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Eu fiz parte dessa história

História de: Itamar Gomes Vitor
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Itamar Gomes Vitor, nascido em 27 de janeiro de 1964 em Sobradinho, Distrito Federal, passou a infância na cidade natal e por volta dos 16 anos, depois de um acidente que impossibilitou que seu pai continuasse trabalhando nas fábricas, mudou-se com sua família para a zona rural em São Francisco de Goiás. Foi nessa ocasião que começou a trabalhar na roça, atividade que exerce até hoje. Foi em um assentamento na região de Formosa que conheceu sua esposa e teve seus três filhos. Em busca de um “pedacinho de chão”, fez parte de um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no qual ficou aproximadamente um ano e meio até conseguir a área onde atualmente vive do que produz.

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História completa

Nasci em 27 de janeiro de 1964 em Sobradinho mesmo, Distrito Federal. Meu pai é Saturnino Gomes Vitor e minha mãe Vitalina Maria Vitor. O meu pai foi sempre um homem muito lutador, batalhador, trabalhou aqui nessas fábricas no tempo que eu era criança, eu me lembro. Ele sofreu um acidente na Ciplan certa época, ficou impossibilitado de trabalhar, ele se viu obrigado a vender o barraquinho que nós tínhamos e então nós fomos morar na área rural, de onde ele tinha vindo. Eu tinha por volta de 16 anos de idade. Nós éramos em oito irmãos. Nós fomos morar no município de São Francisco de Goiás, a 64 quilômetros de Anápolis. De lá nós fomos morar na região de Formosa, no Vale do Paranã, num assentamento. Minha mãe sempre trabalhou em casa, ela nunca trabalhou fora e é uma mulher batalhadora também. Tenho orgulho de ser filho de um paraibano e de uma baiana porreta mesmo.

  Se não foge a memória, com 12 anos eu comecei a trabalhar, engraxar sapato pros outros, ganhar um dinheirinho. Já vendi jornal. Já fiz “N” coisas, e daí pra cá não parei, sempre trabalhando, sempre lutando. Quando eu vendia jornal, acho que vendia mais porque eu lia. Aí quando eu ia vender eu falava as notícias todinhas: “Está acontecendo isso, isso e isso”. Aí a pessoa perguntava. “Eu estou vendo aqui nos classificados tem isso, tem isso, tem isso”. A pessoa se interessava e comprava o jornal. Eu vou vender um produto e não sei o que eu estou vendendo? Eu tinha que saber o que eu estava vendendo. Frequentei a escola até a sétima série. Eu lembro que quando era criança eu via o meu avô plantando mandioca, aí eu plantei uma mandioquinha lá no quintal. Ela nasceu e eu ficava olhando aquilo e perguntava a meu pai direto: “Quando é que vai dar a raiz? Quando é que vai aparecer mandioca?”. Meu pai: “Calma, meu filho, calma”. Aí quando ela estava grande já, mas novinha ainda: “Ó, já tá grande, pai, já tem raiz”. Ele: “Tem não, calma, meu filho, você está muito apressado”.

  Eu fiquei na roça dos 16 aos 18 anos. É um trabalho tão pesado, mas é prazeroso. Onde você vê o seguinte: você está plantando, você vai ter que capinar, você vai ter que cuidar, você vai ter que colher, mas você sabe que no fim de tudo aquilo ali você vai ter sua recompensa. Você vai pegar o milho sem agrotóxico, sem químico, você vai quebrar ele, você vai assar, vai cozinhar, fazer sua pamonha, você vai fazer seu bolo, vai comer aquilo ali natural. Então você tem o milho, você tem o seu feijão, feijão novinho, feijão bom, que você mesmo bateu. O prazer de você comer aquilo que você mesmo produziu é bom demais, gente! O arrozinho, a gente fazia lá o arroz torrado... pega ele maduro, quase seco, mas ainda tem um leitezinho, você tira aquilo ali no cacho e torra com casca e tudo e depois soca, é um dos melhores arrozes que tem no mundo. Quero ver quem da cidade já comeu um arroz desses, muito bom! Depois nós mudamos para a região de Formosa, no Vale do Paranã. Tanto no município de São Francisco como no município de Formosa, o carro-chefe nosso era o arroz, eu me especializei em plantar arroz.

