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História

Eu digo que eu tenho muita sorte

História de: Maythê Sales Viveiros da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Maythê nasceu no Rio de Janeiro em 1991. Sempre gostou de praia e de praticar esportes como vôlei e natação. Filha de pais com deficiência auditiva, ela conta que sempre foi pai e mãe deles, invertendo os papeis. Ainda adolescente decidiu seguir carreira de nutricionista.

Sou Maythê Sales Viveiros da Costa. Nasci no dia 22 do sete de 1991, no Rio de Janeiro. Meu pai é Eugênio César Viveiros da Costa, ele nasceu aqui no Rio de Janeiro no dia seis do dez de 1960. E minha mãe é Maria Sueli Sales Pucheu, ela nasceu na Paraíba, no dia primeiro de maio de 1968. Eles são deficientes auditivos, e hoje em dia eles estão separados. Minha mãe conheceu uma outra pessoa, já está casada há 15 anos. O meu pai também já conheceu uma outra pessoa, também está casado por volta deu uns dez, 12 anos. Ele formou uma outra família, eu tenho mais três irmãos. Ambos, tanto meu padrasto como minha madrasta também são deficientes auditivos. E os meus irmãos pequenos, um tem dez anos, o outro tem seis e o outro tem três aninhos, o de seis e o de três também são deficientes auditivos, só eu e meu irmão depois de mim que não somos.

Eu sempre fui muito pai e muito mãe dos meus pais, até pela deficiência mesmo, principalmente do meu pai por ele ligar pra nada, tá sempre pulando de um emprego para outro, então eu sempre tive que tomar muito conta dos dois. Minha mãe é uma pessoa especial, ela é muito tranquila, batalhadora, guerreira. Até um dos motivos de eu entrar para fazer Nutrição foi por conta de uma doença que ela tem, do lúpus, que ela não pode pegar sol e aí eu quis ir atrás de alguma forma de poder ajudá-la, assim. O meu padrasto é arquiteto e ele também é deficiente auditivo, é um dos poucos que conseguiu correr atrás mesmo com a deficiência, batalhar pelo que queria.

Eu digo que eu tenho muita sorte. Primeiro porque a minha família sempre foi muito bem estruturada, a gente é muito unido desde sempre. Assim que eu nasci, por medo dos meus pais não conseguirem ouvir eu chorando, mesmo que tivesse todo aparato, meu avô mandou trazer berço que quando chorava acendia a luz, sabe? O apartamento era todo estruturado com luz, assim quando tinha algum som acendia. Mas mesmo assim ainda tinha um certo receio da minha avó, principalmente a materna, pelo fato deles não conseguirem me ouvir e eu passar fome, acontecer alguma coisa pior. Então eu saí do hospital e fui direto pra casa da minha avó. Minha mãe ia, ficava comigo lá durante a fase de amamentação, que não foi de seis meses, toda a fase que eu precisava da minha mãe nos primeiros cuidados, minha mãe tava sempre lá comigo. Aí eu chamo minha avó de mãe, porque a minha avó foi minha segunda mãe. Os meus avós paternos já eram muito idosos, meu avô fazia tudo por mim, mas eu tinha pouco contato. Mais ou menos com uns sete anos eu tentei começar a ir pra casa dos meus pais, mas eu não consegui me adaptar muito bem, eu ficava sentindo falta da minha avó. Diz minha mãe que quando eu tinha mais ou menos um aninho, eu ficava prestando atenção nos dois conversarem e aí eu ficava com as mãos tentando imitar o que eles faziam, sabe? Quando eu queria comer, eu puxava as mãos, minha mãe falava que eu fazia o movimento. E para beber a mesma coisa. E foi assim a vida inteira. Até a idade que eu fiquei um pouco mais ciente mesmo da dificuldade deles, então eu amadureci muito rápido, foi um caso de necessidade mesmo. Não fiz nenhum curso, porque até com a vivência não é nem necessário, mas eu falo Libras.

