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História

"Eu empreendo sendo um exemplo"

História de: Daniela da Ascenção Dantas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/12/2020

Sinopse

Nascimento no Guarujá. Irmãs. Infância. Escola. Trabalho na papelaria. Curso de raio-x. Gravidez. Casamento. Perda da bebê. Trabalho na bomboniere. Nova gravidez. Maternidade. Dupla jornada de trabalho. Motorista de caminhão. Trabalho no Porto de Santos na Empresa Libra Terminais e na Brasil Terminal Portuário. Mudança de posicionamento diante do machismo relacionado ao seu trabalho. Sonhos.

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História completa

Meu nome é Daniela da Ascenção Dantas, eu tenho 35 anos, nasci em treze de setembro de 85, no Guarujá.


Trabalhava na bomboniere, mas eu estava muito estressada, muito estressada mesmo, porque eu entrava uma e meia da tarde e eu tinha que ficar até a hora que fechava, uma, uma e meia, aí chegava em casa duas horas da manhã. E assim, você tem emprego, eu levo isso pra mim hoje, eu tenho um emprego então eu vou trabalhar feliz no que eu estou fazendo, e eu já não estava mais assim, e as pessoas estavam percebendo, então eu fui fazer o quê? Fui mudar a minha categoria, fui mudar a minha habilitação. Na época, o meu marido tinha mudado a categoria dele, e tinha conseguido um emprego rápido, aí um dia ele falou: “Dani, o cara lá do trabalho, a esposa dele está tirando habilitação, porque você não tira também?” Aí eu tirei a carta de ônibus, micro-ônibus, e depois tirei a de carreta, passei nos dois, e depois continuei trabalhando, fiz tudo isso trabalhando, esperando oportunidade, que aparecesse alguma coisa.


Eu fiquei na Libra oito anos, mas foi uma experiência… Porque assim, é um ambiente totalmente masculino, eu cheguei lá era muita gente, era uma época que tinha muita gente, e o pessoal ficou olhando assim, aí o meu supervisor da época me colocou para treinar, ele falou: “Ó, você vai ficar com esse senhor hoje”. Aí eu fiquei com esse senhor, trabalhei, e assim, todo mundo olhando, porque era uma novidade. Tinha mulher lá, devia ter umas três só, aí eles ficavam olhando, olhando. 


O meu gestor da Ecoporto, que hoje é meu gestor, ele trabalhou lá [na Libra Terminais], já tinha trabalhado lá um tempo e a gente tirou uma foto de todo mundo, quando estava para fechar a empresa, todo mundo tirou uma foto, aí postaram e ele falou: “Essa e essa vão vir trabalhar comigo” e eu achei que era brincadeira do rapaz que me falou, mas aí umas duas semanas antes da Libra mandar realmente todo mundo embora, a Ecoporto me ligou, perguntou se eu estava interessada, que tinha vaga lá para motorista e eu comecei a fazer o processo todo para entrar lá, e eu precisava da minha carteira, precisava que a Libra já me mandasse embora, a Ecoporto falou: “Não, vamos esperar eles te mandarem embora, aí você vem e começa aqui”, aí me mandaram embora numa quarta, na segunda-feira eu já comecei a fazer - aí como é que fala mesmo? - a integração, já na Ecoporto, tem um ano e meio mais ou menos isso. 


A Ecoporto também passou por uma crise e também mandou muita gente embora, aí quando eu voltei, ela ainda estava com a quadro reduzido e não tinha mulher, nenhuma. Aí quando eu voltei foi aquela coisa meio… E eu sou meio séria no começo, sou meio fechada mesmo, e eu senti que meio assim, eu estava tirando o espaço de alguém que já trabalhou ali e eles poderiam ter chamado de volta, e por alguns momentos eles me fizeram sentir isso, é que com o tempo eu fui conversando, porque eu entrei porque alguma pessoa saiu, e senti um pouco essa, do pessoal, “podia ter chamado Fulano, Ciclano, e chamou ela?”, mas hoje eu mostrei porque eu estou ali, porque o meu gestor tinha uma visão de mim, do meu trabalho, do meu potencial, e aí depois disso é uma… A gente chama de “Ecomãe”, porque ali é uma família mesmo, e o gestores, eu já trabalhei… Na Libra eu conseguia conversar com o meu supervisor, mas não tinha uma abertura que eu tenho aqui de gestão, de você estar com um problema, de você chegar e ó: “Está acontecendo isso, isso e isso, e eu preciso da ajuda de vocês” e eles sempre te dão uma abertura pra você conversar, se puderem ajudar, eles vão ajudar, tanto que RH, mas mais da área ali da operação, que é onde eu estou todo dia, são os meus coordenadores dão essa abertura pra você conversar, sentar, “está acontecendo isso”. 


