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História

''Eu entrei na White Martins de fraldas''

História de: Giovanni Santini Campos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2021

Sinopse

Giovanni começa falando de sua família e de sua infância. Em seguida ele relata o que o levou a escolher Engenharia e sobre a experiência de se mudar para Petrópolis. Ele relata sobre os anos de faculdade e sobre a republica em que morou. Conta sobre seu inicio na White Martins como estagiário e descreve sua experiência. Começa a relatar sobre a White Martins descrevendo a estrutura empresarial e de fábricas e conta do momento em que foi efetivado. Relata sobre a experiência internacional que teve com a empresa, quando foi para a China. Fala ou pouco mais sobre a empresa e descreve seus momentos de lazer. Aponta quais suas perspectivas para o futuro da White Martins, finaliza e agradece. 

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História completa

P/1 - Gostaria que você falasse o nome completo, local e data de Nascimento.

R - Giovanni Santini Campos. Nasci em 1973 em Valença interior do estado do Rio. 

P/1 – E o nome de seus pais?

R - Minha mãe é Jane Santini Campos e meu pai é Israel Campos. 

P/1 - E os seus avôs?

R - Avôs maternos, Mauricio Sá Santini e Deise Moreira Santini. Avôs paternos, Adélia Carvalho Campos... Não sei exatamente o nome do meu avô, tive muito pouco contato, eu acho que é Antonio Campos... Não sei. 

P/1 – Conta um pouquinho essa história dos Campos, dos Santini?

R - Por parte de pai não tenho muita ligação com a família. Meu pai saiu de casa muito cedo para estudar e por problemas familiares ele nunca foi muito ligado à família. Por parte de mãe é uma família de origem italiana. E a gente sempre foi muito de festas, um grupo sempre muito reunido. Por parte de mãe, por exemplo, cheguei a conhecer até a minha tetravó. 

P/1 – Conta um pouquinho a história dessa família, conheceu várias pessoas?

R - Minha mãe tem dez irmãos, são onze. Em algumas datas festivas, feriados, quando existe a oportunidade de conseguir reunir o grupo, praticamente, o grupo todo se reúne, fica aquela festa italiana com umas cinqüenta pessoas dentro das casas, muito legal.

 

P/1 – A sua infância então foi...

R– É. Eu fui criado em Valença durante toda a minha infância e como toda cidade do interior você tem um morro pra brincar, jogar bola, soltar pipa o dia inteiro. Uma pequena parte da minha infância passei em Caxambu, que também pode ser considerada uma cidade do interior, então, a rotina não muda muito. A grande mudança realmente veio quando eu saí para estudar, para a universidade.

P/1 – Então na sua infância, a sua primeira escola foi nessa...

R - Tudo em Valença, apesar de eu ter morado em alguns períodos curtos em Niterói, um ano, onde resido hoje. Mas, a grande infância mesmo foi em Valença.

P/1 – Você poderia contar um pouquinho como que era a sua casa, se tinha plantas, se tinha animais?

R - Minha mãe se mudou se não me engano, treze ou quatorze vezes na época em que eu era menor, na época da infância.  Ela dizia que não agüentava mais se mudar. Então, eu não tenho uma lembrança fixa de alguma residência, a gente sempre se mudou muito.

P/1 – E você estudou onde, Giovanni? Qual que era o nome da sua escola?

R - As duas escolas em que eu mais estudei... Uma foi um colégio público, o Theodorico Fonseca, depois com um pouco de dificuldade fui para uma escola particular. Fui para o Sagrado Coração de Jesus que era uma escola de freiras. Terminei meu segundo grau lá. Logo em seguida, passei para a Universidade e fui para Petrópolis e fiz Universidade em Petrópolis. E, logo depois eu iniciei na White Martins.

P/1 – Mas por que você foi para Petrópolis?

R - Em Valença, você tem várias universidades, mas não tinha uma universidade de engenharia. Lá é mais ligado para a área médica, odontologia, áreas de humanas. É uma cidade universitária, apesar de ser do interior, mas, não tinha o curso de engenharia. E Petrópolis por não ser uma cidade grande, eu ia morar sozinho, sair de casa, acho que não agredia tanto, eu cursar em Petrópolis. Aí decidimos ir para Petrópolis, Quer dizer eu ir para Petrópolis.

P/1 – Você tinha já vontade de fazer engenharia, tinha amigos que faziam engenharia?

