sempre trabalhando em tecelagem, depois saiu da tecelagem e foi trabalhar com jogo de bicho junto com meus sobrinhos, aí começou a ganhar mais também, mas eu nunca gostava porque era perigoso, às vezes eles levam presos, aquela coisa muito desagradável. Ficamos nessa situação. Aí a minha mãe veio morar com a gente nessa época porque o meu filho estava pequeno ainda, o Claudinei e aí minhas filhas tinham caixa de som no quarto e a primeira coisa que eu falei: “Filhas, nós vamos tirar essa caixa de som do quarto, a vó não suporta barulho”, fiz a cabecinha delas duas, elas entenderam. Minha mãe morou comigo durante 13 anos.
P/1 – Treze?
R – Treze anos. E aquela pessoa pacata, não era de conversar muito, muito tranquila. Muito puxa-saco do meu marido, eu não podia falar nada dele. E aquele genro que ela falava assim: “Esse é o meu filho”, porque os filhos não ligavam pra ela. Meus irmãos não faziam visita pra minha mãe. Chegava domingo a minha mãe levantava, sentava fora assim e ficava com o olho no portão esperando que um viesse visitar. Ai tinha um que visitava toda semana, se ele não ia, mas a cada 15 dias ele ia, esse visitava. Esse Deus levou logo. A primeira coisa que ela falou: “Meu Deus, o único filho que me visitava Deus levou”. E ela sempre muito triste, muito parada.
P/1 – Vocês se distanciaram, a família? Porque antes eram bem próximos. Vocês também não visitavam? 
R – A minha mãe?
P/1 – Vocês, de levar, de ir, almoço de domingo.
R – Sim.
P/1 – Isso acabou depois.
R – Eu não, porque o meu marido, onde eu chamava...
TROCA DE FITA
P/1 – Iris, você estava falando quando a sua mãe mudou pra sua casa e no fim deu tudo certo, ela passou 13 anos com vocês. Mas me ocorreu essa curiosidade, esse distanciamento que teve na família. Porque eu me lembro que durante a sua história ela sempre mostrou a família sempre junto. O que você acha, por que teve esse distanciamento?
R – Eu acho que a maioria dos meus irmãos e irmãs se acomodaram porque sabiam que ela estava comigo, ela estava sendo apoiada. Às vezes ela ia na casa de uma filha: “Ah mãe vamos pra lá ficar comigo uns dois, três dias”. Ela não conseguia, no segundo dia: “Eu quero ir pra casa de Iris, eu quero ir pra casa de Iris”. Aí tinha essa uma que é sobrinha, que é neta dela, também ela gostava de ficar lá. E um dia, lá era sobrado, ela estava dormindo no quarto e próximo do quarto tinha a escada pra descer, depois o banheiro. Ela levantou pra ir ao banheiro, esqueceu, foi do lado da escada e caiu. Nesse cair ela não quis dormir mais lá. E essa minha sobrinha é uma pessoa que se preocupa muito comigo e a minha mãe não ficava sozinha por nada em casa, então era complicado pra mim, pra sair ela tinha medo, nunca gostou. Você fala: “Mãe, vou ali e volto. Vou em Pinheiros, vai rapidinho” “Não”. Então minha sobrinha me chamou e falou: “Olha tia Iris, faz o seguinte, arruma uma pessoa pra trabalhar meio período na sua casa e esse meio período você vê se é melhor pra você de manhã ou à tarde e aí você vai fazer suas coisas sossegada, aí minha mãe vai lá com essa pessoa e eu pago”. E ela fez isso e me ajudou muito nisso daí, quebrou esse galho pra mim. Se minha mãe ficasse doente, sentisse mal, eu falava: “Mãe, eu vou ao pronto socorro”, ela ficava mais doente, não aceitava ir pro hospital, ela tinha medo de morrer no hospital, ela tinha medo de fazer autópsia, tinha pavor. Aí descobrimos um médico particular, então era só lá. Quando a minha mãe não estava bem eu ligava pra ela: “Linda, a minha mãe está assim, assim”, na hora ela já vinha com o carro, levava a minha mãe. Ela mora aqui no Butantã. Ela já passava na farmácia, ela que comprava os remédios da minha mãe. Ela sempre me ajudou assim. Vamos supor, se eu estivesse com um problema financeiro e precisava de um dinheiro emprestado, ela que me arrumava. Assim, todos os meus irmãos, parentes, são todos legais, um carinho muito grande, isso eu agradeço a Deus, gosto demais. E tem outros mais que já me ajudaram. Mas eu estou falando mais referente à minha mãe, por isso que eu estou citando o nome dela. Aí teve uma hora que eu estava com um problema de depressão, ela descobriu um local na Estrada de Itapecerica que tinha um japonês que trabalhava com massagem. E uma amiga dela estava passando pela mesma situação que a minha, foi lá e insistiu para eu ligar pra lá, eu liguei e cada sessão era muito cara. E ela falou: “Mas eu que vou pagar”, e fiquei quase um ano e ela pagava toda semana. Essa época meu marido tinha carro, ele me levava e ela depositava o dinheiro na minha conta. Me ajudou muito. E tem mais coisas ainda que ela me ajudou muito. Todos os meus sobrinhos, sempre quando eu precisei de algo nunca me negaram, eles gostam muito de mim, quer dizer, pelo menos mostram que gostam e eu acredito, eu não vou falar assim: “Ah, será?”, eu acredito que todos gostam, um carinho muito grande comigo. Acho que por eu ser a tia mais nova deles, a maioria já foi.
P/1 – E a sua mãe faleceu?
