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História

Estar no CDI é um sentimento de troca; estou doando e aprendendo muitas coisas

História de: Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/05/2020

Sinopse

Neste depoimento, Luiz nos conta sobre sua formação acadêmica e profissional. Ele conta sobre o período em que trabalhou no BNDES, instaurando o programa de privatizações brasileiro até se encaminhar para ser sócio de duas instituições financeiras. Ele diz também sobre as ONGs em que atua e conta também como foi sua chegada no CDI, uma ONG com o objetivo de promover a inclusão e o empoderamento digital. Luiz explica como funciona o papel do Conselho (a área em que ele atua na ONG), sua a importância e seus desafios.

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História completa

P/1- Boa tarde, Luiz.

 

R- Boa tarde, Danilo e Lídia.

 

P/1- Luiz, você poderia começar falando seu nome completo, local e data de nascimento, por favor?

 

R- Ok. Bom, meu nome é Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho. Eu nasci no Rio de Janeiro. A data de nascimento: 7 de janeiro de 1964.

 

P/1- Luiz, você poderia explicar pra gente, um pouco da sua trajetória profissional até o contato com o CDI [Comitê para Democratização da Informática]?

 

R- Tem bastante. É longa a história.

 

P/1- Resumidamente.

 

R- Ok. Bom, eu sou formado em Economia, pela PUC do Rio de Janeiro, onde eu acabei encaminhando pra uma carreira mais acadêmica. A partir da minha graduação no Departamento de Economia, eu fui para o mestrado. Onde também concluí: defendi a minha tese de mestrado. Posteriormente, eu passei a dar aulas no Departamento de Economia, na própria universidade e na Universidade Federal. Eu estive um tempo atuando como pesquisador, num instituto de pesquisa do governo, o IPEA [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], que é ligado ao Ministério do Planejamento; e em determinado momento, início da década de 1990, eu recebi um convite pra trabalhar no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], um cargo público, que foi pra cuidar das privatizações no Brasil. Onde eu fiquei três anos instaurando o programa de privatização brasileiro. chefiando um departamento que cuidava das privatizações: o gabinete de privatizações. Após esse período, eu consegui também ter viajado muito durante esse próprio período. Eu acabei indo para o mercado financeiro e me tornei sócio de duas instituições financeiras locais, depois vendi as minhas participações. A última delas, o Banco Patrimônio de Investimento, que nós vendemos o banco em 1999..., 1998, perdão, para o antigo Chase Manhattan Bank. Desde então, eu passei a ser executivo do Chase Manhattan Bank, no Brasil, como diretor-geral do banco de investimento; e durante esse período, o Chase Manhattan Bank também comprou outros bancos nos Estados Unidos, globalmente. Comprou o Banco Fleming, comprou o Banco J.P Morgan, e hoje, eu continuo na mesma instituição, só que com nomes diferentes. Continuo sendo diretor-geral do banco de investimentos, só que com o nome agora J.P Morgan, globalmente conhecido aqui no Brasil.  No ________ desse período, eu também fiz um curso de especialização na Wharton School nos Estados Unidos, na área mais de management, administração. E a minha chegada ao CDI se dá através de conhecimento do Rodrigo Baggio; eu também participo e atuo com outras organizações do terceiro setor. Eu mesmo tenho uma ONG, que eu auxilio na área de educação, em que eu financio e ajudo. Eu participo de algumas outras ONGs, mas o CDI sempre foi uma espécie de um benchmark em relação, particularmente, à figura do Rodrigo e à figura do trabalho do CDI. Eu conheci o Rodrigo, coincidentemente, em paralelo de atividades do próprio Rodrigo, com uma das ONGs que eu também sou conselheiro: uma atividade paralela, que é o Roda Viva, uma ONG também bastante ativa, tem mais de 15 anos. Atuando, basicamente, no Rio de Janeiro; eu o conheci num momento em que fizemos um trabalho conjunto. Entre os membros do Conselho existem várias das pessoas, todas as pessoas eu conheço, algumas de muitos anos; e foi através dessas pessoas que eu recebi um convite para participar e aderir, formalmente, ao CDI como membro do Conselho. Então, essa foi a minha participação.