R- Não. Na realidade eu tinha uma tendência por números e por essa tendência mais para parte de exatas eu entendi que a melhor opção seria engenharia, mas não tem nenhum cunho... Desde pequenininho, mais pela afinidade maior com números. 

P/1 – Na sua família não tinha ninguém engenheiro? 

R - Acho que sou o único engenheiro.

P/1 – E aí você foi para Petrópolis... Como é que foi?

R - Não foi uma coisa muito dramática, não. Na realidade, eu vim fazer o vestibular no Rio. Na verdade eu foquei mais o vestibular para Petrópolis e também para Niterói. Mas, no final da história Niterói era uma cidade grande. E, para quem sempre morou na roça e saiu de casa muito cedo, Petrópolis pareceu, para a família, uma melhor opção.

P/1 – E daí você foi morar sozinho?

R - Fui morar numa república, primeiramente não era nem república, primeiro era uma pensão. Até que eu pudesse equacionar essa questão de república. Mas, era aquele negócio dez, doze num quarto. Você vai dormir, três tem chulé, quatro roncam e você não dorme. Então, logo em seguida você começa a fazer amizades e fui morar em república de quatro ou três pessoas. Me lembro que morei numas quatro repúblicas.

P/1 – Quem te acompanhou?

R - Minha mãe, mas já numa segunda etapa. No finalzinho, tive um apartamento alugado mesmo, só pra mim, mas já no último ano praticamente.

P/1 – Para ver a pensão como foi? 

R - Isso aí eu tive toda a liberdade. 

P/1 – Quais foram os critérios de escolha?

R- Com 17 anos acho que eu não tinha muito critério, não. Até porque, em meio à família você sempre tem o limite da família. Uma vez que você passa a morar sozinho, em república, acho que os primeiros anos, talvez os dois primeiros anos, você vai começar a aprender a se dar o limite, porque até então você não precisa ter limites, as pessoas põem o seu limite. Acho que foi uma fase boa de aprendizado, de aprender a formatar os seus limites e acho que isso fez parte do processo, ter a opção.

P/1 - Você lembra alguma história pitoresca com os meninos da república? Eram sempre só meninos?

R – Sempre. A gente faz muita bagunça. Já saímos de pijama pela noite, coisas desse tipo, pegar os amigos que chegam do baile quando você está dormindo, te acordam pela madrugada adentro e de manhã você sai para estudar. Embrulhar eles num colchonete botar dentro do elevador e mandar descer. Coisas desse tipo eram aos montes. Era uma época de muita greve também, greve estudantil, por questões de altos custos da universidade, então, tínhamos vários períodos de passeatas, de vigílias dentro da universidade, quase uma semana dentro da universidade.

 P/1 – Qual era o propósito?

R - O propósito era, realmente, a gente ter menores custos. O ensino, de certa forma, era de qualidade, mas o propósito principal eram alguns aumentos porque a inflação, naquela época, flutuava de forma significativa, a gente tinha às vezes um descontrole muito grande nos custos. Então, toda vez que a gente se movimentou obteve sucesso com isso. Era bastante comum a gente fazer alguns movimentos desse tipo, invadir gabinete de reitor. Acho que hoje em dia não cabe mais esse tipo de coisa, mas, isso tem quinze ou dezessete anos, dezoito, talvez mais. Ainda eram atitudes saudáveis naquela época.

 

P/1 – Você fez Engenharia Mecânica?

R - Engenharia Mecânica. 

P/1 – Como é que foi essa sua vivência na faculdade? Com qual professor você se identificou mais?

R - É aquilo que eu te falei, os dois primeiros anos era só bagunça, até porque, o início da engenharia, é muito teórico, você não vê aplicação daquilo que você aprende. Então, aquilo, de certa forma, te frustra no início porque é uma continuidade dos seus estudos e nada de novo, nenhuma aplicação nova. E, saindo de casa e impondo seus limites, podendo fazer a sua liberdade você começa a se provar e não dá tanta atenção aos primeiros anos como deveria porque você também está fazendo outras descobertas e, realmente só lá pelo terceiro ano que cai a ficha. “Pronto, gente! Acabou já está legal, já tirei os atrasos de ter levado vários nãos ao longo da juventude, agora acabou, vamos lá porque daqui a pouco está formado”. E você começa a estudar com um enfoque mais profissional, com objetivos já de carreira.

P/1 – Então teve noites em claro par ir atrás do tempo perdido?

