Busca avançada



Criar

História

"Eu acho que eu nem tive infância"

História de: Rosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/09/2019

Sinopse

Quando criança, Rosa não recebia cuidados dos pais. Sua mãe não queria cuidar dos filhos e seu pai era muito violento com eles. Ela tinha de cuidar dos irmãos mais novos e apanhava se saísse para brincar. O abandono a levou à prostituição e a desistir de estudar várias vezes. Nesta entrevista, ela nos conta sobre a experiência no ViraVida e seus sonhos para o futuro e para sua filha.

Tags

História completa

Meu nome é Rosa. O meu pai é carroceiro e a minha mãe é empregada doméstica.

Tenho oito irmãos. Eu tenho dezessete anos, sou a segunda mais velha das mulheres. 

Eu acho que eu nem tive infância, cuidando de tantos irmãos, porque minha mãe teve muitos filhos e ela tem 36 anos. Eu e o meu irmão mais velho tínhamos que fazer o serviço da casa. O meu pai saía para trabalhar; a minha mãe ficava em casa, de vez em quando. Eu e o meu irmão, nós gostávamos de brincar com os coleguinhas, só que o meu pai não gostava que saíssemos, ficássemos na rua brincando; ele queria que nós ficássemos em casa. 

Quando chegávamos em casa, a minha mãe falava tudo para meu pai. Quando ele chegava, nós apanhávamos. Eu pedia para minha mãe não contar que estávamos brincando, para ele não bater em nós. Eu acho que nunca tive uma mãe, ela nunca me apoiou em nada, até hoje, nunca me deu nada.

Às vezes, eu nem aparecia em casa. Eu aparecia lá pelas duas horas, eu e o meu irmão. Nós ficávamos entocados nas casas dos vizinhos, nos quintais, no escuro para ninguém ver nada. Ele saía nos procurando, ia atrás de mim e do meu irmão, só que ele percebia que nós não tínhamos voltado para casa por medo de apanhar. Quando nós não voltávamos para casa, nós ficávamos até meia-noite, uma, duas horas da manhã escondidos, com medo de ele nos bater porque ele batia muito em nós.

O tempo ia passando e nós ficávamos só apanhando. Um dia, minha mãe não aguentou mais e denunciou meu pai, dizendo que ele batia em nós e nela também. Passando um tempo, teve a audiência com o juiz. Nessa audiência, decidiram que ele tinha que ser preso. Até hoje ele está preso, vai fazer dois anos, porque ele tentou me estuprar e me bateu, tinha dado um soco no meu olho, tinha ficado roxo e agrediu a minha mãe. 

Nesse tempo, meu pai tinha uma amante. Ele me levou na casa dela, só que falou para não contar para a minha mãe que eu havia conhecido a amante dele. Chegou um dia em casa e eu tinha ido para a rua. Eu [estava] com raiva, porque ele tinha me batido; contei tudo para a minha mãe, que ele tinha uma amante, que ele tinha me levado lá. 

Uma vez teve uma confusão em casa. Minha mãe saiu de casa, ele queria bater na minha mãe e ela saiu correndo, ele estava morto de bêbado e falou que não era para ter deixado ela ir embora, e [que] era para eu ter ido com ela. “Agora tu que vai ser a minha mulher”, ele falava, e tentou abusar de mim. Eu tinha doze para treze anos. 

Ele conseguiu mais ou menos, porque eu chamei pelo nome dos meus irmãos. Tinha dois quartos na minha casa, alguns dormiam em um e outros dormiam no outro. O quarto que eu estava dormindo, dois irmãos meus e duas irmãs… As minhas duas irmãs eram pequenas, uma tinha oito e a outra tinha cinco. Foi muito difícil, eu tento não lembrar de tudo o que aconteceu comigo. 

Passou um tempo, eu não contei para a minha mãe, não tive coragem de contar. Eu entrei na Casa [de assistência]; me sentia mais apoiada pelas pessoas, me sentia mais segura, resolvi contar para a assistente social.

Eu acho que ela nunca acreditou em mim. Depois que ele foi preso, quando nós discutíamos aqui em casa, ela falava: “Eu acho que você gostou de o seu pai ter feito isso contigo.” 

O meu irmão vai visitá-lo. Ele fala que está arrependido, disse também para tirar os meus outros irmãos de onde eles estão - os outros são menores, estão no Conselho Tutelar. Ele disse que está muito arrependido de ter feito isso. 

 

Depois que ele foi preso, passado o tempo, minha mãe fez algumas amizades; só queria saber de festa, não queria saber dos filhos, deixava a casa toda suja. Eu que limpava e cuidava dos meninos; as crianças são pequenas, tinha que ir atrás deles na rua porque ela não ia. Minha mãe passava o dia na rua, chegava em casa só para comer e dormir.

