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História de: César Ubaldo Cardoso Câmara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

César Ubaldo nasceu no em Florianópolis em 1937. Sua família é toda do sul do país. Quando criança, morou um tempo com seus avós em um sítio, período da vida que lhe guardou boas lembranças. Estudou em um colégio interno em Niterói e formou-se depois em Estatística, área ainda pouca explorada na sua época. Já começou a trabalhar em órgãos governamentais depois de formado, como Asplan e Banespa. Seu cunhado o convidou para entrar na Vale do Rio Doce, que não tinha nenhum estatístico, nem matemático na equipe. César acabou sendo uma das principais figuras do setor de comércio e vendas da Vale, chegando a ser assessor do presidente Raimundo Mascarenhas. 

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História completa

P/1 – Boa tarde, nós começamos sempre pedindo às pessoas que se apresentem, digam local e data de nascimento, por favor, nome completo.

 

R – Meu nome é César Ubaldo Cardoso Câmara, meus pais Lourival Câmara e Julia Câmara. Eu nasci em Florianópolis, Santa Catarina, em 21 de março de 1937. Meus pais também são de Santa Catarina, família Câmara é de Santa Catarina, passei minha infância em Santa Catarina. Nós viemos para o Rio logo depois da Segunda Grande Guerra, em 1946. Meu pai era professor universitário, veio trabalhar num IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, na ocasião não era ainda Fundação. Comecei praticamente meus estudos secundários aqui no Rio.

 

P/1 – Voltando um pouquinho à Santa Catarina, seus pais são também de Florianópolis?

 

R – Meus pais são de Florianópolis. Meu pai é da família Câmara e aí tem uma coisa interessante porque a família Câmara existe e ela se espalhou pelo Brasil todo mas basicamente tem um tronco da família Câmara no Norte, Câmara Cascudo... enfim tem um tronco grande lá. E outro tronco grande no Sul. Até curioso porque o pessoal pergunta, existiu um cardeal no Rio de Janeiro que era o Cardeal Dom Eugênio de Barros Câmara que era meu tio e existiu na Igreja Católica um padre conhecido que é o Dom Elder Câmara, que deu nome a vários empreendimentos sociais aqui no Rio de Janeiro. E sempre se pergunta se os dois eram parentes, se havia algum parentesco dos dois. Na realidade, não imediatamente, mas ambos provém de uma caravela que afundou nas costas de Santa Catarina. Então um tronco ficou em Santa Catarina e outro foi para o Norte e deu origem a dois troncos da família Câmara. E meu pai então era primo irmão de Dom Eugênio Câmara, nasceu em São José, em Santa Catarina e a família toda é de lá. Mas hoje praticamente não tem mais ninguém em Florianópolis.

 

P/2 – Essa história... foi uma caravela que afundou?

 

R – Isso deve ter sido no final de 1700, em torno de 1800. Isso é fato conhecido, já faz parte da história de Santa Catarina. De forma que meu pai é descendente e eu sou descendente desses primeiros Câmaras que chegaram no Brasil. Não sei precisar a data, mas foi mais ou menos, para ser caravelas deve ter sido por aí.

 

P/1 – E a família de sua mãe?

 

R- Minha mãe também é de origem açoriana, são os primeiros açorianos que vieram para o Brasil, foram para Santa Catarina e ela e toda a família dela também é de Florianópolis.

 

P/1 – O senhor tem que lembranças de Florianópolis, de infância? Onde morava, a casa onde morou.

 

R – Olha, as lembranças que eu tenho são muito gratas porque meu pai era pobre como todo professor, não tinha recursos. Quando eu nasci eu fui morar com meus avós maternos perto de Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina chamada Itacorubi. Então lá eu passei minha infância, minha meninice com eles lá. Então essa imagem para mim, essa recordação é muito grata, vivendo em fazenda, brincando em fazenda. E eles praticamente ficaram comigo até uns dois ou três anos de idade. Só quando eu comecei a estudar que eu fui para o primário, que eu fui estudar em Florianópolis e aí eu ia de charrete com o meu avô pra estudar num curso primário em Florianópolis. Eu não queria, mas era obrigado a ir. Só depois que meu pai e minha mãe se acertaram mais ou menos é que realmente eu fui morar com eles em Florianópolis. Aí eu fiz o primário lá no centro da cidade. Mas é uma memória interessantíssima. Toda vez que eu lembro desse episódio – eu há pouco tempo vi num depoimento do Gabriel Garcia Marques no “People and Arts” no canal a cabo. A pergunta era exatamente essa “Porque nos seus romances o senhor fala em Macondo? Qual a origem da palavra Macondo e porque...” Macondo é o Itacorubi meu, daquela época. “Macondo é uma cidadezinha que eu parei, andando de trem pelo interior da Colômbia com a minha avó. O trem parou por uma razão qualquer e eu parei na porta de uma fazenda e estava escrito Macondo” e veio dar origem a todo romance dele. Existe um lirismo nisso que a gente não perde. E foi assim, foi muito grata.

 

P/1 – E a convivência com os avós?

 

R- Avó é sempre melhor que a mãe, sempre trata a gente melhor. Era afastado de Florianópolis, era um sítio, uma fazenda com um rio atrás, coisa linda assim.

 

P/1 – Você poderia descrever um pouco como era?

 

R – Havia um contraponto muito grande entre meu avô e minha avó porque ele era uma pessoa dura, pelo menos é como eu vejo na ótica de hoje, um empresário, um empreendedor. Ele sofreu alguns reveses na vida sérios, o primeiro deles, que vale a pena caracterizar, é que meu avô tinha o monopólio de transporte da Ilha do Continente para a Ilha de Santa Catarina. Ele tinha aquelas lanchas que faziam o transporte de mercadorias e de passageiros. Com a Revolução de 1935, o governo encampou esse transporte, ele perdeu tudo e logo depois o governo decidiu construir a ponte, hoje a ponte Hercílio Luz que liga Florianópolis com o Continente. Então a ponte e o fato de ter sido encampado pelo governo acabou com a atividade. Então ele começou a se virar, a fazer outras coisas. Comprou uma fazenda, comprou esse sítio onde nós vivemos muito tempo. Depois que eu vim para o Rio eles ficaram lá. E o contraponto é que minha avó era um doce de pessoa, que não participava nada disso, alheia a toda essa coisa, mas um doce de pessoa, uma “Nossa Senhora”, grata para mim, grata na minha formação. Praticamente me educou desde o começo. Extremamente preocupada com o primeiro neto dela. Tem episódios interessantes porque ela se preocupava muito comigo e a fazenda, o sítio dava para um pasto grande onde se criava ganso, galinha, cavalo, uma porção de coisa. Uma vez, eu era pequenininho, eu abri a porteira do pasto e os gansos me atacaram e me machucaram. Quando ela me viu eu caído no chão, bicado e cheio de sangue, coitada, teve um derrame. E aquilo teve sequelas, ela perdeu... na época foi uma coisa traumatizante. Depois recuperou, com fisioterapia recuperou um pouco. Mas aquilo foi um fato que marcou muito a minha infância com eles. Depois eu vim para Florianópolis e foi perdendo um pouco aquela inocência, aquele lirismo, aquela poesia do começo da meninice.

 

P/2 – E os seus pais, como era o convívio com eles?

 

R - O convívio era bom. Meu pai casou mais ou menos na idade, mas a minha mãe quando eu nasci ela tinha dezesseis anos ainda. Então devia ser uma relação difícil. Ela praticamente menina ainda, ser tirada de casa com dezesseis anos, tendo o primeiro filho, tendo que sustentar o primeiro filho e ele numa atividade mais intelectual, tendo que dar aulas, tendo que sobreviver a duras penas porque não era fácil professor. Dava aquelas aulas dele. Não tinha o suficiente para viver confortavelmente, não era uma família de pessoas abastadas. É uma lembrança gratificante. Pouco tempo depois eu nasci, minha mãe ficou grávida novamente e foi traumatizante também porque nasceu uma menina e menina viveu uns três ou quatro dias e morreu também do coração. Depois eles insistiram e eu tive mais duas irmãs, a Kenia (?) que hoje já é falecida e a caçula, a Julinha. Logo depois da Guerra, início de 1947, o meu pai foi convidado para vir trabalhar no Rio no IBGE então nós viemos para cá. Era o Admirável Mundo Novo para mim da qual fazia parte Coca-Cola que eu não tinha a menor noção do que se tratava, eu só conhecia Coca-Cola de retrato, naquele tempo era aquela Coca-Cola pequenininha, não tinha menor noção do que se tratava, só via em jornal e revistas. A gente tomava, quando tomava, era gasosa, um suco de groselha com alguma coisa. Outra coisa que quando cheguei no Rio, eu achei muito engraçado é que não tinha picolé. Naquela época não existia picolé, existia o sorvete que você faz no meio da rua. Então existia uma coisa que chamava Kibon. Eu me lembro que quando eu cheguei aqui eu estava louco para tomar aquele Chicabon da Kibon e experimentei e achei horrível, tanto a tal da Coca-Cola quanto o sorvete da Kibon.

 

P/1 – Veio morar onde no Rio?

 

R – Vim morar em Copacabana no posto 6.

 

P/1 – Em que rua?

 

R – Na Avenida Copacabana, no começo, esquina com a Júlio de Castilho. Aliás, ali marcou, eu fiquei impressionado que algum tempo depois que a gente já morava lá, uma vez eu acordei, eu estudava no Mello e Souza – ia a pé para o Mello e Souza – um dia eu acordei desci para ir para o colégio, peguei a mala e uma barulheira ensurdecedora. Eram os tanques do exército que estavam chegando, porque naquela ocasião o Café Filho era o Presidente da República. Eu participei, fui protagonista daquela cena histórica: os tanques na Avenida Copacabana, não sei nem se alguém fotografou, filmar eu não acredito, mas pelo menos deve ter alguma fotografia dos tanques invadindo a Avenida Copacabana naquela ocasião. E a coisa ocorreu assim mais ou menos uma juventude...

 

P/1 – Se podia frequentar o Forte de Copacabana?

 

R – Não porque naquele tempo... hoje não, porque está desativado, é praticamente um museu. Mas naquele tempo era um Forte, um quartel importante da Artilharia de Costa. Então só vi a manifestação de dos canhões, o barulho dele na ocasião. Dava para ir visitar, para conhecer. O Forte de Copacabana ficou conhecido pela Revolução dos Tenentes. Era bastante conhecido.

 

P/2 – Vocês se divertiam como aqui, no tempo de juventude, como eram as diversões?

 

R – Olha, para quem mora na beira de praia como nós, a diversão era ir à praia, jogar o chamado futebol de areia. Praticamente passava, não tinha esse leque de alternativas que você tem hoje.

 

P/1 – Naquela época já tinha as turmas da praia?

 

R – Vária turmas e a mais famosa das turmas é uma turma conhecida no Posto 6 chamada “Lá vai bola” que era um grupo de futebol de praia, conhecido. Era o principal time de futebol de areia de Copacabana, posto 6. Então a diversão era essa, participar, jogava vôlei, enfim aquelas diversões mais de praia. Isso durou um certo tempo porque é claro que nesse ambiente descontraído eu não sentia muito entusiasmado a estudar, então resolveram me colocar no colégio interno. Fui para o Colégio Interno Salesiano lá em Niterói, aliás por obra e graça do cardeal na ocasião, que era meu tio. “Você está precisando de um arrocho, vamos te colocar num colégio interno de padre para você ver o que é bom.” Fui para lá e fiquei uns quatro anos, o restante da vida escolar, ginasial e científico. Aí fiquei trancado no colégio interno, aquelas lembranças todas de colégio de padre.

 

P/2 – Conta um pouco dessas lembranças de viver nesses colégios.

 

R – Essas lembranças não são muito... primeiro que era longe, naquele tempo para ir para Niterói era aquele inferno, não é como hoje com a ponte que você atravessa em cinco, dez minutos está em Niterói. Naquele tempo você tinha que pegar um bonde, que saia do Posto 6 e ia até o centro da cidade, até o Tabuleiro da Baiana, depois tinha que ir a pé  do Largo da Carioca até a Praça XV, pegava aquela barca que demora pelo menos uns 40-45 minutos para atravessar a baía, tinha que pegar outro bonde para ir de Icaraí até o Colégio interno, de modo que era desestimulante passar o final de semana em casa. Ninguém queria ir, tinha vontade mas desanimava. E férias era duas vezes por ano, no meio do primeiro semestre e outra no meio do segundo semestre, então a gente ficava era preso mesmo no colégio e tinha que se contentar com aquilo. E as visitas, a família só podia fazer uma vez por mês, minha avó que vinha de Santa Catarina para me ver, tinha que fazer toda essa Via Crucis para sair lá da zona sul, de Copacabana pra ir me ver em Niterói. Era interessante porque fazia um esforço coitada porque você saia, ela vinha de hidroavião de Florianópolis e aterrizava em frente ao Santos Dumont, tinha um terminal de passageiros de hidroavião. Então aquilo era uma sensação, o avião aterrizava na Baía de Guanabara, o hidroavião e você ia de lanchinha até atracar junto ao avião dela para ela descer e pular para a lanchinha e depois ir para o aeroporto. O que existe hoje é aquele quartel da força aérea que tem logo depois do Santos Dumont, ali que era o terminal de passageiros de hidroavião. Ela fazia esse esforço todo para me visitar no Colégio Salesiano, lá em Niterói. A imagem que eu tenho dela é muito grata, tenho muito amor por ela, gostava imensamente.

 

P/1 – Em termos de estudos, como que foi isso, bom aluno?

