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"Eu acho que nós somos exemplos"

História de: Roseane
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/08/2019

Sinopse

Roseane nasceu em uma família humilde, desde cedo passando necessidades. Depois da família ter sido realocada pelo governo em uma comunidade, passou a se envolver no trabalho social e ajudar as pessoas que, assim com ela, não tinham muitas vezes o básico para viver. Foi atendida por uma organização chamada Casa de Passagem, que ajudava meninas em situação de vulnerabilidade, e lá descobriu que queria cursar a faculdade de Pedagogia. Depois de passar por várias instituições e trabalhar sempre voltada para auxiliar os mais necessitados, hoje é coordenadora pedagógica do Projeto ViraVida. Roseane conta um pouco de sua história, da ligação com a mãe, de sua paixão pelo trabaho e da atuação no ViraVida, onde lida com jovens em situações de exploração e vulnerabilidade social.  

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História completa

Meu nome é Roseane, eu nasci em Recife, em 1969, tenho quarenta e dois anos. A minha mãe faleceu, vai fazer cinco anos, a pessoa que era a minha força maior, ela era doméstica, dona de casa, o meu pai foi taxista, depois funcionário público da Prefeitura de Olinda e hoje ele é aposentado por esse serviço. Nós somos em cinco irmãos, mas tem dois falecidos. Um foi assassinado num assalto aqui no Recife, há seis anos, e o outro faleceu em um acidente de carro, vai fazer um ano agora em outubro, ele era caminhoneiro e infartou dirigindo, morreu na Estrada do Espírito Santo.

 

A minha infância é muito... eu não lembro muito da minha infância, mas eu sempre fui muito pobre, eu tenho uma história de vida de muita resiliência, porque eu sempre fui muito pobre, meus pais eram muito pobres, sem condições financeiras. O dia-a-dia era de pouca alimentação, cheguei a passar fome, não tinha condição de lazer, não tinha roupas, a gente tinha que comprar tudo na feira, tudo usado. Eu lembro que a minha casa era muito humilde, de tábua, eu morava num local que tinha cheia, eu lembro que a gente saía com as trouxas na cabeça… O rio enchia, íamos aos colégios, ficávamos desabrigados, e o governo remove essas casas, esses barracos e transfere a gente para uma outra comunidade, que é uma comunidade com o nome de Chão de Estrelas. 

 

Lá, com uns onze, doze anos, eu comecei a me envolver com o trabalho social. Toda a minha vida, assim, de infância, foi muito sofrida, então na pré-adolescência e adolescência que eu pude dar mais conta de mim, da minha vida, da minha família, e foi quando eu também comecei a minha trajetória profissional. Eu sempre estudei, eu estudava em escola pública, a minha mãe, assim, investiu muito... A minha mãe morreu analfabeta, ela não chegou a frequentar a escola, mas ela preservava muito isso.

 

Nessa comunidade, que o governo nos passou, era uma comunidade que não tinha nada, só tinham as casas. E tinha um líder comunitário chamado Alvídio, que ia nas portas chamar as pessoas para fazer grupos, para nos organizar, porque éramos moradores que tínhamos os mesmos problemas, falta de comida, não tinha saneamento nas casas, não tinham nada. E começamos a nos organizar e eu tinha treze anos quando eu comecei a me envolver, e eu fui professora da primeira escolinha da comunidade, sem saber de nada, mas eu estava lá, com um monte de crianças. Dali saíram vários outros projetos.

 

Aos dezessete anos... a Instituição é Casa de Passagem, e é uma coisa que eu não nego na minha história, eu costumo dizer que eu tenho uma história de superação, porque eu vim da lama e conheci a Casa de Passagem, que é uma instituição aqui de Recife onde Ana Vasconcelos, que hoje é falecida, ela foi fundadora dessa instituição e na época ela trabalhava só com meninas de rua, meninas que se prostituíam e meninas menores que moravam na rua, cheiravam cola... E o seu Alvídio, por eu me destacar nesse trabalho da comunidade, me levou, porque eu queria mais, mas eu não tinha perspectiva, eu não tinha como buscar, a minha família não tinha condição, eu não tinha exemplo em casa de ninguém, não tinha em quem me espelhar, e ele disse: “Eu vou lhe ajudar”. 