R – A minha mãe faleceu depois. Nesse intervalo o Claudinei já estava grande, com quatro anos, e eu estava na igreja e falavam que precisava de catequista. E eu tinha muita vontade de ser, aí eu acabei concordando, cheguei em casa com o meu marido e falou assim: “Você fez coisa errada em assumir isso, você tem uma criança pequena, você tem a sua mãe e você não tem saúde”. Eu ainda brinquei com ele: “Eu não vou assinar nenhum contrato, eu vou tentar, se eu não conseguir”. No primeiro dia da reunião, Danilo, foi uma coisa assim, a leitura que foi feita eu sentia que falava: “Iris, você não é doente”. A partir daquele dia eu percebi que eu tinha que pensar em mim, meus filhos, na minha mãe e que eu não precisava daqueles calmantes fortes que eu tomava todas as noites. Levantar de manhã minhas mãos eram trêmulas. E a leitura bateu muito comigo. Eu entreguei na mão de Deus, falei: “Senhor, a partir de hoje eu não vou mais tomar aqueles remédios”. E não tomei mais, parei. Aí, bom, aí continuei, trabalhei praticamente 18 anos na coordenação da catequese, ali eu trabalhava com, vamos supor, umas 50 catequistas, eu que coordenava as crianças, os pais. Foi um trabalho muito bonito, muito bom, muita alegria e cada vez mais eu me aprofundando nesse Deus, que tudo o que eu faço eu não venho pra cá sem primeiro conversar com ele. Eu e Deus, nós estamos sempre ligados, Nossa Senhora que é a minha protetora também. E eu parei e comecei a me sentir muito melhor no começo do meu trabalho, que eu devo à catequese, eu devo a minha saúde pela catequese, por esse trabalho da igreja. Eu sei que você sabe o que é trabalhar, ensinar o catecismo pras crianças fazerem a primeira eucaristia e hoje eu vejo crianças que começaram com nove anos comigo e hoje já são mães, pais, os anos foram passando e me reconhecem, é aquela alegria. Aí foi quando eu comecei a trabalhar em projeto na escola, quando eu comecei a ter uma amizade na prefeitura. E tem o projeto Férias que trabalha na semana na escola, a escola é aberta e esse projeto eles pagam a semana um salário razoável, bom e você trabalha aquilo que você apresenta, às vezes você faz um trabalho, passa pra lá e é avaliado. E o meu foi avaliado a primeira vez, foi com bonequinhas, fazia bonequinha, roupinha, trabalhei com as crianças e foi maravilhoso. As crianças que nunca tinham pego em agulha, porque tinha que costurar: “Não, minha mãe nunca deixou”. E essas crianças costuravam. Mães que entravam também e ficavam maravilhadas de fazer aquelas bonequinhas. Foram três anos seguidos nesse projeto.
P/1 – Mas a ponte foi pela igreja?
R – Não.
P/1 – Foi iniciativa sua.
R – Foi. Não foi nada da igreja.
P/1 – De onde veio essa iniciativa de ir pra escola, propor projeto, ser esse projeto, bonecas.
R – Então, como que iniciou? Teve o projeto Férias na escola perto da minha casa e é livre. Entrei lá e vi uma bonequinha, achei interessante e guardei. Quando foi seis meses depois o outro projeto, que era julho e janeiro. Aí eu desmanchei ela e fiz uma em casa. E gostei. Aí fiz, escrevi o próximo projeto, mandei e foi aprovado. Aí me chamaram, no outro ano me chamaram e foram me chamando. Eu comecei a trabalhar com rolinho de jornal com eles, cada ano eu fazia um projeto diferente. Eu ia trazer pra você ver mas eu esqueci, estou fazendo um abajur, a coisa mais linda, só com jornal. E as crianças se empolgavam muito, sabe, as mães, muito trabalho eu fiz assim pela prefeitura. Foi quando eu te falei que eu fiz aquela prova, falei lá na sala. Que lá na escola já acharam que eu era professora, nesses projetos. Aí falaram que tinha essa prova e eu eliminei o ensino fundamental.
P/1 – Desculpa, que prova?
R – Que a gente conversou lá na sala.
P/1 – Então, a gente conversou lá na sala, aqui não temos o registro (risos).
R – Foi assim. A minha filha trabalhou...
P/1 – Só para entender, o pessoal da escola começou a te pressionar de alguma maneira?
R – Sim.
P/1 – De falar: “Poxa, você não tem graduação”, é isso?
R – Isso. “Eu achava que você tinha”. Depois a minha filha trabalhou dois anos no Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, você deve saber como é, sabe, né?
P/1 – Sim.
R – E quando ela saiu uma colega minha entrou. Essa minha colega, que era quatro anos agora já são três anos que fica, minha colega falou: “Iris, por que você não se inscreve pra trabalhar no Conselho Tutelar?” Só que eu tive uma convivência com a minha filha, é muito sofrido quem trabalha lá e como eu sou muito sensível às coisas eu senti medo. Mas ela insistiu tanto, só que eu tinha que ter o colegial completo. E ela me deu a ideia dessa prova. Eu me inscrevi, lá pro lado de Santo Amaro eu não me lembro bem o local, e a prova foi das oito da manhã às 17 horas. Meu marido me levou. Antes do meu marido me levar, a prova era no domingo, no sábado teve o aniversário de uma criança, aí eu fui lá, tal, mas foi coisa simples. Eu cheguei, deitei no sofá e estava assim: “Ai, eu não vou fazer essa prova, não. Eu não vou conseguir, imagine, quantos anos! Eu terminei a quarta série no ano de 60 e agora nós estamos no ano de 2002”. Fechei os olhos e cochilei. Quando eu abri eu falei assim: “Iris, quando que você pensou em fazer uma coisa e você desistiu? Por que você vai desistir agora?” Levantei rapidinho do sofá, era dez horas da noite, arrumei minhas coisas, chamei meu marido: “Olha, você vai me levar” “Ah não, você falou que não ia” “Não, eu vou”. E me levou. Bom, eu fiz a primeira prova, vi que não foi tão difícil, eu falei pra ele: “Vai embora, depois você vem me buscar”. E ele foi embora. E eu fiz. Eu sei que das 120 eu acertei 85 questões. E minha filha foi vendo: “Mãe, essa acertou”. Eu gritava. Eu estava rouca, rouca, de tanto que eu gritava a cada questão que eu tinha acertado. Depois eu pensei: “Bom, já que eu acertei, por que não fazer o colegial?” Aí fui na escola perto de casa, fiz a minha matrícula e fui fazer o primeiro colegial em seis meses, o segundo em seis, um ano e meio. Quando eu entrei na sala, que susto! Tanto jovem na sala, 18, 20, 25. E a Iris? A Iris estava no meio. Fiquei meio assim, acho que perto de mim a mais velha devia ter uns 40 anos. Mas aí eu falei: “Quem está aqui sou eu” e foi. Aí passei em primeiro lugar da sala, sem saber de nada passei e fui, terminei o colegial. Os rapazes, jovens, fizeram amizade porque eu gosto de lidar com jovem, com criança, tudo é na brincadeira, fazíamos palhaçadas. Teve uma colega minha que ele estava bagunçando lá no fundo, ela chegou, deu uma bronca e ele chegou assim na carteira dela, a minha aqui e a dela aqui: “Olha aqui, é a última vez que você chama a nossa atenção. Quem é você pra chamar a nossa atenção? A única pessoa que chama a atenção e nós vamos ouvir e abaixar a cabeça é a Iris, só” (risos). Porque eu entrava na deles, brincava. Teve o dia da bruxa, que eu me vesti de bruxa, pedi pra minha amiga fazer um caldeirão de sopa desse tamanho, servimos, era o caldeirão da bruxa, né? E todo mundo entrava na sala. Foi maravilhoso esse dia, o dia da bruxa. Eu sempre gostei de brincadeira.