 

R – Não fui um excelente aluno, mas também não fui um mau aluno. No colégio interno você tem que estudar muito, é muito rígido o negócio do ensino, tem estudo de manhã, estudo dirigido de noite. Você tinha as salas de leitura que para mim foi muito bom, você tem uma biblioteca muito boa, você tinha uma facilidade muito grande para ler ou para pedir livros na biblioteca. Sempre depois do jantar você lia muito. Hoje meus filhos não fazem muito isso, eu sinto muito isso. Não tem essa leitura de clássicos que te dá uma boa formação, uma boa erudição. Isso eu sinto que foi muito bem para mim e que hoje eles não têm essa mesma facilidade. Não tem essa coisa dirigida, esse estudo dirigido. Mas não era um excelente aluno, foi uma educação, um aprendizado normal. Mas não tinha como hoje. Hoje as crianças fazem judô, karatê, aula de inglês, faz natação. Naquele tempo você não tinha isso, você tinha no máximo um jogo de futebol, uma pelada no colégio, tênis talvez, mas não tinha essa facilidade que você tem hoje. A minha vida nesse período transcorreu assim, quer dizer tranquilamente e quando eu saí do colégio interno eu vim para o científico aqui na zona sul, no Colégio Mello e Souza. Aí que as coisas começaram a ficar mais diferentes, a preocupação como que vai fazer, começam as ansiedades da vida profissional, o que as pessoas estão esperando de você. O que você mesmo espera de você, o que é sua proposta. Então o tipo de preocupação já é diferente, você já começa amadurecer mais. Aquilo que você não tinha muito compromisso. Fiz o primeiro, o segundo e o terceiro científico no então Colégio Mello e Souza, em Copacabana e no terceiro científico que começa a ansiedade maior, “o que eu vou fazer, o que eu vou estudar, como eu vou ganhar minha vida?” Para mim foi uma fase angustiante, porque eu não tinha definido até então o que eu ia fazer exatamente. Vou ser médico, engenheiro, advogado, as opções clássicas tinham. Eu não gostava de nenhuma dessas opções e também não sabia exatamente o que queria fazer. Acho que a referência do meu pai foi importante para uma condição de uma decisão, porque ele era professor, ele exercia a profissão dele como estatístico, como matemático, tinha vindo de um estágio de uma especialização grande nos EUA, praticamente ele ficou três ou quatro anos nos EUA, como estatísticos virou  ______ ficou três ou quatro anos em Washington. Então aquela imagem de sucesso, de ter estudado fora, numa época em que pouca gente tinha a facilidade de ir para fora, estudar fora, não havia essa facilidade de estudar fora. Não havia uma cobrança que nem hoje, de você se especializar, de ter um mestrado, de ter um doutorado, de ter um pós doutorado. A coisa não era estruturada dessa maneira. Então a pessoa que realmente tinha condições de sair para a Europa, pros EUA fazer um curso de especialização, ela voltava muito bem, com uma imagem profissional muito boa. Eu tenho a impressão que isso me influenciou no sentido de eu estudar também estatística matemática, ele era também diretor da Escola Nacional de Ciência e Estatística, eu tenho impressão que isso me conduziu à esse curso que era uma opção que os estudantes, era uma profissão inusitada, quer dizer, não havia ainda um estudo da Estatística no Brasil. Hoje você tem a cadeira de estatística em quase todas as faculdades. Tem de medicina, tem de engenharia, economia, ma naquela ocasião não. Também foi difícil fazer essa escolha porque eu não sabia exatamente o que ia fazer, o que um profissional de estatística ia fazer. Sabia só que você tinha que estudar muita matemática, tinha que ser bom em matemática, tenha que ter um excelente conhecimento de matemática. Eu não sabia como você ia vender aquele conhecimento para empresas, para organização.

 

P/1 – A sua mãe exerceu o jornalismo aqui no Rio?

 

R – Não. Mais ou menos nessa época, quando eu entrei para o curso científico, em meados do curso científico, os meus pais se separaram e houve uma necessidade de um trabalho. Ela conseguiu, não havia um curso de jornalismo formal, existia a atividade jornalística mas não havia o curso, então ela realmente não fez, tinha a atividade jornalística, mas não fez o curso.

 

P/1 – Ela trabalhou em que jornal?

 

R – Na revista do Instituto do Açúcar e do Álcool, que na ocasião era estatal, que cuidava da política... Tinha uma revista muito bem feita, muito bem diagramada. Ela trabalhava nessa revista. Aí começou um processo inverso, ela começou a se especializar, foi para a Espanha, fez um curso de jornalismo na Espanha, mas quando voltou não exerceu mais essa atividade de jornalismo. Aí eu fiz o vestibular para a Escola Nacional de Ciências Estatísticas que na ocasião e hoje ainda é considerada uma escola de excelência, principalmente de conhecimento matemático. O vestibular, na ocasião, era muito difícil, semelhante ao do ITA, o nível de exigência de conhecimento matemático era muito grande e depois mesmo se a pessoa passasse no vestibular, o curso era muito difícil. Era uma série de desdobramentos de cadeiras de conhecimentos, de cadeiras de matemática que se a pessoa não tivesse vontade, não cultuasse, enfim, aquele conhecimento, ela não conseguiria passar do primeiro/segundo ano porque é um conhecimento árido, muito conceitual, sem uma aplicação prática e objetiva, muita probabilidade, muita matemática. Então não era estimulante. Eu passei, fui até o final e me formei.

 

P/1 – Onde ficava a escola?

 

R – Ela ficava num castelo na Avenida Franklin Roosevelt, ao lado do IBGE, porque ela era patrocinada pelo IBGE, hoje Fundação Brasileira de Geografia e Estatística.

 

[troca de fita]

[interrupção]

 

R – ... havia um gap muito grande entre o nível de conhecimento meu e o nível de conhecimento dele. Ele estava vindo dos EUA na ocasião, tinha feito um excelente curso de formação lá e ele achava que tinha que ser muito exigente comigo nas notas, nas provas, então me apertava. Mas eu consegui passar e consegui sair.

 

P/2 – Mas a matemática, além do seu pai ser o professor, ser o matemático, a matemática já fazia parte, você gostava de matemática na escola?

 

R – Eu gostava, eu gostava muito mas o que eu gostava mais não era da aplicação da matemática, era da matemática conceitual, da matemática filosófica, que não é dada exatamente nos cursos. A parte formal, conceitual da matemática hoje não existe, você tem aplicações da matemática. Eu até tinha sido, tinha feito minha inscrição para estudar matemática na Suécia, porque meu pai tinha muita facilidade, conhecia o meio internacional, mas não houve oportunidade. Eu também logo depois que eu saí da Escola, logo depois que me formei eu me casei também, então apareceu um outro tipo de necessidade. Você tem que ganhar dinheiro para sustentar, para trabalhar. Esse período foi também um período crítico, trabalhar em que? Fazer exatamente o que? Fazer que tipo de trabalho? Você vai trabalhar para empresa, vai trabalhar para o governo? Eu passei pela então Fábrica Nacional de Motores, passei pela Ford em São Bernardo do Campo, mas eram em áreas específicas de estatística mas no sentido do controle de qualidade, que estava começando naquela ocasião. Mas saí e resolvi encarar a área, a selva profissional sozinho. Falei para o meu pai: “Eu vou para São Paulo, você me arranja algum dinheiro para eu passar uns dias num... alugar algum quarto, um hotelzinho. Eu quero me virar sozinho, senão eu vou ficar na tua sombra aqui, você é um cara conhecido, um cara famoso no meio, tem seu nome e suas coisas. Se você conseguir alguma coisa para mim vai dar a impressão, eu vou ter a impressão que foi por seu intermédio.” Resolvi ir para São Paulo, fui para São Bernardo do Campo, com controle de qualidade, mas não gostei.

 

P/2 – Você já foi com esse emprego em vista ou não?

 

R – Não, lá eu fui para um hotelzinho, me hospedei num hotelzinho na Praça da Sé, e lá pegava o jornalzinho e todo dia saia com o jornal, marcava as poucas possibilidades alternativas e saia procurando. No final de dois meses, já tinha estourado a conta do hotel, não tinha mais dinheiro, não tinha emprego e não tinha mais nada para fazer. Então não arranjei coisa nenhuma para fazer. Aí meu pai fez uma carta para o então presidente do Banco do Estado de São Paulo – BANESPA, do Rui Leme, que depois veio a ser o presidente do Banco Central, perguntando se havia alguma possibilidade, que eu já estava querendo voltar para o Rio, e não tinha conseguido trabalho lá. Ele me chamou lá, era um camarada extremamente inteligente, carismático, professor de economia da USP. Ele me perguntou se eu queria ficar no setor privado ou no setor governamental. “Eu, no setor privado, acho que já esgotei, eu gostaria de tentar o setor governamental.” “Até foi bom pelo seguinte, o atual governador do Estado de São Paulo é o professor Carvalho Pinto, ele tomou posse há pouco tempo atrás e está formando um grupo de planejamento com recursos da Casa Civil do governo do qual fazem parte alguns nomes muito interessantes, que vão te dar muita experiência. E se você se associar à essas pessoas, você vai pegar um background, uma experiência muito boa.” Esse grupo então, faziam parte Fernando Henrique Cardoso, o presidente, na ocasião ele fazia parte da Escola de Sociologia e Política, era o aluno predileto do Florestan Fernandes, a quem ele deve toda a vida e formação profissional; fazia parte Delfim Neto que depois veio a ser o Ministro da Economia e Planejamento e nomes muito importantes que mais tarde vieram a se tornar pessoas importantes. Era um grupo intelectualmente bastante afiado, era um pessoal ligado à USP, ligado à Escola de Sociologia e Política, enfim eu fui me apresentar a eles. Foi uma oportunidade, “você está novo, recém formado, sua formação em matemática é muito boa para nós, a gente não tem gente com essa formação no grupo.” Aí eu fiquei lá quatro anos.

 

P/1 – Qual o objetivo desse grupo?



R – Justamente a função do grupo de planejamento funcionava com recursos orçamentários da Casa Civil do governo do Estado de São Paulo. A idéia do governador, Carvalho Pinto, era formar um plano que veio a se chamar Plano de Ação do Governo do Estado de São Paulo, na área econômica e na área social que viesse disciplinado a dotação orçamentária que ele tinha na ocasião para os diversos setores, para as diversas secretarias. Esse grupo fazia a triagem, fazia o planejamento, fazia o plano junto às secretarias de estado o planejamento das várias atividades, nas várias áreas, área social, área de educação, na área de saúde, na área econômica – agricultura, indústria. A experiência para mim foi multilateral, ela foi poliédrica, eu peguei muita experiência com todos eles. Na ocasião, Delfim e Fernando Henrique já eram pessoas de nome, eram pessoas se não conhecidas profissionalmente, mas já eram conhecidas como excelentes cabeças. O Delfim na área de Economia, o Fernando Henrique na área de Sociologia. Já gozavam de um respeito acadêmico muito grande, pelo corpo discente como pelos alunos que gostavam muito deles.

 

P/1 – Como era o funcionamento? Havia reuniões?

 

R – Dentro do grupo de planejamento, uma área executiva, que eram as pessoas que estavam relacionadas diretamente a cada um dos secretários de estado, quer dizer cada Secretaria de Estado tinha um correspondente técnico no grupo de planejamento que era o seu interlocutor na fase de planejamento do projeto. Uma vez por semana, ou periodicamente, o grupo dos conselheiros se reunia para saber se realmente o que estava se fazendo, ou fazer correção de curso daquilo que estava se pretendendo, enfim resolver os problemas mais de natureza conceitual que tivessem aparecendo na ocasião, para o grupo. A inspiração era uma inspiração “sepalina”. A comissão econômica era a Sepal. A inspiração econômica era essa. Bom esse primeiro grupo de ação do governo Carvalho Pinto fez muito sucesso, se preparou para fazer o segundo plano, mas chegou a um momento crítico que o governador não conseguiu eleger o seu sucessor que era o Secretário da Agricultura na ocasião, que era o José Bonifácio Coutinho Nogueira, não conseguiu. Quem se elegeu foi o filho do Ademar de Barros e aí houve realmente um revanchismo muito grande, revanchismo político e ideológico porque o Ademar tinha uma linha ideológica completamente diferente do Carvalho Pinto. Esse revanchismo não foi bom, eu fui obrigado a depor em inquéritos que foram feitos. Eu era novo na ocasião, achei aquilo muito importante, mas muito desgastante também em ter que... Enfim, aprendi que aquilo fazia parte do jogo de cena política das coisas. Não tinha nada, ninguém queria apurar nada, nem havia nada para apurar. Fazia parte do jogo de cena. O Presidente da República, na ocasião, era o João Goulart, o Secretário Executivo do Grupo de Planejamento era o principal assessor do governo João Goulart. Isso facilitou muito o entendimento a nível de governo estadual com o governo federal, quer dizer, o meio de campo era feito, pelo menos no meio da assessoria do Jango, aliás o Eliezer já era o Ministro de Minas e Energia do Jango também. Havia uma certa facilidade no entendimento, quer dizer, o Jango tinha nomes importantes como Eliezer, enfim trazia uma série de conhecimentos paralelos para nós muito importantes. Mas com a descontinuidade do governo, o fato dele não ter conseguido eleger o seu governador, o fato trouxe uma série de problemas de nível estadual e para cada um de nós que tinha colocado, que tinha investido no seu conhecimento na área de planejamento, na área de economia, muito grande. Esses fatos que eu estou narrando aqui, eles tem uma certa confidencialidade também porque eu fui protagonista, por acidente, desses fatos. Eu estou falando isso, porque tem uma série de consequências extremamente importantes. Esse grupo se desfez, mas como havia um portfolio, um capital muito bom e muito importante na área de economia, na área de sociologia, na área de ciências sociais, nós resolvemos então criar uma empresa que passou a se chamar ASPLAN – Assessoria em Planejamento para vender esse serviço de planejamento na área dos governos estaduais e na área do governo federal também. Aí, nós saímos dessa empresa, que tinha o mesmo nome, era homônimo, e fizemos essa Empresa de Planejamento que se chamava Assessoria em Planejamento mais dirigida ao setor privado.

 

P/2 – As mesmas pessoas?

 

R – Basicamente as mesmas pessoas, e dessas pessoas o mais importante era o Diogo Gaspar, que era o chefe da Assessoria do João Goulart, do Jango. Nessa posição ele teve a facilidade de conseguir uma série de projetos importantes também. Consegui a elaboração do plano semelhante que foi feito no Paraná, na ocasião no homem do planejamento do Paraná era Hugo Bório (?) que depois veio a fundar o Banco Real. E aqui no Rio, no Mato Grosso, isso deu muita experiência técnica para esse grupo. Um grupo muito bom, um grupo polivalente com bastante conhecimento nessa área de planejamento.

 

P/1 – E a sede permaneceu em São Paulo?

