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Espírito Libertário

História de: Carlos Alberto Torres
Autor: Ana Paula
Publicado em: 18/07/2021

Sinopse

Carlos relata sua mudança do Rio de Janeiro para Brasília e como essa experiência influenciou sua trajetória profissional, de engenheiro a professor universitário. Conta também suas vivências políticas durante a Ditadura Militar, à qual foi opositor, e sua militância em prol da democracia e representação política do Distrito Federal.

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História completa

Memória Compartilhada - A luta pela autonomia política do DF Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Carlos Alberto Torres Entrevistado por Eliete Pereira Brasília, 09 de março de 2009 Entrevista MDF_HV_019 Transcrito por Regina Paula de Souza Revisado por Juliane Roberta Santos Moreira P/1 – Carlos Alberto, boa tarde! R – Boa tarde. P/1 – Obrigada pela sua presença, por estar participando do projeto. Eu gostaria, antes de iniciarmos, que você falasse o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento. R – Meu nome é Carlos Alberto Torres, eu nasci em São Paulo, no dia 16 de julho de 1945. P/1 – Quais os nomes dos seus pais? R – Antonio Lima Torres e Estela Müller Lima Torres. P/1 – Qual era a profissão dos seus pais? R – O meu pai era médico, oficial do exército. A minha mãe era a melhor dona de casa do Brasil [risos]. P/1 – Você tem irmãos, Carlos Alberto? R – Tenho! Eu tenho um irmão mais velho, o Renato Lima Torres, que vive em Curitiba, é casado, tem netos, e uma irmã que vive no Rio de Janeiro. Eu fui criado no Rio de Janeiro, os meus pais eram cariocas. O meu pai, depois de ter dado uma rápida passada por São Paulo - e que eu acho que o seu principal feito foi o meu nascimento lá na cidade de São Paulo-, voltou ao Rio de Janeiro e nunca mais saiu, então eu fui criado no Rio de Janeiro, estudei, fiz universidade. P/1 – Tudo no Rio? R – Tudo no Rio de Janeiro. P/1 – Carlos Alberto, o senhor chegou a conhecer os seus avós? R – Sim! Sim, eu conheci tanto os pais do meu pai quanto os pais da minha mãe. P/1 – Eles eram do Rio de Janeiro? R – Eram todos do Rio de Janeiro. Assim, os pais da minha mãe nasceram em Curitiba, e o meu avô materno era um militar e a minha avó materna era também dona de casa, porém, com uma faceta artística, era pintora, pianista, então, ela tinha uma educação artística que passou pros seus filhos, pros seus netos, esse amor pela arte. P/1 – E você me disse agora que você nasceu em São Paulo, mas você viveu toda a sua infância no Rio de Janeiro? R - Certo, infância e juventude. Na verdade, eu poderia ter nascido em Feira de Santana, eu fui encomendado em Feira de Santana. O meu pai era militar e, com sete meses, a minha mãe com uma barriguinha de sete meses foi pra São Paulo. O meu pai, nesse momento, foi transferido pra lá e eu nasci. Sete meses depois de nascido, meus pais foram pro Rio de Janeiro e ficaram. Evidentemente isso me faz ter um sentimento especial por São Paulo, que é a minha cidade e o meu estado de nascimento, então, durante toda a minha vida eu tentei cultuar essa dupla nacionalidade [risos]. P/1 – Carlos Alberto, como foi a sua infância no Rio de Janeiro? R – Muito agradável. É, o Rio de Janeiro na minha juventude, na minha infância não tinha a violência que tem hoje, eu posso dizer que vim pra Brasília, eu tinha quase 30 anos e jamais tinha sido assaltado, depois, em todos os meus retornos ao Rio de Janeiro também, jamais tive esse tipo de inconveniente. Então, o Rio de Janeiro sempre foi a cidade onde eu tive os meus primeiros amigos, estudei, onde eu gozava, enfim, das coisas boas que o Rio de Janeiro tem; então, é sempre um lugar onde eu gosto de retornar com muito prazer. E ainda tenho familiares. A minha irmã mora no Rio de Janeiro ainda com os filhos e netos. P/1 – Você estudou em qual colégio no Rio de Janeiro? R – Eu estudei sempre em escolas públicas, enfim, uma das escolas onde eu estudei é a escola pública Soares Pereira, eu estudei depois no Colégio Pedro II, já fazendo o curso ginasial e científico. Depois, fiz a escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e lá, também, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, eu fiz o meu mestrado em Engenharia de Produção no Coppe [Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia], sempre dentro do ensino público. P/1 – Quer dizer que você seguiu a carreira da Engenharia? R – Eu fiz Engenharia, mas numa opção que é um misto entre o engenheiro e o economista que é a Engenharia de produção, e vim para Brasília como funcionário da Eletronorte. Então, a minha entrada na Universidade de Brasília como professor em tempo parcial se deu no mesmo ano em que eu vim pra Brasília, em 1975, e agora no Departamento de Administração, no curso de Administração, porque eles precisavam de um professor dedicado a área de produção, administração da produção, e esse tinha sido exatamente o meu empenho, a minha especialização no mestrado quando eu fiz no Rio de janeiro. P/1 – E como surgiu esse convite para você vir a Brasília? R - Eu fazia parte, eu já tinha entrado na Eletronorte [Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A] em 1974, e a Eletronorte foi transferida pra Brasília em 1975. Coincidentemente a Eletronorte tinha sido recém-formada no final, no segundo semestre de 1973, e eu fui um dos primeiros empregados da Eletronorte. Eu entrei na Eletronorte em janeiro de 1974 e fui o empregado 006, isso é uma grande honra pra mim até hoje. Se transformou numa grande empresa de energia elétrica, muito organizada. A sua principal contribuição ao país foi a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, mas tem tantas outras obras, tantas outras contribuições, enfim, ao potencial energético brasileiro, ao desenvolvimento da Amazônia. P/1 – Agora, você se lembra, mais ou menos, qual foi a sensação que você teve quando você se deparou com a situação de mudar-se para Brasília? R - Foi muito interessante. Eu encarei como um desafio agradável, eu era um jovem, era encantado com o projeto da nova capital, eu estava convencido, eu era um dos cariocas convencidos de que Brasília era necessária ao Brasil. Então, eu tinha lido muito sobre Brasília e, em particular, eu tinha lido muito sobre a Universidade de Brasília. Haviam... Todos nós conhecemos o Darcy Ribeiro, que foi um cientista, um antropólogo, um político com uma grande contribuição escrita, e ele escreveu um livro chamado A Universidade Necessária, porque ele foi um dos fundadores da Universidade de Brasília no momento em que ele era ministro da educação, e aquele livro era encantador, porque falava de uma universidade comprometida com a solução dos problemas nacionais, com a solução dos problemas sociais brasileiros. Então, uma universidade que deveria estar engajada socialmente na cidade em que ela estava implantada, na capital do país, mas ao mesmo tempo comprometida com o desenvolvimento do nosso país. Isso falava dos nossos sentimentos, do sentimento da juventude daquela época, e nós, desde 1964, vivíamos numa ditadura militar; então, a Universidade de Brasília, com a sua formação, com os seus sentimentos libertários que atravessaram toda a história da Universidade de Brasília, sempre se apresentavam perante nós estudantes e, particularmente, eu tinha sido um desses estudantes, que tendo entrado na universidade em 1966, participou da Passeata dos Cem mil no Rio de Janeiro, porque eu estava no Rio de Janeiro, não é? E se emocionou com o papel que os estudantes, de uma certa forma atribuíam a si mesmos, de serem uma voz forte, ativa pela democracia no Brasil. É verdade que desse movimento estudantil surgiram organizações, políticos, políticas, inclusive de esquerda, mas também, não de esquerda, dentre esses jovens líderes, né? E esses jovens também estavam aqui na Universidade de Brasília, lutando e dando inclusive a vida, como foi o caso do Honestino Guimarães e outros! P/1 – Carlos Alberto, você está falando que participou da Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro