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História

"Eu acho que a vida é uma questão do olhar"

História de: Maria Luiza Guião Bastos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2014

Sinopse

Maria Luiza é uma irreverente senhora que nasceu ruiva e que contou histórias muito interessantes em seu depoimento ao Museu da Pessoa. Ela recorda o pai, autoritário e a mãe, submissa e a infância na cidade de Ribeirão Preto. Lembra o fim da Segunda Guerra Mundial, a final da Copa do Mundo em 1950 e como era discriminada por ser ruiva. Relembra como adorava ler e sobre as escolas em que estudou. Presa duas vezes por sua militância na Ação Popular, sofreu torturas no Dops e na OBAN. Por fim, ela discorre sobre o seu trabalho na CHDU, onde se aposentou da vida profissional.

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História completa

Meu nome é Maria Luiza Guião Bastos, nasci em 1º de novembro de 1940, em Ribeirão Preto. Meus pais são Alcides Palma Guião e Paulina Figueiredo Ferraz Guião. Os dois nasceram em Cajuru, se conheceram lá. Ambos eram professores. Ela era professora do que era o primário antigamente e ele era o diretor de uma escola profissional. Durante 40 anos foi professor de Matemática do Instituto de Educação Otoniel Mota. Muitas gerações fizeram Engenharia por causa dele. Olha, ele como matemático era brilhante, ele fazia tudo. E com pessoas era um desastre total, absoluto. Nós éramos três Marias. Ele era tão autoritário que ele disse pra minha mãe: “Nós vamos ter três filhas, as três serão Marias e as três serão rainhas”. A mais velha era a Maria Odette, eu nunca achei uma rainha com esse nome (risos). Eu era a do meio, Maria Luiza, que era a imperatriz que foi casada com Napoleão e todo mundo sabia que dava pra todo mundo. E a última, Maria Cristina, que foi da Suécia, eu acho. Ele dizia assim: “As três têm que ser mulheres pra cuidar de mim”. Então era um cara, assim, absurdamente autoritário até para os padrões daquela época. Era uma fera. E eu, infelizmente, ou felizmente, não sei, nasci ruiva. E a minha irmã mais velha, que era belíssima, me convenceu que eu tinha sido achada no trem. E a minha mãe não dizia nada, ela foi a mulher mais submissa que eu conheci. Eu vou morrer inconformada com isso, ele tinha loucura pelas filhas e ela deixou-o fazer tudo o que queria. Uma vez eu estava em um salão de beleza, tinha uma Elle portuguesa, tinha um psiquiatra ruivo dizendo: “Quem nasce ruivo imediatamente entra em contato com a injustiça”. Eu tinha muitos gatos, muitos cachorros, era uma paixão desmedida! E a escada da cozinha era grande, eu chegava lá em cima e falava: “Meninos Um”, e vinham os cães, todos policiais alemães, aqueles pretos, lindíssimos. Aí eu brincava, ria, fazia: “Meninos Dois”, vinham os gatos.

O meu bisavô Guião devia ser cristão novo. Mas ele contava uma história que a mãe ia fazê-lo padre e como ele não tinha vocação, ele fugiu. Ele se instalou no Rio de Janeiro. O meu avô materno nasceu em Grão Mogol, norte de Minas. Perdeu os pais, veio tocando burro, analfabeto, ele veio com 12 anos. Ele foi o mais rico de toda família, tinha um tino comercial, teve uma fortuna! Eram famílias abastadas, mas de uma ignorância, eu não me conformo com isso! Alguns até estudaram na Europa. Mas eles olhavam mulher sem ver. Era mais do que um objeto, é uma palavra que eu não sei dizer. Porque isso eu via desde pequena, as mulheres na cozinha, elas não sentavam na mesa. As crianças tinham uma mesa separada, mas não podiam falar. Agora, a gente tinha cavalo, subia em árvore, nadava no rio, aprontava todas.  A mais emocionante era a de esconde-esconde. Bola de gude não, isso não me lembro, se era, era só os meninos. A casa dos meus pais era sombria, era triste, porque eles não se amavam, não se davam bem e a minha mãe era muito submissa. Eu me lembro do meu avô dizendo para ela: “Deixa esse homem que eu te dou uma fazenda”. E eu: “Deixa mãezinha, deixa!”. Porque fazenda pra mim era dos meus avós, em Santa Rosa do Viterbo. Essa fazenda era mágica!