 

R – A sede permaneceu em São Paulo, no Pacaembu mas depois com o fim do governo de João Goulart, as coisas começaram a se desmontar, porque você já não tinha mais o lobby, que a empresa de planejamento, a empresa de consultoria ela vive de lobby. Ela não tinha mais o lobby necessário para continuar segurando a continuidade do cash flow do capital de giro necessário para pagar aquele grupo de técnicos todos, que eram técnicos caros.

 

P/1 – Uma pergunta que eu gostaria de fazer: ideologicamente o grupo caminhava junto ou não havia esse tipo de discussão, era um trabalho meramente técnico?

 

R – Ideologicamente era confuso, como foi confuso toda a ideologia de formação do Partido Democrático Cristão, do PSB, do Partido Comunista, do Partido Socialista em São Paulo nessa ocasião. Era um conjunto heterogêneo, que você não conseguia caracterizar muito bem do ponto de vista ideológico, cada uma das correntes a que se propunham. Tinha o Fernando Henrique com aquele discurso, um discurso que não é o discurso dele de hoje. É um discurso academicamente diferente daquele. Tinha o Delfim Neto num extremo oposto, completamente diferente daquilo, da retórica do Fernando Henrique, completamente diferente. Tinha o Covas que tinha uma presença política extremamente importante porque inegavelmente o Covas tinha um carisma muito grande, era um trabalhador, era um pé de boi, engenheiro de formação. Dentro desse ambiente confuso, heterogêneo, conturbado é que você desemboca na Revolução de 1964 com toda a “caça às bruxas” que foi feita, e aí vários integrantes desse grupo foram perseguidos, como foi o caso do Zaratini, que teve que se refugiar e vários outros também. O grupo se implodiu sem uma bandeira que se definisse exatamente o grupo. É um grupo de esquerda, é um radical de esquerda, é uma democracia cristã, é um liberalismo. Nunca ficou suficientemente caracterizado. Mas por outro lado havia uma urgência premente de cada um deles: “eu preciso ganhar dinheiro.” Quando estourou em 1964, eu que morava num apartamento, tinha toda minha literatura esquerdista, eu tive que desaparecer de uma hora para outra com toda aquela livraiada toda do Partido Comunista, Socialista, senão o bicho pegava mesmo.

 

P/1 – O que você fez com os livros?

 

R – Desfiz, tive que jogar fora para não me comprometer como outros amigos meus que tiveram problemas sérios depois. Teve o caso do Herzog em São Paulo, teve o caso do Condar (?) que teve que ir para o Canadá, que foi para a Argélia. O próprio Fernando Henrique que foi para Santiago, depois foi para a França. Enfim, houve uma implosão e foi...

 

P/2 – Essa diferença ideológica, esse caldeirão que você está descrevendo, na hora da aplicação técnica, na hora do projeto técnico, como isso se fazia, no planejamento econômico-social?

 

R – Não era muito fácil, mas ele tinha um aspecto extremamente positivo que era exatamente a dialética. Era do processo dialético dessas várias nuances, desses vários pendores que você tinha, do pessoal jovem. Dentro dessa dialética que você aprendia muito, porque você tinha desde a Democracia Cristã que foi trazida pelo Padre Lebret, que fez experiências extremamente positivas em São Paulo, mas você tinha um grupo da chamada da Democracia Cristã, que era a esquerda cristã e cuja expressão mais conhecida foi a dos Dominicanos de São Paulo, que foi objeto de uma perseguição muito grande pelo _________ e o pessoal que fazia parte. Do outro lado você tinha os liberais convictos, que era o caso do Delfim; Fernando Henrique não tanto, mas outras pessoas que não compartilhavam daquele... não havia um consenso ideológico. Mas se a ausência disso trazia determinados problemas no dia-a-dia, mas por outro lado o processo dialético alimentava muito e obrigava a uma renovação constante daquilo que você mesmo se propunha. Na própria legitimação das teses que você estava propondo. Já que você estava trabalhando para um governo havia o poder mediador, que no final era o governador, quer dizer o governador “vocês discutam quanto quiser, mas a decisão é minha. O fato de você dar mais recurso ou não para a área de saúde pública ou para a área de educação é uma meta política mas a decisão é minha.” Mas enfim, ao menos para mim foi benéfico, foi uma experiência benéfica. Agora, esse grupo saiu, esse grupo de planejamento acabou, deu origem a essa nova entidade, a ASPLAN. Essa sim, essa já era mais voltada para o meio empresarial mesmo, sem nenhuma preocupação de natureza ideológica, política. O objetivo era vender projeto.

 

P/1 – Quem eram os clientes?

 

R – Vários governos estaduais e várias empresas também. Eu pessoalmente participei de dois projetos interessantes que agora, há dias atrás eu estive em Belo Horizonte, tive a satisfação, foi muito gratificante ter encontrado um industrial do nordeste que participou, que se beneficiou de dois projetos interessantes. Um foi na Paraíba e outro foi em Pernambuco. Nessa ocasião nós começamos a conceituar aquilo que mais tarde vivia, que já era conhecido em literatura, “industrial past” que passou a ser conhecido aqui com o nome de “distritos industriais”. A idéia de você concentrar, dentro de uma área geográfica pré-determinada, geralmente dada pelo Estado ou pelo Município e concentrar uma série de atividades de integração vertical naquele distrito. Eu pessoalmente me envolvi na construção de dois distritos industriais: o Distrito de João Pessoa e o Distrito de Campina Grande. Eu me lembro que a primeira vez que eu fui a João Pessoa, inclusive não havia nem... você não tinha nem como chegar a João Pessoa diretamente. Você ia à Recife de avião e descia de carro de João Pessoa a Recife e de lá pegava outro carro para Campina Grande. O aspecto era meio desolador, ao menos naquilo que você pretendia fazer. Você não havia uma atividade empresarial definida no nordeste, naquela ocasião. Isso foi por volta de 1965, 1966. Havia grupos empresariais mais de base familiar, ou se interessavam na área de agricultura, área pastoril ou na área industrial para alguma manifestação de agregação de valor de integração muito limitado. Você não tinha realmente um processo. O processo de industrialização era extremamente incipiente no nordeste. A Sudene tentou incentivar isso, tentou criar, arranjar elementos de dotação orçamentária que pudesse desenvolver ou deflagrar um processo de industrialização, mas era muito incipiente. Eu lembro que a primeira vez que eu cheguei a João Pessoa eles me levaram para ver... “aqui a exportação do Estado é muito importante.” “o que por exemplo?” “exportação de frutos tropicais” “O que?” “Abacaxi.” “mas o abacaxi não apodrece no meio do caminho?” Me levaram para conhecer a exportação da Paraíba, me levaram para Cabedelo e quando eu cheguei no porto, tinham várias barricas, parecidas com barricas de chopp. Eu pensei que estavam transportando chopp para alguma coisa. Era o seguinte: o abacaxi era tirado a casca, fazia uma salmoura dentro do tonel de chopp e exportavam o abacaxi em salmoura, para o Golfo do Texas nos EUA. Lá ele era dessalinizado para servir então para indústria de doces, de sorvetes. Esse era o nível máximo de desenvolvimento de estrutura e de tecnologia que você tinha na ocasião no Nordeste. O resto era gado e sisal, era indústria de cordoaria, não tinha agregação industrial nenhuma, era extremamente incipiente. Então nós fizemos o primeiro distrito industrial, o de Campina Grande, que hoje está em pleno desenvolvimento, hoje já fizeram um outro distrito industrial e este de João Pessoa. A primeira fábrica a se instalar lá foi a Nordisa, que era de fiação e tecelagem de algodão que era pra aproveitar aquele algodão seridó que havia lá no nordeste. A experiência foi muito boa, foi muito gratificante. Mas eu queria fazer um parênteses, existe um teste extremamente interessante, que foi desenvolvido no MAT Imagine in Stanford (?). Esse teste é o seguinte: você pega um fato notório como este da explosão do World Trade Center de hoje e pergunta para os vários alunos da faculdade, para cada cem alunos, “o que você estava fazendo quando você soube que o WTC tinha explodido?” 99% das pessoas souberam dizer o que estavam fazendo na hora, como souberam, o que estavam fazendo e nunca mais vão esquecer. A tese era o seguinte: Os fatos nos EUA marcam muito sua vida e você jamais esquece. Numa dessas ocasiões, eu estava voltando do nordeste, eu estava esperando no aeroporto de Guararapes, em Recife. Quando eu cheguei, cheguei tarde, estava cansado, estava a fim de vir para o Rio, pegar o avião e vir embora, aquele cansaço, você está a fim de acabar com aquela história. Estava uma confusão danada no aeroporto e eu também não tomei conhecimento do que se tratava. Peguei o avião, decolei e uns 15 minutos que o avião já estava voando, o rádio de bordo ligou e falou: “Quem está falando é o comandante e estou comunicando que caiu, ou vai cair ________” Ele disse uma frase que foi engraçada que marcou e eu nunca mais vou esquecer: “Eu sinto comunicar os passageiros, que os boatos ouvidos no aeroporto de Guararapes a respeito da morte do Presidente Kennedy, presidente dos EUA tem fundamento (?). O Presidente Kennedy acabou de falecer…” Aquilo me marcou, mas o que me marcou mais foi o camarada que estava ao meu lado, na poltrona do lado, se levantou e ficou agitado. Ele ficou agitado porque deve ter ficado assustado. Não era, depois eu vim a saber que esse camarada era o Samuel Wainer, dono da  jornal Última Hora. Ele ficou compartimentado ali sem... eu como dono de um jornal, acontece um fato impossível de acontecer, porque Presidente dos EUA por definição é imorrível. (risos) “Eu não estou tomando providência nenhuma e estou aqui.” Estou imaginando hoje o dono da Folha de São Paulo ou do Globo, Roberto Marinho, soube que a torre explodiu e... mas isso foi exatamente para marcar a data que eu vim para o...

 

[troca de fita]

[interrupção]

 

R - Não tive mais dinheiro para recuperar o meu dinheiro, de modo que eu tive que voltar para o Rio nessa ocasião sem saber onde que eu ia trabalhar. Voltei, vim para o Rio sem nada o que fazer, sem ter trabalho em nenhuma ocasião. Não havia nada que pudesse trabalhar. Não sabia nem como minha experiência podia se aproveitar em um outro setor. Nisso se passaram uns dois meses, o Marcio Paixão da Vale do Rio Doce, que era meu cunhado, me telefonou: “Você tinha interesse de entrar para a Vale do Rio Doce?” “Não sei porque a minha experiência nos últimos seis anos, sete anos, foi mais na área de Planejamento Governamental, eu não sei como a Vale poderia... o que eu posso fazer.” “Você está aqui no Rio, você procura lá na sede. Naquela ocasião a sede da Vale estava se mudando para aquele edifício da Graça Aranha. Aí eu soube que havia acontecido uma coisa trágica. Naquela ocasião, a Vale estava instalando o Centro de processamentos de dados dela em Vitória e nós estávamos comprando um equipamento extremamente caro, um computador CAD de grande porte chamado IBM 14-01 e exigia uma sala toda complicada, refrigerada e não tinha gente para operar o 14-01. Não era ainda em Tubarão, o 14-01 estava instalado lá em frente ao cais do Atalaia no edifício da Vale do Rio Doce lá. O que aconteceu foi o seguinte: como não tinha gente, não tinha know-how interno, a Vale teve que se valer do próprio suporte da IBM na ocasião, dos próprios analistas e programadores. Foram eles que deram o suporte de implantação e de operação no Centro de Processamento de Dados. Como esse pessoal normalmente era da IBM Rio ou IBM São Paulo, o pessoal ficava de segunda a sexta em Vitória, na implantação do Centro, pegava o último avião de sexta feira à noite que descia do nordeste e vinha passar o fim de semana com a família aqui no Rio e voltava. A Vale cometeu um erro que depois foi em parte reparado. Todo pessoal que trabalhava no CPD vinha no mesmo avião, esse avião caiu, matou todo mundo que trabalhava no CPD, o CPD ficou sem nenhum técnico. Desde o coordenador da IBM, todo o pessoal da IBM morreu, e todo o pessoal da Vale do Rio Doce morreu. Ele bateu em Friburgo, aqui no Pico da Caledônia e de uma hora para outra aconteceu essa tragédia. De repente ficou um espaço sem saber o que ia fazer. “E agora quem vai...?” As fitas, os discos que o pessoal trazia para reprocessar aqui no escritório do Rio. Então todo o acervo que tinha compilado, todo o programa foi tudo pro ar, foi um desespero, foi exatamente o que aconteceu. Desastre tem isso, você fica atônito sem saber o que fazer diante do desastre. Você não foi educado para aquilo ali. “E agora o que vai fazer, não tem ninguém, não tem um chefe. Tem um computador lá, um hardware, mas o software se perdeu.”

 

P/1 – Era o primeiro computador da Vale?

 

P/1 – É, porque até então não havia... tinha equipamento periférico, mas não tinha um computador de grande porte com CPD instalado. E o investimento foi muito caro, na ocasião era caríssimo. Bom, não tinha mais ninguém, nem a IBM tinha, nem a Vale do Rio Doce tinha. Quando eu entrei na Vale do Rio Doce eu fui entrevistado pela primeira vez pelo presidente em exercício era o Marechal Lindenberg. Ele me perguntou “O senhor gostaria de trabalhar na Vale do Rio Doce, porque nós vivemos uma tragédia aqui? Como o senhor tem uma boa formação matemática. Talvez a gente pudesse... o que o senhor acha?” “Eu acho difícil porque a minha formação matemática foi dirigida para outro setor, de qualquer forma aquilo que eu aprendi eu tenho que me reciclar.” “O senhor vai fazer um curso na IBM, um curso de análise de sistemas na IBM, já contratado pela Vale do Rio Doce, e depois começa a trabalhar em Vitória.” E realmente eu entrei na Vale do Rio Doce no dia primeiro de março de 1965 para trabalhar em Vitória na formação do CPD de Vitória, na ocasião não era em Tubarão, com pessoas que eu não conhecia, não sabia e eu também não entendia o que tinha acontecido. Não tinha fita, não tinha documento, não tinha arquivo, não tinha planilha, não tinha nada. Apenas a memória de amigos meus inclusive que tinham morrido no acidente, pessoal da IBM que tinham morrido no desastre. E aí foi assim, um começo meio inusitado enfim.