e, na época quando você estava estudando na universidade cursando Engenharia, como era o clima dentro da universidade? Nesse período militar, você participou de alguma atividade política na época? R - Sim! O clima de participação dos estudantes era intenso, ao mesmo tempo que vivíamos numa ditadura. Isso determinou a existência de uma rebeldia, de uma reação, de uma resistência, e essa resistência começava nas salas de aula e ganhava as assembleias e as ruas, nas passeatas, não é? Então, por meio das organizações estudantis e das suas lideranças nós estávamos vivendo um clima que dificilmente deixaria um único estudante, naquele momento, insensível, alguns, naturalmente, eram mais vocacionados pra política. Eu, em particular, senti que tinha que participar disso e me transformei num militante político de esquerda, passei a militar no Partido Comunista Brasileiro e, desde aquela época, eu passei a ser um estudante bastante responsável, mas ao mesmo tempo um militante bastante ativo. P/1 – Compromissado, né? R – Compromissado. Em 1970, dentre tantas prisões, que a partir de 1968 nós tivemos o AI-5 [Ato Institucional N°5], que ocorreu no dia 13 de dezembro de 1968, os estudantes tiveram as suas liberdades muito limitadas, e não só os estudantes, mas os brasileiros, as cassações estavam atingindo políticos e até não políticos, não é? Cidadãos responsáveis ou vozes que não aceitavam o regime militar eram também perseguidas nas universidades, como foi o caso da Universidade de Brasília, em todas as universidades, na USP [Universidade de São Paulo]. Em todas as universidades, nós tivemos professores que também foram perseguidos, né, até levados à aposentadoria e presos também, então, esse era o clima em que nós vivíamos e os estudantes estavam sendo presos. Eu, em 1970...fui preso em agosto de 1970 e fiquei preso até fevereiro de 1971, então, eu fiquei preso seis meses. P/1 – O senhor ficou preso aonde? R – No Rio de Janeiro, numa prisão militar administrada pelo Cenimar [Centro de Informações da Marinha], que era da Marinha. Era uma ilha com um nome até poético chamada Ilha das Flores, Ilha das Flores! P/1 – E nesse tempo todo em que você ficou preso você chegou a sofrer torturas? R - Naquela ocasião havia um padrão de interrogatórios, as pessoas que eram presas sofriam aquele padrão. O meu partido, o Partido Comunista Brasileiro, ele não tinha ingressado nas ações armadas, então as agressões que nós sofríamos não chegaram, eu creio, em algumas barbaridades que aqueles que estavam com armas nas mãos talvez tenham sofrido. Mas eu fui espancado, eu fui...tive a minha... os meus choquezinhos, não é? Mas sobrevivi e tantos outros não sobreviveram. Mas mais adiante... é bom fazer esse registro, porque quando eu fui preso eu até imaginava que apenas os militantes de esquerda, naquela época, que estavam com armas nas mãos, começavam inclusive ações militares de várias naturezas pra arrecadar recursos, e essas ações, algumas delas chegaram a sequestros. Naquela ocasião houve um sequestro de um embaixador americano, o Elbrick, e evidentemente nós vivíamos um clima bastante acirrado. Então, quando eu cheguei na Ilha das Flores encontrei dois membros do Comitê Central do meu partido que tinham sofrido as mesmas torturas. Eu era um estudante, mas, essas pessoas a quem eu me refiro, João Macena e Elson Costa, foram torturados com a mesma barbaridade, embora o Partido Comunista Brasileiro não estivesse na luta armada, não é? Então, nós vivíamos esse clima, esse clima! Evidentemente conversei com o chamado coletivo da prisão, com não apenas esses meus companheiros, mas todos os outros haviam de todas as organizações, do MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de outubro], da AP [Ação Popular], da ALN [Aliança Libertadora Nacional], presos políticos, ali, no Cenimar. Então, nós conversávamos, nós jogávamos a nossa pelada no banho de sol e evidentemente tínhamos a ocasião de trocar ideias, até mesmo nas celas, porque as celas, a partir de um determinado momento, eram celas coletivas, nós conversávamos muito. Então, nós percebemos que a violência se aplicava já naquele momento, em 1970, a todos aqueles que resistiam à ditadura, independente das suas organizações estarem na luta armada ou não, né. Padres foram assassinados, enfim, resistentes da democracia sofreram as consequências. Então esse era, mais ou menos, o clima em que eu diria que fui formado politicamente e isso produziu em mim um compromisso visceral com a democracia. Se me perguntarem, depois de tantas mudanças no pensamento de esquerda, do fim da União Soviética, de todo o processo de reflexão pelo qual passa a esquerda no mundo inteiro, né, quanto aos seus métodos, quanto as suas formas, quanto aos seus compromissos, aos seus projetos econômicos, aos seus projetos sociais... mas eu diria que o que ficou de mais forte, naquela geração de militantes de esquerda, foi o compromisso com a democracia e a vinculação de ideias, até de socialismo com a democracia, não é? Esses jovens são radicais democratas antes de serem qualquer outra coisa, são pessoas que se forjaram na luta pela democracia e eu diria que o que veio depois, a conquista do Estado de direito com a constituinte, com a nova Constituição, foi exatamente a conquista disso que nós chamamos de Estado de direito. Quando fazemos o balanço de tudo que nós tivemos, de tudo que nós conquistamos, nós vemos que muitas coisas nem deram tão certo, porque lutamos pelas Diretas e, na primeira eleição de Diretas elegemos o Collor e tivemos que cassar o Collor, né? Então, a democracia não foi aquele mar de rosas sonhado, mas é melhor viver na liberdade política, onde nós podemos nos organizar, nós podemos nos manifestar, onde nós podemos organizar os nossos partidos. É, essa... P/1 – Carlos Alberto, eu fico agora com uma curiosidade. O seu pai era militar, e como ele via essa sua militância? R – Com desconforto, mas o meu pai, ele já estava na reserva antes de 1964, então ele não foi um militar da ativa durante o regime militar. Isso permitiu, eu acredito, que ao meu pai, vendo o seu filho ser preso e me conhecendo, ele sabia o que tinha formado, tinha em casa uma pessoa que estudava, que tinha bons sentimentos, que queria o bem do Brasil. Os militares formam os seus filhos, isso é muito importante, com um grande amor ao Brasil, com um grande espírito de nacionalidade, isso é um mérito, a formação que os militares dão aos seus filhos. Isso é muito importante, a questão da bandeira, a questão da nacionalidade, então, o meu pai passou isso pra mim, ele sabia que ele tinha um patriota dentro de casa [risos]. Disso ele não tinha dúvida nenhuma, ele conhecia os sentimentos do seu filho, então, a generosidade da nossa luta, a disposição de nos sacrificarmos, isso fez com que talvez, o vínculo mais forte do afeto e do amor, ele tivesse sido extremamente solidário comigo. P/1 – Carlos Alberto, a gente vai voltar agora pra Brasília. Quando você chega em 1975, que você passa no concurso, você fez um concurso pra Eletronorte, na época? R - Não, naquela época, na verdade, era uma seleção. Enquanto eu estava fazendo o mestrado eu fui à Eletrobrás, porque a Eletrobrás estava oferecendo a possibilidade... ela tinha interesse em estudar alguns assuntos e eu soube que a direção da Eletrobrás tinha procurado a direção da Coppe [Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia], que era a pós-graduação em Engenharia, manifestando interesse em dar bolsas pra alunos que fizessem teses vinculadas à temas da Eletronorte, e eu fui, me entusiasmei. A minha formação tinha sido de engenharia, eu gostava dos modelos matemáticos, gosto até hoje, e essa… Aí, me foi feita uma proposta de um modelo que estudasse as consequências de longo prazo, as consequências financeiras dos grandes investimentos que a Eletronorte estava planejando, construindo várias usinas hidrelétricas, várias linhas de transmissão, e isso tudo custava muito, custaria muito e precisava, então, haver um instrumento de cálculo. Não haviam ainda as famosas planilhas eletrônicas