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Esquecer o costume de casa e começar outro totalmente diferente

História de: Jorge Bastos de Lima
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Jorge conta sua trajetória profissional trabalhando em diversas funções em empresas petrolíferas contratadas pela e na própria Petrobras, na qual esteve embarcado nas plataformas, mas também em funções desempenhadas em terra.

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História completa

Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Jorge Bastos de Lima Entrevistado por Larissa Rangel da Silva Macaé, 02 de junho de 2008 Código: MBAC_CB_011 Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva Revisado por Juliane Roberta Santos Moreira P/1 – Qual é o seu nome completo, local e data de nascimento? R – Jorge Bastos de Lima. Nasci em Salvador, Bahia, no ano de 1961. P/1 – E quando você veio de Salvador para o Rio de Janeiro? R - Olha, eu comecei a trabalhar na Bacia de Campos no dia 12 de dezembro de 1980. Eu vim por intermédio de um cunhado meu que já trabalhava aqui, vim para conseguir uma vaga numa empresa contratada pela Petrobras, que era a (Aperrode?). É uma empresa internacional, americana e aqui no Brasil tinha o nome fantasia de Petronar Serviços Marítimos Ltda. Eu comecei a embarcar nessa data na Plataforma SS7, da (Aperrode?), na função de auxiliar de plataforma. Era homem de área na época. Pessoal que ajudava na movimentação de carga da plataforma e fazia a parte de arrumação do convés, essas coisas. P/1 – E como é que foi a sua primeira experiência nesse momento, no comecinho da Petrobras? R - Para mim foi ótimo. Um mundo totalmente diferente do mundo de hoje que nós vivemos. Tinha grandes dificuldades, a gente não tinha essa segurança toda que nós temos hoje. Não existia o SMS [?], a gente trabalhava com americanos na busca de desenvolver a Bacia, procurando óleo, essas coisas todas. Então eu trabalhava também, eram muitas pessoas de várias regiões, de vários países que trabalhavam juntas. Eu não era empregado da Petrobras, era empregado de uma empresa americana e a comunicação era muito difícil na época. A gente não tinha telefone, televisão era só com o gringo. A gente assistia filmes também, não era filme nem legendado. Passavam-se 14 dias ali, era mais bate-papo com os amigos. Não tinha quadra de futebol como tem hoje, sauna, piscina, vôlei, não tinha nada, era trabalho e cama mesmo, dormir. Para falar com a família, só se a gente se comunicasse via Rádio Vitória. Ou então aguardar, quando chegasse em terra, para receber uma carta ou telefonar da terra para casa. Fora disso a gente não tinha comunicação, eram 14 dias isolados mesmo e folgava só 14 dias. P/1 – Mas e esse isolamento junto com os companheiros? Como é essa vivência com essas pessoas de vários estados, pessoas de outro país, falando outra língua? Como é que era essa comunicação entre vocês? R – É um pouco complicado, mas a gente tem que ter... como é que diz? Um certo jogo de cintura, vamos dizer assim. Você tem que se acostumar com o ambiente e aprender a respeitar todo mundo, os costumes de todos. Então cada um tem um vocabulário diferente. O Brasil é rico nisso. A gente sabe que em cada cidade a gente tem um costume diferente e a gente, quando começa a trabalhar embarcado na empresa, você tem que esquecer aqueles seus costumes de casa e começar um outro totalmente diferente. É um respeitando o outro, o espaço do outro. Os banheiros eram coletivos na época. A gente tinha que aguardar e tinha que cuidar também da higiene daquela coisa toda. A alimentação