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História

Esse é meu sonho

História de: Carmen de Sousa Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/10/2014

Sinopse

Carmen nasceu e foi criada em Niterói, no bairro São Francisco. Mora na mesma casa desde criança, em uma área de risco que sonha em deixar desde que uma enchente em 2010 marcou a sua vida. Sua disciplina favorita na escola era Educação Artística, sempre gostou de trabalhos manuais e tornou-se artesã de profissão. Trabalha em ateliês e escolas, e faz adereços para escolas de samba durante o carnaval. Deixou de estudar um pouco depois do nascimento do filho Carlinhos, para poder trabalhar e cuidar da criança. Hoje, com o filho mais crescido, voltou a frequentar a escola e planeja cursar a faculdade a fim de garantir um futuro melhor para sua família.

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História completa

Meu nome é Carmen de Sousa Freitas, eu nasci dia 30 de setembro de 1982 e nasci aqui em Niterói. O nome da minha mãe é Francisca de Souza Freitas, ela nasceu dia 15 de abril de 1954 e o meu pai – que é meu padrasto, mas me registrou como filha – o nome dele é Alberto de Souza... José de Freitas e nasceu dia 15 de outubro. E minha mãe é nordestina, ela nasceu no Ceará e meu pai ele nasceu aqui em Niterói. Minha mãe é falecida há dois anos e o meu pai ele é viúvo... Minha mãe era servente numa Escola Pública, da rede pública. E o meu pai quando ele trabalhava ele era porteiro.

Assim, eu lembro que eu morei com a minha vó mais ou menos uns dois, três anos. Antes de vim aqui pra Niterói minha vó morava em Caxias. Assim, porque quando minha mãe me teve, não tinha ninguém pra ficar comigo, minha irmã ficava numa creche e comigo não tinha ninguém pra ficar e eu ficava com a minha vó e, de vez em quando, minha mãe ia lá me ver, nos finais de semana quando dava. E, assim, até esse período em que eu morei com a minha vó eu lembro que gostava muito, que eu gostava muito, eu era bem feliz, assim, que a minha vó morava num mini sítio, assim, sabe? Então eu era bem livre. Então, depois que eu vim morar em Niterói que a gente começou a morar nessa casa que eu moro até hoje.

Eu lembro que minha irmã estudava num numa escolinha... Numa escolinha não, numa escola mesmo e acho que pegava assim a partir dos dois, três anos, mas só que eu não era matriculada nessa escola. Então, como minha mãe levava todo dia a minha irmã ela me deixava lá junto, assim, eu acho que não tinha mais vaga aí num deixavam eu entrar na escola e minha irmã ia e minha mãe ia de fininho, assim, e me deixava junto, sem ninguém deixar. Aí, eu lembro que depois era uma escola de freira, assim. Depois, minha mãe conversou com a irmã aí deixaram, como minha mãe já tava me deixando mesmo deixaram eu ficar na escola e lá eu fiquei por muitos anos. Ah, eu brincava muito de correr, de pique, vivia correndo, vivia me machucando. Eu lembro que eu caía muito, sei lá se tinha as pernas fracas, sei que eu vivia machucada. Assim, vivia com um reloginho na perna, que sempre era um machucado atrás do outro. Acho que tinha uma boneca ou outra, mas não lembro de brincar muito de boneca, não. Eu lembro, assim, que minha mãe tinha dois... Aquelas capas de bujão, que era de crochê amarelo. Eu e minha irmã brigava muito por causa daquilo porque a gente colocava na cabeça falando que era o cabelo, né? Aí, as nossas amiguinhas que tinha perto de casa, a gente brigava por causa daquele negócio “Quero emprestado, quero cabelo, quero cabelo”. Eu lembro disso, que a gente brincava muito com essa capa de bujão, que a gente botava na cabeça. É, porque como ela era redondinha, assim, aí fazia o formatinho da cabeça, parecia que era um cabelo grande e amarelo ainda, ainda é loira. A gente brincava muito disso.