 

P/2 – Eles contrataram várias pessoas de vários lugares?

 

[pausa]

 

P/1 – Nós interrompemos justamente quando o senhor contava que entrava na Vale do Rio Doce, em condições não tão felizes.

 

R – Montando essa equipe para suprir.

 

P/2 – É interessante você continuar nisso e contar que trabalho vocês desenvolveram, como vocês aprenderam a lidar com isso.

 

R – Foi um início de certa maneira trágico, foi marcado por um fato claro e deixou a Vale sem um know-how que havia sido adquirido mais recentemente. E também difícil de adquirir no mercado, porque não era muito fácil, não havia na ocasião, estamos falando de por volta de 1965, metade de 1965. Não havia um desenvolvimento da informática como existe hoje. Então não havia uma disponibilidade de cérebros no mercado que você pudesse facilmente mobilizar. E esse pessoal, normalmente no Brasil na ocasião, havia nas escolas de formação matemática, como era o caso do ITA, Instituto Tecnológico da Aeronáutica, nas escolas de matemática ou de estatística mesmo. O que foi mobilizado foi exatamente esse pessoal, o que se explica porque tanta gente de ITA começou a trabalhar na Vale do Rio Doce, no Centro de Processamento de Dados, nessa ocasião. Eu fui para a Vale do Rio Doce, falando agora em termos pessoais, fui para Vitória com mais ou menos o compromisso, na ocasião o chefe do CPD era o Luis Alberto Linhares, irmão do João Carlos Linhares, o gerente executivo era o Nilton Nillas (?) e o superintendente da área, porque o CPD estava subordinado à Superintendência de Controle cuja superintendente era o José Pitella Junior. Ficou mais ou menos acertado, mais ou menos combinado que eu iria para Vitória mas iria por um período não superior a uma ano e meio, dois anos, porque enfim, eu gostaria de trabalhar na Vale no Rio. E realmente foi isso que aconteceu, eu fiquei em Vitória mais ou menos uns dois anos e depois consegui ser transferido para o Rio, para a Superintendência de Controle. Mas também não demorei muito na Superintendência de Controle com Pitella porque logo fui convidado para passar para a área comercial da Vale do Rio Doce, na ocasião, a gestão das atividades comerciais da Vale do Rio Doce era feita por uma divisão que era chamada de Divisão Comercial. Eu fui para essa divisão comercial que era realmente pequena, não tinha uma expressão tão grande como tinha as áreas de operação da Companhia, Divisão de Operações. A Divisão de Operações compreendia as atividades portuárias, as atividades ferroviárias e a mineração. Na verdade a atividade comercial da Vale do Rio Doce era exercida pelo presidente junto com seus superintendentes de vendas, chefe da Divisão Comercial e pelo Eliezer que exercia o papel mais importante na condição dessas atividade comerciais.

 

P/2 - Tubarão já tinha sido inaugurado?

 

R – Olha, durante todo o período que eu estive trabalhando em Vitória, Tubarão estava em fase final de construção, o Píer número 1, nós participamos de toda aquela fase final de construção, mas quando fui transferido para o Rio já tinha sido inaugurado por força de uma obrigação contratual com as usinas japonesas de cumprimento do primeiro contrato com elas.

 

P/2 – E esse convite para ir para a área comercial, quer dizer, não é uma mudança de formação?

 

P/1 – Eu gostaria de fazer uma pergunta antes, o senhor que vinha de uma experiência na área pública, como era a Vale em termos de planejamento na época que o senhor entra?

 

R – Visto da ótica de hoje, a coisa fica mais clara para mim. Mas para quem vivia naquela ocasião, num período de uma efervescência muito grande na Vale do Rio Doce, uma motivação muito grande, não era muito claro que na verdade você estava vivendo no Brasil, um regime que havia sido inaugurado em 1964, que era um regime militar, e que as empresas do Estado Brasileiros, as ditas Empresas Estatais, na realidade eram o braço forte de um capitalismo de Estado que estava se fazendo no Brasil, mas sem um nome muito claro, muito explícito que era o Capitalismo do Estado. Esse capitalismo de estado era exercido por essas empresas estatais. A infra estrutura brasileira, área de energia através da Eletrobrás, a área de petroquímica através da Petrobrás, área de mineração através da Vale do Rio Doce, enfim, dessa constelação de empresas estatais que se formavam um capitalismo de estado mas que não era visto como um capitalismo de estado. E forte porque tinha um respaldo de um governo forte, de um governo militar. Não havia também ideologicamente falando... o que havia de ideológico era uma vontade, um orgulho muito grande de pertencer a Vale do Rio Doce e as pessoas participavam nas suas respectivas áreas, nos seus respectivos setores como se cada setor da companhia fosse o mais importante da companhia. Quem trabalhava na Via Permanente, por exemplo, na estrada de ferro Vitória-Minas, para ele, aquele era o setor mais importante da Companhia. Quem trabalhava em mineração achava que Itabira era o mais importante. Isso era muito bom porque a __________ disso trazia uma força muito grande para a Companhia. A presença marcante que o Eliezer exercia, pelo seu carisma, pela sua forma de conduzir, pela sua capacidade estratégica, ela incentivava e isso era muito gratificante. Não chegava a ser um conflito para mim, respondendo a sua pergunta, ideologicamente falando porque era uma manifestação do governo, não era uma empresa privada e eu vinha exatamente de uma experiência governamental.

 

P/2 – Eu queria que o senhor contasse essa passagem. Do controle, de uma área mais técnica para a área comercial.

 

R – Nessa ocasião, por volta de 1965, 1966 você tinha realmente uma atividade comercial se iniciando e muito intensamente na Vale do Rio Doce por conta dos contratos de suprimento de minério de ferro que tinham sido assinados com as usinas japonesas. Então o compromisso com o Japão era um compromisso muito forte que precisava, isso pressupunha na vida prática, uma série de medidas, uma série de metas, toda uma estratégia para o cumprimento daquilo que foi assumido pactualmente. Nessa ocasião o Presidente da Vale do Rio Doce era o Dr. Oscar de Oliveira e o superintendente da área comercial era o Dr. Lon Teixeira de Meneses. Pra mim pessoalmente, foi muito gratificante porque a atividade comercial naquela ocasião era muito intensa, se aprendia muito. A Vale do Rio Doce era, para cada um de nós, uma escola, era uma escola de formação, ela era uma extensão da nossa experiência acadêmica, pessoal de engenharia, pessoal de economia, uma extensão, porque ela realmente funcionava como uma escola de desenvolvimento de aprendizado. Na área comercial realmente, apesar de não ter uma experiência imediatamente anterior, eu aprendi muito. Logo depois dessa gestão do Lon, quem foi para a área comercial, foi um outro engenheiro da Companhia, já falecido, que foi também Presidente da Vale do Rio Doce, foi Dr. Raimundo Pereira Mascarenhas que vinha de uma experiência na mina, na mineração, uma experiência em Itabira e tinha um carisma muito grande, havia um entendimento muito grande na alta administração da Companhia e isso se refletia para os escalões inferiores. Foi realmente um aprendizado muito bom. Esse aprendizado foi complementado em fazer com que cada uma das pessoas que trabalhava na área comercial, também tivesse a sua experiência internacional. Aí que começaram as viagens internacionais para conhecer o mercado. O mercado europeu, o mercado japonês e o mercado americano também. A minha primeira viagem de negociação, de conhecimento das atividades comerciais da companhia começou justamente nessa ocasião, por volta de 1967, 1968 mais ou menos. Tanto na área européia, principalmente na região do Hur – nas usinas alemãs quanto nas usinas japonesas.

 

P/1 – Quando você entra na divisão comercial, qual é o planejamento de vendas, como é o programa de vendas, as metas da divisão nesse momento?

 

R – A atividade comercial da Vale do Rio Doce, a atividade de mineração, as atividades comerciais de mineração, elas na realidade eram desenvolvidas não apenas pela divisão comercial em si, na Vale do Rio Doce mas também pelas subsidiárias. Na ocasião a Vale do Rio Doce tinha duas subsidiárias extremamente importantes, era a Itabira Islands (?) que a sede era em ______ Dorf (?) que se ocupava no seu dia-a-dia no planejamento das venda para as usinas alemães e para as usinas européias de um modo geral, ela se preocupava com o mercado europeu e a Itabira Internacional com sede em Nova York que se ocupava com as vendas e com o planejamento, com os negócios da Vale do Rio Doce em território americano, nos EUA, na América do Norte. O mercado japonês era mais dirigido pela Divisão Comercial do Rio. A Itabira Islands (?) depois, por questões do fisco alemão ficou oneroso para a Vale do Rio Doce atender as exigências do fisco alemão no sentido do emprego de alemães e brasileiros, mudou então para Bruxelas e fez a Rio Doce Europa em Bruxelas. Aí as atividades comerciais passaram para a responsabilidade também da Rio Doce Europa juntamente com a Divisão Comercial.

 

P/2 – A previsão de crescimento de vocês, nesse momento, qual era? Havia uma perspectiva de aumento das vendas, de conquista de mercado? Como vocês viviam isso?

 

R – Esse planejamento dessas atividades, atividades de mais longo prazo da Vale do Rio Doce era do presidente da Vale do Rio Doce. Era ele que conduzia a responsabilidade de assumir, de dirigir, de planejar estrategicamente as vendas da companhia. É claro que para isso aí ele era assistido pelas empresas subsidiárias e pela própria divisão da área comercial da Vale do Rio Doce. Isso era feito através da área de planejamento, havia dentro da divisão comercial um departamento de planejamento que era o responsável pela captação de elementos, pela análise de tendências daquilo que se projetava para o mercado europeu e para o mercado japonês para os próximos anos. O mercado americano era mais difícil de abordagem porque os EUA tinham um supridor natural que era o Canadá, que estava do lado, além de um suprimento interno também. Então sempre foi muito difícil para a Vale do Rio Doce frequentar o mercado americano por isso.  Além do mais, os portos de exportação da Vale do Rio Doce, na ocasião Vitória – Tubarão ocupava uma posição geográfica excêntrica em relação à geometria e a geografia mundial de suprimentos. A Vale do Rio Doce estava extremamente afastada, os portos da Vale do Rio Doce estavam extremamente afastados do centro de gravidade desses principais postos recebedores do minério, tanto dos EUA, quanto da Europa, quanto principalmente do Japão. O Japão era um mercado que estava distante pelo menos 10 mil, 11 mil milhas náuticas de Tubarão. Isso trazia, na elaboração da estratégia de aumentar as vendas de minério de ferro para esses países, uma dificuldade muito grande, uma dificuldade que passava pela reconstrução e pela reavaliação da logística da Vale do Rio Doce, porque o fato dela estar distante geograficamente do centro de gravidade, muito a oeste da bacia atlântica, trazia para os navios que iriam transportar esse minério de ferro, ou navios próprios ou navios de terceiros, distâncias muito grandes a serem vencidas. Isso trazia como consequência fretes muito grandes, que agregados ao valor Fob – valor do minério no litoral brasileiro, ele ia se transformar em valores finais muito altos para as usinas. A maneira estratégica de compensar isso era você diminuir o frete marítimo. Diminuir como? Aumentando o calado dos navios e aumentando o calado dos portos também para receber aqueles navios grandes. Essa que foi o grande motivo, a grande estratégia do Dr. Eliezer. A concepção do porto de Tubarão como porto de águas profundas, porto de 23 – 24 metros de profundidade, com uma batimetria profunda para receber navios de grande porte, de grande calado que pudessem abastecer mais, levar mais minério e vencer essa barreira geográfica do Atlântico e chegar até o Mediterrâneo, ou chegar até o Báltico em condições de competitividade com outros minérios que estavam vindos da costa africana ou que estavam vindo dos países nórdicos, principalmente Noruega e Suécia, que estavam bem perto. A solução que se partiu foi exatamente essa: aumentar o calado do navio para que eles pudessem transportar grandes quantidades. Isso por um lado funcionava porque você tinha no Mediterrâneo, ou no Mar do Norte ou no Báltico portes com calado suficiente, com calado compatível para esses navios. O que não acontecia na costa dos EUA. A costa leste americana é uma costa relativamente rasa que acomoda navios de calado não tão grande. Estava se falando, na ocasião, em navios de 120 – 150 até 200 mil toneladas. Esses navios normalmente não entram na costa americana. É uma costa rasa, semelhante a costa da China, onde o navio não consegue atracar. Então você inviabiliza a estratégia de usar navios grandes. Ela só é viável para o Japão, ou para o Mediterrâneos, ou para o Báltico, para os mercados da Europa. Foi exatamente aí o sucesso da Vale do Rio Doce, ela conseguiu competir em condições favoráveis com os minérios da costa leste africana ou com os minérios dos países nórdicos, da Noruega e da Suécia. No Japão conseguiu competir com os minérios que vinham do sudeste da Ásia, ou com os minérios da Índia, que faziam parte do ninho de compra da indústria japonesa em condições razoáveis.

[troca de fita]

 

R - ... para uma estratégia de grande porte.

 

P/2 – Como foi sua trajetória interna dentro da divisão comercial? Você entrou lá com que função e como foi essa evolução lá dentro?

