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"Estar aberto a aprender é que nos permite crescer"

História de: Ellen Regina Capistrano Martins
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2021

Sinopse

História e os costumes da família Capistrano Martins. A criação cristã, cultural e artística que recebeu dos pais. A casa onde passou a infância e as brincadeiras na rua. Os aprendizados das aulas de piano e da matemática. A grande paixão de sua vida: o balé. A escolha do curso de Engenharia Civil e o caminho que a levou para o transporte. O mestrado em Engenharia de Transporte Urbano na Universidade de Brasília. O primeiro trabalho no Ministério dos Transporte. A terceira engenheira do Brasil a fiscalizar ferrovias na função de reguladora temporária da Antt. A importância do trabalho de regulação dos transportes e das normas. O trabalho de fiscalização em si. O convite desafiador de trabalhar na Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários. As passagens pelos comitês da Antf. A condecoração da Medalha JK. Visão coletiva e trabalho em equipe. Significado do transporte em sua vida e o amor por viagens. Seu maior sonho.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Ellen, pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento, ok?

 

 R – Beleza. Meu nome é Ellen Regina Capistrano Martins, nasci em 28 de abril de 1970, em Cuiabá, Mato Grosso.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – O meu pai é Moisés Mendes Martins Júnior, que casou com Maria Capistrano Martins e eu tenho mais dois irmãos, somos em três. Tem o Eber Luís e o Eli Esteves Capistrano Martins. Ou seja, família Capistrano Martins.

 

P/1 – E o que seus pais faziam, com o que eles trabalhavam?

 

R – Olha, meus pais, meu pai particularmente era dentista, já se aposentou. Com o tempo, como poeta, começou a ser historiador também, hoje ele é da Academia Mato Grossense de Letras, ele é acadêmico. E também é uma pessoa que trabalhou muito com a cultura de Mato Grosso. Então, é uma pessoa que trabalhou também nesse campo da cultura. Minha mãe é uma pessoa que trabalhou muito, cuidando dos filhos, que é um trabalho que realmente é dobrado, né, porque é de manhã, de tarde e de noite. Então, assim, com muito orgulho, minha mãe foi uma pessoa que cuidou da gente, se dedicou, para que os filhos pudessem ser bem-educados e poderem, cada um, seguir e alçar o seu rumo.

 

P/1 – E como você os descreveria?

 

R – Olha, são pessoas, assim, que são a base da minha vida. Tu pegou num ponto incrível, são pessoas fantásticas. Meu pai, principalmente, um homem íntegro, trabalhador, cristão. Minha mãe também, uma pessoa muito cristã. Então, todo o meu princípio de entender a vida, de conhecer e tentar crescer e ser alguém e entender o próximo, respeitar o próximo. Então, isso eu devo tudo a eles, que me deram essa base cristã, que é acreditar em Deus e saber que a gente tem um Deus maior, que cuida da gente, em cada pedacinho. E isso você vai perceber porque essa é a base que ele nos deu como filhos. Meu pai, minha mãe, Moisés e Maria, eles me ensinaram muito nesse sentido: de olhar o próximo, entender o próximo, para que a gente possa se comunicar, se unir e crescer juntos, né? Porque Deus não fez as pessoas para viverem sozinhas, ele fez pessoas para viverem em coletivo. Então, por isso que eu gosto também de trabalhar muito em equipe e estar onde eu estou hoje.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram?

 

R – Ah, sim, é uma história incrível, porque foi na década de 1960.  E, naquela época, não tinha tanta diversidade, como hoje. Então, a minha mãe era católica e meu pai, um protestante. E naquela época, não era comum você ver casais de religiões diferentes, se casando. Então, eles se casaram, inclusive não foi numa igreja, foi numa casa, mas com o pastor. Com o tempo, minha mãe se converteu e hoje toda família é protestante. Então, assim, foi uma história incrível porque, pra época deles, tinha tudo para não dar certo e, graças a Deus, tudo deu certo e temos uma família linda, maravilhosa. E eles se conheceram muito jovens, meu pai recém-formado, tinha vinte e um anos quando voltou de Goiânia. Até a história dele, nossa, é incrível, gente (choro). Ele é filho de um caminhoneiro, eu acho que daí que veio essa coisa com transporte também e a minha avó Noêmia - meu avô Moisés, caminhoneiro, depois motorista - foi parteira, enfermeira e professora. Então, ele veio de uma família muito humilde (choro) e pôde avançar, alçar patamares, assim, inimaginado pra família dele, na época. E a minha mãe também veio de uma família muito sólida, simples também e de uma mistura grande, porque é uma família branca, uma mulher branca. Minha vó Erzila, que se casou com um negro, que era o meu vô, Venâncio. Então, assim, são pessoas incríveis pra mim, que desde o início da vida, mostraram que sim, nós podemos ser diferentes e nós podemos ser melhores. E nós podemos conquistar o mundo, basta a gente acreditar em Deus.

 

P/1 – Justamente isso que eu ia te perguntar: se você conhece um pouco da história dos seus avós, se tem alguma lembrança com eles, se você os conheceu.

 

 R – Sim, sim, eu conheci tanto os meus avós paternos, como os meus avós maternos e, assim, todos de família muito unida e íntegra. E a recordação que eu tenho, do meu avô Moisés, é justamente isso: essa dedicação, essa calma, é uma pessoa que só sabia sorrir e que teve dois casamentos. Minha avó foi do segundo casamento, depois que ele perdeu a primeira mulher. Formou uma família incrível. Então, eu tenho tanto primos da família com a minha avó Noêmia, como também primos do lado com a primeira esposa dele, a Dona Jemima. Então, assim, é uma família muito grande e bonita, espalhada por todo esse Brasil. (risos) E, ao mesmo tempo, além do meu avô, a minha avó era uma matriarca realmente à frente do seu tempo, porque era uma mulher que não só estudou, foi professora, mas ela foi enfermeira, ela foi parteira. Então, assim, era uma mulher que não teve muito tempo pra estar com os filhos, mas ajudou muitas famílias. E, do lado da minha mãe, meu avô chegou a trabalhar muito, não sei se vocês sabem, naquela época tinha aquelas pessoas que cuidavam dos postes de luzes nas estradas, que iam ver e a família do meu pai, por sinal, João Dias de Araújo, foi a que trouxe a energia, levou a energia elétrica pra Mato Grosso e levou a luz de Deus, que foi a Igreja Presbiteriana do Mato Grosso. E o meu avô do lado, por parte de mãe, pôde acender essas luzes nas estradas. E, com o tempo, minha mãe me contava as histórias e eu conheci também, ele começou a se dedicar à fazenda. Então, minha mãe vem do interior lá de Mato Grosso, que é Diamantino, que é uma cidade muito fértil também, no nosso agronegócio. E, assim, minha vó Erzila, com vários filhos também, foi uma grande mãe, que cuidou dos seus filhos, junto com a tia Maria, irmã do meu avô. É uma família bem grande, simples, de pessoas íntegras e pessoas nos que ajudaram a sermos o que somos hoje, porque eu acho que a gente é resultado do ambiente, é resultado das amizades, da família e daqueles que a gente permite entrar na nossa vida. Tudo é um aprendizado e a gente vira um reflexo dessas pessoas importantes na nossa vida.

 

P/1 – E os seus irmãos, como é a relação de vocês?

 

R – Ai, é muito boa, porque está aí uma coisa interessante, né, porque muitas vezes, as mulheres, quando entram, ainda mais eu, que entrei no meio muito masculino, né, um setor muito masculino, muitas vezes as mulheres têm que enfrentar essa questão, de que se sente, muitas vezes, intimidada. Não, eu não senti, porque justamente essa criação dos meus pais, o tratamento de nós três era idêntico, era o mesmo. O que era exigido de um menino, era exigido de uma menina. Então, pra mim, passou a ser algo, assim, supernatural, tratar e resolver as coisas da mesma forma e junto com os meninos. Então, assim, são parceiros: o Eli, o Eber. O Eber é o irmão mais velho, super querido, que tem hoje uma bela família, se casou com uma amiga minha de infância, a Denise e tem dois lindos filhos: a Amanda e o Gustavo, que são a bênção da vida dele. E esse meu irmão, assim, sempre foi o meu norte no olhar, que a gente podia dividir juntos e eu sempre o vi com muita admiração e ainda continuo vendo com muita admiração. Eu acho que o nosso irmão mais velho acaba sendo esse norte, né, de mostrar o que dá pra gente andar, o que dá pra gente fazer e não correr nenhum risco. E já o meu irmão caçula, muito querido também, amo muito, o Eli. Ele se casou também, ele tem a Adna, que é, pra mim, a minha irmã caçula também, a Denise é a minha irmã mais velha e a Adna, a minha irmã caçula. E é um irmão muito amoroso também, muito querido e que já dá aquele tom do irmão caçula, né, que a gente sempre se preocupa: “Opa, deixa eu cuidar um pouquinho do Eli”, aí eu faço o papel do irmão mais velho, né? Então, teve os seus arranca rabos? Teve! Porque eu acho que família, criança que não brinca entre elas, ainda mais com brinquedo, não é criança não, é muita maturidade. (risos) Mas, assim, nós quando éramos crianças brincamos muito. Então, dividimos muitos brinquedos. Eu, apesar da minha mãe ter todo esse cuidado por eu ser menina, de não querer estar com a perna machucada, mas os meus irmãos emprestavam a bicicleta deles, que eu não tinha e eles tinham. Então, assim, na forma de tratamento era igual, mas no físico tinha uma certa preocupação, né? (risos) Mas, mesmo assim, eu andava de bicicleta e eles dividiam comigo o skate deles, andei muito de rolimã. Então, assim, esse convívio, não só com os meus irmãos, mas primos também. Eu tinha primos que moravam na mesma rua e eu lembro muito, com esses primos, na casa do ‘seu’ Daniel, a gente brincava, muitas vezes, no quintal, de montar estrada, de montar ponte, de mexer com a energia elétrica até, mas lógico, o pai deles que arrumava tudo e a gente ia na onda. Então, assim, era muito bom, porque você tinha algo lúdico, ao mesmo tempo você podia estar unindo cada vez e trocando informações com os seus irmãos, com os seus primos. E, como eu tinha mais homens na minha vida do que mulheres, então, pra mim, isso foi fantástico. Hoje falam muito do empoderamento e eu acho que o empoderamento é pra todos: homens e mulheres. A gente ter a autoestima, a gente ter o autoconhecimento, para que a gente possa ser quem a gente é e colocar de uma forma, com certo amadurecimento mesmo, o nosso pensamento e sem receios, que muitas vezes a gente tem na nossa infância, na nossa adolescência de: “O que é que o coleguinha vai pensar? Ai, o que o chefe vai pensar”? Então, pra mim, essa diversidade de você ter primos, irmãos, primas também, que eu adotei como irmãs. Eu tenho a minha prima Dora, que eu a considero como uma irmã. E eu tenho amigas que eu considero como uma irmã. Mas, assim, de você conviver com essas diferenças, te faz ter uma visão mais aberta e mais diferenciada e saber valorizar as qualidades que cada um possui. Então, eu agradeço muito a Deus pela família que ele me deu, agradeço muito a Deus pelos irmãos que eu tenho e de muitas vezes até na competitividade mesmo, aquela coisa de: “Ah, eu sou melhor isso que você”, ajudava um crescer e fazer e puxar o outro, pra crescer junto. Lógico, com o seu limite e, ao mesmo tempo, de poder tratar tudo isso com primos, irmãos, eu acho que foi uma base muito importante, junto com a educação cristã, que eu tive dos meus pais e esse tratamento que todos têm o seu momento de fala, todos têm o seu momento de ser ouvido e cada um respeitar o que é essa fala, o que é esse sentimento do outro. Então, se todos nós começarmos a pensar dessa forma... isso tudo foi ensinando na prática, mas eu fui aprendendo no dia a dia. E hoje eu tenho essa consciência, de que essa base familiar, que essa base das diferenças e tratando da mesma forma o menino e a menina, o empoderamento é de todos, são das mulheres e são dos homens e trabalho em equipe é o que há. E uma equipe diversa, melhor ainda.

 

P/1 – E, Ellen, quais são os principais costumes da sua família? Desde comida, cheiro ou até eventos... como é o nome disso? Ah, festas, enfim.