P/1 – Isso foi o EJA?
R – Não, eu estava fazendo o colegial.
P/1 – Você estava no colegial no EJA? É uma classe de várias idades, não é?
R – Isso.
P/1 – No noturno?
R – Noturno.
P/1 – E teve o ano inteiro, primeiro ano, segundo ano inteiro?
R – Não, meio ano cada um.
P/1 – Meio ano cada um.
R – Um ano e meio.
P/1 – Um ano e meio de formação.
R – Só que antes disso, antes de eu fazer essa matrícula eu engravidei novamente. Só que eu estava com 44 anos. Eu falei: “Não, eu com 44 anos grávida?”, o meu filho estava com 11 anos, o Claudinei. Eu me sentia velha, sentia vergonha de sair na rua. Só que quando eu nasci a minha mãe tinha 45 anos e calhou igualzinho, quando meu último filho nasceu eu tinha 45 anos também. E minha mãe falava: “Graças a Deus que Deus me deu essa filha”. E hoje eu falo: “Graças a Deus que Deus me deu esse filho!”, porque é o que está ali do meu lado, do meu marido, que dá banho no meu marido todos os dias. Quando ele nasceu, quando eu cheguei da maternidade o Claudinei, com 12 anos, que era tudo Claudinei, Claudinei, chegava visita, se eu estivesse na cama ele deitava nos pés da cama de atravessado e ficava. E as pessoas não sabem trabalhar com criança: “Ah, você perdeu, você não é mais o caçula”, isso é um terror pras crianças, né? E ele sempre tristinho. Um dia eu cheguei e falei pra ele: “Filho, deita aqui perto da mãe. Você está observando a chegada do Lucas? A alegria de todo mundo?” “Sei mãe” “Você foi igualzinho, filho. Ou talvez mais porque você foi o homem que tinha chegado na nossa casa, tinha duas filhas”. E comecei a conversar com ele: “Filho, papai do céu dá o coração para uma mãe dividido por igual pra cada filho. O amor que eu tenho por Lucas, tenho pra Cláudia, pra Débora e pra você. Deus divide ali certinho, filho. Essa alegria toda que você está vendo, essa festa, foi igualzinho”. E graças a Deus ele foi melhorando, mas ele estava muito tristinho e ficou bem. Mas mesmo assim, ele teve muito, muito ciúmes do Lucas, até grande.
P/1 – Lucas agora está com?
R – Vinte e dois.
P/1 – Vinte e dois. E hoje todo mundo se dá bem.
R – Muito bem. Mas a parte de juventude, de criança do Lucas, ele teve muito ciúmes. Era brincadeira estúpida de machucar e eu percebia que não era só a brincadeira, né? Só que uns quatro anos atrás ele chegou em casa e falou: “Mãe, tudo o que eu passei com o Lucas, eu quero deixar tudo pra trás”. Ele falou chorando. “Eu não dei apoio pra ele, eu não fiz nada por ele, mãe. A partir de agora eu sou amigo do Lucas”. Mas assim, eu em oração. Às vezes eu tinha medo de sair de casa e deixar os dois sozinhos. Nunca se machucaram. E o Lucas provocava muito, provocava ele. Mas foi assim. E antes do Lucas nascer, eu trabalhando na igreja tinha uma Campanha da Fraternidade e eu ia nas casas fazer oração e o Claudinei me acompanhava. E tem uma frase na bíblia que fala assim, Jesus fala: “Quem acolhe ao menor a mim acolhe”, e justo nesse dia ele estava comigo. E ele queria um irmão, de todo jeito ele queria um irmão. Estava com seis anos na época. Ele falou assim pra mim: “Mãe, a senhora não faz as coisas que Jesus pede, né?” Eu falei: “Por que, filho?” “Mãe, você não falou lá na casa que a gente estava fazendo oração que Jesus falou que quem acolhe o menor a mim acolhe?”, eu falei: “É” “E por que você não adota um menino pra mim?”. Eu expliquei pra ele toda a situação. Aí tinha uma senhora grávida, viúva, quatro filhos e ia nascer o quinto. O pai morreu porque era bandido e a freira que eu trabalhava com ela me convidou pra visitar e estava já pra ganhar neném. E ela morava com uma irmã com três filhos. E conversando ela falou: “A minha preocupação é como que eu vou deixar essas crianças aqui, tal. Eu falei pra ela: “Se você quiser eu levo um até você voltar da maternidade”. Ela falou: “Se você fizer isso eu agradeço, mas eu prefiro o mais velho” “Por que?” “Porque é o mais danado. Ele não para, ele só vive na rua” “Tudo bem”. Nisso o menino passa, quando ele passou ela falou: “É esse daqui”, ele estava com uma faca na mão, correndo, pra fazer pipa. No outro dia ela ia levar, não levou, choveu. Eu fui lá no outro dia: “Então, choveu, eu não tinha roupa pra ele vestir, tal”. Eu falei: “Dá do jeito que está”. Ele tinha nove anos, o Claudinei tinha nove anos. Ele batia aqui no Claudinei. Pequenininho, magrinho, usando roupa de bebê, aquelas calças de bebês. “Quantos anos ele tem?” “Nove” “Nove? Está na escola?” “Não”. Levei pra casa. Bom, chegando lá, uma semana depois o neném nasceu e eu chamei ele, eu falei: “Paulo, a sua mãe já ganhou neném e a gente vai buscar ela na maternidade”, meu