Os meninos estão no Conselho Tutelar porque ela só esperava que eu e meu irmão fizéssemos os trabalhos domésticos. Não queria fazer nada, nem fazia a comida para os meninos pequenos. 

Tem duas filhas, uma de treze e uma de dez [que] ficavam até a noite com as coleguinhas; eu mandava ela ir atrás das filhas dela e ela não ia, porque ela sabe que eu sofri, eu não queria isso para as minhas irmãs. Eu mandava ela ir atrás das meninas por ali porque as pessoas falavam que elas ficavam conversando com meninos, uma só tem treze anos e a outra só tem dez. Eu não quero que isso aconteça com elas, o que aconteceu comigo, nem com elas nem com a minha filha. Com nenhuma pessoa eu quero que isso aconteça.

Quando ele foi preso eu já não morava mais com ele. Namorei uma pessoa, passei um tempo morando com ele. Depois, eu me separei dessa pessoa, não deu certo; ele ficava me xingando, bêbado, queria me bater, e eu nem morava mais com ele, morava na casa de um e de outro, na casa da minha tia, na casa dos outros, sofrendo humilhação. A família dele sempre acreditou no que ele dizia, os únicos que acreditavam em mim era a família da minha mãe. A minha mãe, quando nós discutíamos, não acreditava em mim. Depois que ela veio a se arrepender de tudo, de ter falado algumas coisas.

Eu ia pra festas com ela. Era seresta, reggae, íamos e voltávamos; ela não podia ver um homem que ficava toda faceira, parecia menina nova. Eu saía com ela e todo mundo pensava que nós éramos irmãs, ela dizia: “Não, é minha filha.” Mas isso foi depois que o meu pai foi preso, porque quando ele estava solto as saias dela eram do joelho para baixo. Depois que ele foi preso a mulher só queria usar shortinho curtinho, como menina nova, blusinha de alcinha. Quando ela estava com ele só usava saia e blusa de manga, não usava camisetinha nem nada; hoje ela usa short curto. Uma coisa que ela nunca usou foi maquiagem, depois que ele foi preso ela começou a usar maquiagem também.

Eu estava super mal, não estudava. Não tinha ninguém em casa para me ajudar, a minha mãe é analfabeta e meu pai também. Todo ano eu desistia, passei muitos anos sem estudar; quando eu ia para escola não sei o que tinha, eu ficava só pensando em coisas negativas, tirava nota baixa, não passava. Uma coisa que eu também fiz na minha infância foi usar droga, porque eu não tive apoio.

Às vezes, eu tinha que me prostituir para poder ganhar um dinheiro para comprar alguma coisa. Eu não queria. Eu cheguei até a roubar, eu e mais uma colega minha, porque eu queria uma roupa e o meu pai não queria, só queria que eu usasse saia grande e blusa grande. Eu não gostava, era para pessoas velhas; eu não era velha. Ele queria que eu usasse roupa grande e eu gostava de usar uma roupinha normal, como toda adolescente gosta.

A primeira vez que eu me prostituí foi a minha prima que me apresentou um velho. Ela disse que ele iria me dar muito dinheiro, que ele iria namorar comigo, só que eu não sabia lidar com homem ainda. Eu já tive relação sexual, só que era com esse homem que eu morei junto, eu passei sete meses com ele. Ela me falava que eu era ainda medrosa, era criança; ela me falava tantas coisas que eu fiquei iludida.

Eu conheci esse homem, tivemos relação sexual. Na mesma hora eu fui para o banheiro, comecei a chorar. Eu me senti horrível, me sentia comprada. Eu ficava olhando para aquele dinheiro, eu queria o dinheiro, eu fazia, mas ao mesmo tempo eu ficava com nojo de mim por estar fazendo aquilo.

Quando entrei na casa [de assistência] eu era uma menina realmente assustada, não confiava em ninguém. Eu gostava muito das atividades, gostava muito de brincar quando eu era criança. O meu pai só queria que nós só ficássemos dentro de casa ajeitando a casa, o quintal, limpando, e lá não: nós tínhamos atividades, tínhamos esporte, aulas de arte, leitura, tinha biblioteca. Nos primeiros dias, o meu pai disse para mim que não era para ir, disse que lá era casa de rapariga, discriminava a casa. As funcionárias conversaram com ele, eu disse que eu ia continuar indo; ele disse que não, que lá era casa de prostituta, ficava xingando. Disse que lá era um cabaré, que não ia deixar. Uma funcionária conversou com ele: “Olha, você vai ter que aceitar. A sua filha vai ficar vindo para o projeto.” Ele se acostumou, deixava eu ir, mas toda vez ele me xingava. Eu chegava em casa e ele já falava um bocado de coisa, dizendo que eu estava fazendo coisa errada no meio da rua.