 

R – Olha, vamos lá, começando por partes: comida, que é algo que gosto muito. (risos) Lá em Mato Grosso, na minha terra, a gente gosta muito, em Cuiabá, especialmente, a gente gosta muito de comer peixe. E a gente gosta muito de um pacu, um pintado, uma boa piraputanga, é uma delícia. Então, assim, minha mãe, quantas vezes ela já fez mojica de pintado, fez pacu assado, fez ventrecha de pacu. Isso, assim, eu sinto aqui o sabor, quando eu falo, junto com a farofa de banana, é incrível. O arroz soltinho, aquela salada simples. Então, assim: o cuiabano, por morar do lado de um grande rio, que é o Rio Cuiabá, tem esse privilégio, de poder comer vários dias da semana, um peixe. Então, pra nós, é algo assim, um costume muito grande, apesar de a gente ter recebido muito paranaense, gaúcho e aprendido a fazer o churrasco, um bom churrasco. (risos) Mas, assim, a cultura, a comida cuiabana, um doce de furrundu muito bem-feito, é feito do caule do mamoeiro. Então, assim, é algo incrível, lembra muito a minha infância. E não só nessa parte da comida, que tem várias diversidades, mas a nossa família também tem esse costume de reunir. Hoje, como tem os meus irmãos com a família constituída, então, aos domingos principalmente, a gente se reúne e se farta com toda essa comida, junto com tios também, que sempre estão lá em casa. É, assim, uma grande satisfação, pensando que muitas vezes as outras pessoas não têm esse privilégio, nem de ter um arroz com feijão simples. Então, assim, eu agradeço muito a Deus, por ter tido essa oportunidade de conhecer tanto a culinária, mas exaltando aqui, mais, a nossa culinária cuiabana, mas eu gosto muito de todas as outras gastronomias. E, além disso, a gente sempre fazia um sarau. Como eu falei: eu venho de uma família que trabalhou muito e que subiu degraus, pra estar onde chegou hoje, onde meu pai chegou. Mas, paralelamente, é uma família muito artística. Então, o meu pai toca gaita, eu sou formada em piano, toco piano, eu tenho um irmão que começou aprendendo violão, minha mãe toca violão muito bem. Ah, inclusive eu esqueci de dizer, não só meu pai é escritor, minha mãe é escritora também, ela fez um livro, enfim. Então, assim, a gente, quando tem a oportunidade, recentemente estava lá em Cuiabá, tudo é desculpa de a gente fazer um sarau. Tudo é desculpa da gente trocar poesias e, principalmente, tocar música. E, quando junta, ainda mais com os nossos sobrinhos, o Gustavo, a Amanda, a Amanda é cantora, é um soprano muito lindo. E o meu sobrinho Gustavo está aprendendo agora o violão. Então, eu junto com ele no piano e a gente toca também louvores ao nosso Deus, a gente gosta muito de cânticos, corinhos. E só uma particularidade, que o meu pai, quando se envolveu muito nessa questão da cultura, então, nessa parte da música, ele resgatou muito a história de Cuiabá, porque aí, junto com o parceiro dele lá, o Pescuma, eles fizeram Sentimento Cuiabano, que resgatou muito do rasqueado cuiabano, que é um ritmo nosso, de Cuiabá. E, com isso, pôde contar mais histórias de Cuiabá, como que é a Maria Taquara, o que é esse furrundu, o que é o pixé, que é uma paçoca que a gente come. Então, assim, vivi realmente cercada de cultura e isso, hoje eu vejo o quanto é importante a gente ter esse lado cultural: seja música, seja poesia, seja o dançar, que eu fiz também o balé. Então, é assim: é algo que não só é uma terapia e nos preenche como pessoas, além de você estar cantando e louvando à Deus, que pra mim, tocando e louvando à Deus, é uma dádiva, né, poder louvar o nosso Deus. Mas a arte, a música, tudo que envolve a arte, nos traz, nos leva pro divino. E, ao mesmo tempo, nos ensina a sermos cada dia pessoas que sabem ser mais determinadas e buscam o seu melhor. E principalmente quando a gente está envolvido realmente no trabalho com Cristo. Então, a gente sempre procura fazer o melhor, tem até uma passagem que me veio agora. (choro) Uma grande amiga, que a gente perdeu pro Covid. Desculpa. (choro) A Rodna Pucaí. Uma vez, ela me convidou, porque eu desenho também, eu pinto também, eu devia ter o quê? Eu era adolescente, devia ter catorze anos e ela é uma grande irmã, amiga da igreja e me convidou: “Ellen, vai ter um teatro infantil que nós vamos fazer e a nossa amiga Nezi vai ter que ficar atrás de alguma coisa, porque ela vai estar com fantoches. Eu tenho umas cartolinas aqui, eu tenho algumas purpurinas, eu tenho algumas canetinhas, o que você puder fazer, a gente monta aí num isopor, só pra ser um anteparo, pra que ela possa ficar atrás”. Ali eu vi como que Deus faz com que a gente pegue peças, que não tinham sido nem pensado pra que e quando a gente dá o melhor da gente, o que aconteceu? Eu transformei cartolinas, juntei seis cartolinas com isopor atrás, montei uma cesta, desenhei essa cesta toda com cera, giz de cera. Fiz essa cesta, fiz como se fosse uma continuidade do tapete da igreja, que era vermelho. Então, usei as canetinhas. Em cima coloquei um monte de brinquedo: era cavalinho caindo, ursinho caindo e usei purpurina, pintei de várias cores e recortei toda a parte só de cima, pra que a Nezi pudesse ter alguns lugares pra ela colocar a mãozinha dela, entre um cavalinho e uma bonequinha, entre um bichinho e outro. Quando eu vi o resultado de um trabalho de dois dias, eu falei assim: “Deus existe”. A Rodna veio com tudo que ela tinha, a gente não sabia o que fazer e a gente queria fazer algo e a peça foi linda, pra honrar o nome de Deus. Então, por isso que eu falo: tudo que a gente faz, mesmo recebendo a coisa sem estar completa... como se fosse um quebra cabeça, né? Você recebendo um monte de canetinha, tinta, cera, cartolina e não saber o que fazer. E, de repente, você fala: “Mas eu quero ajudar e não quero que seja só uma cartolina num isopor. Eu quero que seja algo mais”, isso vem de Deus. Deus permite a gente fazer o melhor pra gente. Então, eu acho assim: que tudo que a gente ama... e é por isso que eu tô nesse setor que eu amo, que é o transporte e é um privilégio. Ser uma pessoa que se especializou, que fez um mestrado em transporte, estar trabalhando naquilo que estudou, em especial na minha paixão, que é a ferrovia, isso é muito divino, gente. Isso é, assim, de uma dimensão, que a gente não tem ideia. E, ao mesmo tempo, a gente para e olha e fala: “Eu olho essa situação, quando a Rodna me fez essa proposta e nós fizemos, com o maior carinho e ficou algo lindo. Isso mostra que Deus colocou a gente aqui justamente pra isso: tudo aquilo que a gente tem dom, que a gente tem talento e que a gente ama fazer, faça o seu melhor, porque você não vai estar fazendo algo para ser aplaudido, mas vai ser algo que vai ajudar outras pessoas, de alguma forma e até mesmo nem que seja pra ela entender que ela pode superar seus limites, que colocaram nela, que ela pode superar e ser melhor do que ela já é. Então, assim, pra mim é divino isso: você saber que você não tem limites, você saber que você tem um Deus, que Ele te dá todo o caminho. Lógico, Ele permite que tudo que você e Ele entendem que é melhor pra você, você poder conquistar. Então, pra mim, é muito importante essa experiência que eu tive, tenho ainda, na igreja. E essa experiência com grandes pessoas, seja na minha infância, adolescente e hoje no trabalho. O aprender, o estar aberto a aprender é que nos permite crescer cada dia mais e dar o nosso melhor. E dar o nosso melhor, não pensando em nós, mas pensando o melhor pra aquele setor, que é o meu caso hoje. O melhor para aquele teatro na igreja, o melhor pra ajudar o meu irmão, o meu próximo que está precisando de uma ajuda. Então, a gente tem que aprender isso: que a gente pode muito mais.

 

P/1 – Você lembra da casa e da rua, onde você passou a sua infância?

 

R – Sim, claro, (risos) inclusive, vamos lá. Quando eu nasci, era na Treze de Junho, eu nasci bebê, cheguei na Treze de Junho. Logo na sequência, a gente se mudou pra Rua Coronel Neto, que fica atrás do Colégio Coração de Jesus, que é um colégio de freiras, inclusive eu estudei lá. E, ao lado dessa casa, meu pai construiu a casa onde eles moram e foi, isso, em 1974. E até hoje nós temos essa casa, meus pais moram lá e é nessa rua que eu falei, que era com os meus irmãos, com os meus primos. A rua, no início, não tinha asfalto. Então, naquela época, quando faltava energia pra nós, ainda mais quando tinha a lua cheia, era sinônimo de pega-pega, esconde-esconde, de tudo quanto era brincadeira. Então, assim, a gente brincava muito na rua, eu sinto hoje pelas crianças, a infância que elas não puderam ter como nós tivemos, de fazer um coleguinha na rua, de conhecer pessoas na rua e não ter que ficar isolado, em função do problema de segurança que a gente possui hoje. E nessa rua, Coronel Neto, onde meus pais ainda moram, então, eu tenho muitas lembranças, não só de brincadeira, mas também de ter caído de bicicleta, quebrado um dente, isso foi sofrido. (risos) Lembro até hoje! Porque justamente, eu vivia aprontando, apesar de ser a menina da casa, eu era um pouquinho danada. Então, assim, eu vivia com o dentinho de leite roxinho, porque eu sempre estava caindo. Nasceu o dente permanente e o que a Ellen fez? Andou de bicicleta, caiu no buraco e quebrou o dente novo. (risos) Coisas de criança, né? Na época, foi muito triste, porque eu queria muito aquele dente novo, mas aí a gente o consertou com uma resina. E hoje eu tenho o irmão caçula, que é dentista, como meu pai e fez o meu sorriso ficar ainda mais bonito, né? E eu não comentei, mas o meu irmão mais velho é economista e eu que sou a engenheira da casa, apesar de que eu tinha passado também pra Odonto, mas eu resolvi ser diferente, fazer algo diferente (risos) e naquilo que eu já conhecia. Então, assim, essa rua, Coronel Neto, pra mim é muito importante, porque é ali, ela é de uma ladeira, que atravessa uma avenida. Então, assim, ali eu enfrentei muitos desafios, que hoje em dia eu penso: “Só criança pra fazer isso, né”? Que é pegar um rolimã, estar no alto da Rua Coronel Neto, o amiguinho lá na esquina, o primo lá na esquina e ele sabendo a hora que eu podia descer, pra não bater no carro. Que interessante, né, gente? (risos) Assim, são coisas de infância, que a gente não esquece. Ali você vê, na sua infância, o quanto você tem que confiar no seu colega pra isso. Hoje não faria mais, gente, pode ficar tranquila, que eu não sou mais criança, (risos) nesse sentido, mas eu mantenho um pouquinho dela aqui comigo. Então, assim, a minha infância foi muito divertida, com as amigas também, as primas também em casa, a gente conversava muito. Então, essa Rua Coronel Neto tem muita história, principalmente com os meus irmãos, os brinquedos, as bicicletas, o que a gente aprontava, jogava tênis no meio da rua ou até mesmo numa área dentro lá da minha casa. Então, assim, tudo era motivo pra gente brincar. Então, eu tenho muitas recordações ali da Coronel Neto, de amigos. Da Márcia Leão, do Edmundo, nossa, do Dito, da Telma. É muita gente, é até perigoso, porque aí você esquece de alguém, Danielzinho. É tanta gente, nossa. O Didi, o Carlos Augusto. Nossa, é tanta gente! Então, assim, aí eu pude viver um pouco do lúdico. E, ao mesmo tempo, começar a entender que você tem que confiar nos seus coleguinhas. Aí vem a história do rolimã. (risos) 

 

P/1 – E da escola, qual é a sua primeira lembrança?

 

R – Olha, pra escola, minha primeira escola foi o Pequeno Príncipe e lá eu achei fantástico, porque não era uma escola só de menina ou só de menino, era uma escola mista. Então, tinha meninas e meninos, que é o que eu falei, que eu sempre gostei de ver a mistura, de estar ali homens e mulheres juntos, no caso, menino e menina. E essa escola Pequeno Príncipe, foi a que me ensinou, deu a alfabetização, a minha primeira professora foi a Maria Luísa Roder, minha amiga até hoje. E ali eu comecei aprender um pouquinho do francês, comecei a ter um gostinho pelo francês. Mas, logo em seguida, eu precisei sair dali, parti para uma outra escola, que ainda era mista. Fiz vários amiguinhos. Eu lembro da Valéria. Nossa, é tanta gente! Giovana. E aí eu parti pro Coração de Jesus, que era justamente um quarteirão à frente da minha casa. Tudo bem que era os fundos da escola. Mas ficou mais prático pra todos, que eu estudasse ali no Coração de Jesus. Então, boa parte do tempo, assim, da minha infância, foi no Colégio Coração de Jesus. Foi quando eu conheci a Márcia Leão, a Ana Marta, a minha prima Dora estudava lá comigo. Então, assim, tenho vários colegas daquela época, que são meus amigos até hoje e agradeço a Deus por cada uma dessas pessoas. E é interessante a gente ver como a escola é importante, pra gente entender que não existe só o nosso mundo familiar. Ali a gente começa a olhar e ver que tem cultura diferente, que tem educações diferentes, você começa a reparar que: “Opa, em casa é de um jeito, mas a casa do fulaninho é outra”. E você começa a entender que você vive num mundo que não é só a sua família. Então, você começa a aprender, a conviver e a lidar com as diferenças também, que é um tema que eu falei desde o início. E, na realidade, além da importância da escola, eu quero reforçar também: eu comecei com quatro anos, ou seja, quando eu comecei na escola a aprender o beabá, eu já estava com quatro anos, também aprendendo a tocar piano. E eu queria deixar aqui essa importância que é, pra criança, não só dela aprender o falar, aprender a ciência, aprender a história, mas aprender as artes. Sim, seja ela como música, seja ela como dança, seja ela como escrita. E aqui eu quero destacar o piano, porque foi algo que me ensinou muito a ser disciplinada, determinada e olhar pra vida de uma forma colorida. E eu dedico isso a uma grande mulher pianista, que hoje não está aqui conosco, mas ela sabe que eu a considerava não só uma grande professora, uma grande amiga, mas também minha segunda mãe, que é a professora Márcia Vialogo Cunha. Porque esse colorir foi importante, muitas vezes a gente... não sei se vocês sabem da base da engenharia matemática, a base da música é a matemática. E quando você aprende a matemática, muitos olham pra ela de forma fria: “Ah, dois mais dois, são quatro”. Tudo bem, o estatístico já diz diferente: “Dois mais dois podem ser quatro”, né? Mas a nossa matemática de “dois mais dois, são quatro” é que faz a gente entender se aquela nota é uma colcheia, uma semicolcheia, se aquela nota vai segurar o tempo de um, dois, três. Ou dois, quatro. Se aquela nota você vai colorir, vai deixá-la pianinho ou vai deixá-la com um tom mais alto. E esse colorido, eu aprendi com a professora Márcia. E isso também me fez trazer esse colorido pra vida, porque muitas vezes a gente está num adágio, uma lentidão. E quando a gente olha pra peça e vê que num segundo momento ela pode vir, um pianíssimo, algo rápido, algo brilhante, algo vívido, é muito salutar. Então, assim, nisso eu vi que a matemática também pode gerar músicas que nos encantam, mexer com o nosso coração. Quem, hoje, quando para pra ouvir uma música, não sente algo? É praticamente impossível você [não] ter algum sentimento que ela te toca. E é importante todo mundo saber isso: que a música, que é algo que toca tanto, seja pela voz, seja por um instrumento como um piano ou como um violino, como violoncelo, um violão, te toca porque ela veio de uma matemática. Então, muitos perguntavam assim pra mim: “Ô, Ellen, mas você tinha tudo pro lado artístico, né? Balé, piano, desenha, gosta de cantar” - tudo bem que não sou cantora, cantora é minha sobrinha, eu deixo pra ela, mas: “Como assim, você procurou matemática, gostou de matemática?” e isso eu via que eu gostava de Matemática desde cedo. Tanto é que, quando comecei a fazer escola técnica - e, pra entrar numa escola técnica, você tinha que estudar, tinha que passar no processo seletivo, enfim - federal de Mato Grosso, eu passei no mais difícil, que era o Secretariado, todos queriam fazer Secretariado. Aí, meu pai me questionou: “Mas, Ellen, você gosta de desenho, por que você vai fazer Secretariado”? Eu falei: “Verdade, pai”. Então, essa conversa me fez ir pro lado mais Exatas ainda, então eu fui fazer Edificações, aprender o que é a construção civil, pra depois fazer Engenharia, que é a minha base. E aí, Engenharia, pra mim, é muito importante, porque ela dá base pra tudo. O engenheiro, quem quer ser engenheiro - isso mesmo que eu estava comentando outro dia com o meu sobrinho, que está nessa fase: “O que vou fazer”, né? O vestibular, aquela coisa toda - deve ser alguém que gosta de receber algo como um quebra cabeça, que eu falei lá atrás, né, que foi o caso lá que eu recebi da Rodna: várias canetinhas, várias... e resolver aquilo. Então, essa é a base da Engenharia: você entrega algo que esteja bagunçado ou entrega um problema e o engenheiro vai vir com a solução. Então, é algo que me fascina. Então, nos ajuda a raciocinar, nos ajuda a ter a lógica, nos ajuda a sempre enfrentar e eu gosto muito desse desafio, que é: o que chegou de difícil, desvendar e resolver. Então, eu acho que eu falei um pouquinho, né, Luíza? (risos). E já estou partindo lá pra faculdade, mas pode me perguntar outra coisa. (risos)

