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História

Espiral do Bem

História de: Marco Antonio Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2008

Sinopse

Marco compartilha como o banco onde trabalha está aos poucos se alinhando com a ética do Instituto Ethos. É crítico ao greenwash que muitas empresas utilizam, “pintando de verde” algumas ações para passar a imagem que são ambientalmente responsáveis, mas mantendo um alto impacto ambiental. Acredita que a legislação socioambiental do Brasil é forte, mas possui um controle falho. Defende que temos que criar uma consciências socioambiental nas pessoas ainda na faculdade, e não apenas quando já trabalham ou lideram empresas.

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História completa

P - Bom, vamos começar. Você pode dizer o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R - Marco Antônio Dias. Eu nasci em São Paulo em 5 de maio de 1965.

 

P - Fala pra mim qual que é a sua atividade?

 

R - Hoje atualmente eu desempenho a gestão de uma área de responsabilidade socioambiental, além da minha atividade acadêmica como professor.

 

P - E como é que você conheceu o Instituto Ethos?

 

R - Através das ações, mas indiretamente por ações coletivas com outros institutos. Até eu tinha um relacionamento maior com o Instituto Acatu, que é um parceiro do Instituto Ethos e até porque está voltado mais a uma atividade financeira de crédito e consumo sustentável. Então eu estava mais afeto até às ações do Instituto Acatu, mas o Instituto Ethos está muito próximo hoje das nossas atividades.

 

P - Fala pra mim um pouco das atividades socioambientais desenvolvidas pela sua organização?

 

R - Na verdade o banco, há um ano o banco já vem investindo claramente numa área de governança corporativa onde instituiu alguns departamentos, dentre os quais eu trabalho em um deles, com responsabilidade socioambiental. As ações que o banco desenvolvem é de crédito sustentável, porque o banco tem muitas relações com as agências multilaterais: controle sobre ética, sobre comportamento, sobre responsabilidade empresarial, especificamente com relação ao seu compromisso com a sociedade, o compromisso com a sociedade econômica. E recentemente o banco está desenvolvendo um programa de combate  e erradicação do trabalho escravo e infantil.

 

P - E o senhor acredita que essas ações estão alinhadas com os indicadores do Instituto Ethos?

 

R - Algum tempo o banco já tem um relacionamento, o banco já tem algumas atividades no Projeto Tear, inclusive mais recentemente fizemos parte de uma entrevista prospectiva sobre uma atividade que o banco já está bem maduro, que já tem pelo menos três anos que é o código de ética do banco. Não sou eu exatamente que respondo por esta área, mas o banco tem uma área que está  também debaixo dessa mesma diretoria que é governança corporativa que é a área de prevenção e ___________ de dinheiro e código de ética. E o banco vem aos pouco se alinhando aos tópicos que o Ethos considera como uma empresa socialmente responsável. Evidentemente que o banco tem muito a fazer, o importante é que o banco já iniciou esse processo e vem desenvolvendo ele paulatinamente.

 

P - E como é que o senhor avalia o engajamento das empresas brasileiras relacionadas ao movimento socioambiental?

 

R - Existem aspectos polêmicos aí. Evidentemente por eu estar numa empresa, por eu estar num banco, que evidentemente tem relacionamento com essas empresas, eu me furto, logicamente, a dar nomes. Mas as empresas brasileiras ainda tem muito o que fazer para essa questão ambiental até porque mesmo o Liu (?) Johnson, que é uma das lideranças na área de crédito sustentável AFC (?), o ex-AFC, fala e ele sempre comenta que há um aspecto de greenwash que a gente comenta muito em Princípios do Equador, em ____________. E esse aspecto de greenwash me parece que contaminou também, como em outras empresas do mundo, contaminou as empresas brasileiras. Ainda há um aspecto de greenwash, um aspecto ainda de maquiagem verde e isso tem que ser mais incisivo, as ações têm que ser mais muito mais transparentes. Evidente que toda ação que provoca perda, porque a ação socioambiental, antes de mais nada, é uma ação de escolha. Quando você escolhe, você escolhe também perder alguma coisa. Pelo menos num primeiro momento pra fazer uma troca futura. Quando isso ocorre evidentemente que ele é questionado pela sociedade econômica. Por isso tem que haver um engajamento da sociedade como um todo e não apenas ações isoladas em empresas. Temos empresas que têm ações isoladas e hoje o trabalho de Ethos, o trabalho do Acatu, entre outros institutos de respeito, é justamente trabalhar que a sociedade seja ética, e ética também na questão ambiental. Desculpa me alongar.

