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História

Estar vivo é um bom sinal

História de: José Mauro Leal Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Filho do diplomata José Moraes Rego Costa e da escritora Helena Cecília Leal Costa, José Mauro Leal Costa possui boas recordações da infância que passou no Rio de Janeiro, especialmente do Colégio São Bento cujos ensinamentos lhe valeram para toda a vida. Depois de concluir o Ensino Secundário, mudou-se com os pais para os Estados Unidos e ingressou no curso de Engenharia. Nesta entrevista ao Museu da Pessoa, José Mauro fala das dificuldades em mudar de país e como conseguiu se dedicar à vida pessoal e profissional. Fala sobre os bastidores da construção da Ponte Rio-Niterói, em que trabalhou como engenheiro mecânico de manutenção, e sua trajetória na área de Telecomunicações. Responsável pela instalação do primeiro sistema de fibra ótica no Brasil, compartilha com orgulho a sensação de deixar uma marca na história.

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História completa

P/1 – Bom dia, seu José Mauro. Eu queria, pra iniciar, que o senhor dissesse o seu nome completo, a sua data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é José Mauro Leal Costa, eu nasci no dia 2 de dezembro de 1948, na cidade do Rio de Janeiro.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – Meu pai chamava-se José Moraes Rego Costa e a minha mãe se chama Helena Cecília Leal Costa.

 

P/1 – Qual era a atividade do seu pai?

 

R – Meu pai era advogado.

 

P/1 – Sua mãe?

 

R – Minha mãe era escritora. Escreveu em revistas, na época uma revista que era muito famosa no Rio de Janeiro, chamada O Cruzeiro. Escreveu lá, acho que uns vinte anos. Ela tinha uma coluna chamada Da Mulher para Mulher. O pessoal, na época, lia muito isso. Mas sempre trabalhou em casa, ela não era... Livros, não fazia livros e também não trabalhava fora dessa revista em si, mas ela tinha muito gosto e eu aprendi muito também a ler através dela.

 

P/1 – O teor dessa coluna, qual que era, exatamente?

 

R – Eram perguntas e consultas, digamos, que mulheres fazia à ela, como escritora, sobre problemas do dia a dia da vida das mulheres... Quer dizer, em geral, trabalho, de criar filhos, enfrentar problemas de discriminação, já naquela época... nós estamos falando aí da década de 1950. Então era uma coluna interessante que tinha nessa revista. Essa revista O Cruzeiro, eu acho que não se conhece mais hoje, mas era bem conhecida na época.

 

P/1 – A maior revista brasileira.

 

R – É verdade.

 

P/1 – E o seu pai, advogado em que área?

 

R – Meu pai, na verdade ele nunca trabalhou como advogado, digamos, tecnicamente falando. Mas ele trabalhava no antigo IAPC, Instituto de Aposentadoria de Pensões, antes de ser o INPI... o melhor, antes de ser o INPS, juntos, eram vários institutos. Depois disso ele foi assessor do ministro Armando Falcão, quando foi a primeira vez Ministro da Justiça na época do presidente Juscelino... até morei em Brasília com ele, nessa época, em 1961, depois disso ele foi professor da Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro, aluno e depois professor e, depois enviado pra Washington, quando eu fui com ele, como aluno, numa missão diplomática representando o Brasil num... se chama Colégio Interamericano de Defesa, espécie de Escola Superior de Guerra das Américas. Então ele não trabalhava como advogado, e sim, embora tenha sido procurador do IAPC, o Instituto de Pensão, mas em escritório de advocacia ele não trabalhou.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Meus avós eu conheço muito pouco. Na verdade eu não conheci nenhum avô, vivo. Conheci, curiosamente, uma avó e uma bisavó, por parte de mãe. Agora, meu avô, eu sei que meu pai me contava muito, meu avô era primo do Sarney, do presidente Sarney. O presidente Sarney, eu não sei se você sabia, o nome correto dele é José de Ribamar Costa e esse Costa é o mesmo Costa da minha família. Mas meu avô, os pais dele, meus bisavós, segundo meu pai, moravam no interior do Estado do Maranhão... e como bicho do mato, quer dizer, ali na floresta e quando chegava um visitante se escondiam, etc. Meu avô saiu dessa origem pra montar o primeiro Ginásio de São Luís, no Maranhão. Era um autodidata, falava francês fluente, montou o primeiro Ginásio, foi diretor e professor, então eu costumo falar pra minhas filhas: “Eu consegui, através dos meus pais, fazer um curso de doutorado nos Estados Unidos e curso de Engenharia antes, etc., mas o desafio que o meu avô atravessou foi bem maior do que o meu”, porque o meu pai já era formado, já podia me levar para os Estados Unidos, enfim... E o meu avô saiu do meio do mato, um pai que tinha medo quando chegava um ser humano perto, pra ser um diretor de uma escola em São Luís. Minha avó, o que eu conhecia de falar, parece que, parece não, eu já existia quando ela morreu, eu já tinha nascido, mas não me lembro dela. Eu sei que ela era muito nervosa, muito... meu pai era filho único. Meu pai me dizia que não podia andar de bicicleta porque podia se machucar, que minha avó ficava muito preocupada com qualquer coisa assim. Era muito nervosa, muito tensa, a única coisa que eu conheço assim dela, da personalidade dela.

 

P/1 – E do lado materno?

 

R – Do lado materno, meu avô materno foi prefeito de Santarém, no Pará, uma família muito conhecida, a família Pires, ali naquela região do Nordeste, Norte do Brasil, é muito conhecida, vamos dizer assim. Minha avó, curiosamente, também, eu acho que influenciou muito a minha mãe, que por sua vez me influenciou também. Minha avó saiu de Belém do Pará, talvez na década de 1920 ou 1930, não sei, para ir para a Inglaterra, donde ficou nove anos estudando em colégio interno. Aprendeu a falar inglês, obviamente fluente e jogava tênis, tenho fotos dela que guardo até hoje, jogando tênis em Belém do Pará, em 1930, então aquilo, em 1940, era visto como uma afronta à sociedade local, porque mulher não podia fazer isso, enfim,  mas, eu conheci muito ela. Ela morreu numa circunstância  – parece de cinema  –, morreu afogada numa rua no Rio de Janeiro. A rua das Laranjeiras costumava inundar, com chuva, minha mãe vinha subindo no carro e a água subiu demais, as duas saíram do carro, a minha mãe foi impulsionada pra dentro de uma casa, num portão que se abriu e minha avó pra rua, e morreu afogada na rua. Parece que se contar assim não acredita, não é? E minha bisavó, mãe dela, conheci muito também, morreu de uma morte que acho que todo mundo quer, dormindo, quer dizer, até os noventa e poucos anos viveu perfeitamente lúcida, por conta própria e muito simpática a velhinha, me lembro muito bem dela, então foram estas que eu conheci.

 

P/1 – E a sua casa de infância? Como era a sua casa de infância? Você poderia descrevê-la?

 

R – Eu morava num apartamento, no Rio de Janeiro, meus irmãos mais velhos... a distância era um pouco maior do que a minha, mas eu convivi bastante com eles. Minha irmã, mais ou menos da minha idade, um pouco mais nova, eu convivi também até infância, porque depois, você vai pra rua e passear. Era uma infância que eu tenho excelentes memórias, quer dizer, o Rio de Janeiro, naquela época, pra você ter uma ideia, eu morava debaixo do Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro e várias vezes, inúmeras vezes, subi o morro, na favela com os colegas, pra chamar colegas nas favelas pra jogar bola, brincar de bandido e mocinho no morro e hoje eu não quero chegar nem perto daqueles morros. Imagina subir no morro da favela, para... Então era uma época que hoje me parece impossível de acreditar, porque vê as notícias hoje, terríveis lá, de violência etc. O clima também era diferente, na minha infância, no Rio de Janeiro, então eu saía de casa, fim de semana ia pra praia e voltava no fim do dia, ou era chuva violenta, ou era sol fantástico. Meus pais tinham um sítio também no Estado do Rio de Janeiro, que eu passava todas as férias e era um paraíso, porque, naquela época quando você era garoto, as férias, parece que duram uma eternidade. Então começavam as férias, parecia que você ia ficar um ano lá de férias e, graças a Deus eu tenho memórias muito boas da infância, quer dizer, eu convivi, eu estudava muito, sempre fui CDF, como chamam, não sei se ainda chamam assim, mas nunca deixei de jogar bola, de ter namoradas, de brincar com os colegas, enfim.

 

P/1 – Onde era esse sítio?

 

R – O sítio era no município de Pessegueiros, perto de Teresópolis, Estado do Rio. Uma hora, quarenta minutos da cidade de Teresópolis.

 

P/1 – Esse apartamento em que morava a família, como era o apartamento?

 

R – Era um apartamento num prédio de doze andares que tinham dois níveis, para se chegar pelo terceiro andar, ou pelo andar mais de baixo, era um prédio que dava pra duas ruas, uma mais alta do que a outra. O Rio de Janeiro é todo cheio de morros, né? O apartamento em si, tinha três quartos, eu convivia com meus dois irmãos num quarto, minha irmã ficava no outro quarto, meus pais no terceiro. Tínhamos uma sala, tínhamos dois banheiros, que minha mãe mandou construir um a mais, porque um não dava, na hora que, todos iam para a escola, né? Um prédio muito agradável, um prédio com corredores compridos, a gente jogava bola de meia, que eu não vejo a garotada mais hoje jogar, pegava meia velha da mãe e enchia de papel pra jogar bola e, enfim, muito agradável. Um prédio onde as pessoas eram mais ou menos do mesmo nível, de educação, enfim, então era muito agradável. Era uma comunidade própria dentro do próprio prédio.

 

P/1 – E a sua primeira escola, aonde o senhor foi estudar?

 

R – A minha primeira escola foi uma escola que hoje é só de mulheres, chamava-se Colégio Santa Rosa de Lima, jardim da infância. Ficava em Botafogo. Eu fiquei lá um ano só, não me lembro de quase nada, mas lembro algumas coisas e minha mãe ia me pegar de bonde, no Rio de Janeiro. Depois disso, você quer saber as outras também ou não? Depois disso, fui pra uma escola muito boa, no primeiro, segundo e terceiro anos primários, perto da Rua das Laranjeiras, próximo de onde eu morava e depois fui para o colégio de São Bento, onde eu fiquei nove anos. Então, certamente o que mais me marcou foi o Colégio São Bento e que me deu a base, digamos acadêmica, pro resto da minha vida. Eu costumo sempre lembrar dos anos no São Bento, como os anos de base pra curso de PhD, curso de mestrado, curso de... Eu estava há dois anos atrás, em Lausanne, na Suíça, fazendo, já aqui pelo grupo, um curso de extensão gerencial, Management Course, e várias vezes, eram coisas de muito alto nível de administração etc. Professores lá da comunidade europeia etc., e muitas vezes eu me via fazendo raciocínios que me foram treinados no Colégio São Bento, na infância, na juventude, não o problema em si, os problemas hoje eram maiores, vamos dizer assim, mas a metodologia de, ao invés de sair disparado pensando na resolução de alguma coisa, os beneditinos ensinam muito isso, você a ter metodologia de pensamento, de raciocínio. E isso você carrega o resto da vida. Então, foram anos fantásticos, ali, e está lá hoje, curiosamente, é o mesmo reitor ainda, que tem noventa anos de idade, Dom Lourenço, em toda oportunidade que tenho, no Rio de Janeiro, passo lá, pra falar com ele, sei lá, duas vezes por ano, mas eu gosto muito do ambiente lá do colégio, que me marcou o resto da vida, né?

 

P/1 – Algum professor em especial?

 

R – Não, não tinha, não me lembro de um professor, assim, de um professor especial, mas vários professores, digamos que marcaram. Eu me lembro, existia um professor, especificamente, que era um padre, o Irineu Pena, esse professor é da família do Afonso Pena, pra você ter uma ideia, ele era uma espécie de professor coringa, quer dizer, quando faltava um professor, porque estava doente ou porque estava viajando, ele entrava em campo pra dar aquela aula, e essa aula podia ser de Matemática, Física, Química, Religião, Geografia, História e era a melhor aula, sempre a dele. Então, pra você ter uma ideia da capacidade intelectual de uma pessoa dessa. Outra coisa que eu me lembro, é muito curioso também, na aula de religião, os professores que conheciam muito de religião, normalmente, mas queriam fazer aquilo mais interessante, pra não ficar aquele negócio cacete, chato, enfim. Então eles traziam colegas, professores padres, e começavam a conversar na nossa frente em latim, um com o outro, como se fosse na época de Roma, então isso sempre trazia uma característica interessante na aula, tornava mais atrativa, enfim. Então não tem, assim, um professor específico, todos eram excelentes professores e você sentia que era um ambiente muito voltado para aprender e não decorar nada, quer dizer, decorar era um crime, até hoje eu vejo com as minhas filhas, eu tenho três filhas, quando elas vão estudar alguma coisa e a escola diz pra elas decorarem alguma coisa eu tenho vontade de ir, algumas vezes já fui na escola, conversar com a diretora e dizer: “Isso é um absurdo”. Enfim, de novo, marca a cabeça da gente a vida inteira, não é?

