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História

Estreitando os laços entre Brasil e China

História de: Thomas Law
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Thomas Law fala sobre sua vida pessoal, suas viagens à China e seu trabalho na Ibrachina.   

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História completa

P1 – Oi, Thomas, tudo bem com você?

R – Tudo ótimo, Grazielle.

P1 – Ah, que bom! A gente começa sempre pelo básico: você pode falar qual é o seu nome, local e data de nascimento?

R – Meu nome é Thomas Law, eu moro aqui em São Paulo e nasci dia 08 de setembro de 1981.

P1 – E qual é o nome dos seus pais?

R – O nome do meu pai é Law Kin-Chong e da minha mãe é Hwu Su Chiu, conhecida como Miriam.

P1 – E qual é a ocupação deles?

R – São empresários. E eu também segui um pouco desse ritmo empresarial, cultural, da família chinesa, mas hoje eu atuo muito na área jurídica, também e eu tenho um escritório de advocacia na área de novas tecnologias e também contratos aqui no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.

P1 – Você tem irmãos?

R – Tenho um irmão, o Henrique, que é meu irmão. A gente tem um ano e sete meses de diferença. E ele é um grande empresário, que também está no ramo de estacionamentos e ele também toca um clube que a gente formou faz pouco tempo, que é o Ibrachina Futebol Clube, que trabalhamos com meninos e meninas de projetos sociais e temos agora uma categoria profissional do Sub-20, Sub-17 e Sub-15, na região da Mooca. Prazer.

P1 – E você lembra da casa em que você passou sua infância?

R – Eu morei na Aclimação, na Vila Mariana. Eu sou nascido em São Paulo e a primeira casa que eu me lembro foi na Vila Mariana. Depois disso eu me mudei pra Aclimação, que é um bairro conhecido por orientais. Fazia natação, estudava em colégio americano desde pequeno, mas eu também praticava o Taekwondo com o Mestre Kim na Liberdade, na Aclimação. Então, tenho muitas boas memórias da minha infância. E depois disso eu saí da Aclimação e fui morar no Morumbi. E eu moro no Morumbi até hoje. Depois mesmo de casado, construí uma casa e estou morando ali na região da Vila Inah, no Morumbi.

P1 – Sobre a casa da sua infância, você consegue descrevê-la?

R – Então, minha casa na Vila Mariana era uma casa não muito grande, mas era uma casa que eu lembro que tinha estacionamento. Era pra uma vaga só de carro. E eu lembro que foi uma infância muito boa, [com] momentos tranquilos. E aí, depois disso, quando eu fui morar na Aclimação, foi um apartamento ali na José Getúlio. E era um apartamento também pequeno, mas também muito bom para se morar, porque tinham muitas coisas fáceis na região da Zé.

P1 – E quais que eram suas brincadeiras favoritas, dessa época?

R – Ah, eu jogava… eu gostava muito de futebol. Eu jogava muito futebol na escola e tinha aulas de natação ali na região da Aclimação. A própria… como eu falei: o Taekwondo, pra mim, na época, era muito legal. Eu parei na faixa verde. E aí, depois que eu saí da Aclimação e fui pro Morumbi, eu parei de praticar o Taekwondo, mas eu tenho essa memória, essa lembrança muito boa ali, naquela região. 

P1 – E seus pais, são de São Paulo mesmo, ou eles vieram de algum outro lugar?

R – Meu pai vem de Hong-Kong. Ele veio jovem de Hong-Kong, com três anos de idade, com os meus avós. A minha mãe vem de Taiwan, com a minha avó, também, mas muito pequena. Os dois se conheceram no Brasil, aqui no colégio… aqui na Paulista, inclusive. E foi assim: eles se conheceram, meu pai tinha acho que quinze, dezesseis anos, minha mãe também era jovem. E se casaram muito cedo também. Minha mãe acho que com menos… com vinte anos, já tinha se casado com meu pai. Até minha avó não queria que ela se casasse tão cedo, mas foi uma decisão dela. E ela estava fazendo PUC São Paulo também, ela cursou o curso de Administração de Empresas, só que já foi pro mundo também, já casou super cedo e teve eu e meu irmão Henrique. Então, foi uma grande surpresa aí. E do lado da minha esposa Ana, os pais da Ana vieram da China. O Fernando e a Sueli, que são meus sogros, vieram da China, perto de Xangai, de uma cidade chamada Shenzhen. Então, eles também saíram da China há bastante tempo. O Fernando e a minha sogra se conheceram no Brasil, mas o Fernando tem uma história muito parecida com a da minha sogra. Os dois eram da mesma região de Shenzhen e eles foram pra Macau e de Macau pra Portugal e [de] Portugal vieram para o Brasil, vieram para… acho que pararam no Rio de Janeiro e depois vieram para São Paulo. Mas se conheceram também aqui em São Paulo, mas eles têm essa trajetória que é muito engraçado, né, que é o pessoal que saiu de Shenzhen, essa cidade da China, que eu acho que a grande maioria dos chineses fora da China são dessa região, Grazielle. E tem muitos shenzheneses, que eles chamam, que residem na Europa, na Espanha, né e fora da Europa, no Brasil e em São Paulo. Então, tem toda uma trajetória grande dos chineses que saíram da China e também uma grande imigração chinesa no Brasil.

P1 – Seus pais costumavam te contar histórias, assim, sobre o passado deles, sobre os antepassados também?