R - Nos primeiros anos não porque não tinha tido muita dificuldade. Eu estudava para tirar o que eu precisava e pronto. Nos últimos anos eu já não estudava mais com o intuito das provas, eu me dedicava àquilo que mais me interessava e a postura quando você coloca um enfoque profissional maior, muda. Porque, por exemplo, no quarto ou quinto ano eu já trabalhava na White com estágio, era uma estágio de oito horas, praticamente era um dia de trabalho, a universidade era à noite. Como eu trabalhava durante o dia, quando eu saía do trabalho às cinco horas  ia para universidade em Petrópolis. A White é no Rio, eu tinha que ir para Petrópolis, chegava umas 6h10 (18h10) mais ou menos e a minha aula já tinha começado às 5h20 (17h20) e ia até 10h40 da noite, todos os dias. Eu tinha que sair dali, fazer minhas lições de casa, acordar às 6h00 pegar o ônibus porque tinha que ir para o Rio. Definitivamente, eu não tinha mais tempo para o estudo, e daí você muda o seu enfoque, você passa a utilizar aquele momento como o seu último momento. Então, muitas das vezes eu, isso é engraçado, ia fazer prova e não sabia nem que prova ia fazer. Eu simplesmente chegava lá “hoje tem prova está bom” e o que é? Bom, isso não é importante para mim e ia fazer as provas.

P/1 - E mesmo assim você se dava bem?

R - Durante todo o curso eu me lembro de ter perdido uma única matéria. 

P/1 - E você fez estágio na White só?

R - Na verdade eu entrei na White porque eu me interessava por equipamentos médicos. Equipamentos médicos – White Martins. Foi essa a relação que eu fiz. Mas na verdade, quando eu fui para a White, não tinha nada a ver com equipamentos médicos e me agradou. Fiz todo aquele processo de seleção.

P/1 – Você conhecia a White Martins?

R - Conhecia de nome porque eu tinha o interesse de estagiar, já tinha que começar a estagiar. De nome eu conhecia, por esse objetivo inicial, trabalhar num projeto de equipamentos médicos. Fui à White fiz algumas entrevistas, me inscrevi no processo seletivo e fui selecionado para trabalhar no departamento de engenharia e aquilo foi desafiando, e quanto mais desafiava mais eu sentia a motivação para continuar.

P/1 – Você lembra o seu primeiro dia de trabalho, de estágio?

R - Não lembro não, não sei por que isso não me marcou, não.

P/1 - Como o pessoal te recebeu?

R - A turma da White, eles são muito festeiros, muito solícitos, tanto é que eu nunca tive dificuldade de me ambientar de me integrar em nenhum momento. Tanto é que nem me lembro dos primeiros dias que podem causar algum impacto maior.

P/1 - No inicio você tinha algum problema que você tinha que resolver? Quais foram as metas estabelecidas a você como estagiário, você lembra?

R - No início, eu trabalhava com os equipamentos de produção de nitrogênio e oxigênio a partir do gás. Nenhum projeto criogênico. Eram pequenas unidades de produção local. Algumas unidades instaladas em hospitais, por exemplo, com produção de oxigênio no próprio hospital. Esses foram os primeiros equipamentos que eu trabalhei. A White tem uma característica que eu acho muito boa. Você como estagiário, de acordo com o seu rendimento, com sua performance, lhe são delegadas atividades de engenheiro. As pessoas querem desenvolver, querem crescer. A White dá essa oportunidade. 

Pausa ...

P/1 - É a primeira vez que você dá entrevista assim?

R - Falando do aspecto de desenvolvimento como pessoal sim, da parte profissional não. Já dei outras entrevistas para meios de comunicação. Mas, você estar na sua área técnica é muito fácil, mas quando você tem botar um pouco o cunho pessoal, aí não é hábito. Mas, vamos lá, vamos chegar lá.

Pausa 

R- Tá difícil. 

P/1 – Então, nesse primeiro ano de estágio, qual foi a tarefa que a empresa te deu, ela já estabeleceu uma meta, como foi a ambientação?

