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História

Eu fui a morta num enterro encenado

História de: Maria Vênus de Andrade Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2014

Sinopse

Maria Vênus de Andrade da Cunha nasceu em 22 de outubro de 1971 no município de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Fortaleza-CE. Ainda criança, trabalhava no comércio informal vendendo refrescos e outros quitutes preparados pela família. Atuou como agente de desenvolvimento no Sesc e foi Secretária de Cultura do seu município natal. Sua narrativa lembra dos festejos populares como a folia de reis e as cavalgadas e mostra a importância da preservação da memória e das manifestações culturais do seu povo. Ela fala dos rituais funerários da sua comunidade e dos personagens que participavam, como as carpideiras - as pessoas que cuidavam do defunto. Assim, lembra que ajudou a encenar um enterro na mostra Sesc Cariri de Artes.

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História completa

Sou Maria Vênus de Andrade da Cunha. É o nome de batizado mesmo, o nome registrado, não é o nome artístico (risos). Nasci em 22 de outubro de 1971 no município de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Fortaleza-CE. O meu pai e a minha mãe se juntaram porque, naquela época, tinha a questão de se juntar - a minha mãe com 15 e o meu pai com 18 anos. Eles foram se preparando: “Vamos ter o primeiro filho’.  Cresci sob a influência dos avós paternos, de quem herdei o apreço pela cultura popular. Naquele tempo, os avós tinham um poder muito grande dentro das famílias. A palavra final era deles. E eu, sendo a primeira neta, o meu avô disse para os meus pais: “É a primeira e vai se chamar Vênus: se for homem será José Vênus, devido à nossa religião católica; se for mulher, Maria Vênus”. Isso ficou muito esquisito para eles: Vênus, um planeta. Mas, como meu avô escrevia muito seus poemas, os seus cordéis ligados aos astros, ele entendia muito bem o que era isso. Ele tinha um estudo, pequenininho, mas era um estudo. Quando ele disse que Vênus na mitologia grega era Afrodite, a deusa do amor, da formosura, da beleza, acabou convencendo o pai e a mãe que esse seria o meu nome. E, quando eu nasci, acabaram registrando Maria Vênus de Andrade Cunha. Tive essa oportunidade de conviver com dois pais e duas mães.

Minha mãe era uma benzedeira que cuidava de adultos e crianças, no aconselhamento e no uso de chás e ervas provenientes do local. Eu aprendi muito com o meu avô todas as histórias de assombração que tinha aqui nessa região. Ele era o verdadeiro contador de histórias. Como não se tinha energia, fazíamos aquela roda, a fogueira e sentávamos a partir de cinco e meia da tarde junto com o meu avô para ouvir as histórias. Toda a meninada da região ia para lá.

Brincávamos muito, tinha um rio que, quando eu me lembro, chego a me arrepiar. Era a água fria daquele rio que tínhamos perto de casa, mas o rio acabou, hoje não existe mais. Esse rio era próximo. Quando vinha uma enchente ele ia para perto do meu quintal, bem pertinho. Íamos comer as frutinhas do cipó desse rio. Procurávamos guabiraba, fazíamos os piqueniques. Eu organizava, porque era sempre a mais velha e influenciava mais: “Vamos fazer o piquenique hoje?”, e todo mundo: “Vamos”. Eu levava um pouquinho de arroz, um pouquinho de farinha, feijão e fazia um foguinho; perto da água, brincava, comia, tomava banho e íamos embora.

Eu era sempre aquela menina muito caseira, procurando trabalhar e ajudar a minha mãe. Depois, aconteceu o momento de decidir o que eu iria ser: “O que eu vou fazer da minha vida?” O meu avô dizia assim: “Minha filha, você pode ser Irmã Josefina, porque você é muito da missa, você gosta demais da missa”, e ele sempre me colocava com as irmãs Josefinas. Eu só inaugurava uma roupa dentro da igreja. E pensei: “Sabe de uma coisa? Acho que vou ser Irmã Josefina”. Essa história de ser Irmã Josefina passou. Comecei a desfilar no desfile de Sete de Setembro da escola, a fazer aqueles desfiles de miss na sala de aula. Pensei: “Sabe de uma coisa? Eu vou é ouvir mais músicas, vou dançar, vou me divertir.” Aprendi muito com o meu avô as músicas regionais. Eu sabia de tudo naquela época: recitava alguns cordéis, alguns versos, alguns poemas.