 

P - Não, não. Não se preocupe. E como é que você avalia este estágio brasileiro em relação a outros países?

 

R - Eu acho ainda um tanto modesto. Apesar da legislação brasileira ser uma das mais modernas do mundo, a legislação ambiental, nós temos aí uma legislação com mais de 17 anos, ela provoca ainda, eu diria assim, um desrespeito. Porque existe uma questão chamada comando e controle e essas duas ações tem que estar muito bem sintonizadas. Não adianta você ter uma legislação importante se o seu controle está falho. Então, por isso, que cada vez mais, o peso vai para o governo, porque o governo está na função arbitrária, a função de dar o comando. E aí passa todo peso para a sociedade, que ao ver que parte desse comando não está sendo obedecido ele tem que evidentemente fazer um autocontrole. Que é exatamente que o Ethos hoje prega: uma sociedade responsável. Isso passa por um aculturamento da sociedade. Então eu vejo isso uma grande diferença. Na Europa isso já está muito mais maduro, apesar de ter alguns problemas. Existem instituições que fazem acompanhamento de empresas, de bancos, como o Banktrack, por exemplo, acompanha bancos. Existem outras empresas que atuam em outras atividades. Outras ONGs, desculpe, que atuam em outras atividades nesse controle, o chamado controle externo, aquele controle da terceira  parte para que evidentemente ajude a ação governamental local a cumprir aquilo que se exige da lei.

 

P - E como é que o senhor avalia os impactos das ações desenvolvidas pelo Instituto Ethos na sua empresa?



R - Eu já tinha dito a você. Na verdade o Ethos na vida do banco, ele tem uma participação indutiva como primeiro pontapé, a gente pode dizer assim um abre-alas para algumas atividades. Essa atividade ela não é de um ano pra cá. Evidentemente que de um ano pra cá o banco está coordenando uma nova área, estabeleceu uma nova diretoria de governança como eu comentei no início dessa entrevista. Já incorpora outras áreas que conjuntamente representam hoje uma transparência de conduta, uma responsabilidade sócio-empresarial que foi o primeiro passo da empresa. Agora nós estamos num segundo degrau que é a da responsabilidade socioambiental, ou seja, o banco passou por um processo de aculturamento empresarial através do código de ética, através do respeito aos funcionários, a diversidade que é uma coisa muito difundida dentro do banco e agora está inculcando dentro da cultura do banco a questão ambiental. O Ethos, evidentemente, tem um papel fundamental nisso, porque o Ethos foi o nosso primeiro caminho e ele evidente é um parceiro importante. Tanto é que, como eu disse a você, nós estamos tabulando ações para nos juntar aí ao pacto de erradicação contra o trabalho escravo e infantil que nós entendemos que será algo ainda muito grave, uma situação extremamente degradante. É uma realidade triste do Brasil, mas nós representantes, profissionais que atuam no setor temos a obrigação de difundir esse tipo de repúdio e que hoje é condenado pelo pacto contra o trabalho escravo e infantil e é a nossa obrigação.

 

P - E qual que o senhor acredita que seja o maior desafio do Instituto Ethos?

 

R - Eu acho que o maior desafio do Instituto Ethos mesmo como o ___________ falou, como o próprio Ricardo Yang e mesmo o Oded, é exatamente fazer com que esse 1% que ele mencionou no discurso de abertura, esse 1% de comprometimento sobre o faturamento do resultado das companhias que ele seja realmente voltado a ser 100% de atividade dentro da responsabilidade sócio-empresarial. Evidente que tudo passa por uma cadeia. Na verdade,  é uma teia de ações, por isso a gente entende que é um processo lento. E o maior desafio do Instituto Ethos para os próximos dez anos. Como foi aberto esse congresso, eu acho que é na verdade recrutar novas empresas, recrutar novos parceiros, criar uma espiral do bem. Eu chamo isso dentro da nossa empresa como “espiral do bem”. Você só vai fazer ações positivas na sua sociedade se você tiver um núcleo extremamente preparado, mas que ele não seja detentor das idéias e ele faça efeito espiral para que as outras camadas absorvam essas idéias e vá como um efeito catalisador espalhando para as extremidades. Evidentemente que isso vai irradiar uma ação. Então essa é uma das escolhas que eu acho que o Ethos vai ter que fazer. Mais do isso, até eu vou me alongar um pouquinho na minha explicação, eu acho que tem que contaminar o governo, contaminar a gestão pública, porque uma escolha socioambiental, uma escolha do consumo consciente, uma escolha do comportamento consciente da inclusão do cidadão como escolha do seu meio de atividade, do seu meio de subsistência e sobrevivência é uma teoria de escolha pública. Isso é um tema inclusive difundido na academia por James Buchanan. E a Teoria da Escolha Pública tem que ter hoje como pauta principal a responsabilidade socioambiental e eu não consigo ainda ver isso dentro da nossa sociedade. E eu acho que isso é o desafio do Ethos, em convencer o poder decisório através de suas ações  a inculcar uma teoria de escolha pública que inclua a diversidade, que inclua responsabilidade socioambiental e, principalmente, o consumo consciente.