 

(38:10) P/1 – Eu vou aproveitar e perguntar se, nessa época, ainda pequena, na infância, você pensava o que você queria fazer quando crescesse, conversas com os seus pais, enfim. Isso era uma questão? Pequenininha ainda.

 

R – Ah, pequenininha? Olha, eu queria ser tudo. É difícil você querer ser tudo, viu? (risos). Eu acho que é difícil, assim, eu fico pensando aquelas crianças que, quando nascem, falam: “Eu tenho talento para isso e quero ser isso”, porque ela tem um foco e sabe o que ela pode fazer e corre atrás daquilo que ela acredita, daquilo que ela já entendeu que é o lado dela. Agora fica difícil um pouquinho pra aquela criança que olha e fala: “Nossa, eu gosto de matemática. Nossa, eu gosto de piano. Nossa, eu gosto de balé. Eu gosto de desenhar. Eu gosto de biológicas”. Enfim, eu gostava de tudo. Então, se você perguntar pra mim: “Ellen, o que você queria ser”?, era difícil essa resposta pra eu dar, porque eu ia falar: “Não, mas antes de fazer isso, eu tenho que fazer aquilo, tem que fazer aquilo outro”, porque era, assim, tantas coisas que eu me sentia bem, me sentia tranquila em fazer, que eu queria tudo. Mas, com o tempo, Deus foi mostrando que realmente eu podia estar crescendo porque, apesar de eu nunca ter falado isso desde pequena: “Ai, eu vou querer ser só isso”, dentre as várias coisas que eu já fazia, o balé foi a minha paixão. O balé foi aquele, foram dez anos que eu estudei o balé e tive que interromper abruptamente, por uma questão de saúde. Eu tenho uma anatomia, que a minha patela, com o tempo, foi se desgastando, se desgastaria de uma forma natural, mas com o impacto intenso do balé, se desgastou muito mais rápido. Com isso, eu tive que parar minha grande paixão e eu parei minha grande paixão com quinze anos de idade, catorze pra quinze anos de idade. E se, naquela época, na adolescência, não mais menininha, você me perguntasse: “Ellen, o que você quer ser”? eu te falava com todas as letras: bailarina. Mas meu físico não permitiu. Por outro lado, meus pais sabiam que eu fiquei muito triste, porque era algo que eu me entregava. Muito diferente... não que eu não gostasse do piano, eu era apaixonada pelo piano. Hoje eu tenho um segundo piano aqui em Brasília, continua o lá de Cuiabá e tenho outro aqui em Brasília, porque é a minha paixão também, é a minha terapia, mas o balé tinha algo que me trazia, não que eu não me visse bem no piano. Pelo contrário, todos sempre me elogiaram muito, como musicista, pra tocar o piano, porque a gente estuda pra interpretar, né? Mas no balé eu tinha um domínio, que ia além do que eu tinha no piano. Era algo que, além da paixão de você gostar, de você ter facilidades, como eu tinha no piano, tinha algo que mostrava pra mim que eu não tinha limites, que tudo aquilo que me desafiavam dentro do balé e que eu estava recém aprendendo em uma semana e a professora falava: “Não, durante duas semanas, em um mês vocês vão aprender”, eu aprendia no primeiro, segundo dia. Era algo que a minha professora mesmo não acreditava. Teve situações minhas, de estar com o pé cheio de bolhas e não conseguir usar uma sapatilha de ponta e, no dia, junto com o bailarino argentino, que estava fazendo a coreografia, eu consegui dançar tudo e ela não tinha visto antes, eu dançando na ponta, aqueles passos. A Fernanda Franzi, que eu agradeço muito pelo que ela me ensinou. E, quando eu perdi essa paixão, vamos dizer assim, que eu não podia mais dançar, eu tive que parar abruptamente, porque eu corria risco de fazer algum passo e desabar literalmente, me machucar. Então, pra mim, aquilo foi muito sofrido e isso meus pais viram e eles falaram pra mim: “Mas Ellen, lembre-se, você tem outros talentos, você tem outros dons que Deus te deu. Talvez, esse que você se sentia mais segura, justamente você deixou de poder fazer tudo que você poderia fazer nele, pra você conseguir se desenvolver mais ainda em algum outro”. E aquilo ficou na minha cabeça, eu falei assim: “É verdade, eu não tô limitada só à dança”. Senti, senti muito e aí foi a época da decisão da escola técnica, (risos) quando meu pai... eu conversei com a minha mãe também, mas meu pai teve essa sacada de dizer: “Por que você não vai fazer algo que tenha algo ligado a desenho, que é algo que você já faz, né”? E, pra minha surpresa, tem diferença em desenho artístico e o desenho arquitetônico, né? E não é que eu consigo fazer os dois? (risos). Então, ali eu vi concretizando o que meus pais me disseram: “Muitas vezes Deus tira algo da gente, pra mostrar que a gente tem mais capacidade em outras coisas, em outras frentes”. Então, comecei desde então, encarar dessa forma e foi quando eu coloquei na minha vida essa questão: sempre, tudo, entregar nas mãos de Deus e permitir que Ele mostrasse qual o caminho. O meu irmão mais velho, uma vez, o Eber, perguntou assim pra mim: “Mas, Ellen, como que você consegue? Tudo que você pensa, você vai e faz”, aí eu falo: “Mas tem o leque”. O que é esse leque: quando eu lembro esse sofrimento que eu tive, que eu passei, superei, que foi a questão da perda do balé, né, de não poder ser bailarina profissional, na época eu não tinha a visão do leque, meus pais me deram essa visão do leque: “Hoje eu não posso isso, mas amanhã eu posso aquilo, aquilo outro”. Então, esse é o leque. Então, muitas vezes, quando a gente coloca, faz planos na nossa vida, eu tenho, desde então, feito estes planos: entregar na mão de Deus, dizendo: “Senhor, agora que eu terminei isto, eu gostaria de fazer isto. Mas, se não puder ser esse A, pode ser o B, pode ser o C e pode ser o D”. De repente, ele mostra pra mim: “Ellen, é o C”. As janelas, as portas se abrem pro C. E outros olham e têm essa sensação: “Nossa, Ellen, tudo que você quer, você conquista”. Não, a gente conquista sim com os nossos esforços, a aprender e a crescer naquilo que a gente escolheu e que Deus nos permitiu. E, por outro lado, a gente sempre pensar nisso: que, se uma porta fecha, a gente vai ter outra aberta, ou seja, o leque. Se eu tenho um plano A, posso ter um plano B, posso ter um plano C e posso ter um plano D, que algum deles, Deus vai me mostrar que eu posso ainda crescer mais.

 

P/1 – E como foi esse período de decisão, de que faculdade fazer, da escolha profissional?

 

R – Olha, foi incrível, então eu vou falar assim, altos e baixos (risos) porque, vamos lá: eu passei... eu admiro muito o meu pai, a profissão que ele exercia, que ele é cirurgião dentista, corrigindo. Ele não é dentista, é cirurgião dentista, inclusive com mestrado em cirurgia bulbo-maxila. Então, sempre admirei muito esse trabalho. E, ao mesmo tempo, em Cuiabá não tinha ainda Arquitetura, era algo que eu pensava, fazer a escola técnica: “Vou fazer Arquitetura”, mas a Universidade Federal de Cuiabá, naquela época, ainda não tinha Arquitetura. E, ao mesmo tempo, tinha Engenharia que, de certa forma, passei a conhecer, ao fazer Edificações. Passei pra Odontologia, primeira turma de Odontologia, na universidade particular lá de Cuiabá, primeira turma. Fui mais bem colocada pra Odontologia. E passei também pra Engenharia Civil. E eu fiquei nesse xeque-mate: “Sigo a profissão do meu pai ou vou pra Engenharia, mesmo sabendo que não quero mexer com obra?” “Como assim, Ellen, você não quer mexer com obra e pensa em Engenharia”? Sim, pensava. E sentando, conversando muito com a minha mãe, ela sempre pedia pra que eu colocasse nas mãos de Deus. Ela sabe, sempre soube que tudo, quem resolve é só o Pai Maior. E com o meu pai, ele olhou pra mim e falou assim: “Olha, minha filha, a única coisa que eu posso dividir contigo é a minha profissão. E a minha profissão é de uma pessoa autônoma, que fica entre quatro paredes e resolve tudo sozinho”. Quando ele dividiu isso comigo, se abriu uma luz grande no fim do túnel, porque que tinha que ser Engenharia. Com Engenharia, você não é autônomo (risos) e você não vai estar sozinho, vai ser trabalho em equipe, no mínimo. Aquilo me fez decidir, eu falei: “Eu não tenho mais dúvidas, é Engenharia mesmo, que eu quero algo que trabalhe em conjunto”, porque eu gosto de dividir, eu gosto de falar, trocar ideias. É aquela coisa de: uma dúvida de um colega faz com que você analise, tenha uma visão diferenciada, que você nunca pensou e que pode ser até a solução, que pode ser até a ideia que ajude a fechar tudo aquilo que a gente está resolvendo. Então, assim, foi muito, foi uma fase difícil, porque todo adolescente, quando está nessa fase, realmente você está definindo praticamente a tua vida, apesar de que sempre meus pais colocaram que: “Olha, você escolhe, se depois, amanhã não for isso, você faça outro vestibular. Fique à vontade”. Até porque eles sempre souberam que eu queria muito o UNB, tanto que eles investiram em mim, eu cheguei a fazer cursinho aqui em Brasília, quando eu tinha dezessete pra dezoito anos de idade. Tentei passar pra Odonto aqui na UNB, na época não passei. Voltei pra Mato Grosso e, na época, a UNB aqui, quando eu estudei efetivamente, pra tentar fazer o vestibular aqui, teve uma greve que meu pai falou: “Olha, não vai jogar fora o tempo que você estudou aí não, vem fazer as provas aqui no Mato Grosso”. (risos) Foi isso que aconteceu: eu passei pra Odonto e pra Engenharia Civil no Mato Grosso. E aí teve essa dinâmica toda, até eu chegar à conclusão, que eu não queria trabalhar sozinha, eu não queria trabalhar em quatro paredes sozinha e sim trabalhar em equipe. Então, com isso me fez ter a certeza de partir pra Engenharia Civil, apesar de todos saberem e eu falar desde quando eu entrei na Engenharia, que eu vim fazer Engenharia pra muitas outras coisas, não pra mexer com obra. (risos) Acredite, se quiser. (risos) Muito incrível relembrar isso. Obrigada por essa oportunidade que vocês estão me dando.

 

P/1 – Como foi esse momento na entrada da faculdade, quais foram as mudanças na sua vida?