a gente sabia que não era igual em casa, que mamãe bota na mesa, tira. Lá a gente tinha que ir para a rampa, tudo. Então foi um aprendizado. A gente foi aprendendo, né? E eu aprendi muita coisa nessa primeira plataforma que eu trabalhei. P/1 – O que é ir para a rampa? R – É servir a alimentação. É um self-service, né? Mas a gente chama rampa de alimentação. P/1 – Ainda se chama assim ou era só naquela época? R – Ainda chama assim. P/1 – Então ir para a rampa é se servir da comida? R – É, isso, positivo. P/1 – E isso foi o seu primeiro momento na Petrobras? Depois, quer dizer, você fez a sua formação em técnico? R – Positivo. Eu fiz Técnico de Segurança do Trabalho, mas depois que eu estava na Petrobras. P/1 – E como é que foi a sua ida efetiva de contratado para a Petrobras? R - Tá, eu trabalhei na Petronar até 23 de agosto de 1983. Saí porque ela terminou o contrato com a Petrobras, teve que retornar para os Estados Unidos. Nesse período, eu consegui um trabalho lá no Polo Petroquímico de Camaçari, fui para lá. Aí fui trabalhar na área de Caldeiraria e retornei à Macaé. Eu tinha sido convidado para fazer o concurso da Petrobras por cinco vezes. O Doutor Roberto Ramirez, que era superintendente do GPEM, que é o Grupo Executivo de Perfuração Marítima, ele fazia um convite para as pessoas que saíam das contratadas em plataforma de perfuração e completação. E como a Petronar tinha quatro plataformas e que era, para todo efeito, assim, uma escolinha na Bacia de Campos, que os profissionais mais requisitados trabalhavam nessas plataformas, então ele convidava e eu recusei essa vinda cinco vezes. Quando eu saí lá do Pólo Petroquímico, um amigo meu, o Edivaldo Reis... trabalha hoje na Petrobras também. O Edivaldo Reis mandou uma carta para mim dizendo que ia abrir vagas na Petrobras e que eu viesse para poder fazer o concurso. Aí minha mãe não queria que eu deixasse, que eu saísse de casa, nem nada: "Você não vai mais para essa vida, fica por aqui mesmo." Em um dia de sábado eu resolvi sair, minha mãe trabalhando, aí eu deixei um bilhete lá dizendo que eu tinha saído para poder trabalhar, tinha voltado para Macaé. Um amigo meu arrumou dinheiro de passagem para eu vir, tudo. Aí eu apanhei a mochila e vim embora. Cheguei aqui na Petrobras, na Ibitiba, entreguei um currículo. Fiz um currículo, eu entreguei e com 12 dias eu fui chamado para fazer a prova. Fiz a prova e fui aprovado, entrando como auxiliar de plataforma. É engraçado que na Petronar eu entrei como auxiliar de plataforma, fui um plataformista, torrista, cheguei até a assistente de sondador. E aí voltei para a Petrobras como auxiliar de plataforma. Vim trabalhar e entrei na Petrobras. Antes de entrar fui aprovado e aí fiquei aguardando o chamado para poder fazer o admissional. P/2 – E sua mãe ficou muito brava? R - Não, ela teve que concordar, né? Porque como diz aquela música do Zezé de Camargo e Luciano: "O filho cresce, cria asa e quer voar." Ela sabia que eu estava procurando o meu futuro e eu, para não dar o braço a torcer, fiquei sete meses desempregado em Macaé, aguardando a Petrobras me chamar. Com isso eu fiquei num hotel aqui, o Hotel Brasil, fica hoje ali a Casa Baltazar, que funciona ali em baixo. E o seu Antônio era um senhor que ele servia de... ele era dono do hotel e ele acolhia as pessoas que estavam desempregadas, dava vagas para a gente morar. Quando se empregasse a gente acertava as contas com ele. Para não ficar endividado eu, como já conhecia essa parte de culinária, essas coisas, que eu gosto de cozinhar, eu fiz uma proposta para ele de servir o café do pessoal de manhã, fazer