do Excel, nem se falava ainda, não é, nem Lotus. Então nós tínhamos que fazer tudo programado, já tínhamos os programas, os computadores chamados mainframes que ocupavam salas imensas, eram os computadores IBM [International Business Machines Corporation], os computadores da Borus, então, nós tínhamos que programar a Fortran, tudo isso, fazer os demonstrativos, os relatórios. Isso que é tão fácil hoje, de fazer numa planilha, né, com os títulos, tudo organizadinho nas tabelas, nas linhas, nas colunas, essas coisas todas, mas antes a gente tinha que programar o próprio relatório, o próprio formato, e então eu aprendi a fazer essas coisas [risos], mas eram muito prazerosas, eu gastava muito tempo com isso, mas me sentindo no melhor dos mundos, não é? P/1 – E isso foi um tema do mestrado que você trabalhou? R – Foi. Então, o título da tese até foi: Modelo de Simulação Aplicada ao Planejamento Financeiro de Longo Prazo de uma Empresa de Energia Elétrica [risos]. P/1 – E isso fez com que você fosse para a Eletronorte, então? R - Exatamente! Então, quando eu terminei essa minha tese, eu fui logo chamado pra Eletronorte, enquanto ela estava recrutando, digamos assim, pessoas. E eu tive a honra de ser um dos primeiros recrutados, até mesmo, porque já tinha passado um ano, o ano em que eu estava elaborando a minha tese pensando na Eletronorte, então foi muito natural essa minha entrada na Eletronorte. (Interrupção da entrevista) P/1 – Bom, Carlos Alberto, você estava comentando sobre o seu ingresso na Eletronorte, que começou com a sua tese de mestrado até você chegar a trabalhar e vir para Brasília. Você já começou como funcionário, como foi isso? R - Eu já fui contratado como engenheiro da Eletronorte, e esse momento inicial da Eletronorte em Brasília foi extremamente interessante, porque nós estávamos com grandes projetos. A Eletronorte foi criada pra fazer grandes projetos de aproveitamento hidrelétrico, de construção de linhas de transmissão e precisaria de muita gente, e logo começou a montar toda a sua estrutura de seleção de pessoal e de todos os tipos de técnicos, e uma das coisas que... Então, o presidente da Eletronorte, naquela ocasião, era um coronel, o Coronel Raul Garcia Llano, que era um engenheiro formado no IME [Instituto Militar de Engenharia], tinha assim, o mérito, um grande mérito, foi uma grande contribuição que ele prestou ao Brasil. Ele tinha coordenado a elaboração de um projeto chamado Eneran, que fez o primeiro levantamento mais completo das bacias hidrelétricas da Amazônia. Então, ele estava imensamente aflito com o estabelecer do corpo de técnicos e funcionários e, num determinado instante eu, tendo recém-completado o mestrado e com uma característica... porque o primeiro dinheirinho que eu ganhei foi dando aula, né, então, apaixonado pela Universidade de Brasília, porque eu lia tudo sobre a Universidade de Brasília. P/1 – Mas você começou a dar aulas no Rio de Janeiro ou aqui em Brasília? R - Eu comecei a dar aula no Rio de Janeiro, como estudante, depois como aluno da Coppe. No mestrado eu passei a dar aula também, porque os alunos que atingiam uma certa média eram chamados na condição de monitores, então, eu fiquei como monitor, eu passei a dar aula nos cursos de Engenharia e, também, da graduação. Muito bem, então, querendo dar aula, porque eu passei a minha vida toda dando aula, e era assim que eu me sustentava, e apaixonado pela Universidade de Brasília, propus ao… Uma vez, eu vi um anuncio no jornal, falando sobre um curso de materiais dado pelo curso de Administração da Universidade de Brasília, e nós precisaríamos ter, montar a nossa equipe de suprimentos de logística na Eletronorte, porque as nossas obras não seriam apenas muitas, mas seriam as maiores do Brasil; então nós tínhamos que constituir um corpo de profissionais. Já tínhamos, nessa ocasião, cerca de 100 funcionários em 1975, e eu, então, vi esse curso de materiais e propus ao presidente da Eletronorte, que passava na minha mesa toda hora, porque éramos uma empresa minúscula, tínhamos 80 funcionários nessa ocasião e eu trabalhava na assessoria da presidência, porque eu fazia exatamente esses estudos econômicos, financeiros, essa coisa assim. Muito bem, ele topou: “Ah, dá uma chegada lá, vê se esse curso aí nos interessa.” Eu fiz o contato com o curso, inscrevemos 20 funcionários e eu fiquei acompanhando o curso, fiquei participando de uma certa forma. E o professor... E aí, vem essa coisa da formação dos administradores, que algum tempo atrás não gostavam muito de matemática ou até quem ia fazer Administração era porque talvez não gostasse muito de matemática, não é? E aí chegavam lá na ocasião e tinha que resolver alguns problemas, que tinha que fazer algumas derivadas, umas integrais [risos] e o professor... é interessante que ele botou os exercícios na lista e ele mesmo estava tendo dificuldade em resolver, aí eu me ofereci pra ajudá-lo. Quando terminou esse curso, ele foi um curso rápido, de dois meses, eu disse: “Olha, eu gostaria de me oferecer eventualmente pra dar aula.” Ele já me conhecia, já tinha me colocado até na condição de auxiliar dele, né, e levei, então, a minha tese, o meu currículo. E foi muito interessante, estamos aí em julho, no início de agosto eu recebo um telefonema dizendo: “Olha, eu acho que juntou a fome com a vontade de comer...”. Você sabe que tinha, logo no início do semestre, falecido um professor que dava uma disciplina e essa disciplina é exatamente uma disciplina que era dada pelo curso de Administração aos estudantes dos cursos de Engenharia, ou seja, tinha que ser um cara bom de número [risos]. Essa disciplina chama-se Administração Industrial, existe até hoje. E foi assim que eu entrei na Universidade de Brasília naquela época e estou lá até hoje. P/1 – Carlos Alberto, eu não te perguntei antes, mas quando você chegou em Brasília qual foi a impressão da cidade? R – Bom, para um carioca Brasília é muito diferente, mas eu gostei, porque a minha filha mais velha estava com um mês, dois anos depois nasceu o meu segundo filho; eu tenho apenas dois filhos, um casal. E então eu era muito jovem e os casais se reuniam sempre nos clubes pra fazer churrasco; não precisava nem ser, naquela ocasião, necessariamente associado a um clube, sempre havia algumas opções, não é, e eu me senti muito bem integrado. Eu estava adorando o meu trabalho, naquela ocasião, eu usava, assim, uma expressão pra descrever como um carioca podia estar gostando tanto de Brasília, eu dizia assim: “A gente é feliz e gosta de estar e de morar no lugar aonde a gente acha que profissionalmente está bem, num lugar aonde a gente acha que a vida está bem organizada, está tranquila, não é? Então, a cidade da nossa escolha, no final, se escolhe a cidade onde se está sendo feliz, não é?” Então, a gente: “Puxa vida, os seres humanos moram nos desertos”, [risos] e certamente se sentem felizes, não é? Então, o ser humano é assim. P/1 – E você, vindo pra Brasília como funcionário da Eletronorte, logo consegue ingressar como professor da Universidade de Brasília, e a militância política? R – Bom, são coisas de jovem, né, eu era, então, um militante do Partido Comunista Brasileiro ao mesmo tempo que comecei, enfim, a ser ao mesmo tempo funcionário da Eletronorte, professor, em tempo parcial, na Universidade de Brasília. Eu dava uma disciplina, comecei a procurar os companheiros em Brasília, e logo descobri que exatamente em 1975, 1974, tinha havido a prisão de toda a direção do partido daqui. O Geraldo Campos era um dos dirigentes do PCB aqui em Brasília, e outros, e então a direção do PCB tinha sido desfeita, e violentamente desfeita, porque eles foram presos, foram muito agredidos, muito maltratados, e nós ficamos procurando. E quem achávamos? Eram alguns estudantes, simpatizantes, foi quando eu encontrei o Davi Emerich, encontrei o Augusto Carvalho, que eram, também, militantes do PCB na Universidade de Brasília, e outros, e nós fomos aglutinando essa turma e daqui a pouco soubemos de todos os fatos. Pedimos autorização pra constituir uma