R – Não, Grazielle. Tem uma… acho que na parte do meu pai, um avô… parece que ele já tinha vindo, saído da China para o Brasil. Tinha uma história lá atrás que ele também tinha pastelaria, ganhou dinheiro no Brasil e voltou pra China. E aí depois de um certo tempo fizeram uma imigração, mas já era o avô do meu pai. Era aquela ancestralidade que já tinha conhecido o Brasil, mas voltou para a China. E aí, da parte da minha mãe, ela não conhecia o Brasil, nem meus avós, mas tinham parentes também dizendo que o Brasil era um grande país para se morar. Então, na verdade, eles desbravaram, né, vieram… e a gente sabe das grandes dificuldades, seja por língua, seja por conhecimento da cultura. É tudo um país novo. Então, a nossa família… eu tenho que ser muito honesto que o Brasil foi um grande país, realmente um país que estendeu as mãos para a minha família, meus pais, meu irmão. Fez com que, hoje, eu casado com a Ana, já temos quatro filhos. São todos filhos nascidos em São Paulo, brasileiros. E é com muito orgulho que eu falo que o Brasil é um grande país, porque recebe pessoas de todos os lugares do mundo. E eu tenho amigos aqui no Brasil, Grazielle, que são japoneses, são coreanos, judeus, palestinos. Então, é uma grande mistura e, ao mesmo tempo, um país que tem tudo pra crescer. Eu vejo o Brasil como um grande país. Inclusive pensando, agora, nessa pauta dos Dezessete Objetivos do Desenvolvimento da ONU, dessa Agenda 2030. E eu vejo o Brasil como um líder nessa questão de se implementar uma economia verde, um crescimento sustentável do Brasil. Então eu vejo, assim, um grande potencial, especialmente a cidade de São Paulo. Porque aqui em São Paulo, a gente tem também uma imigração muito forte de diversas etnias e raças de diversos países.

P1 – E, voltando um pouquinho pra sua infância, você lembra qual foi a primeira lembrança da escola?

R – É, eu estudei em colégio americano, então minha mãe já queria me colocar desde cedo na escola. E a primeira lembrança que eu tenho, Grazielle, é de ir pra escola, mas não querer ficar na escola. Eu lembro que eu chutava a professora, chorava, queria a minha mãe. E eu sei que eu realmente fiz uma revolução de não querer ficar na escola. Mas eu tenho essa memória até hoje, desde o que eles chamam de ‘kindergarten’. Eu realmente fiz um barulho pra não ficar na escola. E eu me lembro também que eu entrei no prezinho em escola americana e eu bombei o ‘K-4’. Eu acho que assim, é ‘K-1’, ‘K-2’, ‘K-3’, ‘K-4’, ‘K-5’. E eu acho que eu bombei o ‘K-5’, que é o prezinho, né, da escola americana. E aí minha mãe foi falar com a professora: “Mas por que você está bombando meu filho, né? Por que ele tem que repetir o ano?”, “Não, vai ser melhor pra ele, pra ele aprender o inglês, porque agora não importa, ele está avançado, ele está novo nessa série, se ele ficar mais um ano, ele vai ficar melhor pros outros anos”. Então, assim, eu até bombei, acho que é o ‘K-5’ da escola americana, mas pra mim foi uma alegria, porque eu tive mais amigos depois, depois eu fiz uma amizade com os outros professores e eu fiquei um ano a mais na escola americana.

P1 – E teve algum professor que te marcou, em todo o período da escola?

R – Ó, a gente tem muitos amigos. E hoje, por exemplo, tem professores que estão em outras escolas americanas. Os meus filhos estudam em escola americana, então, assim, é até por indicação. Por quem está… por quem é o professor, é que a gente faz a escolha, até por esse gesto de amizade, de confiança. Tem amigas minhas, que se formaram comigo, que também são professores de escolas americanas. Então, você faz um… é uma família. Você convive numa família, num núcleo muito interessante. E eu tenho amigos hoje que moram, por exemplo, em Portugal, que estudaram comigo na escola americana. Amigos que estão na China, que estudaram comigo em escola americana. Amigos em Nova York, em Los Angeles, que estudaram comigo. Agora, recentemente, eu fui pra Dubai e encontrei um amigo meu de escola americana. Então, acho que isso aí é muito legal, esse contexto de família. Acho que vira um núcleo familiar, a escola, a Chapel, onde eu estudei. E eles pensavam muito na questão de esportes, né, então tinha muitos campeonatos. O “Little Eights”, o “Big Four”. Tenho amigos também na advocacia, hoje, que estudaram em outros colégios, mas por exemplo, eu me formei e fiz doutorado na PUC. Um amigo meu se formou também, fez o doutorado na USP e a gente se fala até hoje. Então, virou até um coleguismo na área acadêmica, profissional, mas a gente remonta a amizades desde a época de escola.

P1 – Uma dúvida, assim: como é que foi o seu processo de alfabetização? Porque você estava na escola bilíngue, né? E eu imagino que seus pais falavam mandarim dentro de casa. Como é que foi isso pra você?

R – Grazielle, eu tive que fazer um reforço no português. Durante, até a minha trajetória na escola americana, eu tinha um amigo que me dava aula de redação, da gramática e da língua portuguesa, porque o português realmente é uma língua super difícil de se aprender e principalmente as regras de ortografia. E na parte da língua inglesa, americana, era muito legal, porque a gente estudava com os livros todos ingleses. Os livros de literatura eram livros americanos, a nossa matemática era, também, americanos. Tínhamos história do “American History” e era muito legal. E aí, na parte do mandarim, que eu comecei a estudar sozinho… lógico, minha família falava e tudo, mas eu tinha aulas de mandarim de sábado, nas escolas de mandarim na Liberdade, no Bopomofo. Só que na verdade, tem… era mandarim, só que eu aprendi o jeito que eles chamam de Bopomofo, que é o jeito de Hong-Kong, Taiwan, de estudar. Não era o chinês, o mandarim simplificado. Porque recentemente o governo da China simplificou a língua mandarim, né, pra facilitar e na minha época que eu estudava, não. Já era o chinês, que eles dizem, complexo, complicado. Mas foi uma experiência boa. Depois da minha… da parte que eu me formei em colégio americano, uns dois ou três anos depois eu morei na China também. Eu fiquei em Pequim por um ano e meio, estudando mandarim. E esse tempo que eu fiquei lá, um ano e meio, pra mim foi muito bom, Grazielle, porque remontou, realmente. Você começa a trazer aquela parte cultural, a história, toda a questão da língua. Porque o kanji, quando você estuda o kanji, você estuda a história. Todos os caracteres em mandarim têm um significado. O CTG sabe disso, todas… né, você sabe a questão da cultura, da língua, é fundamental. E lá em Pequim, tive o prazer de conhecer muitos amigos, do ____ University, do Beijing University e lá eu aprendi muito, muito, muito. Foi uma experiência incrível pra mim. E, lógico, eu tinha um ‘background’ do mandarim, mas foi lá que eu fiz uma imersão da cultura e da língua.