o almoço dele, tudo. Dali eu comia, outros desempregados desembarcavam, colegas passavam no hotel, deixavam dinheiro comigo para eu sobreviver. Sempre quando eu entrava em contato com a casa dizia que estava bem, para ninguém saber. E, faltando um mês e pouco, dois meses para a Petrobras me chamar apareceu um serviço. Meu ex-chefe na Petronar, chefe do Departamento Pessoal, conseguiu uma vaga de plataformista para trabalhar em Santos em uma empresa por nome (Kdrill?). E aí eu saí na madrugada, fui para o Rio, me apresentei de manhã cedinho lá, me botaram no helicóptero, me levaram para São Paulo direto para a plataforma. Fui trabalhar na plataforma, trabalhei em um embarque. No segundo embarque, eu trabalhei também, assumi o lugar de um torrista que tinha se machucado. Quando desembarquei, eu fui a Salvador para visitar mamãe, fui para Salvador. E quando eu estou em Salvador, o seu Antônio ligou lá para minha casa, era véspera de São João. São João na Bahia é aquela festança, feriado, todo mundo brinca. E ele falou: "Você vai ter que vir embora porque a Petrobras pediu para você se apresentar no dia primeiro de julho, já com a carteira para a admissão." Eu digo: "Poxa, e agora? O que é que eu faço?" Era 22 de junho e eu tinha que me apresentar dia primeiro de julho e eu estava com a carteira assinada em outra empresa. Aí eu digo: "Vai ser uma maratona." Vim embora para Macaé. Fui ao Rio, pedi demissão da empresa que eu estava trabalhando, a (Kdrill?), e aí quando chega lá o pessoal do Departamento Pessoal: "Não, você não pode fazer isso, você já foi, mandaram te promover, você já vai subir promovido agora, que gostamos muito do seu trabalho. Você vai assumir a parte de torrista na plataforma." Eu disse: "Mas eu não posso, eu tenho agora... é o meu futuro. Eu esperei esse tempo todo a Petrobras." E eu estava com o telegrama da Petrobras. E aí o chefe do Departamento Pessoal falou: "Você vai ter que falar com o superintendente." Era um gringo e eu sem falar inglês, sem nada. Eu digo: "Como é que eu vou falar com ele para explicar, para convencer?" Aí mandaram um intérprete comigo e passamos toda a situação para ele. Ele entendeu e mandou dar baixa na minha carteira e me liberar. Aí eu: "Tudo bem, eu não quero nada, eu só quero a minha liberação." Vim para Petrobras e entrei, fiz toda a contratação no dia primeiro, no dia dois eu fui para Taquipe, na Bahia. Lá em Taquipe... fica lá em São Sebastião do Passe. Passei 21 dias lá em São Sebastião, 21, 23 dias fazendo curso numa coisa toda que eu já sabia, né? Movimentação de carga, mas era um teste que na Petrobras a gente fazia quando entrava, até para ver, um teste para saber se o cara quer aquilo ou não. Era um teste de resistência, vamos dizer assim. Lá era uma sonda de terra onde você ia aprender a trançar cabo de aço, cavar valeta, carregar tubo nas costas, saco, isso, aquilo. Andar em cima de carro para jogar, capinava, jogava aquele lixo fora na cidade. Porque naquela época tinha uma fama, o pessoal que trabalhava na Petrobras, tinha dinheiro e se aparecia. Então a Petrobras tinha esse trabalho de mostrar que o cara tinha que ter pé no chão quando entrasse na empresa e que é uma empresa que tinha várias funções, você podia fazer de tudo. Quando eu voltei para me apresentar aqui na Petrobras, aí tinha um chamado para eu ir lá na (Kdrill?) no Rio. Eu já vim de Salvador direto, o seu Antonio me passou a informação. Eu fiquei e fui lá saber o que estava acontecendo. Quando eu cheguei lá eles tinham liberado toda a minha indenização: o superintendente da empresa mandou me dar uma gratificação por