 

R – Na área comercial eu tive a sorte, a felicidade de trabalhar logo com uma pessoa, ser subordinado a uma pessoa que realmente marcou a Vale do Rio Doce, a vida da Vale do Rio Doce, que foi o Mascarenhas. Logo que eu entrei na Vale do Rio Doce eu fui trabalhar com ele, ele era o superintendente. Ele era uma pessoa excelente, um engenheiro de formação, um engenheiro da Vale do Rio Doce, formado dentro da Vale do Rio Doce, com um carisma muito grande, com uma capacidade de trabalho muito grande, extremamente exigente. Então não houve, no meu caso, junto ao Mascarenhas ou dos presidentes que se seguiram, uma posição muito formal – você vai fazer isso, vai ser chefe disso, quer dizer. Sempre exerci uma função mais de assessoria, mais de interlocução na área estratégica, de conceber novos projetos, novos estudos. Na área de estudos, principalmente de mercado, do que propriamente uma posição formal, como chefe de divisão, gerente de uma divisão ou de um departamento. Não houve essa rigidez, felizmente para mim e para essas pessoas que estavam me dirigindo. Eu fiquei na área comercial bastante tempo e muito também estudando novos mercados, não os mercados tradicionais, aqueles mercados que já tinham sido cativados – como o mercado do Reno, mercado do Ur, em que já estavam por conta do Itabira ______ Europa, os mercados da Europa em si. Mas na busca de outros mercados também que a Vale do Rio Doce poderia vir a frequentar principalmente mercado do sudeste da Ásia ou mercados do Oriente Médio em que havia também uma possibilidade da Vale do Rio Doce vir a frequentar esses mercados. Não no sentido do minério de ferro em si, mas no sentido da Vale do Rio Doce acompanhar um desenvolvimento tecnológico que começou a se fazer muito intensamente no final da década de 1960, início da década de 1970, principalmente na primeira parte, nos primeiros anos da década de 1970, quando uma série de desenvolvimentos tecnológicos foram feitos no sentido de possibilidade da Vale do Rio Doce incrementar as suas vendas. Desses, o mais importante é aquele que estava relacionado com a própria característica do minério da Vale do Rio Doce, o minério de ferro brasileiro, o minério do quadrilátero ferrífero, o minério de Itabira. É um minério extremamente friável, e é um minério cujo rendaming (?), quer dizer o handling de mineração, handling ferroviário ou handling portuário, pela friabilidade do minério, ele dava uma geração de finos extremamente grande. Não era um minério rígido, em que pudesse estar sujeito a tombo e a levar... no manuseio dele, quer dizer, você tirava eles, dava a primeira explosão na mina, botava ele dentro do caminhão para o vagão, do vagão para o cardã para o ______, do cardã para o porto, navio. Então a geração de finos era uma geração muito grande. E não havia um mercado compatível à altura da geração de finos. Não sei se estou me fazendo entender, é um processo tecnológico não semelhante, mas se a gente quiser fazer um raciocínio análogo com o petróleo. Com o petróleo, na torre de petróleo você não tem um perfil de quebra de petróleo, de geração de produtos semelhante àquele que você tem compatível com o mercado. Na torre de refino você tem uma geração maior de determinados produtos que às vezes o mercado não absorve. Na mineração você tinha uma geração muito grande de finos, minérios de meia polegada, minérios de 3/8 de polegada. Então a Vale do Rio Doce começou a acumular, a fazer reservas cada vez maiores desse tipo de minério, e não havia uma tecnologia disponível na ocasião de aproveitamento desses finos a custos que compensassem, claro. Você podia ter uma tecnologia de aproveitamento mas não a custos que pudessem torná-lo rentável. A Vale do Rio Doce, através do Centro de Pesquisas, através do Km 14, começou a desenvolver uma série de projetos para ver de que maneira aquilo poderia ser aproveitado, de que maneira poderia ser beneficiado e aí a Vale desemboca tecnologicamente numa grande avenida que foi a avenida da Pelotização. Quer dizer, através da pelotização, ou seja, da aglomeração de minério fino com material aglomerante, bentonita no caso, você podia aglomerar, fazer a pelota e ela sim, com capacidade de resistência, com capacidade de tombamento para chegar no porto de destino em condições de ser carregada em altos fornos como se fosse um elo comum para iniciar o processo de redução. Então a Vale do Rio Doce participou muito ativamente desse desenvolvimento tecnológico de beneficiamento e aproveitamento dos seus minérios que não eram até então vendáveis. Isso deu origem a toda essa avenida que eu me referi, a avenida da Pelotização, com todos os contratos que foram feitos, a primeira, a segunda, a terceira, enfim, todas as usinas de pelotização que foram feitas e os contratos com os mercados consumidores.

 

P/2 – Existia um mercado desse minério em pelotas? Ou vocês tiveram que conquistar esse mercado?

 

R – A Vale do Rio Doce teve que criar efeitos de demonstração, ela teve que criar condições de demonstração para que as suas pelotas conseguissem também na coluna de carga dos altos fornos, uma performance semelhante aquilo que outros pelots tinham conseguido ou que o próprio minério granulado tivessem conseguindo. A atividade siderúrgica, a atividade metalúrgica não é uma atividade nova, é uma atividade antiga no mundo, a humanidade já faz uso da metalurgia do ferro a muitos anos e os padrões de comportamento de performance que se esperam já são muito bem conhecidos, já são muito bem definidos, ou atendem ou não atendem àquela especificação que os forneiros exigem para que os minérios sejam carregados. Mesmo porque, a atividade siderúrgica é uma atividade irreversível, uma vez preparado o leito de fusão do alto forno, aquilo é irreversível, não tem como parar até o produto final que é o gusa. Outros concorrentes da Vale do Rio Doce já estavam no mercado com uma certa facilidade, com um certo conhecimento. É o caso dos canadenses, dos suecos que já tinham conseguido ser bem sucedidos, já tinham conseguido também fazer contratos de longo prazo para suprimento de pedras. Essa foi a vertente tecnológica da Vale do Rio Doce foi extremamente importante na condição, na orientação dessa estratégia.

 

P/1 – Nessa prospecção do Oriente Médio, no sudoeste da Ásia, quem eram os clientes mais promissores para a Vale do Rio Doce?

 

R – O que aconteceu também, paralelamente a esse desenvolvimento tecnológico que ocorre no setor da mineração, e que ocorre também no desenvolvimento tecnológico muito grande na área de siderurgia. Na área de siderurgia, o mais importante foi aquele desenvolvimento que saia do circuito normal do alto forno para cair naquilo que se chamou “redução direto” da _________. Dali você alimentava o forno. A idéia era a seguinte: obter um aço nas mesmas condições de um aço comum, aço convencional de alto forno, mas obtida através de uma matéria prima que não era o minério de ferro em si. Era o minério de ferro pré reduzido onde havia uma espécie de ________ do alto forno, quer dizer, a redução do minério de ferro ou da pelota não era feito num forno convencional com coque, mas era feita através de gás, ou através de carvão, ou através de enfim, de um redutor que iria depender da disponibilidade daquele país em ter ou não aquele agente redutor. No caso da América Latina por exemplo, o México fez as experiências e consegui um êxito muito bom na redução de pelotas, de pellets, na redução de minério de ferro usando gás que eles tinham, que é o processo “hallak lamina” (?). A redução era feita através de uma corrente de gás natural e reduzir o minério de ferro. No caso de Trinidad-Tobago eles tinham também gás barato, gás abundante, de forma que eles usaram isso. Na Argentina eles fizeram um processo semelhante, só que com carvão, o agente redutor não era o gás, mas era o carvão. A fonte do agente redutor era o carvão. No norte da África e no Oriente Médio, que normalmente tem uma disponibilidade muito grande de gás, o processo tecnológico sempre foi o uso de gás, e aí a Vale do Rio Doce conseguiu realmente em função dos esforços que foram feitos nessa área, ela consegui e hoje mantém contratos no Quatar, na Arábia Saudita, na Mauritânia, na Malásia, enfim, dependia muito das condições tecnológicas da disponibilidade do redutor que houvesse naquela região, embora a matéria prima do ponto de vista do minério de ferro fosse a mesma. Ou minério de ferro granulado fino ou pelots.

 

P/2 – Em algum momento você acompanhou essa estratégia de atendimento de outros mercados, não só do minério de ferro mas de outros produtos da diversificação da Vale, em algum momento isso entra também no seu trabalho?

 

R – Não, enquanto estava na área comercial, depois que eu passei pela área comercial aí eu realmente eu fui, já no tempo do Ministro Dias Leite, foi Presidente da Vale, meu estágio final na Vale do Rio Doce foi presidência da Vale do Rio Doce. A Vale do Rio Doce na ocasião, tinha junto à presidência, junto ao Presidente da Vale do Rio Doce havia um órgão de staff chamado Secretaria Técnica da Presidência onde todos os projetos que não eram os projetos convencionais das áreas convencionais da Vale do Rio Doce, quer dizer, não eram projetos da área operacional, não eram os projetos da área comercial, a estratégia de elaboração desses projetos era feito dentro dessa Secretaria Técnica da Presidência. A presidência entendia que não eram projetos que deveriam ocupar as áreas convencionais e sim projetos especiais. Dentro desses projetos especiais é que eu participei muito na Secretária Técnica da Presidência que estava então lá. Aí já começavam os primeiros projetos na área de alumínio, o Complexo Bauxita-Alumina-Alumínio, depois se sucederam todas as empresas que foram formadas nesse segmento da Vale, na área de papel e celulose que não era, até então, não havia a figura das empresas, entes empresariais. Eram projetos que começavam a engatinhar, mas não tinham ainda uma expressão. Alguns outros projetos fora dessas áreas, que também se tornaram projetos para as áreas convencionais da Vale do Rio Doce, mas que também não é objeto da área de minério de ferro, da área de alumínio, ou da área de minério de ferro e celulose. Esses que eu participei mais intensamente. 

 

P/2 – Carajás já fez parte disso ou não?

 

P/1 – Carajás, a minha experiência é realmente inicial. Logo depois que o Breno desceu naquele helicóptero, o helicóptero dele que pifou na Serra Norte e que deu de cara com aquela hematita, a Vale do Rio Doce começou a se interessar mais organizadamente por aquela área. Ela começou a se interessar porque começaram a aparecer indícios, indícios mais de natureza estratégica de que os compromissos de longo prazo que a Vale do Rio Doce havia assumido começaram a ficar desproporcionalizados em relação à ____________ das jazidas do sul. As jazidas de Itabira. Entenda que Itabira é o Complexo Cauê- Conceição, enfim, todas aquelas minas que formavam o Complexo Itabira. Mas começou a haver uma certa preocupação de natureza estratégica de um certo desbalanceamento entre a disponibilidade do que havia ainda geologicamente sido cubado na geologia do Cauê, com os compromissos que a Vale do Rio Doce havia assumido com as usinas japonesas e com o mercado europeu através dos contratos de longo prazo. Então essa preocupação levou conscientemente a uma busca de alternativas. Alternativas essas que poderiam vir a compensar o fato de você não ter no subsolo aquele minério que estava comprometido. Foi nessa ocasião, final da década de 1960, início da década de 1970 que começaram então os primeiros trabalhos, os primeiros desenvolvimentos na área de mineração ainda com relação ao minério de Carajás. Eu lembro que a primeira vez que eu fui à Carajás, o Dr. Eliezer me pediu que eu fosse acompanhá-lo, o Presidente da _________ Siderurgie Francese que era o ente governamental mais importante que você tinha na França no setor siderúrgico. Eu fui acompanhando, ele se chamava Sr. Albert ____________ , ele já tinha essa preocupação: “será que a Vale do Rio Doce vai conseguir honrar seus compromissos com o mercado europeu, com o minério só do sul?” Então, naquela ocasião, nós começamos a receber várias visitas – japoneses, europeus, que queriam visitar Carajás. Naquela ocasião, nós chegamos... o acesso era terrível. Você tinha que ir de avião de carreira até Belém, pegar um avião de paraquedistas da FAB até Tucuruí, que não havia na ocasião, não havia esse nome dado ainda e depois descia no peito e na raça lá em Carajás. Depois daí era de helicóptero ou de teco-teco para visitar a Serra Norte. Mas os indícios de que você realmente tinha uma cubagem já bastante substancial em Carajás, já animava bastante os esforços de investimentos que a Vale estavam fazendo na ocasião. O problema é que as dificuldades eram proporcionais ao processo da jazida. Era dificuldade de natureza logística, como você ia escoar aquele minério de ferro lá da Serra até o litoral e dificuldades portuárias também, na ocasião você não tinha um porto que pudesse atender e receber todo aquele minério de ferro que vinha do Pará. Aí começa um cenário surrealista, o Maranhão puxando para si o porto de escoamento em São Luís, o Pará por sua vez querendo que continuasse o minério de ferro no Pará e na ocasião foi estudadas várias alternativas, afinal essas alternativas afunilaram para duas só, que era São Luís e no Pará também. Mas eram dificuldades operacionais muito grandes, além de tudo que a Vale do Rio Doce tinha naquela ocasião, dificuldades estratégicas de difícil solução. Aí nós fomos, pela primeira vez, pedir ajuda do governo brasileiro, em termos de ________, de investimentos de dinheiro necessário para desenvolver o projeto lá em cima. Fomos à Brasília e o Ministro do Planejamento era Delfim Neto disse: “Olha – o valor do projeto estava em torno de dois ou três bilhões de dólares – esse valor eu não avalizo, o governo brasileiro não avaliza, mas se vocês fizerem um projeto de 20 bilhões de dólares e aí vocês vão ter o meu aval. Aí que realmente começou uma corrida, a Vale do Rio Doce começou uma corrida contra o tempo para fazer um projeto da província mineral de Carajás, que compreendesse vários projetos não só na área de mineração mas na área de energia, na área de alumínio, na área de agropecuária. Foram feitos vários projetos na ocasião, para justificar e para chegar a esse nível de 20 bilhões. E foi realmente isso que funcionou, com esse dinheiro nós fomos ao Japão, fomos ao mercado financeiro na Europa também e se conseguiu então o dinheiro necessário para dar início ao projeto. 

 

[pausa]

 

P/2 – O senhor ia comentar de Carajás...