As escolas eram ótimas. Nossa, eu adorava! Eu tinha sete anos. O diretor chamava-se Álvaro Cardoso. Ele reunia no pátio e falava assim: “Cadê a cabelinho de fogo?”, eu queria que abrisse um buraco. Eu era muito tímida. Mas eu acho que o cabelinho de fogo devia ser bom porque ele foi pedir pros meus pais para passar do segundo pro quarto ano.  A escola profissional era na periferia. Longe. O maior sonho das minhas colegas era casar com os rapazes das Lojas Pernambucanas. Em Ribeirão Preto só tinha Loja Pernambucas, estava começando a abrir outras, não tinha Americanas, não tinha nada. Eu ficava perturbadíssima, eu falava: “Meu Deus, tudo o que eu quero é sair daqui”. E a ascensão social era casar com os rapazes que vendiam. Mas eu pulava o muro e perto tinha a igreja de Santo Antônio que tinha uma biblioteca. Eu achava a coisa mais natural, eu não estava gostando, eu pulava o muro e ia ler. Com nove anos eu me formei. Depois eu fiz o vestibulinho pro Instituto de Educação, que naquele tempo era mais difícil do que entrar no ITA, passei em segundo lugar, porque eu rodei em Matemática. Depois fiz Serviço Social.

Eu lembro da Segunda Guerra Mundial. Eu lembro que esses homens ficaram com ódio mortal de Eisenhower porque quando estava terminando os americanos poderiam tomar Berlim. Foi uma barbárie total. Mas eles davam pulos, eu não entendia direito porque o tal do Eisenhower entrou em Berlim. Eram só indagações, mas eu via depois no cinema. Eu passava a noite lendo. Porque eu nunca fui de dormir. A minha mãe via a luz e mandava apagar, eu acendia uma vela, não sei como eu não pus fogo. E na fazenda, quando desligavam a luz de medo da fiação eu lia com a lua. O final da guerra eu estava na fazenda dos meus avós. Foi em maio de 45, eu tinha quatro anos. E no entanto o mapa falava muito. Eu acho que eles se encontravam porque todos tinham carro. Todo mundo tinha fazenda. A única coisa que não via era dinheiro, não tinha bebida, não tinha boas comidas, ninguém se vestia bem. Mas eles se encontravam pra discutir. Ou então na casa dos meus avós em Ribeirão, que era na Praça Camões. Era uma casa enorme também. Eu não lembro se foi na fazenda ou se foi na Rui Barbosa, sei que tinha um monte de homem furiosos, querendo que Eisenhower fosse morto, onde já se viu entregar Berlim para os russos?

Eu não sei quem foi que teve a ideia de me dar um rádio. Não se pode dar um rádio pra uma criança. Eu não dormia. Tinha a rádio Jornal do Brasil, que era maravilhosa. E eu escutava e escrevia. Eu aprendi a taquigrafar sozinha. Eu tenho um caderno até hoje. Mas foi uma revolução. E eu tinha um tio, poderoso. Imagina você que ele morava em Casa Branca e tinha piscina, naquele tempo ninguém tinha piscina, 1950. A casa estava cheia nas férias. Era a Copa de 50! Ele falou: “Você vai assistir no rádio o Brasil ser campeão”. E não foi. E com estática e tudo a gente escutou o silêncio do Maracanã. Gente, eu sou tão velha que eu lembro da Copa de 50! O Obdulio Varela no intervalo comprou todos os jornais do Rio, Brasil Campeão, forrou o vestiário e urinou em cima. Os jogadores levantaram e urinaram, e fizeram o gol. Eu só fui ter televisão na anistia. Eu sempre fui contra ter televisão; não é que fosse contra, era uma amolação. Não tinha nada de consistente, era ditadura.