eu ter sido sincero e pedido demissão, aí me deu. E eu de manhã cedinho recebi nesse dia tal, o cheque, de manhã eu vim embora para me apresentar no Parque de Tubos na Petrobras. Cheguei na Petrobras, aí tinha o primeiro contracheque da Petrobras também. Aí eu digo: "Pô..." Nunca tinha visto tanto dinheiro: 23 dias, o mês fechado já de salário e aí eu digo: "Meu Deus do céu." E aí dali mandaram que eu fosse ficar no hotel no Lagos Copa, na época, para aguardar a S-22, que hoje é a P-17, que estava chegando de Angola, para eu embarcar nessa plataforma. E aí eu me vi com tanto dinheiro no bolso, tudo, garoto novo, né? Vinte e poucos anos, e aí eu digo: "Pô, eu vou fazer farra." E aí fui fazer farra, comprar roupa nova. Aquelas coisas todas de garotão e aí uma maravilha. Acertei as contas que eu devia com o seu Antônio, com o pessoal todo. Ele não quis receber o tempo que eu fiquei lá, porque eu fiquei trabalhando praticamente. Mas foi uma pessoa que me ajudou muito na cidade, tenho muita gratidão por ele. Está vivo até hoje, com 70 e poucos anos de idade, mas é uma pessoa maravilhosa. E eu embarquei na P-17, na S-22, que na época a gente chamava Semi Subversivo 22, que era...que hoje é a P-17. E aí quando chega na S-22, eu encontrei uma turma de baianos, que eram os encarregados da plataforma, os fundadores, torrista, tudo. E aí o pessoal: "Pô, você é baiano também? Trabalhou onde?" E eu ali na área, para trabalhar de homem de área. Aí estava escassa a equipe ainda e tinha que fazer umas manutenções nas ferramentas da plataforma, aquelas coisas. Eu digo: "Não, já trabalhei com tudo isso, eu conheço, sei fazer." O pessoal: "Então vamos ajudar a gente." Aí eu comecei a mexer nos equipamentos da plataforma, lubrificar, aquela coisa toda. O pessoal: "Pô, esse cara conhece mesmo tudo”. Mostrando, trançando cabo, fazendo aquela coisa todinha. Daí não deixaram eu trabalhar na área, me levaram para trabalhar na plataforma. Com isso eu passei cinco anos trabalhando em desvio de função como plataformista, como torrista, tudo, e nunca tinha chance de assinar minha carteira, de me promover, classificar, né? Aí trabalhei ali aquele tempo todinho. Quando acabou o GEPEM, porque o GEPEM foi um grupo que era o Grupo Executivo de Perfuração Marítima. Ele cresceu de uma tal forma que ficou maior do que o Distrito, que era o DPSE. Então o DPSE acabou, para não acabar o Distrito eles preferiram acabar com o Grupo. E aí o DPSE encampou o GEPEM e veio assumir as plataformas do GEPEM. Quando eles fizeram isso, aí pegou todo mundo que estava em desvio de função e trouxe o pessoal das sondas moduladas - porque as perfurações dos poços tinham acabado naquelas plataformas, eram só Garoupa, Enchova, Vermelho, Namorado, tudo isso virou só produção. E as SSs que seria o espaço desse pessoal trabalhar. Então aquele pessoal vinha trabalhar... [Pausa] P/1 – Você estava dizendo, quando acabou o GEPEM... R – Quando acabou o GEPEM, aí o pessoal veio e assumiu as vagas que estavam faltando. E aí chegaram. Era eu e um amigo meu que trabalhava daqui, o Geraldo de Souza. A gente trabalhava em desvio de função e voltamos a trabalhar na área. Aí aquilo ali foi um grande desânimo para mim, eu fiquei revoltado, porque eu queria ser promovido, queria ir fazer curso, para receber a promoção, era uma coisa que eu gostava de fazer. Aí eu fui trabalhar na área de novo, vieram aquelas gozações do pessoal: "Puxa saco, viu? Ficou o tempo todo lá em cima, agora voltou". E aquilo me desanimou de uma tal forma que eu não quis mais ficar na plataforma. Eu já estava na Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes], eu