Busca avançada



Criar

História

Esperança em um futuro melhor

História de: Elisabete Freitas dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2013

Sinopse

Em seu depoimento Elisabete narra o cotidiano da família na apanha da castanha e da seringa em Laranjal do Jari. Recorda as dificuldades para estudar e a perda dos filhos gêmeos. Com esperança narra o surgimento da Comaru – Cooperativa Mista dos Produtores do Rio Iratapuru e o trabalho desenvolvido pela cooperativa para a Natura. Termina seu depoimento mostrando-se cética em relação aos benefícios da construção da hidrelétrica na região.

Tags

História completa

Eu nasci no dia 07 de julho de 1962, no Rio Iratapuru, numa colocação chamado Abacate. Colocação é um castanhal. Nasci de parteira. A mamãe na verdade é de Gurupá, mas quando ela veio de lá ela era menina. Gurupá é perto de Macapá. Meu pai era de Gurupá também. Meus avós por parte de pai tirava açaí e madeira, porque eles moravam nessa área de várzea. Eles trabalhavam assim, com madeira, tirando açaí, camarão. Por parte da mamãe moravam aqui, por ela se criou já para cá com eles, para cima do Abacate, em outra colocação. Tinham mais de 40 colocações de gente morando, cada uma família morava em uma. O meu avô morava lá, numa colocação chamada Boa Sorte. Meus pais se conheceram aqui, porque ela veio para cá e ele também. Quando ela era menina, ele veio tirar balata aqui para cima, e castanha, para o Rio Jari.

 

Lá eles se conheceram e se casaram. Meu pai tirava castanha para lá, cortava seringa, balata para cá ele trabalhou pouco no Iratapuru, mas era castanha e seringa. Seringa era borracha e defumava. Fazia a borracha para vender, a gente chamava de bolão, de 50 quilos. De verão era seringa, de inverno era castanha e roça, que plantava cana, banana, macaxeira, arroz, milho, tudo, café. Meu avô fazia até açúcar de cana e fazia mel de cana e tinha muito plantio, mas só era para comer mesmo, porque não tinha como vender, não tinha valor. O que dava dinheiro só era castanha e a seringa, era essas duas coisas. Mamãe fazia a mesma atividade que ele fazia, tirava castanha e cortava seringa também. Quando a gente se entendeu, que a gente já estava grande, a gente ajudava eles. Mamãe teve nove filhos, morreram dois. Eu sou a velha de tudinho. A nossa casa era de palha de ubim. Ubim é uma palmeira, é uma palha. Então, era de ubim e o tecido de paxiúba. Ela era coberta de palha e paxiúba e madeira o assoalho.

 

Tinha um quarto, o corredor grande, uma cozinha bem grande e uma sala bem grande, mas, era um quarto também que tinha. Essas casas onde a gente morava lá para cima eram diferentes dessas que hoje tem aqui. Meu pai ele era católico só que ele não frequentava muito, também não tinha igreja. O padre ia de ano a ano fazer missa lá dentro, vinha de Macapá. Mas a nossa vivência era só trabalhar, porque a gente morava isolado, não tinha mais vizinho perto, a não ser com 20 minutos, meia hora, era assim. A gente trabalhava e de manhã a mamãe fazia era rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, só, não tinha esse negócio de sair para ir para igreja de domingo porque não tinha como. Meu pai saía para trabalhar de manhã, ele merendava de manhã, ia para o meio do mato e só chegava seis horas da tarde. Então, a vivência dele era assim e nós fomos crescendo assim também, porque para lá não tinha escola. Já a mamãe era mais diferente porque a mamãe era mais a roça, mamãe plantava mais e levava a gente para roça quando maior.

 

A nossa brincadeira era pular n’água, principalmente quando é verão. A gente brincava muito na água, as cachoeiras, porque lá, onde a gente morava, quando é de verão, tem lajeiro para todo lado, cada lajeiro bonito. Não tinha escola, a gente nunca estudou. Meu avô nunca estudou, meu pai também nunca estudou porque onde que eles moravam não tinha escola e, eu também nunca estudei. Já eu vim a estudar depois de casada, com os meus filhos já tudo grande. Eu aprendi ler porque um senhor que veio tirar castanha para cá, ele sabia ler e foi ele que ensinou para gente, as primeiras letras. Eu tinha uns dez anos quando eu aprendi, eu sabia ler, não sabia outras coisas, mas ler, escrever eu sabia. Não era bonito, mas eu sabia. A gente não tinha acesso nenhum para escola. Eu tinha vontade, tanto é que eu aprendi rápido. Depois, eu fui aprendendo e depois ele foi embora.