 

R – Olha, foram grandes porque, assim, comecei a ter mais independência, em que sentido? Como eu estudava em escolas próximas à minha casa, eu já tinha costume de ir a pé, mesmo quando era criança, né, na adolescência também. Quando eu parti pra faculdade, a faculdade era distante da minha casa. Então, eu comecei a usar o ônibus público, apesar da minha família ter condições, tudo, mas era uma forma também de ter a minha independência, não ficar na dependência da minha mãe, me deixar na faculdade, enfim. Então, assim, é uma fase que te mostra que você pode andar sozinha. Fiz grandes amizades, tenho duas grandes amigas e colegas, que é a Margareth Gurgel e a Patrícia Shiroma, que são duas grandes engenheiras lá em Mato Grosso. Uma ficou nessa área que eu não quis, que é a construção civil (risos) e a outra mexe com estradas, está no DNIT, tenho o maior orgulho. E outras também que eu formei junto: a Tânia, o Marcelo, o Mário. São tantas pessoas, assim, que eu aprendi muito, lá na Universidade Federal de Mato Grosso, a Universidade de Federal de Mato Grosso é muito acolhedora. E eu ia pra lá, chegava às sete da manhã e saía às sete da noite. Então, pra mim, eu mergulhei nesse mundo de estudo, até porque, nesse ponto, eu sou muito intensa. Do mesmo jeito que eu queria tanto ser bailarina, quando eu agarrei essa coisa de Exatas e de mudar completamente, sair desse lado mais artístico e partir pra esse lado mais de Exatas, eu mergulhei muito também. Tanto que eu fazia muito aulas com a turma que estava na minha frente. Eu poderia ter me formado - isso é difícil na Engenharia Civil - com quatro anos e meio, mas eu resolvi formar com cinco anos, pra me sentir uma engenheira completa, porque eu quis fazer estágio em obra, por incrível que pareça. Apesar de falar (risos) que não queria obra na minha vida, eu cheguei a fazer estágio em obra. Mas foi um momento, assim, incrível, porque foram professores fantásticos, que me deram muito suporte. Professor London. É, assim, um pecado a gente querer falar... Henrique, a professora Marilda, é tanta gente boa. Professor Jeferson, nossa! Professor Mário Monteiro, professor Márcio Miranda, professor Luiz Miguel, que continua lá, na batalha, na UFMT. Então, conheci professores incríveis, conheci colegas maravilhosos, tenho grandes amigos até hoje. Então, eu falo que a faculdade é um momento que a gente passa a ter mais essa liberdade de conhecer novas pessoas, que não são só daquela sua infância. E conhecer culturas diferentes também, como eu já tinha falado, que é quando você conhece a cultura de outras famílias. Então, em Cuiabá mesmo, é muita gente que migra para Cuiabá. Então, é muita gente do Paraná, muita gente de São Paulo. Principalmente do Rio Grande do Sul, do Paraná, Santa Catarina também. Então, assim, acabava que, de cuiabano, ali devia ter quarenta por cento, quarenta, trinta por cento. Todo restante era todo “Brasilzão” (risos) que chegava em Cuiabá. Então, assim, foi pra mim muito importante, pra eu ter essa diversidade de conhecimento, não só de cultura, mas principalmente de pessoas e ter colegas assim, fantásticos, não só que formaram comigo, mas que estavam na turma à frente, como o Leonardo Sassarenco, Miltinho, grande professor, fez doutorado. Nossa, é tanta gente boa naquele nosso Mato Grosso e tanta gente que foi pra lá, estudou na nossa UFMT. Mas aí vem a questão que você forma, né? Formei em Engenharia Civil, sabendo que não ia trabalhar em construção civil. E formei num período que o Brasil estava em baixa com a engenharia. Estava tendo falências de grandes empresas, como a Encol, inclusive pra Encol que eu estagiei, mas não eu fui que a fali, viu, gente?  Eu brinco muito com isso. (risos) Mas era uma época difícil. E aí, Deus colocou um anjo na minha vida, que é o professor Márcio Miranda, que não está mais aqui conosco, também já faleceu. Na época, ele sentou comigo e falou assim: “Ellen, você gosta muito de estudar, você fez vários temas aqui pelo Cnpq, estudos, né, pesquisas pela Cnpq e você sempre estudou muito. Por que é que você não vai fazer uma especialização?” Então, ele me deu essa luz, de fazer um mestrado. E, naquela época, me veio algo da minha infância, juventude, que meu pai falava muito. Ele sempre falou muito que o Mato Grosso é um grande celeiro, uma grande produção, mas que faltava sair do papel. Ele, como bom historiador, né, sabe disso: na época do Império, já se falava em ferrovia chegando em Cuiabá. E tivemos um desbravador, que foi o senador Vicente Vuolo, que conseguiu instituir aí a Ferronorte, que é uma ferrovia, hoje, que é administrada pela Rumo. E meu pai falava muito isso na minha adolescência, que: “Não adianta a gente ser um grande celeiro, uma grande produção”, que hoje é uma grande produção mundial, no estado do Mato Grosso. “E como saber escoar toda essa produção”, né? Então, ele sentia falta da ferrovia e como os registros dele, ele já anotava que, desde a época do Império, já tinha essa previsão da ferrovia chegando no nosso estado. E que começou a ser feita e hoje chega até Rondonópolis, graças a Deus. Mas, na época que eu saí de Cuiabá, a gente ainda não tinha ferrovia, nem pertinho de Alto Taquari. (risos) Não tinha nada chegando perto do Mato Grosso. Porque eu vim pra cá, pra Brasília, em 1995 pra 1996, é mais preciso 1996,1995 eu formei. Então, 1995 eu fiz, na realidade, o processo seletivo e resolvi escolher Brasília, porque eu vi que tinha a engenharia de transporte, mesmo sendo urbano, mas eu falei: “É engenharia, é transporte”. Relembrei do meu avô, que foi um grande caminhoneiro e motorista depois. E lembrei dessa história. E grande história do nosso estado, que é essa busca pelas ferrovias. Então, eu falei: “Sei onde vou trilhar”. Então, literalmente, eu vim atrás do trem, né, porque no meu estado não tinha ferrovia. E cheguei aqui em Brasília, então, em 1996. Passei pro mestrado da UNB, de Engenharia e Transporte Urbano. Ali conheci pessoas de vários cantos também, do nosso Brasilzão. E, principalmente, profissionais com formações diferentes. A gente pensa, né, por exemplo: fazer Engenharia, lógico, pessoas ali todas já de Exatas, gostam de Matemática, aquela coisa. Quando eu fui fazer o mestrado, pra minha surpresa, eu achava: “Nossa, Engenharia de Transporte, só vai ter engenheiro”. Quando eu chego aqui em Brasília, pra minha surpresa, eu tinha colega advogado, eu tinha colega psicólogo. (risos) Tinha colegas engenheiros também. (risos) Mas, assim, era uma diversidade de formações e isso a UNB me permitiu. Então, eu agradeço muito aos professores da UNB, meu orientador Joaquim Aragão, a professora... também que foi co-coordenadora, Miyazaki, que era do curso de Estatística. Pois é, eu fiz uma dissertação de mestrado, que o tema era transporte, mas todos os mecanismos eu tive que estudar, fazer matéria em outras áreas que era Marketing, aí no caso, Administração, tive que fazer cluster, análise na área de Estatística. (risos) Então, essa multidisciplinariedade me conquistou porque, quando a gente sentava pra resolver as questões, eu tinha ali as dúvidas, o conhecimento de pessoas de áreas de Humanas conversando com pessoas de área de Exatas, algo que eu achava - a gente meio que se limita, né? - assim: “Não, não é possível, como assim? Trabalhar junto, Exatas com Humanas?” E, gente, dá muito certo, porque a visão que a Humanas tem, traz algo que a Exatas não tem. A Exatas é muito como o nome diz, é muito matemática, é muito raciocínio lógico. E, muitas vezes, o psicólogo, o advogado vem com uma percepção do humano, que faz com que a gente reveja aquela nossa visão cartesiana. Então, assim, foi muito interessante, isso eu trouxe pra minha vida, que é sempre parar pra ouvir, até mesmo aquele que não é da minha formação, em cima daquilo que eu estou tratando, por quê? Porque a dúvida dele pode me trazer uma solução. A dúvida dele, o interesse dele em querer entender aquilo que eu estou fazendo numa visão de Exatas, pode me ajudar a raciocinar de uma forma diferente e chegar a uma solução. Então, isso eu aprendi muito e devo muito à UNB. Lembrando aqui de outros professores também: a professora Yaê, que foi muito importante também. Nossa, tantos professores: Maria Alice, o José Augusto, assim, muitos professores que eu só tenho que agradecer a oportunidade, como nos receberam. Então, assim, a UNB também me fez sair um pouquinho da casinha, de estar fora do meu conforto familiar, estar fora de algo que eu já conhecia, que muitas vezes era protegida, justamente por já me conhecer. Então, eu pude chegar em Brasília e não só aprender muito no estudo, na profissão, mas aprender muito como pessoa. E, graças a Deus, vem aquela base que eu falei lá no início: princípio cristão, a educação que meus pais me deram. Maria, Moisés, eternamente sou grata a vocês, por me darem essa oportunidade e tentar cada dia ser um ser humano melhor, tentar ouvir e entender o próximo, apesar de que eu sei que tenho pontos que eu preciso ainda melhorar, talvez até por essa ânsia de querer acertar nas coisas, de fazer da melhor forma, muitas vezes eu tenho uma forma de colocar um pouco impositiva, mas isso eu tô melhorando a cada dia, (risos) pra que todos que estão em volta de mim, entendam que é alguém que quer trabalhar em equipe. E que quer, ao mesmo tempo, conseguir o melhor de cada um e conseguir o melhor de mim mesma.

 

P/1 – Ellen, o que te encantou, nessa área de transporte urbano?

 