 

P - O senhor mencionou do Instituto Ethos estar completando dez anos. Como é que o senhor acredita que ele deva se posicionar para os próximos dez anos?

 

R - Continuando um pouco essa minha contextualização, evidente que a cada ação que o Instituto dispara em relação aos seus objetivos, às suas metas, ele acaba indiretamente contagiando outras camadas, recrutando novos elementos, novas empresas, novas pessoas, jovens da universidade, que eu acho que  este é o próximo passo do Instituto Ethos. Eu acho que o Ethos, ele tem que reconhecer, eu acho que ele tem que entender que como você faz na sua família. A educação dos seus filhos, ela nasce no berço da família. Não adianta você querer inculcar algumas atividades, alguns comportamentos dos seus filhos na universidade porque já é tarde demais. Ele já conviveu com a família, ele já de alguma forma já absorveu o costume da família, o costume da sua sociedade. Então eu acho que essa semente deve ser plantada na universidade, nas escolas. Então o Ethos, na minha opinião além de ampliar de forma essa espiral, tem que também reconhecer que a universidade, a escola, ela é o seu grande aliado mesmo que o assunto e que o foco sejam empresas. Porque antes de mais nada a empresa é o berço ou é o sustentáculo das famílias.

 

P - E qual que o senhor acredita que seja a maior realização do Instituto Ethos? 

 

R - Eu acho que a inclusão social, por incrível que pareça e apesar de não ser uma bandeira evidentemente muito clara, porque tem outras ações empresariais por trás disso. Como por exemplo, o combate à corrupção, combate à pirataria, entre outras atividade fortes que estão inculcadas no bom comportamento sobre a diversidade, sobre o reconhecimento de que há o trabalho escravo no Brasil. Eu acho que a inclusão social como pano de fundo em tudo isso na verdade é o grande prêmio que o Instituto Ethos está recebendo nesses dez anos. Eu vejo muita gente nova, eu também me considero novo, apesar da minha idade, me considero um jovem, um jovem recruta. Não trabalhando para o Ethos porque o Ethos não quer isso. E é isso que as pessoas precisam entender. O Ethos não quer ninguém trabalhando com o Ethos, quer trabalhando para algo que o Ethos entende ser socialmente responsável, para aquilo que ele entende ser correto. Então o Ethos ele está na função do educador e as empresas como membros que absorvem essa cultura tem que disseminar de forma catalítica, de forma espiral. Então eu entendo que a função das pessoas hoje, a função dos membros que estão hoje convivendo com o Instituto Ethos é exatamente absorver esta idéia, entender que esta idéia, não é uma idéia para nós. Eu venho comentando muito com as pessoas, inclusive com os meus alunos, que os grandes gênios da ciência, os grandes descobridores de vacinas, de inventos, eles são lembrados evidentemente pelo fato. Mas qual é a grande contribuição deles? É a fato em si. Então alguém quando descobrir a cura do HIV, da Aids, ou seja, o combate a Aids, não vai ser lembrado só pelo elemento, porque a ele foi dado a escolha de ser o nome que descobriu, mas qual a grande contribuição deste cidadão? É exatamente a cura. A cura é que vai perpetuar e não o nome que descobriu. É a cura que vai se perpetuar. Então o que o Ethos quer é não se perpetuar como nome. São as suas ações que tem que se perpetuar.

 

P - Tá, ok. Muito obrigada. O Museu da Pessoa agradece bastante o seu depoimento.

 

R - Desculpe se eu me alonguei demais aí.

 

P - Imagine.

 

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