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Eu... Elas... Eu... Em busca de uma (auto)biografia

História de: Fernanda Saldanha
Autor: Fernanda Saldanha
Publicado em: 04/05/2015

Sinopse

Os fragmentos ao longo deste texto são apresentados como resquícios memoráveis, como as vagas lembranças que apontam despretensiosamente na memória. Eu, 27 anos. Minha mãe 61. Minha vó 87. São 175 anos de histórias e memórias... Quem consegue viver tanto tempo? Não encontro outra resposta a não ser esta: aqueles que tiveram avós e ouviram suas histórias.

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História completa

Lembro-me daqueles domingos em Cerro dos Bois, a vó preparando a comida, as cucas enroladas sobre a mesa, cobertas por panos de prato pintados e arrematados com crochê feito pelas mesmas mãos que preparava potes e potes de sorvete no verão... O pinheirinho de verdade na sala, enfeitado por muitas bolinhas coloridas, com muitos animais no presépio... A televisão em preto e branco, o tic-tac do relógio que cantarolava de hora em hora, sempre no “horário velho”... As pitangas colhidas no pé, os ovos nos ninhos escondidos e o “piu-piu-piu-piu-piuuuu” que reunia as galinhas na hora do milho... Lembro-me de momentos tão singelos, que quando os vivi não tinha a mínima noção da falta que fariam...

 

A memória é viva, em constante renovação. É feita de pequenos momentos, que se tornam grandiosos ao serem recordados. A memória é um barco sem porto, um barco que flutua em alto mar e adentra a infinitude dos oceanos. Composta por recuerdos e silêncios, a memória também é esquecimento, lacunas, ausências.

 

Hoje, sou Fernanda Saldanha, poderia ser Fernanda Cristine ou Fernanda Beatriz, mas por sorte ou bom senso, apenas Fernanda. Brasileira, solteira, portadora do RG --------- SSP/SP e CPF -----------, nascida na cidade de Venâncio Aires, Capital do Chimarrão, no estado do Rio Grande do Sul, às 10 horas e 10 minutos do sábado de aleluia, 2 de abril de 1988, véspera da Páscoa, talvez por isso a paixão por chocolate! O signo é Áries – acredito em signo, mas não me venha com horóscopos, frases inventadas sem pé nem cabeça para encher jornais e revistas – e percebo muitas das características em mim, como iniciativa, teimosia, liderança, coragem e o elemento – fogo – que intempestivo, incendeia de lembranças meu coração. O ascendente em Touro reforça e duplica a teimosia. Sou filha de Manoel Saldanha e Nelsy Otilia Kessler (de casa), Saldanha do marido. Fui batizada, fiz a 1ª Eucaristia, a Crisma, mas aprendi com minha mãe a questionar as imposições da igreja, bem como, herdei dela a devoção por Nossa Senhora Aparecida, que aprendi a chamar de “mãezinha” com a minha orientadora.

 

Fui Prenda, dancei em CTG e ostentei faixas de couro. Fiz teatro nas aulas de Ensino Religioso, pintei o rosto com tinta de tecido, ardeu. Usei roupas antigas da minha mãe, saí na vizinhança dizendo que eu era avó da Fernanda, eu, avó de mim mesma. As crianças acreditavam, era uma diversão. Com 18 anos, tive a oportunidade de ir para São Paulo fazer um curso de teatro. Com medo, fui impulsionada pelas palavras da minha mãe: “Vai e tenta, se não der certo, volta, estaremos aqui te esperando.” Fui, tentei, deu certo? Boa pergunta! Não sei! Mas estou aqui, hoje graduada do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), integrante do DACARATAPA Grupo de Teatro, em breve educadora de Artes na rede municipal de ensino e atriz com registro na DRT, nº -----/SP. Atriz? E hoje, o que sou? Como ser eu mesma em cena?

 

Já fui Nina, mulher forte, batalhadora, que se viu obrigada pelo marido a abortar seu primeiro filho. Santa, nordestina, mãe de dez filhos, “três nasceram mortos, quatro morreram de fome... tuberculosos”, que pediu esmola para que os outros três não tivessem o mesmo destino. Fui também homem, Dottore, velho, pseudointelectual, falastrão, não faz sucesso com as mulheres. Cida, doméstica, fogosa, puxou à mãe, desiludida com o casamento e o marido que era muito parado, pouco tempo depois de ficar viúva conheceu um homem que a deixava “em estado de graça”. Também fui troiana, coro, por escolha e vontade do desafio, pulsando em compasso com mais sete meninas, com a força de mulheres que mantiveram a cabeça erguida mesmo sabendo-se derrotadas. Fui Ofélia, louca, apaixonada, suicida. Mas também, tia Gildete, batuqueira, arruaceira, que ama a sobrinha como se fosse sua filha. Já fui noiva, esposa, amante, em “A Vida Como Ela É”.

 

Entre ficção e realidade, sempre fui Fernanda, mas sou Nelsy, que quase foi Margarida, para homenagear a madrinha. Nascida em 23 de junho de 1953, sob o signo de câncer (ah, e como isso é evidente!). Brasileira, casada, mãe de três filhos, poderiam ser quatro, mas um nem chegou a nascer, e foi avó ainda jovem. Sou também Romilda Catarina, que nunca se sentiu assim e assumiu apenas Romilda ou vó Mila, para os mais chegados, brasileira, viúva, mãe de quatro filhos, dois já se foram, avó e bisavó, do signo de escorpião (tenho um carma com escorpianos, relações muito boas ou muito complicadas), do dia 27 de outubro de 1927. Sou Teresa, nascida em 1899 e falecida em 1977. Sou Maria, mas ao tentar retroceder, esbarro na impossibilidade de contar o tempo, chego ao tempo da memória, um tempo sem números, sem datas. Sou outra Maria também, que nada sei a respeito. Lacunas permanecem abertas, preenchidas apenas por memórias inventadas. Sou todas as mulheres que vieram antes de mim, todas elas me constituem, a biografia de todas elas perpassa a minha (auto)biografia e as minhas memórias, quanto mais falo de minhas ancestrais, mais falo de mim. Eu sou elas. Elas são eu e nós todas somos "elas". O que nos une é muito mais do que um cordão umbilical rompido no parto, o que nos mantém atreladas é ter nascido MULHER.

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