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História de: Rodrigo Gonçalves Alvarez
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

A entrevista relata desde a infância em Santos até sua mudança para São Paulo. Lembra com carinho da avó paterna, imigrante espanhola com quem tinha estreita ligação, e do avô materno. Fala da dificuldade em escolher a carreira e da adaptação à cidade de São Paulo, sobre como enfrentou a depressão até iniciar os primeiros passos rumo à atividade profissional. A partir de uma palestra que assistiu sobre profissionalização da gestão de organizações sem fins lucrativos, na Fundação Getúlio Vargas, onde cursou Administração, descobriu seu interesse. Trabalhou como captador de recursos no Doutores da Alegria, até que participou de um outro processo seletivo e foi atuar com desenvolvimento institucional no CDI. Tornou-se coordenador de desenvolvimento institucional no CDI, instituição na qual destaca a importância do trabalho em rede, responsabilidades e profissionalismo. Por fim, valoriza o tempo que consegue dedicar aos filhos Caio e Clara e à esposa Flávia.

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História completa

P/1 – Você poderia dizer seu nome, local, data de nascimento, nome dos pais?

R – Meu nome é Rodrigo Gonçalves Alvarez. Nasci na cidade de Santos no dia 3 de fevereiro de 1972. Meu pai Diego Lobarinas Alvarez. Nasceu também na cidade de Santos. Também data de nascimento deles?

P/1 – Se você souber.

R – Nasceu dia 13 de outubro 1943, em Santos, também. Minha mãe é Maria Teresa Gonçalves Alvarez. Nasceu na cidade de Santos, no dia 23 de agosto 1947. Ontem foi aniversário dela. 

P/2 – Você pode falar um pouco dos seus pais, a atividade deles? Eles se conheceram em Santos? Como que foi?

R – Se conheceram em Santos. Moravam próximo, inclusive ali naquela região da Vila Belmiro. A minha mãe é diretora de escola, aposentada. Trabalhou a vida inteira com educação. Ela foi professora durante muito tempo. E fez um concurso para... atuou como diretora no final da carreira dela e se aposentou como diretora de escola pública do Estado. Já faz um bom tempo. Vai fazer mais de 8 anos, por volta de uns 10 anos que ela se aposentou. Depois que se aposentou não teve nenhuma outra atividade profissional. Teve poucas atividades profissionais. Meu pai é empresário. É sócio de uma empresa aqui em São Paulo. É empresa de consultoria para concessionárias de automóveis. Eles montam grupos de concessionárias e comparam números. Enfim, dão treinamentos e consultoria para concessionárias. É uma tecnologia americana. E tem um sócio americano e mais ele. 

P/1 – Pelo nome dos seus pais a família deve ser de origem espanhola, né? Você poderia falar um pouco da origem da sua família? Dos seus avós? Se você os conheceu, descrever um pouco a relação deles com a cidade?

R – Tá. Ok. Por parte do meu pai, nasceu em Santos, mas os pais dele são espanhóis. Vieram da Galícia. Especificamente da província de Ponte Vedra. Na Galícia, que é próxima de Vigo. Moravam em uma região rural da Espanha. Moravam na verdade em uma aldeia na Espanha, uma aldeia pequenininha, chama-se Cresciente a aldeia. Uma aldeia que tem pouco mais de 200 habitantes. Ainda existe a aldeia. Meu pai retornou lá à aldeia recentemente. E conheceu a última irmã da minha avó viva, que era muito parecida com a minha avó. Até a minha irmã quando viu caiu em lágrimas, assim, começou a chorar. E meus avós então vieram para o Brasil... meus avós paternos vieram para o Brasil, na onda de imigração de espanhóis para o Brasil do começo do século, do começo do século passado. Na verdade, a minha avó era de 1910 e meu avô era de 1900, se não me engano. E aí eles devem ter vindo para cá por volta de 1930 e parárá. E aí se conheceram aqui no Brasil. Na verdade, eu acho que eles já se conheciam, porque eles eram da mesma aldeia lá, mas não tinham nenhuma relação lá. Aliás, a minha avó tinha um noivo lá, que era do Exército Revolucionário. Contra o Exército do Franco, e meu avô era do Exército do Franco. E acabaram se conhecendo aqui no Brasil. E se casaram. As histórias que eu conheço é de que a minha avó morava na casa de uma tia, de uma prima, de uma sobrinha dela em Santos. E não aguentava mais a convivência com essa sobrinha e acabou escolhendo um noivo aí, para poder casar e sair de lá. A história que eu conheço. E, mas enfim, dessa história nasceu meu pai, que é filho único da minha avó e do meu avô. Eu tenho uma história pessoal muito forte com a minha avó. A minha avó... o meu pai era o único filho. O meu pai e a minha mãe tiveram cinco filhos, então a minha avó tinha cinco netos. E eu era o neto mais ligado à minha avó. E, enfim, gostava muito dela. Era... gostava muito dela mesmo. Ela era uma pessoa super sisuda, dura. Sabe aquelas espanholas ranhetas? E comigo ela era um doce e tal. E hoje eu moro na casa que era dela. Ela vivia falando em vida de quando ela morresse a casa dela ia ser minha e tal. E eu fiquei com isso na cabeça. Quando eu me casei eu perguntei para o meu pai se ele não queria vender a casa que era da minha avó para mim. E eu estou comprando a casa que era da minha avó. E isso para mim é emblemático, né? Do lado da minha mãe, o meu avô e minha avó, aí uma outra família. Muito maior. O meu avô e minha avó tiveram nove filhos. Minha mãe é uma delas. O meu vô, ambos nasceram no Brasil. Meu avô tem uma história de empreendedorismo na cidade de Santos. Ele era construtor. Construiu grande parte dos prédios de um bairro lá que se chama Marapé. E meu avô era uma figura muito emblemática, assim, na cidade de Santos. Porque e como ele construía prédios para populações de baixa renda ele funcionava como um BNH, assim. Ele perdoava todas as dívidas de todo mundo, né? Enfim, ele dava apartamentos para pessoas que precisavam. Ele financiava em trocentas vezes. Ele criava o próprio financiamento. Tinha o sistema de financiamento dele. E enfim, acabou, morreu com mal de Alzheimer. Ele poderia ter morrido milionário, né, e morreu cheio de dívidas. Porque ele administrava os negócios com esse estilo bonachão. Meu avô era o tipo do avô assim que sentava no domingo em almoço de família e todo mundo parava para ouvir as histórias dele de juventude. Ele contava histórias maravilhosas, assim. Ele era um bom contador de histórias. Todo mundo parava para ouvir. Domingos, na casa do meu avô e minha avó, eu me lembro disso muito claramente, assim, tínhamos almoços de família homéricos, sabe? Aqueles almoços com trocentas pessoas. Enfim, essa...

P/2 – E essa casa que você está comprando que era da sua avó, imagino que seja uma casa antiga assim. Você pode descrevê-la? Onde fica?

R – Posso.

P/2 – Onde foi, foi a casa que eles... que ela morou logo que chegou? Como que foi isso aí?

R – É a casa que meu avô construiu.

P/2 – Tá.

R – Meu avô comprou o lote e meu avô construiu essa casa. Nessa região na Vila Belmiro era uma região de fazendas dos japoneses que vieram morar em Santos. E eram fazendas ali mesmo. Meio mangue ali. E eu acho que teve uma época, eu não conheço direito essa história, mas de que os japoneses, eu não sei se não eram muito bem vindos ou foram expulsos daquela região, e aí subiram a serra e foram parar em Suzano, né? Então aquela região de Suzano e Ribeirão Pires ali tem muito japonês, porque eram japoneses que estavam ali na Baixada e não sei por que motivo subiram a serra. Eu não sei se foram expulsos por preconceito, sei lá. E, ah, o bairro do Marapé, chamado Marapé, porque era o caminho para chegar no mar a pé. Por ali não tinha rua nada. Eram fazendas e aí tinha um caminho que chegava na praia. E bom, essa casa é um sobrado, é casa de dois andares, né?

P/1 – É.

R – É um sobrado que é uma casa que tem estilo de construção antigo. Quando não se tinha carros, então, ele não tem uma garagem na frente. E aí a casa é muito próxima da rua. Tem um quintalzinho bem pequenininho na frente e no fundo ele tem um quintal enorme, que é onde a minha avó criava galinhas. Tinha árvores frutíferas diversas. Tinha laranjeira, limoeiro. E tinha morango. Porque a minha avó vinha da aldeia na Espanha, né? Então tem um quintal enorme e a edícula lá no fundo. A área construída é quase do mesmo tamanho da área livre do terreno. Por não ter a garagem e tal e por ter a área construída não é tão ampla assim, fica uma casa barata. E é em um bairro simples de Santos, né, que é a Vila Belmiro. Eu adoro a casa. Quando a gente se mudou para lá, uma casa de dois andares, bom a gente reformou a casa toda. Derrubou paredes, trocou todo o sistema hidráulico, elétrico e tal. E modernizou de certa forma a construção. A gente criou uma cozinha americana. No final da casa que dá para o quintal a gente abriu uma porta de vidro para estender a casa. Agora a gente está criando no próprio quintal um deck de madeira onde vai ter uma área coberta. Enfim, vocês precisam conhecer lá ao vivo, né? [risos] 

P/1 – [risos] Você passou a infância, foi criado em Santos?

R – Fui.

P/1 – Junto com mais cinco irmãos?

R – Cinco irmãos.

P/1 – Deve ter sido muito divertido, né? Como foi a sua infância assim em Santos? 

R – Foi muito divertido mesmo. Foi muito bacana assim. Além de ter cinco irmãos a gente tinha 23 primos, então era... Bom, a minha infância foi na rua, jogando bola. Na praia com os meus pais, fim-de-semana. Não ia na praia durante a semana, que a nossa casa era um pouco distante da praia. E... mas era... brincava muito na rua. Tinha... tenho essa experiência. A partir dos 12 anos, 10 anos de idade, a gente se mudou para um condomínio fechado lá em Santos, que é em cima de um morro. Então a gente perdeu um pouco o contato com essa vivência de rua, né? Mas, bom, isso ficou na minha memória.

P/2 – Essa sua primeira casa em que bairro que era? Você poderia descrever um pouco?

R – Na Vila Belmiro.

P/2 – Como que é a Vila, assim, a Vila Belmiro lá? Que tipo de bairro que é? Se você pudesse descrever um pouquinho.

R – Posso, posso. Então, a Vila Belmiro é um bairro tranqüilo da cidade de Santos. Onde se tem ruas que passam poucos carros. E ainda várias ruas de paralelepípedo. A primeira casa que eu morava era em uma praça bem charmosa, muito bonitinha. Em uma rua, Rua Antônio Carlos, que ficava a uma quadra do campo do Santos. E essa casa... ela tinha um quintal enorme. E a gente jogava bola nesse quintal. Uma lembrança que eu tenho é que a gente jogava muita bola lá. brincava muito nesse quintal. Eu e os meus irmãos. Meus primos iam para lá, então a gente tinha que jogar. Futebol era o principal divertimento nosso. E entre primos. Então tinha os times dos primos. Tinha os times já montados. E tinham rivalidades grandes aí entre os primos. Essa foi a primeira casa que a gente morou. Quando estava construindo a nossa casa lá no morro, a gente morou uns dois anos na casa da minha avó, que também era na Vila Belmiro. Essa casa da minha avó... Bom, a casa super gostosa, de um andar só, grandona. Assim também em uma rua em que tem um pedaço de rua muito amplo. Onde era o campo de futebol e a gente jogava bola. Jogava taco. E a gente morou dois anos na casa da minha avó.

P/2 – E vocês moram na Vila Belmiro? 

R – É, aí eu mudei para o morro aos 12 anos. Fiquei lá até os 18, quando eu vim morar em São Paulo para fazer a faculdade. E, aí, quando me casei há cinco anos atrás, essa história de morar na Vila Belmiro, voltei para lá.

P/2 – Voltou para lá.

R – É.

P/2 – E isso te influenciou alguma coisa na escolha do seu time, por exemplo? [risos] 

R – Ah, com certeza. Com certeza.

P/2 – Você é santista.

R – Meu pai é corintiano e eu sou santista. Eu acho que influenciou. Acho que sim. 

P/1 – O início assim da sua formação foi em Santos mesmo? Escola?

R – Da minha formação de escola foi em Santos mesmo. Foi. Fiz o primeiro grau em uma escola que chama Marza. E o segundo grau em uma escola que chama Universitas. 

P/1 – Foi escola particular ou pública?

R – Particular. As duas, particulares.

P/2 – Tem algum professor assim que você se lembra? Colega? Algum caso que marcou? 

R – Na escola?

P/2 – É, na escola, assim desse período? Como que era?