 

P/1 – Algum colega em especial? Algum amigo que tenha perdurado esse tempo todo?

 

R – Tinha um amigo meu muito bom, de infância, que morava num prédio nosso. Nós íamos juntos desde o curso primário até o curso científico, que chamava na época, estudando quase que na mesma mesa sempre, era um amigo de infância muito bom e que morreu muitos anos atrás já, num acidente de automóvel terrível. Tenho amigos de infância também que, um deles foi pra esse mesmo colégio meu, que é de uma família que hoje está espalhada e, de vez em quando eu ainda convivo. São poucos, amigos de infância com quem eu convivo são muito poucos. Em parte porque eu saí do Rio de Janeiro, nunca mais voltei pra morar lá. Mas, outro dia encontrei numa reunião de colega, que foi curioso, no Rio de Janeiro, me convidaram e eu fui lá, e entrei no restaurante que foi indicado pra festa, pra reunião, um jantar, e eu passei numa mesa onde tinham me dito, o garçom, que eram os colegas do São Bento, e eu passei numa mesa: “Não deve ser aqui, que tem muito velho aqui, não pode ser aqueles caras de dezoito anos de idade” (risos). Aí, a hora que eu voltei, falei: “Caramba, são eles mesmo”. O tempo passa, né? (risos) Eu até hoje não tenho cabelo... Eu tenho falado muito com o Luiz recentemente, esse ano, que eu estou como vice-presidente executivo do grupo, já começaram a aparecer alguns cabelos brancos, mas são poucos ainda. (risos) Então, enfim, de vez em quando nota o passar do tempo, né, quando você vê assim a referência de... Saímos de lá com dezoito anos, eu tenho cinquenta e um, quer dizer, são trinta e três anos, é coisa pra burro, né?

 

P/1 – Algum desenho do seu futuro, já no São Bento, traçou a tendência pra área exata? Isso nasceu ali?

 

R – Sim, isso é verdade. Quando chegou no primeiro ano do científico no Colégio São Bento, eu tinha já clara, digamos, preferência pelas ciências exatas, em vez de humanas. Então, Física, Matemática, Química, eu tinha prazer em estudar, realmente prazer e Português, Inglês, Religião, era uma coisa assim que eu fazia meio a contragosto, né? Inclusive no terceiro ano científico, que era o último ano na época, e no Colégio São Bento é curioso, porque existe uma tradição, há mais de cem anos, que o primeiro aluno do terceiro científico, na cerimônia de formação, de colação de grau do colegial hoje, passa uma bandeira do mosteiro, que tem cem anos de idade, pro primeiro aluno do segundo científico. E durante todos os oito no São Bento eu era o terceiro lugar da turma. Tinha um casal de primos, dois primos que eram sempre um primeiro, outro segundo, eles sempre tiravam notas melhores que a minha, etc. Quando chegou no terceiro científico, por causa do vestibular, famoso vestibular, eu precisei estudar mais do que o normal, e quando chegou no fim do ano, justamente pelas matérias de ciências exatas, que eram as mais difíceis, eu fiquei em primeiro lugar da turma, então eu fui passar a tal da bandeira, principalmente, eu tenho a impressão, por esse gosto pelas ciências exatas, que eram as mais difíceis, vamos dizer assim, Matemática, Física, Química. E eles eram mais propensos assim para as ciências humanas. Mas, sem dúvida, o meu gosto por Matemática, Física e Química apareceu no primeiro ano científico, não foi nem no terceiro. E daí seguiu, realmente eu segui uma carreira técnica, vamos dizer assim, e depois evoluiu pra a coisa administrativa. Mas a base da minha formação é técnica, sem dúvida nenhuma.

 

P/1 – O seu primeiro vestibular?

 

R – O primeiro e único vestibular foi no Rio de Janeiro. Eu entrei pra PUC do Rio de Janeiro, a Universidade Católica, entrei bem, direto, não tive dificuldade maior, por causa desse estudo profundo no São Bento.

 

P/1 – Engenharia?

 

R – Engenharia Mecânica. Fiz o primeiro ano, primeiro semestre, o primeiro ano de engenharia na PUC do Rio. Aí, meus pais foram enviados para os Estados Unidos, meu pai, na verdade, e eu, então, fui para os Estados Unidos, para Washington.

 

P/1 – Como foi essa mudança de um jovem que nunca tinha saído do Rio?

 

R – Foi muito difícil. Na verdade, curiosamente, quando eu saí do São Bento... Você, quando chega no final do colégio, você quer sair pro mundo, você quer mudar, e por mais agradável e realmente interessante que seja o ambiente do colégio, você cresce, e é que nem aquele negócio da Alice no País das Maravilhas, você não cabe mais ali dentro, você quer sair pro mundo, ver coisas novas, enfim. E quando eu fui para a PUC, que era um mundo novo, a PUC do Rio de Janeiro, eu senti muita falta do São Bento, porque era como se eu estivesse ali no teu casulo, quase nasceu ali, quer dizer, do terceiro ano primário, de repente sai pra um mundo estranho, etc. E não deu nem tempo de se acostumar à PUC, fui para Washington D. C., quer dizer, um lugar totalmente diferente e, nos Estados Unidos, embora nós convivêssemos com muitas famílias brasileiras em Washington, o que foi um erro nos primeiros dois anos, em relação a aprender um pouco da cultura e da língua, na universidade não tinha brasileiros, então tinha que conviver, aliás, não tinha brasileiros eu minto, tinha uma moça brasileira, muito simpática até, que eu nunca mais a vi, chamada Regina Faria Lima, que era filha do Almirante Faria Lima, que foi governador do Estado do Rio, e que nunca mais eu tive o prazer de ver, aliás, eu tive uma interação muito positiva com ele, que ele era um militar obviamente, mas um militar com uma cabeça totalmente aberta e, na época, os militares eram muito restritos ainda, então, mas, enfim, era convívio com americano, só. Então foi mais brutal ainda, o impacto, né? Principalmente por causa da língua. Uma coisa é você estudar inglês, que eu tinha estudado já no São Bento, muitos anos, mas você estuda inglês numa sala que todo mundo fala português, você sai daquela sala fala português, então não é a mesma coisa de, de repente, você chegar num lugar e... Eu me lembro que no primeiro dia eu cheguei, com a minha irmã, desci no lobby do hotel pra pedir uma Coca-Cola e eu não soube falar “eu quero uma Coca-Cola”, então é um bloqueio brutal, você ter que atravessar isso aí.

 

P/1 – E a universidade lá?

 

R – A universidade era bastante diferente, também, pra você ter uma ideia, por exemplo assim, são coisas que vão desde a forma de ensino, até o próprio layout da universidade. No Brasil, as universidades, você fica na sua sala e os professores mudam. Vários professores passam na tua sala, com poucas exceções. Nos Estados Unidos, não, você tem o prédio de Matemática, tem aula de Matemática nesse prédio, depois você tem o prédio de Física, tem que se deslocar para outro prédio pra assistir a aula. Então, nas primeiras semanas é uma logística complicada pra quem não tá acostumado, sair correndo de um lado, pra outro... depois a própria matrícula, que é conhecida até hoje como uma odisseia pra você fazer a matrícula na universidade, que você tem muitas carreiras opcionais, enfim. Depois você tem coisas do tipo, um sistema de honra, que eles chamam honor system, que se você cola, você é expulso da universidade, e se você vê o outro colando e não informa, você é expulso da universidade, das boas universidades. Então isso, eu nunca, não é que eu me julgava freira carmelita, mas nunca achei que colar fosse uma coisa inteligente, porque você cola quando é aluno, um dia você vai trabalhar e o teu chefe te pergunta uma coisa e você não tem ninguém pra colar do lado, então, sempre tive esse pressentimento de que não era uma boa colar. Então, esse sistema pra mim não impactou porque eu não colava, mas eu vi colegas sul-americanos sendo expulsos, não foram muitos, foram dois, nos nove anos que eu passei lá na universidade. Então, são choques que você tem. Além de serem mais organizados, quer dizer, na universidade eles são mais... têm mais critério para ensino e os currículos são mais rígidos, eu acho, então você começa a notar a organização da sociedade já na escola. As minhas filhas estudaram, por exemplo, em colégio, quando eu passei esse ano a serviço lá, a escola é muito organizada, enfim, tem uma disciplina muito rígida em relação ao que que pode, ao que que não pode, ao horário. O horário de recreio é aquele, terminou, acabou mesmo e já começa a criar... todo dia eles cantam o hino da bandeira nacional, faça chuva, faça sol, começa a ter organização e disciplina já na escola.

 

P/1 – Continuamos em Engenharia Mecânica lá em Washington e, a partir desses nove anos, outros cursos foram...

 

R – Sim. Na verdade, eu fui para Washington e aí, para entrar na universidade, eu entrei, na verdade eu pulei o segundo semestre do primeiro ano de Engenharia. Primeiro, porque lá não coincide, lá um curso começa em setembro, no Brasil começa em março. Depois, eu tinha notas muito boas, tive uma referência ainda do Colégio São Bento, que eu tinha acabado de sair seis meses antes de um colégio católico e os beneditinos são muito reconhecidos nessa área de ensino no mundo inteiro. Eu nunca vi a referência, mas pelo que o DEED (Departamento de Educação e Ensino a Distância) lá da universidade falou, foi uma referência muito boa que veio do Colégio São Bento. Então, o resultado disso é que eu já entrei no primeiro semestre do segundo ano de Engenharia. Eu pulei o segundo semestre do primeiro ano, vamos dizer assim. Lá são quatro anos de Engenharia, então eu me formei em 1970, tinha vinte e dois anos e já tinha bolsa de pós-graduação, curiosamente, dada por um professor que é brasileiro, que morava já há muitos anos e tinha um projeto já grande, na época, de pesquisa e me ofereceu essa bolsa, pra fazer o curso de mestrado e depois o doutorado.

 

P/1 – Que universidade era?

 

R – Chama-se Catholic University of America, Universidade Católica da América, em Washington D.C. E eu aceitei a bolsa de estudos e aí, quando deu dezembro de 1970, ou 1969 talvez, 1970 aliás, eu... em 1969, eu vim ao Brasil pra passar férias de natal, vim ao Rio de Janeiro, e já tinha começado a namorar a minha atual esposa e aí eu passei uns quinze dias, assim, entre natal e ano novo no Rio de Janeiro, meu pai já tinha voltado da missão diplomática de dois anos... Ele tinha trazido uma Mercedes Benz novinha, porque tinha direito a trazer sem imposto, e eu fiquei quinze dias no Rio de Janeiro, no auge do verão, revendo meus amigos, com uma Mercedes Benz novinha, com a minha namorada, aí depois desses quinze dias eu voltei pra Washington... dezembro é o auge do inverno lá... cheguei em Washington, tudo cinza, um frio terrível, eu sozinho lá no dormitório da universidade, que eu ficava em dormitório, né?

 

P/1 – Sem Mercedes...

 

R – Sem Mercedes, sem namorada... quer dizer, as meninas americanas não tinham uma preocupação grande no... eu namorei algumas meninas americanas, mas nunca tinha vontade de ficar nos Estados Unidos, nunca tive realmente essa vontade de morar definitivamente lá, então, eu tinha cuidado de não deixar me envolver muito fortemente por nenhuma menina americana, e, já tinha começado a namorar mais firme a minha mulher, então eu cheguei na universidade e falei: “Eu não vou mais ficar aqui, eu vou-me embora”. Eu fui, uma semana depois, conversar com esse professor meu, dizendo: “Olha, o senhor vai me desculpar, mas eu não vou fazer mais o doutorado…”. Eu já tinha bolsa pra fazer o PhD, mais quatro anos, que eu fiz, afinal, voltei, mas fiz sem mestrado, quer dizer, eu ganhei um título de mestrado, que eles chamam de non-physics option. Se você for bom aluno, tiver nota muito boa, você pode ir direto ao PhD e ganha o título de mestre quando você faz uma prova de passar pro PhD. Eu fui falar com ele: “Olha, eu não vou mais fazer o PhD de jeito nenhum, vou fazer no máximo o mestrado e vou voltar para o Brasil”. Ele falou: “Como você faz uma coisa dessa?! Porque quantos alunos do mundo – é verdade – estão... podendo esperar... ter uma bolsa dessa pra estudar e você não...”. “Eu não aguento mais morar aqui, pô, eu estou...” uma parte de formação, outra parte é sua vida pessoal, né? “É, tudo bem.” Aí convenceu. Aí me formei e eu não esperei nem a festa de formatura, curiosamente eu nunca botei uma beca, porque eu, de Engenharia eu vim embora antes, de doutorado, também, eu terminei minha tese, foi aprovada, eu me mandei pro Brasil, minha mulher já tinha voltado um mês antes. Então me formei engenheiro e, aí, pouco tempo antes de formar engenheiro eu voltei a falar com ele: “Agora eu não vou fazer nem mestrado mais, vou-me embora, realmente eu quero começar minha vida, trabalhar, enfim, namorar”.  Aí, voltei pro Brasil, depois de formar engenheiro, e aí trabalhei na ponte Rio-Niterói. Mas eu já estou passando um pouco do que você falou.