Na minha infância eu também brincava dentro do cemitério. Eu me lembro muito bem disso: quando eu trocava as cruzes de defunto, botava a cruz de um na outra, levava flor de defunto para casa. O dia mais feliz era o Dia de Finados, porque era o dia que passava mais gente na minha porta (risos). Porque era só o cemitério e a nossa casa. No Dia de Finados tinha uma famílias ricas que levavam aqueles ramalhetes, aquelas coisas linhas de roseira para dentro do cemitério -, eu dizia: “Olha mãe, hoje é Dia de Finados. Eu vou dar uma volta no cemitério mais tarde”. E a mãe: “Menina, o que vais fazer lá?”, “Eu vou dar uma voltinha”. Cinco e meia da tarde eu dava uma volta no cemitério, as flores, as coisas mais lindas. Eu trazia duas, três rosas e colocava numa latinha que ficava em cima da mesa com água. A minha mãe dizia que aquilo não estava dando certo, porque os mortos estavam vindo lá em casa, jogando areia e pedras em cima da casa. Dizia para eu não fazer aquilo, que na noite anterior ela já ouviu uma pessoa jogando uma mão cheia de areia, que ela tinha certeza que era do cemitério. Não sei se ela estava me fazendo medo, mas eu não via isso.

Certo dia, ela disse que estava deitada, já de madrugada quando começou a bater na porta lá fora. A casa era bem baixinha. Ela foi e levantou. Quando ela abriu a porta, não tinha ninguém. Voltou e, quando ela passou pela cozinha, viu a florzinha dentro d’água, que começou a balançar: “É a dona das rosas que a Vênus foi pegar no cemitério e que veio buscar”. Tudo isso ela imaginava e, de manhã, ela me contava: “Minha filha, pelo amor de Deus, vai deixar essas rosas que a mulher já vem buscar”. E eu voltava de novo. E nessa minha história eu vi muito enterro primitivo, que é aquele enterro que você leva o defunto numa rede para o cemitério. E esse enterro, hoje eu procurei reviver, quando eu fui para a Mostra no Sesc Cariri, levei as carpideiras que têm aqui na região do Marco e na região dos Cardeiros. As carpideiras cantavam excelência nos velórios.

Naquela época, como não existia a funerária, a carpideira tanto ajudava o sujeito a morrer, como ela vestia esse sujeito. Ela deixava ele todo bonitinho, arrumadinho, para leva-lo ao cemitério. Ainda faziam um cordãozinho que só ela sabia fazer, que era o cordão de São Francisco. E a família chamava: “Fulano vai morrer, chama a dona Maria Silvina, chama o seu Zé, que ele já está querendo se despedir”. E ela vinha, sentava ao lado da redinha dele, ou num cantinho, num tamborete, e começava a cantar as excelências encomendando esse corpo para outras pessoas, tanto as pessoas choravam como ela encomendava o corpo a Deus, a Nossa Senhora, a São José. Ela fazia toda aquela oração. Quando ela sentia que ele estava fazendo a viagem, falava: “Chamem a família, traguem a vela que ele vai fazer a viagem dele.” Ela sentia isso. Colocava a vela na mão, e às vezes ainda dava tempo da família chegar e pedir a benção para ela abençoar. E pronto: morreu. Era assim. Depois disso, ela ia cuidar das vestimentas, do cordãozinho de São Francisco. A família ficava apreciando aquele corpo a noite inteira. Tinha um café, uma bolacha e, às vezes, uma cachacinha para eles tomarem. Eles passavam a noite inteira e, no outro dia pela manhã, iam deixa-lo no cemitério. Naquela época, como não existia a funerária, a carpideira tanto ajudava o sujeito a morrer, como ela vestia esse sujeito. Ela deixava ele todo bonitinho, arrumadinho, para leva-lo ao cemitério. Ainda faziam um cordãozinho que só ela sabia fazer, que era o cordão de São Francisco. E a família chamava: “Fulano vai morrer, chama a dona Maria Silvina, chama o seu Zé, que ele já está querendo se despedir”. E ela vinha, sentava ao lado da redinha dele, ou num cantinho, num tamborete, e começava a cantar as excelências encomendando esse corpo para outras pessoas, tanto as pessoas choravam como ela encomendava o corpo a Deus, a Nossa Senhora, a São José. Ela fazia toda aquela oração. Quando ela sentia que ele estava fazendo a viagem, falava: “Chamem a família, traguem a vela que ele vai fazer a viagem dele.” Ela sentia isso. Colocava a vela na mão, e às vezes ainda dava tempo da família chegar e pedir a benção para ela abençoar. E pronto: morreu. Era assim. Depois disso, ela ia cuidar das vestimentas, do cordãozinho de São Francisco. A família ficava apreciando aquele corpo a noite inteira. Tinha um café, uma bolacha e, às vezes, uma cachacinha para eles tomarem. Eles passavam a noite inteira e, no outro dia pela manhã, iam deixa-lo no cemitério. Eu vi muito isso: elas passando com o defunto, levando ao cemitério.