direção provisória do partido aqui em Brasília e botamos a coroa na própria cabeça, nos instituímos como direção do partido [risos]. Claro, botamos a coroa na própria cabeça com autorização e passamos a dirigir o Partido Comunista enquanto essa direção antiga estava presa, até sendo processada, né, foragida. Foi bastante interessante, alguns tinham ido pro exterior, outros estavam presos. P/1 – Carlos Alberto, antes eu vou te perguntar: quando você chegou, em Brasília, você veio morar em que bairro? R - Eu vim morar numa casa, porque a Eletronorte, nessa ocasião, ela ofereceu uma série de vantagens pra que esse corpo de profissionais que veio do Rio de Janeiro - a gente chamava o Núcleo Básico, que éramos cerca de 80 pessoas - viessem pra Brasília. Haviam sido construídas algumas casas pelo Ministério das Minas e Energia, lá na QI [quadra interna] 21 do Lago Sul, até era um… Na verdade, era aquela quadra e o cerrado, depois é que tudo foi crescendo, posteriormente. Houveram, também, algumas construções de blocos ou de apartamentos na 116, na 102, na 402. Então, os funcionários da Eletronorte ficaram ou em casas ou em apartamentos aqui no Plano Piloto. P/1 – Você veio morar em casa, então? R - Em casa, tive a oportunidade de adquirir essa casa. Havia um plano, enfim, que também era estimulante, e eu tive essas coisas, que realmente fizeram com que a vinda pra Brasília fosse estimulada. E força gratificante do ponto de vista profissional também. P/1 – Carlos Alberto, você disse que já estava com um bebê, né, com uma criança já... R – Sim, a minha filha mais velha, a Andréia. P/1 – E você veio, então, com a família. Você já era casado na época? R – Eu já era casado. P/1 – Como foi esse impacto “Brasília” pra sua família, assim, você profissionalmente estava lá... R - É, no início foi difícil, porque nós ficamos, até que se fosse dado o habite-se dessa casa, por quase sete meses, oito meses morando num hotel, foi muito difícil. E aí que toda criança tem problema de saúde, chora, aqueles probleminhas que bebê tem, né, então não foi muito fácil estar num quarto de hotel. Tanto que antes mesmo de receber o habite-se e dada a condição de saúde daquele momento da minha filha, a gente alugou um apartamento na 107, saindo do hotel, porque já não era mais... a gente já não se sentia mais bem, mas tudo isso marcado por esse sentimento de desafio, essas dificuldades de estar longe da família, de estar só eu e a minha mulher com um bebezinho, a gente enfrentava como um desafio. Eu não tenho, dessa época, um sentimento de tristeza, não! É um sentimento agradável, é um sentimento de que valeu a pena, e viver não é fácil pra ninguém, ninguém nasceu com o direito de não sofrer num momento ou em outro. Felizmente a gente também se alegra, a gente também se diverte, a gente também é feliz. P/1 – Com certeza. Carlos Alberto, você disse que... (Interrupção da entrevista) P/1 – Carlos Alberto, agora, você me contando dessas dificuldades iniciais que você teve chegando a Brasília, com um bebê, recém-casado, né? Agora, retomando aquilo que você comentou anteriormente, você buscou um pouco esses companheiros do Partido Comunista, mas além dessa busca de uma militância que já existia no Rio de Janeiro, você teve algum contato com os movimentos sociais em Brasília nesse período? R - Seguramente. Na Universidade de Brasília nós vivíamos sob um reitor, uma administração... todos se lembram do reitor José Carlos Azevedo que era, naquele momento, uma espécie de homem de confiança do regime político. Embora seja sempre bom lembrar, pra não se cometer, não fazer uma análise simplista, o reitor José Carlos Azevedo, ele era formado em Física, ele tinha o PhD em Física do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts]. Até hoje o MIT, que é em Boston, nos Estados Unidos, é considerado um dos centros de excelência na Física, na formação em Física, com muitos prêmios Nobel, etc. Então, ninguém faz um PhD no MIT, de Física, colando, ao que me parece, né. Então ele devia ter os seus méritos acadêmicos, mas ele representava muito bem a figura da mão forte, da mão de ferro do regime autoritário daquele momento, e nós vivíamos sempre sob muita tensão, com perseguições específicas em termos políticos e o sentimento libertário existente na Universidade de Brasília, que jamais se conseguiu apagar. Eu acho que enquanto existir a Universidade de Brasília, esse sentimento continuará existindo dentro da comunidade dos professores, alunos, né, fazia com que nós nos movimentássemos, e nós, os professores - eu já tendo identificado alguns, enfim, alguns simpatizantes do partido -, a gente começou a _______ essas pessoas, mas ao mesmo tempo já conhecendo os meus colegas e já começando a identificar esses democratas, esses militantes da democracia que ao final, quando nós conquistamos o Estado direito e a medida em que as liberdades iam se fazendo, particularmente depois de 1979, os partidos iam se construindo, o PT [Partido dos Trabalhadores], não é? O PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro] era um instrumento da luta pela democracia nesse período e há então um aspecto nessa minha militância, eu fui encontrando as pessoas. Eu vou lhe falar das coisas que eu andei fazendo e eu, num retrospecto só posso ter uma explicação pra você. Eu era um jovem totalmente devotado a essa causa, era muito querido pelos meus estudantes, porque eu era indicado pra ser paraninfo, patrono das minhas turmas, das turmas, logo nos primeiros anos em que eu... Mas ao mesmo tempo eu comecei, junto com esses professores, a organizar a Associação dos Docentes da Universidade de Brasília, que ela chama-se ADUnB. Então nós... eu fiz parte da primeira diretoria da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília. No início nós nos reuníamos até um pouco secretamente, até fora da universidade. Depois, quando esse movimento pela criação da ADUnB foi crescendo, solicitamos ao reitor pra nos ceder uma sala pra que pudéssemos nos reunir. Ele não nos cedeu, então, nos reuníamos fora. Então, num determinado instante, a ADUnB, nesse processo, foi criada, e a sua Assembleia de Constituição foi no auditório da Associação Comercial do Distrito Federal. Eu tive a honra de ser o professor escolhido pra fazer o discurso de apresentação da ADUnB, né? Eu suponho que essa tenha sido uma deferência que os colegas tenham me dado pelo papel que eu estava tendo naquele momento na construção da ADUnB. Essa foi uma diretoria provisória, depois, em seguida, seis meses depois se elegeu uma diretoria definitiva. Eu, pela minha militância... [Interrupção da entrevista] R – Puxa vida, é um acidente, eu até me proporia a voltar numa outra hora. P/1 – Você teria horário, Carlos Alberto? R – Teria, sim, se você quiser marcar um outro horário. [Final da 1ª parte da entrevista] [início da 2ª parte da entrevista] P/1 – Continuação da entrevista de Carlos Alberto Torres, entrevistado por Eliete Pereira e Luiz Egypto, 11 de março de 2009. Bom, Carlos Alberto, vamos continuar a entrevista anterior. Você estava comentando um pouco sobre o contexto da Universidade de Brasília, que você tinha se tornado professor da universidade e sobre aquele momento, também, do contato com outros colegas que estavam se organizando em torno da Associação dos Professores. Eu gostaria que você continuasse, que você comentasse um pouco sobre esse período que você está, também, construindo a Associação dos Professores. R – Foi um momento realmente muito importante pra nós na universidade, porque vivíamos sob... digamos assim, a ditadura e particularmente a Universidade de Brasília, com o seu espírito libertário, com a sua gênese de compromisso com as lutas sociais, com um Brasil mais desenvolvido, com um Brasil mais justo, então, tanto os estudantes quanto os professores viviam esse espírito, tinham esse compromisso. Tínhamos um reitor que representava esse momento de autoritarismo, que era o José Carlos Azevedo, mas era necessário dar voz aos professores naquele momento, superar o clima de medo, e o desejo, então, de termos a nossa