 

P/1 – Estávamos falando dos Estados Unidos e o senhor iria dizer sobre a sua futura esposa, sua mulher... houve um caso curioso.

 

R – Não é bem um caso, quer dizer, na verdade o que aconteceu foi o seguinte: até hoje, a minha esposa é irmã do meu cunhado, casado com a minha irmã, ou seja, nós somos dois irmãos casal, um casal de irmãos casados entre si, quer dizer, a minha irmã é casada com o irmão da minha mulher. Mas o que eu ia falar de curioso é que eles, minha irmã namorava meu cunhado há sete anos. E era um namoro desde que eles tinham treze anos de idade, uma coisa assim. Eu conheci a minha esposa através desse namoro dos dois, né, de minha irmã. E um ano depois nos casamos, então, os sete anos de namoro da minha irmã com o meu cunhado e, em um ano, eu entrei lá e liquidei o assunto e...(risos). Mas eu estava lhe falando, em 1970, foi quando eu voltei ao Rio de Janeiro pra passar as férias e depois voltei pra trabalhar na ponte Rio-Niterói, já como engenheiro formado.

 

P/1 – Foi o seu primeiro emprego?

 

R – Foi o meu segundo emprego, na verdade. Porque o meu primeiro emprego foi como assistente de laboratório nessa universidade em Washington, então eu ganhava... o primeiro ano, o meu pai estava lá ainda. O primeiro ano eu fiquei sem trabalhar na universidade. Depois de um ano conheci, um dia, esse professor numa cerimônia da Embaixada Brasileira, nós íamos, eu ia com o meu pai, quase sempre, e ele estava lá e me perguntou se eu não queria começar a trabalhar, e eu disse que sim, quer dizer, eu já estava estudando mas tinha tempo disponível. Aí comecei a trabalhar, ganhava dois dólares a hora. Eu comecei a sentir a característica da sociedade americana. Quem dizia quantas horas eu tinha trabalhado era eu. Eu chegava no fim do dia, eu ia entre as aulas, ou de noite, eu fazia um tempo de trabalho no laboratório, e anotava: entrei tal hora, saí tal hora, tal hora e tal hora e no fim do mês me pagavam de acordo com a listagem de hora que eu dava. E não tinha ninguém reconhecendo minha firma, nem atestando o que eu tinha falado, etc. Eu aqui, há uma semana atrás, fui fazer a entrada da minha sobrinha, que eu estou educando ela aqui agora, ela veio do Norte, no Praia Clube, e foi uma documentação, até pedi a ajuda do Celso, que é diretor lá agora, porque foram doze documentos até agora, reconhecimento de firma minha, da minha esposa, autenticação da carteira de identidade da minha sobrinha, reconhecimento de firma do Celso, que é diretor do clube, uma coisa infernal. Quando bastava um documento, que é um dos documentos que lá está dizendo: “Eu atesto que tenho a guarda da minha sobrinha e é minha dependente, gostaria que ela fosse sócia do clube.” Então...

 

P/1 – Qual era o seu trabalho, especificamente nesse laboratório, lá na universidade?

 

P/1 – Havia alunos de pós-graduação e, digamos, professores que faziam pesquisas no laboratório, laboratório de química, ciência de materiais e os instrumentos que faziam as medições de qualquer coisa, quem, digamos, trabalhava os instrumentos eram bolsistas como eu, quer dizer, então havia uma experiência de pesquisa de alguém, um aluno de pós-graduação, como eu mais tarde fui, ou de um professor. Então, quem ficava medindo as temperaturas, a viscosidade etc. eram os alunos bolsistas. Era esse o meu trabalho.

 

P/1 – Já na ponte Rio-Niterói, já no Brasil, já formado, né?

 

R -  É já formado.

 

P/1 – Como é que conseguiu o consórcio?

 

R – O meu irmão mais velho, que até agora ainda está no Grupo Odebrecht, é diretor da Odebrecht, na época era gerente de uma das divisões do consórcio.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Gilberto Leal Costa. Então me convidou, eu fui lá, fui entrevistado, fui contratado pra trabalhar, eram cinquenta engenheiros que tinha na obra, aquilo pra mim foi uma escola muito importante, porque era uma coisa meio caótica, vamos dizer assim, a aparência, porque três mil pessoas trabalhando sob um regime de pressão política violentíssima. Aquilo lá foi a menina dos olhos do ministro Andreazza, não sei se você ouviu falar desse ministro, que na época era um ministro muito forte, politicamente, Ministro dos Transportes e a pressão em cima de fazer a obra era muito grande, pra fazer dentro do plano, que ele queria, antes de acabar o mandato dele, inaugurar a ponte etc. Inclusive, culminou, então virava a noite, era sábado, domingo e, eu tinha vinte e dois anos e tinha um grupo de sete pessoas trabalhando comigo, o mais novo tinha o dobro da minha idade, mecânico, lubrificador etc. Vi um colega morrer, debaixo da lança de um guindaste. Vi um cara cair de cima de um poste e morrer no chão. Chegava de bota em casa, suja de barro, na casa dos meus pais. Agora, houve um incidente, inclusive que eu nunca mais me esqueço na minha vida, a primeira pessoa que eu demiti. A demissão de alguém é uma coisa desagradável, mas tem que ser feita. Eu demiti um técnico que trabalhava conosco e, meia hora depois, o encarregado dele falou: “Olha, ele vai lhe matar. Ele anda com uma peixeira debaixo da perna e ele disse que vai lhe matar”. Naquela noite, eu tinha que dar plantão na oficina, oficina central de manutenção. Então você ficava no segundo andar, num quartinho, uma cama normal e dentro da oficina, sozinho. Se uma máquina quebrasse, que tinha que virar vinte e quatro horas? Naquela noite eu botei um eixo de trator do lado da cama e não dormi, porque “O cara vai entrar com uma peixeira aqui pra me matar”, né? Coisas assim, terríveis, que você passa na vida que vai acumulando. Na verdade eu não cheguei nem a ficar um ano lá, eu fiquei dez meses, porque dez meses depois de eu entrar, o Andreazza teve um conflito violento com o diretor do consórcio de empresas que estava fazendo a obra, porque um dos pilares que sustentava a ponte, foi feito um teste de carga e não passou, cedeu a base. Aquilo era sinal de que tinha que refazer o pilar todo e a ponte Rio-Niterói, não sei se você já passou lá, é uma obra fantástica, é feita, não pode fazer no meio sem fazer aqui, ela é autossustentada durante a obra. Então não podia avançar a ponte de um dos lados, do lado do Rio de Janeiro. Do lado de Niterói podia continuar vindo. E o Andreazza disse: “Não. Quero que toquem, não sei, se virem, toquem...” e o diretor doutor Alcedo, da Ferraz Cavalcanti disse: “Vou parar a obra”. Um dia eu cheguei lá de manhã, como todos os outros, e estava o Exército, tinha ocupado os canteiros de obra da ponte. O Andreazza mandou o Exército encampar a obra, suspendeu a obra, eliminou o consórcio e contratou uma outra empresa por administração, que chama, quer dizer: o que você gastar você tem quinze por cento acima. Aí eu já estava, naquela ocasião, estava namorando bem firme, já com a minha mulher...

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Maria Angela. Já tínhamos conversado sobre voltar para os Estados Unidos, fazer pós-graduação. Ela sempre soube que eu queria fazer pós-graduação, sempre entendeu que eu queria fazer. Então, nós... eu já tinha até escrito, pro meu professor nos Estados Unidos, dizendo que eu tinha... eu já estava querendo, também, casar e aí então, em julho de 1970, de 1971, desculpe, eu me casei de manhã, no Mosteiro de São Bento, na igreja, e no mesmo dia, de noite, eu voltei para os Estados Unidos, pra Washington, pra fazer a pós-graduação. Aí fiquei lá mais quatro anos... aí fui direto para o doutorado, como eu lhe falei, porque eu tinha notas boas... e aí, quatro anos depois...

 

P/1 – Na mesma universidade?

 

R – Na mesma universidade.

 

P/1 – Em que área, especificamente?

 

R -  Em Física. Especialização em Ciência dos Materiais. Então eu fiz o PhD em Física e Ciência de Materiais. Especialização em ciência de materiais.

 

P/1 – Isso tendo em vista alguma perspectiva futura? O que o jovem estudante pensava pra adiante?

 

R – É, isso é uma pergunta interessante, porque meus irmãos mais velhos tinham se formado engenheiros já, já trabalhavam no Brasil, meus colegas que não tinham ido para o exterior fazer pós-graduação, ou mesmo no Brasil, já estavam trabalhando. Então todos me diziam, nós estamos falando em 1975, quando eu me formei, e todos me diziam: “Você vai matar mosca para comer, no Brasil, porque fazer doutorado, e PhD etc. aqui no Brasil não tem campo”. E aquilo era uma preocupação grande pra mim, porque realmente eu sabia que no Brasil não ia se fazer investimento em pesquisa como se faz nos Estados Unidos. Agora, aquilo não me preocupava tanto, porque eu nunca quis seguir carreira acadêmica, nunca tive essa vontade, vamos dizer assim, de seguir carreira acadêmica. Então eu tinha como uma expectativa, eu não sabia aonde eu ia, por exemplo fibra ótica, eu entrei em fibra ótica, o Luiz costuma me chamar, que eu sou um papa da fibra ótica. E realmente eu fui o chefe do projeto de fibra ótica no Brasil, mas fibra ótica foi começada fora, na Inglaterra, um pesquisador. E, no Brasil, eu realmente fui o chefe do projeto aqui. Mas eu me lembro quando eu fui escolher o assunto de tese de doutorado, meu orientador me disse: “Olha, nós temos duas linhas pra você fazer assunto de tese, tudo em Ciência dos Materiais, vidros, materiais vítreos. Um era pra janela de laser, todo laser, qualquer tipo de laser, de gás, de sólido, de líquido, tem que ter janelas que parcialmente transmitem a luz e parcialmente refletem, pra manter a luz dentro da janela, de cavidade de oscilação, e esses vidros são vidros especiais, então, ou é vidro para janela de laser ou vidro para um troço chamado fibra ótica. Isso em 1971. Naquela época fibra ótica era uma curiosidade que podia dar com os burros n’água, podia não dar em lugar nenhum. Quer dizer, não se sabia... você pegava uma fibra ótica e meia hora depois ela quebrava na mão... e eu escolhi fibra ótica porque achava que era um negócio interessante, mas foi um risco grande que eu corri lá, porque eu ia me dedicar bastante à formação de uma área, que na verdade não é só um produto, que depois podia não dar em nada. Muito menos ainda num país que nunca teve tradição em investir em pesquisa de desenvolvimento etc. Mas aí aconteceu um fator interessante, forte, que o Sistema Telebrás, que tinha muitas virtudes... Hoje em dia, se... a Telebrás, com a história, vai olhar diferente, quando passar os anos, porque tinha muitos problemas, infelizmente, principalmente nessa área de influência política de administração etc., mas como, digamos, com base técnica, foi muito boa. Ela chegou a ter reconhecimento mundial pela qualidade, enfim. E pressentindo essa revolução tecnológica, que seria e que foi a introdução de fibra ótica com microinformática, no setor de telecomunicações, ela resolveu começar a investir em pesquisa nessa área. Então, quando eu voltei para o Brasil, para trabalhar na Unicamp, foi já num projeto da universidade, em Campinas, financiado pela Telebrás. Então, parte do meu salário da universidade era um complemento salarial pela Telebrás, que dava contrato pra universidade desenvolver produtos. Todo o investimento de laboratório, equipamento etc. era um contrato, chamava regime de comodato com a universidade, mas era um dinheiro vindo do Sistema Telebrás, pra comprar equipamento, montar laboratório, enfim. E posteriormente no próprio centro de pesquisa dela, que ela não tinha, então, no início, ela queria começar a desenvolver pesquisas no país, pra produtos, desenvolvimento etc., não tinha um centro de pesquisa, então o modelo foi contratar universidades, algumas universidades. A USP, em São Paulo, a UNICAMP, a Universidade de São Carlos fez alguma coisa também, a PUC, do Rio de Janeiro e a UNICAMP era bastante pesado, inclusive, o investimento. Mas de qualquer forma é uma iniciativa bastante positiva do Sistema Telebrás de fazer esse investimento, e desenvolver uma tecnologia que é algo que vingou, de forma bastante intensa.

 

P/1 – No caso dela, até uma questão de sobrevivência, de preparação do futuro, né?