 

P/2- Em que ano foi isso?

 

R- Isso, na verdade, ocorreu no ano passado, mas como eu viajo muito, eu comecei formalmente no início desse ano, em 2004; mas, na verdade, eu já acompanhava o CDI um pouco à distância ao longo de 2003, final de 2003, e entrei ativamente no Conselho a partir de 2004.

 

P/2- E qual o papel do Conselho?

 

R- O papel do Conselho é um papel muito interessante, porque normalmente, eu até tenho experiências, não só das ONGs que eu participo, mas de outras ONGs que eu conheço, de forma que participo. O CDI tem uma forma muito peculiar de ter um Conselho. O Conselho do CDI realmente funciona: é um Conselho que participa, que discute, que define, que ajuda na formulação de estratégias. E isso é uma coisa muito rara, particularmente, no terceiro setor. Por quê? Porque tem se visto nos últimos 10 anos, não só a criação de ONGs, mas também, cada vez mais, o_______ de profissionalização dessas ONGs. Mas ter um nível de profissionalização do Conselho já é uma etapa, assim, última, vamos chamar assim. E eu diria que a minha grande definição em relação a isso, é que o Conselho do CDI que funciona em base quinzenal - não conheço empresas grandes que reúnem o seu conselho em base quinzenal – é um Conselho de altíssimo nível, de que muitas das pessoas estão em Conselhos de outras companhias. Então, é um Conselho Empresarial. Seja pela qualidade dos conselheiros que lá estão, seja pela participação e definição da estratégia desse Conselho, seja pelo grau de envolvimento que esse Conselho tem com a direção executiva, e seja pela forma como o próprio CDI absorve e usa esse Conselho. Então, quer dizer, por todos esses fenômenos, eu diria que o CDI é um grande exemplo de nível de governança corporativa, apesar de ser uma empresa do terceiro setor, que teoricamente as pessoas nem esperam esse nível tão sofisticado de organização.

 

P/2- E o papel, assim, é qual?

 

R- O papel do conselheiro?

 

P/2- Do Conselho.

 

R- Do Conselho, do conselheiro... O primeiro grande papel do Conselho e do conselheiro é definir estratégia: ajudar na formulação da estratégia. Em conjunto com o que a diretoria executiva do CDI fornece como informações, ele tem como primeiro objetivo a formulação das estratégias. O segundo papel que o Conselho do CDI também faz, ele ajuda também em alguns elementos importantes, no aconselhamento para decisões executivas, ou seja, ele aproveita as experiências dos profissionais - experiências de cada um desses seus conselheiros, que são pessoas que têm uma maturidade profissional longa - pra usar essas experiências nos seus diversos campos de ação para trazer ao CDI, muitas vezes, até aspectos de detalhamento de certos aspectos operacionais, de certas coisas que divide essa experiência com a próprio execução. Então, além da estratégia, em determinados momentos, quando necessário, o Conselho é chamado para atuar em determinados aspectos que são demandados pela diretoria executiva, né? Então, de repente, tem um aspecto do ponto de vista de como nós vamos nos organizar a nível de recursos humanos, para dar conta do universo de pessoas que nós temos hoje a nível nacional. Então, existem auxílios diretos, formas de como se trata isso, problemas que aparecem, como se resolvem. Outros, por exemplo, tem inserção internacional do CDI. Vários dos membros têm uma experiência internacional; então como pode ajudar a abrir uma conta no exterior, como podem ajudar a definir uma estratégia de interligação de culturas diferentes, que tipo de tratamento tem que ser dado em determinado projeto específico. Então eu acho que, quando demandado pela diretoria executiva, pelo corpo executivo do CDI, no qual o Rodrigo é a pessoa que lidera: fundador e líder do CDI. Ele demanda isso do Conselho e, normalmente, se destaca uma pessoa do Conselho. O Conselho, também, por ter pessoas, muitas também ligadas ao setor financeiro, ele tem muitos contatos com investidores, empresas no Brasil e no exterior. Então, eles também, muitas vezes, ajudam na captação e ajudam a definir as grandes linhas de como se faria uma aproximação com esses investidores. Mas, nós costumamos dizer que o melhor e grande captador do CDI chama-se Rodrigo Baggio. Porque ele, realmente, é um fenômeno do ponto de vista da capacidade, da simpatia, da empatia, da abertura. É, realmente, um grande líder, um dos maiores líderes que se pode olhar aí do terceiro setor, não só a nível de Brasil, certamente a nível global. Incansável e extremamente sedutor, então eu acho que ele é o grande captador. O que nós fazemos é, na verdade, só ajudar naquilo que ele precisa e dar alguns retoques aí, em função de nós conhecermos bem o outro lado. 