R – Hum, hum. Tem um professor de História que me marcou muito. Ele era um cara que dava umas aulas que eram um show. Reinaldo Martins, que depois acabou sendo secretário da Cultura lá de Santos, no governo da Telma. Um cara de esquerda. Me marcou muito pela forma apaixonada que ele dava as aulas. Era um cara, uma figura, uma figuraça. E você me perguntou se tem professor, é de amigos assim, bom, eu tenho amigos que eu carrego até hoje da escola. Santos tem essa história, assim, de estar todo mundo muito próximo. É uma cidade pequena, todo mundo se conhece. Então, assim, os amigos de escola eram amigos depois da escola. A gente ia de bicicleta para a escola. E voltava juntos. Ia jogar bola na praia à tarde. Final de semana saíamos juntos. Tem, enfim, tem várias histórias.

P/2 – E a escolha da área que você ia seguir? Uma vez formado, né? Você fez Administração de Empresa. Como foi essa escolha, assim, desde quando você tinha...

R – Engraçado, foi uma escolha, as coisas foram acontecendo. Na verdade, aconteceu. Essa não era bem a minha escolha.

P/2 – Qual que era? Como era?

R – Então, eu queria trabalhar em criação publicitária. Porque eu tinha um primo, na verdade era um primo do meu pai, que era, quando publicidade estava nascendo, que eu, porra, achava o cara... era meu ídolo. Achava o cara era meio malucão, ao mesmo tempo inteligente. Lia muito, ouvia muita música. E trabalhava com criação publicitária. E, inspirado nesse meu primo, eu decidi fazer propaganda e marketing. Só que, ao mesmo tempo, resolvi também fazer uma faculdade de administração de empresas. Acho que muito influenciado pelo meu pai, pelo meu irmão. Nessa época eu tinha... era uma época de competição com o meu irmão. Eu sou muito diferente do meu irmão mais velho. Sou segundo filho, né? E a gente tinha uma coisa de rivalidade, de competição e tal. E aí eu assumi o desafio de entrar na GV, né? Eu falei assim: “Pô, eu vou conseguir isso.” E acho que inconscientemente tinha uma questão aí de competição, de afirmação pessoal, de tal. E aí prestei a faculdade e entrei. E entrei na ESPM também em Propaganda. E comecei as duas faculdades, a tocar as duas faculdades. Só que aí começou a apertar, a questão de apertar a faculdade mesmo. Fazia uma de manhã, uma à noite. Era bem pesado. E era pesado também para o meu pai pagar as duas faculdades. Na verdade, na época, o meu pai trabalhava na Ford, se não me engano, e a Ford pagava a faculdade dos filhos. Mas acho que pagava uma faculdade só. E aí começou a apertar. E, aí, eu na dúvida: “Vou parar uma das faculdades”, e tal. E, batendo papo até com esse meu primo, ele falou assim: “Pô, para a de Propaganda. Faz a GV porque é uma faculdade de mais nome. Vai te dar mais base. E você para trabalhar com propaganda não precisa estar em uma faculdade de Propaganda necessariamente.” Tá beleza. Aí toquei a GV. Comecei, continuei a fazer. Aí porque largar a GV era uma coisa meio assim, né? “Largar a GV? Depois que eu entrei?” Uma pressão da família forte, né, também. E minha. Aí acabei abandonando a GV...

P/1 – A GV não.

R – Não, desculpe, a ESPM. Acabei tocando a GV. E aí isso, bom, não sei, eu acho que vale à pena contar como é que foi a minha chegada à cidade de São Paulo.

P/2 – Exatamente.

P/1 – Exatamente, eu ia perguntar. Vem de um mundo tão diferente, né? De Santos, daquela relação próxima.

R – Pois é. É, chegar à cidade de São Paulo foi bastante difícil para mim. Foi um período muito traumático da minha vida. Justamente em um período de 21 anos que você está...

P/1 – Iniciando.

R - ...É, aterrando. Chegando em uma fase adulta de assumir responsabilidade e tal. Para mim foi muito duro isso. Foi muito duro. Eu tinha uma, eu acho que eu tinha um lado mais ligado à criação, à literatura, à música e tal, e pô! A GV era tudo menos isso, e acabei largando a faculdade que tinha um pouco a ver com isso. Então, assim, na GV, além de não fazer nenhum amigo, eu odiava a cidade de São Paulo. Para mim, a cidade sempre foi muito dura. Foi sempre muito pesada. Nunca considerei São Paulo como meu lar. Eu vinha de uma casa enorme e vim morar em um apartamento aqui que era um cubículo. Vinha de uma praia e vim morar em uma cidade dura, né, como São Paulo. Foi muito forte para mim esse período. Tive problemas estomacais e tal. Tive uma série de coisas. Mas eu odiava a faculdade que eu fazia. O que me dava um certo alento, bom, eu comecei a fazer um estágio. Eu ganhei uma vaga de estágio em um concurso que houve da Fisher Justus. Que era aonde meu primo trabalhava. Esse meu primo que eu falei para vocês.

P/1 – Que admirava.

R – É. E, bom, o estágio foi pior a emenda do que o soneto. Porque aí eu me deparei com o mundo do trabalho. E da propaganda nascendo. Que é um mundo cruel, de competição, mesquinho. Eu inclusive, imagina, com 18 anos de idade caí naquele covil. E, puta, foi a pior coisa que podia me acontecer. Acabei decidindo abandonar a propaganda e não seguir mais propaganda. Aí eu me senti completamente perdido. Queria abandonar a faculdade. Prestei Letras na USP, entrei. Aí fiz Letras, fazia Letras na USP. Estava completamente perdido assim. Não sabia o que eu estava fazendo com a faculdade, estava tocando. Nessa época eu escrevia muito. Tenho calhamaços de livros enormes de um amigo imaginário com quem eu me correspondia. E que era uma espécie de alento para mim. Escrevia muito poema, e enfim, eu procurava um... refúgio, né? Aquele ambiente duro. Quer dizer, eu falo isso, é como me batia, na época. Talvez nem fosse tanto assim. Mas, na época, uma faculdade de Administração de Empresas como a GV formava pessoas para trabalhar em grandes empresas. Em, enfim, posições. Toda a arrogância, todo esse lado que tem um curso de Administração de Empresas, a GV era o creme de la creme, né? Lá era onde rolava isso mais forte. Tanto que, depois trabalhando, contratei, tentei contratar, alunos da GV. Foi um fiasco. Eles são péssimos, são péssimos. Chegam com uma arrogância. Eles chegam como estagiários querendo trabalhar como presidente de empresa, né? Então, puta, foi uma merda, assim. Eu falei: “Caceta.” Você conhece algum caso assim, né? É, então. Todos, né? Todos nós conhecemos. Eles chegam achando que eles são os donos da cocada preta. Porque eles são formados para serem diretores de empresas. Eles não são formados para trabalhar em uma empresa.

P/1 – Não.

R – Para conhecer aquele ambiente, né? Então, puta, é tudo que eu não queria, que não tinha vivido, vivi na faculdade. Eu acho que hoje ainda trago um pouco de resquício, porque eu ainda me vejo um pouco arrogante, em algumas situações, que eu falo: “puta, o que é que eu estou falando? Que merda, cara.” Bom, onde é que a gente estava?

P/1 – Você conseguiu terminar, né? Mas você conseguiu chegar ao fim da faculdade?

R – Cheguei ao fim da faculdade. Bom, por volta de 1991, eu caí em uma depressão profunda. Eu entrei em depressão profunda. Tive reflexos no meu corpo. E, enfim, fui parar no hospital mesmo.

P/1 – Nossa.

R – Hospitalizado. Fui para no hospital.

P/2 – Sozinho. Morando aqui em São Paulo, sozinho, isso?

R – Sim.

P/2 – Nessa época?

R – É.

P/2 – Você não ia e voltava de Santos não?

R – Cara, tinha fases assim que eu ia quarta-feira para aliviar, para ir e voltar, para abrandar a angústia e voltava.

P/1 – Mas isso é que é interessante. Você comprou mesmo uma briga, né, com São Paulo? Quer dizer, você enfrentou mesmo de cara. Você não ficou numa mediação. Porque é tão próximo, né?

R – Fiquei, mas eu tinha uma pressão, tinha uma pressão muito forte da minha mãe. Minha mãe: “Ô, termina.” Não uma pressão forte, mas assim: “Pô, por que é que não vai terminar? Termina, depois você faz o que você quiser com a tua carreira. Mas tem que terminar, e tal.” Aí eu falei: “Pô, é mesmo. Por que é que eu não termino? Vou levando, vou levando.” Aí cai nessa depressão forte. Você queria perguntar alguma coisa? Legal. Em 91. E, bom, isso foi marcante para mim. Esse período de depressão. Eu passei um bom tempo aí tendo os mais variados piripaques, né?

P/1 – Somatizando.

R – É, somatizando. E resolvi ter um caminho, o caminho mais difícil. Não tomava remédio nenhum. Resolvi não tomar nenhum remédio e tratar com, aí conheci uma terapeuta. Que trabalhava com regressão de vidas passadas, enfim. E isso também foi muito marcante para mim. Porque eu questionava esse negócio de vida passada, a gente está aqui viajando, sei lá. Mas o legal foi que através dela e conversando com ela a gente bolou de eu criar um curso de literatura para crianças. Literatura e artes para crianças. Porque a gente falava de um monte de coisas. E a gente tinha um grupo de crianças, que eu comecei a dar aula para elas, lá no consultório dela. E aí uma pessoa acabou sabendo disso, uma fonoaudióloga que estava interessada em pensar a criação de uma biblioteca infanto-juvenil em Santos, que não tinha. E ela me procurou, porque ela ficou sabendo. Ela era namorada de um amigo do meu irmão. Ela me procurou, porque ela ficou sabendo que eu estava dando esse curso e tal. E a gente conversou. Ela ficou encantada com a técnica que eu estava utilizando com aquelas crianças, que era completamente empírica. Eu que tinha pensado, bolado. A forma de trabalhar com as crianças. E a gente partiu da idéia de criar uma biblioteca infanto-juvenil em Santos. Isso evoluiu: “Por que é que a gente não cria um espaço que tenha também uma brinquedoteca?” Porque ela estava trabalhando com essa questão de brinquedotecas. E aí pensamos em criar um espaço híbrido que tivesse uma biblioteca, uma brinquedoteca e uma oficina de artes para crianças. Que fosse um espaço de educação paralela para crianças. E aí montamos um negócio. Pô, isso me botou de novo em contato comigo, eu acho, né? Ah, montamos um espaço cultural. Chamava: Agora Eu Era o Herói. 

P/1 – [risos] Ah, legal.

P/2 – Lá em Santos.

P/1 – Isso.

R – Lá em Santos, é.

P/2 – Aonde que era?

R – Era... não lembro. É Boqueirão o nome do bairro ali. Era.

P/1 – Você chegou terminar Letras?

R – Não, nunca terminei. Nunca terminei. Fiz em São Paulo. Depois teve outra fase que eu comecei o curso de Letras em Santos, né?

P/2 – Isso que eu ia perguntar Rodrigo, talvez voltando um pouquinho: de onde vem esse teu lado, essa tua propensão à criação? E também quais os autores de literatura ou mesmo de música, o que é que mais te toca? O que é que você mais gosta disso daí? De onde vem essa veia? 

R – Puta, não sei da onde vem, cara. É, não sei da onde vem mesmo. Eu nem sou um aficionado por literatura. Mas eu gosto de livros, gosto de Machado de Assis. E achava de alguma forma que, enfim, a educação as crianças se envolvendo com artes, com literatura, isso seria uma forma de transformar a vida das pessoas no seu início. De formar um cidadão bacana do seu início. Em termos de música eu fui muito inspirado por Raul Seixas. Sempre marcou, assim, a minha adolescência, as músicas do Raul Seixas. Eu vi como ele marcou a minha vida e eu tinha vontade de marcar a vida de alguém do mesmo jeito que Raul Seixas marcou a minha. Escrevendo. Queria escrever. Nessa época que a gente estava criando o espaço cultural. Eu escrevia muito. Comecei um livro, escrevi 10 capítulos, que era um livro infanto-juvenil. E não dei sequência. Até outro dia desse procurei esse livro, não achei mais, cara. Deve estar em algum lugar por aí. 

P/2 – Mas ficou o legado pelo jeito, no projeto?

R – Ficou. Ah, sim.

P/2 – Como foi isso daí?

R – Então, foi, bom a gente montou uma empresa, né? Não sei se o foco estava correto, né? Era... acabou virando uma empresa de... que era um espaço cultural, que tinha o objetivo de atender a crianças que no período fora da escola tivessem lá. A criança poderia pagar uma mensalidade ou poderia pagar a diária para estar lá. A gente também começou a fazer convênios com escolas particulares, que passavam um dia lá. Era um espaço muito legal, muito legal. O espaço da biblioteca era assim: tinha um tule que saía do meio da biblioteca e ia para as pontas. E formava, você sentia que você estava em uma cabana das Mil e Uma Noites.

P/1 – Tenda.