entidade, nós não tínhamos o Sindicato dos Professores no Distrito Federal, essa foi uma luta posterior, fez com que quiséssemos fundar a nossa associação. Esse momento, foi um momento muito interessante, porque foi também o momento de auto-reconhecimento daqueles que estavam ali, na resistência, normalmente professores de esquerda, não só de esquerda, mas também comprometidos mais emotivamente e mais militantemente com a luta pela democracia. E fazíamos, então, as nossas reuniões, e no início, até tínhamos que fazer reuniões fora da universidade, de uma certa forma até clandestinas, porque o clima de medo era bastante grande, mas a medida em que o processo foi se desenvolvendo nós fomos adquirindo mais confiança e chegou o momento de querermos realmente fundar a associação. Fomos atrás de uma figura que pudesse ser bastante representativa pra ser o primeiro presidente da nossa associação, e achamos o primeiro aluno formado na Universidade de Brasília, o primeiro a receber um diploma, que foi o Professor Alvim, da Matemática. Ele, então, concordou entusiasticamente, porque ele não fazia parte desse grupo inicial que se articulava, não é? Fundamos a associação com personalidades muito interessantes, o próprio Professor Edimar Bacha, que é um economista muito relevante, até que era do Departamento de Economia. Participaram professores de várias áreas: da Engenharia, da Biblioteconomia, enfim, eu, da Administração, do curso de Administração, eu fui o tesoureiro da entidade [risos]. Essa entidade teve um mandato provisório, como costuma ser o método de criação de entidades, até que pudéssemos num próximo momento, fazer uma assembleia geral, e nessa assembleia geral, então, elegeríamos nossa diretoria definitiva. Eu fui honrado, pelos meus colegas, pra fazer o discurso no momento da assembleia de fundação da ADUnB, que foi no auditório da Associação Comercial. E a ADUnB teve uma história extremamente importante, por ela passaram algumas das figuras mais importantes, ex-reitores como o Todorov, como o...vários outros colegas [risos]. P/1 – Carlos Alberto, como era construir a Associação dos Professores, participar desse movimento de constituição da ADUnB no momento do período militar, vocês sofreram algum tipo de represália, de pressão? R - Sim! Havia muita tensão, os professores temiam a demissão, estavam permanentemente preocupados com a possibilidade do nosso reitor na época, o José Carlos Azevedo, nos perseguir de alguma maneira, mas conseguimos com muitas reuniões, e com um movimento que foi se ampliando e ganhou a consciência dos professores mais ativos da universidade, assim, uma força, uma força grande que permitiu superar esse clima de medo, até que decidimos criar a entidade. Inicialmente, até nos reuníamos fora da universidade em função desses temores, até mesmo porque havíamos na fase que antecedeu a própria criação da entidade, pedido uma sala pra reunir, e essa sala não nos foi cedida. A assembleia de fundação da ADUnB foi na Associação Comercial quando, então, eu tive a honra de ser o orador, naquela ocasião, escolhido pelos meus pares pra apresentar o projeto da ADUnB. P/2 – Qual é a data desse evento? R - Nós estávamos em 1978, 1978! Então era necessário realmente dar um passo à frente, e a entidade teve uma importância muito grande. Logo em seguida houve uma diretoria provisória, essa diretoria provisória era presidida pelo Professor Alvim, que foi o primeiro aluno a se formar na Universidade de Brasília, um matemático. E participava o Edimar Bacha, eu era o tesoureiro e haviam outros colegas também, combativos, de luta. P/1 – Carlos Alberto, e como foi participar do Cebrade? Primeiro, assim, eu gostaria que você dissesse: o que significa o Cebrade? R – Cebrade, o nome é Centro Brasil Democrático. É importante localizarmos esse momento na história política do Distrito Federal. É o antigo Partidão, o PCB, ele tinha tomado a iniciativa de apoiar a criação do Cebrade. O Cebrade tinha como presidente o Oscar Niemeyer, a nível nacional, e aqui em Brasília, e em vários outros estados nós criamos como que sucursais do Centro Brasil Democrático. Participavam, aqui, em Brasília, o Pompeu de Souza, o D’Alembert Jaccoud, o Sigmaringa Seixas, o seu pai, o Antonio Carlos Sigmaringa, pessoas que tinham uma tradição democrática de luta, e centenas de jovens. Eu acho que eu me incluía entre esses jovens que estavam ativamente dispostos a participar de um processo de conquista, de reconquista da democracia. Ali nós conhecemos figuras que começavam a se movimentar em Brasília e que vieram a formar os diversos partidos, não é? O Armando Rollemberg, por exemplo, nós encontramos nesse momento, o Sigmaringa Seixas, eram pessoas...o Augusto de Carvalho, que era um sindicalista, o Davi Emerich, um jornalista, hoje no senado. Então eram figuras...o Hélio Doyle, a Eliane Cantanhêde. Até os jornalistas tinham uma participação bastante importante, o Sindicato dos Jornalistas era um sindicato combativo nessa época. E nós tínhamos uma série de atividades que se vinculavam normalmente aos temas da democracia, não é, a questão da anistia, a questão...enfim, do projeto democrático da Constituinte pelo qual nós lutávamos, a questão da luta pelas Diretas, que sempre foi um tema extremamente importante. E havia um tema particular, que era o tema da luta pela representação política do Distrito Federal. Nós éramos duplamente cassados aqui, nós não tínhamos o direito de voto, então aqui era necessário dar ao povo do Distrito Federal a sua representação. P/1 – Carlos Alberto, como era o contexto de Brasília nessa época? Como você, como professor da Universidade de Brasília, militante do Cebrade e os outros movimentos sociais, como era formado esse universo? R – Era um momento extremamente interessante. Os sindicatos, logo após o golpe militar, tinham sido como que controlados, passados a serem controlados por aquilo que nós chamávamos de diretorias pelegas! Diretorias mais ou menos omissas no movimento social e esse sentimento democrático forte em Brasília foi produzindo uma geração de militantes, sindicalistas, jovens que foram conquistando essas entidades, reconquistando essas entidades! O Sindicato dos Bancários, por exemplo, que tinha estado logo depois do golpe imobilizado, porque era considerado um sindicato importante aqui em Brasília, ele foi reconquistado por um militante de esquerda, que era o Augusto Carvalho, do PCB e uma diretoria ampla. Enfim, jamais voltou às mãos, posteriormente, de diretorias que não fossem comprometidas com os interesses dos trabalhadores. Surgiu o movimento dos vigilantes, do Chico Vigilante. O Hélio Doyle foi presidente do Sindicato dos Jornalistas, é, em todas as áreas nós começamos a produzir uma reconquista dos sindicatos de trabalhadores e esse foi um momento extremamente importante, eu diria que vivíamos uma ebulição. Repressão, prisões? Existiam. É, medo? Existia! Mas havia também aquilo que eu chamaria de audácia da juventude, a missão parece que era mais importante e nada conseguiu conter esse desejo de reorganização, da representação sindical dos trabalhadores e da representação democrática da sociedade, não é? Então, Brasília teve esse momento extremamente importante, e eu diria que, a partir de um determinado momento, eu não me sentia mais amedrontado, eu me sentia mais envolvido num processo extremamente dinâmico na Universidade de Brasília, conquistando uma entidade da qual eu pude ser protagonista, sendo diretor, participando como secretário geral do Cebrade, não é, que teve essa importância posteriormente. E foi dentro do Cebrade que eu, pela primeira vez, comecei a participar junto com um conjunto de pessoas de um núcleo que era dedicado ao tema da representação política do Distrito Federal. P/1 – Que núcleo era esse? R - Era um núcleo da representação política do Cebrade, que era apenas um grupo de pessoas. Nós nos dividíamos, assim, digamos, em temas, núcleos temáticos de discussão, e um dos núcleos temáticos de discussão era exatamente esse tema da representação política, né? Participava, também, o