Eu sempre vi muitos enterros primitivos. Quando eu fui para a Mostra Cariri eu convidei a dona Maria Silvina e todos eles. Ela está bem velhinha, mas foi. “Vamos fazer o enterro primitivo lá na mostra Sesc Cariri?”, ela topou. Só que ela disse: “Minha filha, quem é que vai na rede?”, porque nós estamos encenando, “Quem é que vai na rede, quem é que vai fazer o papel do morto?”, ninguém queria. Na hora eu coloquei o reisado todinho, eram 36 brincantes: “Quem é que vai fazer o morto na rede?”, e ninguém queria. Eu disse: “Eu vou. Tem que acontecer”. Deito na rede, me fecho aqui e vocês me levam. Elas orientou que os meus pés não podiam ir par o nascente, e sim a cabeça: “Tenham o cuidado, vocês vão levando ela, mas vocês vão levando”, todo o ritmo, toda a tradição estava voltando ali, mesmo sendo uma encenação, mas ela não permitia que não fosse do jeito que ela queria que fosse. Ela sabe mais do que todo mundo, e quem ia discutir? Quem ia duvidar? Fizemos e foi muito bonito.A festa do nosso padroeiro mudava a rotina do município de São Gonçalo do Amarante. Chegava o parquinho de diversões, que ficava no lugar em que o padre desejasse: “Coloque aqui perto da igreja”, ou então: “Fique mais afastado”. Teve uma época que o parque ficou dentro da lagoa, que estava seca. Teve uma época que o parque ficou depois do centro da cidade, lá atrás - não sei o que foi que aconteceu. Mas aqui ficava todo mundo bem próximo e, terminando a novena, todos iam para a praça e para o parque. A minha expectativa era, além de estar com o meu avô, tinha o hasteamento da bandeira do São Gonçalo. Eles soltavam os fogos, tinha o sorvete que o meu avô dava, tinha a história da espalha brasa, que era um brinquedo do parque. Então, quando terminava, ele tinha que me dar dinheiro para eu brincar no parque. Ainda criança, trabalhei no comércio informal vendendo refrescos e outros quitutes preparados pela família.

Desde que eu era criança eu via também a questão do bordado, do crochê, da renda. Nós ainda temos rendeiras em São Gonçalo do Amarante. Essas pessoas estão no anonimato, mas queremos tirá-las. Assim, São Gonçalo passar a ser referência no estado, no país. Quando eu estou buscando o Festival Internacional de Folclore para São Gonçalo do Amarante, é para dar essa oportunidade de outras pessoas virem apreciar e ver as nossas potencialidades, colocar no nosso jovem, fazer acontecer as oficinas de malabares, de circo. O circo está distante de nós, ao mesmo tempo que não, porque se quisermos puxar lá de Maracanaú para vir aqui dar um oficina e em Fortaleza, nós conseguiremos. Nós temos aqui dois grupos bastante organizados, que é o Grupo de Teatro da Taíba. Para realizar isso, a Prefeitura Municipal colocou a estrutura de iluminação, palco, som, tudo o que era necessário, até o banheiro químico, as tendas, em quatro espaços.