R – Em uma tenda, é. E tinha um monte de almofadões, e tinha uma estante bacana. E a brinquedoteca também era muito bonita. E tinha uma oficina de artes no fundo da casa. E um quintal. Quintal que era até meio pequeno, mas era bacana.

P/1 – Quanto tempo você ficou trabalhando aí?

R – Eu não me lembro exatamente, mas deve ter sido um ano, um ano e pouco. O negócio financeiramente não avançou. Porque acho que ele estava mal colocado. Era um negócio que deveria ser uma ONG. E aí eu acho que ele estava mal posicionado. E a gente também tinha pouca experiência ou nenhuma experiência profissional. Eu tinha na época 19, 20 anos. E as minhas sócias, que uma delas acabou virando minha namorada, essa que me procurou. E também tinham 21, 22 anos. Então era uma coisa super incipiente, mas, é claro, marcou a minha vida.

P/2 – E você começou a trabalhar logo em seguida? Como que foi a entrada no mundo do trabalho?

R – Bom, quando deu, é, bom, isso eu já tinha feito estágio lá atrás. Aí aconteceu a experiência lá do espaço cultural. 

P/2 – Certo.

R – Depois de, bom, quando não deu certo o espaço cultural eu voltei para a merda, né?

P/1 – [risos] 

R – “Puta, que é que eu faço agora?” Caí de novo no... Voltei para um ponto não sabia o que fazer. Mas, eu acho que o fato de ter feito o espaço cultural, me trouxe uma luz assim, eu comecei uma reflexão de: “bom, eu não vou desistir da faculdade.” E eu vivia negando a faculdade. Eu comecei a refletir: “será que não existe a possibilidade de alguém que se forme em Administração de Empresas colocar o que está aprendendo a dispor de uma coisa mais legal que não trabalhar em um banco? Ou em uma grande empresa? Será que não pode existir essa possibilidade?” Porque eu via, ou já tinha lido alguma coisa, de que uma escola não conseguia se administrar bem. Eu falei: “Porra, um administrador de empresas pode trabalhar em uma escola. Ou pode conseguir falar a língua de um empresário para, enfim, fazer pontes, né?” Então isso vivia na minha cabeça. Foi aí que eu conheci. Eu fui assistir uma palestra que estava sendo falado sobre o lançamento do Centro de Estudos do Terceiro Setor, na Fundação Getúlio Vargas. Aí eu falei: “Que porra é essa? Vou lá assistir essa palestra.” Aí estava o professor Merege. Que é um professor da GV falando da criação desse centro de estudos e tal. Que estava nascendo no mundo uma preocupação em se profissionalizar a gestão das Organizações sem fins lucrativos. Que eram organizações voltadas a temas como educação, saúde, meio-ambiente, enfim. Ah, eu lembro também, durante a faculdade uma das coisas que me chamou a atenção, durante a faculdade, tinha algumas coisas que eram meio que como um oásis para mim. Eu vi um dia os caras da Anistia Internacional gerando um debate lá sobre pena de morte. Eu falei: “Isso é bacana.” Depois na faculdade também se criou um movimento de criar-se um centro cultural da GV. Dentro da faculdade, que eu me envolvi e tal. Essas coisas que me chamavam a atenção. Eu me envolvia com essas coisas. Os poucos envolvimentos que eu tive na faculdade não tinham nada a ver com a faculdade. E aí quando se criou, quando eu soube da criação desse centro de estudos, porra, logo me amarrei. Eu falei: “legal.” Logo fui me oferecer como voluntário do centro de estudos. Comecei a participar das reuniões desse centro de estudos. Tinha um grupo de pessoas que eram mestrandos, pessoas que estavam gravitando ali em torno do tema. Poucas pessoas. E estava-se criando o centro de estudos. Era uma idéia muito mais do que um, estava se desenhando o primeiro projeto para a Kellogg financiar os sets, né? E aí me envolvi com aquele grupo. E, na época, a Célia Cruz, que era a captadora de recursos da Fundação Getúlio Vargas ela era do grupo de voluntários. E estava precisando de um estagiário. Aí eu me ofereci como estagiário. Eu mandei currículo. Eu me ofereci para participar do processo seletivo. Nunca me esqueço que ela falou assim: “Que processo seletivo? Você é o máximo. Vem trabalhar aqui comigo.” E foi uma, assim foi meio, mais uma vez foi um oásis dentro daquela faculdade. Eu falei: “pô, uma pessoa bacana aqui dentro.” Comecei a abrir os olhos para essa coisa. Então comecei a trabalhar com a Célia. E nos sets. Com o professor Merege. Bom, participei de um monte de coisa nascendo. O primeiro curso de administração para organizações sem fins lucrativos, eu fui o monitor. Eu vi toda a montagem do curso. Eu achava muito ruim a forma como estava se montando o curso. Não tinha um pensamento pedagógico para o curso. Eu era meio crítico com essas coisas. O professor Merege... ele centralizava muito as coisas no set. Enfim, ele tinha os amigos e os inimigos dele. Depois ele foi, ele concorreu à Direção-Geral da GV, e perdeu uma eleição. Eu acho que por volta de 1989. E o Merege era muito ligado ao PT. E o outro concorrente era ligado ao PSDB. Na mesma época que o Lula perdeu para o Collor em 1989. O professor... não, não era em 1989. Eu acho que já era a segunda do Lula, 1994. É isso mesmo. Em 1994 o Lula perdeu pela segunda vez para o Fernando Henrique e o Merege perdeu para o Alan na GV. E era uma eleição ganha para o Merege. E isso, puta, pirou a cabeça dele. Ele virou um paranóico. Eu vivi tudo isso do lado dele, que eu era assistente dele. Eu trabalhava, aí eu já estava me formando. Só faltavam duas matérias na GV. Então, eu trabalhava parte do tempo com a Célia e parte do tempo com o professor Merege. Comecei a me envolver com o tema da captação de recursos. Vi que era um tema que comecei a perceber que poderia ser uma carreira a ser seguida, mas nunca falei assim: “Quero seguir essa carreira.” Fui levando e fui pela, talvez, pela primeira vez me encontrando com, casando um pouco esses dois mundos, né? Nessa época, ainda, eu ainda estava entre Santos e São Paulo. São Paulo ainda era uma cidade, bom até hoje não é a cidade que eu escolhi para morar, né? Escolhi morar em Santos. E enfim, trabalhando com a Célia. Eu estou falando para caramba, não sei se vocês querem, vambora, né? 

P/1 – Vambora, isso mesmo.

R – Beleza. E aí trabalhei com a Célia, durante um bom tempo. Durante mais de um ano. Depois de me formar, a Célia continuou me mantendo na equipe. E, aí, conheci muita coisa nesse primeiro momento, trabalhando com a Célia, né?

P/2 – Isso que eu ia perguntar, como era o trabalho com a Célia? Ela tem uma linha própria? Como que era? Qual era o trabalho dela?

R – Tá.

P/1 – Você fez algum curso também de captação de recurso, ou foi aprendendo assim na prática mesmo com ela?

R – Bom, a Célia foi uma das pioneiras no tema no Brasil. Ela tinha uma linha, ela, enfim, o trabalho da Célia era captar recursos para a GV. Todas aquelas salas patrocinadas lá: Sala Bradesco. Ela tinha que captar para um monte de coisa. Para reforma de infra-estrutura, para fundo de bolsas, para reforma da biblioteca. Para um monte de coisa. Foi um momento de virada da GV, né? E a Célia capitaneou esse momento. Eu vi a Célia partir de uma mesa para um departamento que é uma sala enorme hoje lá dentro da GV. Ganhou repercussão. A Célia começou a campanha com ex-alunos doadores da GV e tal. E participei desse, de um pouquinho desse momento. Eu era muito na prática, né? E a Célia, além de trabalhar na GV, ela tinha um contrato com a GV que ela trabalhava 6 horas diárias e tinha... ela poderia dar consultorias fora. A Célia também caiu nessa história por acaso. Ela, eu vou contar um pouquinho porque a história da Célia: é uma história que tem a ver com a minha história. Depois ela virou minha madrinha de casamento. Até hoje a gente é super amigo. 

[pausa]

P/2 – A gente estava perguntando sobre a professora Célia Cruz.

R – Então, a história da Célia é um barato, assim. Ela estava fazendo mestrado na GV em Economia. E aí o mestrado dela dava... era um mestrado sanduíche. Então ela foi fazer o mestrado no Canadá. E, aí, lá, ela fazendo mestrado, começou a fazer estágio na Canadian Opera. E aí o mestrado, a atuação dela, como acho que estagiaria, assistente, lá era na captação de recursos. E aí, puta, ela viajou, né? Ela voltou de lá com essa experiência. E até que ela voltasse e contasse a experiência para o diretor da GV, que era na época o (Michael Zietling?), quando ela contou a experiência para o Zietling, o Zietling falou: “porra, você tem uma experiência de alguém que eu queria trazer aqui para o Brasil. Eu estou querendo criar um departamento de captação de recurso aqui na GV.” E, aí, então fez uma proposta para a Célia. A Célia entrou de cabeça e começou a trabalhar lá na GV. Foi incrível, né? E ela, então, trazia toda a experiência dela e, enfim, a Célia é uma fuçadora. É uma pessoa incansável. E é de um coração tremendo. E é uma pessoa marcante na minha vida. Ela é uma pessoa que marca a trajetória da minha vida, é a Célia. E procuram a Célia. Bom, eu vivi com ela um monte de coisa, porque aí a Célia era chamada para dar consultorias... eu estava dizendo para vocês, né? Fora do trabalho dela da GV. E, aí, ela começa a me envolver. Bom, me envolve naturalmente, porque algumas das pessoas ela recebia lá na GV. Outros, ela me envolve. Então, a gente juntos, ela me convidou para participar de uma consultoria com a Fundação Bienal. Enfim, me envolve em outras histórias aí. A Fundação Bienal estava criando a Bienal da Criança, que acabou não dando certo. E, aí, alguém do Doutores da Alegria procura a Célia. Na verdade, procura uma pessoa que... o Wellington, do Doutores da Alegria, procura uma pessoa que era amigo da Célia, e pede uma indicação para Célia de alguém para trabalhar lá no Doutores da Alegria. O Wellington estava na época querendo estruturar administrativamente o Doutores da Alegria. O início do Doutores da Alegria era muito com o pessoal do teatro. A administradora do Doutores era do teatro. E o Wellington vinha com a experiência do (Big Apple Circus?) americano. Que era a experiência de gestão de uma ONG que era, pfu, né? Aí, o Wellington queria uma referência administrativa. Ele não sabia direito exatamente o que é que ele queria. Ele, na verdade, queria alguém que tocasse mais a parte de captação de recursos e aí eu fui indicado. Passei por um processo de seleção, lá no Doutores da Alegria. Passei por entrevistas com um Conselho lá, do Doutores da Alegria inclusive. Eu fiz uma apresentação para o Conselho. Foi o processo de seleção mais rigoroso que eu já passei. 

P/1 – Apresentação do quê?

R – O Wellington pediu para que se eu fosse assumir o cargo qual seria o meu plano de trabalho. Então, eu fiz, montei um plano de trabalho lá. Estudei, montei um plano de trabalho, fiz uma apresentação para eles. E fui contratado. Para meu início de carreira, para trabalhar no Doutores da Alegria, em 95.

P/2 – Você poderia falar um pouco o que é que era o Doutores da Alegria? Explicar para a gente o que é que era?

R – Posso. O que é que é ou o que é que era? 

P/2 – O que é que era e o que virou. Talvez essa trajetória.

R – Bom, sempre foi uma ONG de palhaços, que tem como objetivo levar alegria para crianças hospitalizadas. Desde o seu início, o Wellington vinha com aquela referência americana. E ele sempre quis imprimir uma questão importante de profissionalismo no Doutores da Alegria. E, enfim, o Wellington passou, comeu o pão que o diabo amassou. A gente conhece histórias dele ter que vender carro, fazer o diabo para ele poder pagar, honrar o salário dos artistas, mesmo quando não tinha grana. A partir de 94, tem o primeiro grande patrocinador do Doutores da Alegria, que é o Itaú Seguros, que acabava bancando mais de 90% do orçamento do Doutores da Alegria. Na verdade, 100% do orçamento era bancado pela Itaú Seguros. Essa situação era ao mesmo tempo confortável, mas...

P/1 – Preocupante.

R - ...preocupante para o Wellington. Foi por isso que ele quis, com a minha contratação, já começar um movimento para estruturar uma área de captação de recursos. E aí o Wellington... então, eu fui a escolha, apesar de ser novo. Mas, enfim, fui escolhido com uma expectativa de se criar um departamento de captação de recursos.

P/1 – E a atuação deles é em São Paulo? No Estado?

R – O Doutores da Alegria da Alegria hoje tem uma atuação em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Na época que eu entrei era só São Paulo. Estava pulando de três para seis hospitais em São Paulo. Hoje não sei quantos hospitais tem em São Paulo. Mas hoje tem no Rio e em Recife também. 