Através da casa, eles fizeram a minha inscrição no ViraVida. Já estava há três anos, já estava saindo; fui selecionada. Tinha que passar por três provas para entrar no projeto ViraVida. Eu passei em todas e hoje estou lá. Eu fiquei muito feliz, porque eu sabia que lá eu iria mudar a minha vida.

Era o meu irmão que tinha que sustentar a casa com o dinheiro do projeto, porque nós tínhamos uma bolsa de quatrocentos reais. Eu ajudava dentro de casa com as despesas da casa, eu e o meu irmão, mas quem tinha que sustentar a casa era minha mãe. Nós até podíamos ajudar, mas ela também ajudando, porque só nós dois… 

Eu passei a comprar as coisas que eu queria. As minhas roupas, perfumes, essas coisas que eu precisava muito, que eu pedia para a minha mãe e para meu pai e eles não compravam. Mudou muito, não fiquei dependendo mais de ninguém, nem pedindo nada a ninguém. Depois que eu entrei, eu coloquei na minha cabeça que iria conseguir tudo que eu queria, que desejava; eu não queria depender de ninguém. Eu entrei, passou um mês, dois meses, três meses, eu engravidei. Eu ficava pensando muito, pensei em abortar; ainda tomei remédio, só que na mesma hora eu me arrependi. Coloquei na minha cabeça que eu iria criar a minha filha.

Eu engravidei de um cara que disse que não era o pai da minha filha, disse que não iria assumir. Conheci outro cara, passei três anos morando com ele. Ele assumiu a minha filha, registrou; acho que é muito difícil encontrar um homem assim como ele, porque hoje em dia os homens só querem emprenhar a mulher e deixá-la, dizer que o filho não é dele. 

No ViraVida tem muitas coisas. Conversar, elas nos reúnem para fazer uma atividade, fazer uma brincadeira, uma dinâmica conosco. Eu também gosto muito de costurar, o meu curso é costura. Quando eu cheguei, eu coloquei na minha cabeça que eu ia ser a primeira a pegar as coisas. Tem algumas coisas que eu erro, tem que desmanchar de novo, porque se sair uma costura errada tem que desmanchar e fazer de novo. Quando eu cheguei, depois de dois dias que eu fui aprender a enfiar a máquina. As meninas não, algumas aprenderam no mesmo dia. A professora falava cada coisa que eu não entendia - não entrava na minha cabeça, só na cabeça das outras e eu ficava com raiva, porque eu queria ter aprendido primeiro que elas e eu sou uma das últimas a entender as coisas. Eu erro muito na costura. A minha professora me elogia muito; ela manda ter paciência, disse que faz parte.

Fico imaginando que um dia eu vou costurar para mim mesma. Eu penso em abrir uma loja, nem que seja uma loja pequenininha quando eu sair, porque nós saímos com uma bolsa de mil reais. Eu pretendo comprar umas duas máquinas para ficar costurando por enquanto, porque lá nós vamos sair para o mercado de trabalho. O dinheiro que eu tiver quando eu sair de lá é para não ficar dependendo de ninguém, para não ficar pedindo dinheiro emprestado. 

Pretendo entrar no mercado de trabalho, dar pra minha filha tudo o que eu não tive na minha infância, na minha adolescência; não faltar nada para ela, como faltou na minha infância, porque tive que fazer tantas coisas para conseguir dinheiro para comprar uma roupa, alguma coisa. 

Penso nos estudos da minha filha. Já era para eu ter terminado os meus estudos. Aconteceu tanta coisa na minha vida: passei por tanto conselho tutelar, fugia com namorado, porque eu não queria ficar em casa apanhando. 

Eu não pretendo desistir, não. Muitas vezes passava pela minha cabeça, porque tinha vezes que eu não encontrava alguma pessoa para ficar com a minha filha. A minha mãe não queria ficar, eu tinha que pagar uma pessoa para ficar; eu encontrava uma pessoa, só que essa pessoa não cuidava da minha filha direito. Eu faltava muito, tinha horas que eu pensava em desistir. 

Meu sonho é ter uma casa. Essa casa aqui não é minha - é da minha mãe, está no nome dela, e ela saiu de casa. O meu sonho é entrar no mercado de trabalho, que nada falte para minha filha e nem para mim; não depender de ninguém, porque eu morava com um cara, só que para pedir uma coisa ele perguntava para quê. Eu não gostava de falar, é muito ruim depender dos outros. Eu não gosto de depender de ninguém, não.

Muita gente no projeto me admira porque eu mudei bastante.  Dizem que eu mudei muito depois que eu tive a minha filha; eu não era mais aquela menina de ficar discutindo. Eu ficava discutindo muito com as pessoas de lá, mas hoje eles me elogiam.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+