Maerle, que foi um dos que tinham muita presença dentro do Cebrade, e que foi um entusiasta defensor da criação do PMDB, e foi o seu primeiro presidente. Nessa mesma época, se criou o PMDB no Distrito Federal, por uma iniciativa, também, ainda das bases, o PMDB entendido, então, como instrumento da luta pela democracia. Isso é um aspecto importante do PMDB nessa época. P/2 – Qual é o nome do primeiro presidente? R - Maerle Ferreira Lima. Eu fui eleito o primeiro vice-presidente do PMDB, então aí eu já estava, era militante [risos] do movimento docente, do Cebrade, nesse núcleo da representação política e dirigindo, também, o PCB que, nesse momento, ainda se encontrava na clandestinidade. Mas se me perguntarem, às vezes, eu mesmo me pergunto: como a gente tinha tanta disponibilidade e ao mesmo tempo trabalhava? Eu era professor da Universidade de Brasília, era engenheiro da Eletronorte, né. Eu só posso dizer o seguinte: juventude, mas é, assim, um sentimento de missão daquele momento histórico extremamente envolvente que fazia não apenas a mim, mas a tantos outros viverem esse clima. Então a gente se desdobrava e fazia todas essas coisas. Foi quando criamos o Comitê pelo Voto, no Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, que fica no setor comercial sul. Essa reunião foi uma reunião importante, ela teve mais de 100 pessoas, isso também foi em 1978, antes de 1979, que é um ano marcado pelo ano da anistia, quando voltaram do exterior Arraes, Brizola e tantos outros. A direção desses partidos clandestinos que, eventualmente, estavam no exterior quando nós passamos a ter a possibilidade de termos mais nitidez nas nossas propostas políticas. Nesse momento, mesmo os partidos que ainda não tinham conquistado a sua legalização nos partidos de esquerda, mas já se encorajavam em levantar as suas bandeiras nas manifestações, então, isso era bastante importante. Veio a anistia em 1979, e ocorreu a nós do movimento da representação política, e que nos mobilizávamos como? Frequentemente haviam projetos de Emenda Constitucional criando a representação política de um deputado ou outro, então o Comitê pelo Voto como que trabalhava um pouco a existência desses projetos, entrando em contato com os deputados que, eventualmente, apresentariam esses projetos e também na mobilização das pessoas para o dia da votação. Então, nós enchíamos as galerias, e lá na galeria da Câmara dos Deputados frequentemente, naquele momento dos projetos, havia uma pequena bancadinha, assim, ali, depois fizeram uma reforma pra impedir que essa bancada se transformasse numa espécie de palanque [risos]. Nós chegávamos ali e, se eventualmente o projeto não era aprovado, a gente fazia o discurso pra dentro do Plenário, né [risos]? Então, era o clima da época, vivíamos isso. P/1 – E do Comitê pelo Voto quem fazia parte além de você? Você se lembra do nome de outras pessoas? R - Sim. Eu, o Maerle, o Paulo Timm, o Armando, Libério, que era presidente do Sindicato dos Professores e que foi criado posteriormente. Enfim, eu diria que o Comitê pelo Voto, ele era uma vertente da organização da luta pela representação política, vinculado ao movimento social, e havia uma outra vertente importante da luta pela representação política, que era... se dava ali em torno da Associação Comercial do Distrito Federal, que era conduzida pelos empresários. E essas duas vertentes se encontravam harmoniosamente, não havia, digamos, dificuldade de convivência. Eu, particularmente... o Partidão tinha uma política que era a política da frente democrática de alianças amplas e nós praticávamos isso, nós procurávamos a todos os que quisessem e estivessem dispostos a lutar pela democracia de alguma forma, então a Associação Comercial era uma aliada perfeita nessa questão. Foi quando surgiu a proposta, depois da anistia, de fazer um grande ato e isso foi uma proposta, uma decisão do Comitê pelo Voto que nós levamos à Associação Comercial, que era dirigida pelo Lindberg Cury que sempre teve uma posição clara e a favor da representação política, sempre foi um entusiasta dessa luta, né. Então nós levamos essa proposta e eles concordaram em ceder o auditório, até com uma certa relutância, porque o ato seria com a presença de Lula, de Brizola, de Tancredo, enfim, todas as… de Ulysses, né, que concordaram em participar desse ato. E esse ato acabou se transformando em algo mais importante até do que a luta específica que ele tentava conduzir naquele momento, porque essas personalidades estariam ali em apoio à nossa luta pela representação política, mas foi historicamente o primeiro momento que essas personalidades estiveram juntas numa mesma sala, foi pela primeira vez. Imagine, então, Brizola, Lula, Ulysses Guimarães, Tancredo e outras lideranças pela primeira vez numa mesma mesa. Eu tive a honra de presidir esse ato, todas as fotos da época mostram no Comitê pelo Voto, eu conduzindo essa manifestação. O interessante é que logo o auditório da Associação Comercial ficou cheio e as pessoas ficavam lá fora sem poder entrar, porque já estava abarrotado com pessoas sentadas à frente. E então começou a haver uma pressão pra que fossemos lá pra fora e, naquela época, nós tínhamos uma preocupação muito grande com algumas proposições que vinham muito radicais, havia a presença sempre de agitadores, não é, agitadores da polícia, agitadores da polícia mesmo. Logo que essa proposta surgiu, nós tivemos, assim, uma certa preocupação de que pudesse ser a proposta de alguém que quisesse modificar o caráter do ato, transformando num incidente. Mas veja só, embora termos ido lá pra fora... porque o prédio da Associação Comercial, o Edifício Palácio do Comércio, ele tem uma espécie de uma varanda, e pra essa varanda se dirigiram essas personalidades, essas lideranças, e instalamos ali os microfones e começamos a fazer um comício para a praça, que é um estacionamento na verdade que fica ali à frente e que ficou abarrotado. As fotos também mostram esse momento, mas os discursos mal tinham começado e chegou a PM [risos]. P/1 – Chegou a repressão? R – Chegou a repressão e acabou com o ato, não é? Então, de uma certa forma, o ato já estava feito, pelo fato de que essas personalidades já tinham chegado, já tinham sentado à mesa, algumas falações já tinham ocorrido e alguns discursos acabaram ocorrendo na praça. Ulysses falou, Lula falou, Tancredo falou, quando baixou a PM [risos]. Muito bem, então mesmo que, de fato, a hipótese de que aqueles que tão radicalmente, tão enfaticamente exigiram que nós saíssemos do auditório pra irmos pra praça, pudessem ser eventualmente agitadores, isso não prejudicou a eficácia política do ato. O ato acabou sendo eficaz, acabou tendo uma grande repercussão nas páginas dos jornais de todo o país. Isso foi extremamente importante e eu acredito que tenha sido um dos feitos dessa juventude apaixonada, devotada à causa da democracia e, em particular, a conquista da representação política no Distrito Federal. P/2 – Quando ocorreu esse ato? R – Esse ato foi em 1980, foi em 1980! P/2 – Quer dizer, foi ainda uma prévia daquela campanha que começava a se desenvolver no Brasil pelas Diretas? R – Exatamente. P/1 – Carlos Alberto, é isso que me chama a atenção. O Comitê pelo Voto, ele era para a representação política do Distrito Federal ou tinha já essa amplitude nacional? R – Não, era Distrito Federal! O nome era Comitê pelo Voto do Distrito Federal, exatamente. P/1 – Carlos Alberto, como foi, depois desse evento, esse processo de Brasília chegar a ter representação na Câmara Federal tendo eleito deputados e senadores constituintes? R - Aí, passamos pelo processo do Colégio Eleitoral, quando Tancredo foi eleito assumiu o Sarney, logo em seguida houve aquilo que nós chamaríamos a anistia ou, é… a anistia já tinha sido em 1979, me perdoem! Logo em seguida houve a legalização dos partidos de esquerda, dos chamados partidos clandestinos, não é? Isso foi um momento extremamente importante, que é um mérito do Presidente Sarney. A Constituinte foi convocada e em 1983 houve a decisão de, por meio de uma