marido que buscou, “e você vai pra sua mãe”. Ele sentou assim, encostou na parede, pôs a mãozinha assim. “Paulo, sua mãe ganhou neném, ela está bem, por que você está triste?” “Tia, eu não quero ir pra casa da minha mãe, eu quero ficar aqui”. Aí conversei com meu marido, fui lá com ela, ele não queria nem visitar a mãe, levei ele. Conversei com ela: “Ah, tudo bem, pode ficar”. Como se fosse um cachorrinho, como se fosse um gato. Só que ele já tinha passado uns tempos com uma outra família. Aí ele ficou comigo, um amor de criança e o Claudinei começou a sentir ciúmes dele. Ele nunca teve carinho, o Paulo, nunca teve nada. Eu sentava no sofá, ele encostava aqui em mim. Se o Claudinei visse... aí foi passando esse problema, eu fui vendo que ele tinha mais os irmãos e eu falei que não é justo eu ficar com essa criança porque ele tem mãe, pela lei, né? Pela lei também não pode. Aí pus ele na escola, estudou até a terceira série. E ele falou: “Tia, eu prefiro ir pra casa mesmo, tia, porque o meu irmão já está fumando”. E esse negócio de droga, bebida, morte, ele sabia de tudo por causa do pai. A mãe podia estar o calor que fosse ia para o supermercado com ele que era o mais velho e o segundo filho e punha aqueles blusões, ela ia pegando as coisas e pondo dentro das jaquetas junto com ele, ele fez isso também. Hoje é uma pessoa excelente, tem família, tem um filhinho e eu considero como filho. E sempre quando ele vai na minha casa ele fala: “Ah tia, eu sou o que eu sou por causa de vocês dois, vocês foram meu pai e minha mãe” e agradece muito a gente. Depois com o nascimento do Lucas, ele brincava muito também com o Lucas, brincadeira de rolar, e o outro, Claudinei, já tinha ciúmes, Claudinei já não tinha jeito. Mas foi assim, uma vida tranquila e hoje o Claudinei e o Lucas se dão muito bem. Eu tenho quatro filhos, o Paulo demora mais a me visitar, mas a gente tem contato. Então assim, um precisa de uma coisa, o outro está ali próximo. Aí esse meu trabalho como voluntária, depois fiz essa prova, terminei o colegial e falei: “Ah”. Aí a diretora da escola falou: “Iris, por favor, faça uma faculdade”. Aí em julho eu terminava, quando foi em maio uma pessoa da Secretaria de Educação ligou pra mim e falou: “Iris, você sabe de alguma pessoa que mora aí perto da escola”, que tinha inaugurado uma escola, Paulo Freire, pertinho da minha casa, “que tem o colegial completo pra pegar uma sala de MOVA?”. Eu falei assim: “Olha, pode ser eu?” “Iris, mas você falou pra mim que não tem o colegial”. Eu falei: “Não tinha, vou terminar agora” “A sala é sua. Você só precisa trazer no mínimo uma lista de 15 alunos”. Só que eu já trabalhava com um grupo da terceira idade, eu fundei o grupo da terceira idade lá no Santa Emília. Como que eu fundei? Tinha no Vazame, tinha no Santa Eduarda. Santa Emília ficou no meio sem nada. Então eu ia em um e em outro porque eu gostava de ir pra fazer ginástica. Um dia teve uma reunião lá no Santa Eduarda e o prefeito, que na época era o Geraldo Cruz, estava presente nessa reunião. Esperei a reunião, chamei ele no canto e falei: “Geraldo, é o seguinte, Santa Emília está no meio e não tem o grupo, por quê?” “Não sei, nunca ninguém comentou nada”. Eu falei: “Eu não faço questão de andar, eu vou em um e vou no outro, pra mim tanto faz, mas a maioria dos idosos que estão lá sentados numa cadeira não faz esse sacrifício. E se tiver no Santa Emília eu tenho certeza. Ele falou: “Olha, arruma o local, é só você arrumar o local, aí você vai na prefeitura”. No dia seguinte eu fui e conversei com o padre. Tem um pátio grande, conversei com ele: “Não, tudo bem”. Aí fui na prefeitura e lá: “Você me traz uma lista de no mínimo 20 pessoas pra arrumar o professor. Só que professor não tem época, tá, e falta”. Rapidinho eu fiz a lista pra ginástica. Consegui 35 pessoas na lista, levei na prefeitura: “Olha, está aqui, mas daqui um mês mais ou menos”. Em três dias ligou na minha casa: “Já arrumei professor pra você”. E esse grupo está em pé até hoje, faz dez anos. Nesse grupo da terceira idade eu já peguei pessoas pro MOVA também. Comecei com 20 pessoas no MOVA. O MOVA pra mim foi um momento de alegria, de felicidade. Um aluno chegou pra mim e falou assim: “Professora, posso falar uma coisa?” “Pode” “Esse lápis que está aqui na minha mão é mais pesado do que a minha enxada, porque eu não conseguia nem segurar no lápis”. Então era assim, o que nós  estamos fazendo hoje também fiz trabalho, pegava assim e falava: “Você vai contar a sua história. Da onde você veio, tal, tal, tal”. Coisinha pequena. Eles iam falando e eu ia anotando.