sempre me envolvi com essa área de Segurança, não tinha feito o curso ainda. E aí eu comecei a pensar em vir para a terra. Eu tinha um amigo aqui em Macaé, que saiu já da Petrobras, ele pediu demissão, o engenheiro Fábio, trabalhava no Sesema, e aí me indicou para ser o secretário da Cipa. Eu vim para a terra para o setor de Segurança como auxiliar de segurança, e fui ser secretário da Cipa. Quando eu cheguei, eu trabalhava na oficina, aqui a gente tinha a oficina de manutenção dos equipamentos de segurança. Era a gente, empregado da Petrobras mesmo que fazia. Aí o gerente do setor pediu para fazer um teste comigo no Arquivo Técnico. Ele precisava montar o Arquivo Técnico do setor e não tinha ninguém para fazer. Como eu estava como secretário da CIPA peguei essa atividade também para fazer e fui trabalhar. Aquelas normas todas, procedimento, botar tudo, catalogar, essas coisas todinhas. Fui trabalhar naquilo e fiquei em terra trabalhando uns dois anos mais ou menos, quando acabou a Explopelo Sudeste, a gente chamava Explopelo Sudeste, é Exploração, Produção, Perfuração do Sudeste. Que era o RPSE, DPSE, DESUD e SERTEL ____. E veio o Rodolfo Landim que foi o primeiro gerente geral da Bacia de Campos. Esse dia foi engraçado à beça para mim. Eu faltei ao serviço, não, no primeiro dia que ele veio se apresentou para todo mundo, tal, foi aquela solenidade, auditório, aquelas coisas todinhas. Ele saiu visitando a área. No outro dia eu não vim trabalhar de manhã, faltei ao serviço. Uma coisa particular para resolver, não vim. Quando cheguei na oficina aí tinha no quadro: "Jorge Bastos: Ligar para o gerente geral Rodolfo Landim." Eu falei: "Esses caras estão de piada comigo. Como é que o cara chegou ontem aqui, quer falar comigo?" Eu fiquei naquela. Chegando um, chegando outro: "Você já ligou para o gerente? Quer falar com você." "Ligou?" "Não, ligar para quê?" Aí o supervisor chegou da oficina, o Edgar Rangel, falou assim: "Jorge, é para você ligar para a Soraia, que o Rodolfo Landim quer conversar com você." Eu digo: "Estou na rua." Segundo dia que o homem chegou. Disseram que o homem era bravo, era isso e aquilo, me chamou para conversar comigo, eu faltei o serviço de manhã, eu estou na rua, né? Liguei para a Soraia, ela: "Não, Jorge, o Rodolfo está precisando de umas informações, quer conversar com você." Eu digo: "Ó, tudo bem. Qual o horário?" Ela: "Não, pode ser agora?" Eu digo: "Pode". Fui para lá conversar com ele. Me tratou muito bem, e começou a conversar comigo. O assunto era, ele queria saber tudo sobre a Cipa, porque ele já tinha sido cipista, presidente da Cipa em outra área onde ele trabalhou e aqui ele queria dar continuidade, ver quais eram as necessidades da Cipa para a Cipa se manter forte e tudo. Passaram para ele que eu era a pessoa mais indicada, porque eu conhecia a CIPA da Bacia de Campos. Eu já era coordenador, coordenava a Semana Interna de Prevenção de Acidente. Coordenei por oito anos aqui em terra, mesmo embarcado eles me desembarcavam para fazer o trabalho. A gente tinha um grupo que já fazia esse trabalho. Passei a informação toda para ele e ele queria que eu continuasse no trabalho, mas aí eu falei com ele: "Olha, eu acho que eu já contribuí demais para essa parte, eu não queria ficar mais. Eu estou querendo voltar a embarcar, minha função é trabalhar embarcado, eu gosto. Só vim para a terra porque eu estava desgostoso." Contei a história toda para ele. E ele me pediu um prazo para arrumar alguém que eu passasse o serviço da Cipa. E aí foi quando veio o Winston. Aí eu passei todo o trabalho para o Winston