Emenda Constitucional, de criar a representação política no Distrito Federal para deputados federais e para eleger senadores. A primeira eleição do Distrito Federal, então, elegeu três senadores, e essa primeira eleição, isso é importante, foi em 1986, antes da promulgação da Constituição, né? Então, embora tivéssemos ainda uma representação incompleta, comparada às outras unidades da federação, aquilo foi extremamente importante, até mesmo, porque elegemos uma bancada muito significativa. Essa bancada de senadores foi o Senador Maurício Corrêa, o Senador Meira Filho e o Senador Pompeu de Souza, dentre os deputados federais: Geraldo Campos, Maria de Lourdes Abadia, Augusto Carvalho e outros. P/1 – Você chegou a se candidatar, Carlos Alberto? R – É, eu fui candidato, em 1986, ao Senado! Eu obtive 86 mil votos, mas não cheguei à altura dos votos do Pompeu, felizmente! Porque ele foi um maravilhoso senador. P/2 – Essa bancada a ser eleita, ela já começou a trabalhar com coesão em torno de um compromisso de buscar a autonomia política do Distrito Federal, já havia essa preocupação prévia? R – A complementação, porque ainda faltava termos uma Câmara Legislativa e elegermos governador. Então, sem dúvida alguma esses nossos representantes foram ativos batalhadores pela representação política, menos um! Se se quer fazer justiça... P/1 – Qual? R – ...histórica. Márcia Kubitschek! Márcia Kubitschek votava contra a representação política na condição de deputada federal constituinte, nós tínhamos acabado de elegê-la em 1986. P/2 – Como é que se dava a ponte entre o movimento social e essa bancada, isto é, como é que esses movimentos pelo voto, pela representação política se articulavam com o trabalho, ali, de formiguinha dos parlamentares? R - Olha, era uma integração total, porque todos nós éramos muito amigos, muito conhecidos, e nós circulávamos bem e da forma mais descontraída, naquela ocasião, entre os políticos de outros estados. O Ulysses Guimarães nos recebeu tantas vezes...digamos assim, ele foi o grande comandante da luta pela existência da Constituinte, foi considerado o “Senhor Constituinte”, ele teve um papel extraordinário, porque durante a Constituinte foi também presidente do Congresso Nacional, ele era presidente do PMDB e presidente do Congresso Nacional,, mas era uma figura extraordinária e que tinha essa postura de uma amplitude muito grande. Mas esses jovens de quem eu estou falando, hoje são, por exemplo, o Jarbas Vasconcelos, senador, não são mais jovens [risos], não é, mas eram autênticos do PMDB, né? O Arthur Virgílio também era, estava dentre os autênticos, o Lula era um constituinte, então, toda a bancada do PT era absolutamente solidária com essa luta pela representação política, não é? Nós estávamos vivendo um momento em que a receptividade dessa bandeira democrática muito local, nossa, do Distrito Federal, da população do Distrito Federal e que se transformou numa bandeira nacional também ou pelo menos as principais lideranças eram extremamente receptivas, extremamente receptivas! P/1 – E o processo de autonomia política do Distrito Federal que culmina com a Câmara Legislativa, Carlos Alberto, você chegou a participar desse processo que culminou de alguma forma? Você, por exemplo, chegou a se candidatar, não é? R - É, eu tive a honra de ser eleito na primeira legislatura da Câmara Legislativa pra fazer parte do conjunto de 24 deputados distritais. O Pedro Celso foi o mais votado, eu fui o segundo mais votado, eu acredito que essa votação excelente tenha sido em função de todo esse empenho que a gente tinha tido nesse período das lutas democráticas, foi talvez um reconhecimento que eu recebi do eleitor, porque eu jamais fui um sindicalista, né, eu não pertencia a uma associação de moradores, eu era um professor que fazia parte,de movimentos de caráter democrático, digamos assim, mais supra-estruturais, a política da democracia e do projeto da democracia, e eu me sinto bastante assim. E às vezes, as pessoas quando rememoram esse momento: “Mas você não era um comunista, você não era do PCB? O PCB é democrático?” Eu digo então: “A juventude de esquerda, os partidos de esquerda no Brasil não fizeram outra coisa, em toda a sua história, se não lutar pela democracia, e pagando muito caro por isso, né?” [Interrupção da entrevista]. P/2 – Eu queria que você me descrevesse um pouco esse ambiente que você estava relatando, quer dizer, de uma juventude generosa e combativa, de um momento histórico que vocês estavam construindo. Eles não estavam passando ao lado... quer dizer, vocês estavam construindo esse momento histórico num projeto e num foco muito próprio da cidade onde vocês viviam, quer dizer, devia ser uma sensação, assim, inusitada, não é, pra vocês? R - Sim, nós… Eu acho que eu poderia dizer que a gente vivia esse fascínio, não é? Nós tínhamos um sentido de missão, era uma causa, era a causa da nossa juventude, né, então, essa generosidade que é própria da juventude. Eu vi essa mesma generosidade agora na UnB, novamente se manifestando. Às vezes, a generosidade nem sempre se manifesta da forma precisa e correta, mas sobretudo a generosidade, e nós vivíamos esse clima intenso de participação de tantas reuniões. Aquela era a nossa vida e levávamos isso pras cidades-satélites, não éramos militantes apenas do Plano Piloto, porque nós mesmos organizávamos os nossos partidos em todas as cidades-satélites. Quando eu fui eleito, eu tive a honra de ser bem votado em todas as cidades-satélites sem ser um líder comunitário, sem ser um líder sindicalista, que me propiciaria talvez mais contato com os trabalhadores em geral, os assalariados em geral. Eu acho que foi essa presença muito intensa, fazendo comícios em todas as cidades-satélites e não apenas os comícios eleitorais, que foram esses que começaram a acontecer, em 1986 nas campanhas eleitorais e depois em 1990 e assim por diante, mas tudo eram as campanhas em geral, não é? Primeiro de maio nós fazíamos, enfim, comícios de primeiro de maio em todas as cidades-satélites, nesse período mesmo, antes da conquista da representação política. Eram momentos de grande participação, nessas reuniões nós tínhamos muita gente. Na Praça do Relógio, por exemplo, em Taguatinga, esses comícios eram de 500 pessoas, de mil pessoas às vezes, quando mais adiante nós conseguimos mobilizar mais. Então, na Ceilândia, onde hoje é aquela feira da Ceilândia nós fazíamos um palanque lá, e existe até hoje, é um pouco recuado, ali atrás em frente ao chamado Centro Cultural. Nós fazíamos comícios ali, na Ceilândia, que eram comícios extraordinários [risos]. Em Gama, não em Sobradinho, tudo isso antes da primeira eleição, não é? Jovens! Jovens, porque houve uma verdadeira castração e imobilização da geração anterior, a direção, por exemplo, do PCB, ela tinha sido liquidada, a gente diz essa expressão até hoje, eles foram presos, torturados, uns foram pro exterior, aqui em Brasília, né? Então, eu até havia comentado com ela que quando nós começamos a encontrar as pessoas aqui, nós chegamos a um ponto e dissemos: “Ah, temos que organizar o partido.” E éramos, eu era o mais velho, eu tinha 30 anos [risos], os outros eram o Augusto Carvalho, 20 e poucos anos, o Davi Emerich e outros companheiros, que eram essas lideranças do PCB. Eu estou me referindo, especificamente, que nós nos instituímos como direção pra poder ter direção. P/1 – Carlos Alberto, e os processos de discussão da Lei Orgânica do Distrito Federal, como foi esse processo? Chegou a se ter uma discussão com a sociedade? R – Muito, muito intensa, muito intensa mesmo, não é? Eu vou falar do meu trabalho: eu fiquei como relator de um tópico, que foram os tópicos relacionados à economia, orçamento e finanças e eu era apaixonado por isso como professor de administração. Eu levei esse debate praticamente em todas as entidades empresariais, em praticamente todos os sindicatos de trabalhadores, com debates que eu pedia pra que existissem, reuniões bem marcadas. A Fibra, Federação do Comércio, a Associação Comercial, eu estive pessoalmente