Bom, hoje lá a gente trabalha com… Não é só contêiner, é carga geral também, então tem dia que eu puxo muito contêiner, mas também puxo… Eles tão com contrato com uma fábrica de celulose e são peças de dimensões assim, só vendo mesmo. Às vezes a gente: “Vai, vem puxar uma peça dessa” e assim é o meu dia, eu chego, dou “oi” pra todo mundo no rádio, que eu trabalho com rádio e “gente, estou a disposição”, aí na necessidade eles: “Dani, você está a onde? Vem aqui”, aí eu trabalho lá dentro, aí às vezes eu tenho que sair, porque são cinco Terminais, aí eu troco de caminhão, venho aqui na rua, faço algum trabalho nos outros Terminais, esse é o meu dia-a-dia no trabalho, é muito tranquilo.


Ainda hoje eu sou a única motorista mulher, lá eu sou. E às vezes eu sinto falta, muita falta de uma companheira de trabalho mulher, pra gente conversar. Eu tenho mais duas colegas lá, que uma é no Armazém, que é a Mayara e a Conferente de Armazém que é a Patrícia, só que são turnos diferentes, então na madrugada sou sempre eu só de mulher. Tem também a Planner, que é a Priscila, mas ela está sempre no prédio, não está na área comigo. Na área comigo só tem eu e os meninos, então eu sinto muita falta de presença feminina, muita. Porque no dia-a-dia faz diferença, pra você conversar, pra você ter apoio. Não que os meus colegas não me deem, mas uma mulher dá mais, né?


No começo eu também achava que eu estava tirando o lugar de um pai de família, mas assim, eu sou uma mãe de família, eu trabalho até mais do que muitos, porque eu tenho a minha jornada em casa. Isso depois eu aprendi que não tem nada a ver. Aí uma amiga minha de trabalho uma vez falou assim pra mim: “Não, a gente tem que dobrar porque a gente tem que trabalhar mais do que eles, porque eles já acham que a gente está roubando o lugar deles, então eu vou dobrar, porque eu tenho que mostrar porque eu estou aqui. Eu falei: “Não, a gente não tem que dobrar ou trabalhar mais do que a nossa capacidade pra provar pra eles que a gente não está roubando o lugar deles, não, você tem que trabalhar como eles. Se a gente pode ser melhor que eles, ok, a gente pode…  E a gente pode ser melhor que eles, muito, mas eu não preciso viver nisso, provando o tempo todo que eu estou num lugar que é de homem e eu tenho que trabalhar como um homem. Não, eu trabalho da minha forma, mas eu trabalho tão bem quanto eles”. E eu tenho essa mentalidade comigo, agora eu aceito totalmente, eu ando no meio deles e se olham ou deixam de olhar, eu realmente não me importo, eu já acostumei, mas eu tenho plena consciência do que o que eu exerço representa muito para mim, representa muito para minha filha, para as pessoas que estão ao meu redor, que me admiram por eu sair na chuva de bicicleta para atravessar a barca, pra trabalhar a noite toda, e ainda chegar em casa, cuidar de filha, ajudar na escola.


Eu acho que eu empreendo sendo um exemplo, né? Um exemplo pra uma dona de casa que não sabe o que pode fazer, e olha ela lá, no caminhão. Quando eu falo que eu trabalho num caminhão, muitas pessoas se surpreendem, eu já me acostumei, mas elas ficam: “Sério?”, eu: “Sério”, porque a gente pode fazer qualquer coisa. E eu tenho sempre isso comigo, a gente pode fazer qualquer coisa, a mulher pode fazer qualquer coisa, a gente só precisa de espaço e isso a gente está ganhando no dia-a-dia. Está difícil, mas já está melhor do que já foi. E assim a gente vai. Então se eu sirvo de exemplo para duas ou três mulheres saírem da caixinha e ver que elas podem mais, pra mim eu já estou feliz.

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