R - A White sempre vai dar o desafio, para aquele que aceitar o desafio vai sempre trilhando e as oportunidades e as responsabilidades vão sempre aumentando. E uma coisa que marcou bastante no final do primeiro para o segundo ano de estágio foi um projeto de equipamentos de produção de gás de pequeno porte chamado de membrana, no caso de nitrogênio, e PSA no caso de oxigênio, algumas para produção de oxigênio hospitalar. Mesmo como estagiário eu já estava completamente integrado ao grupo e a gente fazia tanto a parte de projetos como acompanhava a fabricação de equipamentos e fazia também a parte de teste e performance destes equipamentos para poder, então, embarcar para os clientes. Numa ocasião, um desses equipamentos não saiu porque atrasou um pouco a montagem e eu precisava botar o equipamento para funcionar e fazer todos os ajustes no equipamento antes dele embarcar. Isso aconteceu num sábado e porque eu tinha uns compromissos na faculdade acabei não fazendo essa atividade no sábado. Precisava daquele sábado para estudar e na segunda-feira o equipamento não saiu. Não saiu porque o estagiário não veio no sábado e ai entrei na empresa foi aquela gritaria: “olha, o gerente da fábrica quer falar com você porque o equipamento não saiu, vai dar problema aí”. Fiquei muito descontente com esse tipo de coisa e já entrei na sala dele com o pé na porta e antes que ele falasse qualquer coisa, porque eu sabia que ele ia me cobrar o equipamento que não tinha saído, eu já falei logo: “olha aqui, antes que você me diga qualquer coisa, se uma empresa do porte da White Martins depende de um estagiário para embarcar um equipamento de não sei quantos mil dólares essa empresa esta fadada ao fracasso”. Ele disse: “não, essa empresa que depende de um estagiário já com esse nível de responsabilidade está fadada ao sucesso”. Acho que isso marcou a passagem entre o estagiário e o profissional. Achei isso muito legal e hoje pratico a mesma filosofia, eu aposto nos estagiários, nos engenheiros mais novos com o mesmo enfoque.

P/1 – Fale mais um pouquinho sobre sua relação com os estagiários?

R - Por mais que a gente brinque... Na unidade é engraçado, nos temos dez cachorros que fazem a segurança do parque e o número de estagiários também é dez, então, a gente fala que estagiário é igual cachorro: é tudo dez. Mas, acho que é a melhor ferramenta, hoje, de formação profissional.

P/1 – Como é que você foi parar na FEC?

R - Eu sempre fui da FEC, entrei estagiando na FEC. Passei por diversos departamentos da fábrica, mas, sempre estive na fábrica. Eu fui para fábrica em 1994. Formei-me em 1996 e estou na fábrica até hoje. 

P/1 – Conta um pouquinho da história daquelas fotos que você me mostrou  Giovanni?

R - Então, entrei na fábrica em 94, fiquei dois anos como estagiário, fiquei como engenheiro de produto, trabalhei dois anos como engenheiro de produto, e um dos primeiros os projetos em que participei foram os projetos das torres de destilação, é o que a gente chama de cold box, para a Usiminas. Era uma planta de 1.500 toneladas de produção. Foi uma experiência boa porque eu participei do projeto, e terminada aquela parte do projeto, fui pro chão de fábrica como engenheiro de produção.  Eu montei aquilo, participei do projeto e terminando de montar esse projeto de chão de fábrica, fui para o campo para instalar esse projeto. Então, é um projeto que tem, praticamente, a duração de dois anos. Em termos de instalação, se hoje você falar dois anos para instalação de projeto está fora, mas, naquela época levava-se dois anos entre a fase de fabricação e  montagem e mais um ano na fase de projeto. Ou seja, os três primeiros anos trabalhando como engenheiro, efetivamente, eu pude fazer todo o ciclo ponta-a-ponta. Desde a fase do projeto até sair do campo com a planta funcionando. E isso me deu a possibilidade de percorrer todas as etapas do empreendimento. Isso foi uma chance de ouro, excepcional.

P/1 – Estou curiosa de saber quais eram os profissionais do chão de fábrica? Que trabalho eles faziam e quais eram e como você vindo da academia se comunicava com eles?

R - Na fase de projeto, para um projeto desse porte, uma planta de 1.500 toneladas para você ter a dimensão a coisa, são umas oito a nove peças que você tem que depois juntar no campo. Cada peça, cada parte desse equipamento tem 30 metros de comprimento, uns 4 metros, 5 metros de diâmetro e 80 a 130 toneladas. Cada uma delas.  E você vai, então, juntando todos esses equipamentos, esses pacotes como a gente chama. Dois desses pacotes são torres de 60 metros, de 80 metros de altura. Você constrói ela inteira na fábrica, separa esses pedaços, depois interliga todos esses pacotes, vamos falar assim. É uma atividade que envolve um número de horas considerável. Talvez, na parte do projeto tenha consumido ai cerca de três mil horas de trabalho. Na montagem, no chão de fábrica talvez umas 50.000 horas. E no campo, talvez, próximo de 30.000 horas de trabalho. Isso quer dizer que você está conduzindo uma equipe no chão de fábrica especificamente de caldeireiros, soldadores, montadores de tubulação, vou tentar usar uma linguagem menos técnica aqui para melhorar o entendimento, soldadores de tubulação de vasos de pressão e etc., da ordem de umas sessenta pessoas.