Eu morava com minha avó no Leme, Copacabana. E meu pai e minha mãe moravam em Ipanema. Eu não me lembro muito bem da minha infância, mas eu lembro que a gente sempre morou na praia, de frente pra praia sempre. Minha avó sempre me deixava brincar, eu sempre brinquei na rua, mesmo morando em apartamento. Eu brincava com minhas amigas, que são minhas amigas até hoje, somos quatro, estudamos juntas e crescemos juntas. Só depois da faculdade que a gente se separou por causa das escolhas de profissão, mas a gente tá sempre se encontrando. Mas brincava de queimada, aquela brincadeira do elástico, andava de bicicleta, eu fazia aula de patins. No Leme, no final tem tipo uma espécie de um espaço que dá pra você patinar. E depois eu fui descobrir minha paixão pelo vôlei, mas já era mais velha, eu tinha uns 12 anos, mais ou menos. Na praia você jogando uma partida, você já passa a ser federada, então eu cheguei a ser federada. Eu estudava no Integrado do Leme ali. Eu lembro do parque, das salas de aula. A escola não era muito grande, era pequena. E aí eu fui pro Sacré-Coeur, que foi onde eu estudei até o terceiro ano. Aí lá são as minhas recordações mais fortes, porque consegui bolsa de estudo por excelência escolar, foi onde eu fiz minhas amizades mesmo, que eu levo até hoje. Os meus tombos, os meus professores, lá é onde eu tenho as memórias mais fortes mesmo. Na fase de ensino fundamental, professora Fátima me marcou. Eu tenho um carinho enorme por ela, porque ela arrancava os dentes da gente, ela arrancou vários dentes meus. Era um carinho fraternal dela, sabe? No Ensino Médio teve um professor de História, o Daniel, que era fantástico. Se um dia eu for pra área de dar aula e ser mestre, eu vou querer ser que nem ele.

Quando eu tinha nove anos de idade meus pais se separaram. A gente sempre foi muito de ir à igreja, eu cresci na igreja, minha avó sempre me levou. Eu fui a primeira coroinha mulher da Paróquia de Copacabana. Minha avó acolheu um padre que estava vindo do Nordeste para poder fazer a tese de Direito dele, isso quando eu tinha seis anos. E tinha uma missa que era voltada aos deficientes auditivos, que eu ia. Desde então a gente criou um afeto muito grande, e quando meus pais se separaram ele se tornou meu pai praticamente. Desde essa época, mais ou menos, quem passou a ir às reuniões da escola, ou quando eu me machucava, torcia um pé, quem ia me buscar era ele. Ele se tornou um pai mesmo. E como meu pai nunca foi muito presente, ele só me levava pra praia, mas nunca foi aquele pai, pai, sabe? E quem se tornou meu pai mesmo foi meu tio. E é assim até hoje. A minha avó adotou ele como filho, as minhas tias adotaram ele como irmão e minha mãe também.

Eu queria ser médica, só que eu acabei desistindo, acho que eu tava no segundo ano; aí eu mudei de ideia totalmente, fui pra Arquitetura, porque meu padrasto sempre foi um exemplo pra mim por conta da deficiência dele. Acho que eu acabei querendo me espelhar um pouco nele. Por um tempo eu quis Arquitetura, até cheguei a prestar vestibular pra Arquitetura, não era pra Nutrição, só que no despertar eu falei “não”. Eu cheguei a passar, eu falei: “Não, eu não posso fugir do que eu sempre gostei”, que era a área da Saúde, de ajudar os outros. E aí eu comecei a pesquisar, até por conta da doença da minha mãe também, aí eu comecei a ver o papel da alimentação na doença dela, de como era absurda a melhora das pessoas que tinham lúpus e que conseguiam adaptar a alimentação de uma forma saudável e os alimentos que melhoravam a doença, que é autoimune. E aí eu falei: “Não, eu vou fazer Nutrição, porque eu quero ajudar minha mãe”. E também pesquisando, eu pude ver as vertentes que a Nutrição tem, a forma como você pode tratar diversas doenças, ou minimizar com os alimentos de uma forma totalmente natural. Aí eu me apaixonei, prestei o vestibular super rápido pra faculdade onde eu curso, que é o IBMR, passei, entrei e estou lá desde então.

Eu sempre tive na minha cabeça que eu queria fazer a parte Clínica, de estar ali em hospital ajudando. É muito bom quando você entra no hospital, por exemplo, o paciente não pode ir pro centro cirúrgico desnutrido, e de você pegar um paciente desnutrido e conseguir melhorar o estado nutricional dele, passar ele de desnutrido para o estado de eutrófico, e ele poder ir pra cirurgia. Eu entrei na Faculdade querendo melhorar a saúde das pessoas da forma mais natural possível, da forma que os alimentos pudessem ofertar, sem que eles precisassem fazer uso de remédios, melhorando, assim, mesmo o estado deles. Meu sonho, hoje, é de concluir minha faculdade, de conseguir um emprego na área que eu quero, que é a área clínica, seja na parte do marketing, na parte clínica mesmo, que é onde eu vou ser feliz. O meu sonho também é que o profissional da Nutrição seja mais reconhecido e acho que é isso, ser feliz, de me especializar cada vez mais, de ser uma boa profissional. Essa é a minha meta, meu objetivo, é o que eu quero pra mim.