 

R –  O que eu estava querendo me referir, esse grupo de técnicos da Vale do Rio Doce, o pessoal de engenharia, o pessoal de economia que participava da discussão desses projetos, da elaboração desses projetos, na discussão dessas estratégias de alternativas, na verdade eles aprenderam muito com o desenvolvimento desses novos projetos, porque outras ferramentas tiveram que a ser usadas, outras tecnologias. O pessoal da tecnologia esbarrava com entraves de natureza tecnológica difícil, problema de concentração de itabirito, uma série de dificuldades relacionadas com a própria atividade de mineração que tinham que ser resolvidos. Isso para atender as exigências dos siderurgistas. O siderurgista cobra muito esse tipo de coisa, o minério de ferro tem que entrar com determinadas características granulométricas, determinadas características mecânicas e químicas para atender o siderurgista. É um mercado de oferta, que é um mercado extremamente ofertado, o preço decorre do fato de haver um excedente de minério de ferro no mercado e eles são exigentes em termos de parâmetros físico-químicos também. Isso obriga a uma melhoria dos padrões de qualidade através de tecnologia, não tem como você obter isso aí. Na mineração artesanal ainda dá para fazer alguma coisa, mas em se tratando de mercado de grande escala, não há como não se fazer tecnologia e tecnologia de ponta e gastar muito dinheiro e fazer muito investimento nisso aí. Tecnologia não só na área de mineração, mas tecnologia para obter melhores parâmetros na área de logística, logística ferroviária. A Vale do Rio Doce começou a fazer em Vitória, experiências que não havia no Brasil, e são difíceis em qualquer outro lugar do mundo padrões de referência de transporte em Vitória, com esse tipo de tração, com esse tipo de tonelagem. Portuária, que é o terceiro segmento na montagem dessa estratégia, no sentido de você ter navios de grande calado que sejam compatíveis com ________ de frete e o braço final que é o braço marítimo, braço que foi dado através da Docenave, ela proporcional, através do último elemento da equação, que é o transporte marítimo possibilitar chegar aos mercados, aos portos de destino colocando o minério a um preço competitivo. Eu queria me referir a isso aí porque toda essa engenhosidade da engenharia brasileira, dos técnicos da Vale do Rio Doce, a Vale do Rio Doce ela permitiu também alguns desdobramentos. Alguns desses desdobramentos que foi feito na área de logística foi o esforço que a Vale do Rio Doce fez como projeto especial na área do cerrado brasileiro. Esse também foi um projeto em que o Eliezer se empenhou muito em fechar uma equação, que era uma equação que era difícil. A Vale do Rio Doce aumentava cada vez mais a sua capacidade de transporte, aumentava a sua tração, aumentava a sua veia permanente, aumentava a sua capacidade de transportar grandes quantidades, mas não tinha o frete de retorno. Você descia 10, 20, 30, 40, 50 milhões de toneladas, fazia um esforço desgraçado, mas era só no sentido de exportação, era só no sentido de viabilizar uma commodity, chegar ao porto de destino, porto de Tubarão, a um preço competitivo, mas sem frete de retorno. E aí que marca mais uma vez a genialidade do Eliezer: “A gente tem que aproveitar de alguma maneira esse frete do retorno porque a gente está gastando óleo, está gastando tração, mas está voltando com esses vagões todos vazios. Começou a se pensar de como a Vale do Rio Doce poderia junto com os governos estaduais, principalmente com o governo do Espírito Santo, de Minas, Goiás, Mato Grosso, um grande projeto de desenvolvimento do cerrado brasileiro no sentido de acoplar também outras commodities que não o minério de ferro para transportar também, no sentido de baratear os produtos agrícolas. Essa engenhosidade deu margem de desenvolvimento muito grande de campos que a Vale até então a Vale do Rio Doce não eram os ortodoxos dela. Eram campos que eram novidades para ela.

 

P/2 – Eu queria entender um pouco, como essas idéias na assessoria, dos outros projetos, como elas surgiam. Elas permaneciam na assessoria quanto tempo? Até elas se tornarem de fato um projeto materializado, como era esse caminho e qual a sua participação? Todo o projeto, só a parte comercial, como era esse planejamento?

 

R – Na verdade não havia uma rigidez de procedimento com relação à idéias novas, à projetos novos que viessem decorrer da atividade dela. Não havia como formalizar a atividade ou a condução desse projeto. Às vezes também não havia como alocar um determinado técnico, um determinado engenheiro que estava alocado em um outro projeto, um projeto especial na área de substituição de energia alternativa por exemplo, enfim, um projeto na área de logística porque aquele técnico, aquele engenheiro já estava de tal maneira envolvido naquele processo, naquele projeto, que era difícil retirá-lo, ele já havia acumulado certo conhecimento que era difícil haver essa substituição. Normalmente o que se fazia era o seguinte: a Vale do Rio Doce se recorreu muito à engenharia nacional, as empresas de consultoria nacionais que pudessem fazer o aporte de conhecimento tecnológico que cobrisse aquelas lacunas que a Vale do Rio Doce não tinha, ou porque não tinha mão de obra necessária, ou porque não tinha know-how de fazer, de desenvolver ou de levar adiante aquele projeto, aquela idéia. Eu lembro que um desses projetos que nós estudamos conjuntamente com a consultoria externa foi uma idéia de se criar portos de transbordo de minério de ferro, do seu ponto de origem para outros portos mais acessíveis. Nesse sentido, nós estudamos a idéia de se chegar ao Mar Negro e criar no Mar Negro um porto de águas profundas, ou de águas medianamente profundas, mas que pudesse servir, ele o porto construído ali, de transbordo para navios que pudesse subir o Danúbio e chegasse lá em cima, em mercados onde a Vale do Rio Doce não teria como frequentar pois seria impossível chegar pelo Báltico. Esse era um projeto especial, a gente não ia alocar um grupo de engenheiros para estudar um porto de águas profundas que não havia conhecimento. Então se lançava mão de consultoria nacional ou internacional. Foi a Solus que fez esse projeto no Mar Negro. A idéia de se fazer portos de transbordo surgiu no caso do leste da África. Se imaginou, numa determinada ocasião que os produtos brasileiros poderia ser transbordados na costa africana para depois sair numa pernada mais fácil da costa africana e entrar no Mediterrâneo e no Báltico com navios de pequeno porte. A equação que teria que ser montada a seguir seria a seguinte: como trazer o navio que levava minério de ferro para a costa africana, retornar com ele para o Brasil. A equação era fechada com os países que tivessem disponibilidade de petróleo que pudessem prazer para a Petrobrás, petróleo. Um desses países que nós estudamos foi a Nigéria. Estou citando um caso de um projeto especial que não fazia parte da rotina, era uma estratégia diferente, não fazia parte da rotina convencional, dos órgãos de linha da Vale do Rio Doce. Quando a gente começa a estudar o projeto vê que não é tão fácil assim. Aparentemente a coisa é fechada em termos de uma equação estratégica, mas quando a gente vai começar, vê que não é tão fácil chegar com um navio num porte de 150, 200 mil toneladas na costa nigeriana, simplesmente porque essa costa é uma costa rasa e não consegue atracar a não ser numa situação offshore (?), quer dizer, um navio chega em offshore, descarrega o minério de ferro por correia e volta com petróleo para a Petrobrás de offshore também. E assim como esse, vários outros projetos foram estudados, mas não havia um critério formal de dizer esse vai fazer, aquele não vai fazer, ia depender muito do arranjo, da condição do projeto, da própria disponibilidade da pessoa.

 

P/2 – Quando surgiu a idéia de fazer um planejamento estratégico da Vale como um todo, juntar todas essas áreas, entender a Vale inteira e pensar um planejamento estratégico para ela?

 

R – A primeira idéia que surgiu a esse respeito foi no final da década de... anos 1980 mais ou menos. Nós já estávamos trabalhando na Secretaria Técnica da Presidência e contratamos alguns estudos internacionais que pudessem fazer algumas sondagens nos respectivos mercados, mercados de alumínio, mercado de minério, mercado de madeira, mercado de celulose, a respeito dos prováveis desdobramentos e cenários futuros com relação a cada um desses mercados. Seja no sentido do ofertante, seja no sentido do vendedor, seja no sentido do comprador. Nós contratamos, aí a minha razão de ter trabalhado com o pessoal da Stanford, que são excelentes em consultoria, que desenvolvessem para nós alguns cenários possíveis a respeito de cada uma dessas commodities e chegássemos a fazer algumas inferências, a intuir algumas tendências, alguns desdobramentos do mercado que poderia ter fácil, as transformações de natureza econômica, de natureza tecnológica. Estávamos observando em cada um desses mercados. Estava-se observando que era uma tendência tecnológica a substituição cada vez maior de produtos derivados do ferro, aço, produtos metalúrgicos por outros produtos que a tecnologia estava colocando no mercado a preços mais competitivos e com condições operacionais, condições de manuseio melhores que o próprio aço. Na indústria automobilística por exemplo, é evidente que o peso específico do aço ou do ferro no peso do carro diminuiu brutalmente nos últimos 30 anos em função da tecnologia. Você lembra que há 30 anos atrás, pegasse um modelo da década de 30, o parachoque dele era um para-choque de aço, pesado, feito de aço, portanto feito com minério de ferro. Hoje os pára-choques são todos de plástico. O desenvolvimento da indústria de plástico, a indústria de polímeros, passaram a oferecer ao mercado, as moléculas de crant (?), moléculas de altíssima resistência ao calor, de altíssima resistência ao atrito e extremamente leves e baratas. Hoje não existe automóvel, de 1990 para cá, modelo que tenha nada de para-choque de aço nem de alumínio. As duas tendências que se verificaram eram a substituição do ferro por alumínio, daí a entrada da Vale no mercado de alumínio, para entrar no mercado alternativo e cobrir um segmento de mercado e produtos de última geração, de polímeros de plásticos, cerâmicas especiais que vieram a substituir os produtos convencionais. No final da década de 1980, delineava-se no mercado, um conjunto de transformações de natureza macro estrutural, com consequências para o mercado, com consequências para os provedores de matérias primas que eram irreversíveis e que a Vale do Rio Doce teria que fazer face a isso se quisesse continuar naqueles mercados, vender aqueles produtos. Não seria fácil. Aí que eu falei da excentricidade geográfica dela em relação ao mercado da Europa, a excentricidade pior ainda em relação ao mercado japonês. Uma série de estudos começaram a ser feitos para definir, para delinear um conjunto de estratégias que pudesse possibilitar a Vale a manter vivo, manter a vitalidade do sistema financeiro econômico que ela mesma tinha criado para ela. Qualquer perda de mercado significaria perda de vitalidade econômica para ela. Isso passava por um novo desenho na área de engenharia, um novo desenho na área empresarial no sentido de criar unidades empresariais que tivessem a flexibilidade suficiente para atuar no mercado. De que maneira? Através de um conglomerado? Através de uma empresa mãe que coordenasse todas as outras? Ou deixando cada uma delas com a sua administração própria, sua gerência própria? De que maneira? Então isso começou a se desenhar mais no final da década de 1980 quando a Vale do Rio Doce começou a se preocupar com um novo desenho, uma nova estrutura empresarial que permitisse a ela dar um fôlego de sobrevivência face a uma série de ameaças que ela vinha sofrendo na comercialização dos produtos. Fizemos aí uns dois ou três estudos de fôlego e isso foi facilitado porque havia de uma certa maneira, por parte dos analistas internacionais e de nossa parte um certo consenso com relação a essas tendências de longo prazo. Tendências de tecnologia, tendências econômicas. Uma idéia mais clara que estava começando a se desenhar a globalização, enfim uma série de condições, novas condicionantes do mercado é que essas iriam definir de que maneira a Vale do Rio Doce poderia estrategicamente buscar uma nova composição. Isso foi até o final de 1989, 1990 quando já estava na Era Collor. Uma premissa que se impunha para cada uma, para esse novo desenho empresarial, era realmente de um alívio. Apesar da Vale do Rio Doce ter desenvolvido um capital humano da melhor qualidade, excelente. Um capital humano que era polivalente, engenharia, economia, química, um acervo excelente, mas havia uma necessidade de reduzir o passivo trabalhista. Reduzir realmente o número de empregados para tornar a estrutura leve e negociável para entrar na grande avenida da privatização. Já se sabia, já era consensual que uma empresa pesada, com um passivo trabalhista pesado dificilmente despertaria concupiscência de qualquer empresa potencialmente interessada. Aí começaram aparecer, no cenário das estatais brasileiras, uma série de incentivos a saída, aposentadorias, no sentido de diminuir, de tornar a empresa financeiramente mais palatável. Nós saímos em 1989, 1990. Eu digo nós, primeira pessoa do plural, porque esse pessoal já estava maduro, pessoal que havia passado por todas essas etapas já estava na mira de sair. Realmente foi o que aconteceu. O Eliezer ainda continuou na Vale do Rio Doce, recebeu um convite para ir para a Secretaria de Assuntos Estratégicos. Foi no sentido de trabalhar esse binômio logística-energia, ainda no governo Collor. Segundo ano dele lá em Brasília, foi o Dioclécio que era o Diretor da Vale do Rio Doce foi para Brasília também. Eu fiquei durante algum tempo na Secretaria de Assuntos Estratégicos, não na sua versão de inteligência, da Agência Nacional de Inteligência que depois passou a ser formado, já havia um projeto nesse sentido. No sentido logístico mesmo. Com a Stanford mesmo que eu consegui trabalhar algum tempo. Consegui fechar.

 

P/2 – Vamos terminando

 

P/1 – Se você quiser podemos fazer mais algumas perguntas... você prefere continuar?

[continuação]

P/1 – Boa tarde César, então retomando a nossa conversa, eu gostaria que o senhor falasse um pouco essa sua passagem pela assessoria da Presidência da Vale. Quais as negociações que você participou?

 

R – Na verdade a participação na assessoria da Presidência, ela começou algum tempo antes com a preocupação que a presidência começou a ter com a tarefa em si de planejamento das atividades da Vale do Rio Doce. A Vale já tinha, até então, uma estrutura robusta em termos de mineração, em termos de transporte ferroviário, em termos de atividades portuárias e a logística decorrente do transporte do minério de ferro já desejava uma estruturação melhor. Eu me lembro que a primeira tentativa nesse sentido foi feita pelo Presidente da Vale, na ocasião, Dr. Raimundo Mascarenhas, e havia uma preocupação de no sentido de quem é que pode nos ajudar nessa tarefa do planejamento. Foi contratada então a Ecotec, que era uma empresa bastante conhecida na ocasião, ela era chefiada pelo professor Cafuri, que era o Catedrático da Escola Nacional da Escola de Engenharia e trabalhava nela o prof. Dias Leite e o Mario costa Braga também. A primeira tarefa de consultoria que a Vale encarregou, foi com a Ecotec e ela começou com uma tentativa de reestruturação da assessoria técnica da presidência que era o órgão que na ocasião estava estruturado, estava no organograma da Vale como encarregado de assessorar o presidente na tarefa de planejamento e na tarefa da condição dos negócios das atividades comerciais da Companhia, juntamente com a divisão comercial.

 

P/1 – Antes da contratação dessa empresa, o planejamento ele era anual, como ele se organizava?