 

P/2- Certo.

 

R- Então, a gente, na verdade, tenta dividir com eles a nossa experiência. Essas seriam as grandes linhas, a definição da estratégia junto com a diretoria, o auxílio dessa formulação. Quando demandado, ajudar na execução de certos elementos, certos tópicos; também auxiliar quando necessário, na formulação da captação. São as grandes linhas que eu vejo. 

 

P/1- Como você entende o papel, a importância, do empreendedor social, né, porque a princípio, todos os membros do Conselho são empreendedores ou têm alguma relação com o empreendedorismo.

 

R- Correto.

 

P/1- E como se dá essa ligação com o empreendedorismo social e qual é a importância que vocês vêm nisso? 

 

R- Na verdade, olhando de uma forma objetiva, não há uma grande diferença entre o empreendedor empresarial e o empreendedor social. Porque a raiz que está por trás do empreendedor, no fundo, é uma visão, né? É uma visão de alguma coisa. A segunda é que, normalmente, o empreendedor toma risco; o empreendedor é um sujeito que vai em frente, ele arrisca, se posiciona, ele tem uma opinião. E esse elemento de ter uma visão e tomar risco, é comum dos dois lados. Então, eu acho que no fundo é uma troca entre empreendedores, é uma troca entre aquilo que é terceiro setor e aquilo que não é terceiro setor. Realmente, é uma troca muito mais entre empreendedores. Então, o diálogo tende a ser muito fácil; muitas vezes é interessante de se ver que o empreendedor social navega em águas de objetividade matemática, em que você tem que sair dali com um resultado ao final, não que ele seja diferente, é que ele se traduz num resultado final diferente, né? O seu objetivo não é o lucro, mas é o resultado; e o resultado vale na área que não é do terceiro setor, não, traduzido na forma de lucro. E, no caso do CDI, na forma do resultado, que é a consequência da aplicação. Por que estou dizendo isso? Porque terceiro setor, empreendedorismo, não significa fundo perdido; essa é uma definição clássica, desperdício, fundo perdido, filantropia, no sentido de você simplesmente doar e fazer o processo... Eu acho que o empreendedorismo - terceiro setor moderno, como a gente enxerga, ou pelo menos como eu enxergo - é um processo extremamente ativo de interação, de crescimento, em que você mede e cada vez mais, tenta medir o resultado eficaz daquelas ações. Por que você tem que medir? Porque você tem que ver se elas são eficazes; se elas não são, você tem que repeti-las ou descontinuá-las e buscar um resultado mais efetivo. Esse lado você também tem no setor empresarial. Só que a medida disso, lá, em geral, é o lucro. 

 

P/2- Ao que você atribui o relativo sucesso do CDI na obtenção de parcerias, de apoios com empresas, né, principalmente ________?

 