P1 – E tem alguma… você sentiu algumas semelhanças e diferenças entre o Brasil e a China, quando você morou lá? Você lembra de alguma?

R – Então, Grazielle, a primeira coisa que eu fiz na China… obviamente, eu adoro comida chinesa. A culinária chinesa é muito rica. E no momento em que eu morei na China, eu saía todos os dias pra jantar, porque foi mais ou menos lá pelos anos de 2006, 2007, então ainda se vivia muito tranquilo na China, a qualidade de vida era muito boa, não era muito caro. Depois das Olimpíadas de Pequim, os preços aumentaram. Então, em 2006, eu saía todos os dias para jantar com meu irmão Henrique, a gente estudou lá. E pra mim foi uma experiência incrível. Só que chegou uma hora, também, que eu estava com saudade do arroz e feijão. Eu estava com saudade do churrasco brasileiro, Grazielle. E aí descobri um restaurante brasileiro chamado Alameda. E aí conversei, eu virei um frequentador do restaurante brasileiro, que era de duas brasileiras, duas brasileiras do sul, que estavam com um restaurante lá, muito bem localizado, um restaurante de alto padrão, muito bom, com arroz e feijão, bife. E foi pra mim aquela… uma alegria de voltar, também e pensar no Brasil, porque a culinária brasileira também é muito boa. E eu também ia pras churrascarias brasileiras também, na China. Então, eu fazia… que nem eu tô aqui em São Paulo, eu vou muito nos restaurantes chineses também, pra matar a vontade da culinária chinesa.

P1 – Tem algum prato que você experimentou que só tem lá e aqui não, que você achou interessante?

R – Grazielle, a China… se você pensar em culinária, você tem de tudo. E Pequim, por exemplo, uma coisa que eu adorava comer, que a gente ia nas universidades e tinha também, é o ‘dumpling’. O ‘Shuǐjiǎo’. ‘Dumpling’, que é o pastelzinho a vapor. Tinha de carne moída. É muito bom. E eu lembro, quando eu era jovem, que eu fui pra universidade do _______ (18:57) University, eu fui com uma amiga e ela falou: “Não, Thomas, fica à vontade, usa o meu cartão, veja o que você quer comer”. Eu sei que eu, junto com meu irmão, pedimos setenta pasteizinhos ‘Shuǐjiǎo’ pra comer. E comemos os setenta ‘Shuǐjiǎo’ tranquilamente, Grazielle. E aí, no outro dia, a minha amiga falou: “Não, vou levar vocês pra comer o ‘fondue’ chinês. Eu não sei se você já comeu o ‘hotpot’, Grazilelle, que é, por exemplo, uma sopa e você pode escolher verdura, carne, cogumelo, todas as misturas você coloca nesse ‘hotpot’. E é um restaurante da região onde é conhecido como a região da pimenta. E a minha amiga que é dessa região, falou: “Não, Thomas, vamos pedir algo apimentado, porque o apimentado que é o bom”. E aí foi eu, meu irmão e ela, colocando a carne, mas, assim, a sopa, Grazielle, era vermelha de pimenta. Vemelha, vermelha. E aí ela comia, não bebia água, não bebia nada, normal. E eu comia um pedacinho de carne, uma verdura, tinha que beber quase que dois litros de Coca-Cola, porque eu não aguentava aquela pimenta. Então, assim, eu acho que o legal de se aprofundar nessas questões culturais, na gastronomia e conhecer uma cidade como ela tem que ser conhecida, ou um país como ele tem que ser conhecido, é realmente aproveitar e degustar os pratos típicos. Então, foi muito legal essa experiência pra mim como um aluno em formação. E posteriormente, agora, como presidente do Instituto Ibrachina, poder falar sobre isso e também fazer eventos culinários chineses, tanto daqui dos chineses para os brasileiros, como também a gente quer fazer eventos, futuramente, do ‘Brazilian Day’ para os chineses, na China.

P1 – E esse período em que você estava em Pequim, estudando, você chegou a visitar outros lugares da China?

R – Eu fui, Grazielle, pra Hong-Kong, fui pra Shenzhen. Fui pra Guangzhou, pra Macau. Eu fui pra várias regiões da China, mas assim… fui pra Xangai. Mas eu gosto muito de Pequim. Pequim, pra mim, é a capital da China. Pequim, pra estudar o mandarim, é legal, porque é aquele sotaque mais oficial, né, que eles dizem, do mandarim. E Pequim, pra mim, é uma cidade que é acolhedora também, diferente, um pouco, de Xangai, nesse aspecto. Guangzhou é uma cidade grande, uma metrópole, muito comércio. Shenzhen é uma cidade de tecnologia de ponta hoje, com grandes ‘hubs’ e polos tecnológicos. Eu tenho amizade com a prefeita de Shenzhen e eu fiz uma… eu recebi essa comitiva de Shenzhen no Brasil, no Rio de Janeiro, levei a prefeita pro Fogo de Chão, no Rio de Janeiro. Ela adorou. Adorou a cachaça, também, a cachaça brasileira, o café brasileiro. Em 2020, antes da pandemia, a gente tinha uma programação de levar a cultura brasileira para Shenzhen, na feira de “Cultural Fair”. E eu já estava organizando uma ida, inclusive, da banda Olodum. O Olodum ia conosco, fazer um ‘pocket show’ e levar um pouco do Olodum da Bahia para a China, nesse grande evento que teria em 2020, em maio de 2020. Só que aí, com a pandemia, tivemos que cancelar a viagem e retomamos agora com essas viagens, não para a China ainda, porque a China acho que tem uma quarentena de vinte e oito dias, né, está super rigoroso. Mas eu já fiz algumas… fiz uma viagem recente, em que a gente levou duas ‘startups’ do Brasil, agora, três ‘startups’, para a feira do Gitex, em Dubai. E lá em Dubai, agora recentemente, reativei também alguns contatos com algumas empresas chinesas na área de tecnologia. Então, assim, a gente está retomando dessa pandemia, mas eu acho importante o instituto, nosso instituto, continuar com essas fontes com a China, especialmente nessa área tecnológica, porque realmente a China, hoje, em matéria de inovação, tecnologia e soluções para ‘smart cities’, está muito avançada. E isso eu vi agora na feira da Gitex, porque a feira da Gitex comtempla um pavilhão inteiro de ‘smart cities’ e metade da feira era de empresas chinesas. Tanto a Huawei, quanto a ZTE e algumas outras empresas chinesas que lá estavam, no pavilhão. Então acho que, assim, no nosso papel como um instituto que faz essa ponte com a China, é importantérrimo essa conexão das ‘startups’ do Brasil com as ‘startups’ da China e vice-versa.