 

R – Antes de se conferir um caráter mais orgânico à tarefa do planejamento, havia uma setorialização do planejamento da Companhia, quer dizer, parte era desenvolvido, o planejamento das atividades de mineração era conduzidos pelos órgãos de operação da Companhia, os órgãos que operavam a minas da Companhia em Itabira. As atividades de logística ferroviária eram desenvolvidas pela estrada de ferro Vitória-Minas e as atividades portuárias eram desenvolvidas também pela divisão de operações. Não havia propriamente uma centralização das atividades de planejamento num órgão específico para esse fim, havia uma vinculação, que dizer, havia uma condição paralela com o orçamento da Companhia, o que na verdade havia era um planejamento econômico-financeiro da Companhia, mas em função do que o orçamento definia para o exercício anual ou para os exercícios futuros, que vinham constituir na realidade o orçamento _______ da Vale do Rio Doce. O que se viu naquela ocasião foi a necessidade de recorrer a instrumentos mais sofisticados de planejamento, principalmente decorrentes dos contratos de longo prazo que haviam sido assinados com as usinas japonesas e com as usinas européias. Quer dizer, as assinaturas desses contratos como tinha um período médio de 10 anos, ela pressupunha o planejamento da atividade de mineração, da atividade ferroviária e da atividade portuária no sentido de concatenar e possibilitar a concretização daquilo havia sido contratualmente assumindo com as usinas siderúrgicas. Essa tarefa então que foi pela primeira vez, desenvolvida pela Secretaria Técnica da Presidência com ajuda da consultoria externa, com a Ecotec principalmente e de outras empresas estrangeiras que vieram ajudar a Vale do Rio Doce na elaboração dos respectivos planejamentos setoriais; foi o caso da Sobreminas (?) que era uma empresa de consultoria francesa que se encarregou das atividades de mineração e da Sofreer (?) que era uma empresa subsidiada da Sobreminas que se encarregou das atividades de ferrovia e as atividades portuárias. Outras empresas também da consultoria nacional, como foi o caso da Internacional de engenharia que ajudaram muito a Vale do Rio Doce na elaboração desse planejamento de prazo mais longo. Enfim, esse que foi o início da atividade do planejamento da Vale do Rio Doce, que mais tarde daria origem a inauguração do próprio planejamento estratégico da Vale do Rio Doce, não mais no sentido da atividade mãe da Companhia, que era a mineração de ferro, mas no sentido da diversificação das atividades empresariais que já estava a pleno vapor na companhia. Para o setor de alumínio, para o setor de madeira e celulose, enfim para os vários setores para os quais a Vale do Rio Doce veio a se diversificar.

 

P/1 – Mais uma vez, como se organizava em termos de tempo esse planejamento, tinha um tempo pré determinado para esse planejamento ou não, além da parte orçamentária tinha equipamentos, produção, como era isso?

 

R – Ele levava em conta necessariamente aquilo que era o fim último da companhia, que era a venda do minério de ferro. A Vale do Rio Doce havia assinado um contrato um contrato de longo prazo com as usinas japonesas, digamos, segundo contrato que foi assinado. Aquilo envolvia a venda de X milhões de toneladas de minério de ferro, ao longo de N anos, vamos dizer 10 anos. Havia então um calendário anual em que a quantidade pactuada com o comprador, havia de ser distribuída ao longo dos 12 meses de uma tal maneira que se um determinado navio chegasse a costa do Brasil, chegasse ao porto de Tubarão, demandando um determinado tipo de minério que estava previsto contratualmente, a mineração de ferro devia estar apta a  X meses antes fazer o planejamento da sua mineração e a ferrovia também de forma a assegurar que aquela quantidade estivesse com certeza no porto, naquele dia, na data tratada para que pudesse então fazer o embarque. Esse era o planejamento físico da exportação e que vinha se casar, em última análise com o planejamento orçamentário.

 

P/1 – Vocês acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos ou era um planejamento mais estático?

 

R – A secretaria técnica da presidência que na verdade era a assessoria do presidente, era a assessoria do órgão da presidência da Vale do Rio Doce, ela tinha a seu encargo o desenvolvimento e planejamento a priori das funções, quer dizer, uma vez repassado aos órgãos operacionais, a mina, a estrada de ferro Vitória-Minas e ao porto aquilo que já havia sido resolvido como um dado de planejamento, passava-se de incumbência de órgãos operacionais a realização daqueles objetivos.

 

P/1- Mas os senhores, em algum momento quando houve alguma falha, quando havia uma necessidade de compensar um atraso, uma coisa assim, vocês eram informados? A Secretaria técnica era informada disso?

 

R – Ela era informada e o que introduzia essa dinâmica é que as vendas de minério de ferro, se falando em minério de ferro, elas eram dirigidas a vários consumidores. Havia os consumidores asiáticos, principalmente as usinas japonesas, havia os compradores da Europa Continental, principalmente Alemanha e França. A Inglaterra também, além dos EUA e outros pequenos mercados. Mas esses constituíam a maior parte das vendas de minério de ferro. Essas vendas eram divididas entre aquilo que nós chamávamos de venda a longo prazo onde o prazo era normalmente de cinco anos, oito anos, 10 anos, isso caracterizava uma venda a longo prazo e aquelas vendas que não eram feitas em prazo longo e eram feitas num mercado Sport, semelhantes a venda de petróleo. Quer dizer, eram vendas de um determinado consumidor, digamos, havia uma Usina Siderúrgica importante a Ferst, ela precisava uma certa quantidade que não estava prevista no contrato, então ela solicitada a Vale do Rio Doce o aporte de uma determinada quantidade fora daquilo do contrato. Isso introduziu um outro tipo de planejamento, era preciso gotejar essa demanda, que era uma demanda aleatória com o programa de prazo longo para que as coisas pudessem se concatenar.

 

P/1 – E quando você passa para a assessoria especial da presidência, quais as suas funções, continua na área de planejamento?

 

R - A presidência da Vale, na segunda metade da década de 1980, ela começou a sentir a necessidade de estruturar melhor a assessoria técnica da presidência como órgão de bypass entre as funções de presidente e os órgãos operacionais e também as empresas subsidiárias porque naquela época já havia um processo de diversificação em andamento e já muita coisa concretizada. Uma empresa, uma série de negociações foram feitas com as usinas japonesas através de joint venture na pelotização. Uma série de empresas foi constituída que exigiam também um trabalho de planejamento dessas atividades. Não que a assessoria técnica da presidência fosse responsável pelo planejamento das atividades das unidades empresariais, mas num sentido de acompanhar o dia-a-dia, o desmembramento e também o início de novas atividades de diversificação da Vale. Foi exatamente nessa época que nós fomos para a assessoria técnica da presidência para organizar e para tomar parte nesse novo desenvolvimento já mais diversificado, não apenas do minério de ferro, mas da celulose, do alumínio, madeira. Enfim, uma série de outras atividades que foi desenvolvida pela Vale.

 

P/1 – Além de você tinha outros assessores?

 

R – Pelo menos uns oito ou 10 assessores que constituíam  o grupo naquela ocasião.

 

P/1 – Tinha alguma dinâmica especial de trabalho, os assessores se reuniam?

 

R – Havia essa dinâmica mas o desenvolvimento desse trabalho numa atividade de planejamento, ele se faz muito em função da necessidade da determinação que o presidente possa fazer para a condição de um outro projeto, de um outro tipo de trabalho e que eventualmente poderia necessitar. Então não havia uma rotina pré determinada, uma rotina definida como um órgão de linha que tem a sua rotina, como o órgão financeiro, como o órgão de controle. Essas sim que tinham atividade de controlar a atividade orçamentária, a atividade do planejamento econômico-financeiro, mas não na assessoria técnica da presidência. Esse era um trabalho menos orgânico do que uma atividade de linha. Era basicamente um órgão de staff.

 

P/1 – No caso você passou por várias gestões?

 

R – Pelo menos umas três ou quatro gestões, três ou quatro presidentes que eu estive na assessoria da presidência.

 

P/1 – E mudava muito de um presidente para o outro ou era basicamente o trabalho era o mesmo?

 

R – Não modificava essencialmente muito porque a Vale do Rio Doce felizmente sempre teve uma continuidade administrativa, porque seus presidentes de uma maneira ou de outra estavam relacionados à Companhia, quer dizer, eram técnicos que haviam trabalhado, que haviam se formado na VRD, como foi o caso do Mascarenhas, de Eliezer. Isso garantiu uma certa continuidade uma certa coerência de pensamento planejador para aquelas atividades da VRD. Não havia uma falta de sintonia nessas atividades. Havia uma continuidade administrativa dessas gestões. Mesmo aqueles presidentes que não eram oriundos dos quadros da VRD, como foi o caso do Professor Dias Leite, mas ele já havia passado pela Vale porque já havia sido contratado para o desenvolvimento das atividades de planejamento econômico, era o Projeto Sicó, contabilidade, orçamento e custo; ele se responsabilizou e se envolveu muito com as atividades da Companhia. Então quando ele foi à presidência da Vale e depois ao Ministério de Minas e Energia, não havia propriamente um desconhecimento das atividades que ele iria se responsabilizar. Mesmo outros que depois vieram mais no final do exercício, em 1990, como foi o caso do Dr. Agripino, ele não era das atividades de linha, da área operacional da VRD, entendido o complexo mina – ferrovia – porto, mas era da área de madeira e celulose, então ele também conhecia as atividades da companhia.  O que eu quero dizer é que não era uma figura estranha ao processo nem era uma figura estranha aos quadros da VRD, era bastante conhecido e conhecia bastante as atividades da VRD. 

 

P/1 – No caso, você chegava a participar de algumas das negociações que eram feitas nesse período?

 

R – As negociações eram de responsabilidade do presidente da Companhia junto com as presidências das empresas subsidiárias, no caso das empresas diversificadas. Agora a assessoria técnica da presidência participava assessorando o presidente na medida em que ele no seu diálogo e no seu relacionamento com as empresas subsidiárias. Havia uma participação grande e intensa o que ajudava muito a quem trabalhava na assessoria da presidência a conhecer mais também mais essas novas atividades da VRD.

 

P/1 – Você lembra de alguma mais especial que tenha sido mais difícil, que você tenha participado que tenha marcado?

 

R – Não especialmente nas atividades de diversificação da Vale não tanto mas a dificuldade maior na área de mineração era exatamente da conquista de novos mercados, além dos mercados tradicionais que a Vale do Rio Doce já havia conquistado. O mercado de minério de ferro é basicamente conhecido para quem trabalha no setor, como um comércio muito especial chamado Siborn trade (?), quer dizer, um mercado transoceânico de minério de ferro, é esse mercado que a Vale realmente disputa a sua fatia. Ela não disputa mercados internos, dificilmente ela disputa o mercado interno americano, o mercado interno canadense, ela disputa aquele mercado que é transoceânico, como os contratos já haviam sido assinados no final da década de 1980, início da década de 1990, a Vale praticamente já havia atingido a sua participação no mercado em torno de 23 – 25% do mercado. Ela disputava com grandes atacadistas, grandes produtores do mercado que é ainda a Austrália, o Canadá, a Suécia e a Índia.. então na divisão de mercado a Vale do Rio Doce havia conseguido uma marcha em torno de 25%, ou seja a quarta parte do mercado e aí as dificuldades começaram a aparecer no sentido de conquistar, aumentar essa fatia no sentido de novos mercados porque eram mercados relativamente pequenos, mercados emergentes em que não havia tradição siderúrgica, não havia uma tecnologia definida e a Vale do Rio Doce teve que se adequar tecnologicamente para atender esses mercados. Mercados de pré reduzidos, mercados de _______ direta, com minérios muito rígidos, tecnicamente falando. Essas eram realmente as dificuldades que a gente encontrava naquela ocasião.

 

P/1 – De que forma vocês tentavam conquistar esses mercados, feita essa prospecção. Como era feita?

 

R – O trabalho de planejamento desses mercados, de dar busca em mercados que não os mercados já cativos, se fazia basicamente com o apoio das subsidiárias do exterior, com a Rio Doce Europa na Europa, com a Rio Doce American nos EUA e com o órgão de planejamento que havia na Superintendência de Vendas, na Divisão Comercial da Vale do Rio Doce que era o Departamento de Planejamento. A esse órgão do Departamento de planejamento é que incumbia à prospecção, à avaliação da potencialidade do mercado futuro, a identificação de novas áreas possíveis que poderiam ser consumidoras da Vale do Rio Doce e com ajuda de consultoria externa que pudesse avaliar na medida em que a Vale do Rio Doce não poderia avaliar ela somente esses mercados a compensar parte de uma deficiência técnica e comercial que poderia haver em relação a esse mercado, principalmente mercados da América do Sul, no caso da Argentina, ao norte da América do Sul que era Trinidad- Tobago, que era um mercado potencial também que a Vale veio a vender para eles, era um mercado que tinha uma abundância de gás natural e portanto havia uma siderurgia emergente, os mercados do norte da África que não significativos, expressivos em termos de produção mundial de aço, mas eram mercados emergentes que poderiam se tornar potenciais compradores da Vale e a Vale tinha que enfrentar a concorrência de produtores da costa leste da África. Os mercados do Oriente Médio, no caso do Iraque, no caso do Irã, do Paquistão, que começaram a comprar quantidades cada vez mais significativas do minério de ferro da Vale do Rio Doce que na ocasião disputava também com o porto do Rio, com o minério vindo do Quadrilátero Ferrífero através da linha do centro que vinham competir com a Vale do Rio Doce também nesse mercado. Os mercados também, uma faixa bastante significativa do sudeste da Ásia, para os quais a Vale começou a prospectar e começou realmente a vender, caso da Indonésia, Malásia, quantidades já bastante significativas.

 

P/1 – César, antes da gente falar da sua saída da Vale, a pouco você mostrava uma foto sua levando os primeiros visitantes a Carajás. Eu queria que você comentasse um pouco esse fato, porque você foi, quem era?