R- Eu acho que eu atribuo a alguns fatores importantes. Bom, primeiro, eu acho que a temática é moderna, é atual, vai fazer 10 anos, mas ela continua exatamente com uma mensagem muito forte e há 10 anos muito mais ainda. Então, eu diria que a primeira é a proposta, esse é o primeiro item. Segundo, a liderança. Eu acho que o CDI - e vários outros projetos que já existem, existiram, e continuam a existir - como tudo na vida, depende de seres humanos. Tem um líder, que fundou o CDI, que teve uma visão, que orquestrou esse processo, incansável. E eu acho que a figura do Rodrigo Baggio é fundamental, ou foi fundamental, é fundamental para o crescimento e a existência do sucesso. E o terceiro é a capacidade que essa visão, essa proposta, mais a combinação do seu líder, juntas aceitarem dividir esse trabalho com outras pessoas, incluir outras pessoas, essa habilidade de poder fazer uma inclusão de pessoas, pra poder dividir o mesmo sonho, vamos chamar assim. Isso vale pessoas ligadas diretamente ao terceiro setor ou os próprios conselheiros que estão aí. Então, esse tripé é que permite quando você chega pra uma empresa e conversa com ela, ela realmente, que tem, uma empresa que tem um quesito de responsabilidade social, tem uma atividade ________, você senta com ela, ela vê uma grande diferença entre isso e o restante, né? Então, eu acho que tem esses três elementos muito próximos. Mas, eu acho que os dois primeiros é que viabilizaram esse grande elemento, essa capacidade inicial pra começar o processo.

 

P/2- Você acha que o terceiro setor se aproveita pouco da experiência do segundo setor?

 

R- Aproveitava-se muito menos antes, acho que hoje se aproveita muito mais. Por quê? Porque eu acho que hoje, o terceiro setor aprendeu rapidamente que pra captar dinheiro, precisa ser profissional. Porque, cada vez mais, as empresas que atuam em responsabilidade social sabem que só podem ter um trabalho efetivo se elas de fato verem o resultado ao final. E as empresas do terceiro setor precisam captar não uma vez, elas precisam captar todo ano, elas precisam captar sempre, e pra isso é preciso mostrar resultado a todo momento. Então, cada dia mais, o terceiro setor é eficiente, cada vez mais, migram pessoas com boa formação, com bons propósitos, com um grau de profissionalismo, realmente, cada vez melhor; e isso só tende a melhorar.

 

P/1- Tem alguma espécie de divisão de tarefas entre os conselheiros? Alguns mais especializados em algumas áreas, eventualmente, pra solicitar ______

 

R- Tem, tem. Depende da disponibilidade de tempo, do momento de cada um, porque tem muitos conselheiros que viajam muito, que têm uma atividade muito intensa. Eu, particularmente, viajo muito por ser membro de um banco internacional, geralmente estou fora do Brasil: viajo muito pelo Brasil, mas também muito pra fora do Brasil. Então, é uma agenda apertada, muitas reuniões. Portanto, a gente se distribui de acordo com a necessidade. O importante é que tem um grau de organização grande, existe um local em que todos os conselheiros se comunicam, que eles recebem informação por e-mail. Então tem-se noção do que é que é a ata da reunião antes dela. Desculpe, a agenda da reunião; depois você tem a ata da reunião, depois você tem os temas que ocorrem durante a semana. Como é de 15 em 15 dias, então você tem uma capacidade. Assim, muitas vezes as pessoas se adequam às agendas e tem alguns que têm mais vocação pra determinadas coisas e se, quando surge um tema, ele olha: “Esse eu vou ajudar a cuidar disso, eu pego isso aqui”. Então, é de uma forma voluntária, não é arbitrária, não tem uma agenda específica de alocação de gente. É o que dá pra fazer naquele momento pra ser feito, tá? Eu nunca vi o caso em que ninguém faz.

 

P/2/1- [RISOS]

 

R- Alguém faz. 

 

P/1- Alguém pega na hora.

 

R- Alguém pega. 

 

P/2- Eu ia perguntar, mas você já respondeu em parte, quer dizer, vocês acompanham as atividades do CDI, recebem informações constantes.

 

R- Sempre.

 

P/2- Sabem do que está ocorrendo?

 

R- Sempre, cada vez mais. Inclusive, está se fazendo, criando um sistema, a pedido do próprio Conselho, e o próprio CDI também sentiu necessidade disso. Um sistema de informação, não só de temas genéricos, mas de todo o sistema de acompanhamento...

 

P/1- Do SIG [Sistema de Informações Gerenciais]?

 

R- Do SIG, exatamente, que é uma forma poderosa de você se manter informado, particularmente, com uma ONG que cresce de uma forma muito intensa e muito rápida. 