P1 – Voltando um pouco para esse momento em que você estava estudando em Pequim, né, teve algum momento, assim, marcante, que é inesquecível pra você e que você pode contar pra gente?

R – Grazielle, em Pequim, eu acho que foi um período, pra mim, marcante em todos os sentidos. Eu tinha aula de mandarim, depois eu saía da minha aula e fazia as minhas lições de casa na cafeteria. Eu conversava com todo o mundo, conversava com o garçom, com a garçonete. Fiz amizade com uns amigos na China, que inclusive tinha balada, por exemplo, na Muralha da China. Então, sabe, tem coisas, assim, que a gente não vê, não sabe do Brasil, obviamente, mas a China é uma grande potência. Eu ia em uns barzinhos na China que eram barzinhos, assim, realmente espetaculares. Eu sei que hoje deve estar muito mais aprimorado, os barzinhos, restaurantes. Eu sei que em 2019 eu fui na comitiva do Bolsonaro. Saímos com alguns amigos e empresas depois, que tinha até, inclusive, restaurantes com três estrelas Michelin. Você começa a ver o cardápio, já tem cardápio com vinhos Ribera del Duero, que antigamente não tinha isso. Na minha época que eu morava em Pequim, eu não via os vinhos internacionais. Eu via alguns, via aqueles vinhos mais vendáveis, ou aqueles vinhos de marketing, mas os vinhos mais… eu diria mais “tchans”, por exemplo, da Espanha, foi agora em 2019 que eu percebi que realmente o consumo e a qualidade do consumo aumentou muito na China.

P1 – E depois que você terminou a escola, de fato, qual que foi o próximo passo? Foi ir pra Pequim fazer… aprender mandarim?

R – Grazielle, olha que bacana: como eu estudei em colégio americano, eu ganhei uma bolsa de estudos para estudar numa faculdade americana, em virtude do meu futebol. Eu jogava bem o futebol de salão e o futebol de campo, aí acho que um professor de uma universidade falou: “Vou dar a bolsa pro Thomas”. Teria que ir pra Boston, estudar. E naquela ocasião tinha aqueles eventos “Career Day”, na escola americana. O que significava o “Career Day”, Grazielle? Se os pais dos amigos iam, falavam: “Olha, eu sou empresário, meu dia é assim, assim, assado”. E, na ocasião, eu e minha amiga, uma amiga da escola, não estou lembrado o nome dela, fomos para o Tribunal de Justiça de São Paulo, com o ministro Lewandowski, porque a filha dele estudava com a gente, a Lívia Lewandowski. E o ministro, que na época não era ministro, era um desembargador do TJ São Paulo, o Desembargador Lewandowski, Enrique Lewandowski, falava assim: “Thomas, entra aqui na sala. Você está entendendo a audiência? Escuta agora a sustentação oral do advogado”. E eu lá, né, magrinho, com aquele terninho Colombo, com a gravatinha assim (risos): “Sim, senhor”. Pra mim foi uma grande experiência ver os advogados na Tribuna, fazendo um debate, né, cada um mostrando seu ponto de vista. E depois de lá falei: “Ah, acho que é legal estudar Direito”. Mas até então, Grazielle, eu falei: “Não, vou estudar…”. Naquela época, você pensava em futebol, você pensava em sair com os seus amigos, você pensava em ir pras baladas. E aí depois eu comecei a cursar o curso de Direito. E aí eu fui estagiário de um juiz aqui do João Mendes, que era o juiz diretor do Fórum João Mendes. Então, eu fiquei fazendo estágio direto com o juiz, que é o Doutor Irineu Jorge Fava, hoje desembargador do TJ. E eu ficava na vigésima vara cível, fazendo os relatórios, estudando os processos, ajudando a conduzir as audiências com os advogados e eu aprendi muito, daquela época em diante. E depois o meu sonho era ser juiz, eu comecei a fazer concurso para estágio dentro de outros órgãos públicos. Eu fui estagiário, depois, do Ministério Público do Estado de São Paulo, depois eu passei em um outro concurso, da Procuradoria da Fazenda. Daí eu fiz a minha carreira dentro dos órgãos públicos, na época de estágio das universidades. Aí eu pulei pra área criminal, depois, também na Defensoria Pública. Comecei a fazer júri, com os grandes advogados do Tribunal do Júri, que foi uma grande experiência pra mim. E depois de um tempo, já na advocacia privada, eu alterei muito, mudei, fui pra área criminal, fui trabalhar na área empresarial, comecei a trabalhar na parte de direito empresarial imobiliário. Depois eu comecei a fazer, organizar as viagens junto com arbitragem internacional, Grazielle. Aí você vai falar: “Mas, Thomas, o que é isso?” Eu comecei a participar, junto com os professores da PUC São Paulo, a preparar os alunos para os eventos de “Arbitration Moot”, que são os eventos de competição de arbitragem internacional, que são casos simulados, também, de contratos internacionais. E aí eu comecei a viajar muito, também, com os alunos, tanto pra Viena, que a gente fez muitos eventos em Viena e depois para Hong-Kong. Então, a primeira equipe do Brasil que foi pra Hong-Kong foi eu que levei, nesse trabalho de eventos internacionais na parte do Direito Internacional. Então, até hoje a gente tem as equipes da PUC, da USP, tem equipes de João Pessoa e foi tudo fruto daquele trabalho que a gente fez lá atrás, pela Academia e universidade. Muito legal, Grazielle.

