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História

"Eu fazia questão de conhecer a minha terra!"

História de: Joaquim Coelho Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/04/2019

Sinopse

Joaquim nasceu em Portugal e veio com a família para o Brasil quando tinha apenas um ano. Nessa história conta sobre sua infância, muito pobre, sobre a decisão de conhecer sua terra natal, já adulto, e  sobre a vida dos pais no Brasil, as tradições portuguesas que trouxeram com eles para o país e a vida nova no lugar desconhecido. 

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História completa

P - Qual o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Joaquim Coelho Gomes, nasci em Mozelos [Porto], Portugal, em 27 de março de 1953.

 

P – Por que você veio para o Brasil?

 

R – Me trouxeram (risos). É que eu vim pequenininho, eu vim com um ano, meus pais vieram. Nós viemos em cinco filhos, meu pai e minha mãe, com uma mão na frente e outra atrás, viemos de lá porque na ocasião, em 54, as coisas lá eram mais difíceis, e prometiam muita coisa aqui no Brasil para os imigrantes, tanto é que vieram os japoneses, os portugueses, os italianos, veio bastante imigrante. Só que a coisa não foi bem dessa maneira, tanto é que aqui encontramos dificuldades, pelo menos a história do meu pai é essa, que a dificuldade foi muito grande no começo, não tínhamos lugar para morar, o meu pai não tinha emprego ainda, foi difícil.

 

P – O que ele fazia em Portugal?

 

R – Trabalhava em fábrica de cortiça, que em Portugal tem muita cortiça, até hoje, é rolha... você sabe, essas rolhas para garrafa de vinho, ainda hoje existe, que eu fui há pouco tempo pra lá, ainda tem as árvores que eles tiram as cortiças.

 

P – Você não se lembra de Portugal?

 

R – Não, é só... o fato de eu ter voltado, conhecido as minhas origens, porque até então... Eu vim com um ano, não sabia de nada. Eu fazia questão de conhecer a minha terra, tanto que eu fui conhecer minha terra, a casa que eu nasci, tanto que lá tem familiares, eu tenho tios, tenho um monte de gente ainda lá. Tenho a minha madrinha que ainda é viva, eu a conheci pessoalmente, tiramos fotos, foi bonito.

 

P – Qual foi a primeira lembrança que guardou do Brasil?

 

R – Como eu vim com um ano, não tenho muita coisa pra lembrar, mas através dos meus irmãos e meus pais, havia muita dificuldade. Pra você ter uma idéia, nós já éramos moços, cinco irmãos, meu pai ganhava pouco, minha mãe costurava para ajudar o meu pai, e a gente dividia ovo cozido. Eram cinco irmãos, dividíamos ovo. Tem uma passagem que eu conto para os meus filhos e vou contar para os meus netos, a gente dividia um ovo frito, e como cortava no meio, uma parte ficava a mais, porque a gema ficava mais de um lado. E a briga era essa, porque um queria a parte que tinha mais gema pra molhar o pão. Então você vê a dificuldade que nós chegamos aqui. Hoje eu vejo o meu filho, hoje ele pede computador, tem TV de 29 polegadas, tem... sabe, hoje tem de tudo, mas na minha época não. Não era fácil, não.

 

P – Quando chegaram no Brasil vocês foram morar em que bairro?

 

R – No Alto da Lapa, e aí ficamos no mesmo bairro, não na mesma casa. Numa nós vivemos vinte anos, depois moramos em outra durante dez anos, depois eu casei, e agora estou no mesmo bairro ainda.

 

P – Seus pais trabalharam em quê quando chegaram no Brasil?

 

R – Então, meu pai, aqui no Brasil... Tinha uma fábrica de rolhas também, chamava Amorim, que é o mesmo Amorim de Portugal, uma espécie de uma filial, vamos dizer assim. E ele encontrou esse emprego aqui, no Alto da Lapa mesmo, onde agora tem a igreja ali, a igreja do Alto da Lapa, onde agora é a...negócio das indústrias, do Pão de Açúcar, lá, o Apas.

 

P – O fato de você ser português, o quê que ficou de tradição, de comida...

 

R – A tradição continua sendo... eu gosto muito de bacalhau, embora comendo a comida brasileira, mas eu adoro bacalhau, cozido português eu adoro, eu faço, ainda ontem eu fiz, eu faço caprichado, minha esposa comeu, fiz para a família toda. A gente se reúne de sexta-feira, é gostoso, fiz um belo de um cozido, um panelão, não sobrou nada, e ainda conservamos algumas palavras portuguesas. A gente consegue, através do meu pai, tem muitas palavras que em português... minha esposa é filha de italiana, ela consegue... porque a gente fala e ela escuta e acaba aprendendo. Tem muita palavra portuguesa que no Brasil ninguém conhece.

 

P – Quais são essas palavras?

 

R – Agora você me pegou, né? Por exemplo, no Brasil você vai fazer um arroz, você coloca o óleo, a cebola e o alho, você vai fazer o molho, você fala no Brasil, “fritar”. No nosso caso falamos que você vai “estrugir”, estrugir o alho e a cebola. E eu falo estrugir. Então tem palavras que a gente... meu pai fala muita coisa antiga, do interior mesmo. São bastante, mas de lembrança fica difícil.

 

P – Seu pai tem contato ainda com Portugal?

 

R – Ah, eles voltaram já lá. Pra você ter uma idéia, eles são muito unidos, quando o meu pai voltou lá, uma amiga, amiga só, quando meu pai desceu do avião, entrou na saída do aeroporto, uma amiga deles perdeu a voz de emoção. Eles são muito cordiais ainda, até hoje, tem muita amizade até hoje. E a amiga ficou quinze dias sem falar, quase meu pai veio de volta pro Brasil e ela não conseguiu falar com eles, de tanta emoção que foi, a coisa lá ainda é assim. Nós também fomos pra lá, fomos de excursão, e se você vai na casa de um parente, não vai almoçar ou jantar, ele se ofende. A única saída que eu encontrei pra que a gente não ficasse em cada casa, eu falei que estávamos em excursão, e a gente não poderia parar pra ficar dormindo de casa em casa, tinha que continuar na viagem. Porque senão, não iam deixar você... É uma ofensa você ir até lá e não comer, não jantar, ou não dormir na casa deles, até hoje ainda é assim.

 

P – Aqui no Brasil você casou, teve filhos?

 

R – Casei, casei com uma filha de italianos, também, tivemos um casal, tenho um neto, vai nascer outro... E estamos aí.

 

P – Joaquim, obrigado, tá?

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