P/2 – O Wellington, o sobrenome dele?

R – Wellington Nogueira.

P/2 – Nogueira.

R – Diretor-executivo do Doutores da Alegria.

P/2 – E a tua atuação nos Doutores, como é que foi?

R – Então, a minha atuação no Doutores foi justamente estruturando o departamento de captação de recursos do Doutores da Alegria. Uma atuação bastante tortuosa, né? Não é uma coisa que você chega planeja A, B, C. Primeiro que eu era uma... eu acho que a minha contratação marca um momento novo no Doutores da Alegria, que é dar espaço para essa profissionalização. O Doutores da Alegria atuava – como muitas organizações que estão nascendo –  de forma familiar, caseira. Inclusive as pessoas, era familiar e caseira mesmo. Era o escritório do Doutores da Alegria... era na casa do Wellington. E, enfim, e aí conseguiram depois da Itaú Seguros alugar uma casa, uma sede. Vi muita coisa acontecer ali no Doutores da Alegria, né? Bom, primeiro tinha uma certa resistência à minha presença no Doutores da Alegria. O garoto formado na GV, cheio de achar que sabe tudo. E uma pessoa dentro do Doutores, que era a Norma Lídice – que até hoje é o braço direito do Wellington –, que era uma pessoa vinda de... uma nordestina sem formação superior nenhuma, mas um pé de boi assim. Fazia... super competente, né? Acostumada com a administração de teatro. É a pessoa da mão, do fazer, né? Mas com pouca... enfim, sem saber que ela poderia fazer muito melhor o que ela já fazia bem. Mas é uma figura emblemática na história do Doutores da Alegria, a Norma, né? E, antes de mim, o Wellington tinha contratado outras pessoas, e eu me afinei com a Norma. Apesar de a gente ter diferenças, a gente até que se dava bem assim. A gente tinha momentos de faíscas e tal, mas até que a gente se dava bem. E eu comecei então aos pouquinhos, né? Criamos uma central de sócios mantenedores. Começamos a trabalhar com pessoa física. Começamos a captar uma ou outra empresa. Depois de um determinado momento, a gente criou um clube de parceiros. O departamento, que era pequenininho, começou a se estruturar. Eu passei então 6 anos nos Doutores da Alegria. E eu acho que também por conta da, do contato com a Célia, que eu vi aquela experiência, que a Célia trabalhava lá dentro, mas dava consultoria fora. E por ter trabalhado com a Célia, também, a Célia começava a me indicar para dar palestras e cursos sobre captação de recursos. E acabei naturalmente indo dar palestras e cursos. E um determinado momento, pensava muito em dar consultoria. Depois de um bom tempo lá no Doutores da Alegria. E aí conheci uma pessoa que é a Carla da Nóbrega, que trabalhava no Greenpeace. E nos conhecemos quando a gente estava criando a Associação Brasileira de Captadores de Recursos, na qual me envolvi. Isso já por volta do ano 2000, né? E aí na época fui bater um papo com a Carla, eu falei: “pô, Carla, eu estou precisando estruturar a nossa área de captação de recursos com indivíduos. Eu sei que o Greenpeace está super estruturado. Você não é a fim de dar uma consultoria por fora, aí, algum curso? Sei lá. Vamos pensar como é que faz para não ser nocivo ao Greenpeace também. Uma grana para o Greenpeace. Sei lá.”  Aí, ela, bom isso foi uma gota d’água em uma decisão que ela e um diretor do Greenpeace estavam tendo na época, que era de criar uma empresa de consultoria. Para prestar serviço ao Greenpeace e à outras ONGs, em captação de recursos. E, aí, eu fiquei sabendo que eles estavam criando essa empresa. E eu, já na época, era contatado; bom, eu, já na época, dava consultorias. Eu já tinha uma negociação com o Wellington, que eu trabalharia no Doutores da Alegria, mas trabalharia fora também, em consultorias. A gente tinha um acordo lá. 10 horas de consultorias por semana e 30 horas no Doutores. Eu sempre gostei muito de estar fora. De estar dentro e estar fora. Porque, puta, isso ampliava os meus horizontes. E me fazia um melhor profissional. Inclusive para o Doutores da Alegria, eu achava isso. E, quando eles estavam criando essa empresa, eu fui falar para eles: “oh, puta, eu tenho alguns clientes aqui que eu acho que eu não consigo tocar sozinho. Vocês não querem pela empresa? Vamos compartilhar esse cliente e tal?” E eles decidiram me convidar. Eles estavam criando a empresa e me convidar para ser sócio da empresa. A gente criou a empresa junto. Chama-se Três Consultoria. Existe até hoje a empresa. A gente criou a empresa e tocava alguns clientes. Acabou depois não dando certo eles dentro do Greenpeace e fora. Então eles ficaram só fora. E aí a gente teve vários clientes no começo: a Liga das Senhoras Católicas, a Fundação Gol de Letra. O próprio Greenpeace. A Rede Saci. A gente teve vários bons clientes no começo. Até o Museu da Pessoa. A gente chegou a apresentar uma proposta de consultoria para o Museu da Pessoa. E eu só podia dedicar pouco tempo para a empresa. Eu me envolvi em algumas consultorias. Depois de um tempo um dos sócios, que era o Javier, ele era espanhol, teve que ir para a Espanha. voltou para a Espanha. ele queria continuar como sócio. Ele era um dos sócios, a gente adorava ele, mas ele era um cara muito confuso, né? A gente decidiu falar para ele: “Não, não dá para você continuar como sócio lá, à distância. Vamos desfazer a sociedade.” Ficamos eu e a Carla na sociedade. Só que eu trabalhava, aí Javier saiu, ficou eu e a Carla na sociedade. Isso minha vida lá no Doutores continuava. Mas eu já com um pezinho fora. Conhecendo outras histórias e tal. E aí a Carla começou a me pressionar de que, pô, ela estava só com a empresa, né? E isso começou a pesar, porque na empresa você ganha, você fatura se tem cliente. E se você está com tempo para visitar e prospectar e tal. E ela me pressionava. Eu falei: ‘Olha, eu não vou sair do Doutores da Alegria para tocar a empresa. Vamos pensar o que é que você pode fazer.” Ela procurou emprego. Aí ela começou a trabalhar na Fundação Gol de Letra. Então a empresa ficou meio como um, bom, a gente tocava algum cliente mas tocava meio que um por vez e tal. Mas a empresa existe até hoje. Bom, com 6 anos de Doutores da Alegria, e o lance de ter a empresa, de montar a BCE, eu criei uma rede de relacionamentos muito bacana. Era uma pessoa, sou ainda uma pessoa conhecida. Estou sendo menos porque me afastei depois de ter filhos e tal. Mas foi muito legal esse movimento que eu fiz para fora. E de montar a BCE. Hoje eu percebo quanto isso foi marcante para mim.

P/1 – Eu queria só perguntar uma coisa: em termos de satisfação sua, quer dizer, o que foi ser captador de recursos? Você conseguiu se encontrar mesmo nisso porque tinha uma dificuldade de trabalhar com alguma coisa? Foi a primeira experiência sua, você se encontrou?

R – Olha, eu sempre, eu acho que é difícil alguém dizer. Assim, quem me disser que: “Me encontrei na vida.” Eu vou duvidar. Porque eu acho que a gente está sempre em busca de alguma coisa, né? Eu acho que eu sempre tive um pouco, sempre me questionei. Será que eu estou, será que eu estou no meu caminho? Sempre me questionei. Será que meu caminho não está em alguma coisa mais ligada às artes, à criação? Às vezes eu me sentia meio tolhido. Eu sentia o meu potencial criador sufocado, trabalhando em uma ONG como Doutores da Alegria. Mas eu aprendi a domesticar isso com o tempo. E aliás, pô, eu trabalhava no Doutores da Alegria, era muito bacana. Era um ambiente de trabalho legal. Apesar de o dia-a-dia não ser tão estimulante. As consultorias me davam essa asa para voar um pouco mais. Mas ainda vinha procurando essa. “Será que não tem uma – venho procurando – será que é nisso que eu tenho que trabalhar? Ou é em algo que é maior do que isso?”, né? E eu acho que a gente pode deixar isso mais para a frente. Mas eu vou contar para vocês como é que eu venho me desenvolvendo nessa história. Nesse meu...

P/1 – Na busca, né?

P/2 – Sua busca.

R - ...Nessa busca, é. Bom, mas no Doutores da Alegria, deixa eu ver se eu me lembro onde é que eu parei. Aí a empresa montada, vinha trabalhando no Doutores da Alegria, mas vinha me questionando. “Será que é captação de recursos que eu quero trabalhar?” Tem muito em uma ONG, como o Doutores da Alegria ou como qualquer outra ONG, uma separação. Parece que tem uma cisão, né? Quem capta recursos é o povo do mal, e quem trabalha no hospital é o povo do bem. Então tem uma cisão muito clara. Tem várias ONGs. No CDI mesmo o mundo do pedagógico e o mundo do administrativo. Como se tivesse uma cisão. E como se a gente quisesse vender o Doutores da Alegria, ou no caso agora o CDI. E eu vinha me questionando muito se eu queria ficar identificado para sempre como captador de recursos. E eu no Doutores da Alegria, trabalhando com desenvolvimento institucional, eu me envolvi em mil e umas, né? Eu que comecei junto com o Wellington a pensar na gente ter um planejamento estratégico anual. E chamar consultores. A gente junto que construiu, reconstruiu o Conselho. E, enfim, eu me envolvia muito na questão do desenvolvimento institucional. Porque, afinal, comecei a me dar conta, na prática, que captação de recursos não é só captação de recursos. Aliás, captação de recursos é o resultado...

P/1 – É a ponta do iceberg, né?

R - ...É a ponta do iceberg. De um trabalho de desenvolvimento institucional muito maior. E, aí, comecei a ter vontade de me envolver com esse negócio muito maior que é gestão de uma organização. Comecei a me identificar muito com desenvolvimento de pessoas. O que é que é isso? De trabalhar com as pessoas. Bom, hein, e aí acabei tendo... não sei por onde eu começo a próxima fase agora.

P/2 – É. Talvez a sua chegada ao CDI. Que isso está relacionado a como que você chegou.

R – Então eu vou contar duas coisas em paralelo.

P/2 – Perfeito.

R – Como eu me... eu comecei a me envolver com um tema que é pedagogia social.

P/2 – Perfeito.

R – Comecei a me envolver com o pessoal do Instituto Fonte, que é uma organização aqui de São Paulo, que trabalha com pedagogia social. Trabalha com consultorias para organizações sem fins lucrativos. Que tem uma outra abordagem de trabalho. Em paralelo com o CDI, né? Bom, com o CDI tinha essa minha vontade de me envolver com isso. Mas eu estava muito feliz no Doutores da Alegria. Apesar de eu me questionar e tal, eu estava feliz. Era um ambiente de trabalho legal. A gente estava... eu estava me sentindo até certo ponto desafiado lá e tal. E era um ninho. Não era assim, eu não me via, eu era identificado: o Rodrigo do Doutores da Alegria. Eu tinha essa marca. E aí a minha sócia, Carla, saiu da Fundação Gol de Letra e participou do... foi para uma entrevista em uma vaga que abriu para o coordenador-regional do CDI aqui em São Paulo. Ah, e a Carla foi entrevistada pelo Rodrigo. O Rodrigo gostou da Carla e queria contratar ela imediatamente. Ela estava participando de um outro processo de seleção na Ação Comunitária do Brasil, e ela preferiu, deu preferência, à Ação Comunitária. E aí a Carla me falou que tinha participado do processo de seleção. Eu falei: “puta, será que...”, né? Me deu um clique. E saí eu resolvi ligar. Ah, não, minto. O coordenador do CDI, na época, o Fernando Nogueira, que estava saindo da vaga, me ligou porque eu conheci ele de algum lugar. Eu acho que a Carla indicou meu nome para eu indicar pessoas. E aí ele me ligou para saber se eu tinha alguém para indicar. Ah, foi daí que eu indiquei a Carla. Eu que indiquei a Carla. E ele me ligou porque ele conhecia... a gente tinha um amigo em comum. E, aí, depois eu liguei para o Fernando, eu falei: “Ah, pô, não deu certo com a Carla e tal. E como é que está o processo de seleção?” Fiquei meio urubu rondando a carniça, né? Até aí eu não tinha me dado conta de que eu estava interessado pela vaga. 

P/1 – Sei.