 

Me levou até a Casa de Passagem e me apresentou a Ana Vasconcelos, disse que eu era uma jovem que já tinha começado um trabalho na comunidade, mas que naquele momento eu precisava de ajuda, e ela me ajudou, me acolheu, e eu fui atendida como jovem. Eu não dormia lá, eu tinha a minha casa, mas eu ia todos os dias, então eu fui atendida e recebi todo o atendimento da instituição, lá tem toda uma equipe de psicólogos, pedagogos, sociólogos, e eu fiz parte de um grupo de jovens. E eu fui me destacando nesse trabalho, a ponto de me formar, de chegar a me formar, de entrar numa faculdade, tive o apoio da Casa, financeiramente também, por dois anos, porque eu não tinha condições. Quando eu entrei, em 1991 para 1992, ela já estava pensando em atender meninas de comunidade. Criaram um programa chamado Comunidade e Cidadania e eu me encaixei nesse programa, porque eu não me prostituia e nem era menina de rua, mas eu era vulnerável às drogas, à prostituição, então eu me encaixei.

 

Em uma conversa com Ana Vasconcelos, eu sempre acreditei na educação, acho que é a base, sempre achei, conversei com a Ana, ela foi me apresentando as profissões, eu admirava muito a Psicologia também, mas eu gostei mais da questão da Pedagogia, não por dar aula, por ser professora, porque eu entrei em 1992 e me formei em 1996, mas por essa questão de ajudar o próximo. Eu trouxe isso comigo, da minha história de vida, poder ajudar, e eu acreditava, eu sempre tinha isso na minha cabeça: “Eu vou conseguir sair daquela vidinha, daquele mundinho”, tanto que a minha irmã, que era dona de casa, casou aos dezessete anos, se espelhou em mim, eu sou mais nova, mas ela se espelhou em mim, hoje a minha irmã também se formou em Pedagogia e também faz o mesmo trabalho que eu. Eu sabia que eu podia ajudar e começar pela minha família.

 

Eu não casei, eu namorei cinco anos com o pai da minha primeira filha, noivei, pensamos em casar, eu sonhava com casamento na igreja, vestido de noiva, cheguei a ter o vestido de noiva, estávamos se preparando, e eu engravidei - olha a vulnerabilidade sexual, transava sem orientação, a minha mãe não orientava, quem orientava eram as amigas da escola - e eu engravidei do meu noivo. Quando eu engravidei, eu acabei o casamento, porque eu não queria casar grávida, as minhas amigas diziam que se eu entrasse na igreja sem ser virgem a grinalda ia cair, eu botei isso na cabeça, que o véu caía e todo mundo ia saber que eu não era virgem, eu fiquei com medo e acabei o casamento com o pai da minha primeira filha. Passei cinco anos com ele, namorando e noiva, quando eu engravidei nós ainda ficamos juntos, e quando a minha filha nasceu, quando ela tinha seis meses de idade, eu me separei. Por que eu me separei? Porque eu continuei trabalhando na comunidade e ele não aceitava, ele queria que eu fosse dona de casa e nós nunca tivemos uma casa para morar, eu e ele, sempre na casa da minha mãe, porque eu nunca abandonei a minha mãe, eu tinha vinte anos na época, e ele: “Vamos morar numa casa nós dois, temos que morar só”, e eu digo: “Não, não quero”, sempre com a minha mãe, e ele disse: “Ou eu ou esse trabalho”, que era na comunidade, eu disse: “Pegue as suas coisas e vá embora, porque eu vou ficar com o meu trabalho”.

 

Aos vinte e três anos eu conheci o pai da minha segunda filha, foi uma pessoa muito boa, tivemos uma relação muito legal, eu engravidei novamente. Eu fiquei com trauma, eu estava na faculdade, eu não podia perder uma cadeira, eu não podia ser reprovada, eu dediquei tudo à faculdade, eu tinha que passar, e eu engravidei no meio da faculdade, com dois anos de faculdade, eu segurei a faculdade, não desisti, ia de barrigão, eu morava na região metropolitana do Recife, era uma hora e meia de viagem, a faculdade era aqui no centro e eu morava em Abreu e Lima na época. Ia com aquele barrigão, estudando a noite, continuei trabalhando, nasceu a minha segunda filha, que hoje já está com dezoito anos, e morei com o pai dela dentro da casa da minha mãe, e repeti a história. Eu não queria abandonar a minha mãe por nada, não deu certo por causa disso, ele queria que a gente fosse morar só e eu dizia que não queria: “Eu não quero, pois então vá embora”.

 

Desde a minha formação, eu tenho vinte anos nesse trabalho, mesmo me formando em pedagoga eu não procurei trabalhar em escolas, porque a área da Pedagogia é muito escolar, eu busquei o social, eu acho que o social está no meu sangue, eu vim dessa situação, eu digo: “Não, eu quero o terceiro setor”. Terminei a minha trajetória na Casa de Passagem, fui para outras ONGs também, mas eu acho que a primeira coisa é você aprender, você se conhecer, você acreditar em você, eu tenho um lema comigo que é: “Eu não desisto nunca, eu acredito no potencial do outro”.