R – Olha, nessa área de transporte, o que me encantou, foi justamente isso que eu estava falando. Eu fiz pesquisa operacional, fiz essa parte de programação semafórica, eu ainda achava que tinha esse lado engenheirão, sabe? Mas aí eu fui vendo que o transporte mostrou pra mim a capacidade que eu tinha de gestão. E como a gente pode trabalhar com a gestão, sabendo delegar, sabendo escolher cada peça do quebra-cabeça. E uma vez até, logo que eu saí do mestrado, o primeiro trabalho meu foi no Ministério do Transporte. E uma vez, assim, teve esse questionamento, mas esse questionamento de você parar pra pensar, mas assim: “Ellen” - essa pergunta que você fez mesmo: “Por que é que você gosta tanto de transporte?” Eu falei assim: “Talvez porque eu não podia sair por aí de caminhão, Brasil afora, como o meu avô”, porque eu não tinha essa coragem toda (risos) de desbravar a estrada. Eu sou boa motorista, mas eu só ando dentro (risos) da área urbana. Não me coloque numa estrada, que eu morro de medo. Então, com isso, o transporte está carimbado aqui no meu coração, com esse conhecimento que eu tinha do meu avô, mas eu sabia que eu podia trabalhar em transporte. E o mestrado me mostrou que eu podia mesmo e nessa parte de gestão. Então, eu não precisava ser o engenheiro que vai cuidar da programação e semáforo na área urbana. Eu precisava entender mais de gestão, pra saber administrar pessoas, gerir projetos e fazer com que eles saíssem do papel. E aí, não era construção também, que era algo que eu sempre falava, desde que eu fiz Engenharia, que eu fiz Engenharia (risos) pra não mexer com obra. Mas era uma obra diferenciada, que é essa obra de você unir esforços com vários especialistas, montar equipe e fazer a melhor operação, a melhor forma, fazer com que as coisas andem, né e aconteçam, de uma forma como administrador, como gestor. Então, isso me encantou muito nessa parte do mestrado em Engenharia e Transporte, foi isso. E isso fez com que eu tivesse o privilégio de conseguir um trabalho, que é isso que eu reforço, isso é muito raro, gente: a gente conseguir estudar, especializar numa área e estar trabalhando nessa área de transporte, eu me considero assim. Apesar de que não foi uma especialização, um mestrado específico para Engenharia de Transporte Ferroviário, mas foi Engenharia de Transporte. E aí, você entendendo do micro, que é o mais difícil, que é o urbano, que foi, inclusive, minha dissertação de mestrado, a segmentação de transporte no mercado de passageiro urbano. Então, você entendendo desse micro, que é mais complexo, você começa a ter, ali, conhecimentos que fazem você adaptar e criar mecanismos e ajudar também na operação e na gestão de transporte de carga, de transportes de longa distância. Então, você tem ali uma visão do micro, pra partir pro macro. Então, foi uma grande experiência. Não só pelo conhecimento, mas pela troca que eu tive com as pessoas, com os profissionais que estavam ali. E, depois disso, tive esse privilégio de conseguir meu primeiro trabalho, prestando serviço no Ministério do Transporte. E aí, ali eu conheci uma grande amiga e uma grande engenheira, muito objetiva por sinal, aprendi muito com ela, que é a Iolanda Ilha Reis. Não sei se vocês sabem: quando teve a desestatização das ferrovias no país, em meados da década de 1990, existia a extinta Secretaria de Transporte Terrestre. Foi lá que eu fui trabalhar, isso em 1999. E ali eu pude conhecer a Iolanda, a Doutora Rosário, Cíntia, várias outras pessoas. O próprio Marcos Almeida, depois a gente se reencontrou na Antt. O Cássio Ramos. E a Iolanda foi a primeira mulher engenheira a fiscalizar ferrovia a partir da década de 1990, após delegar a prestação de serviços de transporte de carga para iniciativa privada. Então, eu tive o privilégio de conhecer, ser amiga e aprender com quem foi a primeira engenheira que fiscalizou ferrovia. E, quando eu fui pra Antt, eu passei a ser a terceira engenheira no Brasil a fiscalizar ferrovia. Então, assim, foi com muito carinho, com muita alegria e, naquela época, por incrível que pareça, gente, eu fiscalizei ferrovias diferentes. Foi uma Vale, uma ALL, na época, que hoje é a Rumo. Porque as ferrovias, os traçados são diferentes, dependendo se você está num local que são vales ou se está num local mais plano. Então, os traçados são diferentes, as tecnologias também, cada uma tem a sua, enfim, respeitando aí o que foi normatizado na década de 1990. E, quando eu fui nessas inspeções de fiscalização, pasmem: várias vezes eu tive situações de que os rapazes tinham que ficar na porta do banheiro, porque não existia banheiro feminino. Então, pra que eu pudesse fazer minhas necessidades, eu entrava no banheiro masculino e ficava um fiscal, um colega regulador como eu, na porta, pra impedir que algum homem entrasse nesse momento, (risos) porque não tinha, acreditem vocês, isso foi... eu já era da agência, eu fui concursada, passei como reguladora temporária na Antt. Foi quando eu comecei a entender mais de ferrovia, eu comecei com a ferrovia do Ministério do Transporte, na época da extinta STT. E lá também mexia ainda com rodovia, mas quando eu entrei na Antt, já foi na área específica, que era a Sucar, na época, hoje é Sufer, que é a superintendência, que é só nessa parte ferroviária. E cuidava da fiscalização ferroviária. Então, nessa época eu tive esse privilégio de desbravar, vamos dizer assim, eu me senti como, vamos lá, os bandeirantes quando chegaram em Mato Grosso, encontrando todo aquele ouro, indígenas, enfim. Eu indo para a ferrovia e descobrindo que as ferrovias não estavam preparadas para mulheres. Então, foi incrível aquilo. Isso foi uma primeira ou segunda fiscalização, logo depois todo mundo já tinha adaptado pra isso. E olha que a Iolanda falava isso pra mim: “Ellen, você vai ter questões que você vai ver que você não acredita, que você vai estar em lugares, que você vai estar em situação que as pessoas não pensaram nas mulheres”. (risos) E ali eu tive certeza disso. E é interessante porque hoje, graças a Deus, tem mais engenheiras no Brasil e tem mais mulheres trabalhando em ferrovia. Isso eu fico muito feliz, porque cada dia mais, nós estamos conquistando o nosso espaço, que é o mesmo também dos homens, né? Então, vale a capacidade de você saber lidar com o assunto e aquele mecanismo que a gente falou lá atrás: cada um tem o seu talento, cada um tem a sua qualidade e ela será aproveitada pra ajudar, independente de se é um homem ou é uma mulher, né? Mas ter essa mescla é importante. Então, foi isso. Então, acabei saindo do mestrado e indo pro trabalho e, graças a Deus, naquela época, eu até tinha ficado triste, porque eu estava com tudo engatilhado pra fazer o meu doutorado nos Estados Unidos, já estava tudo pra ter uma bolsa da Capes, pra estudar nos Estados Unidos, na Universidade da Flórida, para trabalhar nessa parte de marketing e transportes, estudar, fazer o doutorado, uma tese, nessa linha. Entretanto, teve um corte das bolsas, na época do Fernando Henrique. Na época, eu fiquei muito triste, aí voltou de novo aquela questão, que me veio lá na minha adolescência. É, mas pode estar fechando essa janela, pra abrir uma outra grande porta, né? E, realmente, Deus mostrou isso pra mim porque, na Engenharia, se você sai da formação da Engenharia e parte pro mestrado, do mestrado, pra você entrar no mercado de trabalho, já é difícil. Quando você emenda com o doutorado, mais difícil ainda. Isso eu vi depois, com uma grande amiga minha, Patrícia Monteiro, que teve essa dificuldade, por ter seguidamente estudado e feito o seu doutorado nos Estados Unidos, de depois entrar no mercado de trabalho. Então, Deus faz tudo certo, na hora certa. Não era pra eu estudar, fazer o meu doutorado e, enfim, comecei a trabalhar e trabalhar com transporte, que era o que eu queria, trabalhando, prestando serviço no Ministério. Depois fui chamada pra ajudar a formar a agência. Quando teve o primeiro concurso, que foi de regulador temporário, participei, passei. Fiquei muito feliz, ali foi também um momento de encontrar pessoas de vários locais ali, fiz grandes amizades, como a Luzia, a Luíza, a Ana Paula, a Sheila e reencontrei amigos meus da época do Ministério, como o Marcos Almeida, o Ezio, o Márcio, meu chefe então direto, passou a ser. Conheci um grande chefe, que foi o Hilário Pereira Filho também. Então, assim, cada vez que eu chegava num lugar, eu tinha essa grande oportunidade em conhecer novas pessoas, novas culturas, novos conhecimentos e experiências. Então, pra mim sempre foi muito gratificante, isso. E na agência eu pude aprender muito ali com o Marcos Almeida, eu brinco muito, eu falo: “Gente, o que eu sei hoje, eu devo muito ao Glauco Benévolo de Benévolo, que está no céu e eu tenho certeza disso, que era um senhor de setenta e cinco anos e prestava serviço comigo junto no Ministério. E aprendi muito com ele também, assim como com a Rosa, que não está mais conosco. E depois eu reencontro com o Marcos, que eu conheci, mas não trabalhando diretamente com ele lá no Ministério, mas trabalhava na mesma equipe. Poder trabalhar com ele, ele ser meu chefe direto, ele era o gerente de fiscalização e eu era a substituta dele e ali começar a aprender mais ainda sobre a ferrovia e ter esse privilégio de ter aprendido um pouco da ferrovia, com o Doutor Glauco e logo depois ter passado por outro grande mestre, que foi o Marcos Almeida, que me ensinou muita coisa da fiscalização, do transporte, da operação da ferrovia. Então, ali eu pude aprender muito e com outras pessoas também, várias pessoas fantásticas ali. E aprender também o que é a regulação do transporte, essa importância, porque é um setor que hoje é altamente regulado, ele tem muitas normas. Até umas questões que precisam ser melhor equacionadas. Mas, assim, como todas as fases da minha vida, pelo que você está vendo, tive o privilégio de ter pessoas boas e tive também colegas e amigos ruins, por que não dizer? Tive também, excelentes, incríveis, fantásticos. E a gente não pode esquecer, gente, que aquele que nos incomoda, aquele que não tem empatia com a gente, que é aquele que não tem a mesma visão que a gente, muitas vezes nos questiona demais, enfim, vamos chamar assim: não são os melhores colegas, esses nos ajudam também, porque eles fazem com que a gente repense realmente aquilo que a gente está falando ou o que a gente está propondo. Mas não significa que os maus são aqueles que nos questionam, tá? Não é isso que eu quis dizer, vocês entenderam. (risos) Mas existem aquelas pessoas que a gente sabe que não têm a mesma afinidade, não têm empatia conosco e que muitas vezes criam problemas, realmente, ainda mais quando você trabalha em equipe, mas eles nos ajudam também, por que não? Porque ajudam a gente a crescer como ser humano e a querer entender o outro: “Por que ele está sendo daquela forma? Por que ele está sendo tão resistente em atender algo que foi delegado ou algo que foi acordado entre o grupo?” Então, assim, isso nos transforma, a querer olhar mais pro ser humano e a querer entender uns aos outros, né, pra que a gente possa fazer o nosso trabalho. Então, acabou que o meu trabalho de Exatas também passou a ser um trabalho, vamos dizer, de Humanas, nesse sentido, de entender todas as pessoas, tanto aquelas que gostam e não gostam de mim ou aquelas que eu gosto e eu não gosto. Porque o mais importante é a gente saber se respeitar, saber aprender, dividir conhecimento, aprender conhecimento, para que a gente possa dar o nosso melhor e fazer com que os outros cresçam também juntos. Então, isso tudo pra mim é o grande motivador, é a grande mola aí, que me estimula muito.

 

P/1 – Ellen, queria só retomar uma coisa que eu achei muito importante que você falou, que na Antt, você foi descobrindo que a ferrovia não estava preparada ainda pras mulheres. Como foi acompanhar essas adaptações, pra você?

 

R – Olha, pra mim foi interessante, porque foi esse sentimento do desbravador, né, como eu falei no início, (risos) como um bandeirante, quando foi desbravar o extremo oeste do país, e chegar lá no meu Mato Grosso. Então, eu me senti desbravadora, eu falei: “Nossa, eu tô fazendo algo que até pouco tempo, eu tenho uma grande amiga que foi a primeira que começou a fiscalizar ferrovia”. Mas eu não tinha noção, que quando eu comecei, que foi tipo três anos após conhecê-la, eu já estar também numa ferrovia, fiscalizando uma ferrovia e descobrindo que as ferrovias não estavam preparadas pra uma fiscalização que tivesse uma mulher, né? Então, de certa forma, me senti desbravadora e, ao mesmo tempo, privilegiada porque eu estava vendo que eu estava entrando num mundo, que muitos me diziam: “Ah, é muito masculino”, mas eu não enxergava dessa forma, pra mim era natural trabalhar com homem. Mas eu consegui, comecei a ver na prática isso, da questão de: “Ah, sim, é um setor muito masculino”, foi quando fui desbravar a fiscalização e perceber que não tinha banheiro feminino. Ali eu comecei (risos) a ver que realmente era assim. Porque até então, pra mim, eu trocava ideia com todos, eu trabalhava com todos, tinha uma ou outra mulher no setor, mas isso não me impactava. Eu não via como: “Ah, tô sendo uma das primeiras”, entendeu? Eu fui perceber que eu estava sendo a terceira mulher a fiscalizar ferrovia, quando eu comecei a me deparar com esse tipo de situação. E, ao mesmo tempo, foi bom ver que, ao fiscalizar, não só as pessoas que iriam respeitar por você ser mulher e estar em algo que não tinham visto uma mulher antes, porque alguns ali ainda não tinham sido fiscalizados por mulher, mas eles tiveram esse discernimento, de que: “Não é porque ela é uma mulher, ela vai agir diferente com os outros reguladores e outras pessoas que fiscalizam ferrovia”. Então, eles entenderam que ali estava uma profissional, que, independente do sexo, ela estava ali pra realizar o papel dela. E que, independente de estar num ambiente altamente masculino, teve situações de estar num carro alto de linha que, na realidade, ao invés de ser a locomotiva que traciona vagões, é um carrinho menor, que é uma mini locomotiva, mas que o passageiro fica dentro também, não fica só o maquinista, né? Então, eu estava fiscalizando um alto de linha e eu percebia que os homens queriam fazer uma parada e, quando eu me toquei pra isso, porque nós, mulheres, a gente precisa realmente de um banheiro, né? E já os homens podem, a qualquer momento, em qualquer instante, em qualquer lugar. Então, quando eu saquei isso também, eu falei assim: “Galera, vamos lá: se vocês precisarem parar, pra fazer a parada técnica, fiquem à vontade, vão pra aquele lado, eu vou estar olhando pra frente, pro trilho e vocês vão lá pra parte de trás e fazem o que vocês precisam fazer”. (risos) Então, assim, até esse tipo de situação eu passei, mas que bom que eu pude perceber que eu não estava ali com as minhas colegas, amigas, que não iriam sentir vontade de fazer uma parada técnica ao mesmo tempo que eu e que eu estava ali com homens, que a parada técnica pode ser mais curta do que o das mulheres, né? Então, assim, a gente remanejou aí. Então, assim, eu acho que é tudo uma questão de saber entender o outro, o mecanismo como funciona cada um, respeitar e deixar o outro à vontade, mostrar pro outro que aquilo é normal, que aquilo é tranquilo, que vocês podem parar e fazer o que vocês (risos) quiserem fazer, regar a plantinha, vamos dizer assim, né? Então, assim, é uma situação realmente que, ao mesmo tempo que eu me senti desbravadora, eu me senti feliz de mostrar que não era um bicho de sete cabeças trabalhar com mulher, que nós mulheres temos a capacidade de entender o em volta e respeitar essas diferenças e permitir que eles continuem fazendo da forma deles. (risos) E que nós nos ajeitamos e fazemos da nossa forma também. Então, foi bem interessante.

 

P/1 – Como foi...diga.

 

R – Desculpa, mas isso é só um dos tipos de situações que me veio agora na memória, mas lógico que tiveram outras situações mais técnicas, vamos dizer assim, né, de resolutiva, de trabalho, de fechamentos de trabalho e que dava pra ver essa diferença e que a gente soube se adaptar e aí eu gosto de dar esse exemplo aí da parada técnica, que é ir ao banheiro, (risos) porque é algo mais do dia a dia, que todo mundo entende, né? (risos).

 

P/1 – E como funcionava o seu trabalho de fiscalização?

 

R – Olha, primeiro a gente tinha que fazer um planejamento, né? A gente tinha que: qual ferrovia que a gente ia, saber todo o traçado dela, pegar todas as informações que a gente já tinha na agência, sobre aquela ferrovia e traçar o que a gente ia verificar, porque a gente ia pra ver a via permanente mesmo, que é a linha férrea, a situação, tanto de drenagem, como da própria plataforma. E muitas vezes a gente pede, no alto da linha, pra parar, pra gente verificar qual que está a situação. E, antes de ir pra campo, que é a fiscalização em campo, a gente estuda dados daquela ferrovia, o que ela está investindo, até pra saber onde que estava tendo alguma construção, alguma obra e, ao mesmo tempo, fazer o planejamento daquela viagem: cada dia, quantos quilômetros de trecho, saber onde que seriam as paradas, enfim. Então, fazer o planejamento prévio, obter informações prévias com a concessionária, alinhar isso com a equipe, geralmente nós éramos em dois. No mínimo tinha que ter dois fiscais, dois reguladores, para fazer a fiscalização, ir a campo, verificar a situação, anotar as situações aí da via, levar o que foi anotado de volta, no retorno e fazer as observações no relatório, o que estava bom e aquilo que a gente via que precisava ser melhorado, pra encaminhar, notificar a concessionária do que a gente viu que havia necessidade de melhorias. Então, na realidade, um trabalho muito importante de fiscalizar a operação das ferrovias, que é você ter essa noção da situação, de toda infraestrutura daquela ferrovia, se ela está adequada, né? É de muita responsabilidade. Como vocês sabem hoje, o caso, por exemplo, que vocês veem, infelizmente, que tem acontecido na engenharia civil, né, de reformas ou obras malfeitas, geram a queda de um prédio. Quando você vai fazer uma fiscalização ferroviária, você está cuidando de uma infraestrutura, não deixa de ser uma infraestrutura. Um prédio é uma infraestrutura, a via permanente é uma infraestrutura. Então, a gente vai lá pra, justamente, tentar colaborar, enxergar com o nosso papel de fiscal, na época, que eu tinha, de colaborar para que estivesse da melhor forma possível a situação física daquela infraestrutura, para que não ocorresse nenhum tipo de acidente, enfim.

 

P/1 – Você lembra de alguma história marcante, que você queira dividir com a gente, de alguma viagem, de alguma ida a campo?