P/1 – O que é o MOVA?
R – MOVA é um movimento de jovens e adultos, é de 15 anos pra cima, só que de 15 anos nunca tem. Eu tinha aluno de 70 anos, aluno mais velho do que eu. Só que eu trabalhava com eles em todo sentido. Primeira coisa: o que vocês estão fazendo aqui? Por que? Uma fala, o outro falava: “Ah, agradeço o prefeito”. Não agradeça ao prefeito, é um direito seu que você não teve na sua infância, na sua adolescência, você está cumprindo esse direito agora. E eu trabalho muito o valor de cada pessoa. “Ah, mas eu não sei fazer nada” “Você não sabe fazer?” “Não” “Mas você trabalha no quê?” “Ah, eu trabalhei na roça” “Ah, eu sou cozinheira, eu faço um bom prato” “Então você não sabe nada? Eu não sou uma boa cozinheira, eu não sei trabalhar na roça. E por que eu sou melhor do que você, porque eu sei fazer uma letra?”. Então eu trabalho muito assim, no começo, nesse estilo. E a amizade, o carinho, o respeito. Te tratam, que até hoje ele me encontra na rua e beija minha mão, senhorzinho de 70 e poucos anos. Essa história dele eu preciso te contar. Eu fiz uma brincadeira, um círculo, eu começo a contar uma história e tem uma palavra chave, vamos supor, trem. A história tem que ter a palavra trem. Quando fala a palavra trem todo mundo levanta. Depois de novo trem, todo mundo sentava. Aquele que sentava por último continua a história. É muito bacana, muito legal essa dinâmica. Coincidência o primeiro foi ele. Paraná, tímido, branquinho, tímido demais. Eu falei: “José, continua a história” “Não, professora, eu não sei” “Você sabe, basta você falar essa palavra. Você vai falar, todos aqui, nós somos iguais”. Bom, ele falou. Ele parecia um pimentão vermelhinho, vermelhinho, vermelhinho, eu pensei que ia dar um troço no homem e ia cair. Quando terminou ele falou assim: “Professora, eu nunca pensei na minha vida, na minha idade, que um dia eu ia falar coisas pra muita gente escutar, hoje eu falei”. Uma vez eu estava dando aula de Matemática, continha, aí quando eu vi ele arrumando o caderninho dele e guardando eu cheguei assim: “José, está com algum problema?” “Professora, eu vou embora” “Por que você vai embora? Não deu hora ainda” “Eu vou embora porque eu sou um burro” “Você é um burro, José?” “Sou, professora” “Ah, tá bom. José, fica de pé um pouquinho”. Ele levantou. “Vira as costas pra mim”, ele virou. “José, cadê o seu rabo? Nunca vi um burro sem rabo. Cadê sua orelha grande? Você é um ser humano, você é imagem e semelhança de Deus. Eu não sou nada mais do que você aqui”. Aí as lágrimas dele caíam. Arrumou as coisinhas dele, quando terminou a aula ele ficou por último, me abraçou e falou: “Professora, como você me valoriza desse jeito?” “Eu estou falando o que você é, não estou te valorizando, é o que você é, você é importante”. Isso foi em 2006, faz uns seis meses mais ou menos ele chegou em casa pra visitar meu marido. Ele é todo assim, pra falar ele é complicado. “Professora, eu vim aqui também pra ver se você pode fazer um favor pra mim” “O que foi?” “Professora, jogaram um tênis amarrado no outro e caiu no fio do poste que vai pra minha casa e não dá pra gente assistir televisão. Eu fui na Eletropaulo mas lá eles falaram que eu precisava levar foto da entrada da minha casa e do poste, mas uma carta feita a punho. Professora, eu só lembrei de você: quem vai fazer essa carta pra mim?” “Tá bom, José” “Mas professora, por favor, me desculpa. Eu estou tomando seu tempo, não precisa ser agora” “Nós vamos fazer agora”. Chamei ele lá na cozinha e fui escrevendo. Ai li pra ele. “Nossa professora está ótimo!”, eu falei: “Não. José, quando a gente faz qualquer coisa, uma carta, qualquer escrita, a gente tem que ler uma, duas, três vezes que vai aparecer erros, vai aparecer coisas a mais ou coisas a menos. Aqui ó, eu li pra você e já vi o que precisa”. E refiz. Ele levou a carta. Com uma semana ele passou na minha casa. “Professora, o homem falou quem fez essa carta e eu falei que era minha professora. Porque essa carta está perfeita, nossa, ele falou tanto dessa carta, professora! Professora, eu não sei como te agradecer. Professora, eu vou te pagar” “Eu não trabalho com isso” “Não professora, eu vou te pagar sim. Quanto você vai cobrar?”. Eu falei: “José, eu não trabalho pra fazer carta! Não é meu emprego, como eu vou te cobrar? Será que eu não posso te fazer um favor?” “Mas um agrado eu vou te dar” “Tá bom”. E foram passando os meses. Ele foi e eu não estava em casa, deixou lá. Sacolinha de supermercado toda cheia de durex. Falou pro meu neto e contou toda a história pro meu neto. Aí eu cheguei e o menino falou assim: “Vó, um ex-aluno da senhora chegou aqui e deixou isso daqui que é da senhora”. Eu falei: “Ah, já sei, é o José. Meu Deus. Sabe por que Samuel?” “Vó, não me conta! Ele me contou a história inteirinha, eu sei de tudo. Da carta, da televisão, do que o homem lá na Eletropaulo falou, sei de tudo”. Tá bom. E eu estou quebrando durex, quebra durex. O que tinha lá dentro? Duas lampadazinhas, aquela mais fraca. Então, aquilo não sei, não foi um presente, né? O que eu senti? Uma lâmpada, uma coisa tão comum, duas, uma usei, a outra eu guardei pra sempre. O que eu percebi, aquilo pra ele é que eu fui uma luz na vida dele. E assim foram outros e outros e outras coisas. Então amei trabalhar com o MOVA.