 

R – Sim, ela, digamos, estava muito ligada na área técnica, no Sistema Telebrás houve um investimento muito grande sempre em formação técnica. Os engenheiros, por exemplo da Embratel, eram engenheiros de capacitação internacional, na área técnica, não deixavam nada a desejar a qualquer outro do mundo. Então, eu convivi com vários deles e eles tinham... e convivi lá fora, também, e eles não têm nada a desejar em termos de conhecimento técnico e tudo. E sempre foi uma característica muito forte do Sistema Telebrás, essa dedicação à formação técnica, conhecimento técnico, enfim. Até hoje, você tem ainda no sistema de telefonia celular no Brasil uma coisa que pouca gente dá valor, mas se você for nos Estados Unidos comprar um telefone celular em Miami, ele não fala em Nova Iorque, ele não tem roaming, que chama, em algumas regiões. No Brasil, você ainda tem isso, no Brasil inteiro e isso é oriundo da época de monopólio do Sistema Telebrás. São algumas vantagens que você tem da época do monopólio. Eu não estou pregando que o monopólio seja bom, eu quero dizer é que nem tudo é ruim no monopólio. Então a homogeneização técnica do país existia em função do monopólio. Isso tem que ser, inclusive, preservado, essas virtudes, porque se daqui a pouco cada empresa começa a fazer uma coisa e não tem uma centralização de padrões, não de decisão, mas de padrões, você perde essa virtude do país.

 

P/1 – Nesse momento, na UNICAMP, o recém-regresso PhD via aplicação de fato naquela escolha que fez?

 

R – Olha, isso foi uma época incrível, né, a vida da gente tem isso, de vez em quando. Eu cheguei na UNICAMP, novo, quer dizer eu tinha vinte e sete anos, acho que eu era o professor mais novo do Instituto de Física. Eram cento e dez professores, professores de Física, do mundo inteiro e noventa e cinco por cento voltados para assuntos acadêmicos. Ou seja, querendo fazer publicações em revistas internacionais e dedicados à carreira acadêmica, e não tem nada errado nisso, mas eu não queria isso. Então, eu queria trabalhar num projeto que um dia chegasse numa planta piloto e que um dia chegasse na indústria. Como eu lhe falei, eu nunca tive vocação acadêmica. Eu queria me formar bem, do ponto de vista acadêmico, mas eu queria colocar essa formação em função de desenvolver um produto, de desenvolver uma tecnologia, enfim, sempre foi essa a minha vontade. Aí eu comecei a ter uns contrastes da vida da gente, quando você sai para a vida real, trabalhar. Por quê? Por vários motivos eu era considerado como se tivesse prostituído a carreira de professor universitário, por quê? Eu sabia que o fator tempo é muito importante em qualquer trabalho que você faça hoje em dia, que vá para a indústria, que vá para um serviço de tecnologia externo etc. Porque se você demorar muito tempo, já era, vem depois do tempo, outro faz na tua frente. Então nós começávamos a importação de um laser, para fazer testes de laboratório, pra desenvolver a tecnologia e o laser passava pelo processo normal, de pegar linha de importação, fazia o pedido, chegava na alfândega, lá em Campinas, no Aeroporto de Viracopos, ficava bloqueado, porque tinha que ter uma documentação e a universidade não tinha preparado em tempo hábil etc. Meus colegas sentavam e esperavam, dos outros projetos. “Vamos esperar, não pode ter aqui mesmo, daqui a seis meses tá aqui. Vamos esperar...” E eu ia para o Aeroporto de Viracopos, falar com o despachante da empresa que nos servia pra liberar o equipamento, que eu queria o equipamento pra amanhã, pra trabalhar no laboratório, eu precisava do equipamento. Aquilo burlava totalmente o conceito de professor universitário. Depois o prédio novo, que nós íamos por exemplo, não tinha calçamento. Então não podia entrar no prédio novo porque não tinha calçamento. Eu peguei dinheiro da Telebrás, eu falei com a Telebrás: “Olha, pra poder ter o laboratório eu vou precisar desviar parte dos recursos pra fazer o estacionamento”. Eu avisava a Telebrás. “Vá em frente.” Eu contratava o trator, contratava pedra de cascalho pra mandar fazer, e juntava, e fazia esse negócio, e aquilo de novo: “Pô, o que que o Zé Mauro tá fazendo lá? Aquilo lá, um engenheiro de obras tem que fazer, não um PhD, um professor da UNICAMP”. Enfim, então, eu me lembro de... depois começaram pressões e sempre voltada à inveja também, porque eu sempre tive no projeto de fibra óptica, como estava dando resultado, dinheiro, acredite, eu recusava aumento de verba do Sistema Telebrás. Chegava no fim do ano, estava começando a aparecer protótipos de fibra, dentro da universidade e a Telebrás estava ficando empolgada, estava em par a par com o mundo, em termos de tempo. Então chegava no fim do ano: “Olha, podemos aumentar uns trinta por cento a verba, pra você ter...” “Mas eu não vou fazer nada! Não é, o dinheiro não é problema agora.” O problema é tempo de resolver os problemas técnicos etc. E os colegas de outros projetos viam isso, ficavam pê da vida, porque: “O cara tá recusando dinheiro pra pesquisa, enquanto que nós, aqui, pra  poder comprar uma garrafa, temos que...”. Então isso resultou numa pressão muito grande, digamos, de forçar que eu desviasse a minha atenção de tecnologia para a área acadêmica... De novo, eu não sou contra a área acadêmica, só que eu acho que o Brasil não pode se dar ao luxo, em tendo um centro de tecnologia não fazer tecnologia. Então é questão de visão, vamos dizer assim.

 

P/1 – Era uma equipe grande?

 

R – Eram onze professores. Eu era o único brasileiro. Eu era chefe do projeto e era o único brasileiro. Na verdade era o único que tinha visto uma fibra ótica antes, os outros todos não tinham visto... tinha acabado de começar no mundo. Um ano antes começou no laboratório... Um ano antes de eu começar o meu curso de PhD, foi que em algum lugar do mundo, no próprio Estados Unidos, começou a fazer pesquisa disso. Estava numa época em paralelo, par a par em termos de desenvolvimento com o resto do mundo.

 

P/1 – Quem chefiava a equipe?

 

R – Eu mesmo.

 

P/1 – E o resultado? Quando começou a aparecer?

 

R – Pois é. E começaram a surtir resultados e eu comecei a precisar fazer uma planta-piloto. Eu me lembro o dia em que eu vou falar com o diretor do Instituto de Física que eu precisava de uma área para fazer uma planta, planta-piloto é quando você faz, é a fase intermediária entre laboratório e indústria. Então você sai da fase de pesquisa pura, pesquisa aplicada, começa a desenvolver uma determinada linha de um produto e aí, antes de entrar em produção em massa, precisa testar aquele produto, fabricar a mesma coisa durante meses a fio, medir as características pra ver que não desvia além de um certo valor. Então aquilo não era nem mais pesquisa aplicada, aquilo já era meio produção. Era produção. E não tinha outro lugar no Brasil, ainda, então eu falei: “Vou fazer aqui mesmo, na universidade, não tem outro lugar”. E eu fui falar com o diretor e ele falou: “Mas de jeito nenhum! Aqui você vai estar acabando com o espírito universitário...”. Aí eu fui conversar com a Telebrás, falei: “Olha, tá acontecendo isso, assim, assim, assim. Estamos aquém do tempo, ganhamos tempo, em relação à previsão, e eu não vou poder esperar o Centro de Pesquisas de vocês estar pronto”. Porque estavam construindo, lá em Campinas já um dos prédios do Centro de Pesquisa. Aí eu aluguei um barracão, o famoso barracão da fibras ópticas, num bairro... Eu saí em campo, na cidade de Campinas e vi num bairro, até um bairro meio fuleiro, um barracão que tinha a característica que eu precisava, um prédio muito alto, tinha uma torre de puxar fibra óptica, área, espaço adequado e aí, conversei com a Telebrás, aí eu não saí da UNICAMP ainda, curiosamente tinha um professor, que aí tornou-se diretor... aí eu fui falar com o diretor e falei: “Eu vou sair, eu vou pro CPQD da Telebrás, porque lá eu vou poder fazer aquilo que eu acho que tenho que fazer, que é tecnologia etc. E fui na verdade para esse barracão, porque o prédio não estava pronto ainda. Também no CPQD, nessa época, muita gente esperava o prédio e eu podia, de novo, ter esperado o prédio da Telebrás e perante a Telebrás estava bem, porque não pode fazer porque não tem o prédio, né? Então eu  pedi para alugar esse barracão, porque eu sabia, de novo, desse fator tempo. E aí saí da UNICAMP para o CPQD da Telebrás, fui contratado pela Telebrás.

 

P/1 – E com a equipe?

 

R – Não, levei dois ou três técnicos e contratei gente nova. E aí o cara que se tornou diretor, na época que eu estava saindo, me pediu que ficasse mais um tempo, em tempo parcial, porque ele tinha uma visão bacana, assim de interação com tecnologia com o mundo real. Ele percebia que o meu gosto era ir para empresa privada, né? E eu fiquei mais uns dois anos como professor em tempo parcial na UNICAMP. Dando aula de pós-graduação, e aí começaram a acontecer coisas, já no grupo Algar, que eu preferi sair da universidade do que começar dar aula mal dada, porque, enfim. Então não dava mais tempo de preparar a aula, eram duas aulas por semana que eu dava, na pós-graduação. Mas enfim, aí eu fui para o CPQD da Telebrás e...

 

P/1 – Desculpa, vamos falar um pouquinho mais desse barracão, como é que foi montado, como é que foi a...

 

R – É, esse barracão, como eu te falei, eu saí da UNICAMP e fui para o CPQD da Telebrás, o CPQD estava instalado num prédio da Embratel, no centro de Campinas, só mais administrativo e área de software que era muito intensa, que não precisa de muita instalação física, vamos dizer assim. E aí alugamos esse barracão, que ficava no Bairro dos Amarais, um bairro em Campinas, te falei, bem simples, assim. No final da rua tinha uma empresa que batizava gasolina. Entravam caminhões, um belo dia deu camburão de polícia e uma porção de gente com metralhadora, e na rua onde eu tinha o barracão da fibras ópticas, porque descobriram que os caras... entravam caminhões o dia inteiro e saíam,  então eles tinham um tanque lá que batizavam gasolina, pra vender gasolina batizada. Pra você ter uma ideia do bairro, onde era. Mas a hora que você entrava nesse barracão, eu me lembro duas coisas curiosas. Esse barracão é um barracão grande, vamos dizer assim, um prédio muito grande. Tinha lá, a placa, no início: “Centro de Pesquisa da Telebrás”, quer dizer, um troço curioso. E a hora que você entrava dentro do barracão, você não tinha a menor diferença de qualquer laboratório do mundo em fibra óptica, a não ser pelo volume de coisas. Os mesmos equipamentos. Na verdade, teve equipamentos lá que nós contratamos primeiro, nós pedimos a compra primeiro do qualquer lugar do mundo, que eu mandei fazer umas paredes e teto de gesso, de placa de gesso, pra isolar o resto, né, e eram infraestruturas perfeitas de energia elétrica que eu tinha preparado adequadamente, e água, e produtos químicos, enfim, toda a infraestrutura que você tinha necessidade e duas coisas curiosas, eu me lembro, aconteceram nesse tempo do barracão, porque nesse barracão eu levei até a planta-piloto, dali saiu para ABC X Tal, fábrica de fibra ótica. Lá foi a planta-piloto, que foi de 1978 a 1983, foram cinco anos de trabalho nesse barracão. Nesse barracão, duas coisas eu me lembro muito que aconteceram, as duas aconteceram num sábado. Quando já estava claro que a fibra ótica ia sair, quer dizer, já estava em planta-piloto final e tudo, uma das características interessantes da fibra ótica é que num evento nuclear é o único sistema de comunicações que continua funcionando. Fio de cobre, cabo coaxial, transmissão por microondas, fica tudo paralisado, que é um surto eletromagnético no ar que bloqueia tudo, para as comunicações, menos comunicação da fibra ótica. E a Argentina tinha feito o primeiro anel em Buenos Aires, de fibra ótica, um dos primeiros já feitos no mundo, inclusive. E na época, regime militar, Argentina e Brasil sempre foram assim, meio, tipo Rússia e Estados Unidos da América Latina, né? O general Alencastro, que era presidente da Telebrás, sexta-feira, me telefonou direto ali no barracão, ele vibrava muito com esse trabalho da fibra óptica, o Alencastro que foi presidente da Telebrás muitos anos. E ele falou: “ Zé Mauro, amanhã eu vou levar aí cem generais de quatro estrelas, oficiais generais, não são só de exército, inclusive o ministro chefe do EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), para ver as instalações do projeto de fibra óptica, que o Sistema de Inteligência do Exército já informou Campinas que não é para envolver ninguém, eles vão estar aí incógnitos, eu quero que você esteja aí para mostrar pra eles o projeto”. Eu nunca vi tanta estrela na minha vida, quer dizer, eram generais e eu não me lembro quem eram, devia ser um Venturini, aqueles caras ainda novo na época e, depois disso surgiu um enlace em Brasília, que até hoje eu não conheço ainda, que entre EMFA, Palácio do Planalto, Forte Apache etc., de fibra óptica, da fibra óptica. O outro evento foi o seguinte: o doutor Olavo Setúbal saiu de São Paulo, sábado de manhã, sozinho, com o motorista, passei o dia com ele sozinho no barracão, mostrando o processo de fabricação de fibra óptica. Até hoje eu nunca mais encontrei com ele, mas me lembro que a sagacidade dele, que ele é engenheiro, né? Ele falou, eu não sabia, como ele queria conhecer os detalhes de tudo e a Itaú, da época, o grupo Itaú, estava entrando em tecnologia de informática etc., e ele, depois eu vim a saber muitos anos depois, ele cogitou da possibilidade de montar a fábrica, de se candidatar o grupo a fabricar a fibra óptica.