 

P/1- Você saberia dizer um pouco sobre como surgiu a ideia, a discussão, do SIG no CDI? 

 

R- Eu cheguei e ele já havia sido discutido previamente ao longo de 2003, né? Então, eu peguei mais a parte de implementação e as discussões de formato. Mas é natural, é intuitivo, ele vem de uma necessidade de, vamos usar uma palavra no bom sentido, de controle e acompanhamento. É um sistema de informação poderoso. Cada vez, e não para, né, ele tem que ser atualizado a cada...

 

P/2- É, constantemente.

 

R- Sempre, ele não para nunca, né? Então, essa é uma característica. Eu peguei mais esse período, mas já dá pra sentir claramente que é uma arma poderosa, certo?

 

P/1- O que é que vocês têm de desafio hoje em dia no CDI? As discussões que estão em pauta, vamos dizer assim. 

 

R- Olha, tem vários desafios. Não falta desafio.

 

P/1/2- [RISOS]

 

R- Quando a gente pensa que tudo está desenhado, o quadro de desafio, o Rodrigo sempre traz mais um, né? Então, ele não deixa a gente parado nem um segundo, nem um momento. Desafios aparecem todos os dias, o CDI é uma coisa móvel, como uma empresa, ela é dinâmica, ela tem processos internos, tem questionamentos, desafios que nascem dentro do próprio CDI, e desafios que aparecem fora do CDI. Então. conforme o Comitê vai expandindo a sua base de atuação, vão surgindo problemas, vão sentindo dificuldades e, dentro dele mesmo, porque precisa se organizar, ele precisa se tornar eficiente, ele precisa se comunicar bem, precisa se autoinformar muito bem, ele precisa corporativamente viver como um grupo que tem um pensamento, não homogêneo, mas um pensamento de que tem uma direção conjunta, mas ao mesmo tempo, conforme ele vai invadindo outras áreas e vai se expandindo, vão aparecendo problemas nas comunidades, vão aparecendo respostas e soluções que podem ser: “Opa, será que isso pode ser replicado para outros elementos?”. Então, esse sistema de crescimento é muito saudável, porque ele gera todo dia desafio. Não existe, assim, uma coisa específica: “Olha o CDI precisa cuidar disso”. Não, o CDI precisa cuidar de tudo aquilo que cresce, e que muitas vezes é bastante igual em várias empresas. Mas, particularmente, o grande desafio do Comitê sempre será como ele vai sobreviver, se organizar e se autocontrolar, nesse sentido, num processo de crescimento. Mantendo as pessoas informadas, conectadas, pra que esse objetivo não se perca, não se saia com diferentes mensagens. Eu acho que esse sempre é o grande desafio de quem cresce.

 

P/2- O que levou você, uma pessoa tão ocupada, a se interessar em participar do terceiro setor, envolvido em duas, três entidades, uma coisa assim...

 

R- Eu acho que isso tem a ver com devolver um pouco pra sociedade, particularmente, no Brasil, em que você tem encaminhamento pra 200 milhões de pessoas, né? Um pouco daquilo que você, como brasileiro, pôde desenvolver. E eu trabalho numa área bastante complicada, que é a área financeira. Então você lida com dinheiro, com muito dinheiro, com muito poder, com muita..., particularmente um banco internacional, um banco grande. E viajo muito, viajo muito, normalmente, muito para países desenvolvidos, Europa, América do Norte, Canadá, Estados Unidos, mais concentradamente para países do Primeiro Mundo. E você observa, ao longo da vida, algumas coisas muito importantes, né? Que existe uma consciência social das pessoas, de que as pessoas, elas mesmas têm que resolver os seus próprios problemas, e que essas pessoas precisam se ajudar pra resolver os próprios problemas, independentemente de se o Estado é forte nesses lugares, as pessoas criam as suas próprias soluções em conjunto, em comunidade, comunitariamente, né? Quando a gente vem pro Brasil, infelizmente, a gente não observa isso. Porque o Brasil hoje está numa condição até pior, porque o Brasil hoje, é um país subemergente. Não é um país emergente, porque o Brasil não cresce há 25 anos.