Ai, na adolescência eu era meio besta, assim, sabe? Ah, num sei, porque namorado, assim, ter uma coisa certa mesmo, eu só tive com o pai do Carlinhos. Porque minha irmã namorava o primo dele. Então, aí, a gente se conheceu mas eu odiava ele, ele era muito chato, me batia, porque eu era menor, então eles aproveitavam, tipo era garota sapeca, não sei o quê, eu era menor que eles, né? E, aí, ele me batia me dava cascudo, eu não gostava, eu não sei o porquê também, sabe? Me interessei. Aí, a gente começou a ficar, gente viajava junto pra casa da família deles, que ficava no interior do estado, a gente foi ficando e aconteceu, né? Era tudo escondido, minha mãe não gostava dele. Namoramos uns quatro anos, tudo escondido, sabe? Ele mentia muito, me enganava, mas era bom. Eu era boba, eu acreditava. Aí, assim, foi uma decepção. Mas, tipo assim, quando eu fiquei grávida de Carlinhos, eu me vi meio que, ai, liberta, assim, sabe? Porque eu gostava tanto dele que às vezes eu num ligava pra mim, não queria saber e ficava sofrendo e chorando. Aí, Carlinhos veio meio pra me confortar, assim, então tinha uma pessoa que eu poderia me dedicar mais do que eu fazia pra ele, entendeu? Então, meio que foi uma libertação assim, falei: “Não, agora eu vou cuidar do meu filho”. Então, eu coloquei ele, assim, meio que em primeiro lugar, então, não tem mais espaço pra ninguém. Eu tinha 17 anos quando eu engravidei do Carlinhos.

Ai, foi um susto. Foi um susto mas, assim, eu fiquei meio assim no começo eu falei: “Ai meu Deus quê que eu vou...” – eu só pensava na minha mãe – “Minha mãe vai me matar! Minha mãe vai me matar!” (risos). Falei: “Ai, minha mãe vai me matar, ai meu Deus do Céu, cara o que que eu vou fazer?”. Mas, aí, quando eu contei pra minha mãe ela ficou internada, passou mal, eu fiquei com remorso, minha irmã falou que eu ia matar minha mãe (risos). Mas aí depois passou o susto, ela aceitou mais. Mas a minha relação com ela piorou mais ainda, porque aí ela ficou decepcionada demais e a gente brigava demais e aí piorou tudo. Mas Carlinhos nasceu ela já ficou assim mais, né? Aí, aceitou, nossa, Carlinhos era tudo pra ela, assim, ela fazia de tudo pra ele, tudo ela podia fazer pra ele, era o xodó da casa, todo mundo queria Carlinhos.

Eu não gosto muito de lá, onde a gente mora não, porque, assim, a gente mora numa área de risco. E nossa casa é muito no alto, assim, é um morro muito alto e eu também não gosto por causa disso. E é uma casa que ela era dos pais do meu pai, assim, do meu padrasto. Então, aí, ela foi dividida no meio, minha mãe comprou a parte que era dele pra gente poder morar lá e depois que Carlinhos nasceu, eu fiz um quarto e uma sala pra mim em cima, mas continuei usando o banheiro e a cozinha da minha mãe, que é assim até hoje. E a gente vive lá até hoje. É aqui na Cachoeira. É aqui no bairro de São Francisco, lá no finalzinho.