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Sou Maythê Sales Viveiros da Costa. Nasci no dia 22 do sete de 1991, no Rio de Janeiro. Meu pai é Eugênio César Viveiros da Costa, ele nasceu aqui no Rio de Janeiro no dia seis do dez de 1960. E minha mãe é Maria Sueli Sales Pucheu, ela nasceu na Paraíba, no dia primeiro de maio de 1968. Eles são deficientes auditivos, e hoje em dia eles estão separados. Minha mãe conheceu uma outra pessoa, já está casada há 15 anos. O meu pai também já conheceu uma outra pessoa, também está casado por volta deu uns dez, 12 anos. Ele formou uma outra família, eu tenho mais três irmãos. Ambos, tanto meu padrasto como minha madrasta também são deficientes auditivos. E os meus irmãos pequenos, um tem dez anos, o outro tem seis e o outro tem três aninhos, o de seis e o de três também são deficientes auditivos, só eu e meu irmão depois de mim que não somos.

Eu sempre fui muito pai e muito mãe dos meus pais, até pela deficiência mesmo, principalmente do meu pai por ele ligar pra nada, tá sempre pulando de um emprego para outro, então eu sempre tive que tomar muito conta dos dois. Minha mãe é uma pessoa especial, ela é muito tranquila, batalhadora, guerreira. Até um dos motivos de eu entrar para fazer Nutrição foi por conta de uma doença que ela tem, do lúpus, que ela não pode pegar sol e aí eu quis ir atrás de alguma forma de poder ajudá-la, assim. O meu padrasto é arquiteto e ele também é deficiente auditivo, é um dos poucos que conseguiu correr atrás mesmo com a deficiência, batalhar pelo que queria.

Eu digo que eu tenho muita sorte. Primeiro porque a minha família sempre foi muito bem estruturada, a gente é muito unido desde sempre. Assim que eu nasci, por medo dos meus pais não conseguirem ouvir eu chorando, mesmo que tivesse todo aparato, meu avô mandou trazer berço que quando chorava acendia a luz, sabe? O apartamento era todo estruturado com luz, assim quando tinha algum som acendia. Mas mesmo assim ainda tinha um certo receio da minha avó, principalmente a materna, pelo fato deles não conseguirem me ouvir e eu passar fome, acontecer alguma coisa pior. Então eu saí do hospital e fui direto pra casa da minha avó. Minha mãe ia, ficava comigo lá durante a fase de amamentação, que não foi de seis meses, toda a fase que eu precisava da minha mãe nos primeiros cuidados, minha mãe tava sempre lá comigo. Aí eu chamo minha avó de mãe, porque a minha avó foi minha segunda mãe. Os meus avós paternos já eram muito idosos, meu avô fazia tudo por mim, mas eu tinha pouco contato. Mais ou menos com uns sete anos eu tentei começar a ir pra casa dos meus pais, mas eu não consegui me adaptar muito bem, eu ficava sentindo falta da minha avó. Diz minha mãe que quando eu tinha mais ou menos um aninho, eu ficava prestando atenção nos dois conversarem e aí eu ficava com as mãos tentando imitar o que eles faziam, sabe? Quando eu queria comer, eu puxava as mãos, minha mãe falava que eu fazia o movimento. E para beber a mesma coisa. E foi assim a vida inteira. Até a idade que eu fiquei um pouco mais ciente mesmo da dificuldade deles, então eu amadureci muito rápido, foi um caso de necessidade mesmo. Não fiz nenhum curso, porque até com a vivência não é nem necessário, mas eu falo Libras.