 

P/2- Há 25 anos?

 

R- Então. o País não é nem mais um país emergente. O Brasil cresceu nos últimos 25 anos menos que a Europa e os Estados Unidos, e são países consolidados, não têm nada de emergentes. Países emergentes crescem 5,7, 8, 10%. como a Índia, como a China, como vários outros países. Nós somos subemergentes, né? Então, nos últimos 25 anos, se você olhar, que é o período que eu fui a mercado, período em que eu me formei, período em que eu trabalhei, período em que meus filhos nasceram, que são pequenos, mas estão crescendo, estão estudando. Nesse período, foi um período muito ingrato, e se durante esse período eu consegui ser um sobrevivente desse cenário, e pude ter acesso a essas outras opções, eu prefiro, tendo sido um ________ de governo e atuado para o governo. Trabalhado para o governo e feito coisas grandes pro governo, mesmo assim, eu entendo, por ter essa visão pública, privada, local, internacional, que não adianta você se sentar e reclamar, sentar e ficar discutindo num bar. Ou como é muito comum nos brasileiros, tomando uma cerveja; ou tomando um vinho; ou fora do Brasil, lamentando sobre o Brasil; ou, simplesmente, não fazendo nada. Essa postura não é uma postura que eu queira deixar para os meus filhos, por exemplo, para as pessoas que convivem comigo. Então, eu acho que falar também não é a solução, simplesmente pregar e, olha, dar bons exemplos, falar de bons exemplos, eu acho que você tem que dar e agir com bons exemplos. Então, eu resolvi atuar em função disso, resolvi atuar como membro dessa elite que foi privilegiada nesse país, de dividir uma parte do meu tempo com esse tipo de atividade, em diversas áreas específicas dentro do meu próprio tempo, mas sempre arrumando um tempo aqui e ali, quer dizer, daqui a pouco, vocês vão ver, vou ter que sair pra um outro lugar. Mas. de qualquer maneira, eu estar aqui é uma forma de eu também estar dividindo esse tempo pra outras pessoas e talvez mostrando que é possível. Quer dizer, pegar uma hora, sei lá onde eu estou, vir aqui, falar com o maior prazer e ir para outra coisa, e assim sucessivamente. Então, eu acho que a razão, respondendo a você de novo, quer dizer, a razão que eu vejo nisso é muito simples. Eu acho que não tem nenhuma função, não tem nenhum projeto missionário; apesar de ter uma formação jesuíta, eu estudei em colégio jesuíta a vida inteira, alguma coisa você acaba levando, mas eu não tenho nenhuma proposta missionária, não tenho nenhuma proposta política, no sentido partidário. Eu tenho um compromisso comigo mesmo, entendeu? De dividir essa informação, esse conteúdo que eu tenho, essa experiência. Dois, a responsabilidade de viver aqui, não é? Quer dizer, a responsabilidade como cidadão, como pai, de querer criar um lugar, um espaço melhor. E três, porra, disponibilidade de tempo a gente cria, isso é uma coisa que eu aprendi. Quanto mais você é ocupado, mais tempo você tem. 

 

P/2- [RISOS]

 

P/1- Luiz, teria algo que nós não perguntamos que você quisesse tocar?

 