Em 2010 teve essa chuva e desabamento. Era uma noite, eu lembro, que chovia forte e, assim, muito escura, não dava pra você ver muito. Então, eu tava dentro de casa e, aí, eu tava fazendo umas coisas, eu não sei se eu tava arrumando alguma coisa, minha mãe já estava deitada e Carlinhos tava deitado, já preparado pra dormir. Aí, a gente escutou um barulho forte, assim, meio que tremeu, o solo tremeu. Aí, Carlinhos levantou: “Mãe, você sentiu?” E eu falei: “Sim, acho que sim Carlinhos”. Aí, eu escutei uma gritaria de vizinhos do lado de fora, eu olhei pela janela e meus vizinhos que moravam do lado da minha casa estavam correndo. Aí, eu falei: “Mãe tá acontecendo alguma coisa”. Minha mãe tava embaixo, eu desci e falei: “Mãe tá acontecendo alguma coisa”. Ela: “Não tá acontecendo nada, não, menina”. Aí, eu fiquei já meio alerta, o meu portão já tava trancado. Aí, eu subi e comecei a olhar pela porta, ver se via alguma coisa, tava muito escuro, muito escuro. Escutei uma gritaria, assim, pessoas gritando, correndo. Aí, eu tenho uma amiga que morava em cima da minha casa, que eu escutei ela gritando muito. Aí, eu olhei e não conseguia ver nada, chovendo, escuro, eu: “Mãe tá acontecendo alguma coisa, tá acontecendo alguma coisa”, e fiquei naquela angústia, naquela aflição. Olhei de novo pela janela, aí, eu escutei o vizinho falando assim: “Pega Jackson!” - o outro vizinho. Os outros vizinhos correram, mais gente, eu olhei assim falei: “Mas, gente, o quê que tá acontecendo?” E eu saí pra ver o que que tava acontecendo. “Ah, tá caindo, a pedra tá caindo — que onde a gente mora tem muitas pedras — a pedra tá caindo”. Em cima da minha casa tem uma pedra que ela é um bico assim: “Tá caindo, a pedra tá caindo”. Aí, eu falei: “Mãe, vamos embora agora!”. Eu acho que eu tava arrumando a minha bolsa, eu coloquei todos os meus documentos dentro, com a roupa que eu tava no corpo, assim, “Carlinhos, vamos embora!” Peguei Carlinhos, peguei minha mãe “Mãe, vamos embora!”, peguei a bolsa da minha mãe “Vamos embora! Vamos sair daqui agora!” e a gente saiu, correndo, na chuva. Aí, a gente desceu um primeiro lance de escada, no segundo lance, a parte que a gente ia passar já tava meio que rachando, assim, o solo. Eu: “Mãe não passa aqui!”. Aí, a gente entrou pra casa de uma outra vizinha, que dava acesso pro outro caminho, ai casa dela tava, assim, tranquilo, num tinha nada, eu falei: “Mãe, fica aqui na casa de Sabrina, que eu vou ver o que tá se passando”. Deixei minha mãe e Carlinhos lá na casa dessa outra vizinha, aí, desci mais um lance de descida assim pra ir direto pro asfalto e, quando eu cheguei mais perto do asfalto, tava descendo uma cachoeira de lama, muito, e eles tinha feito... Acho que a prefeitura tinha feito uma obra de um... Fez tipo uma canaleta, assim, uma coisa e tava passando por cima, muita lama, muita água, tipo uns dois metros, e eu falei: “Cara, minha mãe não vai conseguir passar por aqui”. Eu falei assim: “Cara o que que a gente vai fazer pra descer?”. Nisso que tava descendo, tava descendo parede, tava descendo móveis de casas de pessoas, vaso sanitário e nisso tava descendo o corpo do outro vizinho. Aí, todo mundo: “Ah, pega!” num sei o quê, bombeiro, aquela confusão e só escutava gente gritando. Aí, eu voltei e falei: “Cara, não vai dar pra minha mãe passar por aqui! Eu vou voltar, que lá pelo menos ela tá mais ou menos segura”. Mas é uma noite que a gente não dormiu, a gente deitou na sala dessa minha vizinha, a casa dela também era pequenininha. Passamos a noite, assim, na porta e, uma certa hora, começou a entrar água pra dentro da casa dela. Eu falei: “Ai, meu Deus. como é que a gente vai dormir?” e começou a molhar o colchão onde a minha mãe, tadinha, tava deitada “Ô, mãe tenta dormir um pouco” — Carlinhos já tava dormindo — e passamos a noite tirando uma água de dentro da casa dela. Aí, amanheceu o dia, que a chuva passou um pouco, quando foi mais ou menos umas sete horas da manhã, eu fui até a minha casa, tirei roupa e o que dava pra mim poder tirar, assim, roupa minha, da minha mãe e do meu filho, tirei um pouco de barro de lama que tinha descido ficado um pouco assim na porta. Eu e minha mãe tiramos um pouco e fomos pro outro lado, assim, pro outro lado do muro que era a casa de uma amiga da minha mãe, que a gente considera como tia. A gente ficou na casa dela por uma semana e, depois, que a minha mãe conversou com a diretora dela e tinha essa casa vazia, ela deixou a gente ir pra lá. Aí, que nós fizemos meio que uma mudança, levamos as coisas de dentro de casa assim que dava pra poder levar e ficamos lá morando um mês, seis meses. Aí, depois, assim, aconteceu algumas coisas, tinha umas pessoas implicando, ela falou pra minha mãe que não dava mais pra gente poder ficar mas minha mãe achava que por ela trabalhar lá há mais de 17 anos, que eles poderiam ter uma consideração maior por ela. Assim, eu entendo o lado da diretora, porque como tava dando muito buchicho da gente ta morando lá de graça e coisa, aí ela num... “Ah, Francisca não dá” e também tinha Carlinhos pequeno, tinha um professor que ficou doente e teve que ficar lá junto com a gente, aí, já estavam falando que o professor poderia passar a doença pra Carlinhos, começou a dar muita confusão assim, ela: “Ah, Francisca, infelizmente não vai dar”. Minha mãe ficou chateada com isso, né, porque achou que a gente poderia ficar lá por mais tempo. Aí, nós voltamos pra casa. Minha mãe começou a receber aluguel social mas a gente voltou pra casa do jeito que tava, né? Então, sempre a gente fica com medo, aí, a gente quando chove muito, realmente, eu confesso que eu não durmo direito.