e ele me liberou para eu voltar a embarcar. Eu voltei a embarcar na mesma P-17. Fui trabalhar na P-17 novamente, tudo. E quando eu cheguei na P-17 , fiquei lá um tempo, me indicaram para, eu ia fazer o curso de plataformista. Aí fui fazer o curso de plataformista indicado pelo engenheiro Virmondes que era o chefe dos gerentes da P-17. Como tinha o gerente de ativo hoje, né? Fui fazer o curso e fui promovido lá na P-17. Fiquei um tempo e me chamaram para ir para a Produção. Eu digo: "Pô, é um desafio muito grande ir para a Produção. Estava o tempo todo em plataforma de perfuração, completação, e a Produção era o top de linha da Petrobras," P/1 – Seria o maior desafio? R - É, positivo. Um dos desafios. Porque ir para a Produção eu ia pegar um projeto, eu ia para o projeto do Gedep, que era o projeto da P-37. A P-37 é a última estação do Campo de Marlim, é a plataforma que mais produz na Bacia de Campos. Então todo mundo: "Pô, eu não vou entrar nessa plataforma, vai ser muito trabalho. Vai ser isso", muita tecnologia, a plataforma vem toda informatizada e tudo. E para eu ir trabalhar nessa plataforma eu tinha que passar por uns cursos. E aí eu disse: "Não, eu vou aceitar". Fiz a inscrição aqui para ir para lá, e o gerente lá da P-17, o Julio Frigerio, não me liberava por nada: "Não, que é isso, você não pode, não pode, não vou liberar. Não vou." Aí eu digo: "Só tem uma coisa, vou ter que passar por cima do gerente". E aí voltei ao Rodolfo Landim, conversei com ele sobre a situação, ele mandou eu ir para casa, ficar tranqüilo, cumprir minha folga. Quando chegou na véspera do embarque, recebi um telefonema do pessoal da plataforma. Eu digo: "Ah, não vão confirmar meu embarque, eu não vou sair e tal". Aí ele falou: "Não, Jorge, o gerente aqui resolveu te liberar. Você está liberado, pode procurar o pessoal do Gedep". Eu: "Pô, mas o cara procurou e liberou tão fácil assim? Não estou entendendo". Aí... P/2 – Jorge, deixa eu te perguntar uma coisa? Você fala em embarque e tal. Como é um embarque? O pessoal se junta... R – É, o embarque... P/2 – Vai como? Vai de barco... R – Vai de helicóptero. P/2 – ...Vai de helicóptero. R – Já teve várias fases, né? Empregado da Petrobras sempre teve o embarque de helicóptero, mas teve uma época também quando surgiu a Norsul Catamarã, a Petrobras fez um teste por um período com a gente embarcando de lancha. O pessoal da contratada passou um tempo muito grande embarcando de lancha. Mas devido à chegada dos Fpso [Floating Production Storage and Offloading], dos FSOs [Floating Storage and Offloading] e dificuldades de desembarque por causa de balanço e também por muita gente passar mal, sindicato, essas coisas todas, a Petrobras resolveu acabar com a lancha. Porque nunca chegou a um nível que tivesse menos reclamações. Todo mundo reclamava e colocou todo mundo para embarcar de helicóptero. Para o embarque existem grupos: Grupo 1, Grupo 2, Grupo 3, Grupo 4, 5, que fazem 14 dias, e cada dia, sete dias tem uma troca de turno. Então, você está há 14 dias lá, mas você embarca e está há sete, aí embarca outro grupo aqui. Aí você faz mais sete, desembarca aquele grupo que está com sete, embarca outro assim, né? Porque é um turno de dia e outro a noite. Então tem que ter esse revezamento lá. E aquele grupo que embarca junto trabalha no turno junto. Embarca e desembarca. Aquilo é uma família, sempre no mesmo grupo. Então esse é o trabalho. P/2 – Você ainda trabalha embarcado, Jorge? R – Agora eu estou aqui em terra. Aí o que acontece é o seguinte, eu quando vim para a Produção fui fazer o curso de quê? Operador mantenedor. Teve uma