 

P/1 – Esse nível de pesquisa estava em que patamar com a pesquisa internacional, com a pesquisa que ocorria no mundo?

 

R – Igual. Eu apresentei, por exemplo, uma vez, junto com um colega, lá do projeto, uma palestra num congresso europeu, então nós estávamos igual, de igual para igual. Até hoje a fibra nossa, fabricada, nós hoje estamos vendendo a empresa, nós estamos saindo de todos os produtos de telecomunicações. Já vendemos todas as fábricas nossas e estamos investindo em serviço, hoje em dia, em telecomunicações. Mas hoje, a fibra nossa, só é vendida no Brasil porque ela tem preço e qualidade, senão não era vendida, hoje está à importação, hoje não, desde 1989 que a importação está totalmente liberada. Então, digamos, durante cinco anos, no início do projeto, houve uma reserva de mercado, dessa fibra, mas já fazem onze anos que está totalmente liberado. Então se compram hoje é porque ela é boa e tem qualidade.

 

P/1 – Eu queria, na verdade, ter um pouco o sabor do pesquisador ver o produto realizado, quer dizer, aquilo que era teoria, quatro anos, cinco anos passados, virou um produto rentável, de qualidade e que pode entrar pra disputar mercado. O que passa na cabeça de um engenheiro que comandou todo esse processo?

 

R – É um prazer muito grande. Eu acho que a gente na vida tem que deixar marcas. Senão você passa por aqui, digamos, e vai embora, certamente um dia, e você precisa ter a sensação de que deixou alguma coisa pra trás. Eu tenho a sensação muito agradável em relação a ver fibra ótica hoje no Brasil, porque a contribuição minha, pessoal, foi muito grande, quer dizer, eu sinto que fiz diferença nisso, vejo um sonho realizado. Eu me lembro da época de Unicamp, de novo, eu lhe falei, um meio acadêmico, eu não tenho nada contra, mas eu me senti ali um desafio quase inatingível, de sair daquele meio só acadêmico e um dia ter um produto fabricado, sendo vendido e concorrendo com outros estrangeiros etc. A XTal hoje é o resultado desse trabalho. Então a sensação é uma sensação ótima. É uma sensação interessante, que é a seguinte, você, às vezes, tem algumas sensações na vida e diz assim: “Depende do que um ou outro pense, depende da opinião daqui, depende da visão daqui”. Então, em relação a esse trabalho, por exemplo de fibra ótica, a minha sensação é que independentemente do que o mundo pense, eu, José Mauro, sei que coordenei esse trabalho, enfrentei problemas pesadíssimos, de automotivação muito grande e fiz isso acontecer. Uma sensação de, digamos, autossatisfação interna e isso é muito bom. Eu gosto muito dessa sensação.

 

P/1 – Qual foi o momento que você percebeu que estava na hora de sair do barracão?

 

R – Bom, o barracão foi montado para desenvolver a tecnologia até uma planta-piloto, vamos dizer assim. E a fase posterior à essa é a indústria, a empresa privada. Então, nós montamos a planta-piloto, produzimos, eu me lembro, uns seis meses, até ter um desvio do produto compatível com o resto do mundo, porque você nunca produz, por exemplo, o diâmetro da fibra é de cento e vinte e cinco mícron, mas não é cento e vinte e cinco, é cento e vinte e cinco mais ou menos um, dois, três... é um delta de variação, nada na vida é permanentemente fixo. Então quando nós atingimos essa variação, já estava pronta pra ser industrializada. E aí a Telebrás desenvolveu um processo de concorrência, digamos assim, entre grupos nacionais para industrializar a fibra ótica. E aí aconteceu uma coisa curiosa, que foi quando eu acabei entrando no grupo Algar, mas o grupo que primeiro me convidou foi o grupo Elebra, Doca de Santos. Então eu saí da Telebrás, do Centro de Pesquisa, e fui contratado pelo grupo Doca de Santos, a empresa Elebra, que era empresa pra área de, digamos, de eletrônica e de telecomunicações, e aí fizemos os projetos, várias empresas fizeram, e o grupo ABC, na época, que hoje chama-se grupo Algar, ganhou. Então não foi o grupo Doca que ganhou a concorrência, vamos dizer assim. Então eu estava num grupo que não tinha ganho a concorrência de fazer a indústria e tinha corrido um risco grande, em escolher um grupo. Eu achei que ia ganhar, vamos dizer assim, imaginei que a minha contribuição pessoal em fazer um projeto seria um fator predominante, e hoje eu sei que não foi, quer dizer, aí entram outros fatores, inclusive políticos, a gente vai aprendendo na vida, né? Quer dizer, o conhecimento técnico, tecnológico, não era o suficiente para ganhar uma concorrência, isso é a primeira lição que a gente vai aprendendo na vida. Daí eu me vi numa situação difícil na vida, porque eu não tinha nenhuma ambição naquele momento a não ser construir uma fábrica de fibra ótica para o trabalho que eu tinha desenvolvido antes. Uma semana depois do grupo ABC na época ganhar, eu fui convidado pra trabalhar no grupo ABC.

 

P/1 – Quem fez essa interlocução?

 

R – Quem fez essa interlocução foi uma pessoa chamada Cleofas Uchôa, que era diretor do grupo, na época, hoje ele é presidente da Telebrasil, uma associação do setor de telecomunicações, é conselheiro nosso também na empresa onde nós participamos, que é a Tess e é uma pessoa privilegiada, do ponto de vista... de espírito muito leve, extremamente inteligente e eu sinto muita falta de conviver com ele, quer dizer, que ele foi um mestre em termos de enfrentar situações difíceis e sair com o espírito leve. Mas fui contratado por ele, inclusive. Aí aconteceu uma coisa, na vida, que a gente vai aprendendo. Eu estava no grupo Docas e aí, então, fui convidado pelo grupo ABC Algar para trabalhar. Apresentei minha carta de demissão e fui pra casa, no dia seguinte me apresentar no Rio de Janeiro a um diretor do grupo ABC que trabalhava no Rio. E aí nessa noite eu recebi um telefonema de um dos diretores da Elebra, do grupo Docas, dizendo que o senhor Luiz Guinle, que era, digamos, era o Luiz Garcia, curiosamente também chamado Luiz, estava profundamente aborrecido comigo e que pedia que antes que eu fosse falar com o diretor da ABC, passasse no escritório dele no Rio de Janeiro. “Perfeitamente, não tem problema, eu posso ir lá falar com ele.” Apresentei a minha demissão para o diretor financeiro, que estava lá na Elebra, em São Paulo. No dia seguinte, de manhã, eu cheguei no Rio e fui no prédio do grupo, eu não sei se você conhece o prédio da Docas de Santos no Rio de Janeiro, fica ali na Avenida Rio Branco, quase esquina com a Presidente Vargas, é um prédio de seis andares, deve ter uns cem anos, embaixo tem duas portas de madeira, devem pesar uma tonelada cada uma com caravelas encravadas na madeira. Então eu cheguei lá, entrei, e aí tem um velhinho de luvas brancas na frente de uma porta pantográfica do elevador, abriu a porta, eu subi, fui, sei lá, quarto andar, uma senhora de idade já me recebeu, aquele silêncio incrível, você entra ali dentro, aí me deixou numa sala, devia ter uma mesa de quarenta metros de comprimento, sem ninguém, me deixou sentado, assim num canto, aí daqui a pouco entra o Luiz Guinle. Luiz Guinle é um cara, assim, imponente, sentou no outro lado da mesa. Eu nunca tinha visto, tinha visto uma duas ou três vezes na época que eu estava preparando o projeto. E sentou lá longe. A primeira coisa que eu estranhei, eu falei: “Porra, porque ele não senta aqui do lado? Uma mesa de vinte metros de comprimento, o cara vai sentar lá do outro lado e eu aqui, ele devia sentar do meu lado, né?”. “Zé Mauro, eu estou sabendo que é essa a sua decisão e essa sua decisão, você é uma espécie de fiel da balança, porque a Elebra ficou em segundo lugar e, se você permanecer na Elebra, nós temos certeza de que conseguimos reverter essa decisão, porque o grupo Algar, por exemplo, você não tem engenheiro. Não tem ninguém lá dentro como engenheiro, é um grupo muito mal administrado e, enfim, você está tomando uma decisão muito errada, eu acho que você deveria rever a tua posição”. E falou, falou, falou. Eu falei: “É só isso o que o senhor tem a dizer? Enfim, eu vim aqui mais pra dar uma satisfação, minha decisão já tá tomada. Então, quando eu saí da Telebrás, resolvi seguir uma linha de montar uma fábrica de fibra óptica. Eu escolhi vir para a Elebra, a Elebra infelizmente perdeu a proposta, eu me dediquei o máximo no que eu tinha pra fazer nessa proposta, infelizmente não ganhou, ganhou o grupo ABC, o grupo ABC me convidou, e eu não julgo estar fazendo nada errado, aceitei a proposta. O senhor me desculpe, mas é um prazer estar aqui com o senhor”. Me levantei, ele ficou lá olhando e eu fui embora. Foi uma... Ali eu comecei a ver o contraste, por exemplo, entre o Luiz Garcia e o Luiz Guinle, quer dizer, o Luiz Garcia é um cara extremamente modesto, uma pessoa humana, uma pessoa que tem problemas e tem virtudes, como todo ser humano, mas é um cara acessível. Jamais o Luiz sentaria numa mesa a vinte metros de distância pra falar pesado com o cara, ele ia sempre estar do lado da pessoa.

 

P/1 – É que os Guinle têm uma pouco de aristocrata.

 

R – Uma pompa, uma aristocracia, um negócio, assim... claro, era um grupo de respeitar, quer dizer, a empresa Elebra. Mas essa distância humana, pra mim, não me agradava, absolutamente.

 

P/1 – Já tinha ouvido falar no grupo ABC, na época?

 

R – Eu? Já, mas muito pouco. Muito pouco. Na verdade, eu ouvi falar principalmente por causa da concorrência, mas eu já tinha ouvido falar e, curiosamente, eu tinha ouvido falar da CTBC, mas não ligava a CTBC ao grupo ABC. Eu ligava, talvez, a própria ATI, na época, no Rio de Janeiro, mas não ligava à CTBC, não.

 

P/1 – A sua missão no grupo foi fazer o quê?

 

R – Montar a fábrica. Fui contratado pra montar a fábrica de fibra óptica, XTal. Eu comecei no grupo, sozinho, em Campinas. Era a única pessoa do grupo Algar em Campinas. Então  minha primeira coisa foi alugar uma sala comercial, duas salas, na verdade, uma sala e uma antessala. Depois contratar uma secretária, comprar uma máquina de escrever, na época, elétrica ainda. Não tinha conta bancária, não tinha empresa lá, então abri uma conta separada da minha pra poder comprar passagem pra ir pro Rio, comprar máquina, contratar secretária, quer dizer, foi uma... e depois comprar terreno e fazer um projeto da fábrica, contratar o primeiro pessoal básico da fábrica e treinar esse pessoal e trazer os equipamentos, olha, foi uma...

 

P/1 – Isso foi de quando a quando?

 

R – Isso foi um ano. Foi quando eu comecei a ver uma grande característica do grupo Algar que nós não podemos perder nunca, que é o arrojo empresarial, a vontade de fazer as coisas, enfim. Naquela época era agosto de 1983, em agosto de 1984 nós entregávamos o primeiro metro de fibra ótica produzida na fábrica. E era, se você visse onde era, ou melhor, se você vê a fábrica hoje, você não tem ideia, mas era um pasto de gado, de vaca leiteira. Sem energia elétrica, sem água, sem telefone, sem nada. Zero. Um ano depois estava a fábrica pronta e produzindo fibra óptica, era um produto sofisticado, quer dizer, era um negócio assim, digamos, extremamente arrojado e você, às vezes, numa rua, normalmente, comete erros, porque você atropela, às vezes, as coisas, isso nós temos que estar sempre dosando o arrojo para não ser superarrojo, né? A overdose de arrojo. Mas certamente, entre não ser arrojado e ser arrojado, eu prefiro ser arrojado. Prefiro trabalhar em grupo arrojado.

 

P/1 – A sorte sorri aos audaciosos.

 

R – Não tenha dúvida. Não tenha dúvida. Isso até hoje se mantém. Ontem à noite eu estava num evento, aqui na... apesar da gripe, na Image Telecom, onde nós estamos lançando, pioneiramente no Brasil, o serviço de telefonia no cabo coaxial, internet também no cabo coaxial, comercialmente. Então isso tem que se manter e é um fator de diferenciação nosso, hoje, isso está na raiz nossa. Isso aí é bastante importante.

 

P/1 – Eu queria fazer um paralelo, aliás um parênteses, pra mencionar um pouco a sua vida pessoal, nesse processo todo. Nós temos aí uma pessoa absolutamente mergulhada no trabalho de pesquisa, vendo resultados, mas e a família, a casa onde morava, os filhos, como é que se compunham nesse ambiente que nós estamos falando?