P1 – E como é que foi a experiência da faculdade pra você, durante? Muita coisa mudou na sua vida, quando você entrou?

R – Ah, eu acho que a faculdade de Direito é isso. A gente brinca que a universidade, a faculdade é um clipe, né, um ‘trailer’, mas você tem toda uma trajetória pra frente. E eu me lembro que eu fazia esses estágios e comecei a fazer, em determinado momento, dois estágios. Um na Defensoria Pública e o outro na conciliação, né, nas Pequenas Causas, que tinha na Faap. Então, eu fazia bastante… eu gostava disso, porque acho que pra você entrar e cursar o curso de Direito, você teria que gostar, teria que estar lidando com os problemas do dia-a-dia, com os problemas, sei lá, seja de empresas, seja de pessoas. É sempre pensar como é que você faz de uma forma que você pode mediar os conflitos. E a faculdade de Direito da Faap foi muito legal pra mim, porque eu fiz muitas amizades também com os professores. E até hoje, Grazielle, a gente tem uma parceria com a Faap, pelo Instituto Confúcio. O Instituto Confúcio, que tem a língua mandarim como mote e a cultura chinesa, eles têm praticamente um andar na Faap, metade de um andar, onde era o curso de Turismo e a Lurdes, que é a diretora, junto com a Ana Prestes, com a Ana, eles fizeram um lugar totalmente com características chinesas. Tem uma arquitetura chinesa. A professora Su Hsu também está lá, que é do Instituto Confúcio da China e também dá aula no Instituto Confúcio da Faap. E desde 2018 a gente tem feito parcerias na divulgação da cultura, na divulgação de eventos. Fizemos um evento do museu da Faap com a China, o cônsul geral da China também participou conosco, das gravuras do Gongyi. Já fizemos eventos de culinária, também, na Faap e também de maobi, que é a escrita chinesa. Também teve eventos do ____, lá na Faap. Então, assim, foi uma construção já desde a época de estudante de Direito e que hoje, com a Faap, a gente tem essa parceria muito entrosada. E recentemente, este ano, fizemos também uma live com a Faap, falando da imigração chinesa. Então, tem também um material muito interessante dos imigrantes chineses, de alguns, cinco ou seis pessoas que participaram daquela live e fizeram uma técnica de perguntar pro chinês imigrante: “Ah, por que seu nome, em português, é ‘João’?”, Grazielle. Aí ele fala: “Ah, João porque a pessoa que tem que escolher o nome, né?” Então, a Rebeca: escolheu o nome de Rebeca porque é um nome bíblico. Ela que escolheu o nome Rebeca. Então, assim, é muito legal o jeito de se pensar em trazer também esse contexto da imigração chinesa, porque a pessoa escolheu o nome. Qual que foi o último lugar em que ele esteve na China, que veio pro Brasil e qual foi o primeiro lugar que ele chegou no Brasil, se ele tem alguma foto, se ele tem alguma lembrança. Então, eu acho que essas questões também, de destino, de imagem, de lembranças dessa imigração, é super importante, porque fica na memória da pessoa.

P1 – Você e sua família são bem integrados com a comunidade chinesa de São Paulo?

R – Grazielle, sim. Na verdade, assim, existe a Associação Geral dos Chineses e quem fundou a Associação Geral dos Chineses foi o meu sogro, o Fernando. Então, ele foi um grande líder da comunidade chinesa há muito tempo, ele fazia muitos eventos, mas eram eventos para dentro da comunidade. E eu, junto com a minha esposa, a gente pensou muito no trabalho do nosso instituto, o Ibrachina, não só como um trabalho voltado para a comunidade chinesa, mas sim um trabalho voltado pra todos, todas as pessoas do Brasil. E não só do Brasil, a gente quer fortalecer também as raízes do Brasil, da China e dos países de língua portuguesa. A gente entende que existe uma grande conexão com esses países. Então, a nossa proposta de trabalho, a nossa proposta, a nossa missão, é realmente fazer o quê? Uma integração das duas culturas, né, através de eventos, através de ‘workshops’, através de palestras. E quando começou o Ibrachina, quando a gente fundou, eu fundei com amigos e colegas, era pra gente fazer livros, palestras sobre questões jurídicas, Grazielle. E hoje não ficou só nessa questão jurídica, né, não ficou só nesses debates de contratos internacionais. Embora hoje eu também seja o presidente da Coordenação Nacional Brasil-China da OAB, a gente tem vários livros para serem publicados ainda esse ano, o Ibrachina virou um canal de informações. A gente começou também a questionar, a rebater os ‘fake news’ que apareciam sobre a China, durante a pandemia. A gente fez um canal de denúncia “Racismo, não”. Então, a gente fez um canal na época da pandemia, um canal de “Racismo, não”, um canal de denúncia. A gente começou também a ajudar, junto com a comunidade chinesa no Brasil… não diria, assim, que a entidade é assistencialista, mas a gente começou a ajudar com doações de EPIs, máscaras para várias comunidades em São Paulo. O Hospital das Clínicas, ajudamos também com doações das comunidades. Em Manaus, Amazonas, por exemplo, a gente ajudou com mil e setecentos cilindros de oxigênio para Manaus. E a gente tem várias empresas chinesas que também nos apoiaram nessa doação, nessa ação de ajuda humanitária. E aqui eu posso destacar várias: tem a Lenovo, que nos ajudou. A Gree, a Huawei. A embaixada da China ajudou com apoio financeiro também ao estado do Amazonas. Então, assim, eu agradeço muito as empresas chinesas que tem nos apoiado muito nesse trabalho de ajuda humanitária. E o Ibrachina virou um canal realmente de informações, um canal de… ah, o “Educa Week”, por exemplo, que teve agora, a gente indicou os professores da China para falar sobre a educação da China, para os professores do Brasil, no “Educa Week”. O Rodrigo Moura, que nos representa na China, também fez esses grandes contatos. Eu tenho uma pauta com a _____ (40:03) University, agora, que ela quer fazer estudos avançados no nosso… com o Ibrachina, também. Eu tenho um apoio do Mackenzie, também, que quer fazer cada vez mais um aprofundamento dos estudos Brasil-China, China-Brasil. Então, eu tenho que agradecer todos esses colaboradores, todos esses ‘players’, porque realmente, com essa cooperação internacional, a gente tem promovido cada vez mais pontes para essa troca de informações, Grazielle.