  Conheci minha esposa lá no Paranã. Casamos, eu tinha 24 anos, tivemos três filhos. Depois que a minha filha nasceu eu fui morar em Tabatinga, região de Planaltina, DF. Fui trabalhar como vaqueiro e tratorista também. Aí eu fui pra Nova Betânia, trabalhar como chacareiro. Lá foi onde surgiu a oportunidade de realizar um grande sonho, ter meu pedacinho de chão. Dispensei o meu trabalho, que eu não ganhava ruim na época e a gente foi pro acampamento dos trabalhadores rurais sem terra, nós ocupamos uma área só pra chamar a atenção do governo e ficamos um ano e cinco meses acampados. Nós ficamos à margem da BR-020, no caminho que vai pra Formosa. E de lá nós viemos pra cá, pra Contagem, para essa região. Depois que a gente conseguiu a terra minha esposa falou: “Chega, não quero isso”. Na época eu tinha um gadinho, eu vendi e comprei uma casinha pra ela aqui, ela mora aí até hoje, está bem, está feliz, meus filhos vieram com ela.

  Nós chegamos aqui em 92. Nós estávamos no acampamento e tinha um grupo de pessoas aqui, o finado Ademar, eles já estavam nessa área. Ele nos procurou, que nós estávamos na liderança: “Olha, nós temos uma área assim, assim e assado”. Nós viemos, olhamos, gostamos. Eu, quando vi a vegetação, falei: “Meu pai do céu, é tudo o que eu sonhei!”. Nós fomos ao Incra, mostramos a terra, o Incra veio, fez vistoria, nós viemos com eles. O Itamar Franco assinou o decreto, desapropriou e nos colocou. Quando nós chegamos tinha rede de energia porque era uma fazenda que tinha extração de areia. Aí depois que dividiram as glebas foi rapidinho também, chegou a energia. Água tem em Contagem, que margeia nas chácaras do lado de cá, e o Rio Maranhão, que é do outro lado. Água encanada nós conseguimos depois de muita luta com a Caesb. Nós fizemos uma barragem no Córrego Mentira, canalizamos, a Caesb fez o reservatório aí distribuiu água pra todo o assentamento. A barragem foi feita pela comunidade porque é de difícil acesso; não chega carro. A maioria do material foi trazida em lombo de animal. E pra descer, é meio acidentado, a gente descia com todo o sacrifício. A comunidade fez a barragem, cavou as valas, colocou a tubulação todinha até chegar no reservatório.

  No início teve uma dificuldade muito grande até a gente descobrir qual a aptidão da região, porque muitos vinham de criação de gado. Descobrimos que o que a gente devia inicialmente plantar, que era mais fácil e dava mais renda, era mandioca. Hoje o carro-chefe do assentamento é mandioca. Mas nós estamos também mudando, tem uns que estão mexendo com gado, outros que estão mexendo com fruticultura, ponkan, banana, maracujá, limão. E já está começando também uma piscicultura e apicultura. A maioria da produção é vendida na feira de Sobradinho. Eu estou tentando incentivar no assentamento uma produção orgânica, uma produção de agrofloresta que a pessoa não desmate, a pessoa preserve. Lá na nossa região nós temos ipê, angico, jatobá, que uma pessoa não dá conta de abraçar. Aí eu vou pegar e vou derrubar uma árvore dessas, centenária? Quando eu olho assim, tem que derrubar? Meu coração dói. Deixa aí, fica quietinha no seu canto. Muitos aderem outros não, mas nós temos incentivo, porque derrubar uma vegetação daquela...

  Eu considero o assentamento uma grande família. E como uma família não vou dizer pra vocês que não tem desavenças, que tem. Pra nós não faz diferença dizer “assentamento”. Nós fomos chamados até de Sem Terra: “Você vai lá pro Sem Terra?”. Eu falo: “Gente, nós temos terra até demais”. Os jovens, a maioria saiu do assentamento. Hoje estão voltando quase todos. Nós fomos trazendo alguns incentivos, lutando pra ver se voltavam. Hoje eles falam que o que estão ganhando lá dentro, não estavam ganhando aqui fora. Eles trabalham praticamente de segunda a segunda, porque de sexta-feira tem feira, sábado tem feira, domingo tem feira e no correr da semana é trabalhando pra poder produzir. Tem um tempinho de jogar bola, tem um tempinho de farra. Agora pergunta pra eles: “Vocês aí são infelizes?”. “Não.” “Vocês querem trabalhar na cidade?” “Não.”

  Eu não canso de contar essa trajetória e que a gente faz no correr da vida. É prazeroso mostrar pras pessoas que através da luta, que através de toda essa batalha que nós tivemos, ela é compensativa, ela traz um prazer no futuro. Pode ser muito ruim hoje arder ou sofrer, mas amanhã quando a gente olha pra trás a gente fala assim: “Gente, aquele dia eu tava pensando que tava sofrendo, não foi sofrimento, não! Foi bom demais, foi experiência”. O pessoal da Fercal é um pessoal unido, luta mesmo pelos interesses. Participa mesmo, sabendo: “Eu fiz parte dessa história”.

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