Eu acho que o maior desafio de todos foi quando minha mãe morreu que a gente se viu, assim, meio que perdido, porque ela era a cabeça da família de casa, né? Então, eu tive que tomar a frente de muitas coisas que eu não sabia como ia fazer. E, assim, eu acho que pela religião, por Deus, eu acho que eu consegui dar a volta por cima, mas muito difícil. Até hoje a gente passa por complicações que, assim, eu falo: “Ai, meu Deus, minha mãe não podia estar aqui pra me ajudar?”. Mas, por um lado foi bom porque eu tive que crescer mais, assim, ter determinação pra poder fazer as coisas. Então, assim, eu penso muito em crescer e estudar muito. Então, é uma coisa assim que durmo e acordo pensando, falei: “Meu Deus, eu tenho que sair desse lugar”. Eu tomei isso como foco da minha vida, eu tenho que estudar, eu tenho que trabalhar que eu tenho que conseguir sair desse lugar. E, é isso, a gente vai dando a volta por cima, que eu acho que como eu botei isso como centro “Não, eu vou ter que conseguir! Eu vou ter que conseguir!” e trabalhando muito, porque eu vou ter que conseguir. Já me inscrevi no ENEM, já vou fazer UERJ, não, eu tenho que conseguir estudar pra eu conseguir uma coisa melhor, porque eu tenho que sair desse lugar. Então, quando eu me pego nesses momentos de fraqueza, eu vejo isso como uma determinação pra eu conseguir fazer, então, chega de chorar, já passou e vamos em frente! E eu acho que é por isso que eu consegui dar a volta por cima, porque assim, eu via que a minha mãe passou, cara, a vida dela toda ali naquele lugar sem conseguir nada. Assim, não, eu não quero ficar aqui igual a minha mãe ficou. Não quero entrar em depressão, às vezes você fica triste porque o dia passa e você continua no mesmo lugar. Eu falo: “Não, eu não quero isso pra minha vida, eu não quero passar o que a minha mãe passou ali”. Então, hoje eu tenho essa noção e eu quero, e graças a Deus, Carlinhos, na idade que ele tem, tem uma cabeça totalmente diferente da minha quando eu tinha a idade dele. Ele fala: “Mãe eu não aguento mais ficar nesse lugar. Eu quero sair daqui”. Quero assim aproveitar que ele também quer, que ele tá com essa determinação com esse foco também, que ele fala: “Mãe eu quero estudar, eu quero viver da música” “Então vamos. Vai viver da música, eu apoio”, apoio muito ele nessa questão. “Então vamos, meu filho!” Esse é meu sonho, de comprar uma casa, da gente sair do morro, da gente ter uma vida melhor, melhor mesmo. E eu to trabalhando pra isso e, se Deus quiser, eu vou conseguir! É isso. 

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