Tinhas uns livros grandes que ele trazia quando ele vinha para cá. Quando eu vim de lá eu tinha quatro filhos, a Elza, o Eudimar, o Edinho e a menina que morreu. Eu me casei e saí da casa dos meus pais com 15 anos. Ele trabalhava em Monte Dourado e saiu da empresa na época do desmatamento aqui, da Jari. Veio tirar castanha para cá, vinha muita gente sempre tirar castanha e já estava quase finalizando o desmatamento. O castanhal era nosso. Na verdade a gente chamava outras pessoas para vir para tirar castanha junto, gente que estava precisando mesmo, que morava no Laranjal do Jari, que nesse tempo Laranjal do Jari só era uma beira, não tinha mesmo a cidade. Eram vários castanheiros que tiravam castanha. Às vezes, iam de parceria um com o outro e dividia o grupo. Na época ele tinha 21 anos.
Que eu lembro era ele e o pai do Régio, um menino que mora na comunidade. A gente se conheceu, eu fiquei noiva. Papai veio para cá e a gente casou. Ele morava aqui, no Laranjal mesmo. Na época da castanha é assim, a pessoa fica colocada lá, vai mais para dentro do castanhal, passa dois, três meses tirando castanha e quando termina é que a pessoa sai de dentro mesmo do castanhal. Porque a gente morava aqui, na frente do castanhal, e tem mais para cima, que a pessoa vai fazer barraco lá dentro dos piques. Ele ia pegar castanha e quando chegava em casa a gente conversava, assim, a mamãe não deixava a gente sair para canto nenhum, nem o papai, porque lá tinha evento de festa, o meu avô festejava São Sebastião e de ano a ano tinha. Quando foi para mim me casar mesmo, vim casar na Cachoeira, o nome do padre era até Frei Ricardo.


Foi um casamento simples. A mamãe mandou fazer um vestido, eu nem lembro qual era a costureira. Fez um vestido branco simples, teve que mandar fazer mesmo, um vestido comprido de manga. A gente foi morar para lá. Aqui nessa vila não tinha ninguém. Tinha o seu Mauro, porque ele veio de lá também primeiro. Aqui só era um baixão, só era mata mesmo, não tinha ninguém. Só era ele, Mauro lá e nós viemos para cá. A gente estava no sítio da mamãe e, viemos morar aqui, nessa localidade, porque no sítio da mamãe pegou fogo. A gente não sabe até hoje o que era que acontecia que pegava fogo. A gente estava lá e do nada pegou fogo, foi de dia. Queimou quase tudo o que nós tínhamos. Roupa, cama.

 

E era só na lamparina também porque não tinha outra energia. Água era do rio. Nós viemos para cá, para boca. Dali, a gente abriu esse aqui, essa capoeira aqui. Fizeram um mutirão até na época, tiraram madeira e fizeram rápido. Só assoalharam e cobriram para nós morar aqui. Capoeira é onde a gente derruba o mato, que nem o pessoal derrubaram aí da empresa. Vira capoeira porque só nasce mato, já não é aquela mata mais, é aquele mato que para aí, para o outro lado, o pessoal chama cerrado, aqui para nós é capoeira. Na época que queimou lá eu já tinha filhos, mas tinha morrido dois, de malária. Estava com sete meses. Na época o pai dele estava para o castanhal e só estava eu.


Eu levei para o hospital e quando chegou lá, o médico disse que não sabia se ia resistir, aplicou soro e, morreu mesmo. Fiquei, mas os médicos não queriam liberar de jeito nenhum para tirar do hospital. Eu assinei um papel, tirei e trouxe para cá e é sepultado onde o pessoal da EDP desmataram. O outro foi lá no Monte Dourado mesmo. Eu tive gêmeos. Um sobreviveu, mas morreu logo que nasceu, era uma menina. O outro morreu depois, quando já estava grande. Foi, três que morreram. Eu tive a Elza, tive Eudimar, tive o Edinho. Do terceiro, é que foi que morreu esses três. Eu tive a Edna, Elziane, a Elen, a Sabrina, o Elias e o Gabriel. Aqui nesse lugar, nessa localidade onde nós estamos agora, veio um pessoal e disse que a gente tinha que formar uma cooperativa, que uma cooperativa aqui era muito bom. Era o pessoal do Braz, de outra comunidade, acima do Laranjal. Cooperativa de castanha, de extrativismo, trabalhar com extrativismo. Ele inteirou com a família dele para lá, a gente não conhecia e pegou o pessoal aqui da comunidade, era bom para todo mundo. Foram fazendo casas, depois dos barracões feitos, vieram para cá, uns vinham aqui e voltavam e foram fazendo casa aqui perto, porque a gente trabalhava com biscoito artesanal. Biscoito, doce de castanha...