P/1 – Você sentiu dificuldade de se comunicar com eles?

R- A dificuldade dentro da fábrica, talvez não tenha sido grande não. Tive outras dificuldades de comunicação maiores, mas, não nessa etapa. Porque a gente se conhecia. Como eu vinha da parte de projeto, de certa forma, você é reconhecido.  Então, você tem certa credibilidade naquilo que fala junto aos operacionais, eles tinham esse conhecimento de que eu vinha da parte de projeto. Não tive muita dificuldade, não. E, por outro lado, eu trabalhava com uma equipe extremamente competente e experiente, de profissionais.  A dificuldade maior foi toda aquela novidade aquele aprendizado e essas fases todas que não estavam definitivamente no meu planejamento. Quando entrei na companhia jamais podia imaginar que esse ia ser o início profissional.

P/1- Você disse que hoje é inadmissível fazer em dois anos uma planta, por quê?

R - Não, de jeito nenhum. Hoje em dia você tem técnicas de projetos muito mais apuradas. Logo que eu entrei na White Martins a gente praticamente não tinha computadores, e-mail não existia, eram formulários de comunicação interna chamada C.I. Você escrevia um bilhetinho, ia um boy pegava o bilhetinho do departamento e levava no outro.

P/

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P/1 - Você sabe contar um pouquinho da história desta fábrica de equipamentos criogênicos?

R - A fábrica existe desde 1972, fui pra fábrica em 1994, a fábrica já teve vários altos e baixos devido à demanda de mercado. Graças a Deus, nos últimos dez anos, o país vem numa constante em termos de demanda de trabalho na área industrial. E há praticamente, uns dez anos a gente não tem a dificuldade de equacionar a questão do trabalho. Mas, eu passei uns períodos bastante complicados. Depois desse projeto, por exemplo, dessa planta de 1.500 toneladas, por exemplo, que foi para  a Usiminas de Ipatinga - morei, praticamente, oito meses lá para montar essa planta - depois dessa fase a gente teve um declínio forte na indústria do país, e a gente talvez tenha desmobilizado cerca de 40% dos funcionários da fábrica. Eu saí por um ano da área de projeto e fui trabalhar na área de manutenção da fábrica, para reaparelhar alguma coisa da fábrica. Comecei a fazer projetos de cabine de jateamento, projeto de sistemas de limpeza química, porque a gente não tinha projeto e depois com uns dois anos a coisa retomou novamente. Voltei para a área de projeto e a produção industrial do país se reafirmou novamente já no ano 2000. Às vezes tem um percalço ou outro da indústria da economia, mas, de certa forma, para o nosso mercado o nível é bastante fácil de se lidar em termos de se manter uma fábrica.

P/1 – Projeto de segurança já tinha?

R - A parte de segurança na empresa é independente da carga de trabalho. Independente da demanda de mercado. Ela é sempre muito forte. O primeiro drive da empresa, o primeiro item da cartilha da empresa é segurança. E como a pessoa é condicionada por isso.  Quando você começa a tratar os aspectos da segurança da forma como ela deve ser tratada, você raciocina em termos de segurança, raciocínio lógico e tudo, nas coisas mais simples que você possa fazer você usa essa metodologia de raciocinar com a segurança em primeiro. Hoje, tudo que faço eu forço a minha família também na mesma linha de raciocínio, às vezes,acho que sou até chato nisso. Mas, qualquer atitude que eu faça eu penso em três, quatro, ou cinco possibilidades que podem ocorrer depois dessa atitude. Nunca simplesmente faço. Sempre faço algo já pensando nas conseqüências, pelo menos nas cinco conseqüências que aquilo pode acarretar e essa filosofia de raciocínio, esse exercício de raciocinar dessa maneira é uma coisa que a companhia... Sem você perceber, cresce em você. Todo passo vai haver pelo menos cinco conseqüências que você vai ter que ponderar. Seja lá o que for desde uma simples atividade de lazer até atividades profissionais. Acho que isso está enraizado na empresa.  A gente sente que as pessoas que se integram à empresa levam um choque cultural. Levam pelo menos um ano para absorver essa linha de raciocínio, mas eu iria que você aprende e a partir daí você pratica isso sem saber que está praticando.