Eu tinha 25 anos quando vim morar em São Paulo. Foi a primeira vez que eu morei na cidade. Vim morar na rua da Santa Casa, Cesário Mota Júnior, uma kitinete. Aquele prédio ‘balança mas não cai’. Eu vim de ônibus, eu não acreditava no tamanho da minha felicidade. Porque a minha avó comprou o apartamento e um tia de Mococa mobiliou. Eu tinha que ligar água, luz, essas coisas, mas isso ficou tão periférico. Teve uma enchente brutal e a minha mala ficou presa no mercadão, então, eu fiquei com a roupa do corpo. Mas quando eu enfiei a chave e vi o apartamento! Olha, foram os quatro melhores anos da minha vida, morando sozinha. Todo mundo em Ribeirão falando: “Se é com a filhinha do Doutor Guião você pode morar”, então as meninas faziam fila. Eu falei: “Não, eu não quero morar com ninguém, imagina!”.

Eu fui trabalhar na Rhodia, a Rhodia fez um concurso, sei lá como chamava, e eu sei que eu passei. A fábrica tinha cinco mil operários, eu conheci os cinco mil. E trouxe seis assistentes sociais de Ribeirão, então elas moraram todas no mesmo corredor do meu prédio. A sexta-feira à meia-noite eu saía, eu punha o salário na carteira, ia comprar flor no Largo do Arouche. A Rhodia pagava 30% a mais do que o mercado, era muito dinheiro. Eu trabalhava como assistente social. Fiz o curso na época da ditadura. Primeira turma. A primeira turma costuma ser brilhante, porque ela chama quem está à toa. Eu fiz o vestibular, passei em segundo lugar, perdi para um ex-seminarista. Mas eu tinha uma cultura acima da média, eu fui muito bem. Tanto que no exame oral caiu Anchieta, eu não sabia nada dele, mudei pra não sei onde. E na faculdade, nós abrimos o estágio, eu fui fazer Paulo Freire na favela. Tinha uma favela minúscula, mas ficou tudo por nossa conta, não tinha professor, é tudo muito precário. Então quando eu fui pra fábrica eu vi que falam tanto da escola, eu nunca fiz dever de casa, não levava a escola a sério. Hoje a escola é tudo. Minhas amigas todas iam almoçar no restaurante da diretoria porque elas queriam casar com os engenheiros e eu ia almoçar no dos operários. Então veio Maio de 68, Jornal do Brasil, eu xerocava. Xerox naquela época, acho que nem o Presidente da República tinha, mas o doutor Jean Avril tinha. Eu dizia: “Boa tarde, boa tarde. Posso xerocar?”. Elas falaram pro doutor Avril: “Essa assistente social está tirando muita xerox”, com ódio de mim.  Ele falou: “A próxima vez eu quero uma”, e ele era francês. Ele deu ordem para as secretárias: “Quando ela vier xerocar, tem que xerocar mais vezes porque eu quero”. Elas me odiaram mais ainda. Eu não sei porque elas me odiavam, eu não tinha importância na hierarquia. Eu fiquei lá três anos. Depois fui trabalhar na Neves & Paoliello. Eu morei em Mogi, fiz coisas extraordinárias. Eu entrei em AP, Ação Popular, mas foi mais o pessoal da JUC, Juventude Universitária Católica. Mas eu não levava a sério não, eu só queria ser livre. Aliás, até hoje, eu não sou fanática por política. O menino que trabalhava comigo, engenheiro, era dono do fusquinha onde o Marighella foi assassinado. Então a prisão foi total. O dono da Neves & Paoliello, eu já trabalhava lá, me chamou e falou: “Você não vai embora, nós não vamos deixar você ir embora.” Eu tinha que fazer pra Neves & Paoliello um relatório sobre os problemas da região, Suzano, Mogi, então, eu fui, primeiro eu reuni os prefeitos. Mas precisava de muita lábia, entravam os caras que eram da Fundap, que eram tudo gente brilhante que trabalhava lá. Eles iam ver qual era a demanda, porque estava se formando a Grande São Paulo. Reunia associação de moradores. Numa dessas é que eu fui presa, fui considerada comunista porque a Associação de Moradores era uma coisa comunista. Foi em Pindamonhangaba, em 1968. Depois, eu fiz um concurso no Hospital do Servidor, passei em segundo lugar também. Na divisão de trabalho me puseram como assistente social do trabalho, eu não mexia com doença, mexia só com funcionário. É uma história que se eu for contar demora cinco horas. Mas tinha um chefe tarado. Eu entrava na sala dele e tirava a chave. Graças a Deus, eu esqueci o nome dele. Eles chamam a SNI e falam que eu era comunista. Foi complicado. No Dops o cara falou pra mim: “Eu vou quebrar tua rótula, se você gritar eu quebro a outra”. E a dor é indescritível. No dia seguinte ele veio pedir desculpas, ele falou: “Olha, nós temos oito interrogadores, seis estupram. E você é muito bonita”. Até hoje eu me pergunto: “Será que não teria sido melhor ser estuprada?” Porque eu parei de andar. Eu dei um tempo, fui pra Ribeirão, minha mãe me viu e começou a chorar. Eu devia estar com uns 30 quilos. Eu fiz greve de fome na Oban. Eu dizia: “Eu só tomo um copo de leite se vocês me derem um maço de cigarro”.