P1 – Aproveitando que você falou na integração, né, como foi pra você ser criado entre duas culturas diferentes?

R – Grazielle, pra mim foi fundamental, porque, hoje, como presidente do Ibrachina ou da coordenação, eu posso realmente passar minha experiência, tanto do ponto de vista pros empresários chineses de como é o Brasil, como passar também um pouquinho do que eu sei da China para os brasileiros. E a gente sabe que a China está em uma mudança totalmente dinâmica. Eu estive falando com o cônsul da China, recentemente, o Gabriel, ele voltou da China e falou: “Thomas, faz dois anos que eu não vou pra China. Eu fiquei de quarentena, saí e tive que estudar a China de novo, porque mudou tudo. Seja no meio de pagamento, seja na plataforma WeChat. Seja no ‘e-wallet’, seja também agora nessa questão do Covid, como as pessoas estão se comportando”. Existe uma mudança, realmente, de comportamento, mundial. Existe uma preocupação hoje e aí a minha preocupação como presidente também da comissão Brasil ONU, de fazer esses vínculos internacionais, para que os países saiam e pesquisem em conjunto, para se evitar novas pandemias. Então, a importância dos organismos internacionais, hoje, é fundamental para as próximas gerações. E aí, voltando à questão da China, meu amigo falou: “Thomas, é tudo muito novo, eu comecei a voltar, eu voltei a estudar”. Então, se eu tô… eu não vou pra China desde 2019, eu vou estar com esse mesmo sentimento, Grazielle. Você, que por exemplo não foi pra China faz cinco anos, você vai ver que é outro lugar, é um outro mundo e realmente precisa juntar, evidentemente, a questão da tecnologia, mas a tecnologia não só. Não adianta você ter uma ‘smart city’, se você também não tem pessoas capacitadas para promover o ‘smart cities’. Por isso que uma das minhas indagações, que recentemente a gente fez um evento aqui em São Paulo, foi dizer: “Tudo bem, vamos falar de cidades inteligentes, num mundo dos países desenvolvidos. Mas qual é o conceito das cidades inteligentes para os países subdesenvolvidos? Qual é o conceito das cidades inteligentes, por exemplo, para o Brasil?” E se a gente pensar dessa forma, Grazielle, eu, você, qualquer um vai pensar em ter uma cidade melhor para os nossos filhos, para o amanhã. A gente vai querer pensar numa cidade melhor, com uma qualidade de vida para os nossos filhos, muito melhor do que hoje. Então, a nossa ideia de se promover essas conexões, esse ‘hub’, é exatamente ver o que que a gente pode cumprir de agenda dessa Agenda 2030, dos Dezessete Objetivos da ONU, então é um caminho longo, árduo e precisamos não só dos agentes privados, precisamos dos agentes públicos, dos nossos governantes, para pensar nesse tema e também da sociedade civil organizada. E aí, quando eu falo “sociedade civil organizada”, eu digo os alunos, a Academia, as pessoas que estão morando naquela região. Então, a nossa ideia principal, daqui pra frente, Grazielle, além do Instituto Ibrachina e fazer os eventos culturais, é realmente pensar no que a gente pode ajudar nessa cidade do amanhã.

P1 – Pelo senso comum, né, as pessoas conhecem a China como uma cultura milenar. Tem algum conhecimento que foi passado de geração em geração na sua família?

R – Grazielle, acho que uma cultura milenar… tem que pensar também como os chineses pensam: em longo prazo. Ninguém faz nada em curto, médio prazo. Eu acho que tudo o que você tem que fazer é fazer… ter o início, o meio e o fim. Então, eu vejo muitas coisas, por exemplo, na China você pensa no… você acompanha, por exemplo, os Planos Quinquenais. Todas as sessões do parlamento chinês: “Ah, vamos pensar em projetos em cinco, dez, em quinze, vinte anos”. E aí, se a gente pensar no Brasil, me dá um pouco de desespero, porque a gente não tem nenhum planejamento de metas a longo prazo. Eu tô falando da Agenda 2030, porque quem construiu essa agenda foi a ONU. Grazielle, eu tô me pautando como um brasileiro hoje, pensando na agenda internacional. Agora, a gente tem alguma agenda nacional? Essa é a pergunta. Ou é só para o ano que vem, as eleições de 2022? É isso. Agora, se a gente pensasse lá atrás, remontasse à ideia que tinha do Juscelino Kubitschek, dos ‘cinquenta anos em cinco”, você já tinha uma ideia de que existia um planejamento. A construção de Brasília, uma cidade bem no meio do Brasil. Então, existia um projeto, um plano. Agora, evidentemente a gente sabe que São Paulo cresceu de forma desordenada. Cresceu, é uma potência. Mas como é que a gente faz, então, dessa cidade de São Paulo, ser uma cidade que pode ser transformada numa cidade inteligente? Então, uma das minhas indagações é isso, hoje. E é óbvio que eu falo São Paulo, mas a cidade de São Paulo vai impactar o Brasil inteiro, porque São Paulo é a cidade financeira, é o motor do país Brasil. Então, eu vejo com uma alegria muito grande esse movimento que a gente está fazendo, porque existe já o movimento de Curitiba e agora São Paulo está criando esse movimento também, via o nosso instituto, para revitalizar o Centro de São Paulo. Para pensar em mudanças urbanas. Mas quando você pensa em questões urbanas, você também tem que pensar na requalificação das pessoas. Então, vejo que existe sim uma preocupação dos agentes públicos, mas precisamos se unir, para que isso aconteça de forma democrática e também de forma inteligente.