 

R – A minha família, eu dou valor à família, a família que eu entendo, uma vez minha mãe ficou aborrecida comigo, porque meu conceito de família é a minha mulher e minhas filhas. Depois uma família, digamos, maior, um segundo nível, pai, mãe, irmão etc. Mas o que eu considero, digamos, a família minha atual, é a minha mulher e minhas filhas, né? Agora meu genro, também. Mas a família sempre me acompanhou. Há dez anos atrás, por exemplo, eu tive infarto, fiz quatro pontes de safena. Duas safenas e duas mamárias. Não fosse a minha família estar comigo não teria me recuperado. Então, são momentos difíceis, por exemplo, quando eu precisei optar em vir pra Uberlândia, ou sair do grupo, porque não podia continuar como estava, porque no ano que antecedeu 1994, que eu falei que eu vim pra cá, eu vinha pra cá segunda-feira de manhã e saía sexta-feira de tarde, então eu não queria viver uma vida assim, e minha família em Campinas. Ou eu vinha pra cá, ou eu tinha que sair do grupo, porque o meu trabalho aqui, comecei vindo um dia por semana, dois dias por semana e no final estava cinco dias por semana. E eles vieram comigo. No início não foi fácil, porque Campinas é uma cidade bem maior, minhas filhas tinham nascido lá e já tinham namorado, já estavam de namorados e tinham feito festa de quinze anos etc. e de repente vieram pra Uberlândia que, as coisas são boas ou ruins dependendo de referência, quer dizer, então, era menor, não tinha, não tem ainda, a oferecer o que Campinas tinha. As escolas aqui, eu acho que ainda é um problema de Uberlândia, que as escolas precisam ser desenvolvidas, principalmente a secundária. Então houve um abalo muito grande na vida delas, da minha mulher e minhas filhas, mas elas compreenderam que era importante para o meu trabalho e vieram comigo. Agora, eu, pessoalmente, sem família não julgo uma pessoa completa, vamos dizer assim. Se eu não tiver um fim de semana pra ir pra casa, conviver com a minha mulher e às vezes como as minhas filhas, que elas estão em São Paulo agora, mas eu sempre falo com elas, fica meio sem sentido viver, então é muito importante. E, obviamente, eu não posso dar o tempo que talvez elas quisessem, principalmente, a minha mulher, né? Eu trabalho, mas eu compartilho com ela todos os problemas, todas as dificuldades e eu não, digamos, embora eu goste muito do grupo, trabalho no grupo há dezessete anos, e às vezes parece que faz um ano, dois anos, eu não tenho dúvidas quanto a opção entre família e o grupo. A opção é a família. Se um dia eu tiver que optar, sem dúvida nenhuma eu opto pela minha família, e depois pela empresa, vamos dizer assim.

 

P/1 – Voltemos à XTal. Na verdade a companhia começou a produzir e contratualmente tinha uma reserva de mercado, mas não havia mercado comprador, ou havia?

 

R – Não, não havia. Isso é uma coisa curiosa. Inclusive, é importante, nós somos suspeitos de falar porque nós estávamos na própria XTal, mas essa, o nome reserva de mercado virou até um palavrão, não sei se você se lembra. Na época já era uma coisa interpretada como um palavrão. Havia realmente uma reserva de mercado, no Sistema Telebrás, para as fibras ópticas produzidas pela XTal, que era oriunda da tecnologia Telebrás, por cinco anos, de 1984 até 1989. Porém, ao mesmo tempo em que havia essa reserva, isso foi pouco divulgado, havia uma exigência contratual da Telebrás, em melhoria de performance do produto e melhoria de preço do produto. Então era preciso cair o preço e melhorar a qualidade. Isso foi um fator diferenciador, porque outros produtos na era de informática não tinham isso. Então as pessoas importavam, carimbavam no Brasil e pronto, reserva de mercado. Aqui não, era produzido localmente, com tecnologia local e a permanente e vigilante presença do Sistema Telebrás que entendia disso, que eram engenheiros bem formados e bons, exigindo essa evolução preço e qualidade. Isso foi o que nos permitiu, quando finalmente foi liberado o mercado, em 1989, a concorrer. Agora, é verdade, no início, eu me lembro que no primeiro ano da fábrica, a fábrica agora, pra você ter um ideia, produz seiscentos  a setecentos mil quilômetros de fibra por ano. Em 1984 nós produzimos dois mil quilômetros por ano, o primeiro volume de produção. Então foram trezentas vezes o acréscimo de produção anual nesses dezesseis anos de vida da empresa. No primeiro ano, eu e um colega que trabalhava comigo na época, que veio aqui de Uberlândia até, fomos fazer uma turnê no Nordeste do Brasil, Recife, Aracaju, todas aquelas capitais, para apresentar para aos diretores das empresas do Sistema Telebrás o que que era a fibra óptica, como é que funcionava, e tirar mito de laser, o raio laser, o raio da morte etc., porque havia uma aversão total a usar o produto, quer dizer, tinha um corpo de engenheiros treinados com sistemas eletrônicos de transmissão via fio de cobre, ou microondas, se fosse o caso, mas de fibra óptica, com laser, com fotodetector, é um bicho estranho. Você tirar as pessoas da sua zona de conforto é a pior coisa que tem, então você vê engenheiros de projeto, ou de instalação, ou de manutenção e de repente você diz assim: “Esquece o que você aprendeu até agora”, e realmente é uma mudança radical, “você agora vai trabalhar com a fibra de vidro, com laser, com o núcleo da fibra óptica, com ângulo de entrada”, puta, é um problema! Nós tínhamos que, tem um colega nosso, do Sistema Telebrás, chamado Zilli, todo mundo acha ele muito emburrado, eu sempre gostei muito dele, porque ele é um cara que sempre apostou muito nesse projeto, hoje ele é diretor da Telemar, se não me engano, foi secretário do Ministério das Comunicações, Ércio Zilli, Augusto Zilli. E ele, junto conosco, ia às empresas do Sistema Telebrás, dizia: “Olha, você tem que comprar isso, porque é o futuro do mundo, vai por aí”. Então era enfiado goela abaixo, pra comprar. Não que fosse um produto ruim, pelo contrário, está tudo instalado, até hoje funcionando, mas porque havia uma rejeição das empresas de comprar esse produto. Hoje, coisa incrível, hoje em dia o mundo está vivendo em cima de fibra óptica. Mas, então, não havia realmente mercado no início por isso, porque as empresas não... tinham aversão ao produto. Mas nós começamos a instalar, uma outra característica da CTBC, já. Em 1984, quando inaugurou a fábrica, nós instalamos aqui em Uberlândia, na CTBC, o primeiro sistema de fibra ótica comercial. O primeiro sistema de fibra ótica no Brasil, foi eu até que chefiei a instalação no Rio de Janeiro, chamou-se ECO 1: Enlace de Comunicação Óptica Um. Em Jacarepaguá, na região da Cetel, quando nós fizemos o enlace de quatro quilômetros, o primeiro cabo ótico instalado etc. O segundo, já comercial, foi aqui na CTBC. Então é de novo essa questão do arrojo, essa questão de desafio, porque o mesmo desafio de fibra óptica, laser etc., tinha para os engenheiros daqui. Então, enquanto que no Nordeste, no Norte, no Centro, no Sul, Telesp, em São Paulo, os caras: “Ah, não quero”. Aqui o próprio Luiz Garcia: “Manda! Manda pra cá, eu quero instalar aqui”. Tá aqui na Avenida Afonso Pena, deve estar aqui até hoje o cabo ótico, funcionando. Além das dezenas, centenas de outros que já foram instalados. Mas esse primeiro, de 1984, está instalado aqui.

 

P/1 – Como foi a sua vinda pra Uberlândia, afinal? Sair da fábrica e vir pra cá?

 

R – Não, não foi assim. Eu saí da fábrica em 1987, o que começou a acontecer, é que eu montei a fábrica e, de uma certa forma, montei uma fase da minha vida pessoal, vamos dizer assim, eu tinha pegado um projeto como aluno de pós-graduação, nos Estados Unidos, depois como professor na universidade num ambiente acadêmico, de desenvolvimento de tecnologia, depois no Centro de Pesquisa, depois na fábrica, eu montei a fábrica, ela começou a produzir o produto, começou a crescer a produção, fechei esse ciclo na cabeça. E aí, ao mesmo tempo, o próprio Luiz Garcia, na época o seu Alexandrino era vivo ainda, começava a me chamar para me envolver em outros projetos. “Zé Mauro, dá uma olhada como é esse negócio de circuito híbrido a filme espesso”, um produto novo que tinha aí. Aí, eu saía lá de Campinas, ia pros Estados Unidos, ia pra Europa, pra ver uma fábrica em São Paulo, enfim. E depois vinha aqui em Uberlândia e relatava: “Olha, é bom, não é bom, vale a pena, não vale a pena”, enfim. Depois um outro produto, uma outra área, um serviço novo, um contato de ver serviços lá fora, enfim.

 

P/1 – O seu Alexandrino tinha muita curiosidade sobre essa novas tecnologias? Como era a sua relação com ele?

 

R – Muita curiosidade. Eu tive muito pouca, eu não convivi muito com o seu Alexandrino, porque quando, digamos, durante a fase final dele eu ainda estava em Campinas. Mas ele tinha uma mistura de curiosidade com vontade de fazer. Então ele ao mesmo tempo que tinha curiosidade queria fazer. Então essa fábrica de fibra óptica, por exemplo, ele foi algumas vezes na montagem da fábrica e no dia da inauguração. Que no dia da inauguração, eu me lembro, ele me chamou num canto e... doutor José Mauro, ele me chamava de doutor... “Doutor José Mauro, eu queria lhe dizer o seguinte: essa fábrica aqui é sua.” Eu sabia que não era minha, propriedade física, mas eu acho que ele percebeu com muita clareza que, realmente, aquilo que estava ali dentro era eu quem tinha montado na minha cabeça, na minha, e aquilo dá uma, você vê um acionista controlador de um grupo chegar pra você, um cara recém-contratado, dizer “isso aqui é sua”, certamente eu entendi no sentido figurado de “faça o que você achar que tem que fazer aqui dentro”. Me deu uma carta-branca ali, com aquilo, brutal, né? Então eu tenho poucas recordações dele, mas todas, assim, muito incisivas, muito objetivas e muito interessantes.

 

P/1 –  E a partir desse momento você passa a ser uma espécie de peão das novas tecnologias?

 

R – Exato. Havia muitas coisas novas acontecendo, produtos novos, etc., eles começaram a me pedir opinião daqui, dali e pouco a pouco eu fui saindo da fábrica, vamos dizer assim, né? Aí eu combinei com o próprio Luiz, eu tive aqui em Uberlândia, encontrei-me com Luiz, com seu Alexandrino, com o seu Wilson Costa, que era o diretor financeiro. O Luiz, então, apresentou uma ideia de que eu saísse, lá da fibra ótica pra ver outros produtos, outras áreas etc. Eu combinei com ele, com seu Alexandrino e com seu Wilson, de passar um ano nos Estados Unidos pra ver outras coisas, laser, por exemplo, semicondutores, era um produto que estava começando a aparecer assim interessante etc. E aí, fui para os Estados Unidos, a serviço do grupo e isso foi, eu falei pra você ainda há pouco, no formulário, isso foi em 1988, se não me engano.

 

P/1 – Levou a família?

 

R – Levei a família comigo, pra passar um ano lá. Comecei a fazer contato, buscar novos produtos, mas aí veio uma crise no grupo, muito grande, foi quando foi feita a reestruturação do grupo, em 1989 por aí.

 

P/1 – Com Mário Grossi...

 

R – Gestão Mário Grossi, e foi logo antes do Mário, eu já estava lá nos Estados Unidos, então veio uma crise grande aqui, de muitos negócios. A crise, digamos, financeira, foi consequência. Com a entrada de negócios, tínhamos mais de sessenta empresas no grupo e a capacidade de gerenciamento das sessenta empresas, não foi possível de dar conta de gerenciá-las todas. E a consequência disso foram problemas financeiros, inclusive, para poder manter isso tudo funcionando. E aí eu comecei, de novo, um outro ciclo na minha vida, porque eu estava lá fora e você quando tá fora não conhece os detalhes do que está acontecendo. Então, de repente as notícias vinham meio atrapalhadas, meio confusas, mas eu senti claramente que estava tendo uma crise, né? E aí desviei, digamos, o meu trabalho tecnológico e fábrica etc., pra uma área financeira, porque, lá pelas tantas me foi feito um pedido pelo seu Alexandrino, inclusive, um documento dele, pra ir no IFC, International Financial, um órgão do banco mundial, pra solicitar lá um financiamento de cinquenta milhões de dólares, e aquilo pra mim era um mundo novo, porque pra mim, até então, era fábrica e laboratório etc., centro de pesquisa, mas bancos não eram o mundo onde eu vivia, né? Então, em 1988 eu entrei pela primeira vez no IFC, com a cara e a coragem, pra apresentar um projeto, o projeto, no início, foi totalmente rejeitado, mas aí eu comecei a fuçar pra ver como melhorar o projeto e de lá eu contratei, na época, um cara que hoje é conselheiro do grupo Algar, chamado José Rui Sanchez, que tinha sido vice-presidente do IFC, e ficou claro, foi sugerido pelo próprio IFC, que nós precisávamos de um consultor pra nos ajudar, preparar projetos etc. Aí, eu entrevistei várias pessoas em Washington e ficou claro que esse era o cara ideal, e tanto é assim que hoje ele é conselheiro do grupo, bastante importante pro grupo, né? Foi contratado por mim nessa época lá, em 1988. Aí ele veio ao Brasil, nos ajudou a rever todas as empresas e teve muita empatia com o Luiz Garcia, que estava querendo rever essa situação toda e aí veio então a fase, como você falou, Mário Grossi, que foi contratado pelo Luiz para fazer essa reestruturação do grupo.