 

R – Final da década de 1960, mais ou menos início da década de 1970 já havia uma certa definição, primeiro em relação à cubagem do minério de Carajás, quer dizer, já se sabia naquela ocasião, que a cubagem era de um material já conhecido de hematíticos e a cubagem era resultado em torno de 17 bilhões de toneladas. Então para essa cubagem já transformaram a mina em bastante significativa no cenário do mercado mundial de minério de ferro. 17 bilhões de toneladas é uma quantidade bastante expressiva em termos de mineração. Então no início da década de 1970 vários consumidores da VRD, ou os consumidores do  ________, quer dizer, do Japão, ou os consumidores da Europa continental, ou da Inglaterra começaram a demonstrar interesse na troca do minério do sul, o minério de Tubarão, pelo minério do norte, que é o minério de Carajás. Isso porque em termos de custos, o minério de Carajás, saindo pelo porto de São Luís, ele estava bem mais próximo do centro de gravidade da bacia atlântica do que estava o porto de Tubarão, que estava relativamente excêntrico em relação a esse centro de gravidade. Em termos de mar, em termos de navio, se um navio saísse de Tubarão para chegar em Roterdã ele demoraria 28-30 dias, em termos de mar, se esse minério fosse carregado em Itaquis, em porto da madeira, daria uma economia de pelo menos uma semana de mar que em termos de frete é bastante significativo se a gente quisesse realmente competir com os minérios que estavam chegando em Roterdã ou em qualquer porto do Mediterrâneo ou do Báltico. Então a Vale do Rio Doce começou, uma das primeiras pessoas, uma das primeiras usinas ou grupo de usinas que demonstrou interesse em conhecer mais profundamente, em visitar, em ter um contato direto com Carajás foi exatamente o grupo de usinas siderúrgicas francesas, que estavam representadas na ocasião pela Usinor, pela Ponta ________ e elas estavam congregadas num órgão que chamado ___________________- da qual o presidente era o Alberto _____________, figura bastante conhecida nos meios siderúrgicos europeus, que demonstrou pela primeira vez, ele foi realmente a primeira pessoa que realmente demonstrou interesse em vir pessoalmente conhecer essas novas minas. Eu tive a oportunidade de acompanhar a primeira visita então feita por um visitante estrangeiro ao Carajás, como mostra aquela fotografia no que viria a ser conhecido como N4 que era o corpo principal da mineração.

 

P/1 – E porque surgiu esse convite para você levar, você tinha...

 

R – Porque nessa ocasião, final da década de 1960 eu não estava na assessoria da presidência, eu ainda estava na Divisão Comercial,  na área de planejamento da Divisão Comercial então eu fui encarregado na ocasião, pelo então superintendente de vendas Dr. Raimundo Mascarenhas que viria a ser o presidente da Vale na próxima gestão.

 

P/1 – Quando você sai da Vale, você deixa a Vale em que ano?

 

R – Eu saí da Vale no final de 1990, início de 1991, dentro daquele plano de incentivo que a Vale do Rio Doce criou e ofereceu a seus empregados e aí eu saí no início de 1991.

 

P/1 – Aí você ocupa outra função depois de sair da Vale?

 

R – Logo depois que eu saí da Vale, em função de um relacionamento que nós já havíamos desenvolvido com empresas estrangeiras e com universidades estrangeiras, eu fui convidado pela Stanford dos EUA para ser o representante da Stanford Institute (?) aqui no Brasil, eles virão a possibilidade de continuar esse trabalho que eles haviam desenvolvido não só com a Vale mas com outras empresas aqui no Brasil, me convidaram então para ser o representante deles, desenvolver novos negócios, não apenas na área de mineração mas na área da petroquímica, enfim, outros setores para os quais eles tinham know how para vender serviço da consultoria.

 

P/1 – Quais foram os clientes desse Instituto?

 

R – A Stanford desenvolveu alguns projetos aqui no Brasil, mas na verdade eu não fiquei tanto tempo assim. O trabalho que ela vinha desenvolvendo com a VRD, com algumas Universidades brasileiras como foi o caso da Unicamp e da USP mas eu não pude porque logo depois desse trabalho com a Stanford, o Dr. Eliezer foi para Brasília para chefiar a Secretaria de Assuntos Estratégicos, levou o Deoclécio Rodrigues também para Brasília e eu fui convidado também para ir para Brasília. Eu não cheguei a ir para Brasília, fiquei na Secretaria de Assuntos Estratégicos aqui no Rio de Janeiro durante um ano, um ano e pouco. 

 

P/1 – Qual o objetivo da Secretaria?

 

R – A Secretaria de Assuntos Estratégicos ela mudou de nome, na realidade ela encampava as funções das atividades do antigo Serviço Nacional de Inteligência, mas a nova lei que estava tramitando pelo Congresso já falava da necessidade da criação do Agência Nacional de Inteligência, então esse órgão, a Agência nacional de Inteligência, seria desmembrado da Secretaria de Assuntos Estratégicos e ela seria órgão de assessoramento direto do Presidente da República, na condição, no desenvolvimento, no planejamento das atividades de logística desenvolvidos pela Presidência da República, mas junto com os Ministérios encarregados dos respectivos setores. Na área de energia, o Ministério de Minas e Energia, na área de telecomunicações, enfim, com os vários setores e a secretaria de Assuntos Estratégicos faria aquilo que a Assessoria Especial da Presidência fez na Vale do Rio Doce junto à Presidência, quer dizer, era um órgão basicamente de aconselhamento e consultoria da Presidência da República. A Presidência da República não tinha os recursos orçamentários necessários para esse fim, para cobrir as novas atividades da Secretaria de Assuntos Estratégicos e os recursos foram negociados com as Nações Unidas através do Plinud que era o Plano das Nações Unidas de Desenvolvimento, então a dotação orçamentária vinha do Plinud para a Casa Civil da Presidência da República e com esses recursos eram contratados os técnicos, os especialistas da área de Telemática, da área de Informações, da área de Informática, da área de energia e que iriam trabalhar nesses respectivos setores. 

 

P/1- Mudava muito sair de uma Estatal e ir para o Governo?

 

R – Não mudava muito não pelo fato de não haver uma diferença de raciocínio ou de uma condução da atividade de planejamento, mas talvez pelo fato do titular ser o ex presidente da Vale do Rio Doce o ex Ministro de Minas e Energia que era o Dr. Eliezer, então a maneira de trabalhar, a forma era praticamente não havia uma solução de continuidade. Uma certa coerência administrativa para nós que éramos, tínhamos trabalhado com ele na VRD.

 

P/1 – César, depois da Secretaria você faz o que?

 

R- Na verdade o Dr. Eliezer não ficou muito tempo na Secretaria. Eu não me lembro se ele saiu um pouco antes do Governo Collor onde houve uma finalização dessas atividades. Um novo Secretário para assuntos estratégicos tomou posse e aí ficou praticamente encerradas as nossas atividades nesse setor, e as minhas também.

 

P/1 – Aí você faz o que, você permaneceu aqui no Rio?

 

R – Durante algum tempo eu permaneci no Rio, ainda formamos com técnicos especialistas, engenheiros e economistas que trabalhavam na VRD, nós fizemos, nós constituímos uma sociedade anônima que foi a Orion que era uma Empresa de Planejamento destinada a vender conhecimento técnico na área de mineração, na área de logística ferroviária, na área portuária, mas eu fiquei relativamente pouco tempo na Orion e aí começamos a desenvolver um trabalho de Comércio Exterior de assessoria nessa área, mas é uma área ingrata, uma área difícil, somente na busca de novos mercados, novos mercados são difíceis, são aleatórios. Nós trabalhamos no mercado da Nigéria por exemplo, como os mercados africanos de modo geral são mercados difíceis, não tem tradição, há uma certa descontinuidade, existe uma descontinuidade administrativa muito grande, isso torna muito difícil o planejamento de atividades comerciais. Os mercados do Oriente Médio também são mercados difíceis, são mercados em  ______- que se caracterizam por essa instabilidade, instabilidade da continuidade administrativa...

 

P/1 – Era comércio de que? Minério?

 

R – Não apenas de minério de ferro, de commodities em modo geral, desde que elas não fossem já definidas, ou não fosse objeto de comercialização por outras empresas como é o caso da Petroquímica que já tem as suas empresas de comércio exterior definidos aqui no Brasil.

 

P/1 – A questão inflacionária influenciava ou dificultava o trabalho de planejamento porque foi um período bastante crítico.

 

R – Ela influenciava bastante e era difícil principalmente quando ao horizonte de tempo se dilatava era bastante difícil fazer um prognóstico sobre... já era difícil no orçamento, no planejamento anual. O planejamento pluri anual já traria uma dificuldade implícita muito grande, era só na bola de cristal  mesmo que podia trabalhar.

 

P/1 – Depois dessa experiência com comércio exterior você passou a fazer o que?

 

R – Aí já no comércio mesmo, na busca de mercadorias de commodities principalmente na Orion com mercados do leste da Europa, mercado húngaro, mercado romeno, mercado da Polônia, embora esses países já tivessem as suas mercadorias com um mercado polonês.  É o caso do carvão polonês que o Brasil comprava, caso do enxofre da Polônia, algumas incursões no campo, não das commodities mais no campo de bens de capital que é o caso da Hungria, mas não foram experiências muito bem sucedidas a não ser as mercadorias que os mercados já tivessem estabelecidos, já tivessem numa inércia de movimentos onde havia apenas uma necessidade de manutenção desses contratos de renovação. Mas a colocação de novos produtos e a troca de produtos era extremamente difícil arranjar mercadorias que pudessem... por várias razões, a dificuldade técnica, dificuldade de manutenção. Se conhece o caso, ficou bastante conhecido dos trens húngaros que o Brasil comprou na Hungria, que em princípio excelentes tecnicamente mas de uma manutenção difícil, eles falhavam na manutenção, não havia uma continuidade do serviço, isso dificultava em introduzir uma desconfiança muito grande no mercado para esses produtos que não eram produtos tradicionais do mercado. 

 

P/1 – Depois dessa experiência você... enfim, o que você passou a fazer do seu dia?

 

R – Depois exatamente, agora eu tenho uma casa, perto de Itaipava, fico lá a maior parte do tempo. No começo eu ficava 90% do meu tempo aqui, e 10% lá,  depois esse percentual foi invertendo, hoje eu prefiro ficar 100% do meu tempo lá.

 

P/1 – Hoje em dia que você tem uma economia, supostamente mais estável, você como espectador acha que é mais fácil fazer um planejamento, mesmo tendo uma situação política menos instável?

 

R – No caso do minério de ferro, me parece que hoje o vetor principal do mercado, o mercado de hoje não tem o mesmo perfil de um mercado de 10, 20 anos atrás. É um perfil completamente diferente, onde o vetor principal é o vetor tecnológico. Ou as empresas se habilitam e investem os recursos, uma parte substancial de seus recursos no desenvolvimento tecnológico, no sentido de se aprimorarem se adequarem às exigências do mercado que são extremamente grandes na parte operacional e investimento também naquilo que a Vale do Rio Doce teve também que felizmente foi um capital humano. Mas hoje o investimento no capital humano acho que é fundamental para que as empresas consigam  sobreviver no mercado, e daqui para o futuro, vai ser muito difícil a essas empresas que não investiram no capital humano, em tecnologia, continuarem a frequentar esses mercados. Ontem eu assistia um depoimento do presidente da Microsoft, não o Bill Gates, ele dizia exatamente isso, a crítica era da Microsoft hoje estar monopolizando uma parcela enorme do mercado, mas ele dizia exatamente isso, que é extremamente difícil hoje, a Microsoft já faz isso com muita dificuldade, se ela não fizer uma grande parte do seu ________ na tecnologia e no seu capital humano também. As regras do jogo mudaram, as determinantes daqui para frente são essas também.

 

P/1 – E hoje, como é seu dia?

 

R – Eu resumiria assim dizendo: Eu me sinto em estado de graça, eu acho que é um privilégio a pessoa ter hoje uma casa fora, poder ter um pouco de área livre para se dedicar o que a gente no Rio não consegue fazer hoje. Eu acho muito difícil você ter tempo para ouvir música em casa, embora eu sinta falta de um programa cultural, mas está tão próximo do Rio a 50 minutos do Rio que... agora mesmo a noite eu vou assistir a Amostra do Surrealismo na cidade, faço isso com muito prazer. É muito gostoso essa atividade assim, é muito gratificante. Agora a gente sente um pouco, principalmente o meu caso, que atribuiu um grande valor à área intelectual, isso realmente faz falta. Mas hoje você tem tantos recursos, através de Internet, vindo ao Rio, não sinto tanta falta assim.

 

P/1 – E a família? Você é casado, tem filhos?

 

R – Eu praticamente tenho nove, filhos porque tenho quatro filhos e cinco netos. 

 

P/1 – Qual o nome deles?

 

R – Cada um entrou na sua trajetória independente, tenho dois casais. O mais idoso e o mais jovem. Mas a mesmo a mais jovem está casada hoje. Um mora aqui comigo no Rio, os outros moram fora do Rio, um em Mato Grosso, duas moram em Minas. De modo que só tenho o Cristiano que mora comigo. Os cinco netos também.

 

P/1 – Já estamos chegando no final do nosso depoimento e a gente costuma perguntar o que você achou de dar o depoimento para o Vale Memória e o que você acha do Projeto Vale Memória?

 

R – Lendo uma matéria que foi publicada recentemente na Isto é sobre o Museu da Pessoa, o que me chamou a atenção foi uma frase de uma senhora que fez o depoimento e a maneira com que ela relatou ou se referiu, achei que foi muito cativante e me sensibilizou. Ela falou “foi uma das poucas oportunidades que eu tive nesses últimos anos de rever a minha vida” é uma maneira, na verdade, de você rever, de você fazer em playback, o filme da sua vida, com todas as deficiências do tempo, da memória, porque você não tem isso de uma maneira estruturada, mas foi extremamente prazeroso.

 

P/1 – E o que você achou do Projeto Vale Memória?

 

R – A rigor eu não conhecia o projeto, quer dizer, a primeira entrada que eu tive foi uma telefonema que eu recebi lá em Secretário (?) de alguém do Museu da Pessoa de São Paulo e depois essa matéria que tive acesso na Isto é ou a Veja, mas eu não realmente eu não conhecia, mesmo pela VRD, eu não conhecia, eu não sabia que a Vale do Rio Doce tinha feito essa clarividência de fazer esse trabalho com vocês.

 

P/1 – Então você gostou?

 

R – Muito.

 

P/1 – Muito obrigada pela entrevista, foi um ótimo depoimento.

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