P1 – Thomas, passando pra perguntas mais pessoais, você pode contar como é que conheceu a Ana?

R – Posso, sim, Grazielle. A Ana é filha do Fernando e o Fernando, por incrível que pareça, como líder da comunidade chinesa e expoente, inclusive com um grande relacionamento ao corpo diplomático chinês no Brasil… meu pai e minha mãe já conheciam o Fernando há muito tempo. E como é que eu conheci a Ana, na verdade? Uma amiga da minha mãe me ligou um dia e falou assim: “Thomas, você precisa conhecer uma menina assim, assim e assado”. E eu falei: “Mas quem é, Li?” Minha amiga é a Li, ela: “Não, é a filha do Fernando”. Mas, na verdade, assim, a Li, junto com a tia da Ana, as duas são amigas desde a infância. A tia da Ana ficou falando para a Li, e a Li ficou falando para mim. Então, ficou uma coisa assim, meio que uma apresentação das amigas da parte da tia da Ana e uma amiga da minha mãe, que é muito ligada à minha mãe, que falava: “Você precisa conhecer a Ana”. Só que assim, Grazielle, ela me deu o telefone e eu também não dei bola. E aí, em uma viagem que o governo da China me convidou pra ir como um jovem da comunidade chinesa, um advogado, tudo bancado pelo governo da China, em 2009... 2010, eu fui e eu fui junto com o irmão da Ana, que é o William. Então, eu conheci o William na viagem, ficamos amigos, saímos juntos lá em Pequim e depois eu fiz amizade. E depois eu conheci a Ana e fiquei mais próximo da Ana, mas foi através da viagem. Inclusive, uma viagem que foi patrocinada pela China e foi muito legal essa viagem, porque juntaram os grandes advogados, pessoas em destaque da sociedade, tanto do Brasil, como de outros lugares do mundo e eu fiz amizade com muitos chineses de outros lugares do mundo, inclusive de Barcelona. Tem um amigo meu que mora em Barcelona agora, que eu vou estar em Barcelona, no “Expo Smart Cities” e ele vai estar lá comigo, mas eu conheci onde? Na viagem do governo da China, em 2010. E foi muito legal, porque eu fiz conexões com chineses de Singapura, eu fiz conexões com os chineses de Hong-Kong, Canadá, Austrália. Então, virou realmente um ‘hub’ de ‘networking’ com descendentes de outras gerações da China, fora da China.

P1 – E o seu casamento, você lembra como é que foi? Teve festa?

R – Teve e foi numa época boa, a economia brasileira estava bombando, então eu recebi grandes presentes de amigos. Foi em 2013. Fizemos um evento, o casamento… acho que fechou agora, mas era um salão de eventos muito grande, com setecentas e vinte e duas pessoas. E foi um momento incrível. Recebi parentes dos Estados Unidos, os primos chegaram dos Estados Unidos. E era uma época boa. A economia do Brasil estava bombando, Grazielle. Eu lembro que estava todo o mundo feliz. Você tinha um movimento, assim, a sensação das pessoas era muito positiva. E foi um casamento… eu casei na igreja e depois também teve uma festa. Então, foi muito bacana, foi bem legal mesmo.

P1 – Foi uma festa tipicamente chinesa?

R – Na igreja, foi tradicional, né, o jeito tradicional, na igreja católica. E na festa foi com tradição chinesa também, inclusive a Ana tinha o vestido dela, o vestido chinês, ‘Qipao’, né, então ela andava com o vestido chinês. E teve… a família dela é muito grande, então também tinha muita gente lá que falava mandarim, só escutava em mandarim. Mas foi bem legal, tinha, sim, uma tradição chinesa. Não uma tradição chinesa como na China, né, a cerimônia do chá, mas foi bem legal, sim. Um chinês brasileiro, meio que moderno, né? Contemporâneo.

P1 – Você comentou que vocês têm quatro filhos, né? Como foi, pra você, a experiência de ser pai?

R – Grazielle, a melhor experiência do mundo. Eu diria que um filho é uma coisa de outro mundo, né? Você só sente quando você vê a criança, o bebê chorando, você trocando fralda. E hoje, o Artur, que está com oito anos, me ensina tudo do ‘smartphone’, ele me ensina muita coisa dos jogos que ele joga, do “Fortnite”, dos professores que ele segue aí, no Instagram. E obviamente a gente tem grandes desafios de cuidar também dessa tecnologia que pode também ser ruim pra criança. Você tem que ter um controle, também, nesse aspecto. Mas é uma grande alegria. Eu tenho uma filha, a Sofia, é super carinhosa comigo, uma menina bem… fala “papai”, enquanto que os meninos, o Artur é muito carinhoso também, só que ele quer jogar bola. O Leozinho, não. O Leozinho, que é meu terceiro filho, gosta de dinossauro. Então, ele quer gritar, quer bater, ele quer… ele é uma emoção. E o Felipinho, que tem dois meses, agora, mas está gordinho, né, então a Ana está se dedicando exclusivamente pro Felipinho, mas graças a Deus é uma casa cheia, é uma casa agitada e todo dia existe uma coisa nova, Grazielle.

P1 – Virtualmente, além da Ibrachina, quais são as atividades que você faz hoje?