época que na Petrobras tirou o operador de produção, ele era instrumentista, mecânico, eletricista e operador. E aí tive que fazer instrumentação, mecânica, tudo, na Escola Técnica Federal de Campos. E eu fui para Campos fazer isso, fiquei lá num hotel, estudando na escola técnica. E era dia, noite, final de semana estudando para você aprender tudinho, aí dividiram os grupos: "Ó, você vai para a Instrumentação, você para a Mecânica, para a Elétrica". E eu peguei a parte de Instrumentação. Mais difícil ainda, porque você tinha que fazer eletrônica digital, eletrônica, uma porção de coisas, PLC [Programmable Logic Controller], automação, tudo. Eu digo: "Gente, a minha cabeça vai fundir". E você no meio ali de cobras, tinha aquela questão de média para você passar, a média era nove. P/2 – Alta, né? R – Altíssima. A cada... P/2 – Você passou? R – Passei. A cada 15 dias... P/1 – Isso foi uma alegria? R – Ótimo, para mim, maravilhoso. A cada 15 dias ia um grupo do Gedep para chegar ali, ver a avaliação da gente e eliminar quem não tinha atingido a média e indicar outro para o lugar. Ia ficando aquela aflição, a gente entrava pela madrugada, estudando, estudando. Quando acabou eles disseram: "Vocês passaram nessa primeira etapa". Eu digo: "Mas ainda é a primeira etapa?" "É, tem a segunda, que é o Módulo de Operação. A Operação e o Módulo de Navio". Aí foram mais dois meses fazendo aqui, estudando com comandantes, uma turma de professores da Petrobras e tudo. Também aquela média alta. E as pessoas sendo tiradas e eu ali passando. Não tinha tempo para a esposa, não tinha tempo para nada. De madrugada estudando em casa, de manhã saía cedinho. E consegui vencer. Quando a unidade chegou, fui, assumi a unidade e tudo mais. E estou até hoje nela. Dez anos, vai fazer 10 anos já na P-37. P/1 – Jorge, e nesses anos todos na Petrobras, conta uma situação assim engraçada que você vivenciou dentro da P-17, algum acontecimento... R - Na P-17 teve várias, né? Na P-17 eu montei botequim [risos], a gente tinha lá uma única maneira de arrumar diversão, era fazer alguma coisa de criatividade. E aí eu inventei o negócio de um botequim, botamos lá, o pessoal colocou lá: "Boteco do Babala." Inventaram um apelido lá de Babala, pra lá, Babala pra cá. Botaram o meu apelido lá: Jorge Babalaô. Porque eu sou baiano, e aí por causa do negócio de muito candomblé na Bahia e tudo, diziam que eu era pai de santo e tal, aquele negócio todo, que eu ia fazer feitiço para um, para outro. Botaram meu apelido lá: Jorge Babalaô. Quando eu inventei o botequim, botaram uma faixa lá: "Boteco do Babala". E aí tinha instrumento de pagode e tal. Toda sexta-feira, 18 horas era sagrado, uma reunião ali no Cantinho do Bicho Zé Coragem, a gente montava os isopores com cervejinha em lata, que era a Kronenbier, sem álcool, refrigerante e fazia o churrasquinho no espeto. Tinha uma churrasqueira que nós confeccionamos de inox. O pessoal pedia cerveja, e tinha umas fichas que a gente comprava como se fosse dinheiro mesmo. As fichas ali para despachar a bebida, e o pagode até 11 horas, meia-noite. Engraçado que o pagode ficava embaixo assim, o pessoal na sonda trabalhando, escutando pagode. E a gente fazendo o pagode ali toda sexta-feira era sagrado aquilo ali. P/1 – E essa parte de diversão, mas teve um momento difícil dentro da plataforma? Você podia dizer apenas um? Teve um momento que... R - Na P-17 eu tive, acho que o momento mais difícil, foi no dia 21, 21 de abril foi na P-17? Não, esse foi na (Aperrode?). Eu esqueci de citar esse fato da (Aperrode?). Na P-17 eu tive dois acidentes. Um acidente eu escorreguei