R – E, aí, falei: “Pô, como é que está Fernando?” Ele: “Pô, por que é que você não participa do processo de seleção?” “Não, não. Nada a ver, cara. Eu estou aqui no Doutores da Alegria, isso não tem nada a ver, né? Mas vamos conversar. Deixa eu entender melhor o que é que é isso.” Fui lá conversar com ele. Bati um papo com ele. Entendi o que era ser coordenador-regional lá na Amcham, era um outro ambiente de trabalho. E eu, o Fernando falou: “Por que você não participa?” Eu mandei meu currículo. Ficou, aí, puta, você decide, aí a Providência começa a trabalhar, né? Aí o Rodrigo Baggio recebeu o meu currículo, já ligou para a Célia. Imagina como é que a Célia me indicou. A Célia era meio a guru do Rodrigo. Porque o Rodrigo é fellow Ashoka. A Célia já estava na... trabalhando na Ashoka. Aí a Célia falou super bem de mim. O Rodrigo estaria aqui em São Paulo, me chamou para uma entrevista. A minha entrevista, pelo que eu pude perceber, foi de longe a melhor entrevista que ele tinha feito. Ele me fez uma proposta de salário, eu fiz uma contra-proposta, e ele topou minha contra-proposta. Eu falei: “Puta, fodeu. O que é que eu vou fazer agora? Para onde que eu estou indo? Para onde que eu estou indo na verdade, né?” e aí então eu fui, voltei para o Wellington, falei: “Olha, Wellington, participei de um processo de seleção para o qual eu fui chamado e eles estão querendo me contratar e estão me oferecendo x. Eu estou muito...”, porque, ah, na época, no Doutores da Alegria, eu estava querendo me envolver com outras questões que não captação de recursos. Eu levei o Doutores da Alegria junto com Wellington para Recife. Na verdade, a articulação inicial com o Recife foi feita por mim. Com o pessoal lá do Interage e tal. E eu estava muito estimulado por ajudar a criar um núcleo lá de Recife. Eu gosto de viajar. E eu estava considerando a hipótese de ficar no Doutores da Alegria. E fortemente. E aí o Wellington falou que ia pensar no assunto, que voltava a falar. Ele falou que queria muito, aí ele voltou a me falar, que queria muito que eu ficasse. Que eu era uma pessoa importante no Doutores, mas que ele não poderia fazer nenhuma movimentação no meu salário. Eu entendi isso como um posicionamento também. Porque, não época, eu lembro até que eu falei assim: “falar é fácil, se quer mesmo me manter aqui eles estão me oferecendo x lá. Quer dizer, as finanças não são tudo, mas são grande parte se você se mostra através do teu posicionamento.” Se você cobre ou não, poderia nem cobrir o meu salário na época, mas poderia falar assim: “pô, quero, não pode agora, mas no ano que vem a gente faz isso.” Mas não teve uma contraproposta, um posicionamento firme. Talvez porque ele achasse que eu não ia fazer o movimento de sair, ou talvez porque ele achava que poderia ser o meu momento de sair. Eu creio que, esse segundo, essa segunda alternativa, é a mais provável. Porque o Wellington é muito sábio. E aí eu falei: “Então eu vou para casa.” Uma quarta-feira, eu lembro até hoje. Voltei para casa de ônibus. Eu falei: “Vou descer a serra de ônibus que me dá tempo de pensar.” Estou no ônibus, me liga o Rodrigo Baggio: “E aí, cara, decidiu? Não, porque você tem que vir para o CDI.” E fica, fica, fica. E aí, porra, a comparação, né? O cara está querendo me levar para lá. Eu tinha sido entrevistado pelo presidente do Conselho do CDI. E eu vi um outro mundo de relacionamentos, de coisas que iam acontecer no CDI. Foi muito engraçado a decisão. Eu fui para casa para conversar com a minha mulher, nessa época a gente tinha acabado de ter o primeiro filho. A gente tem uma cumplicidade muito grande. E eu queria decidir junto com ela. Estava entrando em uma nova história, e, enfim, ela estava sem trabalhar. E, a gente, o meu salário mantém a casa. Era uma decisão que a gente tinha que tomar em conjunto, né? E ela não queria dizer o que é que ela achava que eu deveria fazer, mas ela foi, deu uns toques: “Pô, talvez você tenha que ir e tal.” No final das contas, cara, eu tirei um papelzinho.

P/1 – [risos] 

R – Você acredita? 

P/1 – Eu acredito.

P/2 – Sim ou não. [risos] 

P/1 – Eu acredito que eu já tirei também.

R – Você acredita? CDI e Doutores da Alegria. Aí eu falei: “Se eu tirar no papelzinho e aparecer o CDI e tiver certeza, e falar puta que bom, né?” [risos] Aí ela tirou um papelzinho. Ela deu risada, eu olhei. Me deu um alívio. Eu falei: “Puta, que bom que saiu o CDI.” Foi naquela hora eu decidi. Aquela hora eu decidi, liguei para o Baggio. Fechei. Dia seguinte o Baggio me convidou para uma reunião do Conselho, já no dia seguinte, na quinta-feira. Já fui no Doutores da Alegria para dizer que eu estava saindo. E na sexta-feira era reunião de atores. O Wellington criou um momento todo especial para dizer que eu estava saindo do Doutores da Alegria. Foi um dos momentos super lindos assim, que eu tive na minha carreira profissional, né? Um momento assim de sair pela porta da frente, sabe? Super consciência tranquila de que eu fiz o meu papel e de que o meu papel estava terminado no Doutores da Alegria. E que uma nova fase teria que se começar no Doutores da Alegria. E foi muito legal porque essa nova fase está sendo capitaneada, inclusive, por uma pessoa que eu apresentei ao Doutores da Alegria, que é a Inês, a Ieda Alcântara. Eu tive a sensação de que fiz o meu papel.

P/1 – Muito legal isso.

R – Estava cumprida a minha missão, e eu tinha que começar uma nova história. Entrei no CDI.

P/2 – Exatamente. Você entrou, qual a sua atividade? Você entrou para o que no CDI? Qual...

P/1 – Antes disso, só uma perguntinha: eu queria saber qual era o momento do CDI na hora que você entrou? Quer dizer, qual era a história que tinha? Quanto tempo já tinha, em que situação que você entra no CDI?

P/2 – Qual foi o CDI que você encontrou?

R – Hum, hum. Então eu encontro um CDI muito bagunçado aqui em São Paulo. Tinha tido uma primeira gestão do Fernando Nogueira. Que é pessoa, um jovem, super empreendedor, que fez pelo CDI muita coisa. Foi iniciador do CDI em São Paulo. Na verdade a... o CDI São Paulo, o primeiro CDI São Paulo foi criado em 1995, 1996 por um grupo de pessoas aqui em São Paulo. Que por uma série de motivos tiveram uma cisma com o Rodrigo, brigaram. E acabaram sendo descredenciados da Rede CDI. Essa história talvez vocês não conhecessem, né?

P/2 – Não.

R – Esse grupo foi descredenciado por uma série de motivos. O Rodrigo, à exaustão, tentou recuperar e resgatar esse grupo. Mas só para resumir a história: era um grupo muito ligado a pessoas que estão ligadas ao PT aqui em São Paulo. E que acabaram dando prioridade na escolha dos projetos sociais que tinham _____. E na forma de conduzir o CDI aqui em São Paulo completamente diferente do CDI matriz. Essa época, que estava se criando a matriz e tal. E eles claramente estavam enfrentando, então criando um enfrentamento ao Rodrigo. Deve ter sido um desafio super grande para o Rodrigo lidar com essa situação toda. O CDI cresceu do jeito que cresceu e tal. E aí foi um dos grandes desafios para o Rodrigo. E o Rodrigo começou uma articulação aqui com a Amcham em São Paulo. Eu sei pouco dessa história. Mas é um pouco da pré-história da minha história. E a Amcham fazia a Megajuda, que é a campanha de arrecadação de computadores. Começou a Amcham a fazer isso. E o Rodrigo se articulou com a Amcham para pedir para a Amcham pagar um coordenador-regional aqui e dar guarida, dar espaço físico. Quando isso aconteceu, o Rodrigo, não sei o que é que aconteceu antes, mas acabou se descompatibilizando desse CDI. E esse CDI São Paulo acabou não aceitando essa desincompatibilização, por acreditarem que eles são o CDI também. E até hoje eles se auto-denominam CDI São Paulo. Apesar de a gente não saber direito que trabalho que eles têm aqui em São Paulo, o que é que eles fazem. E, ah, mas fato é que esse grupo inicial nos movimentos sociais tem uma penetração muito maior do que eu que estava entrando ali pela Amcham. Até o Rodrigo diz que o Fernando Nogueira, que era o coordenador do CDI São Paulo, ele não teve uma atitude de enfrentamento a esse CDI. Ele... não era perfil dele, fazer esse enfrentamento. Me lembro um dos primeiros momentos meus aqui em São Paulo, foi um debate com o Kobashi, que é do CDI São Paulo, iniciador desse outro CDI São Paulo com o Sérgio Amadeu. Que era do Governo Eletrônico da Prefeitura da Telma. Com o Rodrigo Assunção que hoje está lá no Governo Lula e eu. Eu na cova dos leões. Foi um dos primeiros testes meus no CDI eu acho. O Rodrigo me jogou nessa...

P/2 – Você tinha meses no CDI?

R – Eu tinha 20 dias. 

P/2 – 20 dias.

R – Para falar do CDI. E para debater sobre assuntos de software livre, política pública. Para mim, cara? Estava perdido. Li livros nesses, tive aí, eu tinha 20 dias, mas aí tive, sei lá, uma semana para me preparar. Ou 5 dias para me preparar. Li um monte de coisa e tal. Me preparei como eu pude. E fui para o enfrentamento. Foi meu primeiro momento de enfrentamento ao Kobashi. E na verdade assim tinha estereótipos aí, né? O CDI está ligado à Amcham, à Microsoft, às grandes corporações. E o outro CDI é o CDI ligado aos movimentos sociais, à comunidade. É o CDI dos pobres. Que é um, puta, foi de... é estereótipo. Quando eu cheguei no CDI São Paulo eu me deparei com uma equipe muito Junior. Me deparei com o desafio de administrar uma equipe, de administrar uma organização. Até então não tinha nenhuma experiência a não ser a experiência de... dentro do Doutores da Alegria eu cuidava de orçamentos e tal. De algumas coisas. Mas não tinha experiência nenhuma. Tinha o apoio da Price Waterhouse aqui em São Paulo. Porque o Vander Teles, que é presidente do Conselho, é sócio da Price. E, na verdade, as finanças, como a gente estava dentro da Amcham, eram feitas todas pela Câmara Americana de Comércio. O CDI funcionava meio como um projeto da Amcham. Os meus primeiros movimentos na Amcham eu pude perceber que o CDI não era muito persona, era uma, tinha um certo, não sei se posso dizer que era persona non grata. Mas tinha um certo mal estar com a presença do CDI dentro da Amcham. Não porque o CDI não merecesse aquele apoio. Mas era questionado por diversas pessoas: “Por que é que o CDI recebe todo esse apoio dentro da Amcham?” Na verdade, esse apoio foi estabelecido de forma muito personalista pelo (John Niin?), que, enfim, se encantou com o Rodrigo. Que é muito fácil se encantar pelo Rodrigo, né? O Rodrigo... ele é muito sedutor, muito encantador e tal. E o (John Niin?), que era na época presidente da Amcham, se encantou com o Rodrigo. Resolveu comprar a história. E o (John Niin?) também tinha um estilo muito personalista de tocar a Amcham. Tanto que, depois de pouco tempo que a parceria foi fechada, o (John Niin?), enfim, em off...

P/1 – Certo.

R - ...o (John Niin?) começou a sofrer auditoria nas contas lá na Amcham. Ele gastou muito mais do que ele estava falando para o Conselho da Amcham. E ah, bom, no final das contas ele foi deposto pelo Conselho por má administração. E, aí, tentou-se em primeiro, foi contratado o Álvaro de Souza. E tentou-se começar a se imprimir um estilo, mudanças na Amcham. A Amcham enxugou os quadros. Na verdade, a Amcham tinha uma dívida milionária. Começou-se a se ver isso. E aí começou a ser questionado tudo, né? Inclusive o investimento ao CDI. Nessa época eu já tinha transitado de coordenador regional para coordenador de desenvolvimento institucional do CDI matriz. Não sei se vocês querem perguntar alguma coisa para...

P/2 – Só uma questão: qual era o grau de dependência do CDI São Paulo da Amcham? Ou seja, tinha outras instituições que ajudavam a manter em termos de recursos, ou era uma dependência muito grande? Como que era?

R – Tinham sim. O Governo do Estado teve um primeiro convênio aqui em São Paulo que foi com o Governo do Estado. Com a Acessa São Paulo. Então a Acessa São Paulo repassava um bom recurso para o CDI São Paulo manter a sua equipe. E a Amcham mantinha água, luz...

P/2 – Sede.

R - ...a sede.

P/2 – A sede era na Amcham?

R – Era na Amcham. É isso. 

P/2 – Você podia falar talvez dessa mudança do seu cargo interno do CDI, né? Você estava na coordenação do São Paulo e depois você estava dizendo que você foi para outro cargo, outra atuação. 

R – É. Bom, desde...

P/2 – A não ser que você queira falar outra coisa. Que você queira...

P/1 – Ou você acumulou os dois juntos? Isso que eu não entendi.