 

Era a família do seu Mauro e a família do Arraia, que era o apelido do meu marido. O nome dele era Delbanon, mas o apelido dele era Arraia. Então, duas famílias trabalhavam quase com esse Braz. Depois do Braz, veio à família dele, e depois que começou a pegar financiamento, recurso e aí foi. A cooperativa era uma forma de pegar recurso, que vem de projetos, do Governo, financiamento. E, como a gente vivia assim, nesse isolado, a gente não tinha esse entendimento de nada, nossa produção era muito sem valor, a gente praticamente trocava uma barriga de castanha numa lata de leite, trocava mais era com mercadoria e eles falando que se a gente pegasse dinheiro a gente ganhava mais. Então, foi ajuntando as pessoas para trabalhar. Com os pessoal morando aqui, já tinha como estudar os filhos deles, que era os meus e o dos outros.

 

Primeiro que a escola não era bem uma escola. Minha comadre que dava aula, na casa dela. A diretoria dessa cooperativa, Comaru, era o Mariolando, era Braz, o Arraia, seu Mauro e o Sabá, que conversavam com o pessoal. Eles reuniam aqui o pessoal, dizendo que era bom o projeto e tudo mais. Quem administrava era eles, o recurso. A gente trabalhava. Logo no início não era um ganho fixo nenhum. A gente trabalhava, a gente formou isso aqui, na época eu e meu marido nós tinha muita roça, 16 linha de roça, tinha o motor, tinha uma canoa, era só nós que tinha porque o pessoal não tinha, motorzinho com uma canoazinha já nessa época. A gente não ganhava nada, só era o recurso que vinha para fazer os prédios. Depois, que eles começaram já a pagar diária, esse pessoal do Braz, eles que eram os diretores principais. A pessoa fazia o biscoito e eles pagavam a diária. Eles pegavam castanha, compravam a castanha ou quando não, colocava para beneficiar e pagava a diária, para se beneficiar. Uma parte eles passavam para gente, uma parte eles ficavam para fazer administração.

 

Foi em 1992 que formou essa cooperativa, o ano que ela foi regularizada com estatuto. Depois de três anos, a gente foi começar a ganhar diária, ganhar essas coisas. Aos poucos, veio muito financiamento. Nessa parte que esse pessoal que vieram para cá, fazer cooperativa com a gente, fizeram umas coisas que não foi certo, desviou recurso. Por conta disso aí, a gente tirou, tirou eles a velha diretoria que estava, que era família deles. Isso foi em 2004. Logo que eles foram eleitos teve o incêndio na fábrica. Foi eleito em 2005, o Luís, que é daqui mesmo da comunidade, de lá para cá foi mudando, já teve o contrato da Natura já com óleo, porque, quando foi que reformou a fábrica, já não foi mais o biscoito. A gente trabalha com breu branco. O breu branco é uma resina que dá no pau. Ela dá aquela resina, ela cresce, e vira o breu.


Na época a gente fazia fogo para espantar bicho, calafetar barco e ele era muito cheiroso, era não, é até hoje. A Natura veio e fez essa pesquisa, perguntou para que era, para que a gente usava e a gente falou e eles acharam muito cheiroso e levaram. Eles fizeram um perfume do breu e, depois, que veio o contrato do óleo, do óleo de castanha. Eles pagaram um retorno pelo conhecimento tradicional, para comunidade. Já não foi mais para cooperativa, porque o contrato é com a cooperativa da produção. Eles pegam, passam para Associação, a ela vai administrar, a comunidade se reúne e faz o levantamento, faz aquele projeto desse recurso e ela mesmo faz.


A associação é da Dona Luiza e a Dona Lura. Ela foi criada pela própria comunidade, que achou que tinha a necessidade de formar uma associação para trabalhar na parte social, porque a cooperativa era muito ocupada. Eu sou secretária da Comaru durante quatro anos. Teve eleição agora, em fevereiro de 2013 e me elegeram de novo. E faço parte de uma comissão que é a liderança da comunidade, eleito de novo pela comunidade. Somos um grupo. É eu, o presidente, o conselho fiscal e aí a gente faz a comunicação com a Natura, mas a negociação é aqui. A hidrelétrica é uma transformação assim que eu acho que para nós é uma transformação que até hoje a gente não sabe dizer se é bom ou se é ruim. Para nós no momento não está sendo bom, porque essa beira de rio aqui vai existir para dentro, mas aqui não vai existir. A andiroba, o pracaxi, planta medicinal de remédio como a sucuba, vai ter bem pouco, não vai ter muita comida para os peixes, então vai ter um impacto diretamente.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+