 

Eu conheci a pobreza e acho que a pobreza é a falta de algo, a falta da comida, do dinheiro... Infelizmente precisamos do dinheiro para sobreviver, para poder ter uma condição de vida razoável, porque o governo não dava isso aos pobres, então com a visão que eu tenho hoje eu digo que falta efetivar as políticas públicas. Hoje, com o conhecimento que eu tenho, que eu não tinha vinte anos atrás, existem direitos, mas onde estão esses direitos? Eles existem, a lei existe, mas eles não são efetivados, e até hoje, eu acho que a gente precisa dessa luta intensa para que a gente busque a efetivação dos direitos para os menos favorecidos. 

 

Quando eu conheci o Projeto ViraVida, lá no processo seletivo, ainda com a consultoria, eu já fiquei encantada. Primeiro porque eu já carrego comigo toda uma bagagem de trabalho social, com jovens em vulnerabilidade social, então eu não me assustei com nada. Quando, na verdade, ela apresentou o projeto, eu fiquei encantada, eu me vi nesse lugar, eu sonhei, eu tive muita fé, sabe, esse meu emprego do SESI eu atribuo a Deus. Eu tenho uma fé muito grande, porque desde o primeiro dia, que eu disse: “Essa vaga é minha”, e tinha gente muito boa na seleção, tinham pessoas que faziam mestrado, e eu tive uma boa impressão quando conheci o projeto a fundo, e fui participando do processo seletivo e fui conhecendo melhor, vi que ele é um projeto completo. Com toda a experiência que eu tenho eu nunca trabalhei num projeto tão completo como o ViraVida. 

 

O mais importante no Projeto, eu acho que é a questão de ver o jovem como um todo, e não fragmentado. O projeto ViraVida tem uma preocupação de montar uma equipe multidisciplinar, então eu vejo pelo nosso projeto aqui em Recife, uma equipe multidisciplinar, que está preocupada como um todo, em ver o jovem como um todo e não por partes. Nós da equipe temos uma interação tão grande que se você me perguntar alguma coisa do psicossocial eu vou lhe responder, e o psicossocial sabe do pedagógico, então uma coisa marcante eu acho que é a questão da humanização, ver o jovem completo, família, escola, a questão da saúde, de comportamento, de interação, a preocupação de tirar dessa situação de exploração sexual. 

 

Eu trabalho diretamente com a equipe de professores. Hoje nós temos professor de matemática e de português, tínhamos também a professora de Cidadania... Então eu faço o planejamento pedagógico com eles, eu acompanho, eles fazem o planejamento com o meu monitoramento, quinzenalmente eu olho o planejamento, eu acompanho as atividades em sala de aula, problemas de comportamento de alunos nós temos muito, com o professor, aluno com aluno, aluno com equipe, então nos problemas de comportamento eu faço intervenção também. Faço visita nas escolas, trago um parecer, faço um relatório pedagógico, um parecer pedagógico dos alunos, acompanho aqueles alunos que têm dificuldade. Eu acho que o meu... na minha área, o maior desafio é despertar nos alunos o interesse pela educação, pela escola, porque se eles não tem essa formação eles não vão muito longe. O meu maior desafio é esse, fazer com que eles tenham essa consciência de que a educação é importante.

 

Eu vejo, no futuro, o Projeto como uma política pública. Eu acho que o ViraVida tem exemplos para que os governantes, o país, pegue a metodologia do ViraVida e transforme em política pública, como uma obrigação do Governo e não do Conselho Nacional, eu vejo assim, um política pública efetivada, não só no papel. Meu sonho para o ViraVida é que tenham outros projetos aqui em Pernambuco, para que possamos ajudar outros jovens, contemplar um número maior de jovens, eu acho que o projeto tem condições para isso, poder contribuir mais. Eu gostaria muito de contar a minha história, assim, com todos os detalhes, num evento só para jovens, eu acho que nós somos exemplos para eles, nós profissionais, e quando você tem uma história de vida de superação, eu acho que é importante compartilhar com eles, eles se sensibilizam, eles dizem: “Poxa, ela conseguiu, por que eu não posso conseguir?”.

 

Meu sonho pessoal agora é casar, oficializar o meu casamento. Eu conheci uma pessoa muito boa, estou morando com ela, eu acho que agora eu estou fechando os meus ciclos de trabalho, de casamento... E ter a minha casa própria, que eu ainda não tenho, mas eu tenho certeza que eu vou ter, mas eu quero oficializar meu casamento, quero casar de vermelho, quero fazer tudo, sair da regra, mas meu sonho é oficializar meu casamento numa recepçãozinha pequena para as pessoas que conhecem a minha história, ver as minhas filhas formadas, e ter a minha casa própria, esse é o meu sonho pessoal.

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