R – Bom, vamos lá. Eu entrei em setembro de 2002. Para mim era muito bagunçado o CDI. Eu entrei em uma roda vida. Era... as coisas aconteciam, eu falei: “puta, tem trabalho para fazer.” Eu fui visitar o estoque por exemplo, o estoque, ele... depois vocês podem ver fotos. O estoque do CDI de computadores era uma pocilga. A Amcham reservava espaço em banheiros assim. A responsabilidade da Amcham com a Megajuda era zero. Bota computador aonde dá. E não reclama porque está sendo dado. Era meio assim. Não era dito isso, mas era, nas entrelinhas era isso que passava. E a Amcham tinha na época, assim, eu percebia uma, queria aparecer mais do que na minha concepção era devido, a Amcham. Então ela queria aparecer, enfim, fazer a Megajuda. Era a Amcham que aparecia como destaque principal. Porque o assessor de imprensa era da Amcham, então ele sempre puxava sardinha para a Amcham. E eu me incomodava com essa situação, para ser sincero. Me incomodava bastante. Mas ao mesmo tempo, assim, a gente tem... a Amcham marcou a história do CDI São Paulo de forma muito forte, né? Desculpe, você tinha perguntado essa transição aí, né?

P/2 – Essa transição.

R – É, aí, fiquei até... Bom, quando eu entrei no CDI São Paulo, o Rodrigo já me... já vinha me... vendeu. Me vendeu para o Conselho. Como, na cabeça dele, o Rodrigo é o segundo melhor captador de recursos do Brasil depois da Célia Cruz, ele tinha esse fetiche na cabeça dele, né? Que graças a Deus já foi demovido. Mas ele tinha esse fetiche na cabeça dele e tal. Que as pessoas constroem essas imagens. E, uma merda. Quem está no papel sofre. E eu acho uma bosta. E o Rodrigo vendeu para o Conselho dele, lá no Rio de Janeiro, essa imagem. E de que eu rapidamente assumiria o CDI São Paulo, mas estaria captando recursos para a Rede CDI, né, aqui em São Paulo. Então o Rodrigo tinha uma estratégia muito clara aqui em São Paulo de captação de recursos. O Rodrigo viu que a rede estava crescendo. E o Rodrigo tem essa verve de negócios muito forte nele. Uma preocupação muito grande com captação de recursos. E o movimento dele aqui em São Paulo me contratando, alguém que tinha experiência em captação de recursos e ao mesmo tempo criando um Conselho de Empresários, era um movimento nesse sentido. A leitura que eu faço hoje. Bom, depois de um determinado momento, o coordenador de desenvolvimento institucional dele lá na matriz pediu as contas. Estava saindo do CDI. E até sugeriu – saindo numa boa – e até sugeriu por que é que o Rodrigo não. Ah, nesse momento, esse captador de recursos já entrava em contato comigo direto. Porque o Rodrigo tinha falado que eu era uma referência. Até vivi uma saia justa e tal. Porque ele me ligava e enfim, sai justa, né? Como se eu fosse o mentor da captação de recursos. E aí ele...

(Fim do CD 01)

R – Então o Rodrigo que estava saindo o coordenador lá do Rio, da matriz. E o próprio coordenador, que era o Marco Mendonça, falou assim: “pô, Rodrigo, por que é que você não muda a coordenação da matriz de desenvolvimento institucional da matriz para São Paulo? Faz uma operação e bota a coordenação lá em São Paulo.” E o Rodrigo é um, porra, megalomaníaco, né? Aí ele me chamou lá no Rio. Eu já estava com uma ida lá para o Rio. Ele sentou comigo para conversar sobre essa idéia. Fez o convite a assumir a coordenação de desenvolvimento institucional da matriz, trabalhando com desenvolvimento em São Paulo. Comecei a colocar uma série de questões: “pô, mas aí quem é que vai ficar aqui? Como é que vai ser o dia-a-dia com a equipe aqui? Você também.” Ele falou que estava querendo vir mais para São Paulo. Mas que tinha vontade de que a matriz chegasse em São Paulo. E ele ia apresentar essa idéia para o Conselho dele, que é mais megalomaníaco ainda. O Conselho achou o máximo, né? [risos] Aí, isso não vai aparecer, né, cara?

P/1 – Não, não.

P/2 – A gente tira.

R – Legal. 

P/2 – A tesoura funciona.

R – Pode ter alguma edição com isso, né? 

P/2 – Pode ter certeza que não.

R – Sim, mas e aí o Rodrigo teve essa idéia. E eu lembro que na época assim, isso claro mexe com o nosso orgulho. Me convidar para o posto desse e tal. Assumir a matriz em... estava em setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro. Tinha 5 meses de CDI. Tinha começado no CDI. Não tinha feito nada. A única coisa que a gente tinha feito era montar um planejamento estratégico participativo. As pessoas iam se envolvendo mais no CDI, mas... Ah, tinha tomado uma decisão de... já tinha demitido algumas pessoas que eram uns ladrões que estavam dentro do CDI. A equipe era, enfim, foi mal montada. Foi montada meio às pressas. Era muito júnior, de uma parte dela era muito júnior. E uma parte dela era incompetente mesmo. Era incompetente e roubava. Então você imagina.

P/1 – Nossa.

R – A gente fez um monte de mexidas. Mexeu em feridas e resolveu mexer, botei a Elaine como coordenadora da equipe de logística de voluntariado. Botei ela acima de um cara que era coordenador de manutenção. Esse cara depois de um certo tempo tive que mandar ele embora. E ela ficou. Enfim ela transformou o estoque todo do CDI. Ela inclusive tem uma apresentação super linda mostrando a história toda do estoque, das pessoas e tal. Tinha 5 meses como eu tinha dito para vocês. Tinha feito pouca coisa. Só começado alguma coisa aqui. Mas eu acho que mexeu um pouco com o meu orgulho. Mexeu um pouco com, puta, eu, na coordenação do CDI São Paulo tinha que lidar com um monte de coisa do dia-a-dia que enchia o saco assim. O que tinha de administração diária. Salário, puta, e isso me enchia o saco. E como a gente estava muito pouco estruturado em São Paulo era quebração de pedra, entendeu? Tinha que quebrar pedra. E a gente estava dentro da Amcham, tinha aquela situação. Aí, ah, mas o que mais contou foi um pedido do Rodrigo. Eu achei que historicamente isso deveria, eu deveria aceitar. Isso meio como um soldado aceitar ir à guerra. Eu fui chamado, é um chamado do CDI. É disso que o CDI está precisando de mim agora e eu aceitei, topei. Bom, a partir daí, eu tive então um... contratei o Mário. Botei o Mário como parte da minha equipe aqui. Eu mantinha uma equipe lá no Rio de Janeiro. E o departamento de desenvolvimento institucional ele é, ele segue o tom do Rodrigo. As portas que o Rodrigo abre a gente não consegue nem chegar em todas. Então segue o ritmo do Rodrigo. O que não dava para eu dar muito o meu tom. Principalmente porque eu estava tão distante. Para tocar equipe à distância, eu não sei cara, eu aprendi isso. Que eu não tenho habilidade para tocar uma equipe à distância. Eu preciso estar com a pessoa do meu lado. Perto, conversar. Ter reunião olho no olho. Eu participava das reuniões na matriz por Conference ____________. Reunião de duas horas, era horrível. Eu não ouvia nada. Não era uma situação confortável para mim. Eu tive um determinado momento de março a abril de desafio de contratar uma nova coordenadora. Teve uma transição muito difícil aí. Eu tinha, o meu filho...

P/1 – Para colocar uma coordenadora no CDI de São Paulo?

R – No CDI São Paulo. Tive que contratar uma coordenadora para o CDI São Paulo. Que foi a Juliana Gandini. Fizemos um processo de seleção extenso e contratamos no final das contas a Juliana Gandini. Que na visão do Rodrigo não estava atendendo as expectativas. A Juliana acabou botando o foco dela muito mais na equipe. Na verdade, na minha visão ela também não estava atendendo as expectativas. Mas ela teve um processo de desligamento muito duro, muito ruim. E o Rodrigo – segundo ela, ela não estava nem esperando – e o Rodrigo bateu um papo com ela, mandou ela embora assim do nada. Foi muito barra. No final do ano passado, de 2003, ele começou a conversar comigo sobre o que é que eu achava da possibilidade de voltar a coordenar o CDI São Paulo. Porque na avaliação dele não estava dando certo como coordenador de desenvolvimento institucional e a Juliana também não estava dando certo lá em São Paulo. E para resumir a história, ele não fala dessa forma, mas foi isso. E então ele queria que eu voltasse para coordenar o CDI São Paulo porque ele tinha chegado à conclusão que em São Paulo a gente precisava de alguém forte e que fosse uma pessoa conhecida. E que pudesse fazer o CDI São Paulo, tocar o CDI São Paulo no ritmo do CDI em São Paulo. Em uma cidade como São Paulo. Aí, cara, até assim foi para mim uma, um resgate, ao que tinha me trazido ao CDI. Vocês lembram que, quando eu falei que eu vim para o CDI, eu vim para trabalhar gestão? Desenvolvimento de pessoas, de equipes. Me envolver muito mais com isso. E quando eu fui para o CDI matriz eu voltei para captação de recursos, né? E aí aceitei, tudo bem, mas isso se descolava um pouco do que eu estava querendo. E eu estava também vivendo uma situação no CDI matriz com equipe lá longe e tal. Eu não estava conseguindo, eu estava me sentindo afogado nas demandas e não conseguia sair daquilo. Eu não conseguia imprimir um ritmo próprio, um estilo próprio. Muito duro. Até dei esse feedback para o Rodrigo. O coordenador de desenvolvimento institucional no CDI é muito difícil trabalhar. Porque o Rodrigo, ele, é o captador de recursos do CDI. E, aí, imprimir um estilo próprio na captação de recursos é quase impossível, né?

P/1 – E a história paralela que ficou para trás?

R – Bacana, legal. Então, quando eu ainda estava no Doutores da Alegria, a gente, eu apresentei para o Wellington, conheci o pessoal do Instituto Fonte. Que é uma ONG aqui de São Paulo, que nasceu por iniciativa eu acho que da Vitae e da Fundação Kellogg. Estava começando a discutir desenvolvimento institucional e sustentabilidade das organizações. Nasceu de um projeto, virou uma ONG. Hoje é uma união de duas ONGs: do Instituto Cristófores e do Instituto Fonte. E que trabalha com uma forma de consultoria completamente diferente de outras formas de consultoria. Para resumir a história, eles trabalham com uma forma de trabalho que é baseada na pedagogia social. Que é uma consultoria não prescritiva mas construtiva. É uma consultoria que não entra para dizer o que você tem que fazer, mas é uma consultoria que te ajuda a tirar de você o que você tem que fazer. E inclusive estão se revendo, estão radicalizando nesse sentido. Eu estou fazendo hoje uma capacitação, um programa de desenvolvimento com o Instituto Fonte sobre desenvolvimento social, enfim, super legal. E contratei pelo Doutores da Alegria o Instituto Fonte. Eu vi a forma deles trabalharem. Puta, cara, eu fiquei encantado. Fiquei encantado. Eu falei: “quando eu voltar a trabalhar com consultoria ou trabalhando com a minha equipe, eu gostaria de trabalhar dessa forma.” Então eles trabalham de uma forma super participativa, construtiva. Vão a fundo nas questões. Eles trabalham de um jeito muito legal, com pedagogia social. E trabalham com música. Trabalham com textos, com imagens. Com metáforas. Trabalham com a sensibilidade, além de trabalhar com o racional. Trabalham com o sentir além de trabalhar com o pensar. E mais uma vez me deu um...

P/1 – Um insight.

R – É, aí conheci uma pessoa, um senhor. Chama Hermanos. Um holandês que é do Instituto Fonte. Na verdade, ele é do Núcleo Maturi. Mas esses, essas instituições todas elas se falam. E aí botam gente. Eles circulam entre eles. Eles formam uma rede de consultores. Pode entrar por onde for, mas eles trocam entre eles clientes. Pegam um e outro. E aí o Hermanos, eu curtia muito aquilo. Eu falei: “pô, Hermanos, muito legal a forma de vocês trabalharem. Eu queria te perguntar, eu estou querendo dar seqüência na minha carreira acadêmica. Eu estou pensando. Não sei se eu faço um mestrado, ou se eu faço cursos que não são acadêmicos. O que você acha?” Ele falou: “Ah, você, por que é que você não faz o seminário de pedagogia social?” porque uma das coisas do seminário de pedagogia social é a pergunta. Qual é a pergunta, né? Uma das coisas que você vai trabalhar nesse seminário é a pergunta. E aí fiz o seminário que foram 8 dias de imersão nesse seminário. E saí transformado desse seminário. E algumas coisas começaram a mudar em mim. Comecei a, por exemplo, eu dava aulas de captação de recursos, até hoje eu dou. E comecei a tirar o centro das atenções da aula de mim para o grupo. Ali tem uma série de histórias de vida e tal. Comecei a me dar conta dessas coisas. Vocês devem estar imaginando o que eu estou falando, né?