 

R – Ah, sim, tem, que até correlaciono, agora lembrei de uma, com essa situação da mulher desbravando. (risos) Teve uma descida na serra, indo para Paranaguá, até quem estava me acompanhando era o Plínio Rochedo, que era da ALL na época e hoje ele está na Vale. E ele estava me acompanhando e eu e o Ezio, a gente estava fazendo a fiscalização desse trecho da descida, ali, da serra. Hoje não se pode mais fazer isso, viu? Mas naquela época eu pedi pra ele, porque ali tem uma ponte pênsil. O que é uma ponte pênsil? É quando é aquela encrustada na rocha. Então, ela não tem nada desse lado pra segurar, ela só é encrustada aqui nessa rocha. Então, ela fica pênsil. Então, não tem nada segurando-a desse lado. E eu achei linda aquela descida da serra, lógico, fiscalizando toda a via e, nesse caso dessa via, você não tinha uma plataforma, você não tinha uma base, você não tinha um chão, ela é encravada numa rocha, certo? E quando eu vi aquilo, eu falei: “Plínio, eu queria muito ver cada um desses dormentes”. Aí ele falou assim: “Ellen, a gente pode ir devagar, você tem vertigem?”, falei: “Não, não tenho problema com vertigem, não”. E fomos nós dois caminhando devagar, ou seja: se eu errasse uma dormente, era Ellen lá embaixo. Mas isso eu sempre fui assim, até mesmo quando eu fazia Engenharia, que eu acompanhava a parte de fundações, que tinham colegas que não tinham coragem de descer cinco metros de profundidade num buraco, numa fundação e eu levantava a mão e queria descer. Eu acho que já vem isso, desde as loucuras de criança lá de rolimã, né? Eu acho (risos) que a gente vai refletindo. Mas é que eu gosto muito e quero entender muito o mecanismo das coisas e, lógico, com todo o cuidado. E o Plínio preocupado, falou: “Ellen, então vamos, mas vamos concentrados”. Eu falei: “Não, com certeza, até porque eu, aqui, se me distrair, não tenho o mesmo tamanho de airbag que você tem”. (risos) Ou seja: nada ia me segurar. Mas foi muito importante, porque eu pude ver detalhe a detalhe daquela ponte pênsil magnífica e por onde passam trens de carga e passa também um trem de passageiro, que faz um trem turístico, descendo até Paranaguá. Até hoje ficou na minha memória aquela imagem e foi importante ter passado por ali, porque ela estava muito bem encravada, muito bem-feita e o Plínio falou pra mim: “Ellen, com essa tua coragem, de passar nessa ponte pênsil, você me permitiu ver detalhadamente como estava essa ponte. Graças a Deus, ela está boa, (risos) porque se você visse algo, eu estava frito. (risos) Mas que bom que ela está boa”. Mas ele quis me dizer que, até então, outras pessoas tinham passado por lá, lógico que tinha os técnicos da ferrovia que fazem a checagem de manutenção e vão e olham dormente por dormente, mas ele, como gerente, na época ele não tinha mais tido esse tipo de oportunidade. Então, ele falou pra mim: “Nossa, Ellen, obrigado pela oportunidade de poder ver como está a manutenção dessa ponte e que está muito boa”. E ele falou pra mim isso, que eu o surpreendi, porque por justamente ser mulher, ele achava que eu iria ficar todo o trajeto confortável dentro do alto de linha (risos) e nenhum momento poderia estar pedindo pra parar, pra ver isso ou aquilo outro. E ainda mais uma ponte pênsil. Então, foi muito legal pra mim, por estar ali, ter essa oportunidade, ver de perto uma ponte que quase ninguém tem acesso, é só mesmo quem faz manutenção dela e pra ele também, que ele falou que não era mais a rotina dele e ele ficou feliz por isso. Então, assim e a gente, cada... é como dizem na ferrovia: “Quanto mais a gente conhece ferrovia, é igual uma cachaça, mais você quer conhecer outras cachaças. (risos) Mais você quer conhecer daquilo”, é impressionante. Então, assim: uma vez ferroviário, sempre ferroviário, apesar de que eu não fiz Engenharia Ferroviária, mas aprendi muito com os ferroviários que passaram na minha vida.

 

P/1 – E, Ellen, como desenrolou sua trajetória profissional? Você continuou lá por um tempo, você mudou de lugar de trabalho?

 