P/1 – Onde fica a fábrica de ... Só tem uma?

R - Hoje, a White Martins é a única fábrica da empresa, da holding da Praxair vamos estender até isso para o  mundo. Hoje, é a única fábrica da companhia no mundo, mas, temos uma joint venture com outra fábrica na China. A equipe da FEC ajudou no desenvolvimento e na criação dessa fábrica na China. Nós levamos para lá toda a metodologia do equipamento, como construir o equipamento, a metodologia de controle, aspectos de segurança, a qualidade, confiabilidade e etc. Nós tivemos diversas pessoas da fábrica viajando para China, morando na China durante um período para poder fazer crescer essa fábrica na China nos moldes dessa que nós temos aqui no Brasil. Hoje, temos esses dois centros de produção no mundo, uma na China e uma aqui no Brasil. Essa fábrica do Brasil atende todo o Brasil e America do Sul, algumas vezes México e Estados Unidos. A fábrica da China atende todo o mercado asiático e algumas vezes o mercado europeu. A gente também, algumas vezes atende o mercado europeu, mas é mais comum... É mais comum que os equipamentos sejam produzidos na China. Essa fábrica faz, além do principal – correspondente ao  know how  da empresa  que são as plantas da produção de líquido criogênico onde se  destila e separa os gases  - também projeta os   equipamentos de apoio que são as carretas de transporte de líquido criogênico, os vasos estacionários que a gente vê aí na frente dos hospitais, essas  pequenas unidades de produção de gás on site local para a produção de nitrogênio, oxigênio tanto hospitalar quanto para indústria. Então todos os equipamentos da empresa são todos produzidos nessa fábrica. A fábrica da China tem uma particularidade, se detém somente na fabricação das plantas de separação de ar e a nossa fábrica aqui, que além das plantas de separação de ar, projetamos e fabricamos todas as carretas tanques e os demais equipamentos da empresa. Essa fábrica não se destina a venda ao mercado pode até acontecer se a área de negócio entender que isso é interessante para companhia, mas o intuito principal é a produção de equipamentos para suportar os negócios da própria empresa.

 P/1 – Você foi pra China?

R - Fui pra China desde criancinha, eu entrei na White Martins de fraldas e acho que enquanto eu ainda usava chupeta eu já ia à China. A gente como  tem essa  atividade global eu conheço muitos países e vou à China com bastante freqüência, até porque a gente apesar de não ser uma fábrica da White Martins, em termos de negócios nossos, é como se fosse porque a gente compartilha as experiências e as novidades entre as unidades em ambas as fábricas. A gente faz o fluxo de informação acontecer entre as duas fábricas e constantemente estamos nos atualizando e conversando para transitar as novidades e novas tecnologias de uma fábrica para outra. Mas, o início da instalação na China foi bastante complicado, primeiro porque é um choque cultural muito grande. A primeira vez que fui à China foi em 1999, 2000. Eu devia ter uns 26, 27 anos por aí. Até porque a China de dez anos atrás não é a China de hoje. Para quem esteve na China há dez anos e vê a China hoje é outro país, é primeiro mundo. Pelo menos nos grandes centros tem uma infra-estrutura que chega a ser maior do que a nossa, a gente pode comparar com São Paulo e Rio. Xangai é para onde a gente mais vai. Eu diria que tem uma infra-estrutura maior que a de São Paulo. Mas, há dez anos atrás isso era muito complicado. A alimentação era muito complicada e o aspecto da cultura em si era muito complicado, porque o oriental olha para um jovem de 28 anos e fala “esse cara vai vir aqui e é ele que vai dizer o que eu vou fazer. É o cara que vai me dar as diretrizes?”. Isso está completamente fora dos padrões asiáticos, onde a questão hierárquica é muito grande, muito forte. A questão do mais velho que ensina o mais novo isso é muito enraizado lá. Hoje em dia, acho que já miscigenou bastante, a questão da internet, da comunicação faz as coisas se nivelarem bastante, mas, antigamente era extremamente complicado. Eu tive um problema desse nível de ser muito novinho, estar lá dando diretrizes, mas, eu também diria o seguinte, que muitas vezes você tem que deixar a pessoa fazer daquela forma ela vai ver que está errada e tem que aprender com o próprio erro. E, ai você fala: “então vamos tentar fazer assim”, e ai a pessoa vê que o trabalho acontece pelo seu resultado, pela sua ação. As coisas vão se facilitando você vai ganhando credibilidade. A dificuldade é que cada vez que você vai encontrando uma equipe de trabalho nova, um gestor novo, uma liderança nova, você tem que começar a remar tudo de novo pela atitude. Isso aconteceu com certa freqüência na China, na Europa, por incrível que pareça isso aconteceu da mesma forma, são experiências que vão somando de forma muito positiva.