P/1 – Claro.

R – E fiz o seminário de pedagogia social um e dois. O um quando eu estava no final do Doutores da Alegria, talvez até tenha me ajudado a dar esse passo. E fiz o dois quando eu já estava no CDI. No comecinho do CDI. E comecei a, tenho tentado – quer dizer tenho tentado – tenho incorporado isso em mim. E isso provavelmente tem tido reflexo na minha vida profissional e como eu toco a gestão dentro do CDI. Acho que sim. Recentemente eu entrei em um programa de desenvolvimento do Instituto Fonte, chama-se Profissão Desenvolvimento. São cinco encontros de quatro dias cada encontro. Um programa de super imersão. Que é baseado em uma metodologia de um sul-africano que chama-se Alan Kaplan, que é da Ação Aprendizagem. Que é explorar a aprendizagem através da ação. Que as pessoas aprendem a partir da ação. E estou encantando com essa história. Já passaram dois encontros. Eu passei o fim de semana que passou, eu dei um curso de captação de recursos em Vitória e me caiu a ficha de quanto eu estou mudado. Foi, assim, arrebatador.

P/1 – Em que sentido, por exemplo? Dê um exemplo assim para ficar mais claro. Mudou a sua forma de até desenvolver a consultoria, né? 

R – Legal, então eu, por exemplo, fui dar aula para... fui dar um workshop de captação de recurso para a _____ lá do CDI Vitória. E eu tenho uma apresentação padrão. E eles me ligaram, tipo duas horas antes de eu embarcar, e falaram: “pô, não conseguimos o datashow. E aí?” Eu falei: “Não, tranqüilo. A gente vê lá como é que a gente trabalha. Vamos sentir lá, ver.” 

P/1 – [risos] 

R – Ai eu catei um texto lá que acho que tinha a ver. A gente a partir de um texto foi trabalhando. E muito mais trabalhando a partir das experiências deles, eu me, acho que assim, estou me abrindo mais para ouvir os outros. Para construir conhecimento com os outros, né? Estou tirando mais, estou tirando o foco do meu umbigo, eu acho, né, com o tempo. E colocando o foco nas pessoas que estão me rodeando e em mim também, claro, né? E aí dei um curso de dois dias. Em que foi isso que aconteceu. A gente criou um clima de construção coletiva lá a ponto de, no segundo dia, a gente já abrir a manhã com um momento de reflexão de como é que as coisas bateram para as pessoas. E assim, duas pessoas nesse momento de reflexão choraram. De tal forma que eu acho que o clima que se criou propiciou uma abertura das pessoas incrível. Eu li um livro do Rubem Alves, recentemente. Chama Conversa à Beira do Fogão. Que ele faz uma comparação entre o ambiente da sala de estar da casa do avô dele e do fogão, da cozinha. Então, que eu acho que é essa a imagem, né? Assim, é isso que eu estou querendo construir. São... eu acho que a gente tem que ir um pouco para os fundos da casa e ver as coisas do jeito que elas são. Sempre me... por isso acho que a pedagogia social acho que toca. Em alguns assuntos me ajudou. E esse processo com o Instituto Fonte também aí, perdi o fio da meada agora.

P/2 – Você disse que dá palestras sobre captação de recursos. Era para coordenadores de Akes, isso daí?

R – Era.

P/2 – Você faz pelo CDI também então?

R – Sim, faço pelo CDI.

P/2 – Então de alguma forma você, apesar de estar em São Paulo, coordenador regional, você também atua de alguma forma na capacitação dos coordenadores na área de captação?

R – De captação de recursos, é, sim. Então eu vim com uma experiência em captação de recursos para o CDI. Quando eu vim para o CDI eu falei para o Rodrigo que lá no Doutores da Alegria tinha a possibilidade de dar consultorias e de dar palestras e treinamentos. O Rodrigo falou: “Olha, a questão das consultorias a gente vai ter que pensar melhor aqui, porque eu acho que você não vai ter tempo para fazer isso. Mas, os treinamentos, está aberto. Eu acho que vai ser muito legal você poder dar treinamento para as CDIs regionais. E para akes e tal.” Então eu ainda sou chamado esporadicamente para dar treinamentos fora de São Paulo, fora do CDI. Mas sempre que eu vou para fora de São Paulo, fora do CDI, eu me disponho, faço contato como CDI regional. Até para justificar a minha ida. Porque às vezes eu perco um dia de trabalho que eu poderia estar dedicando ao CDI. E dou uma capacitação. Enfim, tem mais uma oficina, uma conversa sobre captação de recursos com esses CDIs. Sou meio tido como uma referência na rede. Até porque eu tive um momento na matriz capacitando e tal. E até, assim, o momento que eu estou, de amadurecimento, que eu estou construindo junto com o Rodrigo é de... bom, eu estou me solidificando como coordenador do CDI São Paulo. Mas ele quer que eu me solidifique como uma referência no Estado ou na região Sudeste. 

P/2 – De gestão de um CDI regional, isso?

R – A gente ainda não sabe direito o quê. Mas, nessa, a matriz fica muito distante dos CDIs regionais. Ele me vê como uma liderança na região Sudeste. Talvez uma das lideranças mais atuantes. Talvez porque eu sou profissional, estou full time no CDI. Tenho uma experiência em captação de recursos. Isso também talvez esteja em off, porque é uma coisa que eu só conversei com o Rodrigo até agora, né?

P/1 – Sei, sei. 

P/1 – Talvez pudesse desenvolver.

P/1 – Eu queria só fazer uma pergunta, assim, talvez exatamente isso. Porque os CDIs eles têm uma autonomia muito grande. Cada regional, aqui em São Paulo são cinco, não é?

R – No Estado de São Paulo é São Paulo, Baixada Santista, São José dos Campos, Piracicaba e Campinas.

P/1 – Cinco.

R – Cinco.

P/1 – Então, quer dizer, eles, os CDIs eles têm alguma forma de articulação assim? E a outra pergunta: entre eles há uma preocupação em ter isso? E uma outra pergunta é: qual seria a característica do CDI de São Paulo?

R – A característica do CDI São Paulo.

P/1 – Porque eu imagino que cada um assume um pouco a característica do seu local, do seu contexto. Das parcerias que consegue estabelecer. Então qual seria uma característica mesmo de São Paulo.

R – Bom, primeiro da articulação regional, eu posso falar um pouquinho. Eu acho que isso está começando na Rede CDI. Porque os CDIs foram criados independentes um do outro. Mas em um processo de semeadura do Rodrigo que explodiu CDI por tudo quanto que é lado. E a gente eu acho que está construindo o espírito de rede aos poucos. A partir desse ano, não, já há alguns anos, a gente vem fazendo encontros regionais do Sudeste. Os encontros regionais eles tinham muito mais a característica de capacitação. A matriz capacitando os CDIs regionais e tal. Esse ano a gente teve um encontro regional do CDI do Sudeste que foi o máximo. Foi o máximo. Deu para ver assim os CDIs assumindo uma responsabilidade pela rede. Muito interessante. Surgiu como documento final a Carta do Sudeste. Que foi a Rede CDI que queremos construir. Os próprios CDIs regionais assumindo a responsabilidade por construir essa rede. De que a rede não vai ser construída pela matriz. Mas pela matriz mais os regionais. E foi, pela primeira vez, eu tive um sentimento de espírito de rede de verdade em um encontro. E eu acho que a forma como a gente encaminhou o encontro. E eu acho que aí eu tive uma responsabilidade, modéstia à parte, muito humildemente assim. Tive uma responsabilidade por organizar as discussões do encontro. Então foi um encontro, a avaliação final foi: “esse encontro foi diferente dos encontros da Rede CDI. Porque esse encontro nasceu da gente. Esse encontro foi, veio, com uma agenda, mas ele veio totalmente em aberto para a gente construir. O resultado final do encontro é construção nossa.” Então eu acho que isso é parte da metodologia que teve a ver com a minha participação e com a participação da Helena, do CDI Campinas. E de construir consensos. Que foi eu não sei se consensos, mas consentimentos. Algumas pessoas consentem que aquilo aconteça. Eu acho que eu tive um pouco a ver com aquilo que aconteceu. E gerou uma Carta do Sudeste, que no final das contas foi encaminhada à matriz. E o Rodrigo recebeu essa carta com um espanto tremendo. O Rodrigo, aliás, ele recebeu muito mal a carta. 

P/1 – Assim.

R – Sim, sim. Isso também é...

P/1 – Em off.

R - ...é importante também que seja em off. A gente está criando um clima de confiança aqui. Eu estou me abrindo, eu estou contando tudo. [risos] 

P/1 – O CD a gente te dá uma cópia e você fala, você pode ter certeza.

P/2 – A gente te dá a cópia e a tesoura.

R – Beleza, eu acho que vocês estão com a capacidade de saber o que é que vai para esse documento ou não, né?

P/2 – Sim.

R – Mas eu acho que faz parte da história isso, né? O Rodrigo me ligou. A gente teve um papo de uma hora e meia de gritos e discussões. E confusões. Foi um embate muito bacana. E assim, eu vi que ali eu cresci e o Rodrigo cresceu. A gente foi para um patamar diferente de relação.

P/1 – Que legal. 

R – Porque o Rodrigo me via de uma forma.

P/1 – Depois de um primeiro enfrentamento.

R – E depois disso ele me viu de uma outra forma. E eu tentando sempre construir com ele. E ele falando: “vocês estão querendo bater na matriz.” Eu falei: “não, Rodrigo, não é isso. A gente...” é, ele achou tudo um absurdo o que estava lá. E eu já tenho percebido como que essa carta tem refletido na ação da matriz em relação à rede. A construção do encontro nacional esse ano é totalmente diferente. O encontro nacional vem para São Paulo. Esse ano vai acontecer aqui em São Paulo. Bom, aí você perguntou qual é o papel de São Paulo.

P/2 – Só uma coisinha para pegar o gancho. Quando você fala os CDIs do Sudeste como que fica o Rio de Janeiro nessa situação? Porque o Rio de Janeiro é a matriz...

R – E Rio de Janeiro.

P/2 – Tem uma diferença o Rio de Janeiro regional e o Rio de Janeiro matriz?

R – Tem.

P/2 – Então o Sudeste seria o Rio regional. Como é isso?

R – É assim, o Rio regional, né? É isso.

P/2 – O Rio entra então nesse sudeste.

R – Bom, nos encontros regionais o CDI matriz vai em todos. No encontro do Sudeste o Rio de Janeiro vem o CDI matriz vem. Como o CDI matriz vai no do Nordeste, do Sul, do Norte. 

P/2 – É só isso aí.

R – Que característica que o CDI São Paulo acaba assumindo? Eu acho que em alguns assuntos ele acaba assumindo uma característica de embaixador da Rede CDI em uma cidade como São Paulo. Principalmente em termos de comunicação, visibilidade do CDI e captação de recursos. Eu acho que nesses assuntos o CDI é meio embaixador da rede. Quer dizer, todos os contatos que eu faço com qualquer órgão, seja de imprensa, seja empresas eu sempre assumo para mim a responsabilidade de falar em nome da rede como um todo. Acho que todo o CDI assume essa responsabilidade. Mas eu acho que aqui em São Paulo isso é mais forte. Porque a gente está falando de empresas que estão no Brasil inteiro, fora do Brasil. A gente está falando de órgão de imprensa que são nacionais. Então eu acho que tem essa característica. Uma outra característica é que a gente percebe que aqui é um celeiro para a gente trabalhar projetos que possam vir a ser multiplicados em outros lugares do Brasil. Porque a gente consegue ter aqui, por conta dos recursos, do tamanho do CDI São Paulo, uma equipe profissionalizada. A gente consegue ter uma condição de trabalho por conta dos CDI, do tamanho do CDI São Paulo que, para mim, eu assumo a responsabilidade da gente ter um trabalho muito bom aqui em São Paulo. Que tem que ter um trabalho bom, porque a gente tem mais recursos. Então a gente já tem conseguido excelência, ao meu ver, em termos de estoque e captação de computadores. Captação, manutenção e estoque. Que a gente chama de logística. Voluntariado, captação de recursos. E a gente tem desafios que, acredito, que seja o próximo desafio é em termos de fortalecimento das escolas de informática e cidadania aqui em São Paulo. A gente ainda não é uma referência nesse sentido em São Paulo. A gente é uma referência em projetos especiais, por exemplo, Febems. A gente está começando em presídio aqui em São Paulo. Estamos começando um projeto com escolas públicas aqui em São Paulo. Então é um pouco isso.

P/2 – Essa que você fez referência com projeto com escola pública, como que é essa interface do CDI com um governo? Especificamente com esse governo.