P/1 – Você continua no MOVA?
R – Então, aí depois, quando eu comecei a fazer a faculdade.
P/1 – E essa transição? Foi uma pressão, não sei o quê. A prefeitura “te pressionou”: “Você não tem graduação e tal, daí você fez todo esse corre e entrou na universidade. Você fez vestibular?
R – Não. Eu entrei na faculdade como eu te falei lá, um desafio. Eu gosto de desafiar aquilo que é impossível, porque seria impossível. E ao mesmo tempo, meu Deus, eu sonhei de quando era criança. Quando estava eu e minhas sobrinhas, tudo mais ou menos da mesma idade eu era a professora de brincadeira em casa, eu dava aula. Eu era a professora porque eu era a mais velha. Se eu estava com 13 anos a outra estava com 12, a outra com 10, outra com nove, tudo sobrinhas. E todo mundo ficava perguntando se eu sou professora, pergunta e eu tenho que falar que não, que não. Eu fiz a matrícula. E foi aí que eu tive que deixar do MOVA. Entrei na faculdade, com um mês a prefeitura já me chamou pra fazer estágio e foi onde eu fui contar história. Quando eu fui fazer estágio eu cheguei lá e a professora, no dia de formação de história na escola tinha uma projeto de formação de contador de história e eu fui, de xereta. E estavam lá as professoras todas nesse dia. E calhou que a diretora da escola que eu fui fazer estágio me reconheceu do dia da história. Ela falou: “Iris, eu já te conheço, você não é que estava na aula de contador de história?”, eu falei: “É” “E aí, o que você acha?” “Eu amo contar história” “Iris, eu não vou te botar aqui como estagiária, você vai ter uma sala pra você”. Me chamou lá. Só lixo, bagunça mesmo. Tiramos tudo. Tinha uma mesa de centro de madeira desse tamanho, feia, toda rabiscada, suja de tinta e fomos. Eu falei: “Eu posso fazer um trabalho nessa mesa?” “Pode”. O que eu fiz? Eu revesti ela inteirinha com filtro de café usado, filtro usado, é como se fosse uma madeira. Ficou linda, passei verniz, todo mundo que chegava: “Nossa, que mesa linda!”, ia pra reciclagem. E comecei a contar história. Nessa época era oito horas de estágio, quatro horas de manhã e quatro à tarde. Eu trabalhava, contava história quatro horas, quatro salas de manhã e quatro salas à tarde. Eu trabalhei com a escola inteirinha, da fase cinco até a quarta série. Então trabalhei com todos os alunos. Foi emocionante. As professoras chegavam pra mim e falavam: “Iris, eu não sei o que acontece, eu conto história todo dia mas quando chega o seu dia eles ficam no relógio: ‘Professora, está na hora de descer’. E quando eles retornam, começam a contar história que você contou”. Abriu um sacolão perto da minha casa. Uns três meses atrás eu entrei no sacolão, estou lá, a moça me atendendo, ela falou assim: “Nossa, você não lembra de mim?”, eu falei: “Não” “Você não era contadora de história no Villa Lobos? Eu fui sua aluna”. Ela falou assim: “Eu só não lembro do seu nome, eu lembro de dois nomes, eu não sei se você chama Iris ou Isis” “Iris” “Olha, até hoje eu lembro das suas histórias”. O que eu fazia? Em casa eles tinham obrigação como tarefa de casa. Chegar em casa e chamar mamãe e papai e sentar: “Agora vocês vão escutar a história que eu ouvi hoje”, e eles escutavam. Outro dia uma mãe no pátio, era o menino mais terrível da fase cinco, e por coincidência a minha sala era do lado da sala dele. Ele fugia de lá pra vir pra minha sala. A mãe está carregando ele, aí a mãe me puxou:  “Ah, você que é a professora contadora de histórias?”, eu falei: “Sou” “Olha, meu filho me deixou tão emocionada”, eu falei: “Por quê?”. Ele pegou uma formiguinha na mão, olhou pra mim e falou assim: “Mãe, você tá vendo essa formiguinha?” “Sim, filho, por quê?” “Mãe, é um ser vivo!” “Ah é, filho?” “É” “Quem falou?” “A professora Iris falou que a formiguinha também é um ser vivo”. Então foram momentos de muita emoção pra mim, muita alegria. E quando foi renovar, que era dois anos, renovou meu contrato, a secretaria de educação foi descobrir que eu estava em sala de aula contando história, eu não podia porque eu não era formada. Aí foi um terror. A diretora fez o que pôde, correu, correu atrás. As crianças mudaram na sala de aula em tudo. O gosto pela leitura que eles não tinham. E a diretora falou: “A escola não vale mais nada. O que está fazendo bem eles tiram, eu não podia, por lei”. Aí eu fui trabalhar com uma deficiente e essa deficiente tinha nove anos, na terceira série, ela babava muito, corria na sala inteira. Eu consegui fazer ela parar de babar e ela copiava as coisas, fazia o nome dela, Amanda. Falava: “Amanda, agora você vai fazer sem olhar”. Ela não conseguia. Eu falei: “Então faz o meu nome sem olhar”, e o meu nome ela fazia sem olhar. Então eu passei muitos momentos de emoção, de alegria. Bom, depois terminei o estágio, aí veio um outro projeto pra trabalhar na creche. Tinha 30 vagas e 120 inscritos e eu consegui também, me aprovaram. Ainda estava cursando a faculdade, isso foi em 2011, eu terminei no final de 2011, em dezembro. Eu tenho problema sério de coluna, proibida pelo ortopedista de pegar peso, pegar balde d’água e tal. Quando me mandaram pra creche eu fui, Jardim Pinheirinho lá em Embu das Artes mesmo, chego lá e a diretora fala assim: “Eu estou precisando urgentemente de uma ADI mas é pra fase I”. Quando eu abri a porta da sala e entrei, 23 crianças, três andavam e 20 engatinhavam. Eu falei: “Meu Deus, é aqui que você me colocou, é aqui que eu vou ficar”. Bom, comecei