P/1 - Foi dessa forma que você conseguiu impor seu trabalho, sua autoridade?

R - Não existe outra forma, ainda mais com o oriental, você mostrar o caminho com atitude, não adianta querer se impor na discussão, no diálogo, vai ter que deixá-los   errar.  Eles erram ai vêem que estão errados, que não sabem o próximo passo, então, eles aceitam a sua sugestão de próximo passo, e tem essas dificuldades nessa parte cultural. Você tem dificuldades no ritmo de trabalho. O brasileiro é um povo que trabalha muito forte muito duro. Eu estou acostumado a trabalhar com a equipe aqui no Brasil, uma equipe própria da White Martins. Quando você vai dar suporte à companhia em outras áreas do mundo, você se depara com a dificuldade da questão de produtividade. Da questão da predisposição, do comportamento, de segurança. Você quer ver nessa equipe de profissionais que você está liderando, que não é a sua equipe, você quer o mesmo comportamento, porque você sabe como dá certo, sabe qual é a atitude da sua equipe que sabe como as coisas têm que ser. Você tenta guiar essas novas equipes para esse mesmo comportamento, para essa mesma filosofia e às vezes é complicado. Na Europa é extremamente difícil puxar a responsabilidade para com o trabalho da mesma forma como você puxa o teu time no Brasil. Teve uma situação uma vez na França que eles fizeram uma greve, no site o sindicato entrou para reclamar de como eu punha eles pra trabalhar. Eles simplesmente disseram para mim que na França não se trabalhava como no Brasil, que eles não eram negros, eles não eram escravos e que eu não podia exigir aquele ritmo. Ai eu disse para eles: “olha, para minha empresa vocês são trabalhadores e não existe diferença de cor, vejo vocês como trabalhadores e a gente tem o compromisso, a gente precisa atingir esse compromisso. Para mim, independente da nacionalidade de vocês a companhia trata todo mundo igual e eu trato os meus colegas de trabalho no país também da mesma forma, igual”. Tive que dar uma aliviada nas primeiras semanas, mas, depois eu puxei de novo.

P/1 – E a barreira lingüística no caso da China você arrisca um mandarim hoje?

R - Não, não, não dá. É uma estrutura de linguagem muito diferente e eles fazem questão de evoluir na língua, eles fazem questão de evoluir no inglês, obviamente nos primeiros anos a dificuldade era até maior, o meu inglês, principalmente para falar com o Chinês, já não era lá essas coisas. A gente se comunicava mesmo na base do “nóis vai nóis vem”, mas, a gente se comunicava, e eles também fazem questão de se firmar no inglês. Tem alguns episódios engraçados. Eles olham pra você que é ocidental e sabem que você não é de lá. 

 Então, eu diria que naquela época, talvez uns seis ou sete anos atrás, queriam praticar o inglês, hoje em dia estão fluentes no inglês, e esse é o comportamento deles. É um povo que me ensinou muito como se desenvolver porque os jovens lá têm uma visão um pouco mais ambiciosa que os nossos jovens aqui.

P/1 – Como é que você percebeu isso?

R - É justamente por essas atitudes de eles terem essa ânsia de se desenvolver de querer entender uma língua diferente, não sei se isso é uma constante nos nossos jovens aqui no país. A questão da disciplina, de estar realmente focado em nas coisas, a gente deixa as coisas um pouco ao acaso aqui no país, a gente precisa aprender um pouquinho com isso.

P/1 - E hoje o que você faz no seu dia-a-dia, Giovanni?

R - Passando essa fase de peregrinar pelos países todos aí, etc., comecei a me deter mais na fábrica porque saí de engenheiro de produto e passei a ser gerente de engenharia, então, precisei ficar um pouco mais focado dentro da fábrica. Continuei viajando muito, mas, em períodos menores. Antigamente eu viajava e passava longos períodos. Cheguei a ficar na Bélgica quatro ou cinco meses, cheguei a ficar na Espanha quatro, cinco meses, levava a família. Hoje não. Hoje eu vou, com bastante freqüência, a países onde temos instalações sendo montadas, onde precisamos dar manutenção a essas instalações. Mas, fico uma semana, dez dias, diminuiu. Então, passei alguns anos como gerente de engenharia . Tem dois anos que eu sou o gerente da fábrica, hoje gerencio toda a unidade. Como ainda estou crescendo muito... Tem pessoas muito novas no grupo... Eu me coloco como uma pessoa também nova e quando olho meu grupo é um grupo ainda muito jovem, depende de apoio, de muito suporte. Hoje, ainda viajo bastante, ainda preciso dar esse suporte técnico a algumas pessoas do meu grupo. Mas, tenho me direcionado mais à parte de gestão da companhia, de estratégia, à parte mais executiva. Apesar de tempos em tempos ter que dar uma ajuda para o meu time.

