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História

"Eu estou aqui a fazer o quê?"

História de: Manuel dos Santos Paiva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/04/2019

Sinopse

Manuel Santos Paiva fala sobre o trabalho de lavrador em Portugal. Conta o que motivou sua emigrição para o Brasil e o que fez para encontrar o primo em São Paulo, pois chegou um dia adiantado de viagem. Diz ainda como conheceu a esposa, Maria do Céu, com quem se casou por procuração, e as atividades que realizou na cidade, entre elas a de locutor de rádio.

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História completa

P – Por favor, me diga seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Manuel Santos Paiva, nasci em 19 de março de 1929, Gildinho, Freguesia de Real, Concelho de Castelo de Paiva, Portugal. Próximo ao Porto.

P – O senhor morou em Portugal até quantos anos?

R – Até cinquenta e nove anos.

P – Como era a sua vida em Portugal?

R – Era na lavoura. Plantando milho, colhendo milho, plantando feijão, colhendo feijão, comendo feijão, plantando videira, colhendo a uva, fazendo o vinho, plantando oliveira, colhendo azeitona, comendo azeitona, fazendo azeite, era a minha profissão. Cheguei aqui ao Brasil, a minha profissão foi ajudante de padeiro, trabalhando como padeiro, comprando padaria, vendendo padaria, comprando bar, vendendo bar, construindo casas, e agora ocupando casa minha, um filho ocupando minha casa, tenho inquilinos que dão um rendimentozinho, junto à minha aposentadoria...

P – Como foi a sua vinda para o Brasil, por que o senhor resolveu chegar no Brasil? Como foi a viagem?

R - Eu tinha aqui um primo meu, em poucos anos ele começou a ficar bem de vida, era proprietário de padaria, escrevia pra nós, pra Portugal: “Eu já tenho uma padaria”. Aí, meteu-me na cabeça: “Mas, o Manuel era pobre como eu, em São Paulo ou em Portugal, na enxada. Agora foi pra São Paulo é proprietário de padaria, eu estou aqui a fazer o quê?” Aí, eu falei com uma professora vizinha minha, contei-lhe o caso, e ela admitiu-me na escola. E eu aprendi a ler, tirei o diploma, esperei a carta de chamada para São Paulo do meu primo, ele mandou uma carta de chamada, eu vim no navio, no Corrientes, desembarquei em Santos, subi a serra e vim conhecer a família do meu primo.

P – Conta mais dessa viagem. Como foi sair da sua vila...

R – A viagem foi boa. No navio divertido, tinha baile, tinha garotas, tinha um bom divertimento.

P – Qual foi a sua primeira impressão ao chegar ao Brasil?

R – É que eu cheguei em Santos, e o navio saiu adiantado de Portugal um dia, e chegou ao Brasil adiantado um dia. Até o meu primo que devia me esperar em Santos, achava que eu ia chegar a oito de maio, e o navio chegou a sete de maio. O navio parou, os passageiros desceram, todo mundo procurando as suas famílias, ou bonitas ou feias, eu procurando o primo também, e esperando as horas para descer pra baixo. Aí, fiquei esperando o primo, que devia aparecer e não apareceu. Eu não tinha dinheiro, o brasileiro, e uns senhores em Santos me ensinaram. E fez aí o câmbio, troca escudos, era cruzeiro, cruzado, sei lá, e pega um bonde que passa aqui, vai no bar, na Rodoviária, onde tem ônibus, e te leva pra São Paulo. Aí fiquei com as malas na calçada, veio o escuro, não veio ninguém, e aí comecei a chorar. Estar no Brasil, numa noite escura, sem ninguém, sozinho. Aí peguei o ônibus, que me ensinaram, comecei a subir a serra de Santos, desembarquei aqui em São Paulo. E aí um senhor me ensinou a pegar um táxi, em São Paulo, que ia me levar para a minha família. Agora, para o táxi não começar a fazer voltas, para faturar, quando ele perguntar se é esta rua, você fala que é. E não era nada. Mas cheguei, e deu tudo certo até hoje.

P – E como foi quando o senhor encontrou o seu primo?

R – Ele estava na cama a dormir, dez horas da noite, padaria aberta, os sócios fizeram-me um lanche, e deram-me uma comida (?) gostosa, que eu gostei, comi um lanche de pernil brasileiro, gostei também, e foram-me levar ao quarto onde eu ia dormir. Uma cama ao pé de onde estava o meu primo. Ele solteiro, eu solteiro, e ficamos conversando, a vida de Portugal.

P – Que bairro era?

R – Era na Freguesia do Ó.

P – O senhor sempre morou na Freguesia?

R – Não, fiquei aí com o negócio, vendi o negócio, e depois comprei outra vez padaria no bairro do Tatuapé, ao pé da Praça Silvio Romero, fiquei lá, fiz amizade lá, e dali, ganhei o dinheiro e construí as casas.

P – E a sua mulher, quando o senhor a conheceu?

R – Bom, aí foi uma história difícil. Ela já contou.

P – Contou pouco.

R – Pouco, não. Foi tudo. (risos)

P - Eu queria saber a sua versão.

