Busca avançada



Criar

História

Espetáculo de luzes

História de: Ney Bonfante Piedade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/05/2016

Sinopse

Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, gravado em 2015, Ney Bonfante Piedade fala sobre a origem dos pais, nascidos no interior de São Paulo, das mudanças de bairro da família e sobre a infância nos bairros de Higienópolis e Paraíso. Ele conta sobre seus estudos no Colégio Claretiano, as brincadeiras de infância e a escolha do time do coração: o Corinthians. Conta como começou a trabalhar na área técnica de teatro, levado por um de seus irmãos. Fala sobre como a iluminação começou a ser usada como um recurso cênico nas peças teatrais e o desenvolvimento desse setor no Brasil. Destaca grandes diretores e atores com quem trabalhou e finaliza o depoimento falando sobre o casamento com a atriz Denise Del Vecchio, os filhos e as netas. 

Tags

História completa

Meu nome é Ney Bonfante Piedade. Eu nasci em Leme, no Estado de São Paulo, no dia 17 de novembro de 1962. Meu pai é Paris Piedade, ele nasceu acho que em Barretos, e minha mãe, Mirian Fregan Bonfante, nasceu em Leme, 2 de dezembro de 1923. Nós éramos seis irmãos. E depois, viemos para São Paulo, onde eles viveram juntos, até se separarem. Mudamos para o bairro Paraiso em 72, quando foi em 74 os meus pais se separaram, eu tinha 11 anos, dez anos… E para ela foi muito difícil, eu fui ter essa consciência muito depois, mas foi muito difícil, porque ela foi criada e educada para o casamento, embora ela tenha feito Unicamp na época da juventude, ela chegou a fazer universidade.

 

O que me marcou foi o primeiro espetáculo de teatro que eu assisti, que eu me lembre, foi um espetáculo chamado “Gospel”, que tinha um ator jovem na época, que era o Antônio Fagundes e eu lembro que foi a minha mãe que me levou para assistir. O “Gospel” é quase um “Jesus Cristo Super Star”, só que em um outro enfoque. Eu estava começando a trabalhar nessa área, na área técnica, mas eu fui assistir porque era no teatro Sérgio Cardoso.

 

Quando eu terminei o ginásio, nós tínhamos um problema que era uma dificuldade para pagar as escolas. Nessa época, ainda tinha um pouco de contato com o meu pai, e ele achava que eu tinha que fazer Contabilidade, o curso técnico numa escola, num colégio, FECAP – Fundação Escola Colégio Armando Alvares Penteado, era ligado a FAAP, mas era um colégio ali na Avenida Liberdade e ele insistiu para que eu fizesse esse curso e eu me matriculei, entrei nesse curso, mas foi um fracasso total.

 

Um desses meus irmãos, o Guilherme, ele foi trabalhar nesse teatro Sérgio Cardoso quando inaugurou, acho que foi em 79, 1978, 79. E não sei se logo que inaugurou, mas enfim, ele foi trabalhar como operador de áudio lá. Eu precisava de um emprego, precisava me sustentar. Então ele me indicou uma pessoa que tinha uma empresa de som, de iluminação chamado Gian Carlo Bortolotti. Eu bati na porta dele um dia e fui me oferecer para trabalhar com tudo o que eu podia oferecer, ou seja, não tinha experiência nenhuma, não sabia fazer nada, não sabia diferenciar um cabo de um parafuso, eu estudava de manhã, não podia trabalhar o período integral, enfim, e não sei porque, ele me aceitou e eu comecei a trabalhar nessa área. Lá, trabalhava com áudio, com som e ele fornecia som, luz, técnicos, operadores. Na época, eu diria que para 80, 90% dos teatros em São Paulo.

 

Se for pensar o teatro como sendo uma arte milenar, a iluminação, eu acho que foi o último dos recursos a serem empregados, porque eu acho que o primeiro, obviamente, foi a acústica, o áudio, o som com as ferramentas que tinham na época, porque na Grécia, você tinha as grandes arenas e você não tinha sistema de som, mas tinha projeção acústica, tinha o espelho d’água no palco para elevar a voz. A iluminação, o teatro passou para dentro de um prédio fechado, século 15, século 16, talvez nas igrejas, um pouco antes, mas a luz elétrica é do início do século 20, então, é muito recente a iluminação. E no Brasil, isso começou a surgir, se dar um pouco mais de importância foi na década de 1940, um pouco antes, já tinham alguns estudiosos que pensavam em iluminação, que não fosse só clarear. A profissão do iluminador foi regulamentada no Brasil em outubro de 1978, quer dizer, é nada, são 30 e poucos anos. Eu comecei a trabalhar nessa área, um ano ou dois depois, quer dizer, profissão… eu tinha que explicar para as pessoas o que era isso, falavam: “O que você faz?” “Eu trabalho com iluminação” “Ah, iluminação?”, só faltavam me chamar para ir na casa trocar resistência do chuveiro, então, era muito difícil e o conhecimento para isso é muito difícil.

 

O projeto de iluminação, na verdade, tem que trabalhar paralelo com o conceito, primeira coisa é o diretor conceber uma ideia, um conceito, ele vai passar isso para o cenógrafo, para o figurinista, a iluminação. É a última coisa a ser realizada, mas não significa que seja a última a ser pensada, ela é realizada porque você não consegue, por mais que você tenha os programas, os softwares para realizar, você vai executá-la só no palco, depois de montada a cenografia, depois do figurino pronto, depois da montagem do espetáculo e o espetáculo estar de pé, a coreografia, se for dança, se for uma cena lírica, se for ópera, se for um espetáculo de teatro as cenas. Então, você acompanha esse processo. Antigamente, tinham processos mais longos, mas hoje em dia, são coisas de 60 dias, você monta um espetáculo, ensaia e estreia em 60 dias. Então, eu vejo assim a iluminação, a não ser que tenha algum recurso, alguma intenção puramente estética, que pode ser também, não nego, mas o importante é ela ajudar a contar a história, então, se é uma história de amor, você cria um clima, uma ambientação, você tem as funções básicas da iluminação, revelar, esculpir, climatizar, selecionar, quer dizer, a cor que você coloca para climatizar uma cena, o que você ilumina para selecionar o olho do público.

 

A dificuldade do uso de energia elétrica em espetáculos está em como utilizá-la de uma forma econômica e racional. Porque a gente está falando de iluminação de um espetáculo! Você imagina na sua casa consumir 400 mil watts de iluminação? Então, no espetáculo, às vezes, você usa até mais. Então, você imagina, poxa vida, qual é o tamanho daquele fiozinho que vai na tomada para alimentar isso? Mas então, a energia elétrica, a dificuldade que se tem de se obter, ela obriga grandes avanços na tecnologia da iluminação cênica. A questão da energia elétrica, além de ser muito importante, ela obriga a indústria do entretenimento, ela obriga as indústrias de iluminação, fabricantes de equipamentos a desenvolverem, buscarem soluções mais econômicas, mais rentáveis.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+