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Eterno comerciante

História de: Davi de Gonçalves Peroni Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Davi Gonçalves Peroni Filho fala sobre sua grande família e as difíceis condições em que cresceu. Conta sobre seus pais agricultores, e como ajudou a sustentar a família logo aos 12 anos no comércio, trabalhando por conta própria logo aos 16. Aborda as dificuldades do comércio da região e sobre a pouca ajuda que o governo oferece para os que plantam guaraná e àqueles que vivem do  turismo. Fala também sobre os índios da região e a festa do guaraná.

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História completa

Davi Gonçalves Peroni Filho, data de nascimento dia 13 de maio de 1940, nascido em Maués, Amazonas. Minha mãe é Francisca Talita Peroni, era doméstica. Meu pai é Davi Gonçalves Peroni e era agricultor. Meu pai é filho de sírio casado com italiana, não sei, um cruzamento de sírio com italiano. Nós moramos aqui em Maués desde a idade de dois anos, nunca saí de Maués. Tenho dez irmãos. Ficam vendendo e comprando coisinha aqui na cidade pra outros verem e vendendo, trabalham no mangueirão. Tem um comércio pequeno, outro tira madeira aí, os outros estão em Manaus, estão trabalhando lá com os outros irmãos. Agora só tem quatro, comigo.

Quando era na minha infância, só tinha três ruas. Quando eu me entendia, só tinha três ruas. Tudo era guaraná pra cá. Foi acabando o guaraná daqui de perto. Depois o pessoal, tirando hoje os guaranás, estão lá longe, só nas estradas agora.

Comecei a trabalhar com 12 anos, mas ajudando o cara no comércio, depois eu me acostumei, com 16 anos eu comecei a trabalhar por minha conta, no comércio também. Morava no interior, comprava um produto no interior, voltando de uma cidade, eu tinha um barco de dez metros. Viajava lá de cima até a boca do caminhão, descia, trazia os produtos, chegava aqui em Maués e vender, assim que eu comecei a minha vida. Depois apareceu o pau rosa, pra tirar o pau rosa, fui tirar pau rosa, não deu certo. Então, voltei pra comercializar o guaraná e castanha. Me dei bem.

Não era difícil estudar, é que meu pai estava velhinho, os outros filhos saíram e eu fiquei só eu com meu pai. Então fui trabalhar pra manter meu pai e minha mãe, por isso que eu deixei de estudar, ainda tinha irmãos pra estudar, eu tinha de ajudar o meu velho, por isso que eu deixei de estudar. Depois no comércio, não fui mais estudar.

A castanha tinha no interior.  O freguês chegava pra outro freguês e perguntava se tinha o produto. Se só tem castanha, comprava castanha no dia, vendia assim nas latas, colocava, derrubava, quando completava a carga de lá a gente vinha para Maués, vender. Comprava mercadoria e nós voltávamos, a outra vinha. Borracha, a gente trabalhou borracha, castanha e o guaraná, sempre trabalhei com guaraná, fui levando, depois eu tive diversos carros, caminhão. Depois do Collor pra cá que começou a desvalorizar tudo e não teve condições de aguentar. Teve que vender.

Na época, na fase que não tinha guaraná, quem mantinha a família era eu. Tive gado também, pecuária, tive bastante gado, depois foi acabando, meu pai faleceu, tive que vender o gado porque não tinha mais quem tomasse conta do meu comércio, tive que, ou bem o comércio ou bem pro interior, então foi acabando com o gado também. De lá pra cá, de 75 pra cá, eu fiquei só na cidade, tenho meus terrenos no interior, mas está parado ainda lá, tenho um castanhal no interior, grande... 

Fazer uma lei que dificulta a produção, vai se fazer manejo aqui, é uma burocracia, vai pra cá, vem pra lá, tudo paga em dinheiro, paga pra eles irem lá ver o terreno, tudo isso impede de evoluir a cidade. Se não tivesse muita burocracia, todo mundo fazia um manejozinho no seu terreno e ia produzir. Então isso impede a economia do município, que se fosse mais ou menos liberal, pouca coisa, tem de estradar, tem que marcar os paus tudo, emplaquetar tudo, nós temos. Meu irmão está fazendo um manejo aí, está com dois anos e até agora não saiu, então tudo isso empata, até já limpou o terreno de lá por baixo e não pode derrubar nem um pau. É pra preservação então nós fizemos isso e até agora não saiu, já gastamos o dinheiro lá e o dinheiro pra repor não saiu até agora.

Acordar cedo, dorme tarde e durante o dia a gente vai pra venda fazer compras, e vender aquele negócio. Eu trabalho com refrigerante, cerveja e outras coisas, guaraná também. Não tem só o guaraná, tem várias coisas variadas. Então o dia a dia é a luta, atendendo os fregueses. Dependendo do espaço que tem, a gente compra, a luta do dia, meu comércio é pequeno, só eu não posso colocar muita coisa, senão a gente não dá conta, só mais pra ir passando o tempo agora. Eu já fui comerciante grande, eu tive supermercado e, depois que meu pai morreu, acabou a vontade, não fiz muita coisa. Quando tinha muita coisa depois morre e fica tudo aí. Essa vida é passageira, só está de passagem, se fecha os olhos, pronto, acaba.

Eu tenho um barzinho lá e os índios frequentam muito, umas pessoas comportadas, pacatas, não fazem confusão. Se eles tomam uma cervejinha e pronto, acabou vão embora e o civilizado não, se beber muito começa a querer brigar, não sei o que é isso. O indígena não, não briga, todo mundo toma ali junto com eles, os próprios índios vêm lá, um chama o outro índio. Toma lá e pronto, acabou de tomar já vai embora, não se vê briga, não se vê nada, não dá trabalho pra policia. Agora o civilizado com má fé se não mata um ou dois não está satisfeito e o índio não, o índio se respeita, respeita a gente, respeita os irmãos deles, os próprios índios, não tem problema. O civilizado não, não se entende, o civilizado é perigoso, não se entende, qualquer coisa quer brigar, qualquer confusão já quer puxar uma faca, uma arma de fogo. É assim.

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