R – Ela tinha uma prima casada com um amigo meu, português. Eu ia lá visitar o meu amigo, no bar, estava lá um senhor de idade, a ajudar o genro, e começou a me perguntar se eu era casado ou solteiro, eu falei que eu não tinha casado porque ninguém gostava de mim, eu não tinha mulher nenhuma, eu não tinha moça, e ele disse: “Ah, mas eu tenho lá em Portugal uma sobrinha, ela sabe ler bem, fez o quarto ano, é costureira, filha única, ela era boa pra te ajudar no Brasil nas padarias, nos bares...” Eu fiquei pensando um pouco aí...  “Bom, o esquema não é mau.” Mas eu já tinha namorada aqui em São Paulo, como ia fazer, né? Uma confusão danada.

P – Quer dizer que o senhor já tinha uma namorada, e não falava.

R – É, era uma conversa qualquer. Aí ele escreveu à irmã, à minha sogra, que tinha aqui um rapaz conhecido de Portugal, que eu era bem de vida, tinha casas, tinha padaria, tinha bar, e animou a minha sogra, o sogro, a filha, animou o padre (risos), e casamos por procuração, mandei-lhe a procuração, as autoridades religiosas daqui e de lá admitiram o casamento...

P – Como foi esse encontro com a sua mulher? Como foi quando o senhor a viu?

R – (risos) Foi um encontro como outro qualquer. Como encontrar qualquer pessoa. É um prazer, tudo bem… Convidei aqui os meus amigos de Portugal em São Paulo, descemos a serra de Santos, aí encomendamos aí um almoço num restaurante, e a portuguesa chegando de Portugal, o brasileiro aqui e mais a família, a dela, a minha.

P – Hoje o senhor faz o quê?

R – Aposentado.

P – Ouvi uma história que o senhor trabalhava como locutor. É isso?

R – Eu tenho uma areazinha de terreno no seminário da Freguesia do Ó, o bispo ofereceu para cortar o mato, que estava assim o mato, grande, os vizinhos reclamando, então, eu tinha que cortar o mato ou arrumar quem cortasse. Mas ninguém tinha disposição. E, peguei, eu, a minha enxada e cortei o mato. Aí falei ao senhor bispo, que o mato estava cortado, só que precisava continuar com a picareta no arranjo do mato, e fazer plantação. Couve, videira, ter plantação na terra, não mato. Ele falou: “Meu irmão, você faça o que quiser, planta o que quiser.” Eu construí lá um quartinho pra guardar a ferramenta e a minha roupa de serviço, e as minhas galinhas que acabei por levar pra lá, fiz uns banheiros, e tudo bem, e tenho lá hoje uma vinha, à moda de Portugal. Parreiras ramadas, uvas penduradas, o passarinho brasileiro comendo as uvas, e os meus vizinhos, brincalhões comigo, falam: “Seu Manuel, o senhor é português. O passarinho é brasileiro, e tem direito a comer as uvas. Que o passarinho é brasileiro, e você é português. Veio aqui plantar a videira pra dar uvas pro passarinho.” (risos) É brincadeira do povo. Aí a rádio 9 de julho veio pra lá e por uma consideração do senhor bispo, consideração das minhas galinhas cantarem, das minhas uvas, e minha casa é lá, me convidaram logo pra eles gravarem, eu fiquei arrepiado, mas: “Gravar o quê?” Aí, eles, locutor, com papel... Eles entrevistando-me, e eu explicando o caso. E eles gravando, e música, um conjunto, né, caipira, sertaneja, viola, violão, e o galo de vez em quando cantando, gravando o galo, os cantando, os cachorros latindo....

P – E o senhor como locutor, o que o senhor fala?

R – Falo que...o Brasil é bom, os galos são bons, as galinhas botam ovo, e invento muitas coisas lá. Invento cachorros a latir, o trem passando, apitando, e eu reclamando que o trem tem a carruagem velha, chacoalha muito, e aí começa a vaca roncando muuu, muuu, e eu tocando as vacas e colocando as vacas no trem. Onde é que já se viu colocar as vacas no trem? Isso em Portugal é um comboio. O comboio pega as pessoas, mas não pega gado. Mas, acho que pega, né? Tem carruagem aqui no Brasil que pega o gado?

P – Deve ter.

R – Acho que tem.

P - Mas tinha o bonde, na Freguesia do Ó. Bonde não pegava gado?

R – Bonde, não. Bonde é pequeno, pega gente, não gado. Eu é que inventei a história. Então, eu, na rádio é catando vaca e colocando no trem. O trem apitando, então, o Brasil inteiro acha graça eu poder conseguir pôr gado no trem.

P – Isso acontecia em Portugal, do trem, da vaca... na sua infância? Tinha isso?

R – Tem, o comboio, não é trem, tem a vaca, tem o boi, a vaca pegar o boi e a vaca a colocar no comboio não é fácil. O comboio pega gente, mas não pega gado. Acho que pega, mesmo. A carruagem... Chega?

P – Chega. Então... Obrigado pela entrevista.

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