 

P/1 – E o seu papel nessa época, cenário?

 

R – Meu papel, eu estava em São Paulo, na ABC Sistemas, vamos dizer assim, que era... Eu voltando dos Estados Unidos, fui trabalhar na ABC Sistemas, que era uma holding pra área de produtos de telecomunicação. Telecomunicações e informática, na verdade. Então era fábrica de fibra óptica, de equipamentos de transmissão de dados, de multiplexadores, como a gente chamava, de computadores da Bull, enfim. Fiquei três anos lá, já na época do Mário, foi uma época muito difícil do grupo, porque o Mário precisou entrar e dar uma correção geral de uma porção de problemas. E lá nessa holding, em São Paulo, eu vi meu chefe ser demitido, meus colegas serem demitidos e os subordinados abaixo de mim serem demitidos. Então eu me senti igual aquele, quando você está num parque de diversões, aqueles patos ficam andando, atira num, atira noutro, daqui a pouco vem um tiro aqui em cima de mim, e não veio, fiquei quase que sozinho lá, eram dois colegas só, de todo o escritório em São Paulo e o Mário já estava dando um rumo novo, de mais eficiência, de corte de investimentos não produtivos, enfim.

 

P/1 – Essa experiência, já sob a administração do Mário Grossi, foi o que deu, de fato, a conformação atual do grupo e a sua experiência nesse cenário passou por uma reestruturação forte, vendo a reestruturação sendo feita...

 

R – Sem dúvida. A época do Mário foi uma época radical, vamos dizer assim, porque ele precisou tomar decisões muito rápidas e mudar muita coisa que tinha no grupo, dar uma estrutura, um controle orçamentário, por exemplo, que nós fazíamos, mas fazíamos sem uma coordenação central, então, sem dúvida nenhuma, foi muito intensa a época do Mário.  Eu, no início, tive muita dificuldade em me identificar com o Mário, cheguei a achar, inclusive, que não ia conseguir me identificar com ele, que ia sair e ia procurar outro trabalho. Porque muitas características do estilo dele eu achava radicais demais, e ainda acho, na verdade. Mas, com o tempo, começou a acontecer algo interessante, eu comecei a ter, em algumas áreas de comportamento, uma identificação muito forte com ele. Então, por exemplo, a honestidade no trabalho, a valorização de ideias, o próprio reconhecimento pelo esforço de trabalho de um e de outro, então, isso foram algumas das características que me identificaram muito com ele. A transparência em relação a colegas de trabalho, numa forma diferente, quer dizer, ele tinha uma forma pessoal, eu não acho que era o ideal, mas a ideia básica do comportamento dele, eu comecei a entender e comecei a me identificar, inclusive, com ela. Depois começou a acontecer uma outra coisa interessante, é que ele começou a entender, o Mário, que o grupo precisava desenvolver novos negócios e desenvolver parcerias, inclusive, e ele viu que eu tinha vontade, gosto e dedicação a fazer isso e começou a me dar espaço pra fazer isso. A própria Lightel, que foi criada essa holding setorial pra serviços de telecomunicações, foi o resultado desse trabalho. Houve essa mudança, digamos assim, em relação a minha visão do trabalho do Mário, quando eu comecei a ver essas virtudes do trabalho dele. O estilo dele era um estilo diferente, não cabe a mim julgar, mas só pelo estilo dele eu vi muita dificuldade e certamente eu teria que ir embora. Eu tive poucos momentos bem difíceis com ele, uma vez ele próprio me chamou aqui em Uberlândia e não me demitiu porque eu fiquei no grupo, mas foi perto disso, porque eu tinha uma visão de trabalho diferente da visão dele. Mas foram momentos que a gente aprende, quer dizer, você... eu aprendi muito com o Mário, eu acho que a gente tem que abstrair na vida da gente, onde você pode ir aprendendo, vá aprendendo, porque não volta atrás muitas coisas, né?

 

P/1 – E como é que foi esse processo da Lightel?

 

R – A Ligtel processo, eu acho muito importante, pra mim pessoalmente, e pro grupo também, porque o processo da Lightel foi uma constatação, logo que eu cheguei aqui, em 1994, o Mário me pediu pra fazer o plano estratégico do grupo, vamos dizer assim, provavelmente, ele ia aprovar e supervisionar, mas o trabalho mesmo de preparar os detalhes, foi pedido pra fazer isso com diretor de planejamento do grupo, a minha função. E trocando ideias com outras pessoas, inclusive o próprio Rui Sanchez, esse conselheiro nosso, surgiu a ideia de que nós devíamos criar uma sub-holding, como a gente chama, uma holding debaixo da holding principal, só para a área de serviços de telecomunicações. Como nós tínhamos, até pouco tempo, indústrias também, na área de Eletrônica e Informática, o cenário que estava por vir, como veio, de abertura de serviços de telecomunicações pro mundo, tinha que começar a diferenciar produto. Fábrica de produtos ou indústria de serviços, vamos dizer assim. Aí nós criamos a Lightel como, já desde a sua concepção, como uma empresa holding, da qual o grupo ia controlar, essa sempre foi a ideia, e sob ela colocamos as empresas de serviços, uma separação da área de eletrônica só, das empresas de serviços. Então, entraram a CTBC, entraram a Engeset, que é serviço de engenharia, e já a empresa de TV a cabo, que já tínhamos comprado na época, debaixo da Lightel. E a Lightel, então, ia admitir sócios do grupo Algar. Entrou o IFC, o próprio IFC do Banco Mundial e depois a Williams, essa empresa americana que tem como segunda área principal a longa distância em fibra óptica. A Lightel hoje chama-se Algar Telecom, é a mesma empresa com outro nome, mas foi criada no tempo certo, porque logo depois veio, efetivamente, a privatização das telecomunicações e o grupo Algar tinha uma divisão, uma área pronta para entrar nesse setor. E foi o que aconteceu.

 

P/1 – Conseguiu garantir as condições de competição nesse novo ambiente.

 

R – Exatamente. E tinha uma estruturação voltada, uma área da empresa voltada pra isso, né?

 

P/1 – Nesse momento, o novo ambiente de mercado que se escancarou no Brasil, como é que o grupo pensava o futuro? Esse futuro que é a discussão de agora?

 

R – Nós sabíamos que a concorrência... a concorrência traz duas características interessantes. Primeiro é aumentar a competitividade, hoje o cliente tem o poder divino da opção. Enquanto você tem monopólio, e aqui era um monopólio, a CTBC tinha um monopólio privado, mas era um monopólio, o cliente ou tem o serviço da CTBC ou não tem de ninguém. Então não tem o poder divino da opção. Você precisa aumentar a sua competitividade pra que o cliente opte por você. Senão ele não opta por você, ele vai optar pelo outro. Segunda característica interessante que está acontecendo, é: o volume do mercado aumenta. Então você perde parcela do mercado, sempre, porque você tá sozinho e de repente vem uma outra empresa, você não fica com cem por cento do mercado, então certamente vai caindo. Aqui, na região da telefonia celular, por exemplo, já tem uma participação intensa, nós já temos dez ou doze por cento da participação da Maxitel e a tendência a longo prazo é ter cinquenta por cento. Se forem empresas, por lógica, inclusive, igualmente competentes e nós temos sempre que imaginar que vai ter competência do outro lado, não podemos imaginar, nunca, que o outro lado é incompetente, a tendência natural do mercado no mundo, se tem duas empresas, é cada uma ficar com cinquenta por cento. Então, a longo prazo, esperamos muito longo, a outra concorrente, e depois virão outras também. Aí começa a diferenciar, trinta, trinta, quarenta, etc.

 

P/1 – Os volumes também?

 

R – Mas os volumes também aumentam. Exatamente. Então isto está acontecendo aqui, o Brasil hoje tem mais de quinze milhões de aparelhos de telefone celular e tinha dois milhões há três anos atrás. É uma coisa assustadora o volume! Então isso não deve, digamos, fazer com que a gente deixe de ter preocupação em competição, em aumentar a produtividade e cortar custos etc., porque “o volume aumenta, então deixa rolar, mesmo caindo o nosso percentual a gente continua tendo o mesmo volume”. Não pode agir assim, porque você perde tudo, se você deixar de ser competente. Inclusive, o que você tem. Mas de qualquer forma é uma característica que sempre acontece. Aumenta o volume, no Brasil inteiro aumentou, né?

 

P/1 – Você diria que essa nova realidade reforçou a necessidade no foco no cliente, no foco na qualidade, essas duas pernas passaram a ser as pernas...

 

R – Isso aí sempre existe, qualquer empresa que fica muitos anos prestando um serviço público, se não foca no cliente não sobrevive. O que acontece hoje é uma característica interessante, tá acontecendo no mundo inteiro também, você tem que se preocupar em dar ao cliente o controle e pra conveniência do cliente. O cliente tem que ter controle do serviço e tem que ser conveniente pra ele e não para a empresa. Então, por exemplo, se você pega um sistema de telefonia celular pré-paga, você vai no Carrefour e você compra um telefone celular. Então é extremamente conveniente, porque em vez de você entrar numa fila, preencher nome, endereço, aliás eu tive que fazer aqui, nome do pai, nome da mãe, quando é que nasceu, que é às vezes muito chato você fazer isso, faz isso a vida inteira e continua fazendo sempre. Agora, você quer comprar um telefone celular, vai no Carrefour, pega o pão, manteiga e o telefone celular. E sai com ele funcionando. Então não é só pegar, é não precisar registrar número em lugar nenhum, já sai com ele funcionando. Então é pra conveniência do cliente e não da empresa. Antigamente você tinha: “Venha a mim, no meu escritório, traga o seu aparelho, entre na minha fila, espere chegar a sua vez, vai pegar um número que é o meu número sequencial, etc., etc., etc.”. Hoje, é o inverso. Hoje, você pega, a empresa que se vire em ter controle, controle no sentido de conhecimento do número que você pegou. Quando ela manda pro Carrefour tem que ter aquele número já registrado na central telefônica. Então a conveniência está saindo da empresa para o usuário. E a outra questão é de controle, o telefone pré-pago, por exemplo, a minha sobrinha comprou um telefone pré-pago pra ela, ela tem quarenta reais por mês, cartãozinho. Eu tenho o controle, porque se eu der pra ela, começa a ligar pra a mãe dela na Bahia, pros amigos no Rio de Janeiro e descontrola o custo que eu vou pagar, o preço que eu vou pagar por mês. Então é o controle do serviço dado ao usuário. Quem não fizer isso hoje, em serviços públicos está começando a ter problemas. É preciso que vá para o cliente o controle e a conveniência dele, esse serviço. E a CTBC vem fazendo isso, vem dando exemplos disso, vem tentando transportar pro cliente as conveniências que antes estavam na empresa, evitando coisas, por exemplo, no Rio de Janeiro, minha sogra, tem oitenta e seis anos, mora há quarenta e seis anos numa casa com um telefone. A Telerj, a antiga Telerj mudou o número dela agora. Isso aí pra mim é uma sacanagem, não se faz isso com um cliente de quarenta e seis anos de uso. Ela decorou o número dela, não vai decorar nunca mais, e a mudança desse número poderia ser feita, podia ter mantido o mesmo número da rede e mantido o mesmo número dela. Daria mais trabalho pra empresa etc., mas é uma... se ela puder optar por outro serviço, ela vai optar.

 

P/1 – Como é que foi essa trajetória da diretoria na época do Mário Grossi e até a vice-presidência do grupo agora? Como é que esses desafios foram aparecendo na sua vida?

 

R – Entre o Mário e a minha gestão atual houve o Gunnar, que foi o sucessor do Mário, na verdade, por dois anos. O Mário...

P/1 – Gunnar Vikberg?