Eu não tinha noção da extensão, eu não sei explicar, ele tinha uma fixação em mim, ele tinha sido meu professor no Normal. Eu tinha 30 anos e ele tinha 53, era casado, tinha filhos e netos. Quando eu saí da Oban, não só ele estava morando lá, como ele disse: “Já terminei meu casamento”.  Ficamos dez anos juntos. Foi um escândalo. Mas na época eu não dei a menor importância. Fomos morar em Araraquara. Ele teve um câncer, espinocelular. Acabei ficando grávida, ele falou: “Vamos ter um filho”. Eu fui vendendo o que eu tinha, eu tinha fazenda, eu tinha um monte de coisa, tudo de herança. Eu tinha comprado uma casa, um dia ele falou pra mim: “Não sei qual é o problema de pagar aluguel”. Eu fiquei muito assustada, saí e comprei uma casa no nome dele. Ele morreu a casa foi quitada. Bom, ele morreu, foi cremado. Eu não tinha dinheiro pra pegar o Cometa pra voltar pra Ribeirão. Então eu resolvi que em Araraquara eu não ficaria, não ia criar um filho que tinha 12 anos numa cidade que cheirava maconha.

Fui trabalhar na Cohab. Teve uma reunião do Gracinha na minha casa por conta de uma menina que quase morreu com droga. Eu fiz coisas assim, no MAM eu reuni as meninas uma vez, elas que pediram. Nossa, elas sentaram no chão, acho que a gente ficou umas três horas conversando. Foi uma coisa muito boa. É um talento? Eu acho que a palavra da moda é empatia. Todo mundo está se tocando que se não tiver não vai resolver. Porque eu peguei incesto, pedófilo, pra quem eu ia falar? Eu ia levar pra polícia? Falar o quê? Heliópolis foi a experiência que eu mais lancinante que eu tive, porque eu entrei às seis da manhã e me enfiei em uma creche, sem carro oficial e sem crachá.  Como eu escrevia muito, que eu tinha um jornal, o jornal era maior gracinha. Foram os primeiros sites, o primeiro blog. E eu tinha uma chefe espetacular, que era filha do professor Cesarino, aquele professor negro das Arcadas. Ela, petista roxa, está em Brasília até hoje, mas ela me deixou trabalhar. Porque eu tive um chefe, ele chefe chegou e falou assim: “Eu acho que você não entendeu o nosso objetivo. Aqui nós só queremos funcionários analfabetos”. Eu voei em cima dele. Passei por cima da mesa. Ele saiu correndo. Aposentei na CDHU.

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