Quando eu entrei para ser secretária de cultura, eu disse: “Vou encher as praças, as bibliotecas e os bairros de arte e cultura.” Não dá mais para trabalhar só num local, e marcar um território: “a cultura só vai acontecer nessa praça”. Temos que levar para o Sertão. Tem muita coisa boa, e que está lá, muitas vezes, esquecido. Vamos fazer itinerância, colocar duas apresentações no sertão e outra para cá. Então, colocamos no Serrote a Paixão de Cristo, com todo esse cenário, com toda essa estrutura e produção, levando eles até lá. Convidamos e convocamos a comunidade através do Planejamento de Mídia, que sentou nas arquibancadas e assistiu ao espetáculo, lá no Serrote. Fizemos aqui na Sede, na Taíba, que foi o local que eles fizeram com uma emoção que você não imagina: gigantesca. E lá no Pecém e na Taíba. Quem estava na arquibancada eram as famílias da Taíba, os nativos. Eles diziam assim, quando entrava uma atriz: “Essa daí é a minha tia! Ei!”, e aquela emoção, todo mundo aplaudindo. Fizemos esse momento com o teatro. Agora, há todo tempo procuramos com o teatro fazer outros momentos, não somente pontuais, como esse, mas estamos tentando trazer para aqui os Doutores da Alegria, com o Teatro da Taíba, para que possamos ir aos hospitais, para as unidades de saúde com os meninos que são de Teatro de Rua e que são bons demais. Temos outro grupo que está em destaque, que é o Arte Fio, que são as mulheres do Curral Grande e que está aqui com essas plantas ornamentadas para a Copa do Mundo. Ele é um grupo de 70 mulheres, que estão trabalhando com a arte do crochê e estão ganhando dinheiro para colocar dentro da casinha delas o que elas não conseguiam. Hoje, a comunidade do Curral Grande tem uma outra cara. As mulheres têm um brilho no olhar. Elas se maqueiam, se perfumam e já estão mais felizes. Elas conseguem dizer: “Eu vou comprar um micro-ondas”, e vão comprar um micro-ondas, mas porque todos os dias elas estão fazendo os crochês e vendendo. Conseguimos fazer também um convênio com essas mulheres, que enfeitaram todas as praças do município. São 293 árvores, estão vestidas com a arte delas agora para a Copa. São essas associações que queremos.

Lá no Violete também tem outro grupo de teatro. Inclusive, juntamos o grupo do Violete com o grupo da Taíba e fizemos a Paixão de Cristo. Mesmo aceitando que o Grupo Violete quando ia fazer lá, só eles, mas quando foi para a itinerância, eles estavam juntos. Estamos agora num trabalho de organizar o show de música ao vivo aqui na praça, através da associação do movimento artístico reunido. Outra questão também importante sobre as Quadrilhas Juninas. Comecei a me reunir com todo o povo que está nas quadrilhas e encontrei cinco quadrilhas juninas, em São Gonçalo, sendo que duas são infantis e três adultas. Fui para dentro dos ensaios, para sentir as dificuldades dos coordenadores, ensaiei junto lá na Taíba, no Pecém - fui quatro vezes pae lá e daqui da Sede.

Sentimos uma necessidade urgente, emergencial, de fazer um convênio para dar um incentivo financeiro a essas quadrilhas. Mas a importância de tudo isso era integrar, porque tem algumas quadrilhas que criam uma rivalidade que elas levam para o resto da vida delas, jovens que começam a competir, numa competição acirrada. E eu comecei a pensar: “Como faremos para juntar todo mundo? Eu queria todos num cantinho só. Pensamos num Simpósio Junino de São Gonçalo, que aconteceu domingo. Consegui trazer todas as cinco, além da Federação União Junina, que deu uma palestra com o sentido de fortalezar os movimentos juninos: “Unam-se e fortaleçam. Tem mais pessoas que devem participar do movimento junino’. A palestra é mais na questão do incentivo mesmo. À noite, viemos para a praça e fizemos um quadrilhão.

Eu consegui fazer com que todo mundo dançasse junto. Eu acho que a proposta para o público é com muita gente na praça. Fiz uma queima de fogos, porque geralmente os fogos são mais utilizados para as autoridades, e naquele dia, os fogos eram pra eles. Foi grande a festa nessa praça. E todo mundo dançando junto. O emocionante é ver que conseguimos, que é possível fazer e quebrar paradigmas. Atuei como agente de desenvolvimento no Sesc e sou Secretária de Cultura do seu município natal.

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