Eu morava com minha avó no Leme, Copacabana. E meu pai e minha mãe moravam em Ipanema. Eu não me lembro muito bem da minha infância, mas eu lembro que a gente sempre morou na praia, de frente pra praia sempre. Minha avó sempre me deixava brincar, eu sempre brinquei na rua, mesmo morando em apartamento. Eu brincava com minhas amigas, que são minhas amigas até hoje, somos quatro, estudamos juntas e crescemos juntas. Só depois da faculdade que a gente se separou por causa das escolhas de profissão, mas a gente tá sempre se encontrando. Mas brincava de queimada, aquela brincadeira do elástico, andava de bicicleta, eu fazia aula de patins. No Leme, no final tem tipo uma espécie de um espaço que dá pra você patinar. E depois eu fui descobrir minha paixão pelo vôlei, mas já era mais velha, eu tinha uns 12 anos, mais ou menos. Na praia você jogando uma partida, você já passa a ser federada, então eu cheguei a ser federada. Eu estudava no Integrado do Leme ali. Eu lembro do parque, das salas de aula. A escola não era muito grande, era pequena. E aí eu fui pro Sacré-Coeur, que foi onde eu estudei até o terceiro ano. Aí lá são as minhas recordações mais fortes, porque consegui bolsa de estudo por excelência escolar, foi onde eu fiz minhas amizades mesmo, que eu levo até hoje. Os meus tombos, os meus professores, lá é onde eu tenho as memórias mais fortes mesmo. Na fase de ensino fundamental, professora Fátima me marcou. Eu tenho um carinho enorme por ela, porque ela arrancava os dentes da gente, ela arrancou vários dentes meus. Era um carinho fraternal dela, sabe? No Ensino Médio teve um professor de História, o Daniel, que era fantástico. Se um dia eu for pra área de dar aula e ser mestre, eu vou querer ser que nem ele.

Quando eu tinha nove anos de idade meus pais se separaram. A gente sempre foi muito de ir à igreja, eu cresci na igreja, minha avó sempre me levou. Eu fui a primeira coroinha mulher da Paróquia de Copacabana. Minha avó acolheu um padre que estava vindo do Nordeste para poder fazer a tese de Direito dele, isso quando eu tinha seis anos. E tinha uma missa que era voltada aos deficientes auditivos, que eu ia. Desde então a gente criou um afeto muito grande, e quando meus pais se separaram ele se tornou meu pai praticamente. Desde essa época, mais ou menos, quem passou a ir às reuniões da escola, ou quando eu me machucava, torcia um pé, quem ia me buscar era ele. Ele se tornou um pai mesmo. E como meu pai nunca foi muito presente, ele só me levava pra praia, mas nunca foi aquele pai, pai, sabe? E quem se tornou meu pai mesmo foi meu tio. E é assim até hoje. A minha avó adotou ele como filho, as minhas tias adotaram ele como irmão e minha mãe também.

Eu queria ser médica, só que eu acabei desistindo, acho que eu tava no segundo ano; aí eu mudei de ideia totalmente, fui pra Arquitetura, porque meu padrasto sempre foi um exemplo pra mim por conta da deficiência dele. Acho que eu acabei querendo me espelhar um pouco nele. Por um tempo eu quis Arquitetura, até cheguei a prestar vestibular pra Arquitetura, não era pra Nutrição, só que no despertar eu falei “não”. Eu cheguei a passar, eu falei: “Não, eu não posso fugir do que eu sempre gostei”, que era a área da Saúde, de ajudar os outros. E aí eu comecei a pesquisar, até por conta da doença da minha mãe também, aí eu comecei a ver o papel da alimentação na doença dela, de como era absurda a melhora das pessoas que tinham lúpus e que conseguiam adaptar a alimentação de uma forma saudável e os alimentos que melhoravam a doença, que é autoimune. E aí eu falei: “Não, eu vou fazer Nutrição, porque eu quero ajudar minha mãe”. E também pesquisando, eu pude ver as vertentes que a Nutrição tem, a forma como você pode tratar diversas doenças, ou minimizar com os alimentos de uma forma totalmente natural. Aí eu me apaixonei, prestei o vestibular super rápido pra faculdade onde eu curso, que é o IBMR, passei, entrei e estou lá desde então.

Eu sempre tive na minha cabeça que eu queria fazer a parte Clínica, de estar ali em hospital ajudando. É muito bom quando você entra no hospital, por exemplo, o paciente não pode ir pro centro cirúrgico desnutrido, e de você pegar um paciente desnutrido e conseguir melhorar o estado nutricional dele, passar ele de desnutrido para o estado de eutrófico, e ele poder ir pra cirurgia. Eu entrei na Faculdade querendo melhorar a saúde das pessoas da forma mais natural possível, da forma que os alimentos pudessem ofertar, sem que eles precisassem fazer uso de remédios, melhorando, assim, mesmo o estado deles. Meu sonho, hoje, é de concluir minha faculdade, de conseguir um emprego na área que eu quero, que é a área clínica, seja na parte do marketing, na parte clínica mesmo, que é onde eu vou ser feliz. O meu sonho também é que o profissional da Nutrição seja mais reconhecido e acho que é isso, ser feliz, de me especializar cada vez mais, de ser uma boa profissional. Essa é a minha meta, meu objetivo, é o que eu quero pra mim.

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