e para não cair no mar me segurei numa válvula, estava fazendo manutenção na válvula no manifold. Eu segurei numa válvula, o meu braço torceu e eu desloquei a clavícula, e torci o braço. Eu passei seis meses afastado, fazendo tratamento, depois eu tive um acidente de esmagamento destes dois dedos meus, trabalhando na torre, por um descuido os tubos imprensaram meus dedos. E eu tive essa parte aqui machucada. Também uma parte mais engraçada foi que eu fiquei pendurado no cinto da mesa, um ____ me tirou de cima da mesa, 27 metros de altura. E eu fiquei pendurado até o pessoal ir lá me resgatar, me retirar da mesa. E aí um sufoco, aquele vácuo todo. P/1 – E o que é para você ser petroleiro? R - Rapaz, olha, ser petroleiro é uma parte muito importante. A Petrobras é a minha vida inteira, né? Eu comecei a trabalhar no petróleo com 19 anos de idade e o que eu construí, a educação dos meus filhos foi daqui da Petrobras. As facilidades que eu tenho hoje, a credibilidade agradeço à Petrobras, uma empresa que foi uma faculdade para mim. Eu, se eu procurei acelerar nos estudos, chegar aonde eu estou hoje, que hoje eu trabalho aqui no controle da produção da P-37... Seria um apoio à unidade que mais produz na Bacia de Campos. E essa parte eu faço aqui de terra. Então eu vejo isso assim, eu entrei limpando o chão na Petrobras, lavando o convés e amarrando carga. E hoje eu estou aqui do lado do gerente trabalhando, totalmente diferente. Na parte de informática, com matemática, controle. Então é uma coisa que para mim foi assim, a empresa foi uma faculdade pelo número de aprendizado que... Foi uma cobrança muito grande, mas eu nunca tive medo dos desafios. Encarei. Então eu respeito muito a Petrobras, gosto muito. Não gosto que falem mal da Petrobras, certo? Porque a Petrobras, de muitas coisas que acontecem, não tem culpa. A culpa é de algumas pessoas que usam do poder para fazer alguma coisa diferente, mas não é o sistema Petrobras. Então a Petrobras merece respeito. P/1 – Jorge, para encerrar, o que você achou? O que você sente em ter participado dessa entrevista, contribuindo com o Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos? R – Bom, eu acho muito importante, né? Fiquei lisonjeado da pessoa ir lá na minha mesa me convidar para participar. Eu já ia, particularmente, participar do trabalho. Agora, é muito importante e eu tenho os meus momentos críticos também. Eu achava que, sempre achei assim que a Petrobras às vezes não dá muito valor para esse tipo de coisa, de estar resgatando esse tipo de memória das pessoas e tudo. O empregado aqui às vezes dá a vida inteira, morre e ninguém lembra mais. Então eu acho que é uma coisa que tinha que ficar registrado. Eu tinha muitas outras coisas para falar de momentos tristes dentro da empresa, mas não sei se é viável, porque é uma coisa que foi muito, marcou muito na minha vida. Não só minha, mas de muitos amigos. Foi uma coisa assim meio, foi na P-37, e foi uma coisa que eu estava no meio do negócio e perdi dois amigos ali. E eu tive que ajudar a fazer o resgate deles e tudo. É uma coisa que ficou marcada até hoje. Então é uma coisa que eu não gosto muito de lembrar porque ficou... Eu tenho amigos que se aposentaram por causa desse acidente, com problema psicológico, outros se afastaram da empresa, outros aposentaram por causa disso. Foi uma coisa que foi uma fatalidade muito grande, assim que a unidade chegou, mas que serviu também para enriquecer o currículo e eu aprender muito mais. P/1 – Obrigada. P/2 – Valeu, obrigada, Jorge. ---FIM DA ENTREVISTA---
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