a trabalhar. Periferia, crianças muito maltratadas, muito pobres, muito sujas. Aí tinha um menino, João Vitor. O João Vitor andava com uma mamadeira de suco, esse suco de saquinho, que a mãe trazia. Ele não comia comida de jeito nenhum e eu vendo. No terceiro dia eu falei: “Gente, por que o João Vitor não come?”, porque era em três, trabalhava eu e mais duas, as duas concursadas e eu com o projeto. “Ah Iris, nem adianta por comida, o João Vitor não come comida”. Eu falei: “Mas ele passa o dia com esse suco?” “É”. No terceiro dia eu peguei ele no colo, peguei o caldinho de feijão, fui. E ele. Eu fui sujando a boca dele, fui sujando e ele comeu. Comeu e comeu e comeu. As mamadeiras de suco foram descartadas. Aí as professoras: “Não entendo”. Então pela experiência que eu já trabalhei em muitas salas de aula como projeto eu vejo que professor está a desejar, não é aquilo. A Pedagogia que a gente faz é só no papel, que na realidade não é aquilo. E na sala de aula quando eu estava fazendo eu falava pra professora: “Isso aqui é uma farsa porque não acontece em sala de aula, não acontece”. Outro dia eu estava conversando com uma professora, que esse dia eu estava fazendo outro tipo de projeto e o menino tirou o chapeuzinho e batendo na carteira. Aquele barulhinho que vai te irritando, né? A professora chegou lá, foi perto dele, arrancou dele e falou assim: “Se quiser bater esse teu chapéu vai ter na cabeça da sua mãe!” Aquilo pra mim, isso não é professora. Quer dizer, aquela carteira tinha mais valor do que a mãe dele, eu já penso assim. Eu engoli aquilo. Então, eu gostaria de dar aula. Depois teve o concurso na prefeitura pra ADI, ADI é que trabalha só com creche e pra professora. Eu prestei pros dois, passei pros dois, só que eu fiquei na peneira, não me chamaram. Bom, nisso daí, quando eu terminei com as crianças, que era um projeto de um ano só, em março era para eu ir na prefeitura pra ver se eu conseguia um outro projeto, porque eu nunca fiquei sem trabalhar, meu foco é trabalhar, principalmente com criança, jovem, adolescente. Em março já estava para eu ir lá para ver o que eles iam me encaixar. Dia 28 de fevereiro de 2012, e eu ia em março de 2012, meu marido saiu cedo, amanheceu com uma mancha na barriga, eu falei: “Vai ao médico ver o que é isso”, estava um sol muito quente, foi o dia mais quente do ano, foi falado demais nesse dia. Ele ligou pra mim: “Olha, eu estou aqui, estou em observação”, eu liguei para o meu filho que estava de férias, o Claudinei, e falei: “Filho, vai até o hospital buscar o pai que o pai está em observação. O Claudinei ligou pra ele, ele falou assim: “Não, não vem me buscar não que eu vou de ônibus, já estou indo” “Pai, me espera” “Não, eu estou indo”, porque ele não gosta, tudo pra ele falava incomodando. Ele falou: “Eu já estou dentro do ônibus”. Meu filho falou: “Mãe, não tem jeito”. Nisso ele chegou. Eu preparei o almoço, ele almoçou, nós ficamos ali conversando na mesa e meu filho falou: “Estou indo”, ele falou: “Ah, eu vou também”. Não: “Pra onde você vai?” “Ah pai, eu vou assistir ao jogo do Brasil” “Ah, eu vou com você”. E ele nunca é de ir lá no meu filho sozinho, sempre comigo. Meu filho fez assim pra mim. Eu falei: “Leva, pra distrair”. E foram. Eu fui pro supermercado, que em casa a gente não fica sem fruta, principalmente laranja e banana era sagrado. Eu estava chegando no supermercado, eu liguei pra ele: “Bem, eu estou entrando no supermercado, eu tenho umas coisas pra comprar e não vai dar para eu levar tudo. Na volta você passa no mercado”, que perto da casa do meu filho também tinha outro supermercado, “você traz laranja e banana”. Ele falou assim: “Tá”. Foi a última voz que eu escutei do meu marido. Eu estou passando no caixa. E eu estava nessa época trabalhando em um outro trabalho que é um aparelho de massagem da Nissan Fisio, também ganhei um bom dinheiro essa época e eu tinha encontrado com uma pessoa no ônibus e comentei com ela. Ela falou assim: “Eu ligo pra senhora. Se o meu filho estiver em casa a senhora vai fazer a demonstração na minha casa”. O telefone tocou, eu pensei... estou conversando como se fosse a mulher. Eu falei: “Não estou te entendendo, você não é a pessoa que eu encontrei no ônibus, que você ficou de ligar?”, aí ela falou assim: “Dona Iris, eu sou sua nora, Maria” “Nossa Maria, o que foi?” “Dona Iris, seu Eliziário passou mal, o Claudinei levou ele pro hospital”. Aí eu cheguei em casa eram 16 horas, 48 minutos do dia 28 de fevereiro de 2012. Cheguei em casa, já peguei o ônibus e fui pro hospital. Cheguei lá meu marido estava totalmente parado, foi um AVC. Esse foi o quinto, né, já tinha tido quatro mas logo voltou ao normal. E meu marido totalmente parado e até hoje não fala, não anda (suspiro, emocionada). Como ela resolveu mudar pra lá, ela deu a casa pro Lucas morar, então o que acontece? Eu não vou ficar sozinha, Deus preparou tudo, ele vai continuar na casa que ela morava e meu filho está lá junto conosco até hoje, ele faz faculdade. E a menina é muito legal, eles vão se casar, gosto muito dela, bacana, uma menina simplesinha, delicada, muito boa e vão morar lá perto de nós. Porque quando a minha filha pensou de ir pra Curitiba ela achou assim: “Mãe, alugar a casa e com o aluguel metade eu deixo pra Juraci e metade pra mim, tal”. Eu ficava pensando: “Meu Deus, minha filha vai pra lá e eu aqui com um estranho no quintal” (emocionada).