Gunnar Vikberg. O Gunnar assumiu em 1997 acho, 1998, se não me engano, 1997 e saiu agora em julho do ano passado, quando eu assumi. Eram pessoas totalmente diferentes, estilos totalmente diferentes e, na época do Gunnar, houve uma série de novos negócios, mas eu não via muita tranquilidade nesses novos negócios, quer dizer, nós ficamos com um endividamento muito alto e endividamento que não estava controlado. O pior problema não é a situação que você tem, é manter uma solução em curso. Isso é pior do que o problema em si, né? Na época do Mário, digamos, a sucessão, a decisão é sempre dos acionistas e foi a decisão tomada pelo Gunnar. Era um cara, enfim, os acionistas tinham perspectiva de que podiam fazer o negócio, podiam tocar. Houve essa série de problemas, eu imagino que certamente em função disso houve a decisão de mudança, pelos acionistas, uma decisão evidentemente do acionista controlador, inclusive o Luiz Garcia, hoje. O convite feito a mim para suceder o Gunnar, eu vi com simpatia, quer dizer, eu vinha... eu nunca... na minha vida eu olho pra trás e com muita tranquilidade, isso eu lhe digo com muita franqueza, nunca me arrependo de ter feito nada que fosse, digamos, pra eu poder desenvolver a minha vida profissional, fosse prejudicar outros. Tem muita gente que faz isso. Tem muita gente que pisa em cima de alguém pra subir na carreira. Hoje a responsabilidade que eu tenho eu sei que é grande, eu estou há um ano já, na função, é um peso grande, não é um peso simples, a responsabilidade é grande, mas um convite feito a mim e eu acredito que certamente foi feito em função da minha dedicação, da minha vontade de realizar coisas, eu só vou parar de ter essa vontade quando morrer, espero que seja muito longe ainda. Outro dia eu vi uma coisa do Woody Allen sobre o que ele achava da morte, se ele tinha medo da morte, ele falou: “Absolutamente não, eu só não quero estar lá quando acontecer”. Então eu penso assim também, eu quero estar longe, ainda, da morte, não tenho medo nenhum, só não quero estar lá também quando acontecer, né?

 

P/1 – José Mauro, eu queria uma reflexão mais conceitual sobre uma coisa que vem desde o seu Alexandrino e é um negócio que você já mencionou mais de uma vez, é essa ideia do serviço público, quer dizer, você está gerindo um negócio privado, mas fundamentalmente, o que você tá fazendo é servir as pessoas, ser útil pras pessoas, um serviço que atende as necessidades das pessoas, né, como é que o vice-presidente do grupo Algar pensa sobre esse grande pano de fundo da sua atividade?

 

R – É, isso é uma responsabilidade muito grande, porque, se você pensar bem, os serviços de comunicação, e isso é uma visão que a gente tem que ter mais ampla hoje, quer dizer, você, muitos anos atrás, quando pensava em telecomunicações, pensava em telefonia, voz. Da mesma forma, quando começou a eletricidade, você pensava em lâmpada elétrica, o mundo só pensava em lâmpada elétrica, quando falava em eletricidade, é lâmpada elétrica. Telecomunicações hoje, você só pensa em voz, geralmente, e é um erro na verdade. Porque, você hoje vai num banco vinte e quatro horas e pega dinheiro, transfere dinheiro usando rede de telecomunicações. Você se educa em casa, vendo internet, usando telecomunicações. Você manda mensagem pros teus filhos, fora ou aqui, usando telecomunicações. E fala no telefone, com telecomunicações. Então, a amplitude de serviços, você diz públicos, pra um usuário é enorme hoje, e a responsabilidade é muito grande de que esse serviço seja bem feito e que seja a um custo compatível com a qualidade do serviço. E aí é um fator importante, vamos dizer assim, um custo baixo, baixo, alto, é relativo. Tem que ser um custo justo. Você não pode ter um custo abaixo de um valor mínimo que lhe faça ter prejuízo na sua empresa, aí você não consegue ter lucro e não consegue reinvestir. Então a decisão de valor de serviço, o valor percebido pelo serviço é muito importante você ter. Eu prefiro pagar por um serviço mais caro do que o outro, mas que ele funcione sempre, do que não ter. Se você tem um telefone celular da CTBC, e eu digo aqui, com toda... como eu disse outro dia na reunião interna da CTBC, eu acho o serviço de telefonia da CTBC o melhor do Brasil, não vou exagerar dizer que é do mundo, que vai parecer exagero, mas certamente, no Brasil é o melhor que existe. Você tá no telefone celular, ele não cai nunca, ele tem acesso sempre, a qualidade da voz é melhor, tem defeito de vez em quando que são corrigidos, existe essa atenção na correção dos defeitos. Então, a performance da CTBC, no caso, ou de serviço em geral de serviço público que o grupo Algar tem, nós temos uma preocupação permanente de que ele seja melhorado e pra isso é importante reconhecer que ele nunca está perfeito. O pior erro que você tem no serviço público é dizer “o meu serviço está ótimo”, porque aí você não melhora nunca. É uma preocupação nossa muito forte de estar inovando o tempo todo. Uma característica interessante que aconteceu na privatização de telecomunicações no Brasil pouca gente percebeu. O momento da privatização no Brasil foi coincidente, isso foi coincidência, com o momento do setor de telecomunicações no mundo, de uma evolução brutal de tecnologia. As duas coisas aconteceram no mesmo tempo. Você ficou quase cem anos, quase que não evoluindo. Era um fio de cobre, com telefone, passou de discar para tecla, mas a diferença é mínima e de repente você entra com fibra óptica, entra com serviço de internet, serviço de telefonia celular, quer dizer, e isso tudo acontece exatamente na mesma época da privatização no Brasil. Esses dois fatores não foram planejados assim, foram coincidentes. Então, no Brasil atualmente, vive-se um momento em telecomunicações que nenhum lugar do mundo viveu, porque nunca coincidiu. Por exemplo, a Inglaterra privatizou a Telecom, a British Telecom, sei lá, há dez anos atrás...

 

P/1 – A Margaret Thatcher.

 

R – Margaret Thatcher, mas numa época que o setor não estava mudando muito. Privatizou e passou de empresa estatal à uma empresa privada. Agora, no Brasil, além de passar de estatal para uma empresa privada, são novos serviços entrando num volume muito grande, numa pressão muito grande, então, a identificação disso é importante, e isso, o grupo Algar já fez essa identificação. Então, o grupo Algar hoje tem serviços, onde atua em telefonia celular, Banda A e Banda B, a diferença de uma pra outra é que uma já estava atuando e a outra passou a atuar, uma tem cobertura grande, a outra tem digitalização plena, são características diferentes. Nós temos telefonia em cabo coaxial, internet em cabo coaxial. A preocupação, de novo, em estar fornecendo esses serviços é grande. Temos um Call Center que é um exemplo nacional, aqui em Uberlândia, que vai ser ampliado agora, quer dizer, nós estamos o tempo todo entrando nessas áreas novas porque sabemos que é o que é preciso, o cliente nosso precisa ter convicção de que em se tornando cliente nosso ele tem acesso à informação que ele quer. É uma visão de que não é um terminal telefônico, é um acesso à informação dele, de internet, informação de call center, de telefonia via cabo coaxial que, em futuro próximo, traz a imagem da pessoa com quem você está falando, enfim. Essa preocupação de ser mais uma via de acesso à informação sua, que você quer, ao invés de um terminal de telefone ou um terminal de microcomputador, é uma preocupação que a gente tem.

 

P/1 – É curioso, porque o grupo, está virando um pouco lugar comum nesse nosso programa de trabalho, o fato de ser a única empresa que tem uma história pra contar, em telefonia, em telecomunicações. Mas sempre esteve impregnado, marcado por esse pioneirismo, né? Um grupo lá nas internas do país e sempre tendo a melhor tecnologia, a primeira fibra óptica, a primeira estação digital, isso é uma característica que está muito presente no grupo ainda hoje e qual o caminho dela?

 

R – Primeiro é importante entender porque que está no grupo hoje ainda, né? E aí eu acho que tem muito a ver com a estrutura de ser um grupo familiar, no qual a família tem gosto e tem realização, o acionista, de estar presente na operação. Não ele, pessoalmente, se bem que ele pessoalmente gosta também, mas eu digo que o grupo Algar, onde entre em parcerias, esteja participando da operação, quer dizer, isso, diferentemente de um grupo investidor, financeiro, e que investe e espera dividendos, pega o dinheiro e faz outro investimento, usa. O grupo Algar quer participar das operações, onde ele está sozinho, obviamente ele tem que operar, mas mesmo em parceria, ele quer participar da operação também.

 

P/1 – O que gera aprendizado...

 

R – O que gera aprendizado, gera vontade, gosto, quer dizer, gera paixão pelo trabalho. Não há coisa mais satisfatória do que você planejar algo, executar e ver aquilo funcionando, então aquilo satisfaz. Você participar de um processo, a partir de uma ideia ter um projeto funcionando, quer dizer, há três anos atrás nós tínhamos esse projeto da Engeredes, que era um cabo ao longo do gasoduto da Petrobrás. Hoje, sai da cidade de São Paulo, vai parar em Brasília, vai pra Belo Horizonte, e nasceu de uma ideia. E hoje as pessoas falam, cirurgia cardíaca feita em Uberlândia, transmite para Ribeirão Preto pelo cabo que nós instalamos, nós operamos. Isso tudo dá gosto em você participar. Nós não vimos isso como um investimento financeiro, isso é uma coisa curiosa. “A missão principal do grupo não é dar lucro?” Eu falei: “Não é a função principal. Dar lucro tem que ser consequência”. O principal é você criar um ambiente de trabalho onde você tenha gosto pelo que você faz, onde você preste um serviço, sem falsa modéstia, e em fazendo isso dá lucro. Essa relação existe, quer dizer, não é “vamos fazer isso aqui, porque isso aqui dá lucro”. Não é por aí. Vamos fazer isso aqui, porque nós podemos fazer algo importante, algo que atenda a anseios da sociedade e a nós próprios. E em fazendo isso você tem lucro. É uma relação que vem como consequência e não como objetivo. E isso faz diferença.

 

P/1 – Sem lhe pedir nenhum exercício de futurologia, mas o que você diria pra um novo associado sobre o futuro que lhe espera na companhia e nesse ambiente de negócio?

 

R – Quem entrar hoje no grupo, primeiro vai viver cem anos, quer dizer, um cara que tenha hoje vinte anos, trinta anos, vai viver até os cem pelo menos. E verá o grupo Algar com uma posição de destaque no cenário nacional. Nós temos uma meta, uma trajetória que leva inexoravelmente a ser um dos grandes grupos brasileiros presentes não só na região do Triângulo Mineiro, que é o que nós estamos hoje, com alguns negócios fora, mas presente em todo o território nacional. Então, prepare-se, quem está entrando hoje pra ter uma... eu vejo como um dos grandes desafios meus, da minha gestão, que a gente nunca é vice-presidente, você está  vice-presidente por algum tempo. Mas eu tenho a missão de primeiro dosar a nossa ambição, a nossa capacidade de crescimento, não é só a questão financeira, é a questão de poder de gerenciamento também de negócios, e de permitir ao grupo chegar onde ele naturalmente vai chegar, que é um grupo nacional. Então essas duas coisas não são fáceis, você tem que dosar a ambição e ao mesmo tempo deixar acontecer aquilo que naturalmente deve acontecer. De novo, quem estiver entrando hoje, prepare-se pra estar trabalhando num grupo de presença nacional.

 

P/1 – E como é que é gerir isso pessoalmente, pra você, eu não estou te pedindo o balanço de um ano de gestão, mas o que isso te incomoda do ponto de vista saudável, o que isso...

 

R – Eu estou com uma gripe violenta agora, certamente debilitado por muita intensidade de trabalho, mas... é prazer. Eu acho que se você... certamente aumenta as dores de cabeça, aumentam os problemas, a responsabilidade, etc. Mas se no fim do dia você não chega à conclusão de que somou alguma coisa e todo o dia, todo o dia, mesmo os dias em que eu chego em casa aporrinhado por algum problema que aconteceu, eu aprendo alguma coisa. Às vezes um milímetro, às vezes cem metros, mas eu venho com a convicção, há um ano já, que eu assumindo a função de que todo dia eu aprendo alguma coisa e aprendendo eu posso ajudar os outros, então, e melhorar os rumos, enfim. Então é uma sensação positiva. No momento que você parar de aprender na tua vida você começa a morrer, né? Então, isso é uma satisfação que eu tenho.

 

P/1 – E as pessoas com as quais você opera e trabalha no seu cotidiano?

 

R – Ninguém quis me matar ainda, então isso, é aquela história do Júlio César, ninguém me esfaqueou ainda, então eu sinto uma satisfação pra trabalhar com eles. São pessoas, nós nos reunimos toda segunda-feira de manhã, numa reunião que dura uma manhã inteira, um ambiente muito aberto, muito transparente, não há agenda oculta, vamos dizer assim, todo mundo está falando lá o que deve falar, então, até que um venha a falar diferente eu vou assumir que estão satisfeitos com o trabalho, enfim, e vamos continuar. A gente tem que, você não pode nunca assumir que você está agradando, tem que perguntar aos outros se tá bom, ou não tá bom e a gente faz isso frequentemente.

 

P/1 – Perfeito. O que você achou dessa entrevista?

 

R – Gostei, bastante. Ficamos aqui três horas (risos). Passou rápido.

 

P/1 – Eu agradeço bastante.

 

R – O prazer foi meu.

 

P/1 – Um prazer ouvi-lo e tenha a certeza de que foi um depoimento muito rico.

 

R – Muito obrigado.

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