R – Pois é, o que aconteceu comigo? Eu estava como reguladora temporária na agência. Então, eu fiscalizava as ferrovias, eu era coordenadora do processo de multas das ferrovias. E já tinha feito, participado de algumas audiências, enfim, trabalho junto com a procuradoria da agência em várias situações. Tinha tido várias experiências e aprendi muito com meus colegas, ali da Antt. E, de repente, recebi um convite da Antf, me convidando para um desafio. E como vocês já perceberam, eu tenho essa dificuldade de falar não pra um desafio. E muitos até me perguntavam na época, assim: “Mas como assim, Ellen, você concursada, vai abrir mão de um concurso, pra trabalhar na iniciativa privada?” Eu falei sim, porque eu via que na agência tinha caminhos ainda que eu podia percorrer, mas por outro lado, a proposta, a ideia de estar na iniciativa privada, eu sabia que eu teria um leque maior de trabalho por fazer. Então, assim, em resumo: quem eu fiscalizava, eu passei a trabalhar pra eles. Ou seja: as ferrovias que eu fiscalizava, eu passei a trabalhar pra elas. E, quando eu cheguei na Antf, na época fui sabatinada pelo presidente do Conselho lá, que era da Vale e ele falou assim: “O que você vai trazer de novo, pra nós”?, né? Eu falei: “Olha, eu não sou engenheira ferroviária residente, como é pra ser um engenheiro ferroviário, realmente. Mas, com o aprendizado que eu tive no Ministério, na Antt, eu posso te dizer o que é melhor fazer em termos operacionais e você não ter problema com a agência e não ter problema, enfim, com o poder executivo. E ali eu tive um grande desafio, porque a última gestão tinha, literalmente, levado tudo, vamos dizer assim. Permaneceu as informações, mas as pessoas tinham sido todas trocadas, mudou completamente a gestão. E aí tinha uma área toda, uma área mais técnica, que precisava ser reorganizada, montada em questão de dados, desde dados, informações. E, com esse meu conhecimento, um pouco que eu já tinha de ferrovia e já o meu conhecimento de gestão, de organização, método de organização que eu consegui no mestrado, eu sabia que eu poderia estar dando mais de mim, além do fato desafiador de fazer com que eu tivesse que crescer mais, desenvolver mais. Então, a experiência que eu tive no poder público foi fantástica, no sentido de me trazer informações de como funciona. E, ao mesmo tempo, conhecer o outro lado, que é a iniciativa privada, como é a operação, ali o que rege é o direito privado, mas ao mesmo tempo, eles tinham que entender do direito público, que era o que eu entendia. Então, eu pensei: “Não, eu vou somar. Eu vou ter como ajudar mais estando junto com as concessionárias, no sentido de unir esforços, unir conhecimento, para que elas pudessem resolver várias questões aí no executivo, no legislativo”. E isso tem sido minha mola propulsora já há dezessete anos. Em julho, eu completei, primeiro de julho eu completei dezessete anos de Antf, que é um lugar que tem me dado também grandes oportunidades de conhecer diversas pessoas, grandes profissionais, pessoas fantásticas também, desde a Estela Almeida, que trabalhou desde o processo de desestatização lá atrás e trabalhou em uma das concessionárias, aprendi com ela a coordenar em um comitê. Então, assim, muitas pessoas que passaram na minha vida, até hoje, pessoas quando eu entrei lá em 2004, estão hoje ainda nas concessionárias e trabalho com elas, como é o caso da Daniela Junqueira, da Inrs; a Cássia Malacarne, que é da própria Rumo, mas que passou por várias outras ferrovias. Então, tem várias pessoas ainda daquela época, de quando eu entrei, como o Sérgio Carrato, da Inrs também. E mudou-se muito, hoje são várias, são outras pessoas e sempre é uma coisa muito rotativa, porque as pessoas, dentro da ferrovia, crescem, elas vão se desenvolvendo e vão passando pelos comitês, porque os comitês da Antf são mais técnicos. Então, quando você coordena um comitê operacional, você está tratando com, no máximo, gerente de operação, mas é dali pro chão de fábrica, as pessoas que realmente executam o serviço, como o hoje o patrimônio que eu trabalho, né? Mas, assim, tive o privilégio de passar por vários comitês da associação. O comitê, o primeiro deles, que eu dei continuidade, retomei porque tinha parado, com a mudança de gestão lá em 2004, foi o comitê operacional. Então, eu pude trabalhar com o comitê operacional, junto a Abnt, questões de regulamentação junto a Antt. Entre eles experiências técnicas também, de troca, de intercâmbio, de uma ferrovia que estava desenvolvendo uma nova tecnologia, porque eles desenvolvem também. Eles não só compram tecnologia, como eles desenvolvem, ainda mais hoje com as startups, mas antes disso mesmo já existia isso nas ferrovias, nas nossas ferrovias. O governo, quando passou para iniciativa privada, lá em meados da década de 1990, soube porque estava fazendo isso, porque realmente eles precisavam desafogar o processo de falência que estava a rede ferroviária, a extinta rede. E eles passaram pra iniciativa privada, justamente pra ela poder continuar um setor, assim, movimentado, que era o transporte de carga do país. Então, assim, é muito grandioso. E quando você está dentro da ferrovia, conhecendo as concessionárias, como é essa oportunidade de estar na associação, você vê que as ferrovias são um universo à parte. Você tem assuntos que são muito específicos. Então, você não pode falar que você, como engenheiro ferroviário, você saiba de tudo. Não, pelo contrário. Quanto mais você vai conhecendo uma parte da ferrovia, você vai descobrindo que tem outra pra você conhecer. (risos) Então, é um universo, realmente. E isso começa aí com a parte operacional: você tem pessoas especialistas só na parte de finalização, só na parte de comunicação, só na parte de via permanente. Então, assim, são várias gamas: material rodante, a locomotiva. Então, assim, são vários mundos só dentro da operação. Isso sem contar a parte administrativa, a parte regulatória, a parte patrimonial. Eu estava falando dos comitês. Então, eu comecei com o comitê operacional, passei a cuidar também e foi criado, na minha época, o Conselho aprovou o comitê de planejamento, que aí eu lidava muito com os técnicos mais projetistas, da área de planejamento das ferrovias. Também trabalhando com o comitê, passei a trabalhar com o comitê de meio ambiente, que estou até hoje com ele. É algo que tem me feito crescer, buscar e entender que dá, sim, pra equilibrar o desenvolvimentismo, o desenvolver, o crescer da ferrovia, da tecnologia, respeitando e dando essa sustentabilidade ao meio ambiente e à sociedade também, como um todo. Trabalhei também e trabalho ainda com o comitê de patrimônio, que é algo, assim, que cada dia a gente tem que estar descobrindo e refazendo, revisando, porque é muito dinâmico, é muito estratégico também. Então, tive a oportunidade de trabalhar com esses quatro comitês e ajudar as nossas associadas, as concessionárias ferroviárias de carga, a melhorar a cada dia, não só internamente, mas principalmente junto ao Poder Executivo questões conjuntas aí, questões comuns entre elas, que precisavam ser resolvidas no Executivo e ainda existem. E também no Legislativo. E chegamos a trabalhar também nessa parte ambiental, foi um grande desafio, em 2017, trabalhar no Conama, que eu falo que é um minicongresso, aprendi muito com a Patrícia Boson. Não era das ferrovias, mas trabalhou conosco nesse processo, porque ela, como consultora da CNT, nos ajudou muito. E ela, com a tecnicidade, com a facilidade de entender aquela tecnologia, a forma de transporte que é a ferrovia, a infraestrutura, que é linear. Nos ajudou muito, pra ajustar nas questões ambientais e fazer emplacar aí uma revisão de uma resolução muito importante pras ferrovias, que foi... isso aconteceu em 2016 e foi publicado em 2017. Então, eu só tenho que agradecer a Deus, assim. É tanta coisa que a gente aprende e cada vez, que muitas vezes as pessoas também acabam murmurando, né? “Nossa, Ellen, não acredito, a gente acabou de fazer tal coisa, agora tem que trabalhar com...” - isso nos comitês, né? – “Agora a gente vai ter que correr atrás de outra coisa”. Eu falo: “Que bom, gente, que ótimo, é sinal que tem muita coisa pra gente resolver”. Então, quer ver um engenheiro feliz, é falar pra ele que ele tem coisas para resolver. (risos) Então, assim, lógico que a gente aprende muito, lógico que a gente sofre, quero aqui aproveitar e agradecer ao diretor executivo da Antf, o Fernando Paes, que é uma nova gestão, ele é a segunda gestão que eu estou na Antf e ele me permitiu essa continuidade, deu toda essa liberdade, pra que eu pudesse continuar trabalhando naquilo que eu gosto, junto com as ferrovias e em comitês, que eu sinto que eu posso ajudar cada dia mais. E, lógico, sempre tô aí à disposição pra novos assuntos, outros assuntos. Mas eu gostaria muito de agradecer ao Fernando, por essa confiança e ao Conselho também, o diretor da Antf, por essa confiança no meu profissional e na pessoa que eu sou. Então, se eu estou há dezessete anos lá, não é só porque eu amo o que eu faço e acredito que mostro o resultado que eles precisam, isso o nosso executivo aí da associação, mas também resultados diretos aí com as nossas concessionárias. E, principalmente, pelo Fernando ter me permitido aí de conhecer novas pessoas, porque houve essa mudança toda, com a nova gestão, com a chegada dele em 2015. E eu pude conhecer outros profissionais, trabalhando junto, na Antf. Apesar do nome grande da associação, somos dez pessoas e a gente faz tudo com muita paixão, com muita dedicação, com muita união. E um querendo aprender e respeitando o tempo do outro e trocando ideias. E eu quero agradecer, assim, pela equipe hoje com que eu trabalho, são advogados esplêndidos aí: o Sérgio Valente, a Camila Rodrigues, são pessoas fantásticas. Nossa Relações Governamentais, hoje a Renata Segantin. E todos esses que eu tô falando representam aqueles que já passaram também na minha vida, ali na Antf. Então, eu tô colocando o nome dos atuais, mas vale também pra aqueles que já passaram por ali. Então, eu agradeço aí também a toda equipe, ao Mauro, que é o nosso Financeiro. Tem também, nessa equipe toda nossa aí, o Heider, que veio somar muito, que hoje ele é o gerente técnico. Eu passei por todas essas fases: eu comecei como assessora técnica, fui gerente técnica e hoje sou superintendente, mas vejo aí, nessas novas pessoas que estão hoje conosco, pessoas ávidas pra aprender e cada dia mais fazer o melhor pelas ferrovias. A Amanda Santos que formou outro dia, que é a nossa assistente técnica, também trabalha nessa parte mais da área técnica. Agradecer não só a Renata Segantin, das Relações Governamentais, não só o Jurídico, que eu já falei, o Sérgio, a Camila, o Mauro do Financeiro, mas agradecer também, muito, a Mariana, que é a nossa secretária, que resolve cada pepino! É fantástico, assim, como é uma equipe que se une e que um quer ajudar o outro. E, mesmo com essa pandemia toda, a gente soube se reorganizar, soube se adaptar. Nós estamos em home office até hoje, graças a essa visão das concessionárias também e principalmente do nosso dirigente, do Fernando Paes, da importância que é o ser humano, que se há a possibilidade da gente fazer o nosso trabalho em casa, que a gente pudesse fazer, da melhor forma possível. Lógico que aí, agora, estamos esperando a segunda dose da vacina, a tendência é a gente voltar aos poucos, enfim, estar ali também de forma física, na associação. Mas, assim, é de uma gestão humana, é de uma gestão voltada às pessoas, buscando resultado, mas olhando pras pessoas que estão ali. E não só a Mariana, a nossa secretária, mas também a nossa Maria querida, nossa copeira. Gente, é tão importante a gente ter pessoas, com formações menores ou formações esplêndidas, com pós-graduação, mas cada uma tem a sua importância. Então, quando a gente atinge algum resultado pras nossas ferrovias, eu vejo que a equipe toda da Antf, não interessa se estava frente o Jurídico, o técnico, a superintendente, mas todos nós, da equipe toda, sabemos que estamos fazendo o melhor, pra todas as ferrovias. E deixar claro que o que eu mais aprendo e o que mais tenho aprendido, nessa associação com as concessionárias, é que nós não sabemos nada e temos que estar sempre, sempre abertos a aprender tudo, a começar tudo, a resolver tudo. E, pra isso, vem uma pergunta que eu tive uma vez, porque aí eu tô falando de trabalhar no comitê, gente, que a gente está falando aí, no mínimo - se nós temos seis grandes grupos na associação e temos um titular e um suplente - doze pessoas por comitê. Tem comitês que a gente tem mais de trinta pessoas. E que a gente se organiza, se reúne hoje, seja de forma virtual, como estamos. E as pessoas, muitas vezes, me perguntam: “Ellen, como que você dá conta de tantas pessoas? Fazer com que a coisa ande, que a coisa aconteça”, aí eu falo: “Não é Ellen, a gente tem que olhar que cada uma dessas pessoas faz parte do quebra cabeça. Cada uma dessas pessoas faz parte desse importante trabalho”. E aí vem o que me liga muito, o que eu falei no início, que é a questão da arte. A música, se a gente for olhar, eu falo que, pra coordenar pessoas, eu olho como uma orquestra. Nesse momento, eu sou o maestro, que ao saber que música que vai tocar: “Ah, hoje eu vou tratar de meio ambiente. Que parte do meio ambiente? Ah, vamos tratar de fauna”. Eu já conheço, dentro daquela mini orquestra, que é o Comitê de Meio Ambiente, quais são as pessoas ali que vão fazer a melodia, que são os instrumentos principais, que é uma música de sopro, quem são os flautistas. Aí, no caso, a Renata Ramalho, que eu agradeço muito, da Rumo, que é a coordenadora de Comitê de Meio Ambiente comigo. E que sei que ela faz parte aí dessa turma que tem culpa de ter me colocado aqui, (risos) de eu estar conversando com vocês. Agradeço muito a ela. Então, essa orquestra, gente, quando a gente percebe que a música é de sopro, a gente sabe quem são as pessoas que sabem tocar flauta. E, ao mesmo tempo, a gente sabe quem são aquelas pessoas que dão a base, que dão o ritmo. Então, todos se complementam, independente dos instrumentos serem diferentes, cada um sabe o seu momento. Quando vai aparecer mais a melodia, quando vai ter a batida mais forte. Então, isso que me cativa: eu olhar que eu tenho uma equipe dentro da Antf, junto com o nosso diretor executivo, que ele tem essa equipe, que ele é um grande maestro e que faz com que a gente tenha, cada dia, motivação de ajudar as ferrovias e cada comitê, a gente poder fazer refletir isso, de sermos também o maestro. Lógico que a gente nunca vai ser maestro maior de todos, que é Deus, né? Mas é dessa forma que eu tenho aprendido, na Antf, ao longo desses dezessete anos, olhar e ver, entender e conhecer cada pessoa que está no comitê e ter esses olhos de saber: aquela pessoa, o que ela domina, qual a qualidade que ela tem, pra saber, na hora certa, qual música ela vai tocar, junto com todos. Isso não significa que existem solos e sim que há momentos em que, para uns a melodia fica mais forte, ela aparece mais, mas não significa que não tenham outros fazendo coro naquela melodia. Então, assim, é muito... eu gosto dessa visão lúdica e essa visão musical do que é trabalhar em equipe, porque eu faço dessa forma, de coração. Muitas vezes a gente tem que afinar e reafinar instrumentos, muitas vezes a gente tem que ser dissonante, sim. Eu que gosto muito de música brasileira, gosto de uma dissonância. (risos) É bom porque, quando existe a dissonância, a gente tem que fazer reencontrar a harmonia. Então, assim, é importante tudo. E essa oportunidade que vocês estão me dando aqui, de me rever e ver como profissional e também como pessoa, o que motivou cada uma dessas etapas, o que me motiva a ser assim, uma mulher que cresceu, amando a sua família, conhecendo pessoas incríveis, fazendo grandes amizades, tendo novos irmãos, como a minha irmã Helena Tepedino, que você tem aqueles irmãos de sangue e você tem aqueles irmãos que você escolhe. Então, eu tenho essa grande irmã, aqui em Brasília. E, ao mesmo tempo, a gente ter não só a nossa família, mas a gente saber andar com as próprias pernas, crescer nesse mundão de Deus, sempre estando e colocando na mão Dele tudo que acontecesse na minha vida. E ter profissionais incríveis, que passaram na minha vida e que puderam me dar essa oportunidade, de enfrentar tantos desafios. Não só por ser mulher, mas por ser engenheira, que eu só pensava em não trabalhar com construção civil. E hoje, eu penso só em trabalhar com transporte. E hoje, eu vejo que o transporte, a Engenharia, é como uma Medicina também, que muitas vezes não é propagado isso. A Engenharia Civil principalmente, todos pensam: “A pessoa fez Engenharia Civil, ah, ela vai cuidar de uma obra” “Ah, eu fiz um mestrado em transporte” “Ah, então você vai construir estradas?” “Não”. A Engenharia também é esse leque. As pessoas precisam saber que a Engenharia é uma base, pra você poder trabalhar naquilo que você quiser, seja em gestão, seja em construção, seja em projetos. É como a Medicina, que tem vários leques, a Engenharia tem vários leques. E, assim, eu só tenho que agradecer muito a Deus, por cada pessoa que ele colocou na minha vida, pra eu ser hoje a pessoa que eu sou, a família que ele me deu, os pais que eu tenho: Moisés, Maria, que eu amo de paixão os dois. Os amigos. E esses profissionais e colegas incríveis, que me deram essa oportunidade, esse privilégio de troca, de experiências, de aprendizado e até mesmo de afago, né? Já fui condecorada com a Medalha JK, que é uma das maiores medalhas do setor de transporte. Isso há dez anos e agora, depois de dez anos, receber essa grande valorização, que é também, de certa forma, você poder ser visto e ouvido e conhecerem a sua história, que é essa oportunidade que a Rumo está me dando hoje, de estar conversando com vocês do Museu da Pessoa, pra dividir o meu lado mulher, cristã, profissional e ferroviária, pra dizer que as mulheres, sim, têm capacidade, que sim, nós podemos fazer acreditarem em tudo que a gente amar e a gente quiser desenvolver na nossa vida. Seja ela no lado pessoal, espiritual, profissional. E em Deus, passei a encontrar a melhor forma de entender os anseios e transmitir o conhecimento, isso pra mim foi fundamental. E ter essa segurança de passar aquilo que eu gosto, de fazer da melhor forma que eu gosto. Então, o trabalho que envolve, pra mim, homens e mulheres, traz crescimento e desenvolvimento aí de aprendizado, não só pro ambiente profissional, mas pra nossa vida pessoal. E tive esse privilégio de trabalhar com várias mulheres e vários homens. E justamente nos dá esse crescimento e desenvolvimento ter esses dois lados juntos, porque são mundos que se complementam. Então, a gente precisa respeitar muito isso e fazer com que as pessoas entendam que, tanto a mulher, quantos os homens, podem trabalhar e têm o direito de crescer naquilo que quiserem, na profissão que quiserem. E espero aqui que essa troca, dizer um pouquinho de mim. É meio difícil pra mim, confesso pra vocês, porque é mais fácil pra eu estudar e aprender e dizer de coisas técnicas, conversar algo que não sou eu. Então, pra mim, aqui, está sendo um desafio grande, também, poder dividir com vocês um pouquinho de mim, porque vocês puderam perceber aí que eu sou apaixonada pelo meu trabalho e acaba que o meu foco, muitas vezes, é muito mais o meu trabalho. Mas, sim, tenho o meu lado pessoal, tenho o meu lado humano, tenho os meus amigos, tenho a minha família, que todos eles eu lembrei aqui. Meus tios, tias também, amo vocês, tanto dos Capistrano, quanto dos Martins. E saber que, depois de dez anos, receber uma Medalha JK, depois de dez anos eu receber uma valorização que eu considero ainda maior, que é a pessoa (choro), que é o profissional, que é essa pessoa que está por trás desse profissional. Você poder se mostrar e dizer pra várias gerações, aqueles que puderem assistir um pouquinho da minha história, pra que isso possa inspirar outras gerações e mulheres, mesmo, a serem engenheiras ou não. Ou buscarem uma outra área, mas que sejam, que não seja Engenharia, mas também uma outra área, que muitas vezes elas acham que: “Ah, mas ali é muito masculino”. Não. Você pode chegar com o seu feminino, você pode ser o que você quiser. E você pode atuar na área que você quiser, isso depende só da sua dedicação e que você vai longe e com a bênção de Deus nós vamos mais longe ainda. Então, pra mim, eu me sinto muito honrada, com mais de vinte anos aí de carreira, de ter sido indicada aqui pra essa... que eu considero uma homenagem. Você deixa um pouco de si para muitos. E espero que, apesar de todo o choro, (risos) vocês tenham entendido um pouquinho da Ellen. E tenham entendido o quanto eu sou grata, o quanto eu agradeço a todas as pessoas que passaram na minha vida: amigos, família, profissionais, colegas. Todos, todos eu só tenho que agradecer e principalmente ao nosso Deus, que eu sei que, sem Ele, eu não estaria aqui em Brasília. Sem Ele, eu não teria tantas oportunidades, tantos leques. Então, eu só tenho que agradecer e que a nossa humanidade entenda o que é importante, que é o respeitar e trabalhar de forma unida, pra que todos tenham o seu melhor. Então, agradeço muito a vocês por essa oportunidade de poder estar aqui e dividir com vocês tudo isso que a gente conversou hoje. Espero que tenham gostado, muito obrigada.

 

P/1 – Ellen, são cinco horas, mas eu queria saber se você tem só mais um minutinho, um tempinho, porque eu queria saber: pra você, assim, qual a importância do seu trabalho na ferrovia e agora também, com o meio ambiente, mas a importância individual, pessoal e também pro país?

 