presente em reuniões pedindo sugestões, e nós tivemos prazos, isso aconteceu nos outros temas também, nos temas relacionados com a urbanização, a questão dos direitos do trabalho, enfim, em todos os temas nós tivemos uma intensa participação. Só pra você ter uma ideia, a bancada do PT na Câmara Legislativa, era uma bancada grande, era uma bancada de seis deputados distritais, então, houve uma intensa participação. Lá estava o Pedro Celso, lá estava a Lúcia Carvalho e outros, o Magela. P/1 – Carlos Alberto, pegando não só esse período que você participou, acompanhou da Câmara Legislativa quando você foi deputado distrital, mas pegando toda essa trajetória da Câmara Legislativa, que mudanças a Câmara Legislativa trouxe para o cidadão brasileiro? R – Eu acho que a Lei Orgânica foi uma contribuição importante, a existência da instituição Câmara Legislativa, é, a existência de uma instituição democrática, essa instituição democrática permite, dá espaço pras demandas populares. Então nós sempre ficamos com uma dúvida quando vemos os defeitos e os vícios das nossas instituições políticas, tantas vezes as pessoas me abordam e me perguntam: “Puxa vida, o que estão fazendo aqueles caras lá, né? O que essa turma da Câmara Legislativa está fazendo?” E evidentemente muitos logo aprenderam a fazer um grande negócio, porque o Distrito Federal foi constituído com o estoque de terras públicas pra que ele pudesse responsavelmente planejar o seu futuro com qualidade de vida, essa coisa toda, mas logo, sob a liderança do Roriz - e eu não posso deixar de dar esse crédito histórico a ele, a liderança irresponsável pro Roriz - se descobriu o negócio das terras no Distrito Federal, se descobriu que essas terras públicas poderiam ser convertidas em terras privadas, e pra que isso pudesse acontecer era necessário que alguma lei fosse aprovada na Câmara Legislativa, e logo alguns, não todos, mas alguns se especializaram em mudar a destinação de terra pública, né, a serviço de interesses particulares e não dos interesses maiores da sociedade. A Câmara Legislativa, sob a liderança de Roriz, ele, de uma certa forma, tem uma certa responsabilidade por essa situação explosiva e de grande dificuldade, agora, do planejamento urbano que nós vivemos, e eles não param de ser criativos, porque ainda existem muitos espaços, quando a gente olha assim. Uma vez, eu estava conversando com um candidato a deputado e que era filho de um empresário da construção civil, ele disse assim: “Carlos Alberto, você está vendo esse verde todo aqui?” Eu lhe disse: “Tô vendo, é uma maravilha, não é? Puxa vida, é um privilégio que nós temos.” “Nós não precisamos de todo esse verde.” E ele não estava brincando, não estava brincando: “Nós não precisamos, nós devemos urbanizar, porque a urbanização acelera a economia, produz empregos, essa coisa toda, obras, construção civil.” Nós vivemos um espaço muito favorável ao que existe de mais, assim, oportunista em temos de especulação imobiliária, eu não vou deixar passar uma oportunidade, eu sou totalmente contra o Noroeste, eu acho que o Distrito Federal não precisa do Noroeste, não precisa do Noroeste! Hoje, nós vivemos uma situação de trânsito e trânsito nós sabemos que é um problema sistêmico, interrompe o trânsito aqui no Eixo Monumental e o problema vai se refletir, lá em Taguatinga, não é, minutos depois, o trânsito é assim. Vamos colocar no enclave de mais 40 mil pessoas, ali, na ponta da Asa Norte e o Distrito Federal vai virar um inferno, depois, no Noroeste, pra quê? É, sabe-se que ali são apartamentos que serão apartamentos caríssimos, um metro quadrado caríssimo, pra quem? Aqueles que poderão comprar esses apartamentos não estão com carência de moradia, eles já estão morando em algum lugar, não é pra resolver o problema de quem não tem casa, de quem precisa de dignidade, de um teto, não é, é pra alimentar a especulação imobiliária, e sem nenhuma responsabilidade com o Distrito Federal. P/1 – Carlos Alberto, como você vê o futuro de Brasília? R - Eu vejo que uma nova consciência, uma nova militância, ela, inevitavelmente, terá que vir, não é? Os jovens - eu estarei torcendo [risos], estarei aplaudindo e participando no que eu puder -, mas os jovens têm que assumir essa bandeira de uma grande responsabilidade com o Distrito Federal, eu não diria exatamente pra salvá-lo, porque a vida sempre está colocando necessidades de luta, mas para dar a ele um rumo mais responsável. Uma era de dirigentes e de políticos altamente responsáveis, desde governadores até os nossos deputados mesmo, que não são mais eleitos pelo critério do seu compromisso com grandes projetos vinculados ao bem comum, mas são eleitos em torno de projetos particulares. Eu acho que é o momento, que a vida política, eu não diria nem só do Distrito Federal, mas a nacional também vive, a gente olha os partidos, já não têm tantas bandeiras sagradas e as pessoas estão em projetos pessoais, e eu acho que alguma coisa tem que acontecer à política no sentido da construção do bem comum. Eu fui formado nesse sentido, achar que a política é algo que vale a pena como instrumento da luta por um mundo melhor, esse aspecto fundamental da política, ele precisa ser restaurado à política dos sonhos, dos bons sentimentos, da generosidade, dos compromissos fortes, não é? Eu não nego que nós tenhamos a nossa individualidade, os nossos egoísmos. Cada um de nós busca, também, a sua própria felicidade, e buscar a sua própria felicidade eu não acredito que precise ser visto numa perspectiva necessariamente que esteja vinculada à infelicidade dos outros, a nossa felicidade tem que estar inserida dentro de um projeto da felicidade, sei lá, hoje, a gente fala em global [risos], não só da nossa cidade, né, não só do nosso país, global. Estamos, aí, com o problema do aquecimento global, então não se pode mais falar nisso, é por isso que eu gostei da campanha do Obama, ele me passou a ideia de sinceridade e eu, então torço pra que realmente seja assim, se me desiludir, não será a primeira vez também, não será a primeira vez! P/2 – Pelo andar da carruagem ele tem feito o que prometeu. R – É [risos]. P/1 – Carlos Alberto, o que você pensa desse projeto de recuperar a história da autonomia política do Distrito Federal? R – É extremamente importante, eu acho que se esses sentimentos positivos dos quais a gente está falando, é, puderem ser trazidos, não apenas como memória, mas como fatores que possam ser fatores positivos, é, na formação da juventude, eu acho que é extremamente importante, e eu, muitas vezes, fico feliz quando um político corrupto é cassado, pra que os jovens de hoje saibam que a política não é o espaço dos corruptos ou dos espertos ou dos egoístas, a política deve ser o espaço da generosidade. Eu fico feliz: “Opa, um se deu mal, né?” Então, isso está educando os meus netos, está educando, é, as crianças, está educando os jovens, isso eu acho que… Talvez, esse momento, que foi um momento, assim, de grande idealismo de generosidade, eu acho que esse momento é muito importante ser trazido pra todos os que hoje estão começando a construir as suas próprias vidas, não é? P/1 – E o que você achou de ter participado dessa entrevista? R - Eu estou agradecido, eu achei muito importante, muito importante. E acho que esse trabalho de vocês pode ter exatamente esse significado, de mostrar um Distrito Federal e uma juventude que, enfim, pessoas que um dia, se hoje estão com cabelos brancos, mas naquela época eram jovens, tinham a audácia da juventude, que eu acho que existe alguma coisa que é extremamente insubstituível, que é essa chamada audácia da juventude e que é fundamental, não é? É necessário ousar. Quando a gente sai de casa, a gente tem algum risco, e pra construir um mundo melhor se tem que achar que vale a pena correr esses riscos por um benefício tão grande. P/1 – Bom, Carlos Alberto, o Instituto Museu da Pessoa, a Fundação Banco do Brasil e a Abravideo agradecem o seu depoimento, obrigada. R – Muito obrigado. ---FIM DA ENTREVISTA---
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