R – A gente foi procurado pela Secretaria da Educação, pelo programa Escola da Família. Que são aquelas escolas que abrem no fim-de-semana. Eles têm voluntários, que são universitários, que recebem uma bolsa para trabalhar nos fins de semana com uma série de atividades. E aí queriam abrir o laboratório de informática inclusive. Vieram para a gente com a proposta de utilizar a metodologia do CDI. Que a gente transformou oito escolas públicas em akes no fim-de-semana. Estamos começando um projeto piloto. Estamos inaugurando agora em setembro. Agosto, setembro.

P/2 – E o histórico da relação com a Febem.  Você tem uma idéia como começou essa relação, como está hoje?

R – Tenho. Então, ela começou muito... isso é anterior a minha chegada no CDI. Por volta de 2001. O Vander Teles que é esse sócio da Price, que é presidente do Conselho do CDI São Paulo. Ele, acho que foi procurado pelo Rodrigo. Na época se interessou em apoiar. E no momento de estruturação do CDI São Paulo a coordenadora pedagógica do Rio veio capacitar voluntários da Price para montar (akes?) na Febem. Então as primeiras capacitações de educadores da Febem foram feitas por voluntários da Price. Ainda uma capacitação muito incipiente. Muito mais branda do que é a capacitação hoje, que é uma capacitação de educadores de 90 horas, de coordenadores. Nessa época, a relação com a Febem era a relação da sala de estar. A relação com a Febem institucional, que colocava de cima para baixo a montagem de akes nas unidades da Febem. Eu acho que a nossa história com a Febem foi uma história de se aproximar da cozinha, né? Com o tempo, isso foi uma sacada muito bacana da Juliana, ela foi se aproximando das unidades. Falando do CDI para as unidades. E aí a gente fortaleceu, tem fortalecido, a relação com a Febem. Bom, hoje as capacitações estão sendo refeitas pelo próprio CDI, não mais por voluntários da Price. A Price ainda se sente muito ligada à Febem, porque esse projeto evoluiu de forma a que alunos que saíssem das akes fossem contratados pela Price. Egressos da Febem. O Marcos é um deles, né? O Claudenir é um outro caso, é uma outra história que a gente tem de um garoto que saiu da Febem e veio trabalhar aqui no CDI, na área de manutenção, e foi assassinado. Uma história triste que a gente tem aí. Continuou no crime e tal. E foi assassinado. Uma coisa que escapou das nossas mãos. A gente não fazia a mínima idéia que isso estava acontecendo. Que ele estava no crime ainda. É uma história mal resolvida, principalmente para a Elaine. E o pessoal que viveu isso. Ela era a coordenadora dele. Bom, então a história da Febem é essa. A história que está em construção é essa. A gente vem trabalhando há alguns anos com a Febem na possibilidade da Febem fazer recursos financeiros ao CDI. Porque a gente já tem 10, 11 akes na Febem. E tem uma fila de mais 10 para serem criadas. Então, porra, tem 10 unidades que já inscreveram projetos. Nessa aproximação com as unidades a gente fez uma palestra do CDI e 10 unidades inscreveram projetos para o CDI. A partir da unidade, a vontade. E tem 10 projetos na mão, aí, para a gente montar. E a Febem, enfim, aquela coisa de órgão público. A pessoa que a gente tinha contato na Febem foi mandada embora recentemente. Que a gente já estava evoluindo. Estava super legal. O cara foi mandado embora. Esse cara tinha acabado de aprovar um projeto com a Microsoft para investimento da Microsoft nas akes. E a Microsoft tinha acabado de aprovar o projeto o cara foi mandado embora. A Microsoft veio pedir ajuda para a gente: “pô, o que a gente faz?”. Aí eu falei assim: “por que é que vocês não investem pelo CDI? Para a gente implementar lá?”. Já que a Febem não dá dinheiro para a gente, dá a Microsoft, para a gente implementar o nosso projeto lá. E eu acho que vai rolar. Eu recebi uma ligação sexta-feira, da Microsoft dizendo que eles só estão vendo burocraticamente como vai fazer. Porque o cheque já tinha sido emitido em nome da Febem. Mas eles não se sentem mais seguros em investir via Febem. Então vão investir pelo CDI. Para a gente, pô, vai ser o máximo. Que é uma nova captação de recursos. 

P/2 – Mais 10 escolas na Febem estão programadas.

R – Mais 10 escolas vão ser programadas, uma vez que a gente sentar aí com a Microsoft. Vão ser programadas. O que nos aproxima desse público. Está crescendo para a gente a importância desse público. E a gente tem quatro Funaps também em presídios aqui em São Paulo. Estamos começando. Tem feminino, tem casa do egresso.

P/2 – Mas de alguma forma vocês estão tentando reforçar a atuação das redes, né? Mas de alguma forma São Paulo tem um peso diferente na captação de recursos eu imagino em termos nacionais.

R – Hum, hum.

P/2 – Como que é... qual seria o papel aí de São Paulo?

R – Olha, tem muitas empresas que são captadas pela matriz aqui em São Paulo. E aí, enfim, a gente tem o papel de um trabalho conjunto. De, bom, quando eu estou em uma reunião, eu tenho que verificar se tem a possibilidade de envolver a rede nessa reunião. Inclusive a matriz tem um assistente aqui em São Paulo, que é o Mário. O Mário eu contratei quando eu era da matriz aqui em São Paulo e ele acabou ficando. Então a gente é muito parceiro, assim. O Mário faz as articulações da matriz aqui em São Paulo. E eu, quando tenho uma visita, levo o Mário. A gente trabalha muito em parceria aqui em São Paulo. a gente ainda não delimitou a divisa: qual é o meu papel, qual é o da matriz. Na verdade, eu me vejo como matriz também em alguns momentos, especialmente em captação de recursos.

P/2 – Eu acho que o Megajuda é algo muito forte também de São Paulo, né?  A captação do material mesmo.

R – Do computador. 

P/2 – Você poderia falar um pouco, talvez retornando a história. Eu sei que você não estava aqui na época que começou, mas como funciona o Megajuda, né?

R – Sim. A Megajuda é a campanha de arrecadação de computadores que foi criada pela Câmara Americana e, aí, a partir de um determinado momento, era realização Câmara Americana, CDI. Desde o ano passado, que eu assumi, eu já me incomodava com essa situação. Porque quem realizava a campanha era o CDI. E aí, a partir do momento que a gente veio para cá, ficou mais claro, né? É o CDI mesmo que realiza. Câmara Americana é um apoiador institucional, como são os outros. Então a partir desse ano foi legal. Porque eu acho que, assim, isso é um marco na história da Megajuda. A partir desse ano apareceu no material institucional: Megajuda, uma campanha CDI. Apoio institucional Amcham, Ethos e Fiesp. Então a gente tem um marco na história da Megajuda, esse ano, que é esse marco da gente assumir a responsabilidade pela campanha. É realmente assim, a gente aqui em São Paulo, é um entreposto de captação de computadores. E é uma referência em termos de metodologia de estocagem, de controle de estoque, de transporte, de logística, né? De computadores, de manutenção. A gente faz mutirões para manutenção de computadores. É o maior espaço certamente de todos os CDIs. No Rio, eles têm um espaço enorme, eu sei que ele é todo bagunçado. Inclusive no Rio eles estão se baseando no modelo aqui de São Paulo. A Fabiana tem ligado, tem vindo aqui para se basear nesse modelo.

P/1 – Mas nos outros estados tem Megajuda fora o Rio e São Paulo, não?

R – Nos outros estados, então, nos outros estados tem campanha de arrecadação de computadores. Que a partir desse ano os estados que queiram transformar essa campanha em uma campanha mais visível, eles vão chamar de Megajuda esse ano. Eu senti falta só de na entrevista contar um pouco... tenho 4 minutos, é isso?

P/2 – Pode por. Quatro para essa.

P/1 – Isso que eu ia perguntar, alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de falar.

R – Legal. Foi interessante como a minha... eu tive dois filhos no CDI. Minha vida mudou completamente. Essa dimensão da vida pessoal acompanhou o desenvolvimento profissional, né? Que eu tive dois filhos. Nesses dois anos que eu estou no CDI eu tenho um filho hoje de 2 anos e tenho uma filha de 6 meses, né? Não sei se é uma informação...

P/1 – É importantíssimo.

R - ...para mim é uma informação super relevante, né?

P/2 – Como chamam os filhos?

R – Meu filho chama Caio e minha filha chama Clara. Minha mulher chama Flávia. O CDI permitiu, eu estar no CDI permitiu, tem permitido, eu tocar minha vida pessoal. Permitido a minha mulher poder dedicar tempo à educação dos meus filhos. Ela fazia uma faculdade de Veterinária. Ela já podia ter terminado, já podia ter começado a trabalhar, mas foi uma decisão conjunta que ela ficaria em casa cuidando dos nossos filhos. Da educação dos nossos filhos e tal. E desses primeiros momentos. Até que ela possa retomar à faculdade. Mas eu acho que o CDI me proporcionou isso também. Estar no CDI, ser remunerado, profissional.

P/1 – Claro, segurança.

R – É, essa segurança permite que eu tenha, isso faz parte da história.

P/2 – Sim, claro. Não é pouca coisa, né?

R – É.

P/1 – Mas, com tantas atividades, você consegue também ter um tempo de convivência com a família? Porque você trabalha em São Paulo, você viaja, você atende a matriz.

R – Pode crer.

P/1 – Atende São Paulo, como é isso? Você consegue ter...

R – Isso, é assim mesmo. [risos] 

P/1 – [risos] 

R – Isso, é assim mesmo. É essa doideira. Eu dedico à minha família menos tempo do que eu gostaria, mas todo tempo que eu dedico é um tempo de qualidade, né? Eu, agora, eu estou bastante cansado, porque eu tive uma noite que meu filho está doente. Ele acordou a noite toda. Mas eu enfim, é o mundo do trabalho, né? Eu trabalho no horário comercial. Chego em casa as 8 horas da noite. Tenho tempo aí de curtir meus filhos. Curto meus filhos, dou banho, conto histórias, coloco eles para dormir. E nos fins de semana a gente se curte muito, né? É isso.

P/3 – Vamos por mais um para a avaliação.

[pausa]

P/2 – Rodrigo, o que você achou de dar esse depoimento? Qual foi sua avaliação desse depoimento pessoal que você deu?

R – Ah, eu me sinto muito honrado de saber que a minha história tem, tem, acaba interferindo na história dessa organização, né? O tamanho do CDI, dá uma magnitude que a gente não vê. Então, não, super legal. Achei muito legal. Estou curioso para ver o resultado final. Para ver como é que a minha vida e a vida das outras pessoas tiveram caminhos provavelmente muito, alguns casos, parecidos, né? E fico muito feliz e honrado de poder dar esse depoimento.

P/2 – E a respeito da iniciativa do CDI de registrar a memória da entidade, você teria alguma coisa a acrescentar?

R – Sobre a minha história não, né? Eu tenho, eu acho, uma iniciativa muito louvável, muito bacana. Eu acho que pode servir de... é um documento histórico, né? Está registrada a história através da história das pessoas. Eu fico pensando no meu neto vendo, ouvindo esses depoimentos, vendo o que é que o avô dele fez. Viajando nessas coisas que acabei de contar do meu avô aqui. Imagino o meu neto vendo um depoimento de... ou meus filhos. Eu tenho pensado muito que, quando eu estou fora de casa... eu ganhei uma filmadora digital, né? Começar a levar a filmadora digital para poder filmar as pessoas com quem eu tenho convivido. Para os meus filhos começarem, ou minha mulher, até, a ver as pessoas com as quais tenho me relacionado. O que é que eu faço quando eu não estou em casa.

P/1 – É, trazer um pouco do trabalho para dentro de casa. 

R – O trabalho para dentro de casa, né?

P/2 – Compartilhar.

R – É isso. Acho que é isso. Para mim foi um mergulho. Para mim também foi legal mergulhar. E sempre que a gente fala da própria vida a gente refaz o nosso caminho, né?

P/1 – Ah, sim. Claro. 

R – E, eu, mais recentemente, tenho me dado conta do fluxo. Eu não me dava conta de que existia um fluxo. Eu hoje me dou conta de que existe um fluxo. De que as coisas não acontecem por acaso. Então que tem um fio aí, dando o tom, né?

P/1 – Hum, hum. Tem um ritmo também que as coisas acontecem...

R – Tem, é. E de como as organizações também têm esse ritmo e esse tom. É muito parecida a forma de desenvolvimento de uma pessoa e de uma organização, que é um ser vivo também. Está querendo se desenvolver e ir para algum lugar. Eu vejo hoje a rede, puta, parece um adolescente, sabe? Que rebelde, quer sair de casa. [risos] É isso aí.

P/2 – Perfeito.

P/1 – Então tá. Em nome do Museu da Pessoa e do CDI agradecemos o seu depoimento aqui. Foi muito bom. Obrigada.

P/2 – Obrigado.

R – Valeu, obrigado a vocês.

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