R – Então, fora o Ibrachina, Grazielle, eu advogo, tenho escritório. Eu sou também sócio fundador da Apecc, a Associação dos Empresários do Circuito de Compras em São Paulo, do Centro de São Paulo. Eu também faço parte da coordenação nacional das relações Brasil-China. Eu tô como diretor do Cedes, que é um centro de estudos avançados de Direito Econômico, com o professor Rodas, que é o ex-reitor da USP daqui de São Paulo. Então, assim, são várias tarefas. A gente está abrindo agora esse espaço de “Open Innovation” e “Coworking” na cidade de São Paulo. Então eu sou o fundador, mas evidentemente temos uma equipe toda levantando, trabalhando diariamente nessa construção da tecnologia no Brasil e São Paulo. E a parte também que a gente tem a parceria do Ibrachina Futebol Clube, como eu tinha te falado antes, que é um CT, um Centro de Treinamento, na Mooca, num bairro que está sendo revitalizado também na região da Mooca, na Rua Borges de Figueiredo. E esse projeto do Ibrachina Futebol Clube mexe com todas as crianças, jovens de comunidades, também. Então, temos treinamentos de meninos e meninas na comunidade de Heliópolis, por exemplo. Tem duzentos meninos e duzentas meninas de projetos sociais nossos que, eventualmente, né, se tiver um alto rendimento, vai poder treinar também no nosso CT e poderá ser, no futuro, atleta do nosso Ibrachina Futebol Clube. Então, a gente está focado muito nesse trabalho de capacitação dos jovens e a gente tem parceria também com as universidades, como eu havia dito. E a ideia é realmente dar oportunidade pros jovens. Eu estudei em colégio americano e tive a chance de poder ter essa bolsa de estudos, né, como eu falei anteriormente. E a ideia também desse intercâmbio internacional é dos meninos terem a chance de, de repente… não precisa ser um grande… não precisa ser o Neymar. Não precisa ser o Cristiano Ronaldo. Mas essa formação, junto com a escola, junto com o clube formador, nosso selo é de clube formador. A gente quer fazer com que esse menino possa, de repente, ter uma bolsa de estudo para uma universidade fora, Grazielle. E com uma bolsa, sei lá, um ‘tuition’ que custaria cem mil dólares numa universidade americana, vezes quatro, daria quatrocentos mil dólares nesses quatro anos de formação do menino, do atleta, do jovem. Então, de repente buscar alternativas e dar bolsas de estudos para esses jovens. De repente ele não volta um Neymar, mas ele volta um empresário que pode tratar de questões da gestão esportiva. Que pode ser um empresário que queira montar uma franquia de algo que ele viu nos Estados Unidos. Então, isso tudo faz parte realmente de um processo. Eu acredito muito no desenvolvimento humano, né, porque quem vai fazer o futuro do nosso país são esses jovens. Acredito muito no futuro das novas lideranças políticas, por isso que o nosso “Ibrawork” a gente vai ter uma vertical de ‘GovTech’. E acredito muito também na vertical do ‘FoodTech’. ‘SportsTech’. ‘RetailTech’. Então, está tudo envolvido nesse processo da tecnologia, mas dentro de um espaço, de um ‘hub’. 

P1 – Caminhando para a parte final da entrevista, quais são as coisas mais importantes pra você, hoje?

R – Em primeiro lugar, Grazielle, a família. Eu acho que a família é tudo, acho que a base do ser humano, do homem, da mulher, é a família, os filhos, o amor e o carinho desse núcleo familiar, acho que isso é importante. Evidentemente que meu filho pode aprender muitas coisas na escola, pode estar fazendo a formação dele na escola, com os amigos, mas acho que o núcleo familiar, na minha opinião, é a coisa mais fundamental. Evidentemente, a religião. Eu… a Ana, inclusive, depois que eu casei… a minha formação é de escola americana católica, mas depois que eu casei com a Ana eu frequento muito o Templo Zu Lai em Cotia, então tenho muito esse aprendizado do budismo hoje. Mas entendo que é em primeiro lugar a família, o amor, o carinho, a fé e tudo isso pautado no trabalho. Acho que o trabalho também enobrece muito o homem e o trabalho te dá outras… são consequências positivas de tudo o que você faz.

P1 – E quais são seus sonhos para o futuro?

R – Meus sonhos para o futuro, Grazielle, são fazer o Brasil… São Paulo, em primeiro lugar, uma cidade… teve essa transformação digital, essa revitalização do Centro de São Paulo, que isso impacta as pessoas que aqui residem. E obviamente não só São Paulo, mas o Brasil como um todo, que é um país muito bom. Eu conheço vários estados do Brasil, eu tenho um apreço muito grande por outros estados. Minas Gerais, por exemplo, que a gente tem uma sede do Ibrachina lá, com a parceria da Editora D’Plácido. O Espírito Santo, que a gente tem muito trabalho com a OAB do Espírito Santo. Mato Grosso, também é um estado muito bom, onde o ‘agrobusiness’ brasileiro é muito forte. Então, a gente também tem o convênio do nosso instituto com o governo do estado do Mato Grosso. Gosto muito do Paraná, gosto muito de Foz do Iguaçu. Já fizemos vários eventos, também, em Foz do Iguaçu, de congressos de Direito Internacional. E também o Amazonas. Acho que não só o Amazonas, mas digo o nordeste como um todo e essa minha retribuição, como sendo filho de chineses, nascido em território nacional. Ou seja, é necessário realmente mostrar que o Brasil tem essa credibilidade internacional, por receber bem os imigrantes de todos os lugares do mundo.

P1 – E, por fim, como é que foi contar sua história pra gente?

R – Ah, uma alegria, Grazielle. Não pensei que ia ter, agora, uma entrevista assim mais pessoal, né? A gente fala muito pras mídias. A gente fala muito com o Radar China, o Observa China. A gente fala com outros ‘players’, mas não no aspecto mais pessoal. Acho que é importante humanizar também esse lado e eu fico à disposição do Museu da Pessoa, desse projeto e da CTG. Eu agradeço muito pela oportunidade de contar um pouquinho da minha história e da história da minha família, também.

P1 – Ah, a gente agradece em nome do Museu da Pessoa e da gente também. Muito obrigada, foi ótima.


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