P/1 – Deixa eu perguntar. Você sempre falou que teve vários sonhos e os sonhos foram sendo realizados, né? Casamento, faculdade, estudar. E hoje a senhora já está mais velha. E aí, quais são seus sonhos de agora? A filha voltar de Curitiba não vale, hein? (risos)
R – Não, mas ela está bem lá, eu estou feliz com ela lá.
P/1 – Tem alguma coisa que você fica sonhando?
R – Então, sonhos, se a gente for falar em sonhos são muitos, mas por exemplo, cada nascimento de um filho é um sonho, é uma alegria. Meu marido, quando eu chegava da maternidade eu nunca levantei à noite pra cuidar de um bebê, era ele, sempre carinhoso com os filhos. Quando os primeiros netos dormiam em casa nenhum me chamava, chamava era o avô, era o único que chamava de madrugada: “Pai, quero água!” “Pai, quero fazer xixi”. E os netos também foi a mesma coisa. Então cada nascimento de um foi um sonho, foi alegria, foi uma realidade. E além de tudo, a companhia, o carinho desse homem com esses filhos, muito carinho. E hoje ele recebe deles a mesma coisa, trocou, né? Quando ele vê eles lá é uma festa. Se está faltando um ele percebe e fica ãhãh, até eu já entendo: “Gente, tá faltando Fulano”. Aí: “Bem, é isso que você está falando?”, aí explica por que aquele não está. Então tem momentos de muita alegria, aniversário, ele canta parabéns do jeito dele mas ele canta. A gente percebe que é o parabéns que está saindo. E o meu sonho, quatro filhos foram sonhos maravilhosos. A minha primeira eucaristia foi um sonho maravilhoso. A faculdade além do sonho foi um desafio mostrar, na minha idade, a minha faculdade eu era a mais velha. No colegial eu era a mais velha da sala. E meu sonho agora seria, meu marido precisa de um local pra colocar aquela barra pro fisio trabalhar com ele. Para eu fazer essa barra eu tenho que fazer um pedaço do piso, do quintal, fazer uma coberturinha e colocar aquela barra pra ele segurar com uma mão e o fisio trabalhar com ele. Acho que no momento o sonho é esse. Mas eu sou feliz, uma família maravilhosa. Se um irmão está com uma encrenquinha, às vezes tem encrenca sabe como: “É porque eu cuidei mais do pai”, coisa de bobeira, eu falo: “Olha o que o seu irmão faz de bom, não olha o que ele faz de ruim”. Que o ser humano tem esse defeito: olhar o defeito das pessoas e não ver o positivo da pessoa, então eu comento isso. “Você está fazendo a sua parte? A sua parte você acha que está boa? Continua”. Eu converso muito com eles. Às vezes eu vou falar alguma coisa de um e vem: “E Fulano?” “Eu estou falando com você, não estou falando do Fulano, eu estou falando agora com você, então fique na sua. Se eu precisar falar com ele eu vou falar com ele sozinho”. Então dá impressão que é uma atenção só dele. Não, eu não vou falar na frente dos outros, eu gosto de falar em particular com cada um. Que quando eu acho que tenho que falar eu falo, né? 
P/1 – Gostou de contar um pouco a sua história?
R – Muito. Muito.
P/1 – Você chegou aqui falando que tinha sido meio dolorido (risos), que saiu meio desnorteada, mas você gostou de revisitar, de registrar?
R – Gostei muito. E saber que assim, um exemplo, tem mães que às vezes não dão muito valor pros filhos, que o filho é isso. Eu acho assim, como mãe a gente entender que, igual no caso a nossa mão tem cinco dedos, nenhum é igual ao outro, né? E cada filho tem o seu lado bom, tem o seu lado negativo. Como eu não sou perfeita e ninguém é perfeito, né? Então eu procuro entender cada um, cada jeito dos meus filhos. E com meu marido eu faço tudo o que está ao meu alcance, não consigo trocar uma fralda dele com nojo, rindo com ele para ele perceber que eu estou fazendo numa boa, brincando. Às vezes de manhã por mais que você cuida, põe plástico embaixo, põe travessa, põe fralda, às vezes vaza, molha. E aí eu brinco: “Eita que chuva que deu nessa noite! Cadê as goteiras, você não arruma a goteira e choveu na cama”, ele dá risada. Então eu vivo em momento de agradecimento, agradeço muito, muito a Deus por todas as pessoas que me envolveram nesse problema dele, parentes, amigos, que estavam ali na minha volta, precisando de alguma coisa tinha alguém pra me socorrer. Hoje graças a Deus eu pego os remédios do governo. Fralda eu pego do governo. Tenho que comprar também porque a que vem é frágil, fraquinha, então pra dormir eu tenho que comprar. A dificuldade financeira continua, mas eu acho assim, a minha riqueza é a minha família. Então faltou dinheiro a gente dá um jeito, está devendo no banco não vem na minha porta cobrar, eu recebo uma cartinha e a gente vai indo. Então.
P/1 – Iris, em nome do Museu da Pessoa eu gostaria muito de agradecer, obrigado por ter dado a sua história, por ter compartilhado por dois dias a sua narrativa e espero que você tenha gostado, então, muito obrigado.
R – Muito, gostei muito, porque foi um momento diferente na minha vida. Espero que eu consiga terminar o meu livro, um dia eu fazer o meu livro, que eu gostaria. Que a gente sabe que não é fácil, não é barato.
P/1 – Aqui já tem algum registro, você vai poder depois ir vendo.
R – E completar.
P/1 – Obrigado.
R – Eu agradeço muito a vocês o carinho, a atenção, o seu jeito maravilhoso, que eu percebi em você um espírito humano, que é isso que a gente precisa ter, espírito humano. E quem tem espírito humano é um espírito divino, né? Se é divino já falou tudo, né?
P/1 – Obrigado, Iris.
R – Muito obrigada eu. 
FINAL DA ENTREVISTA

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