P/1 – E você tem esposa, filhos? Você falou que viajou muito e levava a família.

R- Isso. Eu sou casado, tenho um filho de onze anos, tenho uma menininha de nove meses.

P/1 – E nos seus momentos de lazer o que é que vocês fazem?

R - A gente vai muito a Valença, a gente vai pelo menos uma vez por mês porque a família fica toda lá. Sempre que a gente vai junta todo mundo, tem churrasco aquelas histórias todas. A gente procura viajar pelo menos uma vez por ano. O dia-a-dia mesmo é ensinar o filho a pensar, a raciocinar, ensinar na regra da White Martins, ensinar a linha de raciocínio correto, pensando sempre adiante. A gente gosta muito de futebol. Mesmo em Niterói a gente acaba fazendo um churrasquinho quase que uma vez por semana e é isso, nada de muito especial. Criança pequena é complicado, cinema quase toda semana. Às vezes vai ver um filminho legal, às vezes vai ver um filmezinho mais de criança.

P/1 – O que você acha que, na tua área, a White Martins ainda tem para contar  no futuro? 

R - A White Martins é uma empresa que vai além da venda de gases, porque gás é tudo igual, gás não tem etiqueta, o meu produto é exatamente igual ao produto do concorrente. Na verdade a gente não vende o gás, a gente vende uma solução, a gente vende uma aplicação para esse gás, a gente vende a confiabilidade. Acho que isso está muito bem enraizado entre os nossos clientes. Ao longo dos anos, a gente conseguiu ter essa conquista de ser reconhecida como uma empresa que vende solução, que vende uma aplicação para o gás, que vende a confiabilidade para gás que está sendo fornecido. Acho que essa é a maior conquista da empresa e a gente tem também o aspecto muito inovador, a companhia sempre está um passo a frente, sempre está buscando estar junto aos clientes e sempre um passo a frente na questão da inovação. Acho que isso é muito importante. Ter dentro do país uma empresa que é realmente parceira dos nossos clientes para qualquer tipo de solução que eles precisem e esse legado vai continuar.  Vai continuar oferecendo. A gente tem histórias recentes, por exemplo, de parcerias com a Vale do Rio Doce que nos procurou querendo mover as locomotivas dela com gás natural, que hoje move os carros. Só que para mover uma locomotiva não adianta colocar aquele cilindrinho pequenininho, tem que botar um tanque de líquido e nós desenvolvemos o projeto e fizemos para a Vale o projeto de um vagão que vai transportar gás natural líquido dentro dele.  Vamos gaseificar esse gás líquido e fornecer esse gás para o motor na medida da necessidade para dar autonomia às locomotivas. Das locomotivas a diesel vai para motores a 70%  de gás natural e muda a matriz energética.  Então, se você hoje contar que a Vale tem um parque de mais de quinhentas locomotivas, você vê o grande passo na questão de economia. É econômica para própria empresa e na questão ambiental, gigantesca. Acho que é isso que A White se propõe. Justamente oferecer a solução ao cliente, não simplesmente oferecer o gás. É o grande diferencial que a companhia propõe aos clientes.

P/1 - O que você achou de contar a história da industrialização do Brasil através de um projeto de memória?

R - É uma iniciativa muito positiva porque tenho certeza de que o valor que esse material terá talvez daqui a cinqüenta anos, cem, será quase que imensurável. De certa forma você resgata a história, consegue deixar registrado os passos importantes e está criando um material fantástico para as próximas gerações.

P/1 - O que você achou de sentar nessa cadeira aí? Foi difícil? Como que é?

R - É difícil, a gente que é muito técnico, que trabalha muito direto, muito focado, com muita velocidade, poucas vezes pára para conversar um pouco sobre a trajetória. É complicado, não é hábito nosso esse momento de reflexão, mas, é legal, é muito saudável.

P/1 – Giovanni obrigada, e parabéns pela sua trajetória.

R – Obrigada à vocês

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