R- Falar. Não, Danilo. Eu acho que a coisa é o seguinte, eu aprecio muito esse tipo de trabalho. Eu acho que pra mim, a experiência do CDI tem sido muito gratificante. E aí, eu volto até pra colocar um ponto seguinte, vou dar um lado egoísta do processo. Eu estou no CDI não porque eu estou doando alguma coisa, também estou no CDI porque estou aprendendo, ganhando muita coisa. A mais recente atividade no Comitê, agora..., existe um negócio chamado Museu Nacional de Belas Artes, está cheio de tapumes ali do lado, porque estão fazendo uma obra que está caindo pedaço na cabeça das pessoas. Esse museu foi fundado por D. João VI, o prédio tem 100 anos. É o Museu Nacional de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, quer dizer, está dentro de uma tradição histórica do império da Escola Nacional de Belas Artes. Várias missões francesas, austríacas passaram por aqui; é o maior acervo da América Latina, do séc. XVIII pra cá. A minha última grande coisa, com meu excesso de tempo, foi exatamente entrar ali e tentar refazer a associação, e montamos uma nova associação pra voltar a atrair dinheiro, recursos pra arrecadar dinheiro pra reestruturar o museu. Estou dizendo isso, porque eu também estou fazendo isso. Como estou fazendo no CDI também outras coisas. E eu estou aprendendo nesse processo. Então, é uma troca; quer dizer, o Conselho não é um ente de pessoas doando, apenas, filantropicamente, de graça trabalhando. Eu tenho certeza de que cada conselheiro tem uma visão muito parecida com a minha. Nós estamos, também, aprendendo muito. Então, o que eu queria colocar, é novamente, também, desmistificar e desfazer essa ideia que são bons cidadãos, de boa alma, que vão pro céu algum dia, caso acreditem que existe o céu, que são sujeitos, assim, honoráveis, né? Que merecem, assim, uma foto, uma medalha, uma coisa... Não tem nada a ver com isso. Eu acho que são pessoas que tomaram uma decisão de atuar sobre a sua comunidade, sobre o seu país e que estão aprendendo “pra burro”. Eu estou aprendendo muito, eu posso dizer pra vocês, inclusive, pra minha vida no segundo setor.

 

P/2- Certo.

 

R- Eu acho que o aprendizado que eu tenho me enriquece, me dá oportunidades muito interessantes. Então, eu acho importante estabelecer que estar aqui é um sentimento de troca, e não um sentimento unilateral de bons samaritanos. Eu acho que é isso, eu gostaria de deixar isso bastante claro aí. 

 

P/2- E a sua atuação é como pessoa, né? Não tem nada...

 

R- A minha atuação é como pessoa.

 

P/2- Não tem nada a ver com o banco.

 

R- Não, eu uso ao contrário. Eu uso o banco pra alavancar outras coisas pro CDI, entendeu? E, certamente, o CDI vai poder ajudar o banco em outras coisas; e outras empresas, não só o banco. Porque nós temos um relacionamento com outras coisas, e eu faço isso também, nas minhas outras oportunidades que eu tenho de relacionamento, entendeu? Usar isso de uma forma, de um lado e do outro, né? Porque eu acho que o CDI é uma grande lição pra muitas empresas, é um exemplo pra muita empresa. Está bom?

 

P/2- Está ótimo.

 

P/1- Pra finalizar, o que é que você achou da iniciativa do CDI de estar coletando a memória da instituição?

 

R- Eu acho fundamental. Eu acho que esse é um país sem memória, né? Esse é um país sem memória; é um país que as coisas se apagam; é um país que não é apegado à tradição. Isso é um problema muito complicado, e mereceria..., vocês, melhor do que eu, têm noção do que que é isso, já pensaram do ponto de vista antropológico o que isso significa, sociológico. É um país que tem uma dificuldade muito grande de lidar com a memória; é um país que tem uma dificuldade muito grande de falar com a palavra tradição; é um país que não reconhece a tradição, não enxerga a sua própria tradição, a sua própria história, né? Eu acho que esse tipo de iniciativa, “putz”, isso é fundamental, é fundamental. Isso cria o conceito de nação, né? Acho que o conceito de moral, de ética, de padrão, de respeito. Porque as pessoas têm história, então eu acho fundamental. Eu fui muito favorável quando o Rodrigo falou que queria fazer o livro, o Rodrigo falou da parte, vamos chamar assim, digital, também, do banco de dados digital eletrônico, né? Eu que sou um analfabeto eletrônico. Então, eu acho isso fabuloso, fantástico. Eu dou nota 10 pra essa iniciativa. 

 

P/1- Obrigado, Luiz, nós agradecemos em nome do CDI e do Museu da Pessoa

 

R- Obrigado. Se tiver alguma coisa aí, se você tiver alguma coisa por telefone, vocês me ligam, pra variar, semana que vem, eu vou estar dois dias fora do Brasil, mas a gente consegue se falar por telefone alguma coisa, se precisar aí, está bom? Obrigado.


 

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