R – Ah, sim. Nossa, é difícil isso, viu, Luíza, porque, como eu tenho essa visão coletiva... (risos) sozinha é complicado, porque eu me vejo num trabalho conjunto. Então, digo aqui pros meus colegas das ferrovias e da própria Antf, que todo trabalho que eu faço, eu sei que é uma sementinha, é um ponto no meio de todo um conjunto aí de equipe, de pessoas envolvidas. Mas o nosso trabalho, a importância dele é em defesa de um país que tenha mais ferrovias, que esse setor possa transportar cada dia mais carga para esse país, pra que isso haja uma redução no custo do transporte no nosso Brasil. Respeito muito, cada modo de transporte tem a sua vantagem e tem o seu benefício. O rodoviário, a flexibilidade que tem nas pontas. O hidroviário, o ferroviário, vencer grandes distâncias, com grandes escalas de produção. E o nosso país é continental. Então, quando a gente para pra pensar que a gente, quando ajuda, em uma norma na agência, uma resolução no Conama, normas técnicas na Abnt, todo esse trabalho não é em prol só das ferrovias, mas de que o país tenha uma melhor forma de escoar a sua produção. Então, muitas vezes as pessoas acham que você trabalha com ferrovia, então você está trabalhando na operação da ferrovia. Não necessariamente. Então, a associação é esse elo de unir esforços com as concessionárias, de algo pra que possa se melhorar a cada dia mais, situações que são encontradas no dia a dia. Então, eu entendo que, apesar de a gente não estar na ponta, a gente ser o elo, a gente tem ajudado muito as nossas ferrovias, inclusive o nosso país, pra que a gente tenha esse desenvolvimento que o Brasil tanto busca, há décadas. Porque cada vez que você pode ter opções de modo de transporte, principalmente cada transporte estar agindo no seu meio mais vantajoso, que foi aquilo que eu disse anteriormente, você está permitindo um equilíbrio da matriz de transporte. E isso é importantíssimo, quando tem esse equilíbrio na matriz de transporte, você está falando que você vai reduzir custos de transporte. Reduzir custo de transporte de carga, a gente está dizendo que vou reduzir custos pra população também. Muitas vezes tem aquela visão e as pessoas têm o sentimento de que ferrovia ou enxergam a ferrovia só quando está num vagão de passageiro, quando está sendo transporte de passageiro. Mas é ótimo, é excelente ter o transporte de passageiros, ir e vir do ser humano é muito importante. Mas, por outro lado, nós temos que lembrar que, mesmo que aquilo parece não ser diretamente pra população, que é o transporte de carga, a ferrovia de carga também é muito importante, pra que te dê qualidade de vida, no sentido de você chegar no supermercado, você chegar no restaurante, o produto que você está consumindo, o transporte dele teve uma redução de custo. Isso não só porque foi pela ferrovia, ou foi por uma hidrovia, mas por ter essa integração do modo de transporte nesse país. E em especial esses de grande escala, que é a ferrovia e a hidrovia. Então, quando a gente está falando disso, eu acho que cada trabalho que a gente faz e ajuda as nossas associadas, que são concessionárias de transporte ferroviário de carga, a resolver uma questão no Poder Executivo ou até mesmo no Poder Legislativo, eu tô ajudando, para que as ferrovias transportem cada vez mais, com preço melhor e que isso vai resultar no crescimento e desenvolvimento do nosso país. Então, pra mim, isso eu não vejo só um trabalho técnico, de discussões técnicas junto ao Executivo ou ao Legislativo, em prol do setor, mas que vai resultar em melhorias e adequações e resoluções para esse setor. Ainda mais agora, que a gente teve um momento tão importante, que foi passar a ter, isso foi enfrentado no Executivo, por meio do Legislativo, que foi a prorrogação dos contratos da década de noventa. Isso está permitindo com que as atuais concessionárias de carga possam ampliar a capacidade daquelas ferrovias, que antes, quando foram cedidas, lá na década de noventa, não foi estabelecido investimentos pra elas. Foi estabelecido meta, foi estabelecido o meio de produção e segurança. Agora, com essa obrigação de investimento, na prorrogação dos contratos, as ferrovias terão essa oportunidade, a iniciativa de ter essa oportunidade, de malhas já existentes de ferrovias serem aumentadas na sua capacidade, de serem melhoradas a sua capacidade. Então, isso é algo que, até quinze anos atrás, ninguém pensava. Só se pensava que o que estava com o Poder Público foi passado pra iniciativa privada, lógico que pensando que ela crescesse, mas sem ter essa visão dos investimentos necessários. E agora, sim, elas passam a ter condições de fazer isso e que tenham e venham mecanismos que permitam cada vez mais isso. Não só pra melhoria da malha existente, mas expansão da malha ferroviária brasileira. Espero que a Ferronorte chegue à Cuiabá. (risos) Como eu falei no início, corri atrás do trem, fui atrás do trem, saí do meu estado, quando ainda nem existia ferrovia e hoje a gente fala com orgulho: a gente tem ferrovia até Rondonópolis e a gente quer que avance mais. É muito importante esse trabalho que eu faço, porque é de muita responsabilidade. Porque você tem que harmonizar e unir esforços, em prol desse setor. E o setor do transporte, como um todo, precisa também unir e não falar só esse ou aquele modal. Todo transporte precisa se unir, pra que a gente tenha uma matriz de transporte integrada nesse país, um planejamento integrado, que é o que vem acontecendo, desde que foi criado o PPI. Então, a gente vê que a importância acaba, muitas vezes, até extrapolando porque, se você pensar que você está ajudando ferrovias de um país e que isso ajuda a produção, tanto interna quanto externa, então, é algo grande e é algo de muita responsabilidade. Então, eu só tenho a dizer isso: que o trabalho que eu faço, mesmo sendo tecnicamente, técnico-regulatório, de você lidar com normas, leis, enfim, esse mecanismo, por justamente ser um setor altamente regulado, é que faz com que ajuste e melhore questões, pra que as ferrovias desse país cresçam, cada dia mais. E as ferrovias são de uma grande importância e passou décadas aí sem ter dada a sua devida importância, desde que veio o modal rodoviário, é importante o nosso país ter o rodoviário também, foi quando começou a se deixar lado a ferrovia, por isso entrou num processo de falência as ferrovias no país, na década de 1980. Mas, hoje, após de mais de vinte anos trabalhando e sempre acreditando que esse país, um dia, ia ver a importância e ia acreditar e em investir e trabalhar em cima da ferrovia, hoje a gente tem visto isso. Hoje a gente tem visto que algo que era plano de governo, passou a ser plano de Estado porque, quando a gente fala do que está sendo feito hoje, é algo que foi planejado não nesse governo, mas no governo anterior. E é importante a gente ter plano de Estado, seja plano de país e não do plano do governo do momento. E que as ferrovias nesse país continuem trilhando o melhor possível, pra fazer esse Brasilzão de meu Deus crescer mais e mais e mais. Então, te respondendo, Luíza, é de muita... eu coloco que o nosso trabalho é de muita responsabilidade. E também é um trabalho de formiguinha que, ao mesmo tempo, tem que unir esforços, buscar alternativas e alternativas sempre técnicas, legais, corretas, pra gente fazer com que as nossas ferrovias possam, cada dia mais, atender mais e mais e mais essa grande produção, que é o nosso Brasil.

 

P/1 – Ellen, mais três perguntinhas super-rápidas. Queria saber o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer, pra além do profissional, a Ellen pessoal. 

 

R – Ah, sim. Bom, gente, eu fui interrompida no balé, mas eu confesso pra vocês que eu gosto de dançar um pouquinho de vez em quando. Agora na pandemia, está mais difícil, não dá pra aglomerar. Mas, independente de pandemia, fora questão de dança, eu gosto muito de fazer as minhas caminhadas aqui em Brasília, não sei se vocês sabem, fecha o Eixão nos fins de semana. Então, é a oportunidade que eu tenho pra caminhar e, ao mesmo tempo, meditar, orar, conversar com Deus e enxergar pessoas, ver rostos diferentes, enfim. Eu sou muito... vamos dizer assim: eu gosto de fazer coisas sozinha, vamos dizer assim. O meu momento sozinho é esse, nas minhas caminhadas e o Eixão tem me ajudado muito nisso. Então, é uma planta, uma árvore, tantas coisas novas que a gente vê ali e diferentes pessoas, rostos diferentes também, isso é muito importante. E a Ellen também, sempre, quando eu posso, encontro com as minhas amigas. Agora a gente está nesse momento de pandemia, tudo é mais complicado. Mas a gente faz videoconferência. Amo um vinho, um bom vinho tinto. Como o meu amigo português, o ‘seu’ Manoel, diz: “O bom vinho é aquele que você gosta” e eu gosto de um vinho tinto seco, muito bom. E tenho amigas que gostam também de vinho. (risos) Então, a gente gosta de trocar ideias, mesmo que virtualmente, cada uma com a sua tacinha em casa, mas trocar ideias, conversar, saber o dia a dia, saber o que acontece. Então, trocar um pouco com as minhas amigas. Fora a pandemia, quando tenho encontro com os meus amigos, eu me reúno, faço um mini sarau aqui no meu apartamento, que eu ainda toco piano. Então, aproveito pra tocar várias músicas, relembrar outras músicas. Então, assim, é mais cultural e infelizmente, assim, o lazer da Ellen agora está um pouco limitado, porque muita coisa a gente teve que se restringir e se preservar, em função da pandemia. Mas, fatalmente, fim de semana ou dia de semana, algo que eu gostava muito aqui em Brasília e com o tempo foi parando, era ir ao Teatro Nacional, quando tinha os ensaios da orquestra, do Teatro Nacional aqui de Brasília, a orquestra de Brasília. E a gente ia pra ver esses ensaios, eram magníficos. Então, não precisava esperar pra ter uma apresentação da orquestra, a gente podia assistir. Hoje a gente não está podendo fazer mais isso. Nas terças-feiras, a gente ia ao Teatro Nacional. Então, assim, hoje eu tô numa cidade que tem várias culturas, né, tem vários escapes pra você ver museu. Então, tem o Centro, aqui, Cultural do Banco do Brasil, que virava e mexia, tinha “N” exposições, não tão aí como aí em São Paulo, que tem o Masp. De vez em quando eu corro pra São Paulo, pra ver um pouquinho do que tem de cultura. Mas aqui em Brasília, a gente tem também, mas hoje em dia está mais limitado isso, em função da pandemia. Então, mas pra preencher esses... o que a Ellen faz sozinha, com os amigos, que é uma boa comida também, né? É ir a um bom restaurante, poder sentir o prazer de uma boa comida italiana, francesa, indiana, japonesa. Olha, eu vou te falar: Brasília está correndo atrás, não está perto ainda, podem ficar tranquilas, mas está correndo atrás de São Paulo, viu, que aqui a gente tem muita opção. Então, assim, além disso tudo, a gente hoje está mais reflexivo, está mais em casa, justamente pela questão de resguardar os nossos amigos, as pessoas que estão à nossa volta, em função da pandemia. Mas, se tivéssemos normal, a Ellen estaria indo aí em várias questões culturais, encontrando os amigos e principalmente aos domingos, isso independente de pandemia ou não, é o meu dia de... não só todos os dias eu reservo um momento para conversar com Deus e ler sua palavra, hoje cada dia mais eu tenho buscado isso, mas ter um dia realmente que a gente para pra glorificar e louvar. Então, são os meus domingos de manhã. Hoje, com a pandemia, eu assisto de casa, mas senão estaria na igreja, na Igreja Presbiteriana, aqui em Brasília. Eu ia muito na nacional, antes da pandemia. É isso. Então, assim, o tempo que eu tenho, assim, outras diversões, eu acho que com a história... vamos pensar sem pandemia, né? Então, uma coisa que eu gosto também, muito e a gente está esperando o momento aí de poder fazer bastante isso: é viajar, amo viajar, conhecer outras culturas, ver esse interiorzão do país, mas também conhecer culturas de fora, amo a Europa. E ter essa oportunidade de estar em lugares históricos e saber que ali aconteceu isso ou aquilo outro e conhecer o jeito de falar, o jeito, a comida, a culinária de cada país e de cada estado, porque o nosso país é um continente, né? Se a gente for pra Minas, a gente tem um banquete diferente da nossa Bahia, que é diferente do Espírito Santo, do Rio de Janeiro, cada canto do país... do nosso Mato Grosso. Então, assim, cada canto do país tem muita coisa pra gente conhecer e eu amo muito viagem. Então, eu gosto muito de viajar e é uma forma muito boa, de recarregar baterias, isso eu recomendo pra todos. (risos) 

 

P/1 – E, Ellen, o que o transporte, o setor ferroviário representa na sua história?

 

R – O transporte vem desde o lado emocional, que é lembrar do meu avô e hoje se resume ao trabalho que eu amo, que eu me dedico e que eu vejo como algo muito importante, não só para quem trabalha com ele, com transporte, mas pra qualquer pessoa desse país, porque é o ir e vir. O transporte significa isso: é o ir e vir, seja um transporte que não tenha tração, como uma bicicleta, é o ir e vir de bicicleta. É o ir e vir de várias formas, né, com o seu carro, com o trem, com o VLT. É o ir e vir do seu dia a dia, no transporte urbano. Ou é também o ir e vir de realização de sonhos, de conhecer outras cidades, de conhecer até mesmo outros países. Então, eu olho o transporte como meio de integração, de realização dos sonhos, de conhecer cada canto, seja de um país, seja de uma cidade, enfim. Ele nos une, ele nos liberta. Ao mesmo tempo, ele faz com que a gente possa estar em vários lugares, lógico, cada um a seu tempo.

 

P/1 – E, por fim, queria saber quais são os seus maiores sonhos, hoje em dia?

 

R – Olha, o meu maior sonho é poder... eu tô realizando um deles hoje, falando com vocês, que é justamente isso: poder transmitir pras pessoas, o quão bom é você poder trabalhar com aquilo que você gosta. Isso não é clichê, gente. Você escolher algo que você realmente descobriu que ama e que você realmente pode fazer melhor e que você pode ajudar pessoas, enfim, outros setores, o que resulte e poder dividir isso. Então, assim, um sonho que eu tô realizando é esse, de poder dividir um pouquinho de como foi essa trajetória, essas oportunidades, que uma das oportunidades eu esqueci de falar: estando na Antf, me permitiu que, no momento não estou fazendo, infelizmente, mas fiz muito, a partir do momento que passei a fazer parte da Antf, da associação, que é dar aula. Então, eu dei aulas sobre regulação ferroviária, em cursos de pós de graduação do IME. Dei palestra no ITA, dei palestras na CNT, dei palestras no GTran. E é um sonho poder dividir um pouquinho do que a gente sabe e um pouquinho, não só do conhecimento, mas das experiências, para que outros possam e você possa colocar uma sementinha e ver que outras pessoas se enxerguem também nesse setor, que é o transporte, em especial aí as ferrovias. Eu acho que um dos sonhos eu tô realizando hoje, que é atingir o maior número de pessoas, contando um pouquinho do que é ferrovia, contando um pouquinho do que é a Ellen, contando um pouquinho do que é ser mulher, num setor altamente masculino. Inspirar, estimular pessoas a acreditarem em si, principalmente ter fé em Deus, que Ele realmente nos leva a conquistar patamares inimagináveis. Então, assim, pra mim um sonho eu tô realizando hoje, que eu nem imaginava receber esse convite e agradeço a vocês e a Rumo. Em especial a Rumo, em nome da Renata Ramalho. E outros sonhos que eu tenho: tenho o sonho de poder continuar a fazer o que eu amo e poder dividir e aprender, cada dia mais, com todos. E estar cada dia mais entrelaçada e entendendo cada dia mais o que é a palavra de Deus. Eu sou uma pessoa cristã e, lógico, longe de família, longe de tudo, o meu balizário, o meu norte sempre foi Deus. E hoje, cada dia mais eu quero isso na minha vida e tenho procurado mais ainda. Então, assim, meu sonho é poder também não só colocar essa sementinha do potencial que cada pessoa é, que pode conquistar tudo o que ela planeja, mas principalmente a semente do amor, que se chama Cristo, que se chama Deus.

 

P/1 – Muito obrigada por essa tarde! Foi muito gostoso, muito importante. Foi uma aula sobre vida, sobre potência, sobre encontros, sobre escolhas. Muito, muito, muito obrigada.

 

R – Eu que agradeço